Agradecimento ao leitor atento
Vir um amigo de longe — não é uma
satisfação?
Confúcio, Os Analectos, I, 1
Há um
momento, na vida de quem escreve um livro filosófico, em que o autor descobre
que o livro deixou de ser apenas seu. Esse momento ocorre quando um leitor —
não um colega editor, não um revisor profissional, não um avaliador acadêmico,
mas um leitor que recebeu o texto pelo que ele é e o leu com a atenção que ele
pedia — devolve ao autor, em forma de observação articulada, o que o próprio
autor não havia conseguido articular com precisão suficiente. O livro, nesse
momento, torna-se diálogo. E o autor descobre que o que escrevia em sua
escrivaninha de Salvador estava, em silêncio, esperando precisamente esse
retorno.[1]
Foi
assim que Alessandro Gagnor Galvão entrou no horizonte de produção deste
ensaio. Sua observação sobre os dois primeiros parágrafos do Capítulo II —
observação sensível, articulada com a generosidade característica do
interlocutor sério, oferecida em diálogo informal sem pretensões institucionais
—, apontou para o que pode ter sido o ponto mais frágil da formulação original
do livro. O texto original sugeria, na pressa de articular a ruptura
cartesiana, uma continuidade aparente entre Descartes em sua estufa e os
exercícios espirituais da antiguidade clássica. Alessandro percebeu, com a
fineza que apenas um leitor formado oferece, que essa aparência merecia o
tratamento que o ensaio inteiro reservava para os pontos delicados — tratamento
que o autor, fechado em sua própria formulação, não havia conseguido aplicar
com o cuidado devido.
Lembrou
que, mesmo na antiguidade clássica, o sábio era zoon politikon — animal
político no sentido aristotélico, constitutivamente comunitário, jamais
filósofo solitário no sentido cartesiano que três séculos depois se tornaria
possível. Lembrou que o logos heraclitiano era xynon, comum,
transpessoal, estrutura ontológica do real em que cada sujeito participa em
medida desigual, e não propriedade subjetiva fechada cuja exploração interior
produziria conhecimento. Lembrou que, mesmo na Idade Média, a ratio era
participação no Logos divino, e que as Confissões agostinianas operavam
em registro inteiramente outro do exame cartesiano de si. Acrescentou, com a
generosidade da referência erudita, o trabalho de Catarina Rochamonte sobre a
continuidade entre o logos antigo e a ratio medieval. E
reconheceu, com fineza intelectual rara, o ponto em que convergíamos sem que a
redação original o tornasse plenamente visível: o método universalmente
aplicável independente das virtudes morais é o gesto especificamente moderno, e
essa identificação está correta no ensaio.[2]
A
consequência foi o apêndice dialógico ao Capítulo II, que articula em sete
subseções a refinação completa do argumento — refinação que, sem a observação
de Alessandro, teria permanecido em germe na formulação original. A refinação
dos dois parágrafos iniciais do capítulo, a articulação do gesto cartesiano
como apropriação consciente do gênero meditativo medieval, a distinção entre a
tradição clássica do logos transpessoal e a meditação solitária moderna
em primeira pessoa, a frase decisiva sobre a meditação coram seipso como
ato inaugural da modernidade filosófica — todos esses ganhos articulares do
capítulo devem-se à intervenção paciente do leitor atento. O autor não foi
corrigido em erro grave; foi auxiliado, com generosidade, a dizer com precisão
o que ele já queria dizer. É essa, no horizonte da filosofia clássica, a forma
própria do dom intelectual entre amigos.[3]
Há um
tipo de leitor que se torna raro no horizonte cultural contemporâneo: o leitor
que recebe um texto longo com a paciência que ele pede, que percebe as fraturas
finas do argumento sem fazê-las pretexto para rejeitar o todo, que articula a
divergência com a clareza que faz dela contribuição, e que oferece referência
adicional como gesto de cooperação intelectual. Esse leitor é cada vez mais
escasso na cultura digital amplificada em fragmentos curtos, em comentários
impacientes, em discussões que confundem velocidade com profundidade; e por
isso mesmo, cada vez mais decisivo para quem ainda acredita que filosofia tem
algo a ver com a vida, e que a vida tem algo a ver com a filosofia. O leitor
atento é, no nosso tempo, espécie ameaçada cuja preservação importa não apenas
aos autores que dele se beneficiam imediatamente, mas a uma civilização que
precisa, em escala mais ampla, da circulação paciente do pensamento entre
interlocutores sérios.
Caro
Alessandro, este ensaio deve à sua observação atenta a precisão maior que o
Capítulo II adquiriu. Onde antes havia uma formulação sumária da ruptura
cartesiana — formulação correta no essencial mas insuficiente no detalhe
filológico —, há agora o apêndice dialógico que articula, em sete movimentos
paralelos, a refinação completa do argumento. O leitor que abrir o livro
encontrará referências explícitas ao seu nome no corpo do apêndice; o autor
confessa-se devedor da sua leitura, e registra aqui, em peça editorial separada
do corpo do ensaio, o agradecimento que o gesto intelectual recebido exige como
contraparte mínima.
Confúcio
escreveu, no primeiro fragmento dos Analectos, que vir um amigo de longe
é satisfação. A fórmula confuciana opera no horizonte específico em que o
amigo, justamente porque vem de fora da rotina do mestre, traz algo que a
rotina sozinha não trazia. O leitor atento é, neste sentido confuciano, o amigo
que vem de longe. Vem de outra trajetória pessoal, de outras leituras, de outro
itinerário intelectual; e por isso vê aquilo que o autor, fechado em sua
escrivaninha de Salvador, deixou de ver. Aristóteles, em registro próprio,
articularia a mesma tese ao chamar o amigo virtuoso de allos autos —
outro si mesmo —, designando com a fórmula a função decisiva da alteridade
amiga: devolver ao homem aquilo que ele não conseguiria, por si só, descobrir
de si mesmo. Em chave intelectual moderna, o leitor atento é, em proporção que
cumpre dimensão restrita mas real, o allos autos do autor que escreve.
O
agradecimento que aqui se articula é, portanto, mais do que cortesia pessoal
entre interlocutores particulares. É reconhecimento da forma própria pela qual
a filosofia continua sendo possível em pleno século XXI: por circulação
dialógica entre autores honestos e leitores atentos, que se ajudam mutuamente,
em diálogos que ninguém remunera, a refinar o pensamento que se oferece a ser
pensado. Não há, na cultura filosófica contemporânea, instituição que financie
esse tipo de troca — e talvez exatamente por isso essa troca preserve, em sua
marginalidade institucional, o caráter desinteressado que era a marca do
filosofar clássico. Quando Alessandro Gagnor Galvão escreveu sua observação
atenta ao autor deste ensaio, fez gratuitamente um gesto que a filosofia profissional
remunerada quase já não sabe fazer — gesto que talvez seja, hoje, a única forma
viva pela qual a tradição clássica do pensar continua circulando entre os
homens que ainda querem pensar.
Que
outros leitores atentos como Alessandro venham. E que, vindo, continuem a
ajudar este autor — e os outros autores honestos que ainda escrevem por amor à
compreensão, e não por dever profissional — a refinar paciente e modestamente o
pensamento que se dispõe ao diálogo. Não há filosofia em conserva; há filosofia
praticada em circulação, ou filosofia que se extingue na solidão impotente. A
presença do leitor atento é o que torna a primeira possível, e é por essa
presença — concretamente exemplificada pelo gesto generoso aqui agradecido —
que a tradição filosófica clássica, em suas várias linhagens, continua viva
entre nós mesmo no horizonte de uma cultura que parece tê-la esquecido. Ela
vive enquanto houver autores que escrevem com cuidado e leitores que leem com
atenção. Que ambos não nos faltem — e que cada um, em sua escala própria,
cumpra o que a tradição clássica chamava de obra do espírito.
[1]CONFÚCIO, Os Analectos, I, 1: "Aprender
e exercitar continuamente o que se aprendeu — não é uma alegria? Vir um amigo
de longe — não é uma satisfação? Não ser conhecido pelos homens, sem irritar-se
— não é qualidade do homem nobre?"; tradução de Giorgio Sinedino, São
Paulo: Unesp, 2012. O primeiro fragmento do livro confuciano articula, em três
movimentos breves, a estrutura completa da vida intelectual desejável: o estudo
paciente, o encontro com o amigo, e a serenidade diante da indiferença do
mundo. O segundo movimento — a vinda do amigo — é aquele que se invoca neste
agradecimento.
[2]Sobre os pontos específicos articulados pelo leitor
atento — o zoon politikon aristotélico, o logos transpessoal
heraclitiano, a ratio medieval como participação no Logos divino, a
estrutura não-introspectiva das Confissões agostinianas, e a referência
ao trabalho de Catarina Rochamonte sobre a continuidade entre o logos
antigo e a ratio medieval —, ver o Apêndice ao Capítulo II — A
aparência da continuidade: diálogo com um leitor atento, em que cada um
desses pontos recebe articulação detalhada.
[3]ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, IX, 9, sobre a
amizade como necessidade do homem feliz, e em particular sobre o amigo como
"outro si mesmo" (allos autos). A fórmula aristotélica
articula a tese de que o amigo virtuoso oferece ao homem inteligente algo que
ele não poderia oferecer a si mesmo: a visão de si que apenas a alteridade
amiga torna possível. O leitor atento é, em registro intelectual moderno, o allos
autos do autor que escreve — outro si mesmo que devolve ao autor o que o
autor sozinho não conseguiria ver.
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