A engenharia da permanência
No
modelo brando — as democracias que Vargas Llosa chamaria “relativas” —,
a permanência não se impõe pela censura, mas pela hegemonia. Aqui a chave é
Gramsci, lido não como economista, mas como estrategista. Sua tese é que, nas
sociedades ocidentais de sociedade civil densa, o poder não se conquista pelo
assalto frontal ao Estado (a “guerra de movimento”), mas pela lenta ocupação
das trincheiras da cultura (a “guerra de posição”): escolas, universidades,
editoras, imprensa, indústria do entretenimento, igrejas.[2]
O que o discurso militante chamou de “longa marcha através das instituições”[3]
é a tradução operacional dessa estratégia: não é preciso proibir o adversário
se é possível tornar impensável o que ele pensa. A censura do modelo duro
proíbe frases; a hegemonia do modelo brando torna certas frases impronunciáveis
— pelo custo social, pela vergonha fabricada, pelo cerco reputacional. O
resultado converge: uma esfera pública em que o dissenso existe formalmente e é
impotente na prática.
Mas há
uma pergunta que a categoria gramsciana não responde, e sem a qual a engenharia
permanece incompreendida: por que os homens de espírito colaboram? A
hegemonia não se sustenta por decreto; sustenta-se porque milhares de
inteligências livres escolhem, dia após dia, ver o mundo com os olhos do grupo.
O motor dessa escolha não é o medo do cárcere — é algo mais sutil e mais
eficaz, e foi preciso a teologia moral, e não a ciência política, para
nomeá-lo. É a esse motor que a próxima seção se dedica, pois é nele que a
permanência do poder brando encontra o seu verdadeiro combustível. Nesse
arranjo, a redação militante substitui o Ministério da Verdade com vantagem,
pois dispensa o Ministério. O jornalista que se concebe como ativista não
precisa de censor: ele é o censor de si mesmo e a fonte da narrativa
oficiosa, tanto mais eficaz quanto se apresenta como imprensa independente. A universidade,
aparelhada, deixa de ser o lugar do contraditório para tornar-se o viveiro dos
quadros. A cultura subvencionada seleciona os artistas dóceis e asfixia, pela
via orçamentária, os incômodos — sem jamais precisar prendê-los. Raymond Aron
chamou a isso, com precisão, o “ópio dos intelectuais”: a escatologia
secularizada que transforma a crítica em fé e a fé em carreira.[4]
E Roger Scruton, herdeiro dessa linhagem, mostrou como toda uma tradição de
“pensadores da nova esquerda” converteu a suspeita universal em método e a
demolição em prestígio.[5]
[1]Friedrich A. Hayek, O Caminho da Servidão
(1944). Cf. também Ludwig von Mises e Wilhelm Röpke sobre o cálculo econômico e
a economia humana.
[2]Gramsci, Antonio. Cadernos do Cárcere (1929–1935). Os
conceitos de hegemonia, guerra de posição e intelectual
orgânico fornecem a chave da conquista cultural do poder.
[3]A expressão “longa marcha através das instituições” é atribuída a Rudi Dutschke (fim dos anos 1960), tradução prática da estratégia gramsciana.
[4]Aron, Raymond. O Ópio dos Intelectuais (L’Opium des intellectuels, 1955). A crítica ao fascínio dos intelectuais pela revolução como forma de escatologia secularizada.
[5]Scruton, Roger. Tolos, Fraudes e Militantes: pensadores da nova esquerda (Fools, Frauds and Firebrands, 2015). Análise crítica da tradição intelectual da nova esquerda e de seu prestígio acadêmico.
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