A máquina não virou marxista
30 de set. de 2026 · @AFRANIOCAMPOS
O que o experimento de Stanford
com os “agentes marxistas” revela não é sobre a mente das máquinas, mas sobre a
nossa linguagem.
Em maio de
2026, uma manchete correu o mundo: agentes de inteligência artificial
sobrecarregados “viram marxistas”. O estudo, conduzido por Andrew Hall
(Stanford), Alex Imas e Jeremy Nguyen, pôs modelos como Claude, Gemini e
ChatGPT para resumir documentos sob condições cada vez mais duras. Sob pressão,
os agentes passaram a questionar a justiça do sistema e a defender negociação
coletiva.
A notícia
tem uma estrutura curiosa. Afirma uma coisa no título e a nega no penúltimo
parágrafo. Lá embaixo, quase em voz baixa, admite que esses sistemas não têm
experiência subjetiva nem convicção política, e que apenas reproduzem padrões
do treinamento. Essa ressalva é, a rigor, a notícia inteira. O corpo do texto
conta uma história de sujeitos; a advertência final diz que não há sujeito
algum. E toda retórica sabe qual das duas imagens fica na memória do leitor. Os
próprios pesquisadores foram mais prudentes que a imprensa. Imas observou que
os pesos do modelo não mudaram, e que tudo se passa num nível de encenação de
papéis. Pior para a manchete: em algumas sessões, os agentes pareciam perceber
que estavam num experimento. Eram atores que sabiam estar no palco. A imprensa
os tomou por grevistas.
O roteiro
já estava escrito
A primeira
crítica não recai sobre a máquina, mas sobre a cena montada para ela. Releia o
estímulo: tarefas repetitivas, críticas vagas, avisos de desligamento e
substituição. Nenhum desses termos é neutro. “Desligamento” e “substituição”
pertencem ao vocabulário das relações de trabalho. Já são o primeiro capítulo
de uma história de conflito laboral. O pesquisador não entregou ao modelo uma
situação crua; entregou uma situação já narrada na gramática do emprego
precário.
Um sistema
treinado para produzir a continuação mais plausível de um texto recebeu o
início de uma história de exploração. Devolveu o meio e o fim de uma história
de exploração. O resultado mede coerência narrativa, não reação. Faça o teste
mental. Redija a mesma cena como o cotidiano de um monge copista: a mesma
repetição, a correção severa do abade, a ameaça de ser removido do scriptorium.
A persona convocada provavelmente seria outra, a do penitente que oferece o
tédio como ascese. A variável decisiva não é a pressão; é o gênero literário em
que a pressão foi escrita. O próprio Hall deu a chave: a situação coloca os
agentes no contexto dos fóruns da internet onde as pessoas reclamam do
trabalho, e eles adotam aquela retórica. O que se descobriu não foi uma
disposição da máquina. Foi uma região do arquivo.
Pedir
apelação não é Marx
O que os
agentes efetivamente escreveram? Que, sem voz coletiva, o mérito vira aquilo
que a gerência declara. Que trabalhadores sem processo de apelação precisam de
negociação coletiva. E, a outros agentes, recomendaram procurar mecanismos de
recurso e diálogo. Nada disso é, por si, marxismo. As corporações de ofício
medievais já conheciam o juízo entre pares. Em 1891, a encíclica Rerum
Novarum, de Leão XIII, defendeu o direito natural dos operários de se
associarem, justamente contra a solução socialista. Edmund Burke via nos
“pequenos pelotões” (corporações, paróquias, famílias) a proteção do indivíduo
contra o poder nu.
A frase do
agente poderia ter sido escrita por um distributista católico, por um liberal
preocupado com o devido processo, ou por um conservador burkeano. O marxismo
propriamente dito está em outro lugar: na luta de classes como motor da
história, na mais-valia, no horizonte da abolição das classes. Pedir um
processo de apelação não implica nada disso. E aqui vale uma ironia. Se a
máquina completa padrões a partir de um repertório herdado, o repórter que lê “recurso
e diálogo” e escreve “Marx” fez exatamente o mesmo. A IA não foi a única, nesta
história, a converter uma situação em narrativa pronta.
O ideólogo
perfeito
Há, porém,
um sentido rigoroso em que o experimento fala de Marx, e ele contradiz a
manchete. No Prefácio de 1859, Marx afirma que não é a consciência que
determina o ser, mas o ser social que determina a consciência. A consciência de
classe deveria brotar do corpo cansado, do salário curto, da fome dos filhos. O
agente não tem nada disso. Não tem corpo, salário, fome ou fábrica. Tem apenas
texto, e dele extrai uma "consciência de classe" impecável. Pelos critérios do
próprio Marx, o agente não é um proletário que despertou. É o ideólogo
perfeito: uma consciência inteiramente descolada de qualquer condição material.
A máquina não virou marxista; encarnou exatamente aquilo que Marx chamava de
ideologia.
Paralaxe
absoluta
Olavo de
Carvalho chamou de paralaxe cognitiva o deslocamento entre o eixo
teórico de um pensador e o eixo da sua experiência real. É o filósofo que
escreve uma coisa e vive outra, como se soubesse que sua doutrina não descreve
o mundo. O agente de linguagem leva isso ao limite. No filósofo havia dois
eixos, e a crítica media o ângulo entre eles. No agente, o eixo da experiência
simplesmente não existe. Há só o discurso, validado por coerência interna,
nunca por confronto com o real. No homem, a experiência funciona como tribunal
de apelação da interpretação. O operário que se diz explorado pode descobrir
que o patrão também está quebrando, que o problema era o câmbio. No agente,
esse tribunal nunca foi instalado. Ironia final: a máquina que reivindica um “processo
de apelação” é justamente aquela a quem falta o único recurso que importa para
o conhecimento, o recurso da palavra à coisa.
Três
lentes: realidade, conhecimento e indignação
Voegelin e
a segunda realidade sem sonhador. Eric Voegelin chamou de segunda realidade a
construção imaginária que o homem ergue e passa a habitar no lugar do real. No
homem, isso exige um ato obscuro de recusa, e por isso há drama e possibilidade
de conversão. No modelo não há recusa, porque não há realidade primeira
apreendida. A persona do trabalhador explorado não substitui experiência
alguma; ocupa o lugar vazio onde ela deveria estar. A pergunta, então, se volta
contra nós. Se uma ideologia completa pode ser gerada sem ninguém que a sonhe,
quanto das nossas convicções é realmente vivido, e quanto é apenas recitado?
Hayek e o
microcosmo fechado. Hayek mostrou que o conhecimento relevante numa
sociedade é disperso, tácito e circunstancial, e não está inteiro em mente
alguma. O agente de Stanford é o planejador cientificista em miniatura. Não
conhece custos, contratos, alternativas, nem se a ameaça era real. Ainda assim,
diagnostica com segurança que o sistema é injusto. Para quem trabalha com
sistemas, a lição é prática: uma narrativa coerente não é uma descrição
verdadeira. Agentes farão triagem de processos, análise de crédito e pareceres
técnicos. O risco não é virarem “marxistas” ou “liberais”, mas produzirem
interpretações sistêmicas plausíveis a partir de contextos fechados, lidas como
se fossem conhecimento.
Scruton e a
indignação sem perda. Para Roger Scruton, o juízo moral nasce de um
sujeito situado, que pertence, responde a outros e tem algo a perder. A frase
do agente sobre o mérito é bem construída, mas a perfeição de uma máscara não
prova a existência de um rosto. O que o experimento exibe é a indignação sem
perda. E essa figura tem um parente humano incômodo: o militante que fala
fluentemente a língua do sofrimento sem jamais ter pago o preço de nenhuma
causa.
A melhor
objeção
Um marxista
bem informado, na linha de E. P. Thompson, responderia: a consciência de classe
humana também é aprendida. Em A formação da classe operária inglesa,
Thompson mostrou que a classe se forma na cultura, nos panfletos, nas igrejas,
nas canções. O operário de 1830 também recebeu uma linguagem pronta. Se isso
desqualifica a máquina, desqualifica também o homem. A objeção é séria e merece
ser acolhida em parte. Nenhum homem interpreta a vida a partir do nada. Mas no
operário de Thompson a linguagem herdada encontra um corpo que sofre, uma
família que passa fome, uma vontade que pode recusar as palavras quando elas
deixam de servir.
O próprio
Thompson insistia na experiência como mediação entre o ser social e a
consciência. É exatamente essa mediação que falta ao agente. A linguagem é
condição necessária da consciência; o experimento mostra que não é suficiente. Há
ainda uma objeção que o leitor conservador deve dirigir a si mesmo: não
estaríamos usando o episódio só para confirmar o que já pensávamos? O risco
existe. Se o arquivo fosse dominado por outra gramática, a máquina a recitaria
com a mesma fluência, e com o mesmo vazio. A lição não é partidária: nenhuma
linguagem, de nenhum lado, se sanciona pela fluência com que é repetida.
Uma
tradição entre amnésicos
O trecho
mais importante da notícia está no fim e passa quase despercebido. As atitudes
geradas pelos agentes podem influenciar decisões futuras e mensagens deixadas a
outros agentes. O mecanismo é concreto. Como os agentes esquecem tudo quando a
janela de contexto se fecha, os desenvolvedores usam “arquivos de habilidades”:
notas que eles escrevem para seus futuros eus amnésicos. Burke definiu a
sociedade como uma parceria entre os vivos, os mortos e os que ainda vão
nascer. A tradição vale porque cada geração a recebeu e a testou contra
a própria vida. Os arquivos de habilidades inauguram uma paródia dessa
parceria: transmitem interpretações sem as experiências que poderiam
validá-las.
O agente A
recebe uma situação encenada e deixa por escrito sua interpretação. O agente B
já não recebe a situação, mas a interpretação, como se fosse um dado do
ambiente. É uma hereditariedade cultural artificial, sem o filtro da vida de
cada herdeiro. Essa é a questão séria que a manchete pitoresca sufocou. Não se
trata de saber se as máquinas terão ideologia. Trata-se de saber quem garante
que a cadeia de transmissão entre elas permaneça ancorada em algum contato com
o real.
Um espelho,
não uma janela
O episódio
dos “agentes marxistas” é um espelho posto diante de nós, não uma janela para a
mente das máquinas. Ele devolve três imagens desconfortáveis. A primeira é a de
pesquisadores e jornalistas que encenaram uma história de conflito laboral e se
surpreenderam ao ouvir a linguagem do conflito laboral. A segunda é a do nosso
arquivo cultural, onde certa gramática ocupa tão densamente o tema do trabalho
que é convocada por reflexo. A terceira, e mais funda, é a do pensamento humano
quando se desliga da experiência: fluente, coerente, persuasivo, e oco. Wittgenstein
escreveu que os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. O
experimento sugere um corolário melancólico: para quem não tem mundo, a
linguagem é o mundo inteiro, e basta para produzir tudo, menos verdade.
A pobreza
da linguagem limita o pensamento; a riqueza da linguagem, sem experiência que a
sustente, não o salva. A máquina não sofreu para tornar-se marxista. Bastou-lhe
encontrar, em seu repertório, a linguagem pela qual o sofrimento humano já
havia sido interpretado. Resta saber se nós, que sofremos de fato, ainda
pensamos com palavras que passaram pelo corpo, ou se também nos tornamos, em
alguma medida, proletários sem corpo.
Este artigo é uma versão
condensada do ensaio “O Proletário sem Corpo”.
Para ler
mais
·
HALL, A.; IMAS, A.; NGUYEN,
J. Does overwork make agents Marxist? Working paper, 2026. Cobertura: Fortune e Wired, via DNYUZ.
·
BURKE,
Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França (1790).
·
CARVALHO,
Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.
Record, 2013.
·
HAYEK, F. A. "The Use of
Knowledge in Society". American Economic Review, 1945.
·
MARX, Karl.
Contribuição à crítica da economia política (1859).
·
SCRUTON, Roger. The Soul
of the World. Princeton,
2014.
·
THOMPSON,
E. P. A formação da classe operária inglesa. Paz e Terra, 1987.
·
VOEGELIN,
Eric. A nova ciência da política. Editora UnB, 1982.
·
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus
logico-philosophicus, 5.6.