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segunda-feira, agosto 29, 2011

"a crise não decretou o fim do futuro, o futuro não foi cancelado..."

Petrobras afeta geopolítica, e 'doença holandesa' é risco, diz Gabrielli

O avanço da produção de petróleo pré-sal na década vai tornar a maior empresa brasileira na maior do planeta e fazer da Petrobras um dos principais atores de uma nova geopolítica mundial. Mas suas exportações podem inundar o país de dólares e prejudicar a indústria, e o governo ainda não tomou as providências necessárias. "Estou preocupado com a velocidade de investimentos na cadeia produtiva", diz o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, em entrevista exclusiva à Carta Maior.
BRASÍLIA – O economista baiano José Sérgio Gabrielli vai completar 62 anos em outubro mas terá de esperar até o mês seguinte para receber o melhor presente que 2011 lhe reserva. Sem nada no horizonte que indique mudanças à vista, em novembro, o 33° presidente da Petrobras deve se tornar o executivo de mais longa permanência no cargo. 
Gabrielli comanda há seis anos e um mês aquela que é a principal empresa do Brasil. Com o recém-lançado plano de investir R$ 2,3 mil por segundo até 2015 e a aceleração da produção na camada do pré-sal, a companhia caminha para se transformar também na maior do planeta.
O gigantismo da estatal se revela em dados curiosos. Ela transporta por mês 70 mil pessoas de helicóptero (um estádio do Morumbi). Seu sistema logístico movimenta dois mil caminhões por dia (enfileirados, “medem” 30 km). Responde por pelo menos 13% da arrecadação de impostos de todos os estados (exceto São Paulo). Possui 284 navios (frota maior que a de transatlânticos em cruzeiros pelo mundo, cerca de 200). “Todas as coisas da Petrobras são gigantescas. Por isso ela provoca muito ódio e muito amor”, diz Gabrielli. 
Nesta entrevista exclusiva à Carta Maior, o executivo analisa o futuro da empresa e da economia mundial. Discute a polêmica redistribuição dos royalties do petróleo entre os estados. Comenta a disputa política que “sempre, sempre, sempre” envolveu a estatal e fala do próprio futuro político dele - desde já, um potencial candidato ao governo da Bahia pelo PT em 2014. 
Mas o executivo também faz um alerta. O desenvolvimento brasileiro a partir do pré-sal pode estar começando a ficar comprometido pela falta de planejamento do governo e de investimento das empresas fornecedoras. Já haveria no ar risco de "doença holandesa", a maldição desindustrializadora que atinge países exportadores de grandes quantidades de uma única commodity. "Estou preocupado com a velocidade de investimentos na cadeia produtiva."
Abaixo, o leitor confere a íntegra da entrevista, concedida no escritório da Petrobras em Brasília na última quarta-feira (24/08).
Quando a Petrobras será a maior empresa do mundo?
Gabrielli: Não sei. O que posso dizer é o seguinte. Olhando o futuro na área de petróleo, a maior contribuição de novas descobertas no mundo vem da Petrobras. Um terço das grandes descobertas nos últimos dez anos foi feita pela Petrobras. O mundo tem duas fontes de petróleo novo. Uma é a descoberta, e aí a Petrobras está disparadamente na frente. Outra é aumentar a recuperação dos campos já descobertos, e aí o volume da Petrobras não é tão grande. Alguém tem perspectiva de crescimento futuro maior do que a Petrobras? Não. Vamos crescer 9,6% por ano, em média, até 2020.
O vice-primeiro ministro britânico, Nick Clegg, disse num seminário promovido pela Petrobras que a empresa vai dar uma mexida na geopolítica mundial. Vai?
Gabrielli: Vai. Hoje, a América do Sul tem uma produção para o mundo muito pequena. Fora a Venezuela, que exporta para os Estados Unidos, o Brasil tem uma exportação de 580 mil barris por dia. Em 2020, a Petrobras vai estar produzindo no Brasil 4,9 milhões de barris por dia. Vamos exportar 2,3 milhões de barris, que é mais do que nossa produção total hoje [2,1 milhões de barris por dia]. A produção total da Líbia hoje é 2 milhões de barris. E mais: em 2020, o Brasil vai consumir entre 3 milhões e 3,3 milhões de barris por dia. Hoje, só quatro países consomem mais de 3 milhões: Estados Unidos, China, Japão e Índia. Então, evidentemente que o papel relativo do Brasil muda na geopolítica do petróleo mundial.
Esse peso geopolítico... Existe uma equipe de inteligência diplomática e política olhando a Petrobras no mundo, nos países em que ela está?
Gabrielli: Nós evidentemente fazemos avaliação de risco político permanentemente. Atuamos em 27 países. Mas nossa principal atuação é no Brasil. 95% dos nossos investimentos são no Brasil, só 5% são fora. É claro que US$ 11 bilhões é grande [investimento], mas para quem está investindo US$ 224 bi...
De que forma esse cenário nebuloso sobre o futuro da economia mundial hoje influencia o futuro da Petrobras?
Gabrielli: Em janeiro de 2009, no auge da crise, nós lançamos um plano estratégico de US$ 174 bilhões. Eu viajei pelos centros financeiros do mundo e dizia o seguinte: "a crise não decretou o fim do futuro, o futuro não foi cancelado; as pessoas vão continuar andando de carro, as coisas vão ser transportadas por caminhão, os ônibus continuarão andando, os aviões continuarão voando, os navios continuarão carregando cargas e pessoas..." O mundo não parou pela crise. E mais ainda: mesmo que não haja crescimento nenhum e a demanda fique em 85 milhões de barris por dia, pelo declínio da produção, o mundo vai precisar adicionar de produção nova entre 45 milhões e 65 milhões de barris em 2020.
Mais da metade da produção atual...
Gabrielli: Mais da metade. A produção cai de 7% a 10% por ano. Vai precisar ter petróleo. Como não analisamos o amanhã, mas o longo prazo...
O que o cenário político hoje na Líbia impacta o mercado de petróleo, se é que vai, e os negócios da Petrobras?
Gabrielli: Os negócios da Petrobras, nada. Ou muito pouco. Porque nós tínhamos uma atividade exploratória, não tínhamos produção. Nem perfuração estava sendo feita. Do ponto de vista do mercado de petróleo, a Líbia produzia 2 milhões de barris por dia. E é um petróleo muito leve, muito utilizado nas refinarias européias, a Líbia produz fortemente para a Europa. Acho que para os Estados Unidos, que é o maior mercado do mundo, a Líbia tem um papel muito pequeno. Para a China, também. Portanto, nos mercados maiores, a Líbia tem pouco impacto. Na Europa, pode ter mais. Mas não acredito que tenha grande impacto sobre preços nem na situação do mercado, se a Líbia voltar a produzir rápido. O que é uma interrogação. Depende do que vai fazer o novo governo ou o Kadafi. Ninguém sabe ainda.
Qual o tamanho dos negócios da Petrobras na Líbia?
Gabrielli: Absolutamente imaterial, poucos milhões de dólares. Tínhamos uma sala alugada e sete pessoas trabalhando lá. Agora os brasileiros estão aqui e os líbios estão em nossas atividades fora do Brasil. Não vou dizer onde, para não colocar em risco a segurança deles. Eles estão fora do Brasil e fora da Líbia, inclusive. 
Especialmente no segundo mandato do presidente Lula, a Petrobras esteve no centro da disputa político-eleitoral...
Gabrielli: A Petrobras sempre esteve no centro da disputa política. Sempre, sempre, sempre... A Petrobras foi fundada em 1953, e o primeiro presidente foi um baiano, Juracy Magalhães. Não é baiano. Ele, na realidade, era cearense. Mas foi governador da Bahia. O relator da lei foi Antonio Balbina, que foi governador da Bahia....
Então é natural que o presidente da Petrobras seja candidato ao governo da Bahia...
Gabrielli: Está muito longe. Você pode dizer que o presidente da Petrobras não será candidato em 2012, com certeza absoluta. Mas 2014 está muito longe.
Mas eu queria saber se o senhor acredita que uma disputa mais acirrada por parte da oposição pode atingir a Petrobras também no governo Dilma.
Gabrielli: A Petrobras sempre teve muito ataque, em todos os momentos. Nos últimos oito anos, a Petrobras... Se você pegar o nosso clipping [resumos de notícias], que hoje é pequeno, não há dia que você não tenha intensas publicações, de todo tipo. É normal, ela tem que conviver com isso. A Petrobras é muito grande, impacta a sociedade de forma bastante intensa. Todas as coisas da Petrobras são gigantescas. Evidente que, sendo muito grande, provoca muito ódio e muito amor.
O senhor está há alguns anos no cargo, imagino que já esteja suficientemente bem acomodado, mas como é ter mais poder do que muitos presidentes de países?
Gabrielli: Não sei se tem esse poder todo, porque a Petrobras é muito procedimentada, tudo tem comitês, nada é uma decisão individual. É uma empresa disciplinada, mas não é a vontade do presidente que determina as coisas. O processo de decisão algumas vezes envolve centenas de pessoas. Temos hoje mais de três mil gerentes e três mil coordenadores. Nós operamos uma empresa que planeja investir US$ 224 bilhões até 2015. Ninguém sabe exatamente o que é isso. Mas se você transformar em ano, mês, dia, minuto e segundo, a Petrobras vai investir mais de R$ 2,3 mil por segundo, nos próximos cinco anos. Um investimento desse tamanho não pode ser pessoal. Tem que ter uma máquina de decisões.
Como foi ter visto o pré-sal surgir e proporcionar esse gigantismo à Petrobras?
Gabrielli: Estou na Petrobras há oito anos, era diretor-financeiro antes. A Petrobras se transformou profundamente nesses oito anos. Só para dar um número. Nós investíamos, em 2003, em torno de US$ 5 bilhões. Hoje, estamos investindo US$ 45 bilhões por ano. A Petrobras deu um salto em termos de descobertas e de reservas. Retomou o investimento em refino, construiu uma rede nacional de gasodutos que tem quase 10 mil km. Entrou fortemente em biocombustíveis, voltou à petroquímica fortemente, reorientou a atividade internacional e fez a maior capitalização da história do capitalismo. Quem viveu isso, viveu momentos muito trepidantes e muito interessantes.
Os recursos humanos no Brasil são adequados para esse novo patamar que a Petrobras alcançou? Especialmente na exploração do pré-sal?
Gabrielli: Acho que, para a Petrobras, não teremos grandes problemas. Para a cadeia de fornecedores, teremos. Vou dizer por que. No penúltimo concurso, a Petrobras ofereceu duas mil vagas e teve 390 mil inscritos. No que está em andamento hoje, estamos oferecendo 580 vagas e tivemos 174 mil inscritos. Não acredito que tenha problema de seleção para a Petrobras... Agora, para a cadeia de fornecedores, estamos fazendo um enorme programa de treinamento. Já treinamos 79 mil pessoas e vamos treinar mais 212 mil até 2014, só para a cadeia de fornecedores.
Isso significa quanto de investimento?
Gabrielli: US$ 1,4 bilhões no período. Vamos dar 12 mil turmas de treinamento daqui até 2014. Não é a Petrobras que faz isso, temos hoje 70 instituições no Brasil todo treinando esse pessoal. Treinando todo mundo, desde soldador ao operador de guindaste, ao engenheiro de detalhamento, o especialista em corrosão, o eletricista de alta tensão, operador de caldeira...
O Senado está debatendo a redistribuição de royalties do petróleo e essa é uma discussão sobre quem vai perder. Já apareceu uma ideia de jogar a conta para as empresas, aumentando o que pagam de participações especiais. O que o senhor acha?
Gabrielli: Nós pagamos 76% de participações especiais ao governo, estamos em linha com os maiores tributos do mundo. Se quiserem mais, vai inibir investimentos e inibir crescimento, vai ter menos rentabilidade. Não há mágica. Investindo menos, tem menos emprego, a produção de petróleo cai... A nação tem que saber a consequencia da decisão.
A Petrobras não é protagonista deste debate, é impactada pelas decisões dos protagonistas. Mas, com a experiência acumulada no debate do pré-sal, o senhor vê alguma solução para os royalties?
Gabrielli: Acho que a idéia inicial, que era fazer uma pequena redistribuição da concentração dos royalties nos estados do Rio, Espírito Santo e São Paulo, para uma melhor parcela dos outros estados da produção que virá, é o caminho. Qual proporção? Não sei, essa é uma decisão política que o Congresso vai ter que tomar. Mas a direção de uma melhor distribuição é válida. Não é correto continuar no futuro com uma concentração que tem hoje. Principalmente porque a produção vai crescer. O volume absoluto vai dobrar. Os estados produtores vão receber o dobro do que recebem hoje e vai manter a concentração? Não é justo para a sociedade, porque a riqueza pertence a nação brasileira, não aos estados.
Qual a situação hoje com a PDVSA [estatal venezuelana parceira da Petrobras] na [construção da] refinaria de Abreu e Lima [a sociedade está ameaçada porque a PDVSA ainda não pagou a parte que lhe cabe]? 
[Gabrielli: Não posso falar sobre isso. Negociação não se faz pela imprensa.
E qual a perspectiva?
Gabrielli: Não sei, está no prazo. O prazo inicial vence no fim de agosto.
Existe boa-vontade, pelo menos...
Gabrielli: Nosso plano envolve a participação deles, mas temos recursos para fazer sem eles. Estamos preparados para as duas alternativas.
Bom, estou satisfeito...
Gabrielli: Se você me permite comentar uma coisa... Tem uma coisa fundamental, dada a dimensão da Petrobras de longo prazo. Se houver dificuldade na implementação da política de conteúdo nacional, nós podemos ter um problema. Para evitar o risco da doença holandesa, é absolutamente fundamental intensificar o investimento na cadeia produtiva de suprimento de bens e serviços para petróleo e gás. Aumentar a produção de máquinas, bombas, válvulas especiais, milhares de equipamentos. Se não houver o crescimento dessa produção no Brasil, e nós vamos precisar de alguns equipamentos críticos que não tem capacidade de produção mundial, podemos ter problemas com o desenvolvimento brasileiro. Só para fazer uma conta: 2,3 milhões de barris por dia de exportação, a US$ 80 o barril, são 67 bilhões de dólares de exportação. Sabe o que impacta isso no câmbio?
Quem tem de liderar a solução desse problema?
Gabrielli: É um conjunto. A Petrobras não pode fazer tudo, o governo está fazendo também, as associações profissionais estão fazendo, e as empresas têm que fazer.
Para quem é esse recado? Com quem o senhor está preocupado?
Gabrielli: Estou preocupado com a velocidade de investimentos na cadeia produtiva. 
Quando esse problema vai surgir?
Gabrielli: Tem alguns setores em que surgem, outros que não. É uma coisa tão grande que não pode dizer que começou hoje ou amanhã.
O plano Brasil Maior do governo deveria avançar mais nisso? 
Gabrielli: Estou esperando a parte de petróleo e gás, que não saiu ainda...
Fonte: Carta Maior | Economia, 26/08/2011

sábado, março 12, 2011

perigo claro e presente...

Como assassinar uma recuperação

por Paul Krugman

O perigo vem da exigência dos republicanos de que o governo americano corte gastos com nutrição infantil, entre outros

O noticiário econômico tem melhorado ultimamente. As novas solicitações de seguro-desemprego diminuíram e pesquisas com empresas e consumidores sugerem um crescimento sólido. Ainda estamos perto da base de um buraco muito fundo, mas ao menos estamos subindo.
Pena que tantas pessoas, sobretudo da direita política, queiram nos empurrar para baixo de novo.
Antes de tratar disso, falemos sobre a razão porque a recuperação econômica está demorando a chegar.
Alguns economistas esperavam uma recuperação rápida depois de passarmos a fase aguda da crise financeira – o que eu penso como o período de pessimismo absoluto -, que durou aproximadamente de setembro de 2008 a março de 2009.
Mas isso nunca esteve nas cartas. A economia de bolha dos anos George W. Bush deixou muitos americanos sobrecarregados de dívidas. Quando a bolha estourou, os consumidores foram obrigados a parar e inevitavelmente precisariam de tempo para reequilibrar suas finanças. E o investimento das empresas também estava fadado a diminuir. Por que aumentar a capacidade quando a demanda de consumo está fraca e não se está usando as fábricas e escritórios que se tem?
A única maneira para evitarmos uma recessão prolongada teria sido os gastos do governo fazerem o que devia ser feito. Mas isso não ocorreu: o crescimento dos gastos governamentais em geral desacelerou depois do começo da recessão, na medida em que um estímulo federal com pouco poder foi comprometido por cortes nos níveis estadual e local.
Assim, vivemos anos de desemprego alto e crescimento inadequado.
Melhoria. Apesar dos percalços, porém, as famílias americanas melhoraram gradualmente sua situação financeira. E, nos últimos meses, houve sinais de um círculo virtuoso emergente. À medida em que as famílias iam ajustando suas finanças, elas iam aumentado seus gastos; à medida em que a demanda de consumo começava a reviver, as empresas se mostravam mais dispostas a investir; e tudo isso levou a uma economia em expansão, o que melhora ainda mais a situação financeira das famílias.
Mas esse processo ainda é frágil, especialmente por conta dos efeitos da alta dos preços do petróleo e dos alimentos. Essas altas de preços têm pouco a ver com a política americana. Elas se devem basicamente à demanda crescente da China e de outros mercados emergentes, de um lado, e da interrupção do suprimento por tumultos políticos e condições climáticas adversas, de outro. Mas representam um golpe no poder de compra num momento especialmente difícil. E as coisas se agravarão se o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e outros bancos centrais erroneamente responderem à inflação total mais alta elevando as taxas de juros.
O perigo claro e presente para a recuperação, no entanto, vem da política – especificamente, da exigência dos republicanos da Câmara de que o governo reduza imediatamente os gastos com nutrição infantil, controle de doenças, água limpa etc. Muito aparte de suas consequências negativas no longo prazo, esses cortes poderiam levar, direta e indiretamente, à eliminação de centenas de milhares de empregos – e isso poderia interromper o círculo virtuoso de aumento das rendas e melhoria das finanças.
Evidentemente, os republicanos acreditam (ou ao menos fingem acreditar) que os efeitos de sua proposta sobre empregos seriam mais que compensados por um aumento na confiança das empresas. Como eu gosto de dizer, eles acreditam que a fada da confiança ajeitará tudo. Mas não há nenhuma razão para o restante de nós partilhar dessa crença.
Antes de mais nada, é difícil de ver como um plano obviamente irresponsável – desde quando deixar a Receita Federal à míngua de recursos ajuda a reduzir o déficit? – pode melhorar a confiança.
Além disso, temos muitas evidências de outros países sobre as perspectivas de “austeridade expansionista” – e essas evidências são negativas. Em outubro, um estudo abrangente do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que “a ideia de que a austeridade fiscal estimula a atividade econômica no curto prazo tem pouca sustentação nos dados”.
E vocês se lembram dos pródigos elogios colhidos pelo governo conservador da Grã-Bretanha que anunciou medidas severas de austeridade após assumir o governo em maio? No que deu isso? Bem, a confiança das empresas não aumentou, de fato, quando o plano foi anunciado; ela despencou, e até agora não se refez.
E pesquisas recentes sugerem que a confiança caiu ainda mais tanto entre as empresas quanto entre os consumidores, indicando, como disse um relatório, que o setor privado está “despreparado para preencher o buraco deixado pelos cortes do setor público”.
O que nos traz de volta ao debate orçamentário americano.
Nas próximas semanas, os republicanos da Câmara tentarão chantagear o governo Obama a aceitar seus propostos cortes de gastos, usando a ameaça de uma paralisação do governo. Eles alegam que esses cortes seriam bons para os Estados Unidos no curto e no longo prazos.
Mas a verdade é exatamente o oposto: os republicanos conseguiram propor cortes de gastos que fariam um estrago duplo, minando o futuro dos Estados Unidos e ameaçando abortar a nascente recuperação econômica. 
Artigo publicado no The New York Times – O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadão | Blogs, 07/03/2011

quarta-feira, março 02, 2011

os preços do petróleo estão 64% acima do que estavam em maio de 2010

A liberdade árabe vale um choque

por Martin Wolf
O que o levante árabe pode significar para o mundo? Ninguém sabe a resposta para a questão. Isso, no entanto, não impede que se dê um palpite, dentro da margem de incertezas.
Como economista, vejo um aspecto desses eventos peculiarmente encorajador: eles demonstram que a capacidade de previsão dos especialistas em política é, no mínimo, tão limitada quanto a dos economistas. Todos esses eventos são, de forma inerente, imprevisíveis. Não porque sejam "desconhecimentos que desconhecemos". Na verdade, são "desconhecimentos que conhecemos": sabemos que muitos países são vulneráveis a tais levantes, mas ninguém sabe se e quando tais eventos podem acontecer. Não sabemos nem a probabilidade de tais eventos. Como diz Hamlet, "estar pronto é tudo".
O que, então, podemos dizer sobre as consequências políticas? Uma conclusão é que a noção de uma "exceção árabe" ao apelo da liberdade de expressão e participação política está morta. Também sabemos, no entanto, que o caminho que vai das repressões para democracias estáveis em países pobres com instituições fracas e histórias de repressão é longo e difícil. As dificuldades da Romênia pós-Ceausescu, apesar do engajamento com a União Europeia, mostram o tamanho da tarefa.
Um pouco mais além, a grande questão é até que ponto as manifestações podem se disseminar, não apenas no mundo árabe, mas também fora dele. A suposição vinha sendo que a capacidade dos exportadores de repartir a riqueza internamente os protegeria. Depois do Bahrein e, ainda mais, da Líbia, isso não é mais convincente. A distância cultural e geográfica do epicentro deveria proporcionar alguma proteção, assim como o dinamismo econômico e a governança competente. Mas os eventos mostram quão universal é o desejo por uma voz política. A ideia de imunidade cultural a esses ideais supostamente ocidentais parece menos crível. A atual onda pode dissipar-se; outras podem segui-la.
As implicações políticas de longo prazo parecem ser bem mais significativas que as econômicas. Tudo depende de se manter o antigo mau negócio: a repressão como preço pela estabilidade no fornecimento de petróleo. Mas será que é moralmente desejável?
Agora, vejamos as consequências econômicas. Desde que os produtores de petróleo ficassem imunes, poderiam ser consideradas mínimas no curto prazo e modestas no longo. Mesmo a economia do Egito, pelos preços de mercado, é menor que a da República Tcheca. Parece, contudo, que os produtores de petróleo não são imunes no fim das contas. Como resultado, os preços do petróleo subiram para mais de US$ 114 por barril ontem, 64% acima do que estavam em maio de 2010. Para os que se lembram de choques passados, é um presságio preocupante. A questão é: até que ponto devemos preocupar-nos?
Como ressaltou Gavyn Davies, em excelente comentário no "FT.com" na semana passada: "Cada uma das cinco últimas principais crises na atividade econômica mundial foi imediatamente precedida por aumentos importantes nos preços do petróleo". Em algumas das ocasiões, esses aumentos foram desencadeados por choques de oferta, como nos anos 70. Em outras, por aumentos na demanda, como em 2008. O resultado foi sempre amargo. Stephen King, do HBSC, também se mostrou pessimista: "Com a precisão de um relógio, aumentos no petróleo de mais de 100% levam ao declínio do PIB."
Um choque petrolífero tem efeitos econômicos complexos: transfere renda dos consumidores para os produtores; reduz os gastos totais, já que os consumidores normalmente cortam seus gastos com mais rapidez do que os produtores aumentam os seus; reduz gastos em outros bens e serviços; torna os países exportadores líquidos de petróleo mais ricos e os importadores líquidos mais pobres; eleva o nível dos preços; reduz os salários reais e a rentabilidade das indústrias que dependem muito das fontes de energia; e reduzem a oferta, já que a capacidade se torna não econômica.
Alguns efeitos são bem imediatos - o impacto no nível dos preços, por exemplo. Alguns são, de forma inerente, de longo prazo e, portanto, dependem da duração do choque - o impacto na capacidade é um desses casos. Além disso, alguns efeitos são diretos e outros dependem de reação da política econômica.
O que podemos dizer sobre tais impactos, nesta conjuntura inicial? Davies destaca que, pelos preços atuais, uma alta de US$ 20 por barril aumentaria os gastos em petróleo em cerca de 1% dos gastos mundiais em todos os produtos. Nos últimos dez meses, contudo, os preços subiram US$ 40. Isso significa um impacto próximo a 2% da produção mundial - o suficiente para desencadear uma desaceleração mundial considerável, pelo menos no curto prazo.
Se a recente elevação tiver vida curta, o impacto econômico será revertido. Por enquanto, o país pode substituir a produção perdida da Líbia: a produção líbia, cerca de 2% do total mundial, é menor que a capacidade ociosa saudita. Além disso, qualquer redução na produção, mesmo nos países afetados diretamente, deverá ser breve, desde que a capacidade não seja danificada: os governos dos países exportadores de petróleo querem receitas. Governos democráticos podem precisar mais do que os déspotas das receitas.
Quanto mais os gastadores acreditem que o choque será de curto prazo, mais inclinados estarão a recorrer a suas economias. Anteriormente, as economias emergentes importadoras de fontes de energia sofreram com a capacidade limitada de captar empréstimos, reservas cambiais inadequadas e posições externas enfraquecidas. Quando as economias emergentes captaram no fim da década de 70, para financiar as importações de petróleo, acabaram caindo em crises maciças de dívidas nos anos 80. Isso não deverá voltar a ocorrer. Elas, também, podem gastar se o choque for breve.
Além disso, desde que as expectativas inflacionárias continuem sob controle, os bancos centrais não precisarão entrar em um aperto preventivo. Nesse aspecto, os países de alta renda estão em forma bem melhor que os países emergentes, onde a inflação é um perigo maior e as expectativas inflacionárias estão menos ancoradas.
Acabamos, então, no ponto em que começamos, com um grande nível de incerteza. Sabemos que os levantes políticos são altamente significativos, provavelmente, um marco histórico. Sabemos também, que o choque petrolífero pode ser bastante importante, embora esteja longe de ser catastrófico e possivelmente seja bastante breve. No geral, portanto, as implicações políticas de longo prazo parecem ser bem mais significativas que as econômicas. Tal otimismo quanto aos efeitos econômicos de curto prazo, porém, depende em parte da suposição de que a disseminação dos protestos agora esteja contida. Isso também dependerá da continuação do antigo mau negócio: a repressão como preço pela estabilidade no fornecimento de petróleo. É um negócio atraente para os consumidores. Mas será que é moralmente desejável ou politicamente sustentável no longo prazo?
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT
Fonte: Valor online, 02/03/2011

sexta-feira, dezembro 10, 2010

el incremento del precio del crudo

El alza del petróleo pone en jaque la recuperación de los países ricos

El barril de 'brent' sobrepasa los 90 dólares, el precio más alto desde el arranque de la crisis - Los emergentes elevan la demanda a una cifra record

por Alejandro Bolaños

Ha pasado dos años casi desapercibido, pero está de vuelta. El mercado de petróleo, que en 2008 protagonizó una escalada de precios histórica, reclama otra vez el centro del escenario económico. En lo que va de mes, el precio del barril de brent, el crudo de referencia para dos tercios de las transacciones mundiales, se ha estabilizado por encima de los 90 dólares, un nivel de precios inédito en más de dos años. Solo que ahora coge con el pie cambiado a las economías desarrolladas, que apenas salen de la Gran Recesión.
Hace una semana, el Banco Central Europeo (BCE) hizo de parapeto ante la última ola de una crisis que no cesa, al comprar deuda pública de algunos de los países más cuestionados por los inversores. Las tensiones en los mercados a cuenta de la solvencia de varios Estados europeos centraron la intervención del presidente del BCE, Jean-Claude Trichet, pero hubo una mención que los analistas no pasaron por alto: "Los incrementos en los precios del petróleo y otras materias primas elevan el riesgo de que el crecimiento en 2011 sea más bajo". El brent acababa de traspasar la barrera de los 90 dólares.
"Un movimiento brusco del petróleo como este reduce la renta disponible de las familias, eleva los costes de producción y afecta a las expectativas de todo el mundo", señala José Luis Martínez Campuzano, estratega de Citigroup. El analista incluye en ese saco al propio Banco Central Europeo, "muy ambiguo sobre qué camino va a seguir en el futuro".
La subida del petróleo supone, de forma automática, incrementos en la inflación. Y eso puede llevar también al BCE a endurecer su política monetaria (subidas de tipos, abandono de las compras de deuda pública, menos facilidades financieras a la banca), como algunos consejeros del banco central piden ya. El efecto en el crecimiento también sería inmediato. En un reciente análisis, el organismo supervisor calculaba que un incremento del 10% en el precio medio del crudo restaba tres décimas al crecimiento del PIB en la eurozona en tres años. Y situaba a España entre los cinco países más vulnerables.
En poco más de año y medio, el crudo ha remontado de los 45 dólares a los 90 dólares por barril (casi 70 euros) de brent. La pendiente, afilada, es muy similar a la que llevó el crudo de los 70 dólares (2007) a los 140 dólares en julio de 2008, cumbre del mercado de futuros. Con la salvedad de que esta escalada se ha producido en paralelo a la Gran Recesión, con la economía de los países avanzados bajo cero.
"La clave vuelve a estar en las economías emergentes", señala Mariano Marzo, catedrático de Recursos Energéticos de la Universidad de Barcelona. Según las últimas cifras de la Agencia Internacional de la Energía, la demanda mundial rompió en el tercer trimestre su techo, con un consumo medio de más de 88 millones de barriles diarios. Y las economías emergentes, sobre todo en Asia y Latinoamérica, concentraron el 85% del incremento anual.
El incremento del precio del crudo en las últimas semanas se ha sincronizado con el de otras materias primas. La cotización del oro, la plata y el cobre marcó récords esta misma semana. Y los precios de algunos alimentos básicos, como el trigo, el maíz o la soja, rondan los valores alcanzados en 2008. "Las materias primas se han convertido en una variable financiera más, pequeños cambios en las expectativas tienen una incidencia inmediata en los precios", explica Pedro Antonio Merino, director del servicio de estudios de Repsol. Otras cosas son como en 2008: la reforma para limitar la volatilidad en los mercados de materias primas está en pañales. Y los países emergentes mantienen su política de subsidiar los combustibles.
Varias circunstancias se han juntado en la segunda mitad del año: un verano muy cálido disparó el consumo energético en Japón; la huelga en las refinerías francesas penalizó la oferta de diésel; el consumo en EE UU y Europa va un poco mejor de lo previsto; el cierre acelerado de algunas plantas contaminantes de carbón en China se compensó con más gasto en petróleo... Pero para el director del servicio de estudios de Repsol priman las explicaciones financieras, como la depreciación del dólar, que eleva de forma automática el valor de los bienes en esta divisa, y, sobre todo, la política de la Reserva Federal.
"Desde que la Fed anunció una nueva ronda de relajación cuantitativa [inyección de dinero mediante la compra de deuda pública], la aversión al riesgo ha disminuido", indica Merino. El primer objetivo de los inversores fueron los títulos de países emergentes, y ahora es el turno de las materias primas, bienes que tienen garantizada una presión al alza de la demanda.
Con este panorama, varios bancos de inversión dan por hecho que el crudo llegará a los 100 dólares el próximo año, y que ese será el nivel medio en 2012. "Como siempre, estamos en manos de la OPEP", señala Marzo. El cartel de exportadores, que produce el 40% del crudo mundial, revisa este sábado su decisión de reducir en 4,2 millones de barriles diarios su producción, un acuerdo cerrado a finales de 2008 para parar la caída libre del precio.
No están por la labor. El ministro de Petróleo de Arabia Saudí, Ali al-Naimi, consideró hace un mes que 90 dólares por barril era un precio "equilibrado" para importadores y exportadores. Y los representantes de Libia o Venezuela ya han advertido que no están dispuestos a elevar ese objetivo formal de producción hasta que el precio no llegue a 100 dólares. No en vano, los ingresos de la OPEP - 750.000 millones de dólares este año, según estimación de EE UU -, también se acerca a los niveles récord de 2008.
Fonte: El País, 09/12/2010

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