Habitar o Tempo: A Continuidade de Sentido
Este livro foi escrito, inevitavelmente, em tom frequentemente crítico e sombrio. As patologias que diagnostica são reais; as forças que as produzem são poderosas; as tendências que analisa não mostram sinais de reversão espontânea. Seria ilusório fingir otimismo que não sentimos. E, no entanto, o trabalho foi animado por esperança. Não a esperança ingênua de que "tudo vai dar certo", de que as coisas se resolverão por si mesmas, de que o futuro será necessariamente melhor que o presente. Essa esperança seria, precisamente, a ilusão progressista que criticamos. A esperança que nos anima é outra: a de que a verdade pode ser reconhecida, e que seu reconhecimento pode fazer diferença.
A continuidade de sentido não é valor arbitrário que inventamos; é estrutura da experiência humana que descobrimos. Ela pode ser ignorada, mas não abolida; pode ser destruída, mas não substituída. Os seres humanos continuarão a precisar de sentido, de identidade, de cultura — mesmo que as condições para satisfazer essas necessidades se tornem cada vez mais difíceis. Essa necessidade é raiz de esperança: enquanto houver seres humanos, haverá busca de continuidade de sentido. Romano Guardini, em O fim da idade moderna, antecipou muitos dos diagnósticos que desenvolvemos.[1] Mas ele concluía com nota de esperança: as épocas de crise são também épocas de possibilidade.
Quando as estruturas antigas se dissolvem, novas podem emergir. Quando as ilusões são desfeitas, a verdade pode ser reconhecida mais claramente. Quando o fio se rompe, pode ser reatado — por quem percebe que ele existe e que sua ausência é insuportável.
Este livro tenta tornar explícito o que estava implícito, reunir o que estava disperso, dar forma conceitual ao que era intuição vaga. O resultado não é "descoberta" inédita; é articulação de algo que, de certo modo, "já sabíamos" — mas que precisava ser dito claramente.
Em segundo lugar, o diagnóstico de patologias contemporâneas à luz dessa noção. Fragmentação identitária, anomia social, radicalização política, empobrecimento cultural — todos esses fenômenos, analisados por especialistas de diferentes áreas, revelam-se aspectos de uma mesma crise: a erosão da continuidade de sentido. Ver a unidade por trás da diversidade dos sintomas é o primeiro passo para qualquer terapia. Não oferecemos a terapia; oferecemos diagnóstico que pode orientá-la.
[1]Guardini antecipou muitos diagnósticos sobre a crise da modernidade tardia. (2000 [1950])
Em terceiro lugar, a crítica de ideologias e atitudes que, intencionalmente ou não, destroem a continuidade de sentido. O "culto da ruptura", a celebração do "novo" pelo novo, a desconstrução como fim em si mesma, o desprezo pelo herdado — todas essas posturas, frequentemente apresentadas como "progressistas" ou "emancipatórias", revelam-se destrutivas quando examinadas à luz de suas consequências. A crítica não é moralismo; é análise das condições de possibilidade de uma vida humana significativa.
Em quarto lugar, a reabilitação de noções frequentemente desvalorizadas: tradição, autoridade, transmissão, fidelidade. Essas noções não são sinônimos de opressão ou obscurantismo; elas designam estruturas sem as quais a vida humana se torna impossível. A tradição, bem compreendida, não é prisão; é repertório de possibilidades. A autoridade, bem compreendida, não é dominação; é reconhecimento. A fidelidade, bem compreendida, não é servidão; é liberdade que assume responsabilidades.
A continuidade de sentido é invisível precisamente porque é condição de toda visibilidade. Assim como não vemos a luz, mas vemos pela luz; assim como não ouvimos o silêncio, mas ouvimos contra o silêncio — a continuidade de sentido sustenta nossa experiência sem aparecer nela como objeto. Ela é o fundo sobre o qual as figuras se destacam. Mas o invisível pode tornar-se visível — quando falta, quando falha, quando é ameaçado. A dor torna visível a saúde que ignorávamos; a perda torna visível o que possuíamos sem perceber; a crise torna visível as estruturas que sustentavam a normalidade. Este livro é tentativa de tornar visível o invisível — de trazer à consciência o que operava silenciosamente, de articular o que permanecia implícito.
Que o fio invisível, frequentemente esquecido, possa tornar-se novamente visível — eis a esperança que animou estas páginas. Não para que o contemplemos passivamente, mas para que o cultivemos ativamente. Não para que o idolatremos, mas para que o transmitamos. Não para que nos prendamos a ele, mas para que, através dele, possamos nos mover livremente no tempo — sabendo de onde viemos, orientando-nos no presente, abrindo-nos ao futuro. Gabriel Marcel falou de "fidelidade criadora" — a fidelidade que não é mera repetição, mas resposta viva a um compromisso assumido.[2] Essa fidelidade é o modo autêntico de habitar o tempo. Ela reconhece dívidas e assume responsabilidades; ela honra o que recebeu e prepara o que transmitirá; ela é, simultaneamente, memória e promessa.
[2]Marcel desenvolveu o conceito de "fidelidade criadora" como modo de relação autêntica com o tempo. (1991 [1935])
A continuidade de sentido não é prisão que nos prende ao passado; é corda que nos permite escalar para o futuro. Kierkegaard observou: "Só compreendemos a vida olhando-a para trás; mas só podemos vivê-la olhando-a para frente."[3] Essa tensão — entre compreensão retrospectiva e vida prospectiva — é o espaço em que habitamos. A continuidade de sentido é precisamente o que permite habitar esse espaço sem ser dilacerado por ele: o passado compreendido orienta o futuro vivido; o futuro projetado ressignifica o passado lembrado. Sem passado, o futuro é aposta cega; sem futuro, o passado é peso morto. A continuidade de sentido é o que permite que ambos se fecundem mutuamente.
Este livro é, ele mesmo, tentativa de continuidade. Ele não pretendeu "refundar" coisa alguma; pretendeu desenvolver, articular, tornar explícito o que já estava presente, de modo disperso, em autores e tradições que o precederam. Ele é elo de uma cadeia — recebendo de predecessores, transmitindo a sucessores, esperando que outros corrijam seus erros e desenvolvam suas intuições. Se conseguiu tornar mais claro o que antes era vago, se conseguiu formular perguntas que outros poderão responder melhor, terá cumprido seu propósito. Ao leitor que chegou até aqui, uma última palavra: a continuidade de sentido não é apenas tema de reflexão; é tarefa de vida.
Cada um de nós, em seu lugar, com seus recursos, com suas responsabilidades, pode contribuir para cultivá-la ou destruí-la. As escolhas cotidianas — que histórias contamos, que práticas cultivamos, que compromissos honramos, que tradições transmitimos — são o tecido de que a continuidade é feita. Ela não existe "lá fora", nas estruturas impessoais; ela existe — ou deixa de existir — nas vidas concretas de pessoas concretas. Que este livro possa ter contribuído, ainda que modestamente, para tornar visível o fio invisível — e para que aqueles que o percebem possam, cada um a seu modo, reatá-lo onde se rompeu, fortalecê-lo onde se fragilizou, transmiti-lo a quem ainda não o conhece.
Essa é a esperança com que nos despedimos.
[3]Kierkegaard analisou o desespero como impossibilidade de constituir um eu integrado no tempo. (2010 [1849])
