Posfácio — A Assinatura
Tréplica
a Jairo José da Silva, ou como uma resposta confirmou o livro que respondia
A verdade reside primariamente no
intelecto que julga, e só derivadamente nas coisas.
— livre paráfrase de Tomás de Aquino, Suma Teológica,
I, q. 16
Caro Jairo,
Recebo a
sua resposta como o que ela é: um presente. Quem declara não entrar em debate
e, ainda assim, abre uma exceção para reagir, dá mais do que uma réplica — dá o
seu tempo e a sua atenção, que são a matéria de que a cortesia é feita.
Agradeço-lhe a exceção, e retribuo-a no único tom que este livro me autoriza: o
da hospitalidade, não o da esgrima.[1]
Se a sua nota teve, aqui e ali, o fio de uma lâmina — a câmara de eco, o gelo
que não se corta, o “words about words” —, não lho levo a mal; respondo-lhe de
mão aberta, porque foi assim que prometi responder, e porque, como verá, não
preciso de lâmina nenhuma.
Deixe-me
começar por onde menos esperaria: dando-lhe razão. O senhor acertou em coisas
que importa reconhecer de saída, para que não me confunda com o eco que me
atribui. E acertou, sobretudo, numa coisa que não escreveu, mas fez.
Pois o senhor reagiu. Endereçou-me uma carta. Quis mostrar-me que o meu
argumento não corta gelo. Ora, “cada um que pense como quiser” não escreve
cartas a quem pensa diferente; quem as escreve é alguém a quem importa
que uma verdade seja vista. Guarde essa frase — não o que disse, mas o que fez
ao dizê-lo —, porque é nela que toda a nossa querela se decide.[2]
Concedo-lhe agora o que é seu; e mostro-lhe, depois, que onde julga ter-me
refutado, assinou embaixo do meu livro.
Comecemos
pela acusação mais dura: a de que, sobre a gênese da consciência, sei tanto
quanto o senhor — isto é, nada — e que disfarço a minha ignorância numa câmara
de eco, “words about words”, palavras que ecoam sem grudar em nada concreto.
Concedo-lhe a primeira metade sem hesitar: do mecanismo pelo qual a matéria
acordaria em sentir, não sei nada, e nunca disse que soubesse. Este livro
jamais foi uma hipótese sobre a gênese, a competir com a sua; foi outra
coisa — a análise do que o conhecer já pressupõe, ganhe a sua gênese o nome que
ganhar. Confundir uma tese sobre pressupostos com uma hipótese falhada sobre
mecanismos é trocar dois gêneros de saber. Mas passo adiante, porque a segunda
metade da acusação é mais interessante: ela refuta-se sozinha.
Repare
no que me exige quando me acusa de palavras que não “grudam” no concreto. Exige
que as palavras adiram ao real, que toquem as coisas, que signifiquem.
Ora, esse aderir das palavras ao mundo tem um nome antigo, e é o que este livro
fez seu: intencionalidade, o dirigir-se do sentido ao seu objeto.[3]
E é justamente o que a matéria, os campos e a radiação não podem dar. Uma
configuração de átomos não “gruda” em coisa alguma: ela apenas é.
Grudar-em, ser-acerca-de, tocar o real — isso é sentido, e sentido é presença.
De modo que, ao exigir que as minhas palavras grudem no concreto, o senhor
invoca precisamente o critério que só a presença fornece e que as suas três
substâncias não fundam. A sua acusação vive do que ela nega. Se tivesse razão —
se só houvesse matéria, campos e radiação —, então “words about words” seria
tudo quanto jamais houve, e a sua própria frase seria mais um eco sem coisa.
Que ela possa acusar-me supõe que eu tenha razão.
Vamos à
física, que o senhor invoca com uma segurança que a própria física não teria. “Levada
a sério”, diz, ela só conhece três substâncias — matéria, campos, radiação —;
não sabe como a consciência delas surge, “mas evidentemente só pode ser como
emergência a partir da complexidade”. Releia a sua frase devagar, porque nela
estão, lado a lado, a confissão e a fé. A confissão: não sei como. A fé:
evidentemente, só pode ser. Esse “evidentemente” não é física; é o voto
que o meu terceiro capítulo chamou de escatologia do circuito — a promissória
sacada sobre o futuro, no ponto exato em que a explicação faltou.[4]
O senhor rebateu esse capítulo cometendo-o. Não o censuro: apenas lhe mostro
que o “evidentemente” é onde o argumento devia estar, e não está.
Mas há
um engano mais fundo, e é sobre ele que peço a sua atenção de fenomenólogo.
Que a física só encontre matéria, campos e radiação não é uma descoberta da
física: é o seu método. A física regista o mensurável, o de terceira
pessoa, o estrutural — porque foi feita para isso, e deixa de fora, por
construção, o ponto de vista, o vivido, a presença. Russell e Eddington
disseram-no sem rodeios: a física dá-nos a estrutura do mundo, as relações, e
cala sobre a natureza íntima daquilo que se relaciona.[5]
Concluir “só há estas três substâncias, logo a consciência há de emergir delas”
é esquecer que a consciência foi excluída por método, não achada ausente
por descoberta. E — digo-o com respeito, não como quem apanha em falta — este
olvido tem um nome que o senhor conhece melhor do que eu: é o objetivismo que
certo fenomenólogo apontou como a crise das ciências europeias, o esquecimento
do mundo-da-vida em que toda ciência, a física inclusive, se enraíza.[6]
Esse fenomenólogo era Husserl. A resposta à sua carta da tarde está, uma vez
mais, nos seus livros da manhã.
Uma palavra, de passagem, sobre a minha “forma vaga”. O senhor censura-me manipular um conceito sem dizer o que é. Dediquei-lhe um capítulo inteiro e um vocabulário de vinte e quatro séculos: forma não é o feitio, mas o princípio pelo qual algo é o que é e pode ser conhecido, recebido pelo intelecto sem a matéria. Vago, “forma” não é; o que ele não é, é físico — e o senhor chama vago ao que não se deixa pesar em matéria.[7] Repare, porém, que o seu próprio termo de carga — “complexidade”, “emergência” — é, por sua expressa confissão, o que não sabe definir. Acusa de vago o meu conceito preciso, e assenta a sua causa no seu próprio desconhecido. Chego ao coração da sua carta, onde julga desferir o golpe — e onde, com todo o respeito, me confirma do modo mais límpido. Reconstruo o seu argumento para não o trair. O senhor diz: asserir algo com sentido é dizer o verdadeiro ou o falso; e isso vale mesmo para uma máquina — o ChatGPT pode dar-lhe uma informação falsa, gerada por um algoritmo cego. Que o ato de asserir seja determinado pela natureza de quem assere não torna a asserção menos verdadeira ou falsa. O senhor pode estar condenado, pela sua natureza, a dizer a verdade; mas nem por isso diria outra coisa senão a verdade.
Concedo-lhe
tudo isto — e concedo-o inteiro, de coração, para que veja que não há eco aqui,
mas alguém que escuta. O senhor tem inteira razão: o valor de verdade de uma
asserção não depende de como ela foi causada. Uma proposição é verdadeira ou
falsa por si, tenha nascido de um deus, de um homem ou de um algoritmo. A
bivalência não estava em disputa, e o meu livro nunca precisou de a negar.[8]
Mas o senhor respondeu a uma pergunta que eu não fiz. Nunca disse que o
determinista não pode dizer verdades. Disse outra coisa: que conhecer
uma verdade, asseri-la, responder por ela, ser movido por ela — não é uma
relação mecânica; e que o senhor, ao oferecer-me a sua tese como algo que eu devo
ver, pressupõe essa relação. O valor de verdade é da proposição; a relação
com a verdade — apreendê-la, endossá-la, importar-se com qual seja — é do
vivente. O senhor juntou as duas coisas numa só, e refutou a que eu não
sustentava.
E o seu
próprio exemplo o entrega. O ChatGPT diz falsidades por um algoritmo cego: pois
bem. Mas o ChatGPT sabe que fala falso? quer dizer o verdadeiro? responde
pelo erro? Não. É o Quarto Chinês: cadeias verdadeiras ou falsas sem ninguém em
casa a quem sejam verdadeiras — representação sem presença.[9]
O senhor descreve o ChatGPT com exatidão e depois propõe que sejamos ele. Mas
veja o que faz no ato mesmo de o propor: não emite apenas uma cadeia apta à
verdade, como a máquina. O senhor quer que eu veja que tem razão;
sustenta que o meu argumento não corta gelo e importa-se que eu o
reconheça; distingue “estar condenado a dizer a verdade” de “dizer a verdade” e
oferece-me a distinção como algo que devo pesar. O ChatGPT não quer nada, não
se importa com nada, não distingue nada, não responde por nada. A diferença
entre o senhor e a sua máquina é, inteira, aquilo a que este livro chamou
presença.[10]
E há a
frase que o entrega de vez, a mais bela e a mais indelicada da sua carta: que
pode estar condenado, pela sua natureza, a dizer a verdade. Pergunte-se quem
pode dizer isto. Uma coisa meramente condenada a emitir o verdadeiro não sabe
que está condenada, não oferece a sua condenação como argumento, não se ergue
acima da própria determinação para a examinar e sentenciar. O senhor faz as
três coisas: reflete sobre a sua condenação, distingue-a da verdade, entrega-a
como razão. Nessa frase o senhor não é o réu no banco das causas — é o juiz que
percorre o tribunal inteiro e o julga. E o “eu” que pode dizer “sou
inteiramente determinado” como uma verdade que apreendeu e quer que eu apreenda
já pisou fora da determinação que descreve: pois nenhum item inteiramente
dentro da ordem causal pode abarcar a ordem inteira e pronunciá-la assim.[11]
Esse pôr-se-acima-para-julgar é a presença; e o senhor performou-a na exata
frase com que a negava. É a pedra de Espinosa, que se crê livre ao cair — só
que a sua faz mais: sabe-se caindo, e escreve-me para o dizer.
O senhor fechou a sua carta com um “e mais não digo”. Deixe-me devolver-lhe a fórmula, virada para a luz. Já disse, de fato, o bastante — não com o conteúdo, mas com o dizer. No meu quarto capítulo escrevi que a máquina não pode assinar embaixo: não pode endossar, ratificar, responder por uma verdade como verdadeira; e que todo manifesto que nos declara máquinas nos pede, contudo, que assinemos embaixo dele. O senhor acaba de assinar. Leu o texto, pesou-o, julgou o meu argumento insuficiente — e disse-o, querendo que eu visse. Isso é uma assinatura. É a única coisa que a obra inteira pediu; e o senhor deu-ma de bom grado, no gesto mesmo de recusar o que ela significa. Não podia eu esperar melhor confirmação, e recebo-a sem triunfo, com gratidão. Fica, pois, entre nós, o que fica entre dois que discordam porque ambos amam a verdade o bastante para brigar por ela — e esse amor comum, caro Jairo, não é matéria, nem campo, nem radiação; é a presença dentro da qual as três, e esta nossa troca, apareceram. Foi um bom debate, para quem não debate. Agradeço-lhe a exceção; e assino, também eu, embaixo.
Sem mais,
Afranio Campos
[1]Reata-se o Prefácio: responde-se com a mão aberta, não
com a esgrima — a compreensão como hospitalidade, não como conquista. A "pequena exceção" que Jairo abriu é, ela mesma, um endereço a uma presença.
[2]O que decide a querela não é o conteúdo da
resposta, mas o gesto de respondê-la: endereçar, querer que se veja,
importar-se que uma verdade seja reconhecida (cf. caps. IV e VI, a contradição
performática e o testemunho).
[3]Que as palavras "grudem" no real é a intencionalidade
— o dirigir-se do sentido ao objeto (BRENTANO; cf. cap. II). Uma configuração
de átomos não é acerca de nada; ser-acerca-de é sentido, e sentido é
presença. Se só houvesse matéria, campos e radiação, "words about words" seria
tudo — a própria acusação inclusa.
[4]O "evidentemente, só pode ser emergência da
complexidade" é o voto que o cap. III chamou escatologia do circuito: a
promissória sacada no ponto exato em que a explicação faltou. Rebate-se o
capítulo cometendo-o.
[5]A física dá a estrutura (relações), não a
natureza íntima do que se relaciona: RUSSELL, The Analysis of Matter
(1927); EDDINGTON, The Nature of the Physical World (1928), as "duas
mesas". E STRAWSON (cf. cap. I): não se extrai a experiência de uma descrição
feita para a deixar de fora.
[6]O olvido do mundo-da-vida (Lebenswelt):
HUSSERL, A Crise das Ciências Europeias (1936) — o objetivismo como
crise; NAGEL e WHITEHEAD, a objetividade que abstrai do ponto de vista (caps.
III e Conclusão). Husserl é justamente o autor de que Jairo é intérprete (cf.
cap. V).
[7]A "forma vaga": dedicou-se-lhe o cap. II e um
vocabulário de vinte e quatro séculos — forma é o princípio pelo qual algo é o
que é e pode ser conhecido, não o feitio. Vago é o que não se pesa em
matéria; e o próprio termo-de-carga do adversário — "complexidade", "emergência" — é, por sua confissão, o indefinido. Cf. o nome elástico
de "A Balança e o Nome".
[8]Concede-se a bivalência: o valor de verdade de uma
proposição independe da gênese da asserção (FREGE, "O Pensamento", 1918: o
pensamento é verdadeiro ou falso objetivamente, seja ou não apreendido). Mas a
verdade está no intelecto que julga (TOMÁS, Suma, I, q. 16): o valor
de verdade é da proposição; a relação com a verdade — apreendê-la,
endossá-la, responder por ela — é do vivente.
[9]O ChatGPT como Quarto Chinês (SEARLE; cf. cap.
V): cadeias aptas à verdade sem ninguém a quem sejam verdadeiras —
representação sem presença, ḥuṣūlī sem ḥuḍūrī.
[10]A diferença entre o adversário e a sua máquina é o espaço
das razões (SELLARS; cf. cap. IV): querer que se veja, importar-se com qual
seja a verdade, responder pelo erro. A máquina não quer, não se importa, não
responde.
[11]KANT, Crítica da Razão Pura, B131–132: o “eu
penso” que acompanha as representações não é ele mesmo mais um objeto
representado. O "eu" que abarca a ordem causal inteira e a pronuncia "inteiramente determinada" não está, todo ele, dentro dela. É a pedra de
Espinosa (cap. IV) — só que esta se sabe caindo e escreve para o dizer.
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