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terça-feira, agosto 30, 2011

"escuto sem te ouvir, para que quereria eu ouvir?"

Humildadezinha dominical


Falas de cizilização, de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
.
(Alberto Caeiro)

terça-feira, maio 10, 2011

para que matar o sapos?

A NATUREZA PEDE SOCORRO
(por Vinícius Ausier Campos - 12 anos)
...
A natureza pede socorro,
Sem ela eu morro.
Os carros a matam sufocada,
As serras a matam cortadas.
Os mares ficam sem peixes
As florestas sem animais.
O que será que eu faço,
Para ajudar a natureza que é demais!
Eu coleto, eu reciclo, o que faço?
Faço de tudo para ajudar o mato.
Madeira só reflorestada,
Desenho em papel, uso os dois lados.
Mas, o que eu não entendo,
Para que matar os sapos?
Voltando ao assunto,
A natureza pede socorro,
Sem ela eu morro.

sexta-feira, janeiro 28, 2011

cascatas reviradas por letras e lanças

Sábios e Dementes
.
Quando um dia sequer sem ameaças
Dor e fome ainda morrem no corpo
Os caminhos demonstram violências
E ainda impunes se entrelaçam noutros
.
As mesmas promessas se arrastam
Anos a fio cortando fundo no osso
Sem panacéias que satisfaçam nada
É uma navalha o mais provido esboço
.
Mesquinharias, ambições e lucros
Impedem as necessidades da gente
Propiciam cicatrizes nos sonhos
Assim como as repetições dementes
.
Folias insanas, maus políticos, bravatas
Nos queima a todos através dos anos
Suja-se o bom gosto das almas
Que ainda acreditam nos planos
.
A hora dos consertos chega e se vai
Pelos filhos que tateiam esperanças
Em vendas manchadas por interesses vis
Até se acudir no balanço das mudanças
.
Ainda pisamos no olho da água doce
O mineral com vigor ainda borbulha
Espelho natural sem rancor se derrama
E nos alimenta com manancial ternura
.
Vale ainda os valores da sabedoria
Em cascatas reviradas por letras e lanças
Uma verdade com gosto de ruptura
No peito do ser que mantêm sua dança

sábado, janeiro 22, 2011

um fim de tarde no Solar do Unhão (MAM)

Foto: Igor Outeiral da SIlva

Maior Pausa

No Solar caía um sol de tintas
O que restava era uma trilha do mar
E seus olhos de barco navegado
Ancorava em uma pausa de cais
Tirando o horizonte de lugar

Sombras de Goya permeavam
O colo feminino torneado pela tarde
Era vermelha a fonte dos
sentidos
Chão e céu de mãos dadas
Dizendo algo para serem ouvidos
.
Achei uma concha estampada na areia
Bordas de sal num cordão de estrelas
Oferecendo luz ao distante caminho
De padrões recortados de retratos
Levados pela maré aos pedacinhos



sábado, janeiro 08, 2011

"...distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas"

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, janeiro 07, 2011

o poeta, por ele mesmo

Poema Sujo
-Ferreira Gullar-
      (trecho inicial) 
                           turvo turvo
                           a turva
                           mão do sopro
                           contra o muro
                           escuro
                           menos menos
                           menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
                           escuro
                           mais que escuro:
                           claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
                           e tudo
                           (ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
                          azul
                          era o gato
                          azul
                          era o galo
                          azul
                          o cavalo
                          azul
                          teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como 
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma 
entrada para
                                                                  eu não sabia tu
                                                                  não sabias
                                                                  fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
                                                                  entrando-nos em ti 
                         bela bela 
                         mais que bela 
                         mas como era o nome dela?
                         Não era Helena nem Vera 
                         nem Nara nem Gabriela 
                         nem Tereza nem Maria 
                        Seu nome seu nome era... 
                        Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia 
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas 
                        constelações de alfabeto 
                        noites escritas a giz 
                        pastilhas de aniversário 
                       domingos de futebol 
                        enterros corsos comícios 
                        roleta bilhar baralho 
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa 
e de tempo: mas está comigo está 
                        perdido comigo 
                        teu nome 
                        em alguma gaveta 
Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
                                              mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já 
                      um prato de louça ordinária não dura tanto
                      e as facas se perdem e os garfos 
                      se perdem pela vida caem 
                      pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira
e as grossas orelhas de hortelã
                      quanta coisa se perde
                      nesta vida
                      Como se perdeu o que eles falavam ali
                      mastigando
                      misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
                tão reais que
                se apagaram para sempre
                                                               Ou não? 
Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás 
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama, 
                       ou dentro de um ônibus 
                       ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris 
                       perfeitamente fora
                      do rigor cronológico 
                      sonhando 
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar, 
                        voais comigo 
                        sobre continentes e mares 
E também rastejais comigo 
                       pelos túneis das noites clandestinas
                             sob o céu constelado do país 
                             entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror 
                             vos esgueirais comigo, mesas velhas, 
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, 
                             dobrais comigo as esquinas do susto 
                             e esperais esperais
que o dia venha 
                             E depois de tanto 
                            que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo: 
                            te chamo aurora 
                            te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema 
                           nas aparições do sonho 

                            - E esta mulher a tossir dentro de casa! 
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)  
E todos buscavam 
                             num sorriso num gesto 
                             nas conversas da esquina 
                             no coito em pé na calçada escura do Quartel 
                             no adultério 
                             no roubo 
                             a decifração do enigma 
                             - Que faço entre coisas? 
                             - De que me defendo? 
Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
                            (como pode o perfume
                            nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
                               mais verdes que a esperança
                               (ou o fogo
                               de teus olhos) 
Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
                                                                       sob as sombras da guerra:
                             a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o 
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento o  blackout as 
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de 
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste. 
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava 
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
                               pelo meu carneiro manso
                               por minha cidade azul
                               pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste. 
A cada nova manhã 
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais 
Mas a poesia não existia ainda. 
                      Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
                      Olhos. Braços. Seios. Bocas.
                      Vidraça verde, jasmim.
                       Bicicleta no domingo. 
                       Papagaios de papel.
                       Retreta na praça. 
                       Luto. 
                      Homem morto no mercado
                      sangue humano nos legumes.
                     Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos 
                              Do corpo. Mas que é o corpo? 
                              Meu corpo feito de carne e de osso.
                        Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
                        flexível armação que me sustenta no espaço
                             que não me deixa desabar como um saco
                             vazio 
                        que guarda as vísceras todas
                                                                     funcionando 
                        como retortas e tubos
                        fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
                              e as palavras
                              e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
       mais sentidos
para explodir uma galáxia
       de leite 
       no centro de tuas coxas no fundo
       de tua noite ávida 
cheiros de umbigo e de vagina
       graves cheiros indecifráveis
       como símbolos
       do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar 
       um caco de vidro 
       uma navalha
meu corpo cheio de sangue
       que o irriga como a um continente
       ou um jardim
       circulando por meus braços
       por meus dedos 
       enquanto discuto caminho 
       lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro 
       dos céus da cidade estrangeira 
       com a ajuda dos plátanos 
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
        aberto 
                  Meu corpo 
que deitado na cama vejo 
como um objeto no espaço 
         que mede 1,70m 
         e que sou eu: essa coisa deitada
         barriga pernas e pés
         com cinco dedos cada um (por que 
         não seis?)
         joelhos e tornozelos
        para mover-se
        sentar-se
        levantar-se 
meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo 
        meu corpo feito de água 
        e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio 
        e me sentir misturado 
a toda essa massa de hidrogênio e hélio 
        que se desintegra e reintegra
        sem se saber pra quê 
        Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
        dois olhos
        e um certo jeito de sorrir
        de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
       que meu filho identifica
       como sendo de seu pai 
corpo que se pára de funcionar provoca
        um grave acontecimento na família:
        sem ele não há José Ribamar Ferreira
        não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre 
 corpo-facho    corpo-fátuo     corpo-fato 
atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
        de rato
        cocô de gato
sal azinhavre sapato
       brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
       nos pentelhos
com meu corpo-falo
       insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
        cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
        de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
        sambas e frevos azuis
        de Fra Angelico verdes
        de Cézanne
        matéria-sonho de Volpi
         Mas sobretudo meu
                                  corpo
                                  nordestino
         Mais que isso
                              maranhense
        mais que isso
                              sanluisense
        mais que isso
                              ferreirense
                              newtoniense
                              alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
                               ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
                               sob as balas do 24º BC
                               na revolução de 30 
e que desde então segue pulsando como um relógio
                              num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração) 
                              tic tac tic tac 
enquanto vou entre automóveis e ônibus 
                              entre vitrinas de roupas 
                              nas livrarias 
                              nos bares 
                              tic tac tic tac 
pulsando há 45 anos 
                     esse coração oculto 
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva 
debaixo da capa, do paletó, da camisa 
debaixo da pele, da carne, 
combatente clandestino aliado da classe operária 
                              meu coração de menino

segunda-feira, dezembro 13, 2010

tu és mais alguma cousa

DIZES-ME
(Alberto Caeiro)
Dizes-me: tu és mais alguma cousa 
Que uma pedra ou uma planta. 
Dizes-me: sentes, pensas e sabes 
Que pensas e sentes. 
Então as pedras escrevem versos? 
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença. 
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta?   Não sei. 
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor? 
Pode ser e pode não ser. 
Sei que é diferente apenas. 
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. 
Sei isto porque elas existem. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram. 
Sei que sou real também. 
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,  
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta. 
Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. 
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas. 
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;  
E as plantas são plantas só, e não pensadores. 
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior. 
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,  
Digo da planta, «é uma planta»,  
Digo de mim, «sou eu». 
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001.

segunda-feira, novembro 01, 2010

de todos, é também nosso...

Amor Mantido
.
De curiosidades semeadas por cristais de luz matutina
Mais um dia corria solto entre gorjeios de passarinhos
Notas se soltavam pelos ares através de trino afinado
Indo compor cenários retratados em flores e sons de sinos

Passando as mãos pela noite senti a voz líquida da lua
E medi seus compassos riscando no chão raras nuanças
Renovando espaços internos alarguei ruas e casas
Compreendi o frio na procura do cobertor que faltava

Muitas vezes não revelava quantos medos escondia
Longe dessa verdade não encontrava vontade de mudar
Hoje acordo cedo como semente gerando ramos e folhas
E exploro a imensa força que antes não queria enxergar

Vivenciei o novo amor falando de palavras que queria
E parei nos traços de sua boca que ocupava um sorriso
Não sabendo contar quantas letras teria essa arquitetura
Percorri curvas de acidentes atrás desse outro abrigo

Agora o que sou não se traduz em acentos e palavras
Pelos mesmos motivos ainda visto as cores da vida
Um momento em que me molho de vez na chuva
Na esteira de muitas delícias ela é a minha preferida

quarta-feira, outubro 20, 2010

nosso 31 de outubro

Segredos que Bastam
.
Achados em sonhos inúmeros segredos são contados
Os acontecidos por dentro viram manchas solares
Insistem em nos lançar sem pára-quedas ao vento
Grãos de suspiros por cima de um horizonte incendiado
.
As mínimas vontades parecem alimentar suspeitas
De anseios e palpites batem loucas em nosso peito
Nas voltas por praças à beira de penhascos e rios
Crespas e arriadas sobre selvagem montaria em pelo
.
Inebriados pelos cheiros bordados nos cabelos e panos
Pelas roupas translúcidas admiramos seixos molhados
Sonhos raros e imaginação aproxima-nos da tona
Saltando de um mar em gozo após mergulho cobiçado
.
Agora pisamos em terreno que conhecemos desde cedo
Mas desatentos acariciamos nossos rostos no fim do dia
Quando as ondas da retina se deitam em luzes de navios
Em direção a um balé primoroso de divino rebuscado
.
Sinestésico poder de nosso ser em outro movimento
Acaba e repõe suas formas e tons do jeito que são
Como a vida que dá sentido ao que existe ao redor
Evoluindo a cada passo em perpétuo ponto de fusão

quarta-feira, setembro 15, 2010

aquela manhã de...

Renascimento
.
Dei uma pausa esperando e não achei porquê
Saltei dos pensamentos e caí do berço em febre
Para escrever sobre emoções que nem sei dizer
.
Acendi a tosca manhã ao puxar o cobertor do dia
Pintei um quadro imaginário sob os pés pousados
E mãos de recém-nascido abriu a porta talhada
.
Quis mais da sobremesa que a vida me servia
Uma vez provado os sabores nada mais seria igual
Saberia lamber cada gota sentindo o que evoluiu
.
Minha percepção alimentou uma nova vibração
Por dentro e por fora partindo o que era rijo
Renovando cada célula em suas íntimas relações
.
Fiz um instrumento mais prático para a viajem
Parecendo conhecer os planos que perseguia
Mal sabia que tudo era mais que uma miragem
.
De repente uma paisagem de céu jogava vidros
Chorei ao rodar os quatro cantos do velho mundo
Em cada parada conheci uma razão para onde ir
.
Sofria o meu espaço interior elevado em graus
Arremessei os fardos das dores que me ardiam
Pude amanhecer em ares que soprariam sonetos

sexta-feira, agosto 27, 2010

Estado sintomático

Sábios e Doentes
.
Quando um dia sequer sem ameaças
Dor e fome ainda morrem no corpo
Os caminhos demonstram violências
E ainda impunes se entrelaçam noutros
.
As mesmas promessas se arrastam
Anos a fio cortando fundo no osso
Sem panacéias que satisfaçam nada
É uma navalha o mais provido esboço
.
Mesquinharias, ambições e lucros
Impedem as necessidades da gente
Propiciam cicatrizes nos sonhos
Assim como as repetições dementes
.
Folias insanas, maus políticos, bravatas
Nos queima a todos através dos anos
Suja-se o bom gosto das almas
Que ainda acreditam nos planos
.
A hora dos consertos chega e se vai
Pelos filhos que tateiam esperanças
Em vendas manchadas por interesses vis
Até se acudir no balanço das mudanças
.
Ainda pisamos no olho da água doce
O mineral com vigor ainda borbulha
Espelho natural sem rancor se derrama
E nos alimenta com manancial ternura
.
Vale ainda os valores da sabedoria
Em cascatas reviradas por letras e lanças
Uma verdade com gosto de ruptura
No peito do ser que mantêm sua dança

segunda-feira, agosto 16, 2010

que dissipe sempre...

Estranheza do Mundo
---------Ferreira Gullar

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

quarta-feira, agosto 04, 2010

vem no pensamento

Borboletas
.
Por dançar a vida achei uma pista em ampla clareira
No pisar corrente arranquei as unhas e as penas
Ignorando os domínios ia somando as trilhas
Ao escolher um curso ainda sem padrão nem eira
.
Entreguei-me às marés ainda mal acostumadas
Às tábuas de horas e regras moldadas à mão
Atravessei no peito as ondas tracejadas de sal
Conspirando para as águas virem numa cheia
.
Dadas as circunstâncias era movido pela emoção
Abrindo o coração que transitava sem amarras
Em sintonia com a música soltei o que guardava
Réstias de festejos bem combinadas com maçãs
.
Encontro o vestido de uma história incompleta
Tantos sonhos deixados como jogos de armar
Suspenso em finas hastes de giz da memória
Equilíbrio solto em rota riscada por labaredas
.
Bela borboleta roxa atraída pela luz em colapso
Aprende a aceitar o desencanto das mudanças
Um valioso selo guardado numa caixa de segredos
Retrato três por quatro dobrado em lembranças

domingo, julho 25, 2010

biodanza que desea

A Dança da Vida

Na dança da vida não sou mais um ser qualquer
Achei-me em um a mais que nós dois somente
Pela identidade encontrada em conchas e algas
Sou miríades de cerejas minando de estojos

Cascas que desfolham bailarinas entre sóis
Uma linguagem de nossos átomos em conexão
Dançamos serpenteando embolados e certeiros
Despojados como hipopótamos em altura e peso

Até nos sentirmos à vontade num vôo com o outro
Suamos em tranças de distintas e claras percepções
Quase retos na difícil arte dentre muitas a despertar
Ao largar os cacos das louças internamente quebradas

Tendência em existir num sentido incomensurável
No melhor dos tempos se permitindo durar no pouco
Outros são desenhos que se desfazem desbotados
Justo por não aceitar o real presente do bordado novo

Acertamos o que as horas a passos largos trazem do dia
Percebendo as qualidades e virtudes que nos invadem
Conhecendo tensões e matérias que nos impedem
Dançar a vida que nos atrai por relações diversas

Como animais imersos no viço da emoção humana
E erros por não fazer o que é próprio a natureza
Mesmo sabendo que o tempo é uma coisa viva
Que não deixa confundi-lo com o relógio que criamos

Nossas vivências provam o que o corpo encobre
Quer se estender no mesmo espaço raro dos atos
Dando voltas de costas no dorso de suas costas
Quando a cabeça deita no ombro uma linda lua

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  • 12 Horas até o Amanhecer
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  • 21 Gramas
  • 30 Minutos ou Menos
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  • A Intérprete
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  • A Razão de Meu Afeto
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