A
Continuidade de Sentido[1] como
Mediação
O Metaxy Temporal entre Singular e Universal
É aqui que
o paradoxo de Aristóteles — a tensão entre a individualidade concreta do
existente e a generalidade abstrata do conhecimento — encontra sua articulação
mais fecunda com a noção de continuidade de sentido desenvolvida ao
longo deste ensaio[2]. Pois se a
experiência concreta e o conhecimento universal constituem dois polos
aparentemente irredutíveis — o singular que existe, mas escapa ao conceito, o
universal que se conhece, mas não existe separadamente —, há, contudo, algo que
os atravessa e os conecta sem abolir sua diferença.
Este
"algo" é a continuidade temporal do sentido — aquela tessitura de
significações que se desdobra na história pessoal e coletiva, ligando o
instante vivido ao horizonte de inteligibilidade que o torna compreensível. Não
se trata de uma terceira substância que mediaria entre singular e universal,
como se fosse ponte construída sobre um abismo previamente dado. A continuidade
de sentido não é tertium quid ontológico; é o meio — no sentido
aristotélico de metaxy — no qual singular e universal sempre já se
encontram, o elemento comum em que ambos respiram e se articulam. A intuição
central pode ser formulada assim: nunca encontramos o singular em estado puro,
despido de toda significação; e nunca manejamos o universal em estado puro,
desencarnado de toda instância concreta. O que encontramos — o que sempre já
encontramos — são singulares significativos e universais encarnados,
entrelaçados numa trama de sentido que os precede e os possibilita.[3]
Esta trama é a continuidade de sentido; e sua textura é temporal, histórica,
narrativa.
1. A Estrutura do Metaxy: Nem Ponte nem
Abismo
A noção
platônica de metaxy — o "entre", o intermediário — oferece a
chave conceitual para compreender a função mediadora da continuidade de
sentido. Em Platão, o metaxy designa aquelas realidades que participam
de dois extremos sem se reduzir a nenhum deles: o daimon Eros, por
exemplo, não é nem deus nem homem, mas algo "entre" ambos, que os
conecta precisamente por não ser inteiramente nem um nem outro.[4]
Aristóteles transpõe esta estrutura para diversos contextos — a percepção como
meio entre sujeito e objeto, a virtude como meio entre extremos —, mas é na
questão do conhecimento que ela adquire sua relevância máxima. O erro das
epistemologias modernas — tanto racionalistas quanto empiristas — consistiu em
postular primeiro a separação radical entre singular e universal, entre
experiência e conceito, para depois tentar construir pontes que os reunissem.
Mas pontes só são necessárias onde há abismos; e abismos, neste caso, são
artefatos da abstração filosófica, não dados da experiência efetiva. A
fenomenologia husserliana já havia denunciado este procedimento ao mostrar que
a consciência é sempre consciência de algo — que não há sujeito puro
anterior ao encontro com o objeto, nem objeto puro anterior à sua doação a uma
consciência.[5]
A
continuidade de sentido radicaliza esta intuição ao introduzir a dimensão
temporal. Não apenas consciência e objeto se co-constituem; eles se
co-constituem no tempo, através de uma história de encontros,
sedimentações e reativações. O singular que encontro agora já vem carregado das
significações que a tradição lhe conferiu; o universal que manejo agora já está
tingido das experiências concretas que o moldaram em minha biografia
intelectual. Singular e universal não são pontos isolados que precisam ser
conectados; são momentos de um processo contínuo que os atravessa e os
constitui.
2. O Singular Significativo: A Impossibilidade do
Puro Hoc
Consideremos
mais detidamente o polo do singular. A tradição escolástica designava o
indivíduo concreto pelo pronome demonstrativo hoc — "este
aqui", irredutível a qualquer descrição universal. O hoc é aquilo
que escapa a toda predicação, o resíduo que sobra quando todas as qualidades
foram abstraídas, a pura haecceitas (Duns Scotus) que faz deste
indivíduo este e não outro.[6]
Porém — e aqui reside o ponto decisivo —, jamais encontramos o hoc em
estado puro. O "este" que designo já é "este homem",
"esta árvore", "este momento"; já está, portanto, inserido
numa rede de significações que o articula com outros "estes"
semelhantes e o distingue de outros "estes" diferentes. A própria
linguagem — condição de todo pensamento articulado — é já universal; ao dizer
"este", já opero com um pronome que se aplica a infinitos singulares
possíveis. O singular absoluto seria, rigorosamente, o inefável — aquilo sobre
o qual nada se pode dizer, nem mesmo que é singular.[7]
A
continuidade de sentido é precisamente aquilo que impede o singular de colapsar
no inefável. Ela é o horizonte de significações no qual o singular aparece como
algo — como isto ou aquilo, como pertencente a este ou àquele gênero, como
dotado destas ou daquelas propriedades. O recém-nascido não encontra um mundo
de puros "estes" mudos; encontra um mundo já nomeado, já articulado,
já significativo — o mundo da língua materna, das práticas compartilhadas, das
instituições herdadas. Antes mesmo de poder distinguir conscientemente entre
singular e universal, ele já habita a continuidade de sentido que os entrelaça.
Isto não
significa que o singular se dissolva no universal. A irredutibilidade do hoc
permanece; este indivíduo concreto jamais será inteiramente capturado por
qualquer conceito. Mas esta irredutibilidade não implica separação absoluta;
implica apenas que a relação entre singular e universal é assimptótica —
aproximação infinita que nunca se consuma em identificação perfeita. O singular
permanece como horizonte do conhecimento, como tarefa sempre renovada, como
excesso inesgotável sobre toda determinação conceitual.[8]
3. O Universal Encarnado: A Impossibilidade do Puro
Quid
Consideremos
agora o polo oposto. A tradição designava o universal pelo pronome
interrogativo quid — "o quê?", aquilo que se predica de
muitos, a essência comum abstraída das diferenças individuais. O quid é
o objeto próprio da ciência aristotélica; conhecer cientificamente é conhecer o
"o quê" — a definição, a causa, a razão de ser. Porém — e aqui o
paralelo é exato —, jamais encontramos o quid em estado puro. Todo
universal é universal de algo; toda essência é essência de existentes
concretos; todo conceito remete, em última instância, às experiências
singulares das quais foi abstraído. O triângulo geométrico, aparentemente o
mais puro dos universais, só é acessível através de triângulos desenhados,
imaginados, construídos — instâncias imperfeitas que, contudo, são a única via
de acesso à forma perfeita.[9]
A tradição
platônica tendeu a minimizar esta dependência, postulando um reino de Formas
subsistentes em si mesmas, contempláveis por uma intuição intelectual pura. Mas
Aristóteles já havia objetado: as Formas separadas, se existissem, seriam
inúteis para explicar os entes sensíveis; e se não servem para explicar, não
servem para nada.[10]
O universal que não se encarna não é verdadeiro universal; é mera abstração
vazia, flatus vocis — sopro de voz sem conteúdo real.
A
continuidade de sentido é aquilo que impede o universal de evaporar na
abstração vazia. Ela é o locus concreto onde os universais ganham carne
e sangue — não em instâncias isoladas, mas em tradições de uso, em práticas
compartilhadas, em instituições históricas. O conceito de "justiça"
não paira num céu platônico; ele vive nas leis, nos costumes, nas decisões
judiciais, nas indignações morais de comunidades concretas ao longo da
história. É esta vida histórica que dá ao conceito sua determinação e sua
eficácia; sem ela, "justiça" seria palavra oca, definível talvez em
abstrato, mas incapaz de orientar qualquer ação concreta.[11]
4. A Trama Temporal: Onde Singular e Universal se
Encontram
Se o
singular puro é inefável e o universal puro é vazio, então o conhecimento
efetivo — aquele que realmente possuímos e exercemos — situa-se necessariamente
no entre: nem puro hoc nem puro quid, mas hoc significativo
e quid encarnado. Este "entre" não é lugar estático; é
processo, movimento, história. A mediação entre singular e universal não é dada
de uma vez; ela se faz e se refaz continuamente, no tempo e pelo tempo. Aqui
reencontramos a estrutura temporal analisada no ensaio sobre o tempo. Se
"o tempo é o que impede que tudo aconteça de uma vez", então ele é
também o que impede que singular e universal se fundam numa identidade
indiferenciada ou se separem num dualismo insuperável. O tempo espaça —
separa mantendo em relação, distingue sem isolar. Singular e universal
permanecem distintos, mas sua distinção é articulada; eles se relacionam
através da mediação temporal que os atravessa.
A
continuidade de sentido é esta mediação tornada consciente de si mesma. Ela não
é apenas o fato de que singular e universal se articulam no tempo; é a forma
desta articulação, o modo pelo qual a relação se estrutura e se
transmite. Uma cultura é, neste sentido, uma modalidade específica de
continuidade de sentido — uma maneira particular de entrelaçar experiência e
conceito, existência e essência, vida e logos. Cada cultura realiza à sua
maneira a mediação entre o singular vivido e o universal pensado; e esta
realização é sua contribuição própria à história do espírito.[12]
5. A Narrativa como Forma Privilegiada do Metaxy
Se a
continuidade de sentido é essencialmente temporal, então sua expressão
privilegiada será necessariamente narrativa. A narrativa é, com efeito,
a forma linguística que articula o singular e o universal através do tempo. Ela
conta eventos singulares — "isto aconteceu, depois aquilo" —, mas os
conta como algo, inserindo-os numa trama de significações que os torna
compreensíveis. O herói do mito não é apenas este indivíduo particular; ele é figura
— encarnação de um tipo, exemplo de uma possibilidade humana, instância de um
universal.[13] Paul
Ricœur desenvolveu extensamente esta intuição ao mostrar que a narrativa opera
uma síntese do heterogêneo — reúne eventos dispersos numa totalidade
significativa, integra o diverso numa unidade de sentido.[14]
Esta síntese não é atemporal; ela se faz no tempo e através do
tempo, acompanhando o desenrolar dos eventos e os recolhendo retrospectivamente
numa configuração inteligível. A narrativa não elimina a sucessão temporal; ela
a atravessa, revelando nela uma ordem que não seria visível na mera
cronologia dos fatos.
O paradoxo
de Aristóteles encontra na narrativa sua resolução — não teórica, mas prática.
A narrativa não "explica" como singular e universal se articulam; ela
mostra esta articulação em ato. Quando contamos uma história — seja o
mito fundador de uma cultura, seja a biografia de um indivíduo, seja o relato
de um experimento científico —, estamos operando a mediação entre o hoc
e o quid, entre o que aconteceu em sua singularidade irrepetível e o que
isto significa em sua universalidade comunicável. A narrativa é o metaxy
em exercício, a continuidade de sentido em sua forma mais explícita.[15]
6. Conhecimento Teórico e Conhecimento por
Habitação: Reconsideração
À luz desta
análise, podemos agora reconsiderar a distinção inicial entre conhecimento
teórico e conhecimento por habitação. Ambos, dissemos, são legítimos; ambos
captam aspectos reais do objeto; mas diferem na modalidade de acesso e na
qualidade da evidência obtida. O teórico conhece "de fora", por
conceitos universais; o habitante do tempo conhece "de dentro", por
afinidade existencial.
Vemos agora
que esta distinção, embora válida, não é absoluta. O teórico não opera com
universais puros; seus conceitos estão sempre já encarnados numa tradição de
pesquisa, numa linguagem específica, numa história de problemas e soluções. O
habitante do tempo não lida com singulares puros; sua experiência está sempre
já articulada por categorias herdadas, por expectativas culturalmente moldadas,
por horizontes de sentido previamente constituídos. Ambos habitam a
continuidade de sentido; diferem apenas na ênfase — o teórico enfatiza o
polo universal, o experiente enfatiza o polo singular —, não na exclusão de um
dos polos. O que distingue verdadeiramente os dois modos de conhecimento não é
a presença ou ausência do universal ou do singular, mas a direção do
movimento e a qualidade da participação. O teórico parte do
singular rumo ao universal; abstrai, generaliza, formaliza.
O habitante
do tempo parte do universal rumo ao singular; concretiza,
especifica, encarna. Ambos percorrem o mesmo espaço — a continuidade de sentido
—, mas em direções opostas; e esta diferença de direção produz diferentes
qualidades de conhecimento.[16]
A "afinidade" e a "sintonia afetiva" de que falamos não
são, portanto, irracionalismos; são modos específicos de habitar a
continuidade de sentido, de estar situado nela de tal maneira que certos
aspectos do real se revelem com evidência particular. O médico experiente
conhece a doença não apenas pelo conceito, mas pela frequentação assídua de
doentes singulares; esta frequentação não anula o conceito, mas o preenche,
conferindo-lhe densidade e concretude que a mera definição não poderia
alcançar.
7. Implicações para a Transmissão do Conhecimento
Se a
continuidade de sentido é o metaxy onde singular e universal se
articulam, então a transmissão do conhecimento — a educação, em sentido amplo —
não pode consistir apenas na comunicação de conceitos universais. Transmitir um
saber é transmitir também uma posição na continuidade de sentido, um modo
de habitar o espaço entre o singular e o universal. Isto explica por que
certas formas de conhecimento resistem à formalização completa. O artesanato, a
prudência moral, o diagnóstico clínico, a interpretação textual — todos estes
saberes envolvem uma dimensão tácita que excede a articulação explícita.
Não se aprende a ser prudente lendo tratados de ética; aprende-se convivendo
com pessoas prudentes, observando como elas agem em situações concretas,
absorvendo gradualmente seu ethos — seu modo de habitar a continuidade
de sentido moral.[17]
A tradição
— tão frequentemente desprezada pelo pensamento moderno como mero repositório
de preconceitos — revela aqui sua função epistemológica essencial. Ela é o
veículo pelo qual se transmite não apenas o conteúdo do conhecimento (os
conceitos, as teorias, as informações), mas também a posição existencial
a partir da qual este conteúdo se torna verdadeiramente compreensível. Romper
com a tradição não é libertar-se de preconceitos; é perder o acesso àquela
dimensão tácita sem a qual os conceitos permanecem vazios e as teorias,
estéreis.[18]
8. Conclusão: O Paradoxo Transfigurado
O paradoxo
de Aristóteles — a tensão entre singular e universal, entre existência e
conhecimento — não se resolve pela eliminação de um dos termos, nem pela
postulação de uma síntese superior que os absorveria. Ele se transfigura
quando reconhecemos que singular e universal não são termos isolados que
precisam ser conectados, mas polos de uma relação sempre já em curso — a
relação que chamamos continuidade de sentido. O singular não existe
"antes" de toda significação, esperando ser capturado pelo conceito;
ele já aparece dentro de um horizonte de sentido que o articula e o
torna inteligível. O universal não paira "acima" de toda instância
concreta, esperando descer e se encarnar; ele já vive através das
práticas, das instituições, das linguagens que lhe conferem realidade efetiva.
Entre um e outro não há abismo a ser transposto, mas campo a ser percorrido — o
campo da continuidade de sentido, cuja textura é temporal, cuja expressão é
narrativa, cuja transmissão é tradicional.
Habitar
este campo conscientemente — reconhecendo tanto a irredutibilidade do singular
quanto a necessidade do universal, tanto os direitos da experiência vivida
quanto as exigências do pensamento articulado — é talvez a tarefa mais própria
do pensamento autêntico. Não se trata de escolher entre teoria e experiência,
entre conceito e vida, entre logos e bios. Trata-se de
compreender que estas alternativas são falsas; que o verdadeiro conhecimento é
sempre mediação — movimento incessante entre os polos, habitação do entre,
cultivo da continuidade de sentido que nos constitui e nos ultrapassa.[19]
[1]
Sobre a noção de continuidade de sentido
a sua aplicação e metodologia para utilização analítica de domínios (problemas
selecionados), ver:
CAMPOS, Afranio. Habitar o
Tempo: A Continuidade de Sentido. (2025)
[2] A noção de "continuidade de sentido" aqui
desenvolvida não deve ser confundida com a continuidade meramente cronológica
(sucessão de instantes) nem com a continuidade lógica (encadeamento de
proposições). Trata-se de uma continuidade propriamente hermenêutica: a
tessitura de significações que permite ao sujeito situar-se num mundo dotado de
inteligibilidade. Cf. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método I. (1997);
especialmente a Parte II sobre "A extensão da questão da verdade à
compreensão nas ciências do espírito".
[3]
A noção de "universais concretos" aparece
tanto na tradição hegeliana quanto na fenomenologia realista de Adolf Reinach e
Dietrich von Hildebrand. Em contexto aristotélico, porém, deve-se entendê-la à
luz da doutrina do εἶδος (eidos) como forma imanente ao composto
hilemórfico, não como conceito abstrato separado. Cf. OWENS, Joseph. The
Doctrine of Being in the Aristotelian Metaphysics. (1951, caps. 10-12)
[4] PLATÃO. Banquete,
202d-203a. Diotima descreve Eros como daimon, intermediário entre
mortais e imortais, cuja função é "interpretar e transmitir aos deuses o
que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses".
[5]
HUSSERL, Edmund. Ideen zu einer reinen
Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. (1913, §36). A intencionalidade — "toda
consciência é consciência de algo" — é o conceito fundamental da
fenomenologia husserliana.
[6] DUNS
SCOTUS, João. Ordinatio, II, d. 3, p. 1, qq. 1-6. A haecceitas
("estidade") é o princípio de individuação que faz de cada ente este
ente singular, irredutível a qualquer combinação de forma e matéria.
[7]
Este ponto foi enfatizado por Wittgenstein nas Investigações
Filosóficas, §§ 28-32, ao mostrar que a definição ostensiva ("isto
é...") já pressupõe um contexto linguístico que determina como o
demonstrativo deve ser entendido.
[8]
A noção de "excesso" do singular sobre o
conceito foi desenvolvida por Emmanuel Levinas em Totalité et Infini (1961),
especialmente na análise do "rosto" como expressão do infinito que
excede toda representação.
[9]
ARISTÓTELES. Metafísica, VII, 10, 1036a 2-8.
Aristóteles argumenta que a definição refere-se à forma, mas a forma só existe
no composto; não há, portanto, definição do universal que prescinda de toda
referência ao singular.
[10]
ARISTÓTELES. Metafísica, I, 9, 991a 8-19. A
crítica às Formas separadas é um dos momentos decisivos da ruptura entre
Aristóteles e o platonismo.
[11]
Esta concepção do universal como realidade
histórica, não como entidade atemporal, aproxima-se da noção hegeliana de
"espírito objetivo" — as instituições, leis e costumes nos quais a
razão se encarna. Cf. HEGEL, G.W.F. Grundlinien der Philosophie des Rechts. (1821, §§ 142-157)
[12]
A ideia de que cada cultura realiza uma modalidade
específica de mediação entre experiência e conceito está presente em Ernst
Cassirer, Philosophie der symbolischen Formen (1923-1929, 3 vols.); onde
as "formas simbólicas" — mito, linguagem, ciência — são analisadas
como modos distintos de constituição do sentido.
[13]
A noção de "figura" (Figura) como
mediação entre singular histórico e significação universal foi desenvolvida por
Erich Auerbach em Figura (1938), posteriormente incorporada em Mimesis.(1946)
[14]
RICŒUR, Paul. Temps et Récit, vol. I. (1983,
pp. 66-104); A "síntese do heterogêneo" é a operação pela qual a
narrativa configura (mise en intrigue) elementos dispersos numa
totalidade significativa.
[15]
A função mediadora da narrativa entre experiência
vivida e conhecimento conceitual foi também enfatizada por Alasdair MacIntyre
em After Virtue (1981); onde a "unidade narrativa de uma vida"
é apresentada como condição de inteligibilidade da ação moral.
[16]
Esta caracterização dos dois movimentos — do
singular ao universal e do universal ao singular — corresponde aproximadamente
à distinção aristotélica entre epagoge (indução) e syllogismos
(dedução), embora a mediação aqui descrita não se reduza a operações lógicas
formais.
[17]
A noção de "conhecimento tácito" foi
desenvolvida por Michael Polanyi em Personal Knowledge (1958); e The
Tacit Dimension. (1966); Polanyi mostra que todo conhecimento explícito
repousa sobre um fundo de conhecimento tácito que não pode ser inteiramente
articulado.
[18] A reabilitação da tradição contra o preconceito iluminista anti-tradicional é um dos temas centrais de Gadamer, Verdade e Método, Parte II, seção 1: "A elevação da historicidade da compreensão a princípio hermenêutico".
[19]
A noção de pensamento como "habitação do
entre" ressoa com a meditação heideggeriana sobre o Zwischen
(entre) em Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) (1936-1938), GA 65. O
"entre" não é lugar vazio, mas o espaço de jogo (Spielraum)
onde ser e ente, pensar e ser, se co-pertencem.
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