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domingo, março 18, 2007

O Arco-Íris

Poderia me considerar um telespectador regular, pois fico de frente para a indispensável TV somente em raros documentários, talkshows especiais, umas e outras edições do Saia Curta (boas mulheres reunidas), certos filmes das HBO e Telecine, DVD's clássicos e lançamentos premiados, eventualmente cartoons por causa de meu filho de oito anos, shows de alguns artistas da MPB e POP Internacional...
Hoje estava buscando uma resposta filosófica para a coincidência de inúmeras coisas que nos cercam cotidianamente, mas como a TV estava ligada, e os garotos (Frederico e Vinícius) ainda que mantivesse os olhos no desenho animado em alto e bom som, a concorrência deles pelo controle, pela programação divergente fazia-se visível. Isso me deixou um pouco irritado, aí tentei me concentrar nesse exato momento em algo que me fizesse ficar com a cabeça longe de qualquer estresse, me acomodei na minha cadeira azul marinho com braços, de cara para o computador, tentando começar uma operação definitivamente quase impossível. Embora ache que tudo seja possível nesse estágio de nossa rotina familiar domingueira.
Manobrei tal situação desarrumando meus livros, garimpando meu tesouro, e descobri um em particular que havia lido nos anos de minha intensa ansiedade por questões sobre o rigor científico, os limites de nosso conhecimento do universo, o empírio-criticismo versus materialismo dialético, blá blá blá e mais que isso, por nosso próprio interesse em se descobrir como ser humano com seus dons e dificuldades seculares, parte essencial desse assunto.
Sentado, primeiramente no vaso, nascedouro de inesperadas inspirações, onde achei uma passagem que me sensibilizou e resolvi pelo impulso oferecido da conspiração do universo, expor um trecho que está no primeiro parágrafo do capítulo dois do livro publicado pela Editora Melhoramentos em 1981, "Humanidade, uma Colônia no Corpo de Deus", escrito por um dos bons professores que tive na UFBA, Adinoel Mota Maia. Naquele instante de meus estudos foi fundamental as especulações contidas nele, agora o leio e o enxergo bastante ousado, imaginário, louco no bom sentido, entretanto bem efetivo em seu propósito questionador de morador da filosofia.
De volta ao computador, então, durante a digitação das linhas retiradas do texto do professor, escolhidas por sua coincidente relação com o que pretendia escrever, entrou como uma cunha em minha mente o que ouvi dias antes, na TV, da boca do comediante global Chico Anísio, em uma entrevista que pedia sua opinião a respeito da música "Águas de Março" do Tom Jobim. O Chico Anísio teve uma reação que me fez rir, com seu sutil arresto de brincadeira séria, cobrando para si, em um tom lastimoso a criação dessa perfeita obra musical, e continuou, "eu tenho essa frustração na vida, não ter sido minha...". Onde quero chegar é, que as vezes nós nos denunciamos nesse desejo primário de querer ser o autor de tudo que é genial, o descobridor do óbvio (como disse Nelson Rodrigues), um Deus, e caímos em nossa verdadeira identidade. Somos o que somos.
Sim, voltemos ao texto do professor Adinoel que diz muito sobre a moral da filosofia presente na vida das pessoas, que são possuídas pela força de serem criadores e criaturas de seu universo, eis a lição: "Certa vez encontrei um poeta e conversamos sobre versos que não fazem nenhum sentido, difíceis de se absorver. Disse-me ele que poesia não é para ser entendida e perguntou-me se eu "entendia" um arco-íris. Respondi que sim e comecei a explicar que o arco-íris era um resultado da luz do sol que incidia em minúsculas gotas de água na atmosfera, quando ele me interrompeu e disse: "Você não entende um arco-íris..."".
É isso, estou feliz escutando o novo CD do Skank, Carrossel, pra mim, a banda genial brasileira de rock universal, as well as The Beatles. Suas músicas e letras... bem que eu... gostaria de ter composto, bem lá na minha subterrânea ignorância musical que ainda toca violão de ouvido.

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