O Banquete de Saturno
Sobre os convidados descartáveis do poder
Oct 19, 2026 · @AFRANIOCAMPOS
A mesa posta
Em 1793, a caminho
da guilhotina que ajudara a legitimar, o girondino Pierre Vergniaud deixou uma
frase que a posteridade reduziu a provérbio: a Revolução, como Saturno, devora
os próprios filhos. A imagem é mais exata do que parece. Saturno não devora os
inimigos. Devora os filhos, aquilo que gerou e que por isso poderia sucedê-lo.
O perigo, para quem toma o trono, nunca está no adversário declarado, que já
foi vencido. Está no aliado que conhece o caminho por onde se chega ao poder e
que, desiludido, poderia percorrê-lo de novo em sentido contrário. Este texto observa essa lei de ferro. Ela se manifesta com particular nitidez nos regimes
que chegam ao poder em nome do povo e, uma vez instalados, descobrem que o povo
mobilizado é a coisa mais perigosa que existe. Intelectuais, ativistas,
sindicalistas, minorias de vanguarda, movimentos de rua: todos são convidados
ao banquete enquanto a mesa está sendo posta. Quando o prato é servido, alguns
descobrem que o prato são eles.
A anatomia da
desmoralização
O que Bezmenov[1] descreve, antes de tudo, é
uma patologia do juízo. A lavagem cerebral que ele denuncia não substitui uma
verdade por uma mentira, o que seria apenas um erro, corrigível pela prova. Ela
atinge a faculdade que distingue uma coisa da outra. O desmoralizado não
acredita no falso: perdeu o órgão com que se acredita. Por isso os documentos
não o alcançam. Ele está surdo para a ordem de grandeza dos fatos, e não para
os fatos em si. O polonês Czesław Miłosz descreveu o mesmo fenômeno por dentro,
em A Mente Cativa, de 1953. Os
intelectuais de seu país não foram simplesmente coagidos. Eles se converteram
por uma espécie de fome metafísica, a necessidade de pertencer ao sentido da
História. Depois, desenvolveram o ketman,
a arte de dizer o que se deve enquanto se pensa o que se pode. O resultado é
uma consciência cindida, em que a experiência pessoal e a construção teórica
deixam de se tocar. É o que Olavo de Carvalho chamou de paralaxe cognitiva: o
eixo de onde o sujeito fala se descola do eixo de onde ele vive, e a teoria
passa a negar aquilo que a vida do próprio teórico testemunha. Esse
deslocamento cobra um preço muito preciso. O idealista desmoralizado é o
operário perfeito da fase de demolição, porque não vê o que está demolindo. Ele
também é o candidato perfeito à fase seguinte, a da eliminação, porque não vê o
que vem atrás dele.
A lógica do
instrumento
Por que o regime descarta justamente quem mais o serviu? Ver nisso apenas crueldade ou ingratidão seria psicologizar o que é estrutural. A razão é funcional, e Bezmenov a enuncia com frieza: os idealistas eram ferramentas, e ferramentas têm uso, não direitos. Há uma diferença de natureza entre o movimento e o regime. O movimento vive de turbulência, greves, denúncias, da indignação permanente. O regime vive de ordem, extração e obediência. A virtude do militante na primeira fase (a combatividade, o espírito crítico, a capacidade de mobilizar) converte-se em vício capital na segunda. Quem aprendeu a derrubar governos não desaprende. Pior: sabe como foi feito, conhece os bastidores, guarda a memória das promessas. Ele é testemunha, e regimes que se fundam numa narrativa não toleram testemunhas.
Milovan Djilas,
braço direito de Tito, entendeu isso tarde e por experiência própria. Em A Nova Classe, de 1957, mostrou que a
revolução não abolia a classe dominante: fabricava outra, a burocracia do
partido, dona coletiva dos meios de produção e dos meios de verdade. Escreveu o
livro na prisão para onde o mandaram seus antigos camaradas. Orwell deu a essa
lógica a forma de fábula. Em A Revolução
dos Bichos, Sansão, o cavalo que trabalhou mais que todos e cujo lema era
"trabalharei mais ainda", termina vendido ao matadouro pelos porcos
que ajudou a entronizar.
Galeria dos
devorados
A história oferece
uma galeria que dispensa a retórica.
Kronstadt, 1921. Os marinheiros da base naval haviam
sido, nas palavras do próprio Trótski, o orgulho e a glória da Revolução.
Quando exigiram que os sovietes fossem livremente eleitos, o que era a promessa
original, foram esmagados pelo Exército Vermelho comandado por esse mesmo
Trótski. Saturno ainda ensaiava.
Moscou, 1936–1938. Nos Processos de Moscou, a velha
guarda bolchevique, Zinoviev, Kamenev e Bukharin, a quem Lênin chamara "o
favorito do partido", confessou crimes impossíveis e foi fuzilada.
Trótski, que esmagara Kronstadt, foi morto por Ramón Mercader, comunista
espanhol e agente da NKVD (policia secreta a União Soviética), no México em
1940 com uma picareta de alpinista. Os que fizeram a revolução não sobreviveram
a ela.
Barcelona, 1937. Na Guerra Civil Espanhola, os
anarquistas e os marxistas independentes do POUM lutavam na mesma trincheira
que os comunistas alinhados a Moscou. Em maio de 1937, a trincheira virou
tribunal. Andreu Nin, dirigente do POUM, foi sequestrado e morto por agentes
soviéticos. Orwell, que combatia nas fileiras do POUM, fugiu da Espanha
perseguido pelos próprios aliados e registrou tudo em Homenagem à Catalunha.
Os homossexuais, de 1933 em diante. É aqui que a
história confirma por outras vias o que o texto de base acrescentou.[2] A revolução de 1917
descriminalizara a homossexualidade, e esse gesto foi exibido ao mundo como
prova de modernidade. Em 1933–1934, Stálin a recriminalizou, com penas de até
cinco anos de trabalhos forçados. Em Cuba, entre 1965 e 1968, as Unidades Militares
de Ajuda à Produção (UMAP) internaram homossexuais, religiosos e
"desajustados" em campos de trabalho. A bandeira da emancipação durou
exatamente o tempo em que foi útil como bandeira.
Os intelectuais cubanos, 1971. O poeta Heberto
Padilla, que saudara a revolução, foi preso e obrigado a uma autocrítica
pública em que denunciava a si mesmo e aos amigos. Boa parte da
intelectualidade latino-americana e europeia que apoiava Havana rompeu nesse
dia. Muitos só então perceberam que estavam à mesa como prato.
China, 1956–1957. Mao lançou a Campanha das Cem Flores
e convidou os intelectuais a criticar o partido com franqueza. Eles aceitaram.
Na Campanha Antidireitista que se seguiu, cerca de meio milhão foram rotulados
de "direitistas", destituídos, enviados à reeducação ou ao trabalho
forçado. O convite à crítica funcionou como censo de quem criticaria.
China, 1968. Os Guardas Vermelhos haviam sido a tropa de choque da
Revolução Cultural e tinham destruído professores, templos e a própria
estrutura do partido em nome de Mao. Cumprida a tarefa, foram dispersados:
milhões de jovens urbanos acabaram enviados "para as montanhas e para o
campo", uma geração inteira exilada na própria terra.
China, 2018. O caso mais eloquente é recente, porque mostra o
mecanismo funcionando contra quem leva a doutrina a sério. Em Shenzhen, quando
líderes operários da fábrica Jasic Technology enfrentaram retaliação patronal e
violência policial, jovens maoístas e marxistas, em sua maioria universitários
e recém-formados, criaram um grupo de apoio aos trabalhadores. A repressão se
alargou depois a associações estudantis de esquerda e a organizações de
direitos trabalhistas (China Review). No início de novembro de 2018, mais de uma dúzia
desses estudantes e recém-formados foram detidos, e universidades de prestígio
tentaram impedir que os clubes de marxismo aos quais estavam ligados renovassem
seu registro (Made in China Journal). Comunistas foram
presos por um partido comunista por quererem um sindicato. A ironia não é
acidente: é a definição do regime. Analistas notaram que esses jovens eram por
vezes mais ortodoxos que as autoridades do partido e não aceitavam a
desigualdade crescente nem o consumismo da China atual (El CEO). O marxismo é
permitido como liturgia e proibido como prática. A “religião” de Marx só é
permitida na igreja do partido, fora dela, como ação vira crime contra o regime.
A Rússia: a técnica
sem a doutrina
A Rússia
contemporânea exige uma distinção. O Kremlin de hoje não é marxista-leninista.
É um Estado autoritário e nacionalista que se apresenta como guardião da
tradição. E, no entanto, aplica a mesma gramática. A lei de "agentes
estrangeiros", de 2012, transformou ONGs e jornalistas em suspeitos por
definição. Em dezembro de 2021, a Suprema Corte liquidou a Memorial,
organização nascida justamente para documentar os crimes do período soviético.
Em 2023, o chamado "movimento LGBT internacional" foi declarado
extremista. Isso não enfraquece a tese do ensaio. Ao contrário, ilumina sua
forma mais profunda. O que se transmite de regime em regime não é uma
ideologia, mas uma técnica: a técnica de quem chegou ao poder por meio de uma
coalizão e precisa, em seguida, desmontar todas as coalizões possíveis. Quando
a doutrina muda, a técnica permanece.
A via eleitoral: o
descarte depois da urna
O ponto mais
inquietante da tese está aqui. O antigo roteiro passava pela insurreição. O
roteiro contemporâneo passa pela urna. O regime chega ao poder por meio de uma
frente ampla, que reúne intelectuais, movimentos identitários, sindicatos,
partidos aliados e ex-guerrilheiros com biografia heroica, todos necessários
para compor a maioria. Uma vez no poder, desmonta essa frente peça por peça,
pelos tribunais, pelas leis e pela polícia, sem precisar rasgar a Constituição.
Nicarágua. Daniel Ortega voltou ao poder pelo voto em 2006. Em
2021, ano eleitoral, a máquina se voltou contra os seus. Foram detidos Dora
María Téllez, a comandante que em 1978 assaltou o Palácio Nacional para exigir
a libertação de presos de Somoza, e o ex-guerrilheiro Hugo Torres, que antes da
prisão gravou um vídeo lembrando que em 1974 arriscara a vida para libertar o
próprio Ortega (Voz de América). Torres, o
"Comandante Uno", fora preso naquele ano em que Ortega encarcerou
mais de 40 opositores e ativistas, incluindo antigos companheiros de luta, em
plena campanha presidencial (Voz de América). Morreu em
fevereiro de 2022 na prisão de El Chipote (El Diario de Hoy). É difícil imaginar uma figura mais literal de
Saturno: o homem que abriu a cela do tirano morre na cela do tirano.
Venezuela. O chavismo também teve aliados de primeira hora. Em
2020, o Partido Comunista de Venezuela deixou o Gran Polo Patriótico e retirou
o apoio a Maduro por discordar de políticas que chamou de
"antioperárias" (Voz de América). A resposta veio
pelo tribunal. Em agosto de 2023, a Sala Constitucional do Tribunal Supremo de
Justiça nomeou uma "junta diretiva ad hoc" para o partido, sob o
pretexto de organizar seus processos democráticos internos (Canal 26). Para presidi-la
foi designado Henry Parra, um militante expulso do partido em 2021 depois de
manifestar apoio a um governador governista. O mesmo destino já havia atingido
grupos chavistas não alinhados a Maduro, como o Tupamaro em 2020 e a Marea Socialista,
dissidência do próprio PSUV (UNOFAR). O partido
comunista mais antigo do país foi expropriado de si mesmo, sem um tiro, por
sentença. O padrão é visível. A frente eleitoral funciona como andaime:
necessária para erguer o edifício, inútil e até incômoda quando ele fica
pronto. O que mudou em relação a Kronstadt é o instrumento, e não a lógica:
onde antes havia o pelotão, hoje há o acórdão.
Fenomenologia do
iludido
Resta a pergunta
mais difícil: por que eles não veem? A galeria acima é pública, documentada,
ensinada. Por que cada nova geração de idealistas se senta à mesa convicta de
que, desta vez, será comensal? Bezmenov responde com a desmoralização, e essa é
parte da resposta. Mas há outra camada, mais antiga e mais humana. O idealista
revolucionário não se vê como instrumento, porque se vê como intérprete da
História. Ele acredita que a História tem um sentido e que ele está do lado
certo desse sentido. Essa crença o dispensa de examinar o poder concreto que
está ajudando a construir. O poder real lhe parece um detalhe técnico, um meio
provisório a serviço de um fim luminoso. Ele julga o regime pelas intenções que
projeta nele, e não pelos atos que testemunha.
Por isso a prova
não basta. O fato contrário é lido como acidente, distorção da imprensa inimiga
ou necessidade tática. A estrutura da crença absorve o choque. Só uma
experiência pessoal e intransferível rompe o casulo: a prisão de um amigo, a
própria prisão. Era o que Bezmenov queria dizer com seu "chute no
traseiro". O sarcasmo encobre uma tese epistemológica séria: certas
verdades só se aprendem na carne, porque a inteligência que deveria aprendê-las
foi desativada. Dora María Téllez talvez seja o caso mais pungente, porque ela
viu antes da maioria. Rompeu com Ortega nos anos 1990 e fundou um partido
dissidente. Ver não a salvou. Saturno não pune apenas os cegos: pune os que
veem tarde, e também os que veem cedo e ficam por perto.
Adeus, camaradas
O fecho do texto de
base, provavelmente apócrifo, tem a virtude da ironia exata.
"Camarada" é a palavra da igualdade, do pertencimento, da trincheira
comum. Dita no instante do descarte, ela revela o que sempre foi: um título
provisório, revogável por conveniência.
A lição deste
ensaio não é que todo projeto de transformação social termine em expurgo. A
lição é mais precisa e mais incômoda: todo poder que se define como encarnação
da vontade do povo, e que por isso se julga acima dos limites que contêm o
poder comum, tende a tratar como traidor qualquer parte do povo que discorde
dele. Os primeiros a sentir isso são justamente os que ajudaram a levá-lo ao
trono, porque são os únicos que conhecem a distância entre a promessa e a
coisa. O antídoto não é ideológico, é institucional e moral. Institucional,
porque só a alternância verificável, a imprensa livre e os tribunais
independentes impedem que a frente eleitoral vire andaime descartável. Moral,
porque exige do intelectual uma virtude rara: julgar um poder pelo que ele faz
com os seus, e não pelo que diz aos outros.
Quem quiser saber
se está sentado à mesa ou servido nela deve observar o que aconteceu com os
comensais da véspera.
[1] Yuri Bezmenov, que
trabalhou na agência Novosti na Índia e desertou em 1970, expôs essas ideias
sobretudo na entrevista de 1984 a G. Edward Griffin e no opúsculo Love Letter to America, que assinou como
Tomas Schuman. Nessas fontes estão os quatro estágios (desmoralização,
desestabilização, crise e "normalização"), o prazo de 15 a 20 anos
justificado pelo tempo de formar uma geração de estudantes, a menção a três
gerações expostas à doutrina sem contestação, a imagem do desmoralizado que não
acredita nem diante dos campos até levar "um chute no traseiro
gordo", e a advertência de que os idealistas seriam os primeiros
eliminados depois da tomada do poder.
[2] Bezmenov não falava em
"estabilização violenta". O termo dele era "normalização",
usado com ironia: era o eufemismo soviético para a Tchecoslováquia ocupada
depois de 1968. A ironia diz mais que a paráfrase. Também não há registro conhecido
de que a inclusão dos homossexuais na lista dos expurgados esteja na entrevista
nessa formulação, nem de que o fecho "Adeus, camaradas" seja dele.
Parecem acréscimos de quem compilou o texto, que, pelos erros de gênero
("o lavagem", "o novo ordem"), foi traduzido por máquina de
outra língua. A história, porém, confirma por outras vias o destino dos
homossexuais, como se verá adiante.