A LIBERDADE VIVIDA E A NECESSIDADE CONTEMPLADA
Existe
uma assimetria temporal fundamental na experiência humana, e dela depende boa
parte do nosso sofrimento. No instante da escolha, sentimos abertura: posso
fazer isto ou aquilo. Depois do acontecimento consumado, porém, tudo parece
adquirir a rigidez retrospectiva da inevitabilidade. O passado, ainda que tenha
sido vivido como contingente, é contemplado como necessário. Essa inversão é o
foco de uma das mais agudas observações filosóficas já formuladas. Spinoza
dizia que os homens se acreditam livres porque conhecem suas ações, mas ignoram
as causas que os determinam[1].
A frase é dura, e tem sido lida — frequentemente mal lida — como negação da
liberdade. Mas o que Spinoza descreve é, antes, uma ilusão epistêmica: a
liberdade vivida não coincide com a liberdade conhecida. O sujeito experimenta
abertura porque ignora a totalidade das forças que o atravessam.
[1]SPINOZA, Baruch. Ética, Parte
III, Proposição II, escólio: “Os homens enganam-se ao pensarem-se livres,
opinião que consiste apenas em estarem conscientes das suas ações e ignorarem
as causas que as determinam.”
[2]KIERKEGAARD, Søren. Diário, IV A
164 (1843). A formulação é central para a antropologia kierkegaardiana: o homem
está condenado a um descompasso estrutural entre o compreender e o viver.
[3]Cf. AQUINO, Tomás de. Suma Teológica,
II-II, q. 47. A prudência é, para Tomás, virtude intelectual prática — recta
ratio agibilium —, isto é, a razão correta aplicada ao que pode ser de
outro modo. É a virtude que governa o agir em situação de contingência.
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