sábado, setembro 12, 2026

Nota crítica ao Fórum “Diálogos para o futuro” (Unicamp, 10 de setembro de 2026)

O modelo, o nome e a coisa

Nota crítica ao Fórum “Diálogos para o futuro”[1] (Unicamp, 10 de setembro de 2026)

“Quando os nomes não são corretos, a linguagem não corresponde à verdade das coisas; quando a linguagem não corresponde à verdade das coisas, os empreendimentos não podem ser levados a bom termo.” — Confúcio, Analectos, XIII, 3.

Há um gesto no coração da fala de Paulo Artaxo que merece ser isolado antes de qualquer avaliação, porque nele se decide tudo o mais. O físico não disse apenas que os recursos do planeta se esgotam — proposição empírica, discutível em grau mas séria em substância. Ele decretou o fim do modelo econômico atual e, no mesmo fôlego, prescreveu o remédio: “uma nova governança global” e “uma sociedade guiada pelos 17 ODS”. Entre o diagnóstico e a prescrição há um salto lógico, e é sobre a natureza desse salto que uma crítica filosófica tem o dever de se debruçar. Pois entre “os recursos são finitos” e “o clima deve ser o princípio organizador e condicionante de todas as outras áreas” — como quis o professor Lewinsohn — não corre uma inferência científica: corre uma decisão metafísica travestida de consequência natural.[2]

Tomo como contraponto, ao longo destas linhas, obras da casa que já enfrentaram exatamente essa gramática — A Balança e o Nome, Em Nome do Povo o Poder é Tomado, Habitar o Tempo: A Continuidade de Sentido e o opúsculo O Sistema não quer 'matar baleias' — não para opor negação a alarme, mas para separar, com o bisturi, o que na matéria é ciência do que é liturgia.

I. O nome sem coisa

A primeira operação a examinar é semântica. A Balança e o Nome sustenta que a saúde de uma cidade repousa na integridade do vínculo entre a palavra e o referente: perde-se o juízo quando o nome se descola da coisa e passa a flutuar, elástico, disponível para significar o que o poder precisar que signifique.[3] Ora, os termos que estruturam a fala do fórum — “modelo econômico”, “governança global”, “sustentabilidade”, “nova sociedade” — são precisamente nomes cuja coisa nunca é exibida. Que é “o modelo econômico atual” que deve acabar? A troca de bens por preços? A propriedade? A divisão do trabalho? A moeda? O crédito? Nenhum desses é nomeado, e é essa indeterminação que faz a força retórica da sentença. Um nome sem coisa não pode ser refutado, porque não afirma nada verificável; mas pode autorizar quase tudo, porque a cada crise se lhe empresta o conteúdo conveniente. É a textura aberta transformada em instrumento — não a ambiguidade inevitável da linguagem, mas a sua exploração deliberada.[4]

Quando Artaxo adverte que “esse modelo vai ter de mudar, queira ou não queira, goste ou não goste”, a cláusula reveladora não é “mudar”: é “queira ou não queira”. Ali o consentimento é dispensado por antecipação. E o consentimento só se dispensa quando se invoca uma necessidade que se pretende situada acima da deliberação humana — a necessidade da exceção, que suspende a regra em nome da emergência.[5] O problema é que a economia não é um objeto natural que a física descreva; é o nome que damos à totalidade das trocas voluntárias entre pessoas que perseguem fins plurais. Decretar seu “fim” de fora, como quem anuncia o fim de um período geológico, é confundir a ordem do que acontece conosco com a ordem do que fazemos entre nós.

II. A ciência que salva

A tese mais radical do encontro não é de Artaxo, mas de Lewinsohn: o clima como “princípio organizador e condicionante” de economia, saúde, infraestrutura, defesa e desigualdade. Convém ver o que essa frase pede. Ela pede que a pluralidade irredutível dos bens humanos — a justiça, a prosperidade, a saúde, a liberdade, a beleza, a piedade — seja reordenada sob uma única medida. É a estrutura que Eric Voegelin chamou de imanentização do êschaton: a conversão de um saber parcial em gnose salvífica, capaz de organizar a história inteira a partir de um princípio único e de prometer, por meio de uma elite que o detém, a redenção intramundana.[6] Não digo que Lewinsohn seja um gnóstico; digo que a forma de sua proposição é a forma da gnose política, e que essa forma tem uma biografia sangrenta no século XX, documentada precisamente naquelas ideologias que prometeram reorganizar tudo sob um princípio — a raça, a classe — apresentado como lei da natureza ou da história.

Contra essa redução, a tradição da casa opõe dois guardas. O primeiro é aristotélico: a cidade persegue muitos bens, e nenhuma ciência particular pode ocupar o lugar da prudência (phrónesis), que é a arte de ponderar bens incomensuráveis em circunstâncias singulares.[7] O segundo é hayekiano: a pretensão de que uma agência — nacional ou global — disponha do conhecimento necessário para organizar “todas as áreas” a partir de um centro é a presunção fatal, o “engano sinóptico” de supor concentrável num só ponto o saber que só existe disperso, tácito e local.[8] Note-se a ironia: o próprio Artaxo reconhece que “soluções para Manaus diferem das de Caxias do Sul”. Mas essa é justamente a razão pela qual nenhuma governança global pode ser o princípio organizador — e não a razão pela qual precisamos de uma.

III. A culpa sem confissão e o oráculo que se acusa

Há na matéria uma passagem que a psicologia moral ilumina melhor que a climatologia. Ao invocar Davos, Artaxo diz que os economistas ali reunidos apontam o esgotamento ambiental entre os dez maiores riscos — “e estão lá para fazer os bilionários ganharem ainda mais dinheiro”. O bilionário é simultaneamente o vilão (que enriquece à custa do mundo) e o oráculo (cuja avaliação de risco se cita como prova). Essa dupla função é o próprio mecanismo do bode expiatório descrito por René Girard e retomado em A Balança e o Nome: a comunidade em crise projeta a culpa difusa sobre uma figura — o fóssil, o modelo, o rico — cuja expulsão promete restaurar a ordem, ao mesmo tempo em que se apoia na autoridade daquilo que expulsa.[9] É uma economia moral da culpa: uma culpa sem pecado nomeado, sem confissão possível, transferida para uma abstração que não pode responder. E onde há culpa sem confissão, há sempre alguém pronto a administrar a penitência alheia.

O ponto não é negar que haja concentração de risco, nem que Davos represente interesses. O ponto é notar que o catastrofismo e o grande capital financeiro convergem com uma facilidade que deveria inquietar quem se pretende crítico do capital — pois a “nova governança global” é também um imenso mercado de créditos, taxas, certificações e mandatos, no qual a mesma elite denunciada se posiciona como gestora da transição. O opúsculo O Sistema não quer 'matar baleias' fazia exatamente esta distinção: entre o cuidado real com a criação e o uso do cuidado como divisa de poder — a baleia como causa e a baleia como bandeira.

IV. Em nome de quem?

Em Nome do Povo, o Poder é Tomado descreve a mecânica pela qual regimes concentram poder invocando um sujeito que não pode desmenti-los: “o povo”.[10] O discurso do fórum executa a mesma operação com dois sujeitos ainda mais mudos - “o planeta” e “as gerações futuras” -, aos quais se soma a autoridade dos “196 países signatários”. Nenhum planeta fala; nenhuma geração futura vota; e a assinatura de 196 governos é um fato diplomático, não um argumento moral. Quando o inominável se torna o mandante, o mandatário fica sem controle: governa em nome de quem, por definição, não pode fiscalizá-lo.

E aqui a casa tem algo próprio a dizer, porque também ela reivindica o futuro — só que de outro modo. O conceito de Continuidade de Sentido, formulado em Habitar o Tempo, herda de Burke o contrato entre os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram.[11] Mas há uma diferença abissal entre a piedade pela sucessão das gerações e a instrumentalização das gerações futuras como alavanca do poder presente. A piedade burkeana obriga-nos a transmitir um patrimônio de sentido — instituições, línguas, liberdades, paisagens — sem sacrificar os vivos a uma projeção. O uso tecnocrático do futuro faz o inverso: sacrifica o presente concreto (o pobre de Cuiabá que Artaxo, com razão, teme ver “ficar para trás”) a um amanhã modelado, subordinando o homem real ao homem estatístico. Curiosamente, os dois discursos citam o mesmo pobre; a questão é qual deles lhe pergunta o que ele quer.

V. O colapso como fábula

Resta a advertência histórica da professora McManus: as civilizações que ignoraram limites ambientais — os maias, seu exemplo — colapsaram. É uma fábula moral eficaz e, por isso mesmo, suspeita. A historiografia do colapso é hoje um campo em disputa: Joseph Tainter mostrou que sociedades ruem por complexidade crescente e retornos decrescentes, não por simples “ecocídio”;[12] e a tese ambientalista popularizada por Jared Diamond foi submetida a revisão severa, inclusive quanto aos maias, cujo declínio hoje se atribui a uma teia de fatores políticos, epidêmicos e comerciais que nenhuma moral ecológica única resume.[13] As cifras hídricas que McManus alinha (mil litros por litro de leite, quinze mil por quilo de carne) são reais como água virtual, mas enganosas como acusação: a maior parte é “água verde” — chuva que cairia de todo modo — e sua contabilidade não se traduz linearmente em escassez.[14] A fábula do colapso comove; mas comover não é demonstrar, e a história, quando invocada como oráculo, costuma dizer o que o invocador já decidira ouvir.

Conclusão: conceder o que é justo, recusar o que é furtivo

Seria intelectualmente desonesto, e alheio ao espírito da casa, responder ao alarme com negação. Os recursos são finitos; o aquecimento é real e a física de Artaxo, no que é física, é séria; a vulnerabilidade do semiárido brasileiro é um fato que a própria consultoria em recursos hídricos conhece de perto. A dignidade da vocação científica não está em questão — está em questão o momento exato em que o cientista deixa de descrever a natureza e passa a legislar sobre a alma da cidade, sem que a fronteira seja anunciada.

A resposta prudente ao problema real não é um princípio organizador, mas a defesa da pluralidade de bens, de instituições e de níveis de decisão — a subsidiariedade contra a síntese, a adaptação local contra o comando sinóptico, o consentimento contra a exceção permanente. Quem verdadeiramente teme pelo pobre de Teresina não lhe oferece uma governança global que o representa sem o ouvir: oferece-lhe prosperidade, energia acessível, propriedade segura e a liberdade de decidir sobre a própria terra. O “modelo” que se manda abolir “queira ou não queira” é, no fim, o nome que damos à recusa de que alguém decida por todos. Talvez seja por isso que ele precise ser abolido primeiro no nome, antes que a coisa possa ser tomada. A tarefa de quem pensa é reatar o nome à coisa — e, com ele, devolver ao homem de carne a palavra que se falava por cima de sua cabeça.



[1] Fórum Especial “Diálogos para o futuro: professores eméritos e Honoris Causa frente aos desafios socioambientais”, organizado pela Diretoria Executiva de Sustentabilidade (DExS) da Unicamp e pela Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec), com apoio do Gabinete do Reitor. A cerimônia de abertura contou com a participação do reitor Paulo Cesar Montagner, do coordenador-geral da Universidade, Fernando Coelho, da pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura, Sylvia Furegatti, do diretor de Sustentabilidade, Roberto Donato e da secretária adjunta do Clima e Meio Ambiente da Prefeitura de Campinas. https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/09/11/cientista-ve-esgotamento-dos-recursos-naturais-do-planeta-e-decreta-fim-do-modelo-economico-atual/

[2] A distinção entre proposição descritiva e prescrição normativa recobre aqui a velha “lei de Hume” (a impossibilidade de derivar um dever de um ser). Cf. HUME, David. Tratado da Natureza Humana, III, i, 1.

[3] A Balança e o Nome: sobre a culpa sem confissão e a palavra sem coisa (Ethos-Humanus), cap. V, sobre a evacuação do referente. Cf. também PIEPER, Josef. Abuse of Language, Abuse of Power. San Francisco: Ignatius, 1992.

[4] A “textura aberta” é de HART, H. L. A. O Conceito de Direito (1961). O ponto crítico — que a vagueza no núcleo, e não na periferia, é comando disfarçado de lei — é de FULLER, Lon. The Morality of Law. New Haven: Yale, 1969, e desenvolvido em A Balança e o Nome, cap. VI.

[5] SCHMITT, Carl. Teologia Política (1922): “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”. A cláusula “queira ou não queira” é a forma coloquial da suspensão do procedimento deliberativo.

[6] VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política (1952) e Ciência, Política e Gnose (1959). Cf. COHN, Norman. Na Senda do Milênio; KOŁAKOWSKI, Leszek. As Correntes Principais do Marxismo. Tratamento na casa: A Balança e o Nome, cap. IV.

[7] ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, VI, 5 e 8 (sobre a phrónesis como deliberação sobre bens que não se reduzem a uma medida única).

[8] HAYEK, F. A. “The Use of Knowledge in Society” (American Economic Review, 1945) e The Fatal Conceit (1988). O “engano sinóptico” é a suposição de que o conhecimento disperso possa ser reunido num único ponto de comando.

[9] GIRARD, René. O Bode Expiatório (1982) e A Violência e o Sagrado (1972). A dupla função vítima/oráculo é o cerne do mecanismo. Desenvolvimento na casa: A Balança e o Nome, caps. II e IV.

[10] Em Nome do Povo, o Poder é Tomado (Ethos-Humanus), sobre captura institucional e controle da narrativa; a substituição do sujeito verificável por um mandante mudo.

[11] BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França (1790): a sociedade como “parceria entre os que vivem, os que morreram e os que hão de nascer”. Elaboração original em Habitar o Tempo: A Continuidade de Sentido (Ethos-Humanus, 2025), que sintetiza Dilthey, Gadamer, Ricœur e Burke na categoria de Continuidade de Sentido.

[12] TAINTER, Joseph. The Collapse of Complex Societies. Cambridge: Cambridge University Press, 1988 — o colapso como resposta a retornos marginais decrescentes da complexidade, não como castigo ecológico.

[13] Sobre as revisões críticas a DIAMOND, Jared (Collapse, 2005), cf. MCANANY, P.; YOFFEE, N. (orgs.). Questioning Collapse. Cambridge, 2010. O declínio maia clássico é hoje lido como fenômeno multicausal (seca, guerra endêmica, sobre-especialização política), não como simples “ecocídio”.

[14] HOEKSTRA, A.; MEKONNEN, M. “The Water Footprint of Humanity” (PNAS, 2012). A distinção entre água verde (pluvial) e azul (captada) é decisiva para não converter “pegada hídrica” em prova de escassez.

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