quarta-feira, agosto 31, 2011

"devo reconhecer que o rock causou um violento efeito colateral em mim..."

Conceitos musicais: blues, fusion, jazz, soul, R&B
por 
Diogo Salles 
Na coluna anterior, selecionei os 6 discos que me batizaram no rock. Acontece que essa seleção não representa toda a minha discoteca. Antes de diversificar e ampliar meus conceitos musicais, devo reconhecer que o rock causou um violento efeito colateral em mim. Aos 17, 18 anos eu era um roqueiro xiita, a ponto de não aceitar nada que não fosse Rush, Van Halen ou Yes. Sorte que todo mundo tem sua chance de evoluir algum dia na vida. Embora alguns amigos ainda me classifiquem como "extremista-militante-purista do classic rock", pelo menos musicalmente, eu garanto que evoluí... Ao ouvir Burn, do Deep Purple, o meu flerte com o blues era claro, mas só abracei o gênero quando, aos 20 anos, ouvi um cara chamado Stevie Ray Vaughan. A partir daquele dia, todos os radicalismos juvenis foram desmoronando, um a um. Depois do blues, descobri o fusion, aí fui parar no jazz e, mais tarde, diversifiquei com o soul e o rhythm & blues. Hoje, dou risada de minhas intransigências de adolescente, pois reconheço-as em muitos xiitas que debatem sobre música em fóruns na internet. Enfim, segue abaixo a discografia que melhor define a minha evolução sonora. Espero que ela possa ajudar você com seus radicalismos também e, quem sabe, torná-lo um eclético, mas com conceitos musicais, e não com preconceitos. 
Couldn't stand the weather - Stevie Ray Vaughan (1984)
Muito mais do que um guitarrista talentoso, Stevie Ray Vaughan era a ponte entre o rock-catarse de Jimi Hendrix e o fraseado bluseiro e "cool" de Albert King, combinando o som dos dois. Em 1983, Muddy Waters morreu e parecia levar o blues consigo para o caixão, mas Vaughan conseguiu, num feito notável, ressuscitar o gênero. Naquela estranha década de 1980, em que só se cultuava o new-wave, o kitsch e todo aquele pós-punk de butique, ele conseguiu cativar o público jovem da MTV e trazê-lo de volta para o blues. A soldo, trouxe seu novo público a revisitar também B.B. King, John Lee Hooker e Buddy Guy, entre outros. Eu mesmo, não tenho certeza se seria um fã de blues se não tivesse ouvido Stevie Ray Vaughan. Quando vi o engraçadíssimo (e tosco) clipe de "Cold shot", percebi que o blues podia ser irônico e divertido ― e não só o lamento e aquela cadência lenta, sorumbática e, por vezes, envelhecida. Se o disco de estreia, Texas flood (1983) tinha sua alma mais voltada ao blues, Couldn't stand the weather investe mais no diálogo com o rock. O disco abre em velocidade máxima com "Scuttle buttin'", com Vaughan exibindo sua impressionante técnica, mas foi com a música que intitula esse álbum que ele se mostrava simples, direto, suingado e absolutamente arrasador. Ademais, a reverência a Hendrix vinha no peso de "Voodoo child (Slight return)", o blues mais tradicional em "Tin Pan Alley" e para fechar, uma incursão no jazz com "Honey bee". Audição obrigatória. 
Visions of the Emerald beyond - Mahavishnu Orchestra (1975)
A transição do rock para o blues não era exatamente uma transição, pois o rock, como sabemos, é "filho" do blues. Eu nem conhecia John Mclaughlin e nem dava a mínima para o jazz. Nada daquilo fazia o menor sentido pra mim. Não até, aos 20 e poucos anos (22, talvez), eu ouvirVisions of the Emerald Beyond. Aquilo tinha uma pegada de rockprogressivo, mas o timbre era diferente, mais limpo, a dinâmica era outra, e os temas eram mais complexos, eruditos. Mahavishnu Orchestra era a definição perfeita do fusion: uma mescla entre o peso dorock e a técnica do jazz. Ali, o espaço para o improviso era infinito e as possibilidades também, sem preocupação com melodias cativantes ou refrões fáceis de cantarolar. "Eternity's breath" é a faixa mais emblemática do disco. Nas duas partes dessa epopeia de oito minutos, todos os elementos do fusion eram extrapolados. Nela, o desempenho do baterista Narada Michael Walden me obrigou a rever o tolo conceito de "melhor do mundo" (uma discussão muito comum em fóruns de música). Até então, eu só via o violino como um instrumento que se encontrava em orquestras sinfônicas. Na Mahavishnu, ele tinha uma função parecida com a guitarra e Jean-Luc Ponty travava duelos apocalípticos com John Mclaughlin. Em "Lila's dance" e "Cosmic stut", os temas eram entremeados por arranjos de cordas que sempre permitiam ataques de violino e guitarra. Ponty era agressivo, mas também mostrava suavidade e delicadeza ao entoar o tema de "Pastoral". Em "Be happy" eles capitulavam de vez à improvisação e à demolição jazzística, mas a banda sabia explorar outros ritmos com extrema competência, como no groove de "Can't stand your funk". A minha porta para o jazz estava aberta, enfim. Se você ainda procura a sua, Visions of the Emerald Beyond é uma boa escolha. 
Imaginary day - Pat Metheny (1997)
Pat Metheny é uma esfinge da música. Para todos os efeitos, ele é um guitarrista virtuoso de jazz, mas sua ambição não se encaixa num gênero específico. É um iconoclasta. Com ele, nada parece ser impossível e tudo fica imprevisível, tamanha a diversidade de elementos, a incansável pesquisa de sons e texturas, além de uma infindável lista de parcerias. Já colaborou com os mais variados (e importantes) nomes da música, como Jaco Pastorius, Joni Mitchell, Chick Corea, Milton Nascimento e Brad Mehldau, entre outros. Mas sua maior parceria musical é com o tecladista e compositor Lyle Mays, seu fiel escudeiro no Pat Metheny Group. Foi com ele que Metheny expandiu seu vocabulário musical, e discos como First circle (1984) e Secret story(1992) mostram uma clara evolução. Imaginary day é o resultado direto dessa longa busca. Circunspecto e variado, alterna virtuosismo com musicalidade. A faixa-título, que abre o disco, alterna climas de trilha de filme de aventura com jam sessions que enveredam para o jazz. "Follow me" faz um agradável passeio pelos timbres e melodias mais originais e passa de raspão pelo pop, mas com extrema sofisticação. "A story within a story" é uma longa e bela peça jazzística, que faz uma elipse em torno do tema proposto, permitindo variações e um inspirado solo de guitarra. "Across the sky" é outro exemplo de como uma boa melodia se desenvolve na mão de músicos tão talentosos. E temos "The roots of coincidence", uma música sombria, quase sufocante, alternando climas com picos de agressividade (mais uma faixa que serviria perfeitamente como trilha sonora para um thriller de suspense). Para consagrar essa obra-prima, felizmente, foi lançado o vídeo Imaginary day live, onde podemos descobrir como o Pat Metheny Group executa ao vivo um álbum tão complexo. 
Kind of blue - Miles Davis (1959)
Esse é o pai de todos os clichês. Clichê obrigatório e inescapável, não só para amantes do jazz, mas para amantes de música. Miles Davis, o cara. Com sua personalidade polêmica e excêntrica, ele era a própria subversão para os puristas do jazz. Embora muitos apontem sua carreira como irregular, ele conseguiu lançar grandes discos nos mais variados estilos, que iam do acid jazz até o pop sem constrangimentos. Tanta ousadia fez de Miles Davis o responsável por, pelo menos, três grandes revoluções estéticas na música, que lhe renderam o título de "Picasso do Jazz". A primeira dessas revoluções ocorreu em 1949, quando deflagrou o cool jazz com Birth of the Cool. Nos anos seguintes, Davis sobreviveu à onda bebop, concebida por Charlie Parker e Dizzy Gillespie.Até que, em 1959, Miles Davis introduziu o jazz modal em Kind of Blue― e esta se tornou sua segunda (e maior) revolução. Uma obra definitiva, que mudou o curso da história da música. Ouvir "So what" é sempre é uma experiência musical das mais sublimes. O disco é resultado de um dos encontros musicais dos mais felizes, e essas antológicas gravações ― que incluíram nomes como John Coltrane e Bill Evans ― até hoje são estudadas por especialistas e jazzófilos, como fez o jornalista Ashley Kahn em seu livro Kind of Blue. Dez anos depois, visceralmente influenciado por Jimi Hendrix, Davis lançou sua terceira (e mais controversa) revolução sonora com o jazz-rock lisérgico e eletrificado deBitches Brew (1969). Assim, se tornou o pai do fusion e mostrou John Mclaughlin para o mundo (estava ali também a gênese da Mahavishnu Orchestra). Mais tarde, já nos anos 80, ele lançou discos interessantes (e improváveis), como Tutu (1986) e Amandla (1989), envernizados pela música pop de Marcus Miller, mas foi massacrado pelos críticos e pelos puristas. O conjunto da obra é polêmico em alguns momentos, genial em outros, mas se existiu um artista que não se permitia barreiras e que levou o conceito de "arte pela arte" aos seus estertores, esse alguém foi Miles Davis. Ouça-o e comprove. 
Breezin' - George Benson (1976)
Depois que Miles Davis mostrou ao mundo que o jazz não era um monstro de sete cabeças (é só de seis), muitos artistas do gênero foram procurar outras fontes de inspiração. George Benson pavimentou sua estrada no jazz seguindo o rastro do guitarrista Wes Montgomery e foi encontrando seu próprio vocabulário jazzístico jogando temperos de soul,R&B e pop em sua música. Breezin' foi um divisor de águas em sua carreira. Abriu portas para ele no mainstream e se tornou um enorme sucesso comercial. A balada "This masquerade" foi uma espécie de laboratório para sua voz que, calcada no soul, permitiu-lhe descobrir um grande alcance vocal. Outra faceta que se tornou sua assinatura era a de cantarolar em uníssono as mesmas notas que ele solava na guitarra, criando uma timbragem única. A faixa-título é outro bom exemplo de beleza melódica, de raro bom gosto. Quem puder encontrar a versão remasterizada (atualmente fora de catálogo), não deixe de ouvir "Shark bite", faixa-bônus instrumental, cheia de climas a dinâmicas insanas. Uma música tão boa que até hoje me pergunto porque não foi incluída no LP original. Depois desse flerte com o pop em Breezin', ele se consumou de fato em Give me the night (1980) ― uma bem sucedida mistura pop com jazz e R&B, produzido por Quincy Jones, e que seria um prelúdio para Michael Jackson com seu Thriller, dois anos depois. Depois de estourar nas rádios, Benson deixou o jazz de lado e fez uma imersão nopop durante todos os anos 80, forjando uma máquina de hits radiofônicos, com baladas cada vez mais românticas, melosas e repulsivamente bregas. Felizmente reencontrou seu lado jazzístico a partir dos anos 90, embora ele ainda encontre dificuldade para equilibrar seu repertório nos shows. 
Innervisions - Stevie Wonder (1973)
Stevie Wonder sempre foi um dos músicos mais brilhantes que já habitaram a terra. Transformou o ato de compor música numa experiência sensorial, misturando cores fortes em cada nota. Desde o garoto prodígio que gravou seu primeiro compacto com apenas 12 anos ― ainda sob o nome de Little Stevie Wonder ― até o estrelato foi uma longa jornada. O problema de conhecê-lo em meados dos anos 1980 (meu caso), era ficar refém de bobagens como "I just call to say I love you" e ter uma dimensão muito limitada de sua grandeza. Nessa época, a despeito de sua ubíqua qualidade musical, ele acabou caindo no mesmo redemoinho onde estavam os grandes artistas que queriam sobreviver numa década em que a única receita era vender, vender e vender. Levei anos para descobrir o verdadeiro (e genial) Stevie Wonder, aquele que revolucionou não apenas a Motown, mas todo o mainstream, mudando o panorama da música pop, soul, R&B, rock e até do jazz. Essa fase áurea ocorreu nos anos 1970 e você pode escolher qualquer disco que ele lançou nessa década que será um tiro certeiro no alvo. Eu poderia citar o inovador Talking book (1972) ou o multiplatinado Songs in the key of life (1976), mas fico com Innervisions. Quando lançou esse álbum, Stevie Wonder tinha só 23 anos, mas já era um músico experimentado, maduro, completo e fez seu trabalho mais poderoso. Com vocais elásticos, ele cantava sobre a negritude americana em arranjos fenomenais e com aquele groove que se tornaria a sua assinatura. É o caso de "Higher ground", uma pérola até hoje sobrevive ao tempo, sendo regravada e celebrada pelos artistas e bandas mais improváveis. Além dela, temos o ritmo funkeado de "Too high" e o delicado embalo soul de "Visions". E, claro, "Living for the city", uma de suas músicas mais fortes e cheias de alma. Sejamos objetivos: Stevie Wonder é o Martin Luther King da música pop e, sem ele, Michael Jackson não teria sido possível... 
Curioso como ouvir George Benson e Stevie Wonder me trouxeram ecos de Michael Jackson. Foi como ter completado os 360º que me levaram de volta para onde tudo começou para mim na música ― quando eu, ainda garoto, imitava o "moonwalk". Foi aí que percebi como a boa música está toda conectada através dessas influências, como se fechasse a elipse de meus conceitos de geek musical. Fechar esse ciclo foi uma revelação para mim... E talvez eu seja mesmo um extremista-militante-purista, pois vou continuar insistindo na tese dos conceitos musicais em detrimento dos preconceitos. 
Nota do Editor
Leia também "6 pedras preciosas do rock".
Fonte: Digestivo Cultural | Colunas | Especial Discoteca Básica, 22/7/2011

terça-feira, agosto 30, 2011

"escuto sem te ouvir, para que quereria eu ouvir?"

Humildadezinha dominical


Falas de cizilização, de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
.
(Alberto Caeiro)

segunda-feira, agosto 29, 2011

"a crise não decretou o fim do futuro, o futuro não foi cancelado..."

Petrobras afeta geopolítica, e 'doença holandesa' é risco, diz Gabrielli

O avanço da produção de petróleo pré-sal na década vai tornar a maior empresa brasileira na maior do planeta e fazer da Petrobras um dos principais atores de uma nova geopolítica mundial. Mas suas exportações podem inundar o país de dólares e prejudicar a indústria, e o governo ainda não tomou as providências necessárias. "Estou preocupado com a velocidade de investimentos na cadeia produtiva", diz o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, em entrevista exclusiva à Carta Maior.
BRASÍLIA – O economista baiano José Sérgio Gabrielli vai completar 62 anos em outubro mas terá de esperar até o mês seguinte para receber o melhor presente que 2011 lhe reserva. Sem nada no horizonte que indique mudanças à vista, em novembro, o 33° presidente da Petrobras deve se tornar o executivo de mais longa permanência no cargo. 
Gabrielli comanda há seis anos e um mês aquela que é a principal empresa do Brasil. Com o recém-lançado plano de investir R$ 2,3 mil por segundo até 2015 e a aceleração da produção na camada do pré-sal, a companhia caminha para se transformar também na maior do planeta.
O gigantismo da estatal se revela em dados curiosos. Ela transporta por mês 70 mil pessoas de helicóptero (um estádio do Morumbi). Seu sistema logístico movimenta dois mil caminhões por dia (enfileirados, “medem” 30 km). Responde por pelo menos 13% da arrecadação de impostos de todos os estados (exceto São Paulo). Possui 284 navios (frota maior que a de transatlânticos em cruzeiros pelo mundo, cerca de 200). “Todas as coisas da Petrobras são gigantescas. Por isso ela provoca muito ódio e muito amor”, diz Gabrielli. 
Nesta entrevista exclusiva à Carta Maior, o executivo analisa o futuro da empresa e da economia mundial. Discute a polêmica redistribuição dos royalties do petróleo entre os estados. Comenta a disputa política que “sempre, sempre, sempre” envolveu a estatal e fala do próprio futuro político dele - desde já, um potencial candidato ao governo da Bahia pelo PT em 2014. 
Mas o executivo também faz um alerta. O desenvolvimento brasileiro a partir do pré-sal pode estar começando a ficar comprometido pela falta de planejamento do governo e de investimento das empresas fornecedoras. Já haveria no ar risco de "doença holandesa", a maldição desindustrializadora que atinge países exportadores de grandes quantidades de uma única commodity. "Estou preocupado com a velocidade de investimentos na cadeia produtiva."
Abaixo, o leitor confere a íntegra da entrevista, concedida no escritório da Petrobras em Brasília na última quarta-feira (24/08).
Quando a Petrobras será a maior empresa do mundo?
Gabrielli: Não sei. O que posso dizer é o seguinte. Olhando o futuro na área de petróleo, a maior contribuição de novas descobertas no mundo vem da Petrobras. Um terço das grandes descobertas nos últimos dez anos foi feita pela Petrobras. O mundo tem duas fontes de petróleo novo. Uma é a descoberta, e aí a Petrobras está disparadamente na frente. Outra é aumentar a recuperação dos campos já descobertos, e aí o volume da Petrobras não é tão grande. Alguém tem perspectiva de crescimento futuro maior do que a Petrobras? Não. Vamos crescer 9,6% por ano, em média, até 2020.
O vice-primeiro ministro britânico, Nick Clegg, disse num seminário promovido pela Petrobras que a empresa vai dar uma mexida na geopolítica mundial. Vai?
Gabrielli: Vai. Hoje, a América do Sul tem uma produção para o mundo muito pequena. Fora a Venezuela, que exporta para os Estados Unidos, o Brasil tem uma exportação de 580 mil barris por dia. Em 2020, a Petrobras vai estar produzindo no Brasil 4,9 milhões de barris por dia. Vamos exportar 2,3 milhões de barris, que é mais do que nossa produção total hoje [2,1 milhões de barris por dia]. A produção total da Líbia hoje é 2 milhões de barris. E mais: em 2020, o Brasil vai consumir entre 3 milhões e 3,3 milhões de barris por dia. Hoje, só quatro países consomem mais de 3 milhões: Estados Unidos, China, Japão e Índia. Então, evidentemente que o papel relativo do Brasil muda na geopolítica do petróleo mundial.
Esse peso geopolítico... Existe uma equipe de inteligência diplomática e política olhando a Petrobras no mundo, nos países em que ela está?
Gabrielli: Nós evidentemente fazemos avaliação de risco político permanentemente. Atuamos em 27 países. Mas nossa principal atuação é no Brasil. 95% dos nossos investimentos são no Brasil, só 5% são fora. É claro que US$ 11 bilhões é grande [investimento], mas para quem está investindo US$ 224 bi...
De que forma esse cenário nebuloso sobre o futuro da economia mundial hoje influencia o futuro da Petrobras?
Gabrielli: Em janeiro de 2009, no auge da crise, nós lançamos um plano estratégico de US$ 174 bilhões. Eu viajei pelos centros financeiros do mundo e dizia o seguinte: "a crise não decretou o fim do futuro, o futuro não foi cancelado; as pessoas vão continuar andando de carro, as coisas vão ser transportadas por caminhão, os ônibus continuarão andando, os aviões continuarão voando, os navios continuarão carregando cargas e pessoas..." O mundo não parou pela crise. E mais ainda: mesmo que não haja crescimento nenhum e a demanda fique em 85 milhões de barris por dia, pelo declínio da produção, o mundo vai precisar adicionar de produção nova entre 45 milhões e 65 milhões de barris em 2020.
Mais da metade da produção atual...
Gabrielli: Mais da metade. A produção cai de 7% a 10% por ano. Vai precisar ter petróleo. Como não analisamos o amanhã, mas o longo prazo...
O que o cenário político hoje na Líbia impacta o mercado de petróleo, se é que vai, e os negócios da Petrobras?
Gabrielli: Os negócios da Petrobras, nada. Ou muito pouco. Porque nós tínhamos uma atividade exploratória, não tínhamos produção. Nem perfuração estava sendo feita. Do ponto de vista do mercado de petróleo, a Líbia produzia 2 milhões de barris por dia. E é um petróleo muito leve, muito utilizado nas refinarias européias, a Líbia produz fortemente para a Europa. Acho que para os Estados Unidos, que é o maior mercado do mundo, a Líbia tem um papel muito pequeno. Para a China, também. Portanto, nos mercados maiores, a Líbia tem pouco impacto. Na Europa, pode ter mais. Mas não acredito que tenha grande impacto sobre preços nem na situação do mercado, se a Líbia voltar a produzir rápido. O que é uma interrogação. Depende do que vai fazer o novo governo ou o Kadafi. Ninguém sabe ainda.
Qual o tamanho dos negócios da Petrobras na Líbia?
Gabrielli: Absolutamente imaterial, poucos milhões de dólares. Tínhamos uma sala alugada e sete pessoas trabalhando lá. Agora os brasileiros estão aqui e os líbios estão em nossas atividades fora do Brasil. Não vou dizer onde, para não colocar em risco a segurança deles. Eles estão fora do Brasil e fora da Líbia, inclusive. 
Especialmente no segundo mandato do presidente Lula, a Petrobras esteve no centro da disputa político-eleitoral...
Gabrielli: A Petrobras sempre esteve no centro da disputa política. Sempre, sempre, sempre... A Petrobras foi fundada em 1953, e o primeiro presidente foi um baiano, Juracy Magalhães. Não é baiano. Ele, na realidade, era cearense. Mas foi governador da Bahia. O relator da lei foi Antonio Balbina, que foi governador da Bahia....
Então é natural que o presidente da Petrobras seja candidato ao governo da Bahia...
Gabrielli: Está muito longe. Você pode dizer que o presidente da Petrobras não será candidato em 2012, com certeza absoluta. Mas 2014 está muito longe.
Mas eu queria saber se o senhor acredita que uma disputa mais acirrada por parte da oposição pode atingir a Petrobras também no governo Dilma.
Gabrielli: A Petrobras sempre teve muito ataque, em todos os momentos. Nos últimos oito anos, a Petrobras... Se você pegar o nosso clipping [resumos de notícias], que hoje é pequeno, não há dia que você não tenha intensas publicações, de todo tipo. É normal, ela tem que conviver com isso. A Petrobras é muito grande, impacta a sociedade de forma bastante intensa. Todas as coisas da Petrobras são gigantescas. Evidente que, sendo muito grande, provoca muito ódio e muito amor.
O senhor está há alguns anos no cargo, imagino que já esteja suficientemente bem acomodado, mas como é ter mais poder do que muitos presidentes de países?
Gabrielli: Não sei se tem esse poder todo, porque a Petrobras é muito procedimentada, tudo tem comitês, nada é uma decisão individual. É uma empresa disciplinada, mas não é a vontade do presidente que determina as coisas. O processo de decisão algumas vezes envolve centenas de pessoas. Temos hoje mais de três mil gerentes e três mil coordenadores. Nós operamos uma empresa que planeja investir US$ 224 bilhões até 2015. Ninguém sabe exatamente o que é isso. Mas se você transformar em ano, mês, dia, minuto e segundo, a Petrobras vai investir mais de R$ 2,3 mil por segundo, nos próximos cinco anos. Um investimento desse tamanho não pode ser pessoal. Tem que ter uma máquina de decisões.
Como foi ter visto o pré-sal surgir e proporcionar esse gigantismo à Petrobras?
Gabrielli: Estou na Petrobras há oito anos, era diretor-financeiro antes. A Petrobras se transformou profundamente nesses oito anos. Só para dar um número. Nós investíamos, em 2003, em torno de US$ 5 bilhões. Hoje, estamos investindo US$ 45 bilhões por ano. A Petrobras deu um salto em termos de descobertas e de reservas. Retomou o investimento em refino, construiu uma rede nacional de gasodutos que tem quase 10 mil km. Entrou fortemente em biocombustíveis, voltou à petroquímica fortemente, reorientou a atividade internacional e fez a maior capitalização da história do capitalismo. Quem viveu isso, viveu momentos muito trepidantes e muito interessantes.
Os recursos humanos no Brasil são adequados para esse novo patamar que a Petrobras alcançou? Especialmente na exploração do pré-sal?
Gabrielli: Acho que, para a Petrobras, não teremos grandes problemas. Para a cadeia de fornecedores, teremos. Vou dizer por que. No penúltimo concurso, a Petrobras ofereceu duas mil vagas e teve 390 mil inscritos. No que está em andamento hoje, estamos oferecendo 580 vagas e tivemos 174 mil inscritos. Não acredito que tenha problema de seleção para a Petrobras... Agora, para a cadeia de fornecedores, estamos fazendo um enorme programa de treinamento. Já treinamos 79 mil pessoas e vamos treinar mais 212 mil até 2014, só para a cadeia de fornecedores.
Isso significa quanto de investimento?
Gabrielli: US$ 1,4 bilhões no período. Vamos dar 12 mil turmas de treinamento daqui até 2014. Não é a Petrobras que faz isso, temos hoje 70 instituições no Brasil todo treinando esse pessoal. Treinando todo mundo, desde soldador ao operador de guindaste, ao engenheiro de detalhamento, o especialista em corrosão, o eletricista de alta tensão, operador de caldeira...
O Senado está debatendo a redistribuição de royalties do petróleo e essa é uma discussão sobre quem vai perder. Já apareceu uma ideia de jogar a conta para as empresas, aumentando o que pagam de participações especiais. O que o senhor acha?
Gabrielli: Nós pagamos 76% de participações especiais ao governo, estamos em linha com os maiores tributos do mundo. Se quiserem mais, vai inibir investimentos e inibir crescimento, vai ter menos rentabilidade. Não há mágica. Investindo menos, tem menos emprego, a produção de petróleo cai... A nação tem que saber a consequencia da decisão.
A Petrobras não é protagonista deste debate, é impactada pelas decisões dos protagonistas. Mas, com a experiência acumulada no debate do pré-sal, o senhor vê alguma solução para os royalties?
Gabrielli: Acho que a idéia inicial, que era fazer uma pequena redistribuição da concentração dos royalties nos estados do Rio, Espírito Santo e São Paulo, para uma melhor parcela dos outros estados da produção que virá, é o caminho. Qual proporção? Não sei, essa é uma decisão política que o Congresso vai ter que tomar. Mas a direção de uma melhor distribuição é válida. Não é correto continuar no futuro com uma concentração que tem hoje. Principalmente porque a produção vai crescer. O volume absoluto vai dobrar. Os estados produtores vão receber o dobro do que recebem hoje e vai manter a concentração? Não é justo para a sociedade, porque a riqueza pertence a nação brasileira, não aos estados.
Qual a situação hoje com a PDVSA [estatal venezuelana parceira da Petrobras] na [construção da] refinaria de Abreu e Lima [a sociedade está ameaçada porque a PDVSA ainda não pagou a parte que lhe cabe]? 
[Gabrielli: Não posso falar sobre isso. Negociação não se faz pela imprensa.
E qual a perspectiva?
Gabrielli: Não sei, está no prazo. O prazo inicial vence no fim de agosto.
Existe boa-vontade, pelo menos...
Gabrielli: Nosso plano envolve a participação deles, mas temos recursos para fazer sem eles. Estamos preparados para as duas alternativas.
Bom, estou satisfeito...
Gabrielli: Se você me permite comentar uma coisa... Tem uma coisa fundamental, dada a dimensão da Petrobras de longo prazo. Se houver dificuldade na implementação da política de conteúdo nacional, nós podemos ter um problema. Para evitar o risco da doença holandesa, é absolutamente fundamental intensificar o investimento na cadeia produtiva de suprimento de bens e serviços para petróleo e gás. Aumentar a produção de máquinas, bombas, válvulas especiais, milhares de equipamentos. Se não houver o crescimento dessa produção no Brasil, e nós vamos precisar de alguns equipamentos críticos que não tem capacidade de produção mundial, podemos ter problemas com o desenvolvimento brasileiro. Só para fazer uma conta: 2,3 milhões de barris por dia de exportação, a US$ 80 o barril, são 67 bilhões de dólares de exportação. Sabe o que impacta isso no câmbio?
Quem tem de liderar a solução desse problema?
Gabrielli: É um conjunto. A Petrobras não pode fazer tudo, o governo está fazendo também, as associações profissionais estão fazendo, e as empresas têm que fazer.
Para quem é esse recado? Com quem o senhor está preocupado?
Gabrielli: Estou preocupado com a velocidade de investimentos na cadeia produtiva. 
Quando esse problema vai surgir?
Gabrielli: Tem alguns setores em que surgem, outros que não. É uma coisa tão grande que não pode dizer que começou hoje ou amanhã.
O plano Brasil Maior do governo deveria avançar mais nisso? 
Gabrielli: Estou esperando a parte de petróleo e gás, que não saiu ainda...
Fonte: Carta Maior | Economia, 26/08/2011

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