domingo, junho 14, 2026

Carta a um leitor — II: Sobre o logos, a doxa e a mediação das palavras

Carta a um leitor — II

Sobre o logos, a doxa e a mediação das palavras

Caro amigo,

Alegra-me a sua disposição de estudar mais — mas deixe-me dizer-lhe que o seu recuo é, ele próprio, um avanço. Abandonou a tese forte, segundo a qual tudo seria retórica, e fixou-se numa mais sutil e, em parte, verdadeira: a de que os próprios critérios que invoquei — o auditório universal, a força do melhor argumento — estão influenciados pela retórica; a de que o real é, em grande medida, mediado pelas palavras; e, daí, a de que, em certa medida, o logos se confunde com a doxa. Concedo-lhe muito disto de bom grado — e é justamente na concessão que se verá por que a confusão não é total, e por que o seu próprio modo de a enunciar já a limita.

Comecemos pela concessão, que faço sem reservas, porque o realismo que defendo nunca foi ingênuo. Tem toda a razão: o auditório universal não é um fato que se encontre, mas uma construção — Perelman o diz com todas as letras: cada orador, cada época, edifica à sua imagem o auditório de todos os seres de razão.[1] E a situação ideal de fala de Habermas jamais se realiza: é contrafactual, ficção reguladora. Ambos são, pois, condicionados pela história e pela linguagem; não são a saída limpa para fora do discurso, que você, com razão, suspeita não existir. O hermeneuta sabe-o melhor que ninguém: não há intelecção sem mediação.

Mas note duas coisas, que mudam tudo. A primeira está na sua própria frase. Você escreve que o logos se confunde com a doxa em certa medida. Ora, quem diz medida diz grau, e quem diz grau pressupõe os polos entre os quais se mede. Se o logos fosse pura doxa, não haveria medida alguma a assinalar, e a expressão “em certa medida” perderia o sentido. A confusão parcial que você observa não dissolve a distinção: vive dela. Uma membrana que deixa passar não deixa, por isso, de ser membrana. A segunda: um critério regulador não tem por função ser um fato livre de retórica, mas servir de medida àquilo que a retórica produz.[2] O auditório universal e o melhor argumento operam precisamente quando dizemos que uma plateia se enganou, que um discurso brilhante era falso, que fomos seduzidos quando devíamos ter sido convencidos. Esse dever-ser, irredutível ao “foi persuadido”, é o pé em que nos firmamos. A norma não paira acima da retórica como um astro; habita-a como uma exigência.

A sua observação, porém, merece mais do que defesa: merece que se a leve a sério até ao ponto em que se converte em sabedoria antiga. Pois a relação entre logos e doxa nunca foi, na boa tradição, a de duas caixas estanques, mas a de uma mediação. Para Platão, a doxa não é simplesmente o falso: há a opinião verdadeira, que, diz o Mênon, é como as estátuas de Dédalo — belas, mas fujonas, até que se as ate pelo raciocínio da causa; atadas, fazem-se ciência.[3] O logos não cai do céu: ganha-se da doxa, atando-a. E Aristóteles começa sempre pelas opiniões respeitáveis, os endoxa, e, desfazendo-lhes as aporias, ascende aos princípios.[4] De modo que você tem razão pela metade: o logos confunde-se com a doxa no princípio, sim; mas a vida da inteligência consiste justamente em parti-los, com paciência, dando razões e submetendo-as à prova. A confusão é o ponto de partida, não o veredito.

Quanto ao noûs, que honestamente promete estudar — e fará bem, pois nele está o nó —, guardo-lhe apenas um aceno que talvez lhe poupe um descaminho. O noûs não é um canal que contorne a linguagem, intuição mágica sem palavras; é o intelecto a captar, na experiência e muitas vezes na própria linguagem, aquilo que a linguagem não fabrica.[5] E a prova de que algo trans-retórico ali se apreende você mesmo a forneceu: a tradução é possível, e tradições adversárias convergem. Reparou que Aristóteles, Perelman e Habermas, falando idiomas tão diversos, apontam todos para uma medida acima da persuasão. Se tudo fosse doxa e retórica, tal convergência seria um milagre sem causa; a própria ideia de esquemas de pensamento radicalmente incomunicáveis, como mostrou Davidson, é incoerente, pois interpretar já supõe um mundo partilhado.[6] Três retóricas que apontam para o mesmo ponto denunciam que há um ponto.

E aqui devolvo-lhe a sua melhor frase — “o real é mediado pelas palavras em grande medida” — convertida de objeção em tese. É exatamente o que sustenta a hermenêutica; e ela não é antirrealista. Para Gadamer, a linguagem não é um véu interposto entre nós e o mundo, mas o medium em que o mundo se nos abre: o ser que pode ser compreendido é linguagem.[7] Os nossos preconceitos não são o contrário da compreensão, mas a sua condição — e, contudo, expõem-se à correção da própria coisa, que tem, na conversa, uma autoridade que não vem de nós. A mediação é o modo do acesso, não a sua prisão. Que eu só veja pela janela não faz da paisagem um efeito do vidro; e que o vidro esteja embaçado, sabemo-lo justamente porque a paisagem resiste a deixar-se por ele apagar de todo.

Deixe-me, por fim, uma observação que não é argúcia, mas afeto. Você encerra dizendo que terá de estudar mais. Repare no que essa frase, tão modesta, pressupõe. Se o logos fosse mera doxa, estudar seria apenas trocar uma opinião por outra, sem ganho de verdade — e não haveria por que fazê-lo. Mas você estuda porque espera que o estudo o aproxime daquilo que a coisa é, e não apenas do que mais gente acha. Essa esperança é a distinção entre logos e doxa, viva e a operar no seu próprio propósito. Você afirma com o ato o que hesita em conceder com a teoria — e não há melhor companhia do que essa.

Fica, então, o quadro que me parece justo, e que não é nem o seu temor nem a minha pretensão: não o logos contra a doxa, como duas potências separadas; nem o logos igual à doxa, como quer o ceticismo; mas o logos como a purificação incessante da doxa sob a pressão do real — tarefa que nenhuma geração conclui e que cada uma recebe e transmite. É exatamente isto a continuidade de sentido de que trata o livro; e é por isto que o conservador não se impacienta. Ele sabe que a verdade não se demonstra de uma vez, como um teorema, mas se conquista e se reconquista, opinião a opinião atada, ao longo do tempo. O sofista declara vã a tarefa; o racionalista quer dispensá-la com uma prova; o conservador apenas a continua.

Estude, pois — e que estudo invejável o aguarda. Releia o Mênon e o livro VI da República, sobre a linha dividida; os Tópicos e o início do livro VII da Ética a Nicômaco, pela arte de partir dos endoxa; e a Verdade e método de Gadamer, que fará as pazes entre a sua intuição sobre a mediação e o seu apreço pelo real. Verá que o caminho que o assusta é, afinal, o único que conduz aonde já quer chegar. E quando escrever o seu artigo, mande-mo: terei o gosto de ser, dele, o primeiro leitor atento.

Com amizade,

Afranio Campos — Salvador, 2026


[1]Perelman reconhece que o auditório universal não é um dado que se encontre, mas uma construção: cada orador, e cada época, o constitui à sua imagem, como o conjunto de todos os seres tidos por razoáveis. PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica (1958). A objeção — de que o critério é condicionado pela retórica — está, pois, já admitida pela própria teoria.

[2]Quem argumenta a sério já levanta pretensões de validade que excedem o auditório local: é a estrutura contrafactual que Habermas chamou situação ideal de fala. A norma reguladora não existe fora da retórica como um facto, mas opera dentro dela como exigência. HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo (1983).

[3]PLATÃO, Mênon, 97e–98a: a opinião verdadeira é como as estátuas de Dédalo, que fogem se não forem atadas; atada pelo “raciocínio da causa” (aitías logismós), torna-se ciência (epistéme). Cf. República, V, 476–480, sobre a doxa como potência intermédia entre o saber e a ignorância.

[4]ARISTÓTELES, Tópicos, I, 1, e Ética a Nicômaco, VII, 1, 1145b: o método de partir dos endoxa — as opiniões respeitáveis — e, resolvendo as aporias, ascender aos princípios. O logos trabalha a partir da doxa, não à sua revelia.

[5]ARISTÓTELES, Segundos Analíticos, II, 19: dos particulares percebidos, pela indução (epagogé), eleva-se ao universal captado pelo noûs — não fora da experiência, mas através dela. O noûs não dispensa a mediação: capta nela o que ela não fabrica.

[6]DAVIDSON, Donald. On the Very Idea of a Conceptual Scheme (1974): a noção de esquemas conceituais radicalmente incomensuráveis é incoerente, pois toda interpretação pressupõe um mundo e uma racionalidade partilhados. A convergência entre Aristóteles, Perelman e Habermas é sintoma disso.

[7]GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método (1960): “o ser que pode ser compreendido é linguagem”. A linguagem não é véu, mas medium da abertura ao mundo; e a coisa mesma (die Sache) conserva, no diálogo, uma autoridade que corrige os nossos preconceitos.

quinta-feira, junho 11, 2026

Carta a um leitor do ensaio A Fome no Banquete dos Sinais

 Carta a um leitor do ensaio A Fome no Banquete dos Sinais

Sobre a razão retórica, a ideologia e a objetividade do real

Caro Alessandro,

Agradeço-lhe, antes de tudo, a leitura — e a generosidade de a ter feito sem lápis, no exíguo conforto de um avião, fiando-se da memória. Que partilhemos os mesmos interesses — Frankfurt, o Logos, a objetividade do real — torna a sua objeção mais valiosa ainda, pois vem de quem joga no mesmo tabuleiro. E a objeção é séria; é, em verdade, a mais grave que se pode dirigir a um realista. Tem linhagem antiga: é, no fundo, a pergunta que Platão pôs aos sofistas, agora envergando o vocabulário de Perelman. Recebo-a, por isso, não como um golpe, mas como uma daquelas perguntas que obrigam a pensar melhor o que se escreveu. Deixe-me reformulá-la, para que veja que a entendi, e depois respondê-la em vários tempos.

Você coloca a dificuldade em duas faces. Primeira: se o real é independente da ideologia, como pode ser pela ideologia que se restaura? Segunda: o embate entre a razão matemática — estruturante, lógica, demonstrativa — e a razão retórica — argumentativa, valorativa, ligada ao verossímil — trava-se no campo desta última, com as armas dela, e é ela que se proclama vencedora; donde mesmo a defesa do real seria uma vitória retórica, e não uma evidência. Concedo de saída o que há de verdadeiro e incontornável: não há, para a razão finita, ponto de Arquimedes fora do discurso; argumentamos sempre de dentro da linguagem e da tradição. A questão decisiva é outra: se dessa mediação se segue a constituição — se o fato de alcançarmos o real por meio de signos faz do real um produto dos signos. Sustento que não, e exponho-lhe as razões.

A primeira desfaz uma equivocação sobre o verbo restaurar. Restaurar o real não significa, no ensaio, trazer o real à existência — isso seria render-me ao adversário no primeiro lance —, mas restaurar o nosso acesso ao real, reabrir o contacto que a erosão fechara. A distinção é antiga e decide tudo: uma coisa é a ordem do ser, outra a ordem do conhecer.[1] Que cheguemos ao real por último, e por mediações, não o torna último no ser. O sol não depende do olho para existir, embora o olho dependa do sol para ver. Assim, restaurar pela retórica ou pela tradição diz respeito à ordem do conhecer e do transmitir — ao modo humano de reaver um contato perdido —, e não à ordem do ser, que permanece soberana. Não se fabrica a margem reconstruindo a ponte; e toda a tese do livro é, precisamente, que há margem.

A segunda razão devolve-lhe Perelman, que julgo militar a nosso favor, não contra nós. Perelman não concluiu que, sendo tudo argumentação, nada seja verdadeiro; ao contrário, ergueu a nova retórica para salvar a razão prática do reducionismo positivista que sentenciava: só o demonstrável é racional, o resto é arbítrio. E, para distinguir a mera persuasão — ligada a um auditório particular — da convicção — válida para todos —, introduziu o auditório universal: o auditório ideal de todos os seres de razão, norma reguladora que mede a qualidade de um argumento.[2] Ora, o auditório universal é justamente a abertura interna da retórica para algo que a transcende: um argumento não vale por agradar a esta plateia, mas por valer para a razão como tal. Logo, não é exato que a retórica se proclame vencedora a si mesma; dentro da própria retórica há um tribunal que não é a plateia, mas a razão universal — a qual, por sua vez, está ordenada ao real. A retórica é a sala do tribunal; o critério do veredito não é o aplauso, mas a adequação.

A terceira razão observa o que sucede quando a tese rhetoricista se radicaliza até dizer: não há tribunal além da retórica; é sempre ela que coroa o vencedor. Esta frase é, ela mesma, ou uma afirmação que se pretende verdadeira sobre o modo como as disputas se decidem — e então invoca o tribunal da verdade que nega, caindo na contradição performativa que Aristóteles opôs ao negador do princípio de não-contradição: para negá-lo, é mister significar algo determinado, isto é, já pressupô-lo[3] —; ou é apenas mais um lance retórico, sem mais autoridade do que o lance contrário, e então não pode proclamar vencedor coisa alguma, pois abdicou do direito de obrigar. Em ambos os casos, o cepticismo retórico não vence o realismo: ou o pressupõe, ou se desarma. O sofista que diz “tudo é retórica” quer que eu o creia verdadeiro — e, ao querê-lo, dá-me razão.

A quarta razão examina um pressuposto oculto na sua formulação: o de que, ou o real se estabelece pela razão matemática, pela demonstração pura, ou então é mera retórica. Mas esta é exatamente a dicotomia que Perelman recusou — e que a tradição recusara muito antes. Os primeiros princípios não se demonstram: captam-se. Aristóteles atribui o seu conhecimento ao noûs, não à prova, e adverte que exigir demonstração de tudo, inclusive dos princípios, é sinal de falta de educação filosófica.[4] O princípio de não-contradição, a existência do mundo exterior, a realidade do outro — nada disto se prova sem círculo, e tudo isto é mais certo do que qualquer prova. Há um contato pré-discursivo com o real — o que no ensaio chamei o tato do real, e que Newman nomeava senso ilativo e Polanyi conhecimento tácito[5] — que o discurso articula e defende, mas não cria. Que o realismo seja defendido retoricamente, e não demonstrado matematicamente, não é escândalo: é a condição normal de todo compromisso fundante — inclusive o do cético, que tampouco demonstra o seu ceticismo.

A quinta razão toca o ponto que, suponho, mais lhe interessa, dado o nosso comum apreço por Frankfurt. A sua primeira face desliza de “ideologia” para “razão retórica”, e convém separá-las. Ideologia, no sentido forte e pejorativo que vem de Marx, passa por Mannheim e culmina na crítica frankfurtiana, é a consciência fechada e invertida, a falsa totalidade que serve ao poder e toma os próprios produtos por natureza.[6] Ora, o ensaio é, na sua intenção mais profunda, anti-ideológico: todo o seu esforço consiste em romper o círculo fechado do simulacro — que é a ideologia levada ao limite, o signo que já não remete senão a si — e em reabrir o discurso sobre a coisa. A restauração de que falo não é a fabricação de nova ideologia, mas o seu avesso: anamnese, atenção, transmissão; o atravessar do metaxu. Recorde a imagem que governa o livro: a tradição e a forma são pontes que se devem atravessar, não habitar; quem as habita faz delas ídolo — e o ídolo é a própria forma da ideologia.[7] Restaurar o real pela travessia da ponte não é aprisioná-lo na ponte. A sua pergunta supõe que eu restaure por onde, na verdade, denuncio o cárcere.

A sexta razão, e a mais importante, é uma questão de tempo. Concedo que um dado embate possa ser ganho retoricamente — a história transborda de verdades momentaneamente derrotadas pela eloquência. Mas a retórica tem a palavra penúltima, não a última. A última cabe ao real, pela sua recalcitrância: a construção que contradiz o real é, mais cedo ou mais tarde, punida por ele. “Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar nela, não desaparece”, escreveu, com humor exato, um romancista.[8] A ponte que não alcança a margem desaba; a ideologia que nega a fome não a suprime, apenas a adia — e a fome retorna; e é esse retorno, no livro, a prova de que o leito de rocha permanece sob o rio seco. O real vota, e o seu voto, ainda que lento, é inapelável. Por isso a vitória retórica contra o real é sempre instável, ao passo que a vitória retórica a favor do real é confirmada pelo próprio real ao longo do tempo. Não pedimos à retórica que substitua a evidência; pedimos-lhe que a ela reconduza.

Permita-me ainda uma observação que talvez lhe sirva para o artigo. É notável que, de tradições adversas, várias filosofias tenham inscrito no interior do discurso uma medida que excede a persuasão: o noûs de Aristóteles, o auditório universal de Perelman e — para ficarmos em Frankfurt — a situação ideal de fala de Habermas, com as suas pretensões de validade que só argumentativamente se resgatam e que apontam, contrafactualmente, para um acordo fundado não na força, mas na razão.[9] Todas concordam, contra o sofista, em que nem toda vitória discursiva é legítima, e em que há um critério que a julga. O conservador apenas dá o passo que o procedimentalismo hesita em dar: esse critério não é, em última instância, meramente procedimental — as boas regras do diálogo —, mas substantivo; é o próprio real, o logos das coisas, a que o auditório universal e a situação ideal de fala estão, sem o confessarem, ordenados. A boa retórica é serva da verdade; a má, sua usurpadora. E distingui-las é, ainda, obra da razão.

Devo-lhe, enfim, uma concessão, sem a qual a minha resposta seria desonesta. Você tem inteira razão num ponto: não há realismo ingênuo possível depois de Kant, de Nietzsche e de Frankfurt. Não dispomos de um olhar sem lugar, de uma intuição do real que não passe pela linguagem, pela história e pela comunidade. O realista que defendo é, pois, um realista mediado e crítico, e não um que finja tocar as coisas com as mãos nuas. Mas mediação não é constituição. Que eu veja o sol pelo olho não faz do sol uma secreção do olho. Concedo-lhe a mediação inteira; nego apenas que ela engendre o mediado. E é justamente porque há algo a mediar — um real que resiste, que tem fome de ser dito com verdade — que faz sentido distinguir a mediação fiel da infiel, a ponte da prisão, a tradição viva do ideologismo morto.

Eis, caro amigo, as voltas a que a sua pergunta me obrigou — e por elas lhe fico em dívida, pois nada agrada mais a quem escreve do que um leitor que o force a pensar para além do escrito. Resenhe, e escreva o seu artigo: a melhor sorte de um livro é gerar outro que o prolongue ou o contradiga. E note a ironia derradeira: se vier a demonstrar que a razão retórica tem a última palavra, terá de fazê-lo com argumentos que pretendem ser verdadeiros — e, nesse mesmo gesto, estaremos, uma vez mais, do mesmo lado.

Com estima e gratidão,

Afranio Campos — Salvador, junho de 2026



[1]A distinção entre a ordem do ser (ordo essendi) e a ordem do conhecer (ordo cognoscendi) é clássica: o que é primeiro em si pode ser último para nós. Cf. TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao De Trinitate de Boécio, q. 5-6, e Suma teológica, I, q. 2, a. 1.

[2]PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica (1958). A distinção entre persuadir (auditório particular) e convencer (auditório universal), e a recuperação da razão prática contra o reducionismo positivista, são o coração da obra.

[3]ARISTÓTELES, Metafísica, Γ (IV), 4, 1006a. Quem nega o princípio de não-contradição, para dizer o que quer que seja, há de significar algo determinado — e, ao fazê-lo, já o afirma. É o argumento de retorsão, matriz de toda refutação do cepticismo radical.

[4]ARISTÓTELES, Segundos Analíticos, II, 19, e Ética a Nicômaco, VI: os primeiros princípios captam-se pelo noûs, não pela demonstração; exigir prova de tudo, inclusive dos princípios, denota, diz ele, falta de educação filosófica.

[5]NEWMAN, John Henry. Gramática do assentimento (1870): o “senso ilativo”, pelo qual a mente atinge a certeza por convergência de probabilidades, sem prova formal. Cf. POLANYI, Michael. Conhecimento pessoal (1958): o saber tácito — “sabemos mais do que podemos dizer”.

[6]Sobre o conceito forte de ideologia, ver MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia (1929); e, na Escola de Frankfurt, ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento (1947), sobre a razão instrumental e a consciência reificada.

[7]Sobre os metaxu como pontes a atravessar, e não a habitar, ver WEIL, Simone. A gravidade e a graça (1947), e o capítulo VIII deste ensaio: o ídolo é a ponte convertida em morada — e a ideologia, no sentido forte, é justamente essa morada.

[8]A frase é de Philip K. Dick (How to Build a Universe That Doesn’t Fall Apart Two Days Later, 1978): “Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar nela, não desaparece”. Imagem feliz da recalcitrância do real.

[9]HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo (1981). A “situação ideal de fala” postula, contrafactualmente, um acordo fundado na força do melhor argumento, e não na coação — paralelo estrutural do auditório universal de Perelman.

terça-feira, junho 02, 2026

Agradecimento ao leitor atento

 Agradecimento ao leitor atento

Vir um amigo de longe — não é uma satisfação?

Confúcio, Os Analectos, I, 1

Há um momento, na vida de quem escreve um livro filosófico, em que o autor descobre que o livro deixou de ser apenas seu. Esse momento ocorre quando um leitor — não um colega editor, não um revisor profissional, não um avaliador acadêmico, mas um leitor que recebeu o texto pelo que ele é e o leu com a atenção que ele pedia — devolve ao autor, em forma de observação articulada, o que o próprio autor não havia conseguido articular com precisão suficiente. O livro, nesse momento, torna-se diálogo. E o autor descobre que o que escrevia em sua escrivaninha de Salvador estava, em silêncio, esperando precisamente esse retorno.[1]

Foi assim que Alessandro Gagnor Galvão entrou no horizonte de produção deste ensaio. Sua observação sobre os dois primeiros parágrafos do Capítulo II — observação sensível, articulada com a generosidade característica do interlocutor sério, oferecida em diálogo informal sem pretensões institucionais —, apontou para o que pode ter sido o ponto mais frágil da formulação original do livro. O texto original sugeria, na pressa de articular a ruptura cartesiana, uma continuidade aparente entre Descartes em sua estufa e os exercícios espirituais da antiguidade clássica. Alessandro percebeu, com a fineza que apenas um leitor formado oferece, que essa aparência merecia o tratamento que o ensaio inteiro reservava para os pontos delicados — tratamento que o autor, fechado em sua própria formulação, não havia conseguido aplicar com o cuidado devido.

Lembrou que, mesmo na antiguidade clássica, o sábio era zoon politikon — animal político no sentido aristotélico, constitutivamente comunitário, jamais filósofo solitário no sentido cartesiano que três séculos depois se tornaria possível. Lembrou que o logos heraclitiano era xynon, comum, transpessoal, estrutura ontológica do real em que cada sujeito participa em medida desigual, e não propriedade subjetiva fechada cuja exploração interior produziria conhecimento. Lembrou que, mesmo na Idade Média, a ratio era participação no Logos divino, e que as Confissões agostinianas operavam em registro inteiramente outro do exame cartesiano de si. Acrescentou, com a generosidade da referência erudita, o trabalho de Catarina Rochamonte sobre a continuidade entre o logos antigo e a ratio medieval. E reconheceu, com fineza intelectual rara, o ponto em que convergíamos sem que a redação original o tornasse plenamente visível: o método universalmente aplicável independente das virtudes morais é o gesto especificamente moderno, e essa identificação está correta no ensaio.[2]

A consequência foi o apêndice dialógico ao Capítulo II, que articula em sete subseções a refinação completa do argumento — refinação que, sem a observação de Alessandro, teria permanecido em germe na formulação original. A refinação dos dois parágrafos iniciais do capítulo, a articulação do gesto cartesiano como apropriação consciente do gênero meditativo medieval, a distinção entre a tradição clássica do logos transpessoal e a meditação solitária moderna em primeira pessoa, a frase decisiva sobre a meditação coram seipso como ato inaugural da modernidade filosófica — todos esses ganhos articulares do capítulo devem-se à intervenção paciente do leitor atento. O autor não foi corrigido em erro grave; foi auxiliado, com generosidade, a dizer com precisão o que ele já queria dizer. É essa, no horizonte da filosofia clássica, a forma própria do dom intelectual entre amigos.[3]

Há um tipo de leitor que se torna raro no horizonte cultural contemporâneo: o leitor que recebe um texto longo com a paciência que ele pede, que percebe as fraturas finas do argumento sem fazê-las pretexto para rejeitar o todo, que articula a divergência com a clareza que faz dela contribuição, e que oferece referência adicional como gesto de cooperação intelectual. Esse leitor é cada vez mais escasso na cultura digital amplificada em fragmentos curtos, em comentários impacientes, em discussões que confundem velocidade com profundidade; e por isso mesmo, cada vez mais decisivo para quem ainda acredita que filosofia tem algo a ver com a vida, e que a vida tem algo a ver com a filosofia. O leitor atento é, no nosso tempo, espécie ameaçada cuja preservação importa não apenas aos autores que dele se beneficiam imediatamente, mas a uma civilização que precisa, em escala mais ampla, da circulação paciente do pensamento entre interlocutores sérios.

Caro Alessandro, este ensaio deve à sua observação atenta a precisão maior que o Capítulo II adquiriu. Onde antes havia uma formulação sumária da ruptura cartesiana — formulação correta no essencial mas insuficiente no detalhe filológico —, há agora o apêndice dialógico que articula, em sete movimentos paralelos, a refinação completa do argumento. O leitor que abrir o livro encontrará referências explícitas ao seu nome no corpo do apêndice; o autor confessa-se devedor da sua leitura, e registra aqui, em peça editorial separada do corpo do ensaio, o agradecimento que o gesto intelectual recebido exige como contraparte mínima.

Confúcio escreveu, no primeiro fragmento dos Analectos, que vir um amigo de longe é satisfação. A fórmula confuciana opera no horizonte específico em que o amigo, justamente porque vem de fora da rotina do mestre, traz algo que a rotina sozinha não trazia. O leitor atento é, neste sentido confuciano, o amigo que vem de longe. Vem de outra trajetória pessoal, de outras leituras, de outro itinerário intelectual; e por isso vê aquilo que o autor, fechado em sua escrivaninha de Salvador, deixou de ver. Aristóteles, em registro próprio, articularia a mesma tese ao chamar o amigo virtuoso de allos autos — outro si mesmo —, designando com a fórmula a função decisiva da alteridade amiga: devolver ao homem aquilo que ele não conseguiria, por si só, descobrir de si mesmo. Em chave intelectual moderna, o leitor atento é, em proporção que cumpre dimensão restrita mas real, o allos autos do autor que escreve.

O agradecimento que aqui se articula é, portanto, mais do que cortesia pessoal entre interlocutores particulares. É reconhecimento da forma própria pela qual a filosofia continua sendo possível em pleno século XXI: por circulação dialógica entre autores honestos e leitores atentos, que se ajudam mutuamente, em diálogos que ninguém remunera, a refinar o pensamento que se oferece a ser pensado. Não há, na cultura filosófica contemporânea, instituição que financie esse tipo de troca — e talvez exatamente por isso essa troca preserve, em sua marginalidade institucional, o caráter desinteressado que era a marca do filosofar clássico. Quando Alessandro Gagnor Galvão escreveu sua observação atenta ao autor deste ensaio, fez gratuitamente um gesto que a filosofia profissional remunerada quase já não sabe fazer — gesto que talvez seja, hoje, a única forma viva pela qual a tradição clássica do pensar continua circulando entre os homens que ainda querem pensar.

Que outros leitores atentos como Alessandro venham. E que, vindo, continuem a ajudar este autor — e os outros autores honestos que ainda escrevem por amor à compreensão, e não por dever profissional — a refinar paciente e modestamente o pensamento que se dispõe ao diálogo. Não há filosofia em conserva; há filosofia praticada em circulação, ou filosofia que se extingue na solidão impotente. A presença do leitor atento é o que torna a primeira possível, e é por essa presença — concretamente exemplificada pelo gesto generoso aqui agradecido — que a tradição filosófica clássica, em suas várias linhagens, continua viva entre nós mesmo no horizonte de uma cultura que parece tê-la esquecido. Ela vive enquanto houver autores que escrevem com cuidado e leitores que leem com atenção. Que ambos não nos faltem — e que cada um, em sua escala própria, cumpra o que a tradição clássica chamava de obra do espírito.



[1]CONFÚCIO, Os Analectos, I, 1: "Aprender e exercitar continuamente o que se aprendeu — não é uma alegria? Vir um amigo de longe — não é uma satisfação? Não ser conhecido pelos homens, sem irritar-se — não é qualidade do homem nobre?"; tradução de Giorgio Sinedino, São Paulo: Unesp, 2012. O primeiro fragmento do livro confuciano articula, em três movimentos breves, a estrutura completa da vida intelectual desejável: o estudo paciente, o encontro com o amigo, e a serenidade diante da indiferença do mundo. O segundo movimento — a vinda do amigo — é aquele que se invoca neste agradecimento.

[2]Sobre os pontos específicos articulados pelo leitor atento — o zoon politikon aristotélico, o logos transpessoal heraclitiano, a ratio medieval como participação no Logos divino, a estrutura não-introspectiva das Confissões agostinianas, e a referência ao trabalho de Catarina Rochamonte sobre a continuidade entre o logos antigo e a ratio medieval —, ver o Apêndice ao Capítulo II — A aparência da continuidade: diálogo com um leitor atento, em que cada um desses pontos recebe articulação detalhada.

[3]ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, IX, 9, sobre a amizade como necessidade do homem feliz, e em particular sobre o amigo como "outro si mesmo" (allos autos). A fórmula aristotélica articula a tese de que o amigo virtuoso oferece ao homem inteligente algo que ele não poderia oferecer a si mesmo: a visão de si que apenas a alteridade amiga torna possível. O leitor atento é, em registro intelectual moderno, o allos autos do autor que escreve — outro si mesmo que devolve ao autor o que o autor sozinho não conseguiria ver.

A aparência da continuidade — diálogo com um leitor atento

 

Apêndice ao Capítulo II

A aparência da continuidade — diálogo com um leitor atento

 

Por isso é preciso seguir o comum; mas embora o logos seja comum, a maior parte das pessoas vive como se possuísse um pensamento privado.

Heráclito, fragmento 2

 

 Um leitor atento observou, em diálogo informal recente, que os dois primeiros parágrafos deste capítulo pareciam ir em direção contrária à sua pesquisa pessoal. Sem identificar incompatibilidade ou erro — eis a fineza do leitor —, mas registrando uma divergência cuja articulação ele queria entender melhor. A observação merece resposta cuidadosa, não porque autor algum tenha o dever de responder a todo leitor que escreve, mas porque essa observação específica toca em ponto sensível do argumento, e a sua articulação ilumina aspectos do capítulo que talvez tivessem permanecido implícitos na formulação original. O texto principal, na sua versão atual, incorporou já a refinação que o diálogo permitiu; mas o leitor que percorre este apêndice encontrará agora a articulação plena do trajeto pelo qual essa refinação se construiu.

A divergência apontada concentrava-se na suposição implícita dos dois parágrafos iniciais. A versão original do texto afirmava que, lendo as Meditações Metafísicas, o leitor distraído poderia julgar-se diante de um exercício espiritual no sentido antigo. A fórmula, lida com pressa, sugeria continuidade entre o gesto cartesiano e a tradição clássica que, se examinada com cuidado, não se sustenta. E o leitor mais cuidadoso ainda acrescentou referência: nas indicações de Catarina Rochamonte — filósofa brasileira contemporânea que articula, em registro próprio, a continuidade entre o logos antigo e a ratio medieval —, a continuidade entre as duas tradições antigas não se confunde com a continuidade aparente entre elas e a modernidade cartesiana.[1]

O zoon politikon e o logos transpessoal

Vale articular, com a paciência que o ponto merece, o que está em jogo. Aristóteles, na Política, abriu seu tratamento da vida humana com a fórmula que ficou: o homem é, por natureza, animal político. A fórmula, lida com seriedade, articula tese ontológica sobre a estrutura da existência humana — não tese sociológica sobre a conveniência da vida em comum. O homem só é homem na polis, comunidade política em sentido grego[2] que reúne, em estrutura indissociável, a comunidade ética, a comunidade religiosa, a comunidade pedagógica, e o horizonte cosmológico em que cada uma dessas comunidades se inscreve. O sábio antigo não é o filósofo solitário que se recolhe para descobrir a verdade em si; é o membro de uma escola — Academia, Liceu, Jardim, Pórtico — cuja sabedoria se cultiva no convívio paciente com mestres e discípulos vivos.

Heráclito, dois séculos antes de Aristóteles, articulou em fragmento decisivo a estrutura do logos antigo. É preciso seguir o comum, escreveu o pensador de Éfeso em fórmula que entrou para a história da filosofia ocidental: embora o logos seja comum, a maior parte das pessoas vive como se possuísse um pensamento privado. A polaridade heraclitiana é a chave do horizonte grego inteiro. Logos versus idios — comum versus privado, transpessoal versus subjetivo, ordem cósmica do real versus opinião isolada do sujeito individual. O sábio é aquele que participa do logos comum; o vulgo é aquele que se fecha em pensamento privado e por isso erra, embora possa ter, momentaneamente, intuições corretas isoladas. A verdade é estrutura comunitária e cosmológica antes de ser conquista subjetiva.[3]

Quando Marco Aurélio, sete séculos depois, escreveu o seu caderno em grego nas margens do Danúbio durante as guerras marcomanas, intitulou-o Ta eis heauton — Para si mesmo. A tradução literal pode enganar o leitor moderno: parece introspecção subjetiva, exame interior do sujeito por ele próprio. Mas é leitura anacrônica. O si do imperador, na arquitetura estoica, não é substância subjetiva fechada cuja exploração interior produziria conhecimento; é fragmento participativo do Logos universal que ordena o cosmos inteiro. Marco Aurélio escreve para si mesmo no sentido em que o estoico precisa, todo dia, lembrar-se de quem é — e quem é, na ontologia estoica, é parte de uma ordem racional cósmica em que cada ente cumpre função própria. O exame não é introspecção; é alinhamento consciente do fragmento individual com o Logos transpessoal que lhe dá sentido.[4]

A ratio medieval como participação no Logos divino

A tradição cristã medieval, herdeira do logos grego e do verbum bíblico em síntese articulada pelos Padres da Igreja, prolongou essa estrutura transpessoal da razão sob nova matriz teológica. A ratio do homem medieval, articulada com particular finura por Tomás de Aquino no século XIII, não é faculdade subjetiva autônoma capaz de produzir verdade por seus próprios recursos; é participação no Logos divino, e seu correto exercício depende da iluminação que dele recebe. A doutrina tomista do intellectus possibilis que se atualiza por contato com a lux divina recolhe, em chave aristotélico-cristã, o que Heráclito já havia articulado em chave pré-socrática: o logos é comum, é transpessoal, é estrutura ontológica do real em que cada sujeito participa em medida desigual.[5]

É decisivo notar que mesmo as Confissões de Santo Agostinho — texto frequentemente citado, na hermenêutica moderna apressada, como antecedente medieval do exame de si cartesiano — operam em registro inteiramente outro. Confessio em latim patrístico não é confissão no sentido moderno introspectivo. É termo técnico que reúne três sentidos articulados: confessio peccati (confissão de pecado), confessio fidei (profissão de fé), confessio laudis (louvor a Deus). Todos os três dirigidos a Deus em segunda pessoa — tu, Domine, tu, Senhor —, não exploração subjetiva em primeira pessoa pelo prazer da exploração. O Agostinho que examina sua memória nos livros X e XI das Confissões não está fazendo introspecção cartesiana; está articulando, sob o olhar de Deus, a história da queda e da redenção de uma alma — articulação cujo sentido último é dado pela presença transpessoal do Criador que sustenta o exame.[6]

A forma herdada, a substância invertida

É aqui que a observação do leitor atento permite ao argumento ganhar precisão maior. Descartes não inaugura, em 1641, a tradição da meditação introspectiva — adota seu gênero literário. As Meditações Metafísicas são, em sua forma exterior, herdeiras conscientes da longa tradição medieval e renascentista das meditações religiosas, em particular dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola publicados em 1548 e praticados pelo jovem Descartes durante sua formação jesuítica no Colégio de La Flèche. A forma — primeira pessoa, recolhimento, exame sequencial de objetos espirituais durante seis dias sucessivos — é integralmente apropriada do gênero devocional cristão.[7]

Mas o uso filosófico que Descartes faz dessa forma é diametralmente oposto ao uso religioso original. Inácio meditava sobre os mistérios da fé sob a presença de Deus, com fim na conversão da vida; Descartes medita sobre o fundamento do conhecimento sob a presença do próprio sujeito, com fim no estabelecimento de método universal independente da vida. A forma é herdada; a substância é invertida. E essa inversão é precisamente o gesto cuja gravidade os dois parágrafos iniciais deste capítulo quiseram tematizar. O leitor atento, ao notar que mesmo a aparência ancient do gesto cartesiano é enganadora, ajudou o argumento a articular-se com a precisão que ele exigia.

Pois eis o que está realmente acontecendo na estufa, em algum lugar entre Ulm e Neuburg, na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: um jovem soldado-filósofo francês de vinte e três anos, recém-saído de uma das melhores formações jesuíticas da Europa, encerra-se sozinho em quartel de inverno, e ali — em silêncio adquirido pela ausência de companhia e pela disciplina mental herdada dos Exercícios — articula a fundação de um método cuja característica distintiva é precisamente a independência em relação a essa formação que o tornou possível. O gesto é simultaneamente herdeiro e parricida. Adota a postura de quem se recolhe para encontrar Deus, e usa essa postura para fundar um saber que dispensará Deus como hipótese.[8] Adota a primeira pessoa do confessante penitente, e usa essa primeira pessoa para constituir o sujeito autônomo da ciência moderna.

Onde convergimos

A convergência entre o autor deste ensaio e o leitor atento é, portanto, mais ampla do que ela parecia à primeira vista. Não convergimos apenas na frase final dos dois parágrafos originais — aquela em que se identificava como cartesiano o método universalmente aplicável independentemente das virtudes morais. Convergimos, mais profundamente, no diagnóstico do que faz da modernidade cartesiana ruptura radical em relação à tradição clássica e medieval: a separação entre o ato do conhecer e a estrutura comunitária do logos antigo, entre o sujeito que pensa e o horizonte transpessoal em que o pensamento tradicionalmente se inscrevia, entre o método e as virtudes que o método pressupõe e cuja independência o método consagra.

Ao escrever os parágrafos originais, supunha talvez excessiva familiaridade dos leitores com a tese de Hadot sobre a comunidade efetiva das escolas filosóficas antigas — tese desenvolvida extensamente no Capítulo I deste ensaio. O leitor atento, ao apontar a aparência enganadora, ajudou a articular o que poderia ter permanecido implícito: a aparência ancient do gesto cartesiano não é apenas enganadora porque o uso é diferente; é enganadora porque a própria forma de meditação solitária em primeira pessoa, antes mesmo de qualquer uso, é estranha ao horizonte antigo. Os antigos meditavam em comunidade. Os medievais meditavam coram Deo, diante de Deus. Descartes inaugura a meditação coram seipso — diante de si mesmo — e é nessa solidão simultaneamente espacial (a estufa) e estrutural (o cogito) que a modernidade filosófica encontra sua condição de possibilidade.[9]

A revisão dos dois parágrafos

É por essa razão que a versão final dos dois primeiros parágrafos deste capítulo, na presente edição, foi refinada para refletir a observação do leitor atento. O texto agora articula com mais nitidez o que estava em germe na versão anterior. Onde antes se lia “exercício espiritual no sentido antigo”, agora se lê “meditação espiritual no sentido herdado da tradição clássica e medieval”. Onde antes se lia que “a aparência era de uma confissão”, e o gesto cartesiano era o oposto da confissão, agora se lê que “a aparência é a do gênero meditativo cristão” — herdeiro consciente dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola — e o gesto cartesiano é o oposto de toda a tradição que essa forma havia articulado. A pequena reformulação articula com mais nitidez o que estava em posição no original. Distingue entre a aparência medieval — gênero literário das meditações devocionais — e a aparência ancient — comunidade efetiva das escolas filosóficas. Reconhece que o gesto cartesiano, ao adotar conscientemente o gênero medieval para fins que o invertem, opera ruptura simultânea em relação a duas tradições convergentes (a clássica e a medieval), e que essa ruptura dupla é precisamente o que torna o caso Descartes inaugural na história moderna do desligamento entre logos e bios. O leitor atento, ao colocar a observação, ajudou a articular mais finamente a tese que se apresenta compartilhada.

A função do leitor atento

Termino este apêndice com observação que articula, em chave mais ampla, o sentido deste diálogo. O ensaio inteiro O Hiato entre o Logos e o Bios é construído sobre a convicção de que a filosofia não é monólogo do autor ao leitor passivo, mas circulação dialógica em que o pensamento se articula através do encontro entre quem escreve e quem lê com atenção. Cada vez que um leitor atento aponta uma divergência, oferece uma referência, articula uma observação fina sobre algum parágrafo do livro, o pensamento do autor encontra ocasião concreta para refinar-se. Não é exagero dizer que livros como este, escritos no horizonte do diálogo possível entre autor e leitores reais, devem boa parte da sua qualidade final aos leitores que os ajudaram a organizar-se.

A observação que aqui se desenvolveu, oferecida em diálogo informal e com a generosidade característica do interlocutor sério, é exemplo concreto do tipo de leitura que este ensaio quer suscitar. Não a leitura passiva que recebe a doutrina como dogma; não a leitura defensiva que rejeita o autor por divergir dele em ponto particular; mas a leitura ativa que percebe a divergência, articula-a com clareza, oferece referência adicional, e convida o autor a refinar-se. É esse tipo de leitura — e esse tipo de leitor — que pode salvar a filosofia em pleno século XXI da degeneração em monólogo profissional. O autor agradece ao leitor atento que ofereceu a observação e que tornou possível este refinamento. E confirma, ao final, o que o capítulo VII deste ensaio articulará em fórmula matriz: a unidade do conhecimento se faz na unidade da consciência — sim, na consciência do autor que escreve, mas também, e talvez sobretudo, na consciência do leitor que recebe, articula, devolve, e em diálogo paciente refina o pensamento que se oferece para ser pensado.



[1]Cf. Catarina Rochamonte, filósofa brasileira contemporânea, autora de estudos sobre filosofia clássica e medieval e sua continuidade no pensamento contemporâneo. A observação do leitor atento desta refinação fez referência a um artigo da autora sobre a continuidade entre o logos antigo e a ratio medieval — continuidade que sustenta a articulação aqui acolhida e desenvolvida. A obra da autora articula em registro brasileiro contemporâneo a tradição filosófica clássica em diálogo com o pensamento contemporâneo, e é referência cuja consulta direta este autor recomenda ao leitor interessado em aprofundar o ponto.

[2]ARISTÓTELES, Política, I, 2, 1253a2–3: "O homem é, por natureza, um animal político" (ho anthropos physei politikon zoon). A formulação aristotélica articula, em chave clássica, a tese de que a existência humana plena se realiza apenas na polis — comunidade política em sentido grego que reúne a comunidade ética, a comunidade religiosa e a comunidade pedagógica em estrutura indissociável. O sábio antigo é constitutivamente comunitário; a sabedoria que ele cultiva é participação no logos comum, não introspeção privada.

[3]HERÁCLITO, fragmento 2 (Diels-Kranz): "Por isso é preciso seguir o comum [xynon]; mas embora o logos seja comum, a maior parte das pessoas vive como se possuísse um pensamento privado". A formulação heraclitiana é peça matriz da concepção grega do logos como horizonte transpessoal — não propriedade do sujeito individual, mas estrutura ontológica do real em que cada sujeito participa em medida desigual. O "pensamento privado" (idios) que Heráclito denuncia é precisamente o que a modernidade cartesiana consagrará como ponto de partida do filosofar.

[4]MARCO AURÉLIO. Meditações (Ta eis heauton, "Para si mesmo"), em particular IV, 23: "Tudo o que é conveniente para ti, ó cosmos, é conveniente para mim". O caderno do imperador-filósofo é endereçado a si mas não é sobre si no sentido cartesiano. O "si" do imperador é, na arquitetura estoica, fragmento participativo do Logos universal — não substância subjetiva fechada cuja exploração interior produziria conhecimento.

[5]Sobre o caráter transpessoal da razão medieval, ver Étienne GILSON, A Filosofia na Idade Média (La philosophie au Moyen Âge, 1944), São Paulo: Martins Fontes, 2007. A ratio medieval, herdeira simultaneamente do logos grego e do verbum bíblico, é participação no Logos divino — não faculdade subjetiva autônoma. Tomás de Aquino articula a tese em fórmula técnica: intellectus possibilis do homem individual atualiza-se pela lux divina, segundo a doutrina presente na primeira parte da Suma Teológica, q. 84, art. 5.

[6]SANTO AGOSTINHO. Confissões (Confessiones, c. 397–400), Petrópolis: Vozes, 1984. As Confessiones agostinianas não são "confissão" no sentido moderno introspectivo; são confessio no triplo sentido patrístico: confessio peccati (confissão de pecado), confessio fidei (profissão de fé), confessio laudis (louvor a Deus). Todas as três dirigidas a Deus em segunda pessoa — tu, Domine —, não exploração subjetiva em primeira pessoa pelo prazer da exploração. A confusão entre as duas estruturas é anacronismo recorrente da hermenêutica moderna sobre os textos clássicos.

[7]Sobre a estrutura das Meditações Metafísicas como apropriação cartesiana de gênero medieval, ver RUBIDGE, Bradley. "Descartes's Meditations and Devotional Meditations", Journal of the History of Ideas, vol. 51, n. 1 (jan-mar 1990), pp. 27–49. Rubidge demonstra, em estudo erudito, que Descartes apropriou-se conscientemente do gênero literário das meditações religiosas medievais e renascentistas — em particular dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola (1548) que ele havia praticado durante a formação jesuítica em La Flèche —, mas que o uso filosófico que faz desse gênero é diametralmente oposto ao uso religioso original.

[8]DESCARTES, René. Discurso do Método (1637), Parte II: "Eu estava então na Alemanha, onde a ocasião das guerras, ainda não terminadas, me havia chamado; e como regressava da coroação do imperador para o exército, o início do inverno me deteve em um quartel onde, não tendo nenhuma conversação que me divertisse, eu ficava o dia todo encerrado sozinho em uma estufa". A localização exata desse "quartel de inverno" é objeto de discussão histórica: a tradição popular fala de Ulm, mas a documentação militar disponível aponta para Neuburg-an-der-Donau. Foi ali que ocorreram, na noite de 10 para 11 de novembro de 1619, os três sonhos célebres que Descartes interpretaria como vocação filosófica. Sobre Johannes Kepler (1571–1630) e sua relação com Ulm, ver CASPAR, Max. Kepler, (1993 [1948]).

[9]HADOT, Pierre. O Que é a Filosofia Antiga?, (1999 [1995]); esp. cap. "A escolha filosófica". Hadot insiste que cada escola filosófica antiga — Academia, Liceu, Jardim, Pórtico, Cinismo, Ceticismo — era comunidade efetiva, não conjunto de doutrinas privadas. Não havia filósofo solitário na antiguidade; havia membros de escolas, discípulos de mestres, participantes de tradições vivas. A figura do pensador isolado em sua estufa, recolhendo-se em si para descobrir a verdade — figura cartesiana —, é estranha ao horizonte clássico, e é precisamente sua estranheza que define o caráter especificamente moderno do gesto.

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