O cínico e o sábio: a diferença sutil que separa os dois
É
preciso considerar a importância dessa diferença, porque o público
contemporâneo, formado por décadas de literatura desenganada, tende a confundir
as duas figuras — a do cínico e a do sábio —, com prejuízo grave para a
inteligência da experiência humana plena. O cínico e o sábio podem parecer-se
na superfície: ambos têm pouca expectativa do mundo, ambos são parcimoniosos em
suas adesões, ambos sorriem ironicamente diante das pretensões dos
contemporâneos, ambos preferem a discrição à proclamação ruidosa, ambos
preferem o silêncio à arenga. À primeira vista, o leitor distraído pode tomar
um pelo outro, e mesmo encontrar, em si próprio, motivos para considerá-los
figuras intercambiáveis.
Mas o
cínico permanece amargo; o sábio é, no fundo do silêncio, agradecido.
Esta é a diferença substantiva que toda a meditação deste capítulo precisa
articular com cuidado. O cínico vê só a comédia da existência; vê os homens
entregando-se a paixões inconsequentes, perseguindo metas vazias, idolatrando
deuses falsos, traindo seus próprios princípios ao primeiro acaso. E, vendo
isso tudo, ri amargamente — ri, porque é o que pode fazer; ri, porque nada além
do riso lhe parece restar; ri, porque a alternativa do choro lhe pareceria
pieguice indigna. Mas o riso do cínico tem peso de chumbo, não de pena; é riso
que pesa sobre quem ri, e sobre o mundo a que se dirige. Não liberta;
aprisiona. Não eleva; afunda. Não cura; perpetua a doença que pretende
diagnosticar.
O sábio,
ao contrário, vê a mesma comédia que o cínico vê, mas vê também, através
dela, uma ordem que excede a comédia e que confere mesmo à banalidade um peso
ontológico que a sátira nunca alcança. Vê o pequeno acerto cotidiano de um
vizinho honesto e nele reconhece, em escala discreta, o mesmo tipo de
fidelidade que, em escala maior, sustentou Sócrates na hora da cicuta. Vê a
paciência silenciosa de uma esposa que cuida do marido enfermo durante anos sem
quebrar a continuidade do gesto, e nela reconhece, traduzida em registro
doméstico, a mesma estrutura espiritual que faz dos santos os exemplares mais
altos do humano. Vê o pequeno gesto de cortesia de um estranho na rua e nele
percebe a presença, mesmo numa cidade decadente, daquela fidelidade aos pequenos
rituais cívicos sem a qual nenhuma vida em comum seria possível. O sábio, em
suma, sabe ver — e ver é, em sua estrutura mais profunda, ato de gratidão. Pois
quem vê reconhece que existe; e quem reconhece que existe descobre, no mero
fato da existência, motivo suficiente para a forma silenciosa do agradecimento
que constitui o fundo último da sabedoria autêntica.
O cínico
ri do mundo; o sábio sorri com o mundo, mesmo sabendo de seu
desconcerto[1]. A
preposição faz toda a diferença, e nela se condensa uma das observações
antropológicas mais finas da tradição contemplativa. Quem ri do mundo
está fora dele, em posição de superioridade intelectual que, paradoxalmente, é
também posição de empobrecimento espiritual: só pode ver o mundo como objeto
distante, e essa distância, por ser estrutural, impede o reconhecimento daquilo
que, no mundo mesmo, comportaria peso e mistério. Quem sorri com o mundo
está dentro dele, em pé de igualdade com as coisas, em comunhão silenciosa com
o tecido vivo da existência — e por isso pode reconhecer, em meio à comédia
geral, os pontos em que a comédia é também tragédia, e os pontos em que mesmo a
tragédia é atravessada por uma luz que excede o registro trágico. O sorriso do
sábio é, em última análise, sorriso de quem reconciliou-se com o mistério da
existência sem por isso ter abdicado da inteligência crítica; é sorriso
pós-trágico, no sentido em que tem atrás de si toda a tragédia atravessada e
digerida, e à sua frente, ainda, a serena recepção daquilo que é, mesmo no que
é insuficiente.
[1]Sobre a diferença entre o cínico e o sábio, ver
SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador. (2015); capítulo final, em que
o filósofo distingue o desencanto sereno da maturidade conservadora do niilismo
destrutivo do cinismo moderno. Cf. também PIEPER, Josef. Sobre o Amor. (2012);
em que se articula com particular finura a estrutura da gratidão como fundo
último da sabedoria autêntica.
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