A Utopia Calculada
A Memória como Dever
Hannah Arendt observou que o totalitarismo prospera onde a memória definha. Homens privados de passado perdem também a capacidade de imaginar futuros alternativos; tornam-se matéria maleável nas mãos de quem promete refazer o mundo. A amnésia histórica não é acidente — é condição de possibilidade da tirania. Por isso, recordar o que foi o socialismo real — não a utopia dos manifestos, mas a distopia das filas, da escassez, da vigilância, do medo — constitui dever de vigilância civilizacional. Não se trata de exercício de Schadenfreude, o prazer perverso diante da desgraça alheia. A tragédia soviética não é apenas deles; é nossa, de toda a humanidade que foi arrastada para seus horrores ou que carregou por décadas a culpa de não tê-los compreendido.
O título deste ensaio captura a contradição íntima do projeto. «Utopia» designa um lugar que não existe — o ou-topos grego. Mas a utopia socialista não se contentava em ser sonho; pretendia-se científica, dedutível das leis da história, calculável em suas dimensões materiais. Uma utopia que se julga capaz de cálculo: eis o paradoxo. O adjetivo «calculada» carrega ainda outra acepção. Ação calculada é ação deliberada, friamente planejada. Os horrores do século — os expurgos, as deportações, as fomes artificiais, o Gulag — não foram acidentes de percurso. Foram consequências calculadas de premissas que, uma vez aceitas, conduziam inexoravelmente à destruição. Quando se decide que a história tem sentido único e que o Partido o conhece, quando se conclui que os homens são infinitamente maleáveis, quando se autoriza violência ilimitada em nome de um futuro radiante — então os milhões de mortos não são erros; são custos contabilizados.
A utopia que se quis calculada descobriu que o cálculo econômico lhe era impossível. E a utopia que efetivamente calculou — que calculou friamente os custos humanos — revelou-se a mais impiedosa das tiranias. Esta dupla ironia atravessa todo o ensaio.Escrever sobre o fracasso do socialismo não é, portanto, bater em cachorro morto. É vacinar contra a tentação recorrente de refazer o experimento — tentação que ressurge sempre que uma geração esquece o que a anterior aprendeu a duras penas. Pesquisas recentes mostram percentuais alarmantes de jovens ocidentais que olham com simpatia para o comunismo ou que não sabem identificar os crimes de Stalin. Nas universidades, o marxismo renasce sob novas roupagens. Novos projetos de governança global reproduzem, com linguagem atualizada, a mesma pretensão de conhecimento centralizado.
Contra esta amnésia, A Utopia Calculada ergue-se como exercício de memória. Seu objetivo não é alimentar triunfalismos fáceis, mas restaurar a humildade epistemológica que é condição de qualquer reforma genuína. Pois só quem reconhece os limites do que sabe pode aprender; e só quem respeita a complexidade da ordem social pode esperar melhorá-la sem destrui-la.
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