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sábado, março 20, 2010

dramas e amores

Um drama, um amor

por Afranio Campos


A verdade é relativa. Cada um se “vende” ou se entrega ao que seja mais conveniente, atrativo, prazeroso, que satisfaça seu “mundo” pessoal, ainda que muitas vezes tenha que aceitar o que não entenda, ou se negar a verdade que está bem à sua frente.

Independente do modo de vida que tenhamos, seja de abundância ou remediado, histórias como a dos Montecchios e Capuletos ou de uma “linda mulher” (Pretty Girl) tem razão de ser em tempos diferentes, tão distantes, mas com comportamentos, vieses culturais e morais que merecem ser questionados, tanto lá como agora. Afinal, os tabus, preconceitos, moralismos, fundamentalismos, cada vez mais vão se dissolvendo em nossa vida pós-moderna, ma non tropo!

Duas histórias de amor, uma, um drama medieval, que por questões de preconceitos (família, costumes, poder etc) acaba em tragédia, outra moderna, no stress dos negócios da metrópole e, por preconceitos contemporâneos, morais, sociais, também quase cai no ralo do drama, mas consegue superar-se com uma simples resposta, quem viu o filme sabe qual. Uma força "poderosa" e diferente nos eleva, é isso que acontece conosco.

Na realidade, é disso que estamos falando, na vera; Quantas “princesas” abandonam seus palácios (superficialidades, interesses materiais) para se entregar a uma vida simples mas completamente apaixonante e rica de experiências, onde e quando os dias se transformam em surpresas, paixão real e transformação? Vale lembrar dos “sapos”, que em certas relações transformam-se em "príncipes" e engolem “diamantes” para se acreditarem amados e acabam suicidas; o "amor inventado" que significa mais uma busca dos egoísmos em transformar-nos em “estranhos” para que acabemos por nos merecer. Frios, calculistas sem futuro. Trata-se do abandono do “amor próprio” na busca de um “amor semelhante”, inexistente, o que em geral acaba também em lugar comum, como mais um drama.

Se sentimos, se sorrimos, se desejamos, se amamos, tudo é possível! "Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar".

A alguns, parece que um pouco de “ódio próprio” se faz necessário para se sentir bem, sejam “princesas” sejam “sapos”. Algo como se não pudessem ser felizes de verdade... em arriscar-se ao desconhecido, e rasgar qualquer sentimento do “medo de amar” um “Montecchio” ou um “Capuleto”. Ainda que algumas vezes a vida desejada se transforme em pesadelo, tudo passa, nosso livre arbítrio, nosso "instinto amoroso" sempre nos levará a uma saída vitoriosa e gratificante, faz parte do nosso show. Podemos ser felizes SIM.

Como Shakespere já contava, "tornamo-nos com o tempo a emblemática dos jovens amantes que são condenados pelo seu amor“. Mas nenhuma busca por ele, seja no tempo (dele) ou mesmo hoje (nosso) deve ser algo definitivo, indolor, sem riscos, para que sejamos felizes, realizados, e continuar livres como aprendizes desse sentimento essencial em nossa evolução; de outro modo nos enveredamos por um amargo “caminho do pessimismo” evitando o lúdico “caminho do amor” indo cair no simulacro da tragédia, essa, sem o sabor da arte shakespereana.


segunda-feira, março 01, 2010

ecodebate (01-03-2010)

Em nome da ‘governabilidade’ matam-se os rios de Salvador

Almacks Luiz Silva

[EcoDebate] Se você for usar um dia para visitar as igrejas (católicas) de Salvador, precisarão exatamente um ano, 365 dias para visitar todas elas. E mais ou menos seria este mesmo ritual para conhecer os pequenos Rios que chegavam à Baia de Todos os Santos, uma das maiores do mundo.

Pelo Plano Nacional de Recursos Hídricos, a Bahia está inserida em duas regiões hidrográficas: a do Atlântico Leste e a do Rio São Francisco. Na década de 90, para fins de gestão dos recursos hídricos, a Bahia tinha apenas 13 regiões, em 2005 foram ampliadas para 17 e agora em 2009 a ex SRH hoje INGÁ – Instituto das Águas e Climas ampliou para 26 RPGAs – Regiões de Planejamento de Gestão das Águas.

Especificamente vamos tratar da RPGA XI, do Recôncavo Norte que é a Bacia Hidrográfica a que a nossa capital pertence. Na primeira gestão do prefeito João Henrique Barradas Carneiro (PMDB), em 2008 quando era aliado do Governador do Estado Jaques Wagner (PT), silenciosamente mataram o Rio dos Seixos que corria normalmente e era conhecido pela maioria dos soteropolitanos apenas como “Canal da Centenário”, em referência à avenida do mesmo nome.

Com a ocupação desordenada do solo e sem a preservação das APPs – Área de Preservação Permanente este canal perdeu a qualidade de rio e passou a ser esgoto a céu aberto, exalando um cheiro fortíssimo de gás de pântano. Como fica em uma das áreas imobiliárias mais caras da Bahia (Bairro da Barra), os “in-gestores” municipal e estadual resolveram fazerem o tamponamento do canal transformando-o em uma área de laser. Jogaram o lixo (efluente) em baixo do tapete e o grande “esgotão” que corria a céu aberto na Avenida Centenário chega ao mar sem tratamento. É mais fácil matar um Rio do que tratá-lo

Esta obra é um dos questionamentos do Ministério Pública da Bahia na 1ª Vara Federal que pede a retirada da cobertura do Rio, e pede medidas para tratamento daquele corpo d’água.

A lei federal de Recursos Hídricos 9.433/97 e a lei estadual 11.612/09, diz claramente que “outros usos que alterem o regime, a quantidade ou a qualidade da água existente em um corpo de água” necessita de Outorga do Órgão Gestor, que na Bahia é fornecida pelo INGÁ – Instituto de Gestão das Águas e Clima (http://www.inga.ba.gov.br/modules/news/article.php?storyid=863), mas como nessa época estes “in-gestores” eram “companheiros” foi uma farra a inauguração do tamponamento do “Canal da Centenário”. Festejaram no mesmo palanque o grave crime ambiental.

Quando é cometido um crime ambiental e não tem punição, principalmente quando une gato e rato para atacar o cozinheiro (meio ambiente), geralmente procuram cometer outro de proporção maior. Mas como digo no título deste artigo, a tal governabilidade ficou mais frágil, aconteceu o rompimento entre o Governador que é do PT e o prefeito que é do PMDB que por sua vez apoia o ministro da Integração Geddel Viera Lima. Para que cada qual um ocupe o seu “quadrado”, como diz uma das “melôs” da Bahia, resolveram fazer também o tamponamento do Canal do Imbui, que é formado pelos seguintes rios: Saboeiro, Rio das Pedras, Cascão e Baixo Pituaçu que tem o seu exultório na Praia dos Artistas, no bairro da Boca do Rio, obra que foi orçada, aprovada e atualmente em fase de conclusão no valor de R$ 57,5 milhão.

Hoje somos testemunhas oculares dos grandes alagamentos na capital paulista, o que é resultado inequívoco deste tipo de obra em mais de 40 canais da cidade. Salvador tem uma especificidade maior quanto ao Canal do Imbui, porque com a canalização, a drenagem muda completamente a hidráulica do Rio e com certeza a cunha salina da Praia dos Artistas poderá influenciar negativamente e interromper o ciclo natural de reprodução de toda equitiofauna daquele berçário natural.

Além do tamponamento dos Canais da Centenário e do Imbui, estão previstos e aprovadas pelos “in-gestores”, verbas para o mesmo procedimento em dois outros canais da cidade: Canal do Vale do Canela orçado em R$ 6,6 milhão e o Canal da Vasco da Gama no valor de R$ 57,3 milhão.

Tecnicamente o Dr. Carlos E. M. Tucci em um de seus artigos sobre drenagem urbana diz que: “O ciclo hidrológico sofre fortes alterações nas áreas urbanas devido, principalmente, à alteração da superfície e a canalização do escoamento, aumento de poluição devido à contaminação do ar, das superfícies urbanas e do material sólido disposto pela população. Esse processo apresenta grave impacto nos países em desenvolvimento, onde a urbanização e as obras de drenagem são realizadas de forma totalmente insustentável, abandonada pelos países desenvolvidos já há trinta anos. A política existente de desenvolvimento e controle dos impactos quantitativos na drenagem se baseia no conceito de escoar a água precipitada o mais rápido possível. Este princípio foi abandonado nos países desenvolvidos no início da década de 1970. A conseqüência imediata dos projetos baseados neste conceito é o aumento das inundações a jusante devido à canalização”, que é o que vem acontecendo no “Bate Facho” (favela a jusante do Imbui), que já sofreu três grandes alagamentos após o início das obras do Canal do Imbui.

Parafraseando o ilustre político baiano Otávio Mangabeira que disse “Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente”, é que citamos o IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas que em 2003, juntamente com a organização não governamental da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (Projeto Manuelzão) elaborou um plano de revitalização para o Rio das Velhas que tem como afluente o Arrudas que corta a capital mineira, no valor de R$ 1,3 bilhão para que, em 10 anos de ação e de educação ambiental, em 2013 se possa pescar no Rio Arrudas.

Quem bom seria que, se em 2008, quando foi alterado o nome do Órgão Gestor da Bahia de SRH – Superintendência de Recursos Hídricos para INGÁ – Instituto de Gestão das Águas e Climas tivessem também teclado um “CTRL C” e em seguida um “CTRL V” nesta idéia revitalizadora do IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas para podermos também pescar nos rios urbanos de Salvador.

Wagner garante: Obra do Imbui não será embargada (clique no link e leia a matéria)

Almacks Luiz Silva é Gestor Ambiental, membro do MPA-BRASIL, presidente do CBH Salitre, membro titular da CTAI – Câmara Técnica de Assuntos Institucionais do CBH São Francisco e membro suplente da CTPLANO – Câmara Técnica de Planos do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, representando a Sociedade Civil.

FONTE: EcoDebate, 01/03/2010