Carta a um leitor — II
Sobre o logos, a doxa e a
mediação das palavras
Caro amigo,
Alegra-me
a sua disposição de estudar mais — mas deixe-me dizer-lhe que o seu recuo é,
ele próprio, um avanço. Abandonou a tese forte, segundo a qual tudo seria
retórica, e fixou-se numa mais sutil e, em parte, verdadeira: a de que os
próprios critérios que invoquei — o auditório universal, a força do melhor
argumento — estão influenciados pela retórica; a de que o real é, em grande
medida, mediado pelas palavras; e, daí, a de que, em certa medida, o logos se
confunde com a doxa. Concedo-lhe muito disto de bom grado — e é
justamente na concessão que se verá por que a confusão não é total, e por que o
seu próprio modo de a enunciar já a limita.
Comecemos
pela concessão, que faço sem reservas, porque o realismo que defendo nunca foi
ingênuo. Tem toda a razão: o auditório universal não é um fato que se encontre,
mas uma construção — Perelman o diz com todas as letras: cada orador, cada
época, edifica à sua imagem o auditório de todos os seres de razão.[1]
E a situação ideal de fala de Habermas jamais se realiza: é contrafactual,
ficção reguladora. Ambos são, pois, condicionados pela história e pela
linguagem; não são a saída limpa para fora do discurso, que você, com razão,
suspeita não existir. O hermeneuta sabe-o melhor que ninguém: não há intelecção
sem mediação.
Mas
note duas coisas, que mudam tudo. A primeira está na sua própria frase. Você escreve
que o logos se confunde com a doxa em certa medida. Ora, quem diz
medida diz grau, e quem diz grau pressupõe os polos entre os quais se mede. Se
o logos fosse pura doxa, não haveria medida alguma a assinalar, e
a expressão “em certa medida” perderia o sentido. A confusão parcial que você observa
não dissolve a distinção: vive dela. Uma membrana que deixa passar não deixa,
por isso, de ser membrana. A segunda: um critério regulador não tem por função
ser um fato livre de retórica, mas servir de medida àquilo que a retórica
produz.[2]
O auditório universal e o melhor argumento operam precisamente quando dizemos
que uma plateia se enganou, que um discurso brilhante era falso, que fomos
seduzidos quando devíamos ter sido convencidos. Esse dever-ser,
irredutível ao “foi persuadido”, é o pé em que nos firmamos. A norma não paira
acima da retórica como um astro; habita-a como uma exigência.
A sua
observação, porém, merece mais do que defesa: merece que se a leve a sério até
ao ponto em que se converte em sabedoria antiga. Pois a relação entre logos
e doxa nunca foi, na boa tradição, a de duas caixas estanques, mas a de
uma mediação. Para Platão, a doxa não é simplesmente o falso: há a
opinião verdadeira, que, diz o Mênon, é como as estátuas de Dédalo —
belas, mas fujonas, até que se as ate pelo raciocínio da causa; atadas,
fazem-se ciência.[3] O logos
não cai do céu: ganha-se da doxa, atando-a. E Aristóteles começa sempre
pelas opiniões respeitáveis, os endoxa, e, desfazendo-lhes as aporias,
ascende aos princípios.[4]
De modo que você tem razão pela metade: o logos confunde-se com a doxa
no princípio, sim; mas a vida da inteligência consiste justamente em parti-los,
com paciência, dando razões e submetendo-as à prova. A confusão é o ponto de
partida, não o veredito.
Quanto
ao noûs, que honestamente promete estudar — e fará bem, pois nele está o
nó —, guardo-lhe apenas um aceno que talvez lhe poupe um descaminho. O noûs
não é um canal que contorne a linguagem, intuição mágica sem palavras; é o
intelecto a captar, na experiência e muitas vezes na própria linguagem, aquilo
que a linguagem não fabrica.[5]
E a prova de que algo trans-retórico ali se apreende você mesmo a forneceu: a
tradução é possível, e tradições adversárias convergem. Reparou que
Aristóteles, Perelman e Habermas, falando idiomas tão diversos, apontam todos
para uma medida acima da persuasão. Se tudo fosse doxa e retórica,
tal convergência seria um milagre sem causa; a própria ideia de esquemas de
pensamento radicalmente incomunicáveis, como mostrou Davidson, é incoerente,
pois interpretar já supõe um mundo partilhado.[6]
Três retóricas que apontam para o mesmo ponto denunciam que há um ponto.
E aqui
devolvo-lhe a sua melhor frase — “o real é mediado pelas palavras em grande
medida” — convertida de objeção em tese. É exatamente o que sustenta a
hermenêutica; e ela não é antirrealista. Para Gadamer, a linguagem não é um véu
interposto entre nós e o mundo, mas o medium em que o mundo se nos abre:
o ser que pode ser compreendido é linguagem.[7]
Os nossos preconceitos não são o contrário da compreensão, mas a sua condição —
e, contudo, expõem-se à correção da própria coisa, que tem, na conversa, uma
autoridade que não vem de nós. A mediação é o modo do acesso, não a sua prisão.
Que eu só veja pela janela não faz da paisagem um efeito do vidro; e que o
vidro esteja embaçado, sabemo-lo justamente porque a paisagem resiste a
deixar-se por ele apagar de todo.
Deixe-me,
por fim, uma observação que não é argúcia, mas afeto. Você encerra dizendo que
terá de estudar mais. Repare no que essa frase, tão modesta, pressupõe. Se o logos
fosse mera doxa, estudar seria apenas trocar uma opinião por outra, sem
ganho de verdade — e não haveria por que fazê-lo. Mas você estuda porque
espera que o estudo o aproxime daquilo que a coisa é, e não apenas do que mais
gente acha. Essa esperança é a distinção entre logos e doxa, viva
e a operar no seu próprio propósito. Você afirma com o ato o que hesita em
conceder com a teoria — e não há melhor companhia do que essa.
Fica,
então, o quadro que me parece justo, e que não é nem o seu temor nem a minha
pretensão: não o logos contra a doxa, como duas potências
separadas; nem o logos igual à doxa, como quer o ceticismo; mas o
logos como a purificação incessante da doxa sob a pressão do real
— tarefa que nenhuma geração conclui e que cada uma recebe e transmite. É
exatamente isto a continuidade de sentido de que trata o livro; e é por
isto que o conservador não se impacienta. Ele sabe que a verdade não se
demonstra de uma vez, como um teorema, mas se conquista e se reconquista,
opinião a opinião atada, ao longo do tempo. O sofista declara vã a tarefa; o racionalista
quer dispensá-la com uma prova; o conservador apenas a continua.
Estude,
pois — e que estudo invejável o aguarda. Releia o Mênon e o livro VI da República,
sobre a linha dividida; os Tópicos e o início do livro VII da Ética a
Nicômaco, pela arte de partir dos endoxa; e a Verdade e método
de Gadamer, que fará as pazes entre a sua intuição sobre a mediação e o seu
apreço pelo real. Verá que o caminho que o assusta é, afinal, o único que
conduz aonde já quer chegar. E quando escrever o seu artigo, mande-mo: terei o
gosto de ser, dele, o primeiro leitor atento.
Com amizade,
[1]Perelman reconhece que o auditório universal não é um
dado que se encontre, mas uma construção: cada orador, e cada época, o
constitui à sua imagem, como o conjunto de todos os seres tidos por razoáveis.
PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica
(1958). A objeção — de que o critério é condicionado pela retórica — está,
pois, já admitida pela própria teoria.
[2]Quem argumenta a sério já levanta pretensões de
validade que excedem o auditório local: é a estrutura contrafactual que
Habermas chamou situação ideal de fala. A norma reguladora não existe fora da
retórica como um facto, mas opera dentro dela como exigência. HABERMAS, J. Consciência
moral e agir comunicativo (1983).
[3]PLATÃO, Mênon, 97e–98a: a opinião verdadeira é
como as estátuas de Dédalo, que fogem se não forem atadas; atada pelo
“raciocínio da causa” (aitías logismós), torna-se ciência (epistéme).
Cf. República, V, 476–480, sobre a doxa como potência intermédia entre o
saber e a ignorância.
[4]ARISTÓTELES, Tópicos, I, 1, e Ética a
Nicômaco, VII, 1, 1145b: o método de partir dos endoxa — as opiniões
respeitáveis — e, resolvendo as aporias, ascender aos princípios. O logos
trabalha a partir da doxa, não à sua revelia.
[5]ARISTÓTELES, Segundos Analíticos, II, 19: dos
particulares percebidos, pela indução (epagogé), eleva-se ao universal
captado pelo noûs — não fora da experiência, mas através dela. O noûs
não dispensa a mediação: capta nela o que ela não fabrica.
[6]DAVIDSON, Donald. On the Very Idea of a Conceptual
Scheme (1974): a noção de esquemas conceituais radicalmente incomensuráveis
é incoerente, pois toda interpretação pressupõe um mundo e uma racionalidade
partilhados. A convergência entre Aristóteles, Perelman e Habermas é sintoma
disso.
[7]GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método (1960): “o
ser que pode ser compreendido é linguagem”. A linguagem não é véu, mas medium
da abertura ao mundo; e a coisa mesma (die Sache) conserva, no diálogo,
uma autoridade que corrige os nossos preconceitos.
Um comentário:
Muita coisa ainda por estudar! O nous, interpreto-o como o Sistema 1, intuitivo, de Kahneman. O Logos teria semelhança com o sistema 2, analítico. Mas há muitas, infinitas outras distinções a fazer.
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