Páginas

domingo, março 11, 2007

Minhas 7 Vidas (I)

Acho que minha memória pode ajudar a desvendar se tenho motivos para pensar que já provei de mais de uma vida. Desde criança que alguns fatos marcaram momentos inesquecíveis e a partir deles é como se houvesse estimulado um clique para que fizesse uma anotação do dia, hora, experiência, que infelizmente deixei por conta dos meus reconditos neurônios então já extintos de minha massa cinzenta de meia idade já passada.
No entanto, parei para recordar da época e coisas que pudessem resgatar as lembranças (que geralmente esqueçemos ao longo da vida) vizinhas aos acontecimentos daqueles fatos e assim fazer certas notas que trouxessem os pontos de minha vida que certamente seriam referência dessas razões que acredito, provarem eu ter renascido umas sete vezes. Como são pontos de flash da remota memória que resta sobre o que aconteceu, não poderei relatar com detalhes o que gostaria, mas vou ordená-los, e daí despertarei a curiosidade que certamente qualquer um deve ter para explicações futuras.
Que me recorde foram:
1. Ao 11 anos recém chegado na cidade do Salvador, tive um desejo de ver a paisagem pela janela do último andar do Edifício Saga, apartamento quarto e sala, onde minha família morava a pouco mais de um ano. Éramos migrantes de Alagoas, estado que deixávamos pela separação de meus pais. Ainda não conhecia o medo normal de subir nas janelas altas, cautela de quem nascia na cidade grande e morava em arranha-céu, assim chamado os edificios altos lá na minha pequena cidade de Maceió.
Subi no peitoril do janelão da área de passagem onde brincávamos as tardes, pois não havia playground no nosso prédio, e aproveitávamos esse espaço para nos juntarmos e observar a Baía de todos os Santos, coisa deslumbrante para um nordestino que descobria a alegria de morar nas alturas. Por um instante parecia um passarinho, vi a cidade e seus arranha-céus com outros olhos de nordestino remediado. Tudo mudou ali, desequilibrei e não fosse as pontinhas de meus dois dedos maiores da mão pequena de menino, sairia (sonhei voando ao som de Soy loco por ti América) planando até as marolas coloridas da praia da Conceição. Após o susto, aí que percebi que tinha que ter medo daquela altura toda, respirei fundo e quis que ninguém vinhesse a saber desse medo que senti.
Essa sensação só perderia sua força após me sentar no chão da área perto da pilastra que dava para o corredor. Passei a respeitar aquela janela que concorria com as nuvens vistas por mim. Acabei me acostumando a altura do peitoril e do arranha-céu.
Algo comparável àquele medo só as minhas caminhadas até a padaria para comprar o pão vara de sal e o de leite, que comíamos todo santo dia e que passei a gostar muito por ser um tipo de pão que não conhecia em minha terra. Curioso em conhecer da nova vida que a cidade oferecia, passaria a conhecer um novo momento, o período histórico da cruel repressão aos trabalhadores e estudantes; o da ditadura militar no Brasil, monstro político, resultante do golpe batizado pela elite política brasileira de "revolução".
O medo de ser confundido com os estudantes que eram perseguidos pela polícia, em plena manhã na Carlos Gomes esquina com a Rua do Cabeça, forçava a esticar minhas passadas para sair da zona do gás lacrimogêneo e da pancadaria, correrias e mordidas de cães pastor alemão. Na minha cabeça aquilo se passava como se fosse um bando de homens maus maltratando pessoas que queriam conquistar algo importante: Liberdade.

Um comentário:

  1. Tenho certeza que você já provou muitas vidas! O renascimento é uma constante em nossa vida. Seus neurônios estão renovados. Permita-se parar e acessará todas as lembranças. Os medos serão inevitáveis em nossa vida, pode ser de janelas altas ou mesmo de mostrar a nossa emoção. Não necessita mais esconder seus medos. Mostrar seus sentimentos o fará ainda mais forte.
    Neila

    ResponderExcluir