Páginas

quarta-feira, setembro 16, 2020

Aprendi 

Desde cedo aprendi

A andar na corda bamba

Nadar no mar com ondas

Atravessar o rio 

Montar um cavalo

Cair da bicicleta

O trapézio sem rede de proteção

A respirar fundo no pulsar do coração

Lamber as feridas

Limpar a casa 

Criar galinhas

Ir ao teatro

Entrar no cinema

Pintar uma tela

Tocar violão e guitarra

Tentar o piano

Ver os filhos crescerem

Comer frutas no pé

Roer a corda e sair do novelo

Sentir a dor daquele medo

Pensar sem mas

Tecer comentários

Ser rebelde antes de ficar vermelho

Saber as cores do prazer

Que se faz sexo sobre caixas de papelão

Que abraço é forte e a língua no beijo

Riscar com giz e carvão

Ser tudo ou nada por inteiro

Morrer se não for verdadeiro

Mentir em autodefesa

Fazer e ter de saber perder

Descobrir desejos em segredo

Que descer é mais rápido pelo corrimão

Bater uma não tem preço

Suportar uma dor de dente

Chorar por besteira

Ver a papeira

Deixar a saudade na gente

Comer apenas o pão

Rezar na emoção

Amar entre tantos nãos

Seguir as estrelas na escuridão

Fugir no senão

Pedir ajuda mesmo que não venha

Acreditar na revolução

Fazer as pazes só que não

Remar em canoa

Cuidar da dor de cotovelo

Do frio na nuca

Medir a pressão

Beber bem pouco da cicuta

Esclarecer dúvidas

Perder a razão

Aceitar a inevitável morte da razão

Os princípios que sobem e descem

Ver um amigo na televisão

O valor do frete

Do trabalho

Como crescer sem mãe

Me conhecer sem roupa

Reconhecer você 

Ser pai de novo

Ter irmãos distante

Obrigações irritantes

Alimentar a imaginação

Dormir e sonhar acordado

A ler e escrever com cinco anos

Que qualquer presente envelhece

E o tempo passa rápido

Nos meus sessenta anos

Que a história é outra

quando se conta de verdade


Nenhum comentário:

Postar um comentário