Elogio do Katechon
Réplica conservadora à ideia de uma «contrarrevolução da natureza»
I. O espelho
Há um gesto que
percorre, do começo ao fim, o ensaio de Ronaldo Tadeu de Souza: o de explicar o
adversário. Não refutá-lo — explicá-lo. A diferença não é de ênfase, é
de método, e nela se decide tudo o que se segue. Refutar um pensamento é
medir-se com suas razões, aceitar provisoriamente que ele possa estar certo,
expor-se ao risco de ser vencido por ele. Explicá-lo é outra coisa: é descê-lo
de suas razões para suas causas, traduzir o que ele afirma naquilo que
ele teme, converter o argumento em sintoma. Quando Souza propõe que as
obras de Schmitt e Voegelin, Arendt e Oakeshott, Schumpeter e Strauss, Kirk e
Scruton são, “todas, e à sua maneira”, a conformação imanente de uma única
pulsão — o soerguimento intransigente da natureza contra a subjetividade
moderna emancipada —, ele não está discutindo o que esses autores dizem. Está
diagnosticando de que doença padecem.[1]
Ora, essa
operação tem um nome antigo, e um nome recente. O antigo é calúnia — não
no sentido moral trivial, mas no sentido etimológico de fazer passar por outra
coisa aquilo que se quer condenar sem enfrentar. O recente batizou-a Paul
Ricoeur: hermenêutica da suspeita, a arte, inaugurada por Marx,
Nietzsche e Freud, de ler todo discurso como máscara de um interesse que ele
próprio ignora.[2] O ensaio de
Souza é uma peça exemplar dessa arte. E é justamente por sê-lo que se torna
vulnerável ao único movimento crítico que a suspeita jamais consegue conjurar:
o de virar o espelho.
Porque a tese do
texto — enunciada com considerável elegância — acusa o pensamento de direita de
impor à humanidade uma natureza fixa, imutável, hierárquica, eterna, e
de recusar por isso a história, o novo, a transformação. Mas o que faz o ensaio
senão impor a toda a direita uma natureza fixa, imutável, essencial — a “contrarrevolução
da natureza” como núcleo imanente sob a infinita variedade das obras? O texto
reifica seu adversário exatamente do modo como o adversário, segundo ele,
reifica os homens. Atribui ao conservadorismo uma essência trans-histórica — o
medo do ocaso do Ocidente — e a partir dela deduz, como de uma lei eterna, cada
uma de suas figuras particulares. É a acusação convertida em método; é o pecado
nomeado convertido em procedimento. Quem denuncia a metafísica da natureza
alheia deveria desconfiar quando se surpreende praticando a metafísica da natureza
da direita.
Deste espelho — e
não de nenhuma indignação — parte a réplica que se segue.
II. O que o ensaio diz, e diz bem
Seria desonesto,
e mau ensaísmo, avançar sem reconhecer a força do que se critica. Souza
reconstrói dois textos com competência: "O pensamento político de direita
hoje", de Simone de Beauvoir (1955), e "A direita intransigente no
fim do século", de Perry Anderson.[3] De Beauvoir
extrai três modalidades — o anticomunismo, a teoria das elites e a história da
natureza humana — organizadas em torno de uma intuição genuína: a de que o
conservadorismo do século XX leu o comunismo menos como teoria econômica do que
como filosofia da subjetividade, como culto secular do ressentimento
organizado. De Anderson toma o quarteto — Strauss, Hayek, Schmitt, Oakeshott —
e o fecho brilhante: a mobilização, por Schmitt, do Katechon paulino,
"aquele que detém", a força que retém a manifestação do sem-lei.[4]
Há aqui um acerto que um conservador honesto deve subscrever: sim, existe um núcleo comum sob a dispersão. O pensamento conservador é, em larga medida, um pensamento do limite, do dado, da ordem, da transcendência e da hierarquia — e recusa, de fato, a promessa de uma emancipação total que abole a condição humana. Nisso o diagnóstico de Souza é correto. Ele erra não na descrição, mas na avaliação, e erra sobretudo por supor que descrever já é condenar — como se bastasse mostrar que o conservador defende a ordem para que a defesa da ordem se revelasse indefensável. É essa suposição, e não a leitura de Beauvoir ou de Anderson, que este ensaio recusa.
III. O ressentimento, e de quem é ele
Comecemos pela
peça retórica mais eficaz do texto: o ressentimento. Beauvoir observa, e Souza
aprova, que a noção de ressentimento teve "extraordinária fortuna"
entre os pensadores de direita, que nela encontraram o modo de desqualificar a
revolta dos que sofrem — a rebeldia dos trabalhadores seria não indignação
legítima, mas vingança dos inferiores contra os superiores, "explosão
vitoriosa do ressentimento" contra a natureza eterna.
O argumento é
engenhoso e tem um problema de genealogia que o desmancha. O conceito de
ressentimento não é uma invenção da direita: é de Nietzsche, na Genealogia
da moral (1887), e de Max Scheler, que o dedicou a um livro inteiro (1912).[5] Nietzsche, que
dificilmente se deixaria arregimentar por qualquer partido, cunhou-o para
descrever precisamente a inversão dos valores pela qual os fracos,
incapazes de agir, transmutam sua impotência em superioridade moral — chamando
de "bom" o que os poupa e de "mau" o que os excede. Que o
conceito seja incômodo para a esquerda é evidente; que seja um instrumento de
direita é falso. Ele é um instrumento crítico, e como todo instrumento
crítico serve a quem souber empunhá-lo.
E aqui o espelho
retorna. Pois o que faz o próprio ensaio de Souza senão explicar o
conservadorismo pelo seu afeto — o medo? "O núcleo de reflexão das
ideias políticas de direita", diz ele, "é a compreensão do momento
decadente da civilização ocidental"; a direita é definida por sua
"angústia" diante da morte do Ocidente, por seu "temor" do
ocaso. Substitua-se "ressentimento" por "medo" e ter-se-á,
com precisão milimétrica, a mesma operação que o texto denuncia: a redução de
um pensamento ao afeto que supostamente o move, a dispensa de suas razões em
nome de sua psicologia. Se explicar o revolucionário pelo ressentimento é indigno
— e é —, explicar o conservador pelo pavor é igualmente indigno. A suspeita,
quando se torna método, não tem como não se aplicar a quem a maneja. O ensaio
é, contra sua vontade, uma confissão dessa simetria.
IV. A natureza não é o cárcere da liberdade
Chego ao coração
filosófico da disputa, e ao ponto em que a réplica conservadora deixa de ser
defensiva. O ensaio inteiro repousa sobre uma antítese que ele nunca examina,
porque a toma por evidente: de um lado, a natureza — hierárquica,
imutável, opressora; de outro, a liberdade — a subjetividade moderna
insurrecional que busca reconhecimento e igualdade. A natureza aprisiona; a
emancipação liberta; ser de direita é estar do lado do cárcere. Toda a
arquitetura do texto — a "contrarrevolução da natureza" — depende de
que essa oposição seja aceita sem exame.
É exatamente ela
que o conservadorismo, no seu melhor, jamais aceitou. A tese central da
tradição — de Burke a Oakeshott, de Tocqueville a Scruton — não é que a
natureza se oponha à liberdade, mas que a liberdade só existe dentro de uma
ordem, e desaparece quando a ordem é abolida em seu nome.[6] O ponto de
Burke, escrito a quente contra o entusiasmo de 1789, é preciso e permanece
irrespondido: direitos abstratos, arrancados de toda a moldura de deveres,
instituições e hábitos herdados que os tornam exercíveis, não emancipam ninguém
— devoram seus próprios portadores.[7] A liberdade que
despreza o limite não produz mais liberdade; produz o vazio no qual o poder
mais nu se instala. A França, que aboliu a natureza em nome do homem, teve o
Terror; teve Bonaparte. A sequência não foi um acidente. Foi a demonstração.
Thomas Sowell
nomeou com clareza as duas visões que aqui se enfrentam.[8] A visão
irrestrita concebe o homem como perfectível, os limites como obstáculos a
remover, a injustiça como um erro a corrigir por engenharia deliberada. A visão
restrita — a conservadora — concebe o homem como falível e constante, os
limites como fatos da condição, e a política não como redenção mas como o manejo
prudente de males que não se abolem. Ora, o ensaio de Souza trata a visão
restrita como se fosse mera covardia moral, "aspiração utópica"
recusada por egoísmo. Mas há uma pergunta que ele não faz e que a visão
restrita não pode deixar de fazer: e se os limites forem reais? Se a
escassez, a falibilidade, a necessidade de autoridade, a intratabilidade do mal
humano não forem invenções da direita para justificar privilégios, mas
descrições — imperfeitas, revisáveis, mas descrições — de como as coisas de
fato são? Nesse caso, a recusa conservadora a prometer o paraíso não é cinismo.
É honestidade. E o projeto que promete abolir a natureza do homem não é
generosidade. É a mais perigosa das ilusões, porque nenhuma decepção é mais
sanguinária que a decepção de um redentor.
Isaiah Berlin,
que ninguém acusará de reacionário, deixou disto o aviso mais límpido: a crença
de que existe uma solução final e harmoniosa para todos os conflitos
humanos — de que os valores todos se reconciliam num arranjo perfeito a ser
instaurado — é a raiz metafísica de toda coerção em grande escala.[9] Pois se a
resposta perfeita existe, os que resistem a ela não têm razões: têm apenas
defeitos a corrigir. É contra essa lógica — e não contra os pobres — que se
ergue o que Souza chama de "contrarrevolução da natureza". O nome
exato dela não é ódio ao emancipado. É desconfiança do perfeito.
V. O Katechon e o anomos: a teologia que o
ensaio não vê em si
Aqui a réplica
encontra seu ponto mais agudo, e ela o encontra usando as próprias armas do
texto. Souza abre seu ensaio com a Segunda Epístola aos Tessalonicenses
— a passagem do Katechon, “aquele que detém”, que retém a manifestação
do “ímpio”, do “filho da perdição”, do sem-lei (anomos) que se levanta
contra tudo o que é sagrado. Schmitt, lembra ele com acerto, orientou seus
últimos trabalhos por essa imagem: a direita como a força katéchica que segura
a irrupção. E Souza inverte a valência com evidente prazer: o anomos, o
sem-lei que a direita quer conter, é o sujeito emancipado; o Katechon é
o carrasco da liberdade; celebremos, pois, o que se manifesta sem lei.
Mas repare-se no
que acaba de acontecer. Para celebrar a emancipação, o ensaio teve de vesti-la
com a túnica do anomos apocalíptico e de contar a história política
moderna como um drama de redenção, apostasia e vinda — uma escatologia. E é
precisamente essa a tese que a direita intelectual do século XX formulou contra
a esquerda revolucionária. Eric Voegelin — que Souza inscreve entre os réus da “contrarrevolução
da natureza” — deu-lhe o nome que ficou: a imanentização do êschaton.[10] Os movimentos
revolucionários de massa modernos, argumentou Voegelin, são heresias gnósticas
secularizadas: tomam a promessa cristã de redenção — que o cristianismo situava
para além da história, em Deus — e a transferem para dentro da história,
prometendo o paraíso na terra por ação política deliberada. Karl Löwith, no
mesmo registro, mostrou que a filosofia moderna da história, inclusive a
marxista, é escatologia judaico-cristã disfarçada de ciência: a “revolução
mundial” é o Juízo Final sem Deus, o proletariado é o povo eleito, a sociedade
sem classes é o Reino.[11]
O que se segue é
irônico ao ponto do inaudito. Ao construir seu elogio da emancipação sobre a
moldura de Paulo — o mistério da iniquidade já em ação, a manifestação do
sem-lei, a redenção que virá, “aguardemos…” —, Souza não refuta Voegelin. Ele
o confirma. Oferece, em prosa litúrgica e messiânica, a ilustração perfeita
da tese que pretendia sepultar: a de que a política revolucionária é uma
soteriologia secularizada, um messianismo sem transcendência. E é aqui que o Katechon
recupera toda a sua dignidade. Pois o que o “aquele que detém” retém, na
leitura de Paulo, não é a liberdade: é o anomos, a dissolução da lei, o
desencadeamento sem freio que se apresenta como salvação e entrega o abismo.
Uma política que celebra a manifestação do sem-lei — que faz da abolição do que
detém o seu programa — está, quer saiba quer não, do lado do abismo contra o
freio. O conservador que se reconhece na figura katéchica não é o carrasco da
esperança. É o homem que, tendo visto o que a esperança sem limite fez no
século XX, decide segurar a porta.
Porque há uma
pergunta que o “aguardemos…” final do ensaio deixa suspensa e não responde: o
que virá, quando o que detém for afastado? A história do século que Souza
celebra como “revolução mundial” já respondeu, e a resposta tem nomes: Kolimá,
o Grande Salto, o Ano Zero. Não são calúnias da direita. São o que aconteceu
quando o Katechon foi, de fato, removido.
VI. As elites que sempre voltam
O ensaio zomba,
com Beauvoir, da "teoria das elites" — a tese de que há em toda
sociedade uma minoria que governa e uma maioria que é governada — como se fosse
mera cínica autojustificação da aristocracia, a doutrina do homem como
"animal estúpido" a ser tutelado. É a passagem em que o texto mais
claramente confunde a descrição de um fato desagradável com a aprovação
dele.
Convém lembrar de
onde vem a teoria das elites. Não de um clube de nobres, mas da sociologia — de
Gaetano Mosca, de Vilfredo Pareto (a quem a própria Beauvoir recorre) e,
sobretudo, de Robert Michels, que a formulou estudando não a aristocracia, mas
o Partido Social-Democrata alemão, o mais democrático e igualitário partido
operário de seu tempo.[12] A conclusão de
Michels — a "lei de ferro da oligarquia" — foi arrancada de dentro da
esquerda, contra a vontade do próprio Michels, então socialista: toda
organização, por mais democrática que seja sua bandeira, gera uma camada
dirigente que se perpetua e se autonomiza. A teoria das elites não é a fantasia
dos que amam a hierarquia. É a constatação, feita com dor, dos que a queriam
abolir e descobriram que não podiam.
E o século XX foi
seu tribunal. Cada revolução que prometeu suprimir a hierarquia produziu uma
hierarquia nova — a nomenklatura, o aparato, o partido único — em geral
mais concentrada, mais irresponsável e mais cruel do que a que derrubara,
porque desprovida dos freios, dos costumes e das inércias que limitam as elites
velhas. Este é o ponto que o riso do ensaio não alcança: o conservador que
afirma a inevitabilidade das elites não está defendendo aquela elite;
está avisando que a abolição da elite é uma ilusão que apenas mascara a
elite seguinte — e que, entre uma aristocracia visível, limitada por tradição e
lei, e uma vanguarda invisível que fala em nome do Povo e não responde a
ninguém, o homem prudente hesita. A pretensão de governar sem elite não produz
igualdade. Produz a elite que nega ser uma. Essa é a mais perigosa de todas.
VII. O leito de Procusto
Resta a objeção
que, sozinha, comprometeria o edifício. O ensaio anuncia que Schmitt, Voegelin,
Arendt, Oakeshott, Schumpeter, Strauss, Kirk e Scruton são “todos, e à sua
maneira” a mesma “contrarrevolução da natureza”. É um leito de Procusto: para
caberem na cama, os corpos são esticados ou decepados.
Considere-se
apenas três dos hóspedes forçados. Hannah Arendt dedicou a vida a pensar
a natalidade — a capacidade humana de começar algo radicalmente novo —,
escreveu um livro em louvor da revolução (Sobre a revolução), recusou
explícita e repetidamente as etiquetas de esquerda e direita, de conservadora e
liberal, e fez de As origens do totalitarismo uma anatomia do horror que
a “restauração da natureza” schmittiana ajudara a preparar.[13] Inscrevê-la na
linhagem da imutabilidade hierárquica ao lado de Schmitt é não a ter lido. Friedrich
Hayek, por sua vez, anexou a Os fundamentos da liberdade um posfácio
cujo título é uma bofetada na tese do ensaio: “Por que não sou conservador”.[14] Hayek combatia
justamente a defesa da hierarquia dada, da autoridade estabelecida, da ordem
herdada; era um liberal da ordem espontânea e evolutiva, inimigo do
planejamento — o oposto exato da “natureza como hierarquia imutável” que lhe é
atribuída. E Oakeshott, cético radical, desconfiava de toda
doutrina — inclusive das doutrinas conservadoras —, e via na própria pretensão
de possuir a chave da política, de esquerda ou de direita, a superstição
fundamental do “racionalismo”.[15] Amontoá-lo com
Strauss, para quem existe um Direito natural cognoscível e uma verdade política
acessível à razão, é unir num só rótulo dois homens que discordavam
precisamente sobre se tal rótulo pode existir.
O gesto de
reduzir essa dispersão a uma essência única — “contrarrevolução da natureza” —
é, repita-se, o mesmíssimo gesto que o ensaio condena na direita: tomar uma
multiplicidade viva de sujeitos e prensá-la sob uma “natureza” fixa que
dispensa de examinar cada um. Um crítico da metafísica das essências não
deveria fundar seu método sobre uma.
VIII. O que o Katechon também precisa
ouvir
Um ensaio que
apenas devolvesse golpes seria polêmica, não pensamento. Devo, portanto, o que
a honestidade exige: dizer onde o outro lado tem razão, e onde o Katechon
— a figura que defendi — deve, por sua vez, curvar a cabeça.
Souza, Beauvoir e
Anderson acertam num ponto que nenhum conservador sério pode negar sem cinismo:
a defesa da ordem serviu, muitas vezes, à defesa da injustiça. A
hierarquia que a tradição pede que respeitemos foi, com frequência, hierarquia
de escravos e senhores, e a serenidade com que certos conservadores
contemplaram o sofrimento dos de baixo — "todo poder vem de Deus", os
servos que devem amar seus senhores — não é sabedoria: é anestesia moral, e
Beauvoir tem razão de a expor. O dado nem sempre é o bom; a natureza
invocada foi, incontáveis vezes, apenas o nome nobre do interesse. Um
conservadorismo que não distinga a ordem digna de ser conservada da mera
dominação que se traja de ordem é, de fato, o que seus adversários dizem que
ele é: uma apologia do poder com boas maneiras. E a esquerda que Souza
representa prestou à humanidade este serviço permanente: não deixar que a
palavra "natureza" durma em paz sempre que ela cobre uma iniquidade.
O Katechon,
portanto, não é o último veredicto sobre nada. Ele retém — mas quem retém
carrega também o peso de justificar o que retém, e de saber que pode estar
segurando, junto com o abismo, alguma justiça que ainda não nasceu. A grandeza
da posição conservadora não está em declarar a natureza sagrada e encerrar o
caso; está em sustentar, contra a vertigem do perfeito, que a mudança boa é a
que conserva ao transformar — a que poda a árvore sem arrancá-la, a que
corrige o mundo sem prometer refazê-lo do nada. Entre o revolucionário que quer
demolir a casa porque um cômodo tem goteira, e o reacionário que proíbe
consertar a goteira porque a casa é sagrada, há um terceiro homem. Ele conserta
a goteira. E, antes de derrubar a cerca que não entende, pergunta por que a
puseram ali.[16]
É esse homem —
nem o anomos que celebra a manifestação sem lei, nem o carrasco que
confunde toda esperança com desordem — que o ensaio de Ronaldo Tadeu de Souza,
ao caluniar a natureza inteira de uma tradição, deixou de ver. Ele existe. E é,
talvez, o único que ainda segura a porta pela qual todos nós — à esquerda e à
direita — teremos de passar.
[1]Ronaldo Tadeu de Souza,
"Contrarrevolução da natureza: Simone de Beauvoir e Perry Anderson
explicam o que é ser de direita — um ensaio", Blog da Boitempo, 1º
de agosto de 2026. Todas as caracterizações do argumento referem-se a esse
texto.
[2]Paul Ricoeur, De l’interprétation.
Essai sur Freud (Paris: Seuil, 1965). É nessa obra que Ricoeur cunha a
expressão "escola da suspeita" (école du soupçon) e nomeia
Marx, Nietzsche e Freud como seus "mestres".
[3]Simone de Beauvoir, "La pensée de
droite, aujourd’hui", Les Temps Modernes, nos. 112–114 (1955); ed.
bras. O pensamento de direita, hoje (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967).
Perry Anderson, "The Intransigent Right at the End of the
Century", originalmente na London Review of Books (1992), recolhido
em Spectrum: From Right to Left in the World of Ideas (Londres: Verso,
2005); ed. bras. Espectro: direita
e esquerda no mundo das ideias (São Paulo: Boitempo, 2012) e Afinidades eletivas (São Paulo:
Boitempo, 2002).
[4]A imagem do Katechon provém de 2
Tessalonicenses 2, 6–7, sobre "aquilo que o detém" (τὸ κατέχον) e
"aquele que agora o detém" (ὁ κατέχων). Carl Schmitt desenvolve-a
sobretudo em Der Nomos der Erde (1950) e no Glossarium, lendo-a
como figura teológico-política da força que retém o fim.
[5]Friedrich Nietzsche, Zur Genealogie
der Moral (1887), esp. Primeira Dissertação, sobre a "revolta escrava
na moral" e a inversão de valores operada pelo ressentiment. Max
Scheler, Das Ressentiment im Aufbau der Moralen (1912), que retoma e
disputa o conceito nietzschiano.
[6]Ver Roger Scruton, The Meaning of
Conservatism (Londres: Macmillan, 1980) e How to Be a Conservative
(Londres: Bloomsbury, 2014), para a formulação contemporânea da tese de que a
liberdade é herança de uma ordem, não seu contrário.
[7]Edmund Burke, Reflections
on the Revolution in France (1790). A crítica aos "direitos abstratos" divorciados da moldura
concreta de deveres e instituições é o eixo do argumento; a célebre imagem da
sociedade como "parceria entre os que vivem, os que morreram e os que
ainda hão de nascer" figura no mesmo texto.
[8]Thomas Sowell, A
Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Struggles (Nova York:
William Morrow, 1987). A distinção entre
"visão restrita" (constrained) e "visão irrestrita"
(unconstrained) organiza toda a obra.
[9]Isaiah Berlin,
"Two Concepts of Liberty" (1958), em Four Essays on Liberty
(Oxford: Oxford University Press, 1969). A crítica ao monismo — a crença numa harmonia final de todos os
valores — reaparece em "The Pursuit of the Ideal", em The Crooked
Timber of Humanity (1990).
[10]Eric Voegelin, The
New Science of Politics: An Introduction (Chicago: University of Chicago
Press, 1952), esp. cap. IV, sobre a
"imanentização do êschaton cristão" e o caráter gnóstico dos
movimentos políticos modernos. Ver também Wissenschaft, Politik und Gnosis
(1959).
[11]Karl Löwith, Meaning
in History: The Theological Implications of the Philosophy of History
(Chicago: University of Chicago Press, 1949). A tese: a moderna filosofia da história é escatologia judaico-cristã
secularizada.
[12]Robert Michels, Zur Soziologie des
Parteiwesens in der modernen Demokratie (1911), onde se formula a "lei
de ferro da oligarquia" a partir do estudo do SPD alemão; Gaetano Mosca, Elementi
di scienza politica (1896); Vilfredo Pareto, Trattato di sociologia
generale (1916), sobre a "circulação das elites".
[13]Hannah Arendt, The
Origins of Totalitarianism (1951); On Revolution (1963); The
Human Condition (1958), sobre a natalidade como categoria política. Sobre sua recusa das etiquetas, ver a
entrevista a Günter Gaus (1964).
[14]Friedrich A.
Hayek, "Why I Am Not a Conservative", posfácio a The Constitution
of Liberty (Chicago: University of Chicago Press, 1960); ed. bras. Os fundamentos da liberdade. Ver ainda The Road to Serfdom
(1944).
[15]Michael
Oakeshott, "Rationalism in Politics" e "On Being
Conservative", em Rationalism in Politics and Other Essays
(Londres: Methuen, 1962). A
"disposição conservadora" é aí caracterizada como preferência
prática, não doutrina metafísica — o que a distingue do jusnaturalismo de Leo
Strauss em Natural Right and History (Chicago, 1953).
[16]A imagem da cerca é de G. K. Chesterton, The
Thing (1929): antes de remover uma cerca cuja finalidade se ignora, convém
descobrir por que foi erguida — princípio de humildade epistêmica que sintetiza
a atitude conservadora diante do herdado.