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domingo, junho 14, 2026

Carta a um leitor — II: Sobre o logos, a doxa e a mediação das palavras

Carta a um leitor — II

Sobre o logos, a doxa e a mediação das palavras

Caro amigo,

Alegra-me a sua disposição de estudar mais — mas deixe-me dizer-lhe que o seu recuo é, ele próprio, um avanço. Abandonou a tese forte, segundo a qual tudo seria retórica, e fixou-se numa mais sutil e, em parte, verdadeira: a de que os próprios critérios que invoquei — o auditório universal, a força do melhor argumento — estão influenciados pela retórica; a de que o real é, em grande medida, mediado pelas palavras; e, daí, a de que, em certa medida, o logos se confunde com a doxa. Concedo-lhe muito disto de bom grado — e é justamente na concessão que se verá por que a confusão não é total, e por que o seu próprio modo de a enunciar já a limita.

Comecemos pela concessão, que faço sem reservas, porque o realismo que defendo nunca foi ingênuo. Tem toda a razão: o auditório universal não é um fato que se encontre, mas uma construção — Perelman o diz com todas as letras: cada orador, cada época, edifica à sua imagem o auditório de todos os seres de razão.[1] E a situação ideal de fala de Habermas jamais se realiza: é contrafactual, ficção reguladora. Ambos são, pois, condicionados pela história e pela linguagem; não são a saída limpa para fora do discurso, que você, com razão, suspeita não existir. O hermeneuta sabe-o melhor que ninguém: não há intelecção sem mediação.

Mas note duas coisas, que mudam tudo. A primeira está na sua própria frase. Você escreve que o logos se confunde com a doxa em certa medida. Ora, quem diz medida diz grau, e quem diz grau pressupõe os polos entre os quais se mede. Se o logos fosse pura doxa, não haveria medida alguma a assinalar, e a expressão “em certa medida” perderia o sentido. A confusão parcial que você observa não dissolve a distinção: vive dela. Uma membrana que deixa passar não deixa, por isso, de ser membrana. A segunda: um critério regulador não tem por função ser um fato livre de retórica, mas servir de medida àquilo que a retórica produz.[2] O auditório universal e o melhor argumento operam precisamente quando dizemos que uma plateia se enganou, que um discurso brilhante era falso, que fomos seduzidos quando devíamos ter sido convencidos. Esse dever-ser, irredutível ao “foi persuadido”, é o pé em que nos firmamos. A norma não paira acima da retórica como um astro; habita-a como uma exigência.

A sua observação, porém, merece mais do que defesa: merece que se a leve a sério até ao ponto em que se converte em sabedoria antiga. Pois a relação entre logos e doxa nunca foi, na boa tradição, a de duas caixas estanques, mas a de uma mediação. Para Platão, a doxa não é simplesmente o falso: há a opinião verdadeira, que, diz o Mênon, é como as estátuas de Dédalo — belas, mas fujonas, até que se as ate pelo raciocínio da causa; atadas, fazem-se ciência.[3] O logos não cai do céu: ganha-se da doxa, atando-a. E Aristóteles começa sempre pelas opiniões respeitáveis, os endoxa, e, desfazendo-lhes as aporias, ascende aos princípios.[4] De modo que você tem razão pela metade: o logos confunde-se com a doxa no princípio, sim; mas a vida da inteligência consiste justamente em parti-los, com paciência, dando razões e submetendo-as à prova. A confusão é o ponto de partida, não o veredito.

Quanto ao noûs, que honestamente promete estudar — e fará bem, pois nele está o nó —, guardo-lhe apenas um aceno que talvez lhe poupe um descaminho. O noûs não é um canal que contorne a linguagem, intuição mágica sem palavras; é o intelecto a captar, na experiência e muitas vezes na própria linguagem, aquilo que a linguagem não fabrica.[5] E a prova de que algo trans-retórico ali se apreende você mesmo a forneceu: a tradução é possível, e tradições adversárias convergem. Reparou que Aristóteles, Perelman e Habermas, falando idiomas tão diversos, apontam todos para uma medida acima da persuasão. Se tudo fosse doxa e retórica, tal convergência seria um milagre sem causa; a própria ideia de esquemas de pensamento radicalmente incomunicáveis, como mostrou Davidson, é incoerente, pois interpretar já supõe um mundo partilhado.[6] Três retóricas que apontam para o mesmo ponto denunciam que há um ponto.

E aqui devolvo-lhe a sua melhor frase — “o real é mediado pelas palavras em grande medida” — convertida de objeção em tese. É exatamente o que sustenta a hermenêutica; e ela não é antirrealista. Para Gadamer, a linguagem não é um véu interposto entre nós e o mundo, mas o medium em que o mundo se nos abre: o ser que pode ser compreendido é linguagem.[7] Os nossos preconceitos não são o contrário da compreensão, mas a sua condição — e, contudo, expõem-se à correção da própria coisa, que tem, na conversa, uma autoridade que não vem de nós. A mediação é o modo do acesso, não a sua prisão. Que eu só veja pela janela não faz da paisagem um efeito do vidro; e que o vidro esteja embaçado, sabemo-lo justamente porque a paisagem resiste a deixar-se por ele apagar de todo.

Deixe-me, por fim, uma observação que não é argúcia, mas afeto. Você encerra dizendo que terá de estudar mais. Repare no que essa frase, tão modesta, pressupõe. Se o logos fosse mera doxa, estudar seria apenas trocar uma opinião por outra, sem ganho de verdade — e não haveria por que fazê-lo. Mas você estuda porque espera que o estudo o aproxime daquilo que a coisa é, e não apenas do que mais gente acha. Essa esperança é a distinção entre logos e doxa, viva e a operar no seu próprio propósito. Você afirma com o ato o que hesita em conceder com a teoria — e não há melhor companhia do que essa.

Fica, então, o quadro que me parece justo, e que não é nem o seu temor nem a minha pretensão: não o logos contra a doxa, como duas potências separadas; nem o logos igual à doxa, como quer o ceticismo; mas o logos como a purificação incessante da doxa sob a pressão do real — tarefa que nenhuma geração conclui e que cada uma recebe e transmite. É exatamente isto a continuidade de sentido de que trata o livro; e é por isto que o conservador não se impacienta. Ele sabe que a verdade não se demonstra de uma vez, como um teorema, mas se conquista e se reconquista, opinião a opinião atada, ao longo do tempo. O sofista declara vã a tarefa; o racionalista quer dispensá-la com uma prova; o conservador apenas a continua.

Estude, pois — e que estudo invejável o aguarda. Releia o Mênon e o livro VI da República, sobre a linha dividida; os Tópicos e o início do livro VII da Ética a Nicômaco, pela arte de partir dos endoxa; e a Verdade e método de Gadamer, que fará as pazes entre a sua intuição sobre a mediação e o seu apreço pelo real. Verá que o caminho que o assusta é, afinal, o único que conduz aonde já quer chegar. E quando escrever o seu artigo, mande-mo: terei o gosto de ser, dele, o primeiro leitor atento.

Com amizade,

Afranio Campos — Salvador, 2026


[1]Perelman reconhece que o auditório universal não é um dado que se encontre, mas uma construção: cada orador, e cada época, o constitui à sua imagem, como o conjunto de todos os seres tidos por razoáveis. PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica (1958). A objeção — de que o critério é condicionado pela retórica — está, pois, já admitida pela própria teoria.

[2]Quem argumenta a sério já levanta pretensões de validade que excedem o auditório local: é a estrutura contrafactual que Habermas chamou situação ideal de fala. A norma reguladora não existe fora da retórica como um facto, mas opera dentro dela como exigência. HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo (1983).

[3]PLATÃO, Mênon, 97e–98a: a opinião verdadeira é como as estátuas de Dédalo, que fogem se não forem atadas; atada pelo “raciocínio da causa” (aitías logismós), torna-se ciência (epistéme). Cf. República, V, 476–480, sobre a doxa como potência intermédia entre o saber e a ignorância.

[4]ARISTÓTELES, Tópicos, I, 1, e Ética a Nicômaco, VII, 1, 1145b: o método de partir dos endoxa — as opiniões respeitáveis — e, resolvendo as aporias, ascender aos princípios. O logos trabalha a partir da doxa, não à sua revelia.

[5]ARISTÓTELES, Segundos Analíticos, II, 19: dos particulares percebidos, pela indução (epagogé), eleva-se ao universal captado pelo noûs — não fora da experiência, mas através dela. O noûs não dispensa a mediação: capta nela o que ela não fabrica.

[6]DAVIDSON, Donald. On the Very Idea of a Conceptual Scheme (1974): a noção de esquemas conceituais radicalmente incomensuráveis é incoerente, pois toda interpretação pressupõe um mundo e uma racionalidade partilhados. A convergência entre Aristóteles, Perelman e Habermas é sintoma disso.

[7]GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método (1960): “o ser que pode ser compreendido é linguagem”. A linguagem não é véu, mas medium da abertura ao mundo; e a coisa mesma (die Sache) conserva, no diálogo, uma autoridade que corrige os nossos preconceitos.

Um comentário:

  1. Muita coisa ainda por estudar! O nous, interpreto-o como o Sistema 1, intuitivo, de Kahneman. O Logos teria semelhança com o sistema 2, analítico. Mas há muitas, infinitas outras distinções a fazer.

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