quinta-feira, junho 11, 2026

Carta a um leitor do ensaio A Fome no Banquete dos Sinais

 Carta a um leitor do ensaio A Fome no Banquete dos Sinais

Sobre a razão retórica, a ideologia e a objetividade do real

Caro Alessandro,

Agradeço-lhe, antes de tudo, a leitura — e a generosidade de a ter feito sem lápis, no exíguo conforto de um avião, fiando-se da memória. Que partilhemos os mesmos interesses — Frankfurt, o Logos, a objetividade do real — torna a sua objeção mais valiosa ainda, pois vem de quem joga no mesmo tabuleiro. E a objeção é séria; é, em verdade, a mais grave que se pode dirigir a um realista. Tem linhagem antiga: é, no fundo, a pergunta que Platão pôs aos sofistas, agora envergando o vocabulário de Perelman. Recebo-a, por isso, não como um golpe, mas como uma daquelas perguntas que obrigam a pensar melhor o que se escreveu. Deixe-me reformulá-la, para que veja que a entendi, e depois respondê-la em vários tempos.

Você coloca a dificuldade em duas faces. Primeira: se o real é independente da ideologia, como pode ser pela ideologia que se restaura? Segunda: o embate entre a razão matemática — estruturante, lógica, demonstrativa — e a razão retórica — argumentativa, valorativa, ligada ao verossímil — trava-se no campo desta última, com as armas dela, e é ela que se proclama vencedora; donde mesmo a defesa do real seria uma vitória retórica, e não uma evidência. Concedo de saída o que há de verdadeiro e incontornável: não há, para a razão finita, ponto de Arquimedes fora do discurso; argumentamos sempre de dentro da linguagem e da tradição. A questão decisiva é outra: se dessa mediação se segue a constituição — se o fato de alcançarmos o real por meio de signos faz do real um produto dos signos. Sustento que não, e exponho-lhe as razões.

A primeira desfaz uma equivocação sobre o verbo restaurar. Restaurar o real não significa, no ensaio, trazer o real à existência — isso seria render-me ao adversário no primeiro lance —, mas restaurar o nosso acesso ao real, reabrir o contacto que a erosão fechara. A distinção é antiga e decide tudo: uma coisa é a ordem do ser, outra a ordem do conhecer.[1] Que cheguemos ao real por último, e por mediações, não o torna último no ser. O sol não depende do olho para existir, embora o olho dependa do sol para ver. Assim, restaurar pela retórica ou pela tradição diz respeito à ordem do conhecer e do transmitir — ao modo humano de reaver um contato perdido —, e não à ordem do ser, que permanece soberana. Não se fabrica a margem reconstruindo a ponte; e toda a tese do livro é, precisamente, que há margem.

A segunda razão devolve-lhe Perelman, que julgo militar a nosso favor, não contra nós. Perelman não concluiu que, sendo tudo argumentação, nada seja verdadeiro; ao contrário, ergueu a nova retórica para salvar a razão prática do reducionismo positivista que sentenciava: só o demonstrável é racional, o resto é arbítrio. E, para distinguir a mera persuasão — ligada a um auditório particular — da convicção — válida para todos —, introduziu o auditório universal: o auditório ideal de todos os seres de razão, norma reguladora que mede a qualidade de um argumento.[2] Ora, o auditório universal é justamente a abertura interna da retórica para algo que a transcende: um argumento não vale por agradar a esta plateia, mas por valer para a razão como tal. Logo, não é exato que a retórica se proclame vencedora a si mesma; dentro da própria retórica há um tribunal que não é a plateia, mas a razão universal — a qual, por sua vez, está ordenada ao real. A retórica é a sala do tribunal; o critério do veredito não é o aplauso, mas a adequação.

A terceira razão observa o que sucede quando a tese rhetoricista se radicaliza até dizer: não há tribunal além da retórica; é sempre ela que coroa o vencedor. Esta frase é, ela mesma, ou uma afirmação que se pretende verdadeira sobre o modo como as disputas se decidem — e então invoca o tribunal da verdade que nega, caindo na contradição performativa que Aristóteles opôs ao negador do princípio de não-contradição: para negá-lo, é mister significar algo determinado, isto é, já pressupô-lo[3] —; ou é apenas mais um lance retórico, sem mais autoridade do que o lance contrário, e então não pode proclamar vencedor coisa alguma, pois abdicou do direito de obrigar. Em ambos os casos, o cepticismo retórico não vence o realismo: ou o pressupõe, ou se desarma. O sofista que diz “tudo é retórica” quer que eu o creia verdadeiro — e, ao querê-lo, dá-me razão.

A quarta razão examina um pressuposto oculto na sua formulação: o de que, ou o real se estabelece pela razão matemática, pela demonstração pura, ou então é mera retórica. Mas esta é exatamente a dicotomia que Perelman recusou — e que a tradição recusara muito antes. Os primeiros princípios não se demonstram: captam-se. Aristóteles atribui o seu conhecimento ao noûs, não à prova, e adverte que exigir demonstração de tudo, inclusive dos princípios, é sinal de falta de educação filosófica.[4] O princípio de não-contradição, a existência do mundo exterior, a realidade do outro — nada disto se prova sem círculo, e tudo isto é mais certo do que qualquer prova. Há um contato pré-discursivo com o real — o que no ensaio chamei o tato do real, e que Newman nomeava senso ilativo e Polanyi conhecimento tácito[5] — que o discurso articula e defende, mas não cria. Que o realismo seja defendido retoricamente, e não demonstrado matematicamente, não é escândalo: é a condição normal de todo compromisso fundante — inclusive o do cético, que tampouco demonstra o seu ceticismo.

A quinta razão toca o ponto que, suponho, mais lhe interessa, dado o nosso comum apreço por Frankfurt. A sua primeira face desliza de “ideologia” para “razão retórica”, e convém separá-las. Ideologia, no sentido forte e pejorativo que vem de Marx, passa por Mannheim e culmina na crítica frankfurtiana, é a consciência fechada e invertida, a falsa totalidade que serve ao poder e toma os próprios produtos por natureza.[6] Ora, o ensaio é, na sua intenção mais profunda, anti-ideológico: todo o seu esforço consiste em romper o círculo fechado do simulacro — que é a ideologia levada ao limite, o signo que já não remete senão a si — e em reabrir o discurso sobre a coisa. A restauração de que falo não é a fabricação de nova ideologia, mas o seu avesso: anamnese, atenção, transmissão; o atravessar do metaxu. Recorde a imagem que governa o livro: a tradição e a forma são pontes que se devem atravessar, não habitar; quem as habita faz delas ídolo — e o ídolo é a própria forma da ideologia.[7] Restaurar o real pela travessia da ponte não é aprisioná-lo na ponte. A sua pergunta supõe que eu restaure por onde, na verdade, denuncio o cárcere.

A sexta razão, e a mais importante, é uma questão de tempo. Concedo que um dado embate possa ser ganho retoricamente — a história transborda de verdades momentaneamente derrotadas pela eloquência. Mas a retórica tem a palavra penúltima, não a última. A última cabe ao real, pela sua recalcitrância: a construção que contradiz o real é, mais cedo ou mais tarde, punida por ele. “Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar nela, não desaparece”, escreveu, com humor exato, um romancista.[8] A ponte que não alcança a margem desaba; a ideologia que nega a fome não a suprime, apenas a adia — e a fome retorna; e é esse retorno, no livro, a prova de que o leito de rocha permanece sob o rio seco. O real vota, e o seu voto, ainda que lento, é inapelável. Por isso a vitória retórica contra o real é sempre instável, ao passo que a vitória retórica a favor do real é confirmada pelo próprio real ao longo do tempo. Não pedimos à retórica que substitua a evidência; pedimos-lhe que a ela reconduza.

Permita-me ainda uma observação que talvez lhe sirva para o artigo. É notável que, de tradições adversas, várias filosofias tenham inscrito no interior do discurso uma medida que excede a persuasão: o noûs de Aristóteles, o auditório universal de Perelman e — para ficarmos em Frankfurt — a situação ideal de fala de Habermas, com as suas pretensões de validade que só argumentativamente se resgatam e que apontam, contrafactualmente, para um acordo fundado não na força, mas na razão.[9] Todas concordam, contra o sofista, em que nem toda vitória discursiva é legítima, e em que há um critério que a julga. O conservador apenas dá o passo que o procedimentalismo hesita em dar: esse critério não é, em última instância, meramente procedimental — as boas regras do diálogo —, mas substantivo; é o próprio real, o logos das coisas, a que o auditório universal e a situação ideal de fala estão, sem o confessarem, ordenados. A boa retórica é serva da verdade; a má, sua usurpadora. E distingui-las é, ainda, obra da razão.

Devo-lhe, enfim, uma concessão, sem a qual a minha resposta seria desonesta. Você tem inteira razão num ponto: não há realismo ingênuo possível depois de Kant, de Nietzsche e de Frankfurt. Não dispomos de um olhar sem lugar, de uma intuição do real que não passe pela linguagem, pela história e pela comunidade. O realista que defendo é, pois, um realista mediado e crítico, e não um que finja tocar as coisas com as mãos nuas. Mas mediação não é constituição. Que eu veja o sol pelo olho não faz do sol uma secreção do olho. Concedo-lhe a mediação inteira; nego apenas que ela engendre o mediado. E é justamente porque há algo a mediar — um real que resiste, que tem fome de ser dito com verdade — que faz sentido distinguir a mediação fiel da infiel, a ponte da prisão, a tradição viva do ideologismo morto.

Eis, caro amigo, as voltas a que a sua pergunta me obrigou — e por elas lhe fico em dívida, pois nada agrada mais a quem escreve do que um leitor que o force a pensar para além do escrito. Resenhe, e escreva o seu artigo: a melhor sorte de um livro é gerar outro que o prolongue ou o contradiga. E note a ironia derradeira: se vier a demonstrar que a razão retórica tem a última palavra, terá de fazê-lo com argumentos que pretendem ser verdadeiros — e, nesse mesmo gesto, estaremos, uma vez mais, do mesmo lado.

Com estima e gratidão,

Afranio Campos — Salvador, junho de 2026



[1]A distinção entre a ordem do ser (ordo essendi) e a ordem do conhecer (ordo cognoscendi) é clássica: o que é primeiro em si pode ser último para nós. Cf. TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao De Trinitate de Boécio, q. 5-6, e Suma teológica, I, q. 2, a. 1.

[2]PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica (1958). A distinção entre persuadir (auditório particular) e convencer (auditório universal), e a recuperação da razão prática contra o reducionismo positivista, são o coração da obra.

[3]ARISTÓTELES, Metafísica, Γ (IV), 4, 1006a. Quem nega o princípio de não-contradição, para dizer o que quer que seja, há de significar algo determinado — e, ao fazê-lo, já o afirma. É o argumento de retorsão, matriz de toda refutação do cepticismo radical.

[4]ARISTÓTELES, Segundos Analíticos, II, 19, e Ética a Nicômaco, VI: os primeiros princípios captam-se pelo noûs, não pela demonstração; exigir prova de tudo, inclusive dos princípios, denota, diz ele, falta de educação filosófica.

[5]NEWMAN, John Henry. Gramática do assentimento (1870): o “senso ilativo”, pelo qual a mente atinge a certeza por convergência de probabilidades, sem prova formal. Cf. POLANYI, Michael. Conhecimento pessoal (1958): o saber tácito — “sabemos mais do que podemos dizer”.

[6]Sobre o conceito forte de ideologia, ver MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia (1929); e, na Escola de Frankfurt, ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento (1947), sobre a razão instrumental e a consciência reificada.

[7]Sobre os metaxu como pontes a atravessar, e não a habitar, ver WEIL, Simone. A gravidade e a graça (1947), e o capítulo VIII deste ensaio: o ídolo é a ponte convertida em morada — e a ideologia, no sentido forte, é justamente essa morada.

[8]A frase é de Philip K. Dick (How to Build a Universe That Doesn’t Fall Apart Two Days Later, 1978): “Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar nela, não desaparece”. Imagem feliz da recalcitrância do real.

[9]HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo (1981). A “situação ideal de fala” postula, contrafactualmente, um acordo fundado na força do melhor argumento, e não na coação — paralelo estrutural do auditório universal de Perelman.

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