Unidade Primordial: O Retorno à Origem
No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus.
— João 1:1
Há livros que nascem de perguntas. Este nasceu de uma ausência. Não a ausência de respostas —
estas abundam em nosso tempo, multiplicam-se em tratados acadêmicos, proliferam
em sistemas cada vez mais sofisticados. Mas a ausência daquilo que torna as
perguntas possíveis: a experiência imediata da unidade. Como se, ao ganharmos a capacidade de analisar, dissecar,
categorizar, tivéssemos perdido a capacidade mais fundamental: a de ver. Este ensaio é, antes de tudo, um
exercício de memória. Não memória
pessoal ou histórica, mas memória ontológica
— o resgate daquilo que a filosofia moderna esqueceu ao trilhar o caminho da
fragmentação. René Guénon chamaria isto de retorno à Tradição primordial, não
como nostalgia do passado, mas como reconhecimento de princípios metafísicos
perenes que atravessam os séculos porque tocam a estrutura mesma do real.[1]
Vivemos tempos estranhos. A filosofia — que deveria ser amor à sabedoria, philos-sophia, desejo ardente de conhecer a verdade — tornou-se
frequentemente técnica árida, jogo de linguagem, construção de sistemas que se
auto-referenciam sem jamais tocar o solo da experiência vivida. Perdemos o
contato com aquilo que Husserl chamou de mundo
da vida (Lebenswelt), o horizonte
pré-teórico onde nos movemos cotidianamente, onde as coisas já têm sentido
antes de qualquer conceitualização.[2] Immanuel
Kant, com sua Crítica da Razão Pura,
pretendeu salvar a ciência e a metafísica do ceticismo humeano. Mas ao fazer do
sujeito transcendental o legislador da experiência, ao afirmar que conhecemos
não as coisas em si mesmas, mas apenas os fenômenos constituídos por nossas categorias a priori, abriu um abismo que a
filosofia subsequente não conseguiu fechar.[3] Ficamos com um mundo dividido: de um lado, o sujeito com suas
estruturas cognitivas; de outro, a realidade incognoscível, o noumenon que permanece para sempre além
de nosso alcance.
E, se Kant estivesse errado desde o princípio? E se a separação entre sujeito e objeto, entre
pensamento e ser, entre conhecimento e realidade fosse não uma descoberta
inevitável da razão crítica, mas um erro
de princípio, uma decisão filosófica equivocada que contaminou todo o
edifício subsequente? E se a unidade da experiência não fosse construção cognitiva posterior, mas dado primordial anterior — não algo que fazemos, mas algo que encontramos?
Esta é a tese central deste ensaio, e seu desenvolvimento
exigirá que percorramos um caminho aparentemente paradoxal: para avançar,
precisaremos retornar. Retornar à
experiência imediata que precede toda elaboração teorética. Retornar à tradição
realista — aristotélica, tomista, fenomenológica — que sempre sustentou a
inteligibilidade objetiva do real. Retornar, enfim, àquela unidade primordial que a modernidade fragmentou, mas que continua lá,
sustentando com sua presença silenciosa a própria possibilidade de todo
conhecimento. Olavo de Carvalho, interpretando René Guénon, fala de
"fragmentos de unidade" — não partes isoladas aguardando soma
quantitativa, mas sinédoques ontológicas
onde o particular já contém e manifesta o universal.[4] Cada experiência concreta, cada momento vivido, cada
percepção singular não é átomo desconexo que precisa ser unificado
posteriormente pela síntese transcendental do sujeito. É, ao contrário, janela
aberta para a totalidade, espelho que reflete — ainda que parcialmente — a
estrutura inteira do real.
Quando vejo uma árvore, não experimento primeiro
"sensações desconexas de verde, marrom, textura e forma" que depois
"uno" num conceito de árvore através das categorias do entendimento.
A árvore já se dá como árvore, como
totalidade significativa, como presença unitária no horizonte de minha
percepção. Esta unidade não é imposta
por mim — é descoberta na própria
experiência. E pode ser descoberta porque já
está lá, anterior a todo olhar, sustentando com sua inteligibilidade
objetiva a própria possibilidade do ato cognitivo. Isto é
o que a tradição realista sempre afirmou: adequatio
intellectus ad rem — conformação do intelecto à coisa, não imposição de
formas subjetivas ao caos sensível.[5] Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, ensinava que o
conhecimento é possível porque há continuidade
ontológica entre conhecedor e conhecido: ambos participam do Ser, ambos são
iluminados pela mesma Luz inteligível que torna o mundo compreensível e o
intelecto capaz de compreender.[6]
Mas a modernidade cartesiana rompeu esta continuidade. Ao
fazer do cogito o fundamento
primeiro, ao separar radicalmente res
cogitans e res extensa, Descartes
inaugurou o dualismo que culminaria no idealismo transcendental kantiano.[7] E Kant, ao tentar superar o ceticismo empirista através da
"revolução copernicana", apenas aprofundou o problema: se o sujeito
constitui o objeto através de suas formas a
priori, então nunca conhecemos a realidade em si, apenas nossa própria
construção. A história da filosofia pós-kantiana é, em grande medida, a
história das tentativas de escapar desta prisão — ou de aprender a viver nela.
Fichte radicalizará o idealismo, fazendo do Eu Absoluto o único princípio.[8] Hegel tentará dissolver a oposição sujeito-objeto no
movimento dialético do Espírito Absoluto.[9] Schopenhauer identificará o noumenon kantiano com uma Vontade
cega e irracional.[10] Nietzsche, finalmente, levará o perspectivismo às últimas
consequências: não há verdade, apenas interpretações; não há ser, apenas devir;
não há fundamento, apenas abismo.[11]
Mas e se pudéssemos simplesmente recusar o ponto de partida? E se o erro não estivesse nas
respostas, mas na própria pergunta? E se, em vez de perguntar "como é
possível o conhecimento da realidade exterior?", reconhecêssemos que esta
pergunta já pressupõe justamente aquilo que deveria demonstrar — a separação
entre interior e exterior, entre sujeito e objeto, entre pensamento e ser? Edmund
Husserl, com sua fenomenologia, tentou precisamente isto: "retornar às
coisas mesmas" (zu den Sachen selbst),
suspender as teorias preconcebidas e descrever a experiência tal como se dá.[12] E o que a fenomenologia descobre? Que a consciência é
essencialmente intencional — sempre
consciência de algo, sempre dirigida
a um objeto que transcende o ato de consciência.[13] Não há sujeito puro separado de objetos; há sempre ser-no-mundo, como dirá Heidegger,
engajamento existencial com uma realidade que já está lá antes de toda
teorização.[14] Merleau-Ponty
radicalizará esta intuição: o corpo vivido (corps
vécu) não é objeto entre objetos, nem sujeito puro separado do mundo — é entrelaçamento (entrelacs), ponto onde sujeito e objeto, interior e exterior,
tocante e tocado se entrecruzam numa "quiasma" que desfaz a separação
cartesiana.[15] A fé perceptiva —
confiança originária na realidade do mundo — não é crença que precisa
justificação, mas solo incontornável de toda experiência.[16]
A psicologia da Gestalt, por sua vez, demonstrou empiricamente
aquilo que a fenomenologia descrevia filosoficamente: a percepção não parte de
elementos isolados que depois seriam sintetizados, mas de totalidades já
organizadas.[17] Vemos formas (Gestalten), não sensações atomizadas. As
leis gestaltistas — proximidade, semelhança, continuidade, fechamento — não são
impostas pelo sujeito, mas descobertas
na própria experiência perceptiva, evidenciando uma ordem objetiva que antecede
e possibilita o ato de perceber.
Todos estes desenvolvimentos — fenomenologia,
psicologia da Gestalt, filosofia da percepção — convergem para uma mesma
conclusão: Kant estava errado. A unidade da experiência não é construção posterior, mas dado primordial. O mundo não é caos
esperando organização cognitiva — é cosmos,
ordem já constituída que o intelecto reconhece,
não constitui.
[1]
GUÉNON,
René. La Crise du monde moderne. (1927);
GUÉNON, R. Le Règne de la Quantité et les
Signes des Temps. (1945)
[2]HUSSERL, Edmund. A Crise das Ciências Europeias e a
Fenomenologia Transcendental. (2012 [1936])
[3]
KANT,
Immanuel. Crítica da Razão Pura. (1985
[1781/1787])
[4]
CARVALHO,
Olavo de. A Filosofia e seu Inverso. (2012);
especialmente cap. sobre símbolos de convergência.
[5]
TOMÁS DE
AQUINO. De Veritate, q. 1, a. 1:
"Veritas est adaequatio rei et
intellectus" (A verdade é a adequação entre a coisa e o intelecto).
Edição brasileira: Questões Disputadas
sobre a Verdade. (1999)
[6]
TOMÁS DE
AQUINO. Summa Theologiae, I, q. 79,
a. 4, ad 5: "Lumen intellectuale
quod est in nobis, nihil est aliud quam quaedam participata similitudo luminis
increati" (A luz intelectual que está em nós não é senão certa
semelhança participada da luz incriada).
[7]
DESCARTES,
René. Meditações Metafísicas. Especialmente
Meditação Segunda (Cogito ergo sum) e
Sexta (distinção res cogitans / res extensa). Meditações Metafísicas. (1973 [1641])
[8]FICHTE, Johann
Gottlieb. A Doutrina da ciência de 1794.
(1973 [1794/1795])
[9]
HEGEL, G.
W. F. Fenomenologia do Espírito. (1992
[1807])
[10]
SCHOPENHAUER,
Arthur. O Mundo como Vontade e
Representação. (2005 [1818])
[11]
NIETZSCHE,
Friedrich. Nachgelassene Fragmente
(Fragmentos Póstumos), 1886-1887: "Não há fatos, apenas
interpretações"; Also sprach
Zarathustra [1883-1885]. Edição brasileira: Assim Falou Zaratustra. (2011)
[12]
HUSSERL,
Edmund. Investigações Lógicas. (2012 [1900-1901])
[13]HUSSERL, Edmund. Ideias para uma Fenomenologia Pura. (2006
[1913]), §§ 84-96 sobre a intencionalidade da consciência.
[14]
HEIDEGGER,
Martin. Ser e Tempo. Sobre In-der-Welt-sein como estrutura
fundamental do Dasein. (2012 [1927])
[15]
MERLEAU-PONTY,
Maurice. cap. sobre "O entrelaçamento — O quiasma". O Visível e o Invisível. (1984 [1964])
[16]
MERLEAU-PONTY,
Maurice. Fenomenologia da Percepção. (1994
[1945])
[17]
KÖHLER,
Wolfgang. Gestalt Psychology. (1947 [1929]); KOFFKA, Kurt. Principles of Gestalt Psychology. (1999 [1935])
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