A Pergunta Adiada (Prólogo do ensaio A Dor da Queda e o Milagre do Ser)
Há perguntas que uma
civilização deixa de fazer — e nem sempre porque as respondeu. Às vezes ela
apenas se convence de que não fazem sentido, e segue em frente, aliviada, como
quem fecha uma porta sobre um cômodo que não sabe mais usar. A pergunta pelo que
seja, afinal, conhecer — não como conhecemos isto ou aquilo, mas o que
é, em si, o ato de conhecer — foi uma dessas. A modernidade não a respondeu:
declarou-a vã. Comte arrumara as idades do espírito numa escada em que a
metafísica era apenas o degrau adolescente entre o mito e a ciência, destinado
a ser pisado e esquecido;[1]
e, um século depois, os filósofos mais rigorosos de Viena[2]
decretariam que as proposições da metafísica não são verdadeiras nem falsas,
mas literalmente sem sentido — ruído gramatical que a análise lógica da
linguagem viria, enfim, dissolver.[3]
A pergunta pelo ser do conhecer não foi vencida em debate; foi expulsa do
recinto por suspeita de não significar nada.
O que
veio depois levou a expulsão ao seu termo. Onde houvera a pergunta, instalou-se
o procedimento; onde houvera o saber, instalou-se a informação. Conhecer
tornou-se sinônimo de processar, armazenar, recuperar; e o valor de um
conhecimento passou a medir-se, não pela sua verdade, mas pela sua performance
— pelo que faz produzir, prever, controlar. Lyotard descreveu com frieza esse
destino: o saber exteriorizado em relação a quem sabe, convertido em
mercadoria, legitimado já não pela sua relação com o verdadeiro, mas pela sua
eficácia.[4]
Num mundo assim, perguntar “o que é conhecer?” soa quase indecente, como
perguntar a um banco o que é o dinheiro. E, no entanto, foi exatamente quando o
ruído dos dados parecia ter abafado para sempre a velha questão que ela tornou
a erguer-se — e do lugar mais improvável.
Não
voltou pela porta da academia, mas pela janela de uma conversa. Num debate, ao
sabor da ocasião, algumas sentenças soltas foram ditas — dessas que escapam a
alguém no calor da fala e que trazem, comprimido, um mundo inteiro. Ser é
conhecer. Só se aprende a andar de bicicleta andando de bicicleta. O
logos não cabe na razão humana; o milagre nos explica, nós não explicamos o
milagre. Quem as ouviu com atenção reconheceu, sob a aparência casual, o
reacender da mais antiga das perguntas — aquela que, segundo os gregos, está no
começo de toda filosofia, e que não é senão o espanto diante do fato de que
haja mundo, e de que o mundo se deixe conhecer.[5]
Este livro nasceu desse reconhecimento. Não se propõe a inventar uma pergunta
nova, mas a recolher uma pergunta antiga do lugar onde a haviam deixado cair.
E a
pergunta, despida de tecnicismos, é simples a ponto de parecer ingênua: quando
conheço, o que faço? Ergo diante de mim um retrato do mundo, um espelho
interior em que o real se reflete sem que eu jamais o toque — ou participo
do próprio ser daquilo que conheço, comungando com ele por dentro? Toda a
filosofia ocidental moderna apostou, sem quase o perceber, na primeira
resposta: fez da mente um espelho da natureza, e do conhecer, a tarefa de polir
bem esse espelho.[6] A
tradição mais antiga — a que vai de Aristóteles aos escolásticos, e que
ressurge, intempestiva, nas sentenças daquele debate — apostou na segunda.
Entre o espelho e a comunhão decide-se mais do que uma questão técnica de
teoria do conhecimento: decide-se se estamos diante do mundo ou dentro
dele, se somos os seus espectadores ou os seus participantes. E disso depende,
no fim, o que pensamos ser.
Houve um
tempo em que essa pergunta podia parecer ociosa, matéria de seminário. Esse
tempo acabou. Construímos máquinas que conhecem o mundo do único modo que a
modernidade reconhecia como conhecimento — representando-o, calculando-o,
espelhando-o em quantidades cada vez mais vastas — e que, fazendo-o em muitos
domínios melhor do que nós, devolvem-nos a pergunta sob a forma de uma ameaça:
se conhecer é apenas isso, então já fomos ultrapassados, e o que chamávamos de
espírito era só um espelho mais lento.[7]
A máquina tornou inadiável o que o seminário podia adiar. Pois há somente duas
saídas honestas. Ou o homem é, de fato, um dispositivo de representação — e
então a sua dignidade é provisória, à espera de um modelo melhor; ou há, no
conhecer humano, algo que nenhuma representação alcança — uma participação no
ser, um padecer, uma comunhão —, e então a diferença entre o homem e a máquina
não é de grau, mas de natureza. Decidir entre essas saídas é o que está, hoje,
em jogo; e é por isso que uma pergunta que parecia arqueológica voltou a ser
urgente.
Há
matérias que o sistema desfigura, porque promete possuí-las quando apenas as
enrijece; e o ensaio,[8]
ao recusar essa posse, mantém-se fiel ao que pensa, rodeando-o, iluminando-o
por ângulos, em vez de o aprisionar numa fórmula.[9]
Mais ainda: este ensaio pensa por imagens — a bicicleta, a pedra, a queda, o
milagre, a roda dos aprendizes — e não por acidente. Pois uma tese que afirma
ser o conhecer uma participação, e não uma representação, trairia a si mesma se
quisesse transmitir-se apenas por representações abstratas. A imagem faz
participar; o conceito puro faz olhar de longe. Quem quer dizer que o saber se
faz na carne deve, ele próprio, escrever com alguma carne.
Resta
dizer de quem partem as sentenças que aqui servem de pórtico. Vêm da órbita de
Olavo de Carvalho, e em torno do seu pensamento gravita boa parte destas
páginas. Tomo-o como o que é — um interlocutor filosófico legítimo, a ser lido
com a mesma seriedade, e a mesma liberdade, com que se lê qualquer pensador:
retendo o que se sustenta por argumento, discutindo o que apenas se afirma por
autoridade, sem o culto que canoniza nem o rancor que dispensa de ler. A
pergunta, de todo modo, não é dele nem de ninguém: é de quem quer que ainda se
admire de conhecer. As suas sentenças apenas tiveram o mérito de reacendê-la em
voz alta, num tempo que a dava por extinta.
Um prólogo é, por ofício antigo, o que se diz antes que a ação comece — a fala que arma a cena e prepara a entrada do coro.[10] Cumprida essa função, deve calar-se e dar passagem. A cena que se vai abrir é a mais simples do mundo: alguns homens reunidos em torno de uma voz, uma pedra que se oferece ao olhar, uma criança que cai da bicicleta e aprende porque doeu. Dessas coisas mínimas tirará este livro a sua aposta máxima — a de que conhecer é um modo de ser, e de que, sabendo-o, o homem deixa de ser o estrangeiro de um mundo que sempre foi a sua casa. Peço ao leitor apenas que cruze o limiar com a pergunta reaberta na mão, e que suspenda, por algumas horas, a pressa moderna de respondê-la antes de tê-la, ao menos uma vez, sentido por inteiro.
[1]Auguste Comte, Curso de Filosofia Positiva, (1978
[1830]–1842): a “lei dos três estados”, segundo a qual o espírito humano passa
do estágio teológico ao metafísico e deste ao positivo, sendo a metafísica mera
transição destinada a ser superada pela ciência positiva.
[2]
Círculo de Viena, foi um movimento filosófico. O
texto fundacional associado a 1929 é o manifesto do grupo, redigido
principalmente por Rudolf Carnap, Hans Hahn e Otto Neurath, sob o título Wissenschaftliche
Weltauffassung: Der Wiener Kreis ("A Concepção Científica do Mundo: O
Círculo de Viena").
[3]Rudolf Carnap, “A superação da metafísica pela análise
lógica da linguagem”, (1980 [1932]); e o manifesto do Círculo de Viena (1929):
as proposições metafísicas, por não serem verificáveis, seriam destituídas de
sentido cognitivo — “pseudoproposições”.
[4]Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna, (2022
[1979]); o saber é exteriorizado em relação ao sujeito que conhece, convertido
em informação e mercadoria, e legitimado pela performatividade
(eficácia), e não pela verdade.
[5]Sobre o espanto (thaûma) como origem da
filosofia, cf. Platão, Teeteto, 155d, e Aristóteles, Metafísica,
I, 2, 982b: é por admirar-se que o homem começou, e começa, a filosofar.
[6]A figura da mente como “espelho da natureza”, e do
conhecer como representação acurada, foi historicizada e criticada por Richard
Rorty, A Filosofia e o Espelho da Natureza, (1994 [1979]); — ainda que a
saída proposta por este ensaio difira da sua.
[7]A pergunta sobre se uma máquina pode “pensar” foi posta
por Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence”, (1950). O presente
ensaio retoma-a no capítulo IV, deslocando-a do fazer para o ser:
não se a máquina pode produzir os resultados do conhecer, mas se pode participar
do ser daquilo que processa. No nosso contexto que o ensaio trabalha a acepção
de ‘máquina’ está relacionada a presença da IA – Inteligência Artificial na atualidade.
[8]Michel de Montaigne, Ensaios, (2016 [1580]); o essai
como “tentativa” — exercício de um juízo que se prova a si mesmo diante das
coisas, sem pretensão sistemática.
[9]Theodor W. Adorno, “O ensaio como forma”. Notas de
Literatura, (2003 [1958]); o ensaio pensa em constelações, recusa o ideal
do sistema fechado e mantém-se fiel à complexidade do objeto, em vez de
reduzi-lo a método.
[10]Sobre o prólogos como a parte do drama anterior
à entrada do coro (párodos), cf. Aristóteles, Poética, 12, 1452b.
Por extensão, o prólogo arma a cena e cede lugar à ação.
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