A
Continuidade de Sentido como
Mediação
O Metaxy Temporal entre Singular e Universal
É aqui que
o paradoxo de Aristóteles — a tensão entre a individualidade concreta do
existente e a generalidade abstrata do conhecimento — encontra sua articulação
mais fecunda com a noção de continuidade de sentido desenvolvida ao
longo deste ensaio. Pois se a
experiência concreta e o conhecimento universal constituem dois polos
aparentemente irredutíveis — o singular que existe, mas escapa ao conceito, o
universal que se conhece, mas não existe separadamente —, há, contudo, algo que
os atravessa e os conecta sem abolir sua diferença.
Este
"algo" é a continuidade temporal do sentido — aquela tessitura de
significações que se desdobra na história pessoal e coletiva, ligando o
instante vivido ao horizonte de inteligibilidade que o torna compreensível. Não
se trata de uma terceira substância que mediaria entre singular e universal,
como se fosse ponte construída sobre um abismo previamente dado. A continuidade
de sentido não é tertium quid ontológico; é o meio — no sentido
aristotélico de metaxy — no qual singular e universal sempre já se
encontram, o elemento comum em que ambos respiram e se articulam. A intuição
central pode ser formulada assim: nunca encontramos o singular em estado puro,
despido de toda significação; e nunca manejamos o universal em estado puro,
desencarnado de toda instância concreta. O que encontramos — o que sempre já
encontramos — são singulares significativos e universais encarnados,
entrelaçados numa trama de sentido que os precede e os possibilita.
Esta trama é a continuidade de sentido; e sua textura é temporal, histórica,
narrativa.
1. A Estrutura do Metaxy: Nem Ponte nem
Abismo
A noção
platônica de metaxy — o "entre", o intermediário — oferece a
chave conceitual para compreender a função mediadora da continuidade de
sentido. Em Platão, o metaxy designa aquelas realidades que participam
de dois extremos sem se reduzir a nenhum deles: o daimon Eros, por
exemplo, não é nem deus nem homem, mas algo "entre" ambos, que os
conecta precisamente por não ser inteiramente nem um nem outro.
Aristóteles transpõe esta estrutura para diversos contextos — a percepção como
meio entre sujeito e objeto, a virtude como meio entre extremos —, mas é na
questão do conhecimento que ela adquire sua relevância máxima. O erro das
epistemologias modernas — tanto racionalistas quanto empiristas — consistiu em
postular primeiro a separação radical entre singular e universal, entre
experiência e conceito, para depois tentar construir pontes que os reunissem.
Mas pontes só são necessárias onde há abismos; e abismos, neste caso, são
artefatos da abstração filosófica, não dados da experiência efetiva. A
fenomenologia husserliana já havia denunciado este procedimento ao mostrar que
a consciência é sempre consciência de algo — que não há sujeito puro
anterior ao encontro com o objeto, nem objeto puro anterior à sua doação a uma
consciência.
A
continuidade de sentido radicaliza esta intuição ao introduzir a dimensão
temporal. Não apenas consciência e objeto se co-constituem; eles se
co-constituem no tempo, através de uma história de encontros,
sedimentações e reativações. O singular que encontro agora já vem carregado das
significações que a tradição lhe conferiu; o universal que manejo agora já está
tingido das experiências concretas que o moldaram em minha biografia
intelectual. Singular e universal não são pontos isolados que precisam ser
conectados; são momentos de um processo contínuo que os atravessa e os
constitui.
2. O Singular Significativo: A Impossibilidade do
Puro Hoc
Consideremos
mais detidamente o polo do singular. A tradição escolástica designava o
indivíduo concreto pelo pronome demonstrativo hoc — "este
aqui", irredutível a qualquer descrição universal. O hoc é aquilo
que escapa a toda predicação, o resíduo que sobra quando todas as qualidades
foram abstraídas, a pura haecceitas (Duns Scotus) que faz deste
indivíduo este e não outro.
Porém — e aqui reside o ponto decisivo —, jamais encontramos o hoc em
estado puro. O "este" que designo já é "este homem",
"esta árvore", "este momento"; já está, portanto, inserido
numa rede de significações que o articula com outros "estes"
semelhantes e o distingue de outros "estes" diferentes. A própria
linguagem — condição de todo pensamento articulado — é já universal; ao dizer
"este", já opero com um pronome que se aplica a infinitos singulares
possíveis. O singular absoluto seria, rigorosamente, o inefável — aquilo sobre
o qual nada se pode dizer, nem mesmo que é singular.
A
continuidade de sentido é precisamente aquilo que impede o singular de colapsar
no inefável. Ela é o horizonte de significações no qual o singular aparece como
algo — como isto ou aquilo, como pertencente a este ou àquele gênero, como
dotado destas ou daquelas propriedades. O recém-nascido não encontra um mundo
de puros "estes" mudos; encontra um mundo já nomeado, já articulado,
já significativo — o mundo da língua materna, das práticas compartilhadas, das
instituições herdadas. Antes mesmo de poder distinguir conscientemente entre
singular e universal, ele já habita a continuidade de sentido que os entrelaça.
Isto não
significa que o singular se dissolva no universal. A irredutibilidade do hoc
permanece; este indivíduo concreto jamais será inteiramente capturado por
qualquer conceito. Mas esta irredutibilidade não implica separação absoluta;
implica apenas que a relação entre singular e universal é assimptótica —
aproximação infinita que nunca se consuma em identificação perfeita. O singular
permanece como horizonte do conhecimento, como tarefa sempre renovada, como
excesso inesgotável sobre toda determinação conceitual.
3. O Universal Encarnado: A Impossibilidade do Puro
Quid
Consideremos
agora o polo oposto. A tradição designava o universal pelo pronome
interrogativo quid — "o quê?", aquilo que se predica de
muitos, a essência comum abstraída das diferenças individuais. O quid é
o objeto próprio da ciência aristotélica; conhecer cientificamente é conhecer o
"o quê" — a definição, a causa, a razão de ser. Porém — e aqui o
paralelo é exato —, jamais encontramos o quid em estado puro. Todo
universal é universal de algo; toda essência é essência de existentes
concretos; todo conceito remete, em última instância, às experiências
singulares das quais foi abstraído. O triângulo geométrico, aparentemente o
mais puro dos universais, só é acessível através de triângulos desenhados,
imaginados, construídos — instâncias imperfeitas que, contudo, são a única via
de acesso à forma perfeita.
A tradição
platônica tendeu a minimizar esta dependência, postulando um reino de Formas
subsistentes em si mesmas, contempláveis por uma intuição intelectual pura. Mas
Aristóteles já havia objetado: as Formas separadas, se existissem, seriam
inúteis para explicar os entes sensíveis; e se não servem para explicar, não
servem para nada.
O universal que não se encarna não é verdadeiro universal; é mera abstração
vazia, flatus vocis — sopro de voz sem conteúdo real.
A
continuidade de sentido é aquilo que impede o universal de evaporar na
abstração vazia. Ela é o locus concreto onde os universais ganham carne
e sangue — não em instâncias isoladas, mas em tradições de uso, em práticas
compartilhadas, em instituições históricas. O conceito de "justiça"
não paira num céu platônico; ele vive nas leis, nos costumes, nas decisões
judiciais, nas indignações morais de comunidades concretas ao longo da
história. É esta vida histórica que dá ao conceito sua determinação e sua
eficácia; sem ela, "justiça" seria palavra oca, definível talvez em
abstrato, mas incapaz de orientar qualquer ação concreta.
4. A Trama Temporal: Onde Singular e Universal se
Encontram
Se o
singular puro é inefável e o universal puro é vazio, então o conhecimento
efetivo — aquele que realmente possuímos e exercemos — situa-se necessariamente
no entre: nem puro hoc nem puro quid, mas hoc significativo
e quid encarnado. Este "entre" não é lugar estático; é
processo, movimento, história. A mediação entre singular e universal não é dada
de uma vez; ela se faz e se refaz continuamente, no tempo e pelo tempo. Aqui
reencontramos a estrutura temporal analisada no ensaio sobre o tempo. Se
"o tempo é o que impede que tudo aconteça de uma vez", então ele é
também o que impede que singular e universal se fundam numa identidade
indiferenciada ou se separem num dualismo insuperável. O tempo espaça —
separa mantendo em relação, distingue sem isolar. Singular e universal
permanecem distintos, mas sua distinção é articulada; eles se relacionam
através da mediação temporal que os atravessa.
A
continuidade de sentido é esta mediação tornada consciente de si mesma. Ela não
é apenas o fato de que singular e universal se articulam no tempo; é a forma
desta articulação, o modo pelo qual a relação se estrutura e se
transmite. Uma cultura é, neste sentido, uma modalidade específica de
continuidade de sentido — uma maneira particular de entrelaçar experiência e
conceito, existência e essência, vida e logos. Cada cultura realiza à sua
maneira a mediação entre o singular vivido e o universal pensado; e esta
realização é sua contribuição própria à história do espírito.
5. A Narrativa como Forma Privilegiada do Metaxy
Se a
continuidade de sentido é essencialmente temporal, então sua expressão
privilegiada será necessariamente narrativa. A narrativa é, com efeito,
a forma linguística que articula o singular e o universal através do tempo. Ela
conta eventos singulares — "isto aconteceu, depois aquilo" —, mas os
conta como algo, inserindo-os numa trama de significações que os torna
compreensíveis. O herói do mito não é apenas este indivíduo particular; ele é figura
— encarnação de um tipo, exemplo de uma possibilidade humana, instância de um
universal. Paul
Ricœur desenvolveu extensamente esta intuição ao mostrar que a narrativa opera
uma síntese do heterogêneo — reúne eventos dispersos numa totalidade
significativa, integra o diverso numa unidade de sentido.
Esta síntese não é atemporal; ela se faz no tempo e através do
tempo, acompanhando o desenrolar dos eventos e os recolhendo retrospectivamente
numa configuração inteligível. A narrativa não elimina a sucessão temporal; ela
a atravessa, revelando nela uma ordem que não seria visível na mera
cronologia dos fatos.
O paradoxo
de Aristóteles encontra na narrativa sua resolução — não teórica, mas prática.
A narrativa não "explica" como singular e universal se articulam; ela
mostra esta articulação em ato. Quando contamos uma história — seja o
mito fundador de uma cultura, seja a biografia de um indivíduo, seja o relato
de um experimento científico —, estamos operando a mediação entre o hoc
e o quid, entre o que aconteceu em sua singularidade irrepetível e o que
isto significa em sua universalidade comunicável. A narrativa é o metaxy
em exercício, a continuidade de sentido em sua forma mais explícita.
6. Conhecimento Teórico e Conhecimento por
Habitação: Reconsideração
À luz desta
análise, podemos agora reconsiderar a distinção inicial entre conhecimento
teórico e conhecimento por habitação. Ambos, dissemos, são legítimos; ambos
captam aspectos reais do objeto; mas diferem na modalidade de acesso e na
qualidade da evidência obtida. O teórico conhece "de fora", por
conceitos universais; o habitante do tempo conhece "de dentro", por
afinidade existencial.
Vemos agora
que esta distinção, embora válida, não é absoluta. O teórico não opera com
universais puros; seus conceitos estão sempre já encarnados numa tradição de
pesquisa, numa linguagem específica, numa história de problemas e soluções. O
habitante do tempo não lida com singulares puros; sua experiência está sempre
já articulada por categorias herdadas, por expectativas culturalmente moldadas,
por horizontes de sentido previamente constituídos. Ambos habitam a
continuidade de sentido; diferem apenas na ênfase — o teórico enfatiza o
polo universal, o experiente enfatiza o polo singular —, não na exclusão de um
dos polos. O que distingue verdadeiramente os dois modos de conhecimento não é
a presença ou ausência do universal ou do singular, mas a direção do
movimento e a qualidade da participação. O teórico parte do
singular rumo ao universal; abstrai, generaliza, formaliza.
O habitante
do tempo parte do universal rumo ao singular; concretiza,
especifica, encarna. Ambos percorrem o mesmo espaço — a continuidade de sentido
—, mas em direções opostas; e esta diferença de direção produz diferentes
qualidades de conhecimento.
A "afinidade" e a "sintonia afetiva" de que falamos não
são, portanto, irracionalismos; são modos específicos de habitar a
continuidade de sentido, de estar situado nela de tal maneira que certos
aspectos do real se revelem com evidência particular. O médico experiente
conhece a doença não apenas pelo conceito, mas pela frequentação assídua de
doentes singulares; esta frequentação não anula o conceito, mas o preenche,
conferindo-lhe densidade e concretude que a mera definição não poderia
alcançar.
7. Implicações para a Transmissão do Conhecimento
Se a
continuidade de sentido é o metaxy onde singular e universal se
articulam, então a transmissão do conhecimento — a educação, em sentido amplo —
não pode consistir apenas na comunicação de conceitos universais. Transmitir um
saber é transmitir também uma posição na continuidade de sentido, um modo
de habitar o espaço entre o singular e o universal. Isto explica por que
certas formas de conhecimento resistem à formalização completa. O artesanato, a
prudência moral, o diagnóstico clínico, a interpretação textual — todos estes
saberes envolvem uma dimensão tácita que excede a articulação explícita.
Não se aprende a ser prudente lendo tratados de ética; aprende-se convivendo
com pessoas prudentes, observando como elas agem em situações concretas,
absorvendo gradualmente seu ethos — seu modo de habitar a continuidade
de sentido moral.
A tradição
— tão frequentemente desprezada pelo pensamento moderno como mero repositório
de preconceitos — revela aqui sua função epistemológica essencial. Ela é o
veículo pelo qual se transmite não apenas o conteúdo do conhecimento (os
conceitos, as teorias, as informações), mas também a posição existencial
a partir da qual este conteúdo se torna verdadeiramente compreensível. Romper
com a tradição não é libertar-se de preconceitos; é perder o acesso àquela
dimensão tácita sem a qual os conceitos permanecem vazios e as teorias,
estéreis.
8. Conclusão: O Paradoxo Transfigurado
O paradoxo
de Aristóteles — a tensão entre singular e universal, entre existência e
conhecimento — não se resolve pela eliminação de um dos termos, nem pela
postulação de uma síntese superior que os absorveria. Ele se transfigura
quando reconhecemos que singular e universal não são termos isolados que
precisam ser conectados, mas polos de uma relação sempre já em curso — a
relação que chamamos continuidade de sentido. O singular não existe
"antes" de toda significação, esperando ser capturado pelo conceito;
ele já aparece dentro de um horizonte de sentido que o articula e o
torna inteligível. O universal não paira "acima" de toda instância
concreta, esperando descer e se encarnar; ele já vive através das
práticas, das instituições, das linguagens que lhe conferem realidade efetiva.
Entre um e outro não há abismo a ser transposto, mas campo a ser percorrido — o
campo da continuidade de sentido, cuja textura é temporal, cuja expressão é
narrativa, cuja transmissão é tradicional.
Habitar
este campo conscientemente — reconhecendo tanto a irredutibilidade do singular
quanto a necessidade do universal, tanto os direitos da experiência vivida
quanto as exigências do pensamento articulado — é talvez a tarefa mais própria
do pensamento autêntico. Não se trata de escolher entre teoria e experiência,
entre conceito e vida, entre logos e bios. Trata-se de
compreender que estas alternativas são falsas; que o verdadeiro conhecimento é
sempre mediação — movimento incessante entre os polos, habitação do entre,
cultivo da continuidade de sentido que nos constitui e nos ultrapassa.
A reabilitação da tradição
contra o preconceito iluminista anti-tradicional é um dos temas centrais de
Gadamer, Verdade e Método, Parte II, seção 1: "A elevação da
historicidade da compreensão a princípio hermenêutico".