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quarta-feira, outubro 19, 2011

"o mesmo paradigma vigente no momento de deflagração da grande crise global"

Nobel reafirma paradigma econômico pré-crise
por Fernando Dantas
O prêmio Nobel de Economia para Thomas Sargent, da Universidade de Nova York, e Christopher Sims, de Princeton, reacendeu a discussão sobre as culpas e responsabilidades pela crise econômica global. Em relação especificamente a Sargent, alguns comentaristas estranharam que o Sveriges Riksbank, o banco central sueco, que decide a premiação do Nobel de Economia, tenha selecionado um acadêmico ligado à teoria das expectativas racionais.
As expectativas racionais e a hipótese dos mercados eficientes são, para alguns observadores, o estofo intelectual da desregulamentação financeira que teria levado à crise. Neste caso em particular, o papel das expectativas racionais é mais indireto. Porém, não há dúvida de que a teoria está ligada à ideologia contrária à intervenção governamental que prevaleceu nos anos 80 e 90.
Num extremo desse tipo de crítica, o jornalista Olaf Storbeck, do jornal alemão Handelsblatt, escreveu que “o prêmio (Nobel de 2011) vai para teorias que corretamente são apontadas como culpadas por pavimentar o caminho para a maior crise financeira e econômica desde a Grande Depressão”. Storbeck termina o seu artigo, que foi intensamente criticado por muitos leitores, de forma bombástica. Para ele, o Nobel de 2011 é o equivalente “a prestar homenagem ao engenheiro que projetou o Titanic depois que o navio afundou”.
Exageros à parte, essa é uma discussão importante. Em defesa dos critérios do Riksbank, está o fato de que, na sua comunicação sobre a decisão, o BC sueco deixou claro que a pesquisa dos dois agraciados que motivou a premiação não foi teórica, mas sim relacionada a metodologias estatísticas que eles separadamente desenvolveram. Essas técnicas permitem, inclusive, testar a validade empírica de conclusões da teoria das expectativas racionais.
Aliás, ninguém menos do que o prêmio Nobel Paul Krugman – talvez o mais célebre defensor hoje das ideias keynesianas e crítico da ala mais conservadora dos economistas americanos – apoiou elegantemente o Nobel para Sargent e Sims.
Em seu blog, Krugman escreveu que “esse é um prêmio para técnicas estatísticas”, e notou que o trabalho dos dois permitiu que se extraíssem insights sobre a realidade a partir de séries históricas de dados. Anteriormente, segundo o blogueiro do New York Times, “a econometria consistia em grande parte em estimar modelos nos quais você não tinha nenhuma boa razão para acreditar (…)”.
De qualquer forma, no caso de Sargent, pelo menos, trata-se de um economista que assumiu posições conservadoras no acalorado debate que se seguiu à grande crise global. Em 2009, perguntado sobre o programa de estímulo fiscal do presidente Barack Obama, Sargent respondeu que “os cálculos que eu vi em apoio ao pacote de estímulo são do tipo feito no verso de um envelope e ignoram o que nós aprendemos nos últimos 60 anos de pesquisa macroeconômica”.
Mas há uma dimensão mais profunda e técnica no debate econômico pós-crise, ligado ao uso dos modelos matemáticos. Nesse nível de profundidade, um artigo muito interessante foi escrito em 2009 por Willem Buiter, atual economista-chefe do Citigroup. Ele diz resumidamente que tanto os neoclássicos, corrente mais conservadora, quanto os neokeynesianos, que adaptaram os modelos matemáticos surgidos em função da pesquisa dos primeiros, foram tolhidos na sua capacidade de compreender a economia de uma forma mais ampla por causa deste tipo de técnica.
Simplificadamente, a crítica de Buiter é de que os modelos são tão distantes da realidade que mais atrapalham do que ajudam em momentos de turbulência. Segundo Buiter, “tanto as teorias macroeconômicas neoclássicas quanto as neokeynesianas de mercados completos não apenas não permitiram que questões sobre insolvência e iliquidez fossem respondidas”. “Elas também não permitiram que essas questões fossem perguntadas”.
Essa visão, porém, é extremamente minoritária. Apesar das críticas, os chamados modelos econômicos DSGE, sigla em inglês para “equilíbrio geral dinâmico estocástico”, continuam centrais nas mais influentes pós-graduações de Economia e nos bancos centrais.
Como explica Aloísio Araújo, da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV ), no Rio, o que os economistas buscam agora é trazer os modelos mais para perto da realidade, especialmente incluindo o setor financeiro e todo o seu potencial de instabilidade.
Ao premiar Sargent e Sims, o BC sueco não ratificou a teoria das expectativas racionais, mas sinalizou que o atual esforço do establishment econômico-financeiro e da academia é o de aperfeiçoar o mesmo paradigma vigente no momento de deflagração da grande crise global. E não o de trocá-lo, como gostaria uma corrente ainda minoritária de economistas.
Fonte: Estadão | Economia | Blogs, 14/10/2011

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