“Mudança climática”: Toda ciência principia por um ato de nomeação
E nomear,
já se sabe desde os antigos, nunca é gesto inocente
A palavra
que atribuímos a um fenômeno não apenas o descreve: recorta-o do contínuo do
real, hierarquiza o que nele merece atenção e prescreve, silenciosamente, o que
dele se deve temer. É desse limiar tênue entre descrever e prescrever que nasce
este texto.
Há um
pressuposto que atravessa cada página do que se segue, e convém enunciá-lo sem
rodeios logo à entrada, para que nenhum leitor de boa-fé o confunda com aquilo
que ele não é. Aqui, o tratamento necessário é quanto ao gesto de nomeação das questões
ambientais apresentadas ao cidadão. Não se pretende aqui negar a materialidade
dos processos ambientais, nem de menosprezar a seriedade dos desafios que o
século impõe às sociedades humanas. Trata-se de algo distinto e, a meu ver,
mais fundamental: examinar como falamos daquilo de que falamos, e que
consequências políticas e epistemológicas se seguem das palavras que
escolhemos. A distinção é sutil, mas decisiva. Uma coisa é o clima como sistema
físico, objeto legítimo da investigação empírica; outra, bem diversa, é o discurso
sobre o clima como artefato cultural, construído, disputado e mobilizado.
Este ensaio ocupa-se do segundo sem jamais pretender revogar o primeiro.
A migração
terminológica que percorre as últimas décadas — de "aquecimento
global" a "mudança climática", desta a "crise" e, por
fim, a "emergência" — oferece o fio condutor da investigação. Vista
de perto, essa sucessão não é um mero refinamento conceitual ditado pelo avanço
do conhecimento. É uma operação de linguagem carregada de intenção, no sentido
preciso em que a filosofia da linguagem, desde Austin, aprendeu a reconhecer
que certos enunciados não apenas dizem o mundo, mas fazem coisas nele.
Declarar uma "emergência" não é constatar um estado de coisas: é
convocar um regime de exceção, suspender provisoriamente a deliberação
ordinária e legitimar medidas que, em circunstâncias normais, encontrariam a
resistência saudável do debate público. A história dos conceitos — a lição de
Koselleck — ensina que as palavras com que uma época pensa a si mesma são
também as armas com que ela disputa seu futuro. Nomear é, nesse sentido, já
governar.
Daí decorre
a segunda inquietação que anima estas páginas, e que é de natureza propriamente
epistemológica. Há uma fronteira, traçada por Hume e reafirmada com rigor por
Max Weber, que separa o domínio do ser do domínio do dever-ser —
os fatos, que a ciência pode estabelecer, dos valores e das prescrições, que a
ela não compete decretar. Quando essa fronteira se apaga, quando a autoridade
conquistada pela ciência no terreno da constatação empírica é transferida, sem
mediação, para o terreno das escolhas políticas, produz-se aquilo que aqui
chamo de cientifização da política: a conversão de decisões que são, por
essência, deliberativas e conflituais — sobre custos, prioridades, modelos de
desenvolvimento — em imperativos técnicos apresentados como inquestionáveis. O
paradoxo é amargo: em nome da ciência, corrói-se justamente aquilo que faz a
força da ciência, que é o ceticismo organizado, a disposição permanente a
rever, a coragem de conviver com a incerteza sem convertê-la prematuramente em
consenso. Um pensamento que já não admite ser contestado deixou, nesse
instante, de ser científico.
Como
economista, não pude deixar de trazer a esta análise a lente da economia
política. Karl Polanyi mostrou que os mercados não pairam acima da sociedade,
mas nela se ancoram, e que toda grande transformação econômica se faz
acompanhar de disputas sobre quem arca com seus custos. A chamada
"transição verde" não escapa a essa lógica. Sob a retórica
universalista da urgência, distribuem-se de modo profundamente desigual ônus e
benefícios — favorecendo, com frequência, os atores dotados de maior capacidade
de adaptação regulatória, e transferindo responsabilidades para as comunidades
que são, elas próprias, as menos causadoras e as mais expostas à degradação.
Reconhecer isso não é ceticismo ambiental: é honestidade estrutural. E é também
a razão pela qual aqui se insiste, contra a moralização do comportamento
individual, na primazia das transformações estruturais — regulatórias,
institucionais, sistêmicas — como o terreno onde a sustentabilidade se decide
de fato.
Resta o que
verdadeiramente está em jogo, e que ultrapassa a questão ambiental. O que se
defende, ao fim, é uma ética do conhecimento e uma ética da democracia —
irmãs gêmeas, pois ambas repousam sobre a mesma virtude: a humildade diante
daquilo que não sabemos, e o respeito pelo direito dos outros de discordar. A
linguagem da emergência, ao fechar o espaço do dissenso, empobrece as duas.
Este livro é, portanto, menos uma tese sobre o clima do que um apelo por um
modo de pensar: transparente quanto às suas incertezas, rigoroso na separação
entre o que observa e o que prescreve, e confiante em que somente do debate
aberto, plural e informado pode emergir uma política ambiental que seja, a um
só tempo, eficaz, justa e legítima. Que o leitor, pois, tome estas páginas não
como uma resposta, mas como um convite ao exame — que é, afinal, a única forma
de fidelidade que se deve à verdade.
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