O modelo, o nome e a coisa
Nota
crítica ao Fórum “Diálogos para o futuro”[1]
(Unicamp, 10 de setembro de 2026)
“Quando os
nomes não são corretos, a linguagem não corresponde à verdade das coisas;
quando a linguagem não corresponde à verdade das coisas, os empreendimentos não
podem ser levados a bom termo.” — Confúcio, Analectos, XIII, 3.
Há um gesto no coração da
fala de Paulo Artaxo que merece ser isolado antes de qualquer avaliação, porque
nele se decide tudo o mais. O físico não disse apenas que os recursos do
planeta se esgotam — proposição empírica, discutível em grau mas séria em substância.
Ele decretou o fim do modelo econômico atual e, no mesmo fôlego,
prescreveu o remédio: “uma nova governança global” e “uma sociedade guiada
pelos 17 ODS”. Entre o diagnóstico e a prescrição há um salto lógico, e é sobre
a natureza desse salto que uma crítica filosófica tem o dever de se debruçar.
Pois entre “os recursos são finitos” e “o clima deve ser o princípio
organizador e condicionante de todas as outras áreas” — como quis o professor
Lewinsohn — não corre uma inferência científica: corre uma decisão metafísica
travestida de consequência natural.[2]
Tomo como contraponto, ao
longo destas linhas, obras da casa que já enfrentaram exatamente essa gramática
— A Balança e o Nome, Em Nome do Povo o Poder é Tomado, Habitar
o Tempo: A Continuidade de Sentido e o opúsculo O Sistema não quer
'matar baleias' — não para opor negação a alarme, mas para separar, com o
bisturi, o que na matéria é ciência do que é liturgia.
I. O nome
sem coisa
A primeira operação a
examinar é semântica. A Balança e o Nome sustenta que a saúde de uma
cidade repousa na integridade do vínculo entre a palavra e o referente:
perde-se o juízo quando o nome se descola da coisa e passa a flutuar, elástico,
disponível para significar o que o poder precisar que signifique.[3]
Ora, os termos que estruturam a fala do fórum — “modelo econômico”, “governança
global”, “sustentabilidade”, “nova sociedade” — são precisamente nomes cuja
coisa nunca é exibida. Que é “o modelo econômico atual” que deve acabar?
A troca de bens por preços? A propriedade? A divisão do trabalho? A moeda? O
crédito? Nenhum desses é nomeado, e é essa indeterminação que faz a força
retórica da sentença. Um nome sem coisa não pode ser refutado, porque não
afirma nada verificável; mas pode autorizar quase tudo, porque a cada
crise se lhe empresta o conteúdo conveniente. É a textura aberta transformada
em instrumento — não a ambiguidade inevitável da linguagem, mas a sua
exploração deliberada.[4]
Quando Artaxo adverte que “esse
modelo vai ter de mudar, queira ou não queira, goste ou não goste”, a cláusula
reveladora não é “mudar”: é “queira ou não queira”. Ali o consentimento é
dispensado por antecipação. E o consentimento só se dispensa quando se invoca
uma necessidade que se pretende situada acima da deliberação humana — a
necessidade da exceção, que suspende a regra em nome da emergência.[5] O
problema é que a economia não é um objeto natural que a física descreva; é o
nome que damos à totalidade das trocas voluntárias entre pessoas que perseguem
fins plurais. Decretar seu “fim” de fora, como quem anuncia o fim de um período
geológico, é confundir a ordem do que acontece conosco com a ordem do
que fazemos entre nós.
II. A
ciência que salva
A tese mais radical do
encontro não é de Artaxo, mas de Lewinsohn: o clima como “princípio organizador
e condicionante” de economia, saúde, infraestrutura, defesa e desigualdade.
Convém ver o que essa frase pede. Ela pede que a pluralidade irredutível dos
bens humanos — a justiça, a prosperidade, a saúde, a liberdade, a beleza, a
piedade — seja reordenada sob uma única medida. É a estrutura que Eric Voegelin
chamou de imanentização do êschaton: a conversão de um saber parcial em
gnose salvífica, capaz de organizar a história inteira a partir de um princípio
único e de prometer, por meio de uma elite que o detém, a redenção
intramundana.[6]
Não digo que Lewinsohn seja um gnóstico; digo que a forma de sua
proposição é a forma da gnose política, e que essa forma tem uma biografia
sangrenta no século XX, documentada precisamente naquelas ideologias que
prometeram reorganizar tudo sob um princípio — a raça, a classe — apresentado
como lei da natureza ou da história.
Contra essa redução, a
tradição da casa opõe dois guardas. O primeiro é aristotélico: a cidade
persegue muitos bens, e nenhuma ciência particular pode ocupar o lugar
da prudência (phrónesis), que é a arte de ponderar bens incomensuráveis
em circunstâncias singulares.[7] O
segundo é hayekiano: a pretensão de que uma agência — nacional ou global —
disponha do conhecimento necessário para organizar “todas as áreas” a partir de
um centro é a presunção fatal, o “engano sinóptico” de supor
concentrável num só ponto o saber que só existe disperso, tácito e local.[8]
Note-se a ironia: o próprio Artaxo reconhece que “soluções para Manaus diferem
das de Caxias do Sul”. Mas essa é justamente a razão pela qual nenhuma
governança global pode ser o princípio organizador — e não a razão pela qual
precisamos de uma.
III. A
culpa sem confissão e o oráculo que se acusa
Há na matéria uma passagem
que a psicologia moral ilumina melhor que a climatologia. Ao invocar Davos,
Artaxo diz que os economistas ali reunidos apontam o esgotamento ambiental
entre os dez maiores riscos — “e estão lá para fazer os bilionários ganharem
ainda mais dinheiro”. O bilionário é simultaneamente o vilão (que
enriquece à custa do mundo) e o oráculo (cuja avaliação de risco se cita
como prova). Essa dupla função é o próprio mecanismo do bode expiatório
descrito por René Girard e retomado em A Balança e o Nome: a comunidade
em crise projeta a culpa difusa sobre uma figura — o fóssil, o modelo, o rico —
cuja expulsão promete restaurar a ordem, ao mesmo tempo em que se apoia na
autoridade daquilo que expulsa.[9] É
uma economia moral da culpa: uma culpa sem pecado nomeado, sem confissão
possível, transferida para uma abstração que não pode responder. E onde há
culpa sem confissão, há sempre alguém pronto a administrar a penitência alheia.
O ponto não é negar que haja
concentração de risco, nem que Davos represente interesses. O ponto é notar que
o catastrofismo e o grande capital financeiro convergem com uma
facilidade que deveria inquietar quem se pretende crítico do capital — pois a “nova
governança global” é também um imenso mercado de créditos, taxas, certificações
e mandatos, no qual a mesma elite denunciada se posiciona como gestora da
transição. O opúsculo O Sistema não quer 'matar baleias' fazia
exatamente esta distinção: entre o cuidado real com a criação e o uso do
cuidado como divisa de poder — a baleia como causa e a baleia como bandeira.
IV. Em nome
de quem?
Em Nome do
Povo, o Poder é Tomado descreve a mecânica pela qual regimes
concentram poder invocando um sujeito que não pode desmenti-los: “o povo”.[10] O
discurso do fórum executa a mesma operação com dois sujeitos ainda mais mudos -
“o planeta” e “as gerações futuras” -, aos quais se soma a autoridade dos “196
países signatários”. Nenhum planeta fala; nenhuma geração futura vota; e a
assinatura de 196 governos é um fato diplomático, não um argumento moral.
Quando o inominável se torna o mandante, o mandatário fica sem controle:
governa em nome de quem, por definição, não pode fiscalizá-lo.
E aqui a casa tem algo
próprio a dizer, porque também ela reivindica o futuro — só que de outro
modo. O conceito de Continuidade de Sentido, formulado em Habitar o
Tempo, herda de Burke o contrato entre os mortos, os vivos e os que ainda
não nasceram.[11]
Mas há uma diferença abissal entre a piedade pela sucessão das gerações
e a instrumentalização das gerações futuras como alavanca do poder
presente. A piedade burkeana obriga-nos a transmitir um patrimônio de sentido —
instituições, línguas, liberdades, paisagens — sem sacrificar os vivos a uma
projeção. O uso tecnocrático do futuro faz o inverso: sacrifica o presente
concreto (o pobre de Cuiabá que Artaxo, com razão, teme ver “ficar para trás”)
a um amanhã modelado, subordinando o homem real ao homem estatístico.
Curiosamente, os dois discursos citam o mesmo pobre; a questão é qual deles lhe
pergunta o que ele quer.
V. O
colapso como fábula
Resta a advertência
histórica da professora McManus: as civilizações que ignoraram limites
ambientais — os maias, seu exemplo — colapsaram. É uma fábula moral eficaz e,
por isso mesmo, suspeita. A historiografia do colapso é hoje um campo em
disputa: Joseph Tainter mostrou que sociedades ruem por complexidade crescente
e retornos decrescentes, não por simples “ecocídio”;[12] e
a tese ambientalista popularizada por Jared Diamond foi submetida a revisão
severa, inclusive quanto aos maias, cujo declínio hoje se atribui a uma teia de
fatores políticos, epidêmicos e comerciais que nenhuma moral ecológica única
resume.[13]
As cifras hídricas que McManus alinha (mil litros por litro de leite, quinze
mil por quilo de carne) são reais como água virtual, mas enganosas como
acusação: a maior parte é “água verde” — chuva que cairia de todo modo — e sua
contabilidade não se traduz linearmente em escassez.[14] A
fábula do colapso comove; mas comover não é demonstrar, e a história, quando
invocada como oráculo, costuma dizer o que o invocador já decidira ouvir.
Conclusão:
conceder o que é justo, recusar o que é furtivo
Seria intelectualmente
desonesto, e alheio ao espírito da casa, responder ao alarme com negação. Os
recursos são finitos; o aquecimento é real e a física de Artaxo, no que é
física, é séria; a vulnerabilidade do semiárido brasileiro é um fato que a
própria consultoria em recursos hídricos conhece de perto. A dignidade da
vocação científica não está em questão — está em questão o momento exato em que
o cientista deixa de descrever a natureza e passa a legislar sobre a alma da
cidade, sem que a fronteira seja anunciada.
A resposta prudente ao
problema real não é um princípio organizador, mas a defesa da pluralidade
de bens, de instituições e de níveis de decisão — a subsidiariedade contra a
síntese, a adaptação local contra o comando sinóptico, o consentimento contra a
exceção permanente. Quem verdadeiramente teme pelo pobre de Teresina não lhe
oferece uma governança global que o representa sem o ouvir: oferece-lhe
prosperidade, energia acessível, propriedade segura e a liberdade de decidir
sobre a própria terra. O “modelo” que se manda abolir “queira ou não queira” é,
no fim, o nome que damos à recusa de que alguém decida por todos. Talvez seja
por isso que ele precise ser abolido primeiro no nome, antes que a coisa
possa ser tomada. A tarefa de quem pensa é reatar o nome à coisa — e, com ele,
devolver ao homem de carne a palavra que se falava por cima de sua cabeça.
[1] Fórum Especial “Diálogos
para o futuro: professores eméritos e Honoris Causa frente aos desafios
socioambientais”, organizado pela Diretoria Executiva de Sustentabilidade
(DExS) da Unicamp e pela Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec),
com apoio do Gabinete do Reitor. A cerimônia de abertura contou com a
participação do reitor Paulo Cesar Montagner, do coordenador-geral da
Universidade, Fernando Coelho, da pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura,
Sylvia Furegatti, do diretor de Sustentabilidade, Roberto Donato e da
secretária adjunta do Clima e Meio Ambiente da Prefeitura de Campinas. https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/09/11/cientista-ve-esgotamento-dos-recursos-naturais-do-planeta-e-decreta-fim-do-modelo-economico-atual/
[2] A distinção entre proposição
descritiva e prescrição normativa recobre aqui a velha “lei de Hume” (a
impossibilidade de derivar um dever de um ser). Cf. HUME, David. Tratado
da Natureza Humana, III, i, 1.
[3] A Balança e o Nome: sobre a
culpa sem confissão e a palavra sem coisa (Ethos-Humanus), cap. V, sobre a evacuação do
referente. Cf. também PIEPER, Josef. Abuse of Language, Abuse of Power.
San Francisco: Ignatius, 1992.
[4] A “textura aberta” é de HART, H.
L. A. O Conceito de Direito (1961). O ponto crítico — que a vagueza no núcleo,
e não na periferia, é comando disfarçado de lei — é de FULLER, Lon. The
Morality of Law. New Haven: Yale, 1969, e desenvolvido em A Balança e o
Nome, cap. VI.
[5]
SCHMITT, Carl. Teologia
Política (1922): “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”. A
cláusula “queira ou não queira” é a forma coloquial da suspensão do
procedimento deliberativo.
[6] VOEGELIN, Eric. A Nova
Ciência da Política (1952) e Ciência, Política e Gnose (1959). Cf.
COHN, Norman. Na Senda do Milênio; KOŁAKOWSKI, Leszek. As Correntes
Principais do Marxismo. Tratamento na casa: A Balança e o Nome, cap.
IV.
[7]
ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco,
VI, 5 e 8 (sobre a phrónesis como deliberação sobre bens que não se
reduzem a uma medida única).
[8] HAYEK, F. A. “The Use of
Knowledge in Society” (American Economic Review, 1945) e The Fatal
Conceit (1988). O “engano
sinóptico” é a suposição de que o conhecimento disperso possa ser reunido num
único ponto de comando.
[9] GIRARD, René. O Bode
Expiatório (1982) e A Violência e o Sagrado (1972). A dupla função
vítima/oráculo é o cerne do mecanismo. Desenvolvimento na casa: A Balança e
o Nome, caps. II e IV.
[10] Em Nome do Povo, o Poder é
Tomado
(Ethos-Humanus), sobre captura institucional e controle da narrativa; a
substituição do sujeito verificável por um mandante mudo.
[11]
BURKE, Edmund. Reflexões
sobre a Revolução na França (1790): a sociedade como “parceria entre os que
vivem, os que morreram e os que hão de nascer”. Elaboração original em Habitar
o Tempo: A Continuidade de Sentido (Ethos-Humanus, 2025), que sintetiza
Dilthey, Gadamer, Ricœur e Burke na categoria de Continuidade de Sentido.
[12] TAINTER, Joseph. The
Collapse of Complex Societies. Cambridge: Cambridge University Press, 1988 — o
colapso como resposta a retornos marginais decrescentes da complexidade, não
como castigo ecológico.
[13]
Sobre as revisões críticas a
DIAMOND, Jared (Collapse, 2005), cf. MCANANY, P.; YOFFEE, N. (orgs.). Questioning
Collapse. Cambridge, 2010. O declínio maia clássico é hoje lido como
fenômeno multicausal (seca, guerra endêmica, sobre-especialização política),
não como simples “ecocídio”.
[14] HOEKSTRA, A.; MEKONNEN, M. “The
Water Footprint of Humanity” (PNAS, 2012). A distinção entre água verde
(pluvial) e azul (captada) é decisiva para não converter “pegada hídrica” em
prova de escassez.
Nenhum comentário:
Postar um comentário