Carta a um leitor do ensaio A Fome no Banquete dos Sinais
Sobre a razão retórica, a
ideologia e a objetividade do real
Caro Alessandro,
Agradeço-lhe,
antes de tudo, a leitura — e a generosidade de a ter feito sem lápis, no exíguo
conforto de um avião, fiando-se da memória. Que partilhemos os mesmos
interesses — Frankfurt, o Logos, a objetividade do real — torna a sua objeção
mais valiosa ainda, pois vem de quem joga no mesmo tabuleiro. E a objeção é
séria; é, em verdade, a mais grave que se pode dirigir a um realista. Tem
linhagem antiga: é, no fundo, a pergunta que Platão pôs aos sofistas, agora
envergando o vocabulário de Perelman. Recebo-a, por isso, não como um golpe,
mas como uma daquelas perguntas que obrigam a pensar melhor o que se escreveu.
Deixe-me reformulá-la, para que veja que a entendi, e depois respondê-la em
vários tempos.
Você
coloca a dificuldade em duas faces. Primeira: se o real é independente da
ideologia, como pode ser pela ideologia que se restaura? Segunda: o embate
entre a razão matemática — estruturante, lógica, demonstrativa — e a razão
retórica — argumentativa, valorativa, ligada ao verossímil — trava-se no campo
desta última, com as armas dela, e é ela que se proclama vencedora; donde mesmo
a defesa do real seria uma vitória retórica, e não uma evidência. Concedo de
saída o que há de verdadeiro e incontornável: não há, para a razão finita,
ponto de Arquimedes fora do discurso; argumentamos sempre de dentro da
linguagem e da tradição. A questão decisiva é outra: se dessa mediação se segue
a constituição — se o fato de alcançarmos o real por meio de signos faz do real
um produto dos signos. Sustento que não, e exponho-lhe as razões.
A
primeira desfaz uma equivocação sobre o verbo restaurar. Restaurar o real não
significa, no ensaio, trazer o real à existência — isso seria render-me ao
adversário no primeiro lance —, mas restaurar o nosso acesso ao real, reabrir o
contacto que a erosão fechara. A distinção é antiga e decide tudo: uma coisa é
a ordem do ser, outra a ordem do conhecer.[1]
Que cheguemos ao real por último, e por mediações, não o torna último no ser. O
sol não depende do olho para existir, embora o olho dependa do sol para ver.
Assim, restaurar pela retórica ou pela tradição diz respeito à ordem do
conhecer e do transmitir — ao modo humano de reaver um contato perdido —, e não
à ordem do ser, que permanece soberana. Não se fabrica a margem reconstruindo a
ponte; e toda a tese do livro é, precisamente, que há margem.
A
segunda razão devolve-lhe Perelman, que julgo militar a nosso favor, não contra
nós. Perelman não concluiu que, sendo tudo argumentação, nada seja verdadeiro;
ao contrário, ergueu a nova retórica para salvar a razão prática do
reducionismo positivista que sentenciava: só o demonstrável é racional, o resto
é arbítrio. E, para distinguir a mera persuasão — ligada a um auditório
particular — da convicção — válida para todos —, introduziu o auditório
universal: o auditório ideal de todos os seres de razão, norma reguladora que
mede a qualidade de um argumento.[2]
Ora, o auditório universal é justamente a abertura interna da retórica para
algo que a transcende: um argumento não vale por agradar a esta plateia, mas
por valer para a razão como tal. Logo, não é exato que a retórica se proclame
vencedora a si mesma; dentro da própria retórica há um tribunal que não é a
plateia, mas a razão universal — a qual, por sua vez, está ordenada ao real. A
retórica é a sala do tribunal; o critério do veredito não é o aplauso, mas a
adequação.
A
terceira razão observa o que sucede quando a tese rhetoricista se radicaliza
até dizer: não há tribunal além da retórica; é sempre ela que coroa o vencedor.
Esta frase é, ela mesma, ou uma afirmação que se pretende verdadeira sobre o
modo como as disputas se decidem — e então invoca o tribunal da verdade que
nega, caindo na contradição performativa que Aristóteles opôs ao negador do
princípio de não-contradição: para negá-lo, é mister significar algo
determinado, isto é, já pressupô-lo[3]
—; ou é apenas mais um lance retórico, sem mais autoridade do que o lance
contrário, e então não pode proclamar vencedor coisa alguma, pois abdicou do
direito de obrigar. Em ambos os casos, o cepticismo retórico não vence o
realismo: ou o pressupõe, ou se desarma. O sofista que diz “tudo é retórica”
quer que eu o creia verdadeiro — e, ao querê-lo, dá-me razão.
A quarta
razão examina um pressuposto oculto na sua formulação: o de que, ou o real se
estabelece pela razão matemática, pela demonstração pura, ou então é mera
retórica. Mas esta é exatamente a dicotomia que Perelman recusou — e que a
tradição recusara muito antes. Os primeiros princípios não se demonstram:
captam-se. Aristóteles atribui o seu conhecimento ao noûs, não à prova,
e adverte que exigir demonstração de tudo, inclusive dos princípios, é sinal de
falta de educação filosófica.[4]
O princípio de não-contradição, a existência do mundo exterior, a realidade do
outro — nada disto se prova sem círculo, e tudo isto é mais certo do que
qualquer prova. Há um contato pré-discursivo com o real — o que no ensaio
chamei o tato do real, e que Newman nomeava senso ilativo e Polanyi
conhecimento tácito[5] —
que o discurso articula e defende, mas não cria. Que o realismo seja defendido
retoricamente, e não demonstrado matematicamente, não é escândalo: é a condição
normal de todo compromisso fundante — inclusive o do cético, que tampouco
demonstra o seu ceticismo.
A quinta
razão toca o ponto que, suponho, mais lhe interessa, dado o nosso comum apreço
por Frankfurt. A sua primeira face desliza de “ideologia” para “razão
retórica”, e convém separá-las. Ideologia, no sentido forte e pejorativo que
vem de Marx, passa por Mannheim e culmina na crítica frankfurtiana, é a
consciência fechada e invertida, a falsa totalidade que serve ao poder e toma
os próprios produtos por natureza.[6]
Ora, o ensaio é, na sua intenção mais profunda, anti-ideológico: todo o seu
esforço consiste em romper o círculo fechado do simulacro — que é a ideologia
levada ao limite, o signo que já não remete senão a si — e em reabrir o
discurso sobre a coisa. A restauração de que falo não é a fabricação de nova
ideologia, mas o seu avesso: anamnese, atenção, transmissão; o atravessar do metaxu.
Recorde a imagem que governa o livro: a tradição e a forma são pontes que se
devem atravessar, não habitar; quem as habita faz delas ídolo — e o ídolo é a
própria forma da ideologia.[7]
Restaurar o real pela travessia da ponte não é aprisioná-lo na ponte. A sua
pergunta supõe que eu restaure por onde, na verdade, denuncio o cárcere.
A sexta
razão, e a mais importante, é uma questão de tempo. Concedo que um dado embate
possa ser ganho retoricamente — a história transborda de verdades
momentaneamente derrotadas pela eloquência. Mas a retórica tem a palavra
penúltima, não a última. A última cabe ao real, pela sua recalcitrância: a
construção que contradiz o real é, mais cedo ou mais tarde, punida por ele.
“Realidade é aquilo que, quando se deixa de acreditar nela, não desaparece”,
escreveu, com humor exato, um romancista.[8]
A ponte que não alcança a margem desaba; a ideologia que nega a fome não a
suprime, apenas a adia — e a fome retorna; e é esse retorno, no livro, a prova
de que o leito de rocha permanece sob o rio seco. O real vota, e o seu voto,
ainda que lento, é inapelável. Por isso a vitória retórica contra o real é
sempre instável, ao passo que a vitória retórica a favor do real é confirmada
pelo próprio real ao longo do tempo. Não pedimos à retórica que substitua a
evidência; pedimos-lhe que a ela reconduza.
Permita-me
ainda uma observação que talvez lhe sirva para o artigo. É notável que, de
tradições adversas, várias filosofias tenham inscrito no interior do discurso
uma medida que excede a persuasão: o noûs de Aristóteles, o auditório
universal de Perelman e — para ficarmos em Frankfurt — a situação ideal de fala
de Habermas, com as suas pretensões de validade que só argumentativamente se
resgatam e que apontam, contrafactualmente, para um acordo fundado não na
força, mas na razão.[9]
Todas concordam, contra o sofista, em que nem toda vitória discursiva é
legítima, e em que há um critério que a julga. O conservador apenas dá o passo
que o procedimentalismo hesita em dar: esse critério não é, em última
instância, meramente procedimental — as boas regras do diálogo —, mas
substantivo; é o próprio real, o logos das coisas, a que o auditório universal
e a situação ideal de fala estão, sem o confessarem, ordenados. A boa retórica
é serva da verdade; a má, sua usurpadora. E distingui-las é, ainda, obra da
razão.
Devo-lhe,
enfim, uma concessão, sem a qual a minha resposta seria desonesta. Você tem
inteira razão num ponto: não há realismo ingênuo possível depois de Kant, de
Nietzsche e de Frankfurt. Não dispomos de um olhar sem lugar, de uma intuição
do real que não passe pela linguagem, pela história e pela comunidade. O
realista que defendo é, pois, um realista mediado e crítico, e não um que finja
tocar as coisas com as mãos nuas. Mas mediação não é constituição. Que eu veja
o sol pelo olho não faz do sol uma secreção do olho. Concedo-lhe a mediação
inteira; nego apenas que ela engendre o mediado. E é justamente porque há algo
a mediar — um real que resiste, que tem fome de ser dito com verdade — que faz
sentido distinguir a mediação fiel da infiel, a ponte da prisão, a tradição
viva do ideologismo morto.
Eis,
caro amigo, as voltas a que a sua pergunta me obrigou — e por elas lhe fico em
dívida, pois nada agrada mais a quem escreve do que um leitor que o force a
pensar para além do escrito. Resenhe, e escreva o seu artigo: a melhor sorte de
um livro é gerar outro que o prolongue ou o contradiga. E note a ironia
derradeira: se vier a demonstrar que a razão retórica tem a última palavra,
terá de fazê-lo com argumentos que pretendem ser verdadeiros — e, nesse mesmo
gesto, estaremos, uma vez mais, do mesmo lado.
Com estima e gratidão,
Afranio Campos — Salvador, junho de 2026
[1]A distinção entre a ordem do ser (ordo essendi)
e a ordem do conhecer (ordo cognoscendi) é clássica: o que é primeiro em
si pode ser último para nós. Cf. TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao De Trinitate
de Boécio, q. 5-6, e Suma teológica, I, q. 2, a. 1.
[2]PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da
argumentação: a nova retórica (1958). A distinção entre persuadir
(auditório particular) e convencer (auditório universal), e a recuperação da
razão prática contra o reducionismo positivista, são o coração da obra.
[3]ARISTÓTELES, Metafísica, Γ (IV), 4, 1006a. Quem
nega o princípio de não-contradição, para dizer o que quer que seja, há de
significar algo determinado — e, ao fazê-lo, já o afirma. É o argumento de
retorsão, matriz de toda refutação do cepticismo radical.
[4]ARISTÓTELES, Segundos Analíticos, II, 19, e Ética
a Nicômaco, VI: os primeiros princípios captam-se pelo noûs, não pela
demonstração; exigir prova de tudo, inclusive dos princípios, denota, diz ele,
falta de educação filosófica.
[5]NEWMAN, John Henry. Gramática do assentimento
(1870): o “senso ilativo”, pelo qual a mente atinge a certeza por convergência
de probabilidades, sem prova formal. Cf. POLANYI, Michael. Conhecimento pessoal
(1958): o saber tácito — “sabemos mais do que podemos dizer”.
[6]Sobre o conceito forte de ideologia, ver MANNHEIM,
Karl. Ideologia e utopia (1929); e, na Escola de Frankfurt, ADORNO, T.;
HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento (1947), sobre a razão
instrumental e a consciência reificada.
[7]Sobre os metaxu como pontes a atravessar, e não
a habitar, ver WEIL, Simone. A gravidade e a graça (1947), e o capítulo VIII
deste ensaio: o ídolo é a ponte convertida em morada — e a ideologia, no
sentido forte, é justamente essa morada.
[8]A frase é de Philip K. Dick (How to Build a Universe
That Doesn’t Fall Apart Two Days Later, 1978): “Realidade é aquilo que,
quando se deixa de acreditar nela, não desaparece”. Imagem feliz da
recalcitrância do real.
[9]HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo (1981). A
“situação ideal de fala” postula, contrafactualmente, um acordo fundado na
força do melhor argumento, e não na coação — paralelo estrutural do auditório
universal de Perelman.
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