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segunda-feira, janeiro 24, 2011

um poeta popular no "cordel da vez" - I

A mulher que deu tabaco na presença do marido
Autor: Gonçalo Ferreira da Silva

Quem perde o tempo no mundo 
Só com conversa fiada 
Bota falta em todo mundo,  
Não nota virtude em nada 
Se acaso engolisse a língua 
Morreria envenenada.
Às vezes contam estória 
Que nem sequer faz sentido 
Que no dia de São Nunca 
Talvez tenha acontecido 
Da mulher que deu tabaco 
Na presença do marido.
Dona Juca era dotada 
De perfumado sovaco,  
E quem ferisse uma perna 
Numa queda ou num buraco 
Ela curava a ferida 
Com o seu próprio tabaco.
Quando ela via uma 
Desventurada pessoa 
Horrivelmente gripada 
Soltando espirros à toa 
Dava o tabaco e aquela 
Enferma ficava boa.
Seu marido Mororó 
Dizia: - Você me insulta, 
Quanto mais dá seu tabaco 
Mais a multidão se avulta 
Assim, ou para com isso 
Ou eu vou cobrar consulta.
Mas Dona Juca dizia:  
- Essa bobagem não faça,  
Quando eu tenho algumas pratas 
Você bebe de cachaça 
Cobre pelo seu trabalho 
Meu tabaco eu dou de graça.
Pau da vida, Mororó 
Respondeu: - Aqui ninguém 
Vai mais pedir seu tabaco 
Pois pra mim não pega bem 
Quem pedir o seu tabaco 
Você diga que não tem.
Porém como aquilo tinha 
Que acontecer um dia 
Quanto mais passava o tempo 
Mais a multidão crescia 
Procurando a Dona Juca 
Em magistral romaria.
Pra mostrar que Dona Juca 
Tinha mesmo grande prova 
Basta dizer que uma velha 
Já com os dois pés na cova 
Foi visitar Dona Juca 
Pra pedir pra ficar nova.
Dizia a velha aos presentes 
- Não pensem que sou maluca 
sou velha porém não tenho 
qualquer problema na cuca 
tenho fé no milagroso 
tabaco da Dona Juca.
E disse mais a velhinha: 
-Todo mundo tem fé nela 
não há esse que não queira 
ao menos sonhar com ela 
pedir pra sentir o cheiro 
que tem o tabaco dela.
Conselhos de medicina 
Da nossa grande nação 
Pediram que o governo 
Procedesse intervenção 
De Juca o curandeirismo 
A pronta proibição.
A população local 
Lançou logo um manifesto 
E contra a proibição 
Uma nota de protesto 
Achando que o conselheiro 
Devia ser mais modesto.
A imprensa curiosa 
Rádio, TVs e Jornais, 
Volantes de reportagens, 
As emissoras locais 
Mandaram à casa de Juca 
Os seus profissionais.
Muitas pessoas movidas 
Por humanos sentimentos 
Na casa de Dona Juca 
Armaram acampamentos 
Assistindo a cobertura 
De tais acontecimentos.
E os poetas distantes 
Da vigilância do rapa 
Faziam suas propagandas 
Enquanto bebiam garapa 
Exibindo seus folhetos 
Com Dono Juca na capa.
Numa bengala escorado 
Um doente entrou na sala 
Quando cheirou o tabaco 
Readquiriu a fala 
Pra provar que ficou bom 
Rebolou fora a bengala.
Contente da vida, ele 
Por ter salvo a sua vida 
Graças ao santo tabaco 
Da Dona Juca querida 
E esta era por todos 
Sinceramente aplaudida.
Nunca a fama de um vivente 
Depressa se espalhou tanto 
Nos quatro cantos do mundo 
O seu nome em cada canto 
Desfrutava do respeito 
Do mais milagroso santo.
Quando nem a medicina 
Dava esperança sequer 
Ao enfermo, ele inda tinha 
Uma fezinha qualquer 
No tabaco milagroso 
Daquela santa mulher.
E a própria natureza 
Como que para testar 
O poder que possuia 
O tabaco de curar 
Fez aparecer doenças 
Muito estranhas no lugar.
Por exemplo na cabeça 
Dum sujeito ainda moço 
Apareceu certo dia 
Uma espécie de caroço 
Um par de colossais chifres 
Um mais fino, outro mais grosso.
O rapaz, secretamente, 
Foi ao lar de Dona Juca 
E disse: - Um dia eu senti 
Na testa uma dor maluca 
Depois nasceu esses troços 
No alto da minha cuca.
Dona Juca disse: - O meu 
Tabaco pode curar 
Porém a sua mulher 
Terá que colaborar 
Pois do jeito que ela faz 
Nem adianta tentar.
Este negócio de chifre 
Não é um costume novo 
Eu esfrego meu tabaco, 
Ela pede fumo ao povo, 
Eu sei que existe a chuva 
Porém eu mesmo não chovo.
O rapaz chegando em casa 
Disse pra Conceição:  
-O milagroso tabaco 
me tira desta aflição
no entanto é necessário 
sua colaboração.
Conceição disse assustada:  
-Colaborar? Como assim? 
Não dê mais o seu tabaco 
Não seja assim tão ruim... 
É você dando o tabaco 
E nascendo chifre em mim.
Aí Conceição cortou 
Os males pelas raízes 
E o pobre rapaz dos chifres 
Também superou as crises 
Viveram oitenta anos 
Extremamente felizes.
Dona Juca recebeu 
Parabéns do Doutor Zeca 
Que fizera experiência 
Com sua própria cueca 
E não conseguiu nascer 
Cabelo em sua careca.
Passando a careca 
No tabaco prodigioso 
Ficou cabeludo e Zeca 
Se tornou em fervoroso 
Romeiro de Santa Juca 
Do tabaco milagroso.
Fonte: Academia Brasileira de Literatura de Cordel

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