A ruptura
moderna: do sábio ao acadêmico
Capítulo II do Livro "O Hiato entre o Logos e o Bios"
Há
rupturas que se anunciam com tambores; outras se infiltram sob a forma de
hábito. A passagem do filósofo antigo ao filósofo moderno é desta segunda
espécie. Não houve manifesto que a declarasse, não houve edital que a
impusesse, não houve guerra que a vencesse. Houve, ao longo de três séculos,
uma deriva lenta — quase imperceptível para os contemporâneos —, ao cabo da
qual a figura mesma do filósofo havia mudado de natureza. Onde antes estivera o
sábio, agora estava o acadêmico. Onde antes o discípulo procurara o mestre para
aprender a viver, agora o estudante procurava o professor para aprender a
passar nos exames. Onde antes a doutrina fora a expressão articulada de uma
vida, agora a vida era apêndice biográfico da doutrina.
O
primeiro grande sinal dessa deriva é Descartes. Lendo as Meditações
Metafísicas, o leitor distraído pode ainda julgar-se diante de uma
meditação espiritual no sentido herdado da tradição clássica e medieval: o
filósofo recolhe-se em sua estufa nos arredores de Neuburg-an-der-Donau,
examina o conteúdo de sua própria mente, registra em primeira pessoa o caminho
pelo qual chegou à certeza fundamental. A aparência é a do gênero meditativo
cristão — herdeiro consciente dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola
que o jovem Descartes havia praticado durante a formação jesuítica em La Flèche.
Mas é apenas a aparência. O que Descartes inaugura, sob a forma herdada da
meditação medieval, é o oposto de toda a tradição que essa forma havia
articulado: um método universalmente aplicável, independente das virtudes
morais de quem o aplica, e independente também daquela ordem transpessoal —
logos heraclitiano, polis aristotélica, lex aeterna agostiniana, Logos
divino tomista — em que a tradição clássica e medieval havia sempre inscrito o
exercício mesmo do pensar.
O leitor atento que percorrer o apêndice dialógico ao final deste capítulo
encontrará a articulação plena dessa observação.
O método
cartesiano funciona — em princípio — para o santo e para o canalha; basta
seguir as regras. O ego que diz cogito não é a alma particular de René
Descartes, com suas memórias da Touraine, seus serviços militares na Boêmia,
suas paixões, suas correspondências com Elisabeth da Boêmia. É a alma
universal, esvaziada de seus conteúdos contingentes, reduzida ao mínimo lógico
que pode pensar. A primeira pessoa cartesiana é uma máscara teórica que
qualquer um pode vestir. E essa vestibilidade — eis o ponto — é a marca
primeira da modernidade filosófica: o pensamento separa-se do pensador como o
instrumento se separa do artesão.
Pierre
Hadot fez ver, em estudos hoje clássicos, o tamanho dessa transformação. Na
antiguidade greco-romana, e ainda na patrística e no monaquismo medieval,
filosofar era um modo de viver — exame de consciência ao fim do dia, meditação
sobre a morte, atenção contínua a si, prática paciente da virtude. Sócrates não
pensava porque era filósofo; era filósofo porque havia ajustado a vida ao
pensamento. Tomás de Aquino não escreveu a Suma Teológica como tese acadêmica;
escreveu-a como articulação intelectual de uma vida monástica regrada pela
liturgia, pela oração silenciosa, pela obediência à Regra. Descartes, ao
desligar o método das virtudes do praticante, inicia o longo processo de
desencarnação que, três séculos depois, culminará no filósofo-funcionário público
da universidade alemã.
Kant
levará essa cisão ao seu termo lógico. A Crítica da Razão Pura não é
exercício espiritual; é fundamentação transcendental do conhecimento. A Crítica
da Razão Prática enuncia o imperativo categórico, mas o faz como demonstração
formal, não como confissão. Em Kant, pela primeira vez de modo plenamente
sistemático, a filosofia torna-se exercício teórico autônomo: a verdade
filosófica é independente do filósofo.
Pode-se, em princípio, pensar bem e viver mal, sem contradição lógica entre as
duas coisas — porque a contradição já foi expulsa do horizonte conceitual da
filosofia.
Não se
trata, evidentemente, de imputar a Kant pessoalmente a desunião entre vida e
pensamento. Pelo contrário, Kant viveu — Königsberg, passeios cronometrados
pela mesma alameda, regularidade quase monástica, frugalidade obstinada — uma
existência de exemplar coerência com a doutrina que enunciava. As donas-de-casa
de Königsberg, contava Heine, acertavam os relógios pelos passeios do filósofo.
Mas o quadro institucional que Kant consolida é o da filosofia como disciplina
universitária, como profissão. A filosofia migra da ágora e do mosteiro para a
cátedra. Ela ganha em rigor técnico o que perde em exigência existencial — e
essa troca, vantajosa na contabilidade de curto prazo, revelar-se-á
catastrófica no balanço civilizacional de dois séculos.
O século
XIX consolida o filósofo-funcionário público. A universidade alemã — em Berlim
refundada por Humboldt em 1810, em Iena, em Heidelberg, em Bonn — torna-se o
modelo institucional que, com ajustes locais, organizará o pensamento
filosófico até hoje. Paga-se ao filósofo para produzir conhecimento, não para
viver de acordo com ele. Hegel é professor em Berlim; Schelling é professor em
Iena, depois em Munique, depois em Berlim; Fichte é professor; mais tarde,
Husserl, Heidegger, Jaspers serão professores. O filósofo é avaliado pela
publicação, pela aula, pela orientação de tese, pelo número de seguidores — não
pela paciência da virtude.
Schopenhauer
ambiciona ser professor; fracassa. Marca suas aulas em Berlim no mesmo horário
das de Hegel — então no auge da fama — e a sala permanece vazia. Vai-se
queixar, pelo resto da vida, da "universidade prostituída", em que a
verdade filosófica está subordinada às conveniências do Estado prussiano. Há
aqui, sem dúvida, um juízo correto e um ressentimento. Mas o ressentimento, ele
próprio, é elemento do quadro: o filósofo moderno, mesmo o filósofo que
despreza a universidade, é alguém cuja identidade se mede pelo lugar que ocupa,
ou pelo lugar que não conseguiu ocupar, na hierarquia universitária. A ágora
desapareceu.
Resta apenas a cátedra — e quem se vê fora dela mede o exílio pelo lugar de
onde foi excluído.
O
pensador deixa de ser visto como mestre de sabedoria; passa a ser visto como
produtor de obras. A obra, e não a vida, é o que pesa na balança da reputação
acadêmica. Um homem pode ter empurrado uma costureira escada abaixo e
celebrado, em latim, a sua morte — sua obra, se brilhante, permanece no cânon.
Um homem pode ter aderido entusiasticamente ao mais brutal regime de extermínio
do século XX — sua obra, se profunda, permanece no cânon. Um homem pode ter
passado a vida apoiando regimes totalitários e justificando seus crimes — sua
obra, se influente, permanece no cânon. Essa autonomia da obra em relação à
vida é, do ponto de vista clássico e do ponto de vista das tradições orientais
como o confucionismo, monstruosa. Do ponto de vista da universidade alemã do
século XIX e de suas herdeiras, é simplesmente normal.
A
consequência dessa transição não é apenas sociológica. Ela altera o próprio
modo como a filosofia se autocompreende. Se o filósofo não precisa viver o que
pensa, então o pensamento pode tomar formas extremas, radicais, vertiginosas —
sem o contrapeso da experiência. Pode-se professar o pessimismo absoluto sem se
matar; pode-se professar a revolução proletária sem nunca ter trabalhado em uma
fábrica; pode-se professar a liberdade radical e apoiar regimes tirânicos;
pode-se professar a meditação sobre o Ser e prestar serviço ao mais brutal
regime de extermínio do século XX. O pensamento, desligado da vida, paga sua
autonomia com a perda de seu peso específico: torna-se infinitamente leve,
manejável, especulativo. E como toda leveza excessiva, atrai a vertigem.
Antes,
porém, de passarmos aos dois casos paradigmáticos do escândalo filosófico
contemporâneo — Schopenhauer e Heidegger —, há um episódio do século XX que
serve como demonstração viva do que está em jogo: o rompimento entre Albert
Camus e Jean-Paul Sartre, em 1952. Não há, na história intelectual recente,
alegoria mais perfeita do que aqui se descreve. O caso oferece a um só tempo as
duas figuras opostas: o filósofo de cátedra cuja vida desmente a doutrina; e o
filósofo da rua cuja doutrina é a articulação fiel da vida. Nas mesmas páginas
dos Tempos Modernos, na mesma Paris do pós-guerra, no mesmo círculo literário e
político — duas formas de filosofar, duas formas de existir como pensador, duas
posturas civilizacionais.
Sartre
era, em 1952, o maior intelectual da França. Professor de filosofia, hegeliano
de formação, autor de O Ser e o Nada (1943), criador, com Beauvoir, do
empreendimento literário-político mais influente da Europa continental do
pós-guerra. Sua doutrina existencialista pregava a liberdade radical, a
responsabilidade absoluta do indivíduo, a recusa de toda essência prévia que
limitasse a autocriação humana. "O homem está condenado a ser livre",
escreveu. E, no entanto, esse mesmo homem dedicou décadas a defender — com a
autoridade do filósofo, com a tribuna dos Tempos Modernos, com o prestígio
internacional do Nobel recusado — os regimes que mais sistematicamente negaram
a liberdade humana no século XX. Stálin, primeiro.
Mao, depois. Castro, em seguida. As Brigadas Vermelhas italianas, em sua fase
mais radical. Sartre não ignorava o gulag em 1954, quando declarou ao
Libération que "a liberdade de crítica é total na URSS"; preferia
ignorá-lo. Ignorava-o por escolha.
Camus
era seu oposto sob todos os aspectos. Filho de uma faxineira analfabeta e de um
pai morto na Primeira Guerra, criado em uma das ruas mais pobres de Argel, ele
havia trabalhado, lavado pratos, vendido peças de automóvel, antes de chegar à
literatura. Não era professor de filosofia; era romancista que filosofava
porque tinha alguma coisa a dizer. Sua doutrina — articulada em O Mito de
Sísifo, em A Peste, em O Estrangeiro — era a do absurdo
enfrentado com dignidade, da rebelião que mantém limites, da solidariedade
humana que não justifica o crime nem mesmo em nome do crime alheio. E sua vida
confirmava ponto por ponto a doutrina: militou na Resistência durante a
ocupação, dirigiu o jornal clandestino Combat, recusou o conforto fácil das
alianças ideológicas, escreveu sobre a tortura na Argélia condenando-a embora
soubesse que isso o tornaria suspeito para todos os lados.
Em 1951,
Camus publica O Homem Revoltado. O livro distingue entre a rebelião
autêntica — que mantém o limite e a memória do absurdo — e o niilismo
revolucionário, que, em nome da justiça futura, justifica toda violência
presente. "Toda a história dos partidos revolucionários", escreve,
"confirma esta verdade: os que começam por querer a justiça terminam por
organizar uma polícia." Era uma denúncia direta do stalinismo, ainda que
Camus tivesse o pudor de não personalizar. Sartre, em vez de responder a Camus,
ordenou que um de seus subalternos nos Tempos Modernos — Francis Jeanson —
escrevesse uma resenha demolidora. Camus respondeu ao subalterno através do
mestre, escrevendo a Sartre. E Sartre, em agosto de 1952, publicou aquela que
se tornaria uma das peças
mais célebres e mais constrangedoras da história do existencialismo europeu:
uma carta aberta de ruptura.
"Meu
caro Camus, nossa amizade não era fácil, mas vou ter saudades dela" —
começava Sartre. E procedia, com a habilidade retórica que ninguém lhe negava,
a desqualificar o ex-amigo: Camus era moralista pequeno-burguês, era filho da
Argélia pied-noir, era escritor sem rigor filosófico, era homem que
confundia indignação ética com pensamento histórico. Camus jamais respondeu
publicamente. Sua resposta foi a vida que continuou a viver: o Nobel em 1957
(que aceitou, ao contrário de Sartre, com humildade pública), as crônicas sobre
a Argélia escritas no fio da navalha, o trabalho silencioso em O Primeiro
Homem que ficaria inacabado no porta-malas do automóvel onde, em 4 de
janeiro de 1960, ele morreria aos 46 anos.
Quem
teve razão? Para os contemporâneos europeus de 1952, a resposta era clara:
Sartre. A intelectualidade parisiense esteve com Sartre; os jornais de esquerda
estiveram com Sartre; o prestígio acadêmico esteve com Sartre. Camus foi
reduzido, durante anos, à condição de moralista provinciano. Mas a história —
entendida como o longo decantamento que apenas as gerações posteriores podem
fazer — deu razão a Camus de modo cabal. O gulag tornou-se inegável. A
Revolução Cultural tornou-se inegável. Cuba tornou-se inegável. Em 1989, quando
o Muro de Berlim caiu, Sartre estava morto havia nove anos, e quase toda a sua
produção política do pós-guerra estava postumamente refutada. Camus, morto em
1960, fora vindicado.
O caso
Sartre-Camus não é, contudo, apenas episódio biográfico. Ele é, em condensação,
o caso mesmo de que esta seção trata. Sartre é o filósofo moderno em sua forma
pura: cátedra, sistema, prestígio, autonomia da obra em relação à vida,
capacidade de absorver toda contradição empírica sob o aparato conceitual sem
que a pessoa do filósofo seja moralmente afetada. Camus é o resíduo do filósofo
antigo em pleno século XX: vida que articula doutrina, doutrina que vida
confirma, recusa de separar o pensamento da experiência concreta de quem pensa.
Não é por acaso que Sartre esteja na universidade e Camus na rua. Não é por
acaso que Sartre escreva em uma língua filosófica técnica, e Camus em uma
língua literária acessível. Não é por acaso que Sartre se equivoque
sistematicamente sobre o que acontecia nos países que defendia, e Camus acerte
sistematicamente. A estrutura mesma da filosofia profissionalizada favorece o
primeiro e desfavorece o segundo.
Há,
contudo, um aspecto do problema que somente uma reflexão posterior — e,
parece-me, especificamente brasileira — formulou com a precisão necessária.
Trata-se da observação de Olavo de Carvalho, em texto intitulado "Tensão
dialética entre discurso e prática", segundo a qual o conteúdo de uma
ideologia não pode jamais ser conhecido pelo discurso que a veicula. "Ele
está", escreve Olavo, "na tensão dialética entre discurso e
prática". A frase é breve; suas consequências, vertiginosas. Olavo
distingue, ali, com clareza que a tradição filosófica europeia raramente
alcançou, dois sentidos do que estamos chamando de "incoerência".
Se uma doutrina prega insistentemente
o bem mas pratica constantemente o mal, não se trata de uma ideia linda que foi
traída na prática. Ao contrário, o que define essa ideologia é precisamente a
ambiguidade moral crônica.
Essa
proposição obriga a uma reorganização inteira do problema. Em um primeiro
sentido — o sentido tradicional, ao qual pertence o caso Schopenhauer e que
será desenvolvido no capítulo seguinte —, a incoerência é falha pessoal do
pensador. O filósofo prega a compaixão e empurra a costureira escada abaixo; o
filósofo prega o bem e pratica o mal. Há, aqui, doutrina e há vida, e entre uma
e outra abre-se o vão escandaloso. Em um segundo sentido — e este é o sentido
que Olavo isola com agudeza —, a incoerência não é falha do pensador, mas
estrutura constitutiva da ideologia. Aqui, o discurso e a prática são
instrumentos coordenados de uma mesma estratégia. Não há doutrina traída por
vida; há doutrina cuja unidade real só pode ser captada na oscilação calculada
entre o que se diz e o que se faz.
Olavo dá
exemplos. O nazismo pregava a pureza racial, mas sempre achava um jeito de
provar que seus aliados — quaisquer que fossem suas origens raciais —
pertenciam de algum modo à "raça superior". O comunismo prega o
combate ao capitalismo, mas opera confortavelmente no território amplo que vai
do fomento ao capitalismo de Estado à estatização radical, conforme
conveniência do momento. A esquerda brasileira combate a corrupção, mas, uma
vez instalada no poder, rouba mais do que todos os outros partidos. Em cada um
desses casos, escreve Olavo, "o que define a ideologia é precisamente o
jogo dialético do moralismo e do roubo, ambos os polos servindo ao acréscimo
permanente do poder partidário". O conteúdo da ideologia não é o discurso;
é a relação calculada entre o discurso e a prática contrária.
A
observação tem raiz teórica precisa, ainda que Olavo a apresente em registro
coloquial: ela é aplicação rigorosa de princípio que o próprio marxismo formula
sob o nome de "unidade dialética dos opostos", e que Lênin, em seus
Cadernos Filosóficos, descrevia como "flexibilidade dos conceitos".
Onde o pensamento burguês — empirista, popperiano, analítico — vê uma
contradição que precisa ser resolvida e dissolvida, o pensamento dialético em
sua versão leninista vê uma oposição que precisa ser aprofundada e aproveitada
como parte da estratégia geral. "Dada uma contradição, o pensamento
burguês tenta logo resolvê-la e livrar-se dela.
O marxismo busca antes de tudo aprofundá-la e aproveitá-la." É exatamente
aqui, escreve Olavo, que "pessoas de formação liberal, discípulas de Karl
Popper e similares, jamais entenderão porra nenhuma de marxismo".
A
vulgaridade da expressão — Olavo a cultivava deliberadamente, como Sócrates
cultivava a aparência grosseira em seus diálogos — não deve impedir o leitor de
captar a profundidade da intuição. O que Olavo está dizendo é o seguinte:
aplicar à ideologia totalitária o critério da coerência formal entre discurso e
prática é cometer um erro categorial. É como tentar pesar uma sinfonia, ou
medir uma cor com régua. A ideologia totalitária não é doutrina cuja prática se
possa avaliar pela conformidade ao discurso; é dispositivo cuja unidade real
está precisamente no jogo coordenado entre os dois polos. Quem se limita a
denunciar a incoerência — "vejam, o partido que pregava o bem prega agora
o mal!" — está sendo, sem perceber, manipulado pela própria estrutura que
pretende criticar. Porque a ideologia conta com essa denúncia. A denúncia é,
ela mesma, função do dispositivo.
É o que
Hannah Arendt já percebera, em Origens do Totalitarismo, ao descrever como a
ideologia totalitária é irrefutável pelos fatos: o sucesso é confirmação, o
fracasso é confirmação invertida, a contradição é confirmação ainda mais sutil.
É o que Eric Voegelin desenvolveu, sob o nome de "gnose moderna":
dispositivo em que o discurso teórico e a ação efetiva são deliberadamente
desligados, mas coordenados, como instrumentos de uma estratégia única. Olavo
de Carvalho condensa Arendt e Voegelin em uma fórmula direta e a aplica ao caso
brasileiro contemporâneo — operação intelectual rara, e que oferece à filosofia
política do nosso tempo uma das suas categorias hermenêuticas mais úteis.
É
preciso, então, distinguir com cuidado. Há a incoerência ingênua — a do
filósofo que prega o bem e fracassa no bem, sem saber por que. Esta é a
tragédia humana antiga, a que Aristóteles deu o nome de akrasia. Há a
incoerência escandalosa — a do filósofo que prega o bem e organiza a vida
segundo o mal, sem que tal contradição lhe perturbe a serenidade da obra. Esta
é a marca específica da modernidade filosófica que aqui se vem descrevendo:
tornou-se possível porque a universidade desligou a obra da vida, e o filósofo
da prática da virtude. E há, finalmente, a incoerência estratégica — a do
ideólogo cuja contradição entre discurso e prática é o próprio conteúdo de
seu pensamento. Esta última, talvez a mais perigosa porque a mais consciente, é
aquela contra a qual a denúncia moralista é inerte. Só a desativam o
discernimento longo, a paciência da inteligência, a recusa de ser manipulado
pelo dispositivo que se pretende criticar.
Friedrich
Nietzsche escreveu, em Para Além do Bem e do Mal, que toda grande
filosofia é a autoconfissão involuntária de seu autor. A intuição é correta,
mas — como Olavo de Carvalho mostra — insuficiente. A filosofia é autoconfissão
apenas onde o filósofo aceita que a autoconfissão obrigue. Onde a autoconfissão
obriga ainda mais é onde o filósofo finge que ela não obriga: e o próprio
fingimento entra, então, no que se confessa. O caso Sartre não é apenas Sartre
dizendo o que pensa; é Sartre fingindo que sua vida não desmente o que pensa, e
essa ficção é parte do que ele pensa. O caso de toda ideologia totalitária não
é apenas o que ela diz; é o que ela faz contradizendo o que diz, e essa
contradição é parte do que ela é.
Resta o
caminho de volta. Não há, em filosofia, atalho. A unidade entre logos e bios —
a phronesis aristotélica,
o junzi confuciano, a sapientia tomista — não se restitui por
decreto nem por reforma curricular. Restitui-se um filósofo de cada vez, uma
vida de cada vez, uma decisão concreta de cada vez. Quando o leitor que
acompanha o mundo da filosofia volta ao seu livro, à sua sala, à sua mesa de
trabalho, é nessa pequena escala — invisível à universidade, invisível ao
mercado editorial — que a tarefa se cumpre. Cada vida pensada com integridade
é, hoje, um ato de resistência civilizacional silenciosa. A grande filosofia,
no nosso tempo, talvez já não venha da cátedra; talvez venha, como veio em
Camus, do lado de fora dela. É para isso que importa ler — com olhos abertos
para a doutrina e para a vida, sem aceitar uma sem a outra, sem confundir
nenhuma das duas com o que ela não é.
É com
essa exigência preparada que devemos agora aproximar-nos dos dois casos mais
célebres — e, em certo sentido, mais espantosos — do escândalo da incoerência
filosófica contemporânea. Schopenhauer e Heidegger esperam-nos na próxima
curva. E é tempo de aproximá-los sem a ingenuidade que os reduziria a meras
anedotas, sem o moralismo que os descartaria como simples canalhas, e sem o
esteticismo que os absolveria em nome da grandeza da obra. É tempo de
aproximá-los com o olhar adulto que a filosofia, em seus melhores momentos,
soube cultivar — e que precisa, hoje, ser cultivado de novo.
DESCARTES, René. Meditações Metafísicas, São
Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. O caráter aparentemente confessional do texto
cartesiano é, contudo, dispositivo retórico: a primeira pessoa não é a de um
sábio que examina sua alma, e sim a do método que se propõe como reproduzível
por qualquer sujeito racional. Sobre essa transição, ver Étienne GILSON, Études
sur le rôle de la pensée médiévale dans la formation du système cartésien,
Paris: Vrin, 1984; e Jean-Luc MARION, Sur l'ontologie grise de Descartes,
Paris: Vrin, 1981.
Pierre HADOT, Exercícios Espirituais e Filosofia
Antiga, São Paulo: É Realizações, 2014, esp. o capítulo "Exercícios
espirituais antigos e \"filosofia cristã\"". Hadot mostra com
elegância como, da antiguidade greco-romana à patrística e ao monaquismo
medieval, o filosofar foi indissociável de práticas concretas — exame de
consciência, meditação sobre a morte, atenção a si — que faziam da vida o solo
da doutrina. A modernidade cartesiana, ao desligar o método das virtudes do
praticante, inicia o longo processo de desencarnação que culminará, três
séculos depois, no filósofo-funcionário público da universidade alemã.
Immanuel KANT, Crítica da Razão Pura, São Paulo:
Vozes, 2012; Crítica da Razão Prática, São Paulo: WMF Martins Fontes,
2016. Sobre a vida regrada do filósofo de Königsberg, o testemunho clássico é o
de Heinrich HEINE, Contribuição à História da Religião e da Filosofia na
Alemanha (1834), São Paulo: Iluminuras, 1991, em que Heine descreve com
humor a regularidade dos passeios cronometrados pelos quais as donas-de-casa da
cidade acertavam os relógios.
Cf. Alasdair MACINTYRE, Depois da Virtude, São
Paulo: É Realizações, 2022. MacIntyre interpreta a transição moderna como o
momento em que as virtudes deixam de ser entendidas como práticas inscritas em
uma tradição viva e passam a ser objeto de fundamentação racional abstrata —
fundamentação que, ao final do projeto iluminista, fracassa, deixando o
discurso moral moderno na condição de fragmentos descontextualizados. A
categoria de "prática" em MacIntyre, articulada à de
"tradição" e "narrativa", oferece o aparato conceitual mais
robusto disponível para diagnosticar o que se perdeu com a profissionalização
acadêmica do pensamento filosófico.
Sobre a constituição da universidade alemã do século
XIX e seu modelo humboldtiano, ver Friedrich PAULSEN, Geschichte des
gelehrten Unterrichts auf den deutschen Schulen und Universitäten, Leipzig,
1896–1897; e o estudo contemporâneo de Helmut SCHELSKY, Einsamkeit und
Freiheit: Idee und Gestalt der deutschen Universität und ihrer Reformen,
Düsseldorf, 1971. O modelo profissionalizou o pensamento filosófico ao mesmo
tempo em que lhe deu o rigor técnico que conhecemos — ganhando, em uma esfera,
exatamente o que perdia em outra.
A frustração acadêmica de Schopenhauer é objeto
clássico de sua biografia: marcou suas aulas em Berlim no mesmo horário das de
Hegel — então no auge da fama —, e a sala permaneceu vazia. Cf. Rüdiger
SAFRANSKI, Schopenhauer e os Anos Selvagens da Filosofia, São Paulo:
Geração Editorial, 2011. A misantropia ulterior do filósofo de Frankfurt deve,
em parte, ser lida à luz desse fracasso institucional — e, nesse sentido, o
sistema universitário não foi apenas pano de fundo, mas elemento ativo na
formação psicológica do mais célebre pensador do pessimismo.
Jean-Paul Sartre visitou a União Soviética em 1954 e,
ao regressar, declarou ao Libération que "a liberdade de crítica é
total na URSS" — afirmação que se tornaria, com o passar das décadas, um
dos enunciados mais embaraçosos da história do intelectual europeu do
pós-guerra. Documentação em Annie COHEN-SOLAL, Annie. Sartre: Uma Biografia,
(1986); A defesa de Stálin, a justificação dos campos de trabalho forçado, o
apoio ulterior à Revolução Cultural maoista e à fração mais radical do Maio de
1968 articulam, no conjunto, um padrão que somente a queda do Muro de Berlim em
1989 — nove anos após a morte de Sartre — permitiria avaliar em sua plena
dimensão histórica.
SOLJENITSYN, Aleksandr. Arquipélago Gulag, (2017–2019);
A documentação do sistema concentracionário soviético — disponível em
fragmentos desde os anos 1920 e amplamente conhecida desde os relatórios de
Boris Souvarine, de Victor Kravchenko e de Margarete Buber-Neumann nas décadas
de 1930 e 1940 — não era ignorada por Sartre quando ele optava pela
cumplicidade. Era ignorada por escolha.
Sobre Albert Camus e sua biografia, ver TODD, Olivier. Albert
Camus: Uma Vida, op. cit.; e CAMUS, Catherine (org.), Albert Camus:
Solitaire et Solidaire, (2009); Filho de uma faxineira analfabeta e de um
pai morto na Primeira Guerra, criado na Argélia em condições de pobreza
extrema, Camus jamais perdeu, mesmo no auge do reconhecimento parisiense
(Prêmio Nobel em 1957), o vínculo com aquilo de que tinha vindo. Sua L'Étranger
e La Peste não são exercícios literários de uma elite; são a articulação
ficcional de uma experiência vivida.
CAMUS, Albert. O Homem Revoltado (L'Homme
révolté), (2017 [1951]); Camus distingue entre a rebelião autêntica
— que mantém o limite, a memória do absurdo e a recusa absoluta de transformar
o adversário em objeto manipulável — e o niilismo revolucionário, que,
em nome da justiça futura, justifica toda violência presente. "Toda a
história dos partidos revolucionários", escreve Camus, "confirma esta
verdade: os que começam por querer a justiça terminam por organizar uma
polícia."
Sobre o episódio da ruptura, ver LÉVY, Bernard-Henri. O
Século de Sartre, (2001); e TODD, Olivier. Albert Camus: Uma Vida, (1997);
A carta aberta de Sartre, publicada em Les Temps Modernes em agosto de
1952, abre com a famosa frase: "Meu caro Camus, nossa amizade não era
fácil, mas vou ter saudades dela." Camus jamais responderia em vida; sua
resposta seria a vida que continuou a viver — e a morte prematura num acidente
de automóvel, em 1960, com o manuscrito de O Primeiro Homem no
porta-malas.
CARVALHO, Olavo de. "Tensão dialética entre
discurso e prática", artigo. A formulação é de notável precisão: "o
conteúdo de uma ideologia não pode jamais ser conhecido pelo discurso que a
veicula; ele está na tensão dialética entre discurso e prática". Trata-se
de aplicação rigorosa de princípio que o próprio marxismo formula sob outros
nomes — a unidade dialética dos opostos —, mas que o marxismo, na prática,
esconde ao apresentar-se externamente como doutrina linear. Sobre a metodologia
hermenêutica olaviana, ver Aristóteles em Nova Perspectiva, (2013); e O
Jardim das Aflições, (2015).
Hannah Arendt analisou esse mecanismo em Origens do
Totalitarismo, (2012 [1951]); Parte III, esp. o capítulo "A propaganda
totalitária". A ideologia totalitária não é refutável pelos fatos porque
os fatos, dentro de seu sistema, são sempre interpretáveis tanto como
confirmações quanto como confirmações invertidas: o sucesso é prova, o fracasso
é prova mais sutil, a contradição é prova ainda mais profunda. É a estrutura
mesma a que Olavo de Carvalho se refere com o nome de "tensão
dialética".
Cf. LÊNIN, Vladimir. Que Fazer?, (1988 [1902]);
e Cadernos Filosóficos (escritos em Berna, 1914–1915), publicados
postumamente. A apropriação leninista de Hegel — em particular da Ciência da
Lógica — articula o que Lênin chamava de "flexibilidade dos
conceitos", isto é, a aptidão para sustentar simultaneamente uma tese e
seu oposto, conforme exigência tática. A relação entre essa
"flexibilidade" e o que Aristóteles denunciava como sofística é, ela
mesma, tema de filosofia primeira.
POPPER, Karl. A Sociedade Aberta e seus Inimigos,
(1974); Conjecturas e Refutações, (1972); A crítica popperiana ao
marxismo e à psicanálise como sistemas irrefutáveis — capazes de
absorver toda evidência contrária como confirmação — é importante, mas, como
Olavo de Carvalho observa, permanece aquém do problema: Popper trata como falha
lógica aquilo que, do ponto de vista de Lênin e Stálin, era método. A
irrefutabilidade é a estrutura, não o defeito.
VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política, (1982
[1952]); e Science, Politics, and Gnosticism, (1968); A categoria
voegeliniana de "gnose moderna" descreve precisamente a forma de
consciência em que o discurso teórico e a ação efetiva são deliberadamente
desligados — não por descuido, mas como dispositivo de poder. O que o sistema
diz e o que o sistema faz são, no gnóstico moderno, instrumentos coordenados de
uma estratégia única, ainda que aparentemente contraditórios à superfície.
NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal,
(2005 [1886]); §6, em que Nietzsche escreve: "Aos poucos foi-se desvelando
para mim o que toda grande filosofia até hoje foi: a saber, a autoconfissão de
seu autor e uma espécie de involuntárias e despercebidas mémoires".
A intuição é correta mas insuficiente: a filosofia é autoconfissão apenas onde
o filósofo aceita que a autoconfissão obrigue. Onde a obriga ainda mais, é onde
o filósofo finge que ela não obriga — e o fingimento entra, ele próprio, no que
se confessa.
ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, VI, 5,
1140a–1140b. A phronesis — prudência prática, sabedoria deliberativa — é
a virtude intelectual cuja atividade consiste em aplicar o universal ao caso
concreto, no kairós, no momento oportuno. Diferentemente da sophia
(sabedoria teórica), a phronesis não pode ser ensinada por demonstração;
só se adquire pela formação prolongada na virtude, no convívio com homens
prudentes, na experiência consolidada em hábito. É exatamente essa virtude que
a universidade alemã do século XIX desativou, ao convencer-se de que a
filosofia poderia ser transmitida apenas pelo argumento técnico.