Quarta-feira, Julho 08, 2009
poeta
Terça-feira, Julho 07, 2009
cronópios
Paraulas para Palau*
Por Augusto de Campos
Encantam-me esses textos pela naturalidade e diretidade villonescas do discurso, qualidades raras na poética quase que inevitávelmente rebuscada e “self conscious” da modernidade. Dialogar com o desconhecido, o desvalimento e a estraneidade com tão claras, precisas e belas palavras? Não é para qualquer um.
* PARAULAS (provençal) = PARAULES (catalão) = PALAVRAS.
* * *
CANT ESPIRITUAL
No crec en tu, Senyor, però tinc tanta necessitat de creure en tu, que sovint
parlo i t`imploro com si existissis.
Tinc tanta necessitat de tu, Senyor, i que siguis, que arribo a creure en tu
— i penso creure en tu quan no crec en ningú.
Però després em desperto, o em sembla que em desperto, i m`avergonyeixo
de la meva feblesa i et detesto. I parlo contra tu que no ets ningú. I parlo
mal de tu com si fossis algú.
¿Quan, Senyor, estic despert, i quan sóc adormit?
¿Quan estic més despert i quan més adormit? ¿No serà tot un son i,
despert i adormit, somni la vida? ¿Despertaré algun dia d`aquest doble son
i viuré, lluny d`aquí, la veritable vida, on la vetlla i el son siguin una
mentida?
No crec en tu, Senyor, però si ets, no puc donar-te el millor de mi si no és
així: sinó dient-te que no crec en tu. Quina forma d`amor més estranya i
més dura! Quin mal em fa no poder dir-te: crec.
No crec en tu, Senyor, però si ets, treu-me d`aquest engany d`una vegada;
fes-me veure ben bé la teva cara! No em vulguis mal pel meu amor
mesquí. Fes que sens fi, i sense paraules, tot el meu ésser pugui dir-te: Ets.
París, 14 de maig del 1950
CANTO ESPIRITUAL
Não creio em ti, Senhor, mas tenho tanta necessidade de crer em ti, que
muitas vezes falo e te imploro como se existisses.
Tenho tanta necessidade de ti, Senhor, e de que sejas, que chego a crer
em ti — e penso crer em ti quando não creio em ninguém.
Mas depois desperto, ou me parece que desperto, e me envergonho de
minha fraqueza e te detesto. E falo contra ti que não és ninguém. E falo
mal de ti como se fosses alguém.
Quando, Senhor, estou desperto e quando adormecido?
Quando estou mais desperto e quando mais adormecido? Não será tudo
um sonho e eu que, desperto e adormecido, sonho a vida? Despertarei
algum día deste duplo sonho e viverei, longe daqui, a verdadeira vida,
onde sonho e vigília sejam uma mentira?
Não creio em ti, Senhor, mas se és, não posso dar-te o melhor de mim a
não ser assim: senão dizendo-te que não creio em ti. Que forma de amor
tão estranha e tão dura! Que mal me faz não poder dizer-te: creio.
Não creio em ti, Senhor, mas se és, tira-me deste engano de uma vez.
Faz-me ver bem a tua cara! Não me queiras mal pelo meu amor
mesquinho. Faz com que, sem fim e sem palavras, todo o meu ser possa
dizer-te: És.
COMIAT
Ja no sé escriure, ja no sé escriure més.
La tinta m’empastifa els dits, les venes...
–He deixat al paper tota la sang.
¿On podré dir, on podré deixar dit, on podré inscriure
la polpa del fruit d’or sinó en el fruit,
la tempesta en la sang sinó en la sang,
l’arbre i el vent sinó en el vent d’un arbre?
¿On podré dir la mort sinó en la meva mort,
morint-me?
La resta són paraules...
Res no sabré ja escriure de millor.
Massa a prop de la vida visc.
Els mots se’m moren a dins
i jo visc en les coses.
DESPEDIDA
Já não sei escrever, já não sei escrever mais.
A tinta me empasta os dedos, as veias...
—Deixei no papel todo o meu sangue.
Onde poderei dizer, onde poderei deixar dito, onde poderei inscrever
a polpa do fruto de ouro senão no fruto,
a tempestade no sangue senão no sangue,
a árvore e o vento senão no vento de uma árvore?
Onde poderei dizer a morte senão na minha morte,
morrendo?
O resto são palavras...
Nada saberei já escrever de melhor.
Perto demais da vida vivo.
As palavras morrem em mim
e eu vivo nas coisas.
L’ESTRANGER
—¿De quin país és aquest estranger?
—No ho sé.
—¿Com se diu?
—No ho sé.
—¿Què fa? ¿Quina llengua parla?
—No ho sé.
—¿Com us dieu, bon home?
— ...
—¿De quin país veniu? ¿On aneu?
—Sóc d’aquí. Sóc estranger.
O ESTRANGEIRO
— De que país é aquele estrangeiro?
— Não sei.
— Como se chama?
— Não sei.
— O que faz? Que língua fala?
— Não sei.
— E você, que nome tem?
—…
— De que país vem? Para onde vai?
— Sou daqui. Sou estrangeiro.
Augusto de Campos nasceu
Site:http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm E-mail: a.campos@uol.com.br
Fonte: CRONÓPIOS
Sexta-feira, Julho 03, 2009
uma canção
Ouço você cantando desafinado
Não tenho ouvido para música
Mas acho isso muito atraente
Dá-me o motivo mais estranho
Que me provocam as críticas
Mas há outros que te chamam
Dançamos ligados numa química
Os sorrisos correm com improvisos
Nada me faz sentir melhor o dia
Nem os números nos enchem
Os momentos são assim plenos
Adivinhamo-nos em surpreender
E ouvindo insones pensamentos
Viajamos cantando até aonde dá
Conhecendo-nos ocenao e deserto
Quinta-feira, Julho 02, 2009
revival
|
mar de mineiro
Cacaso
Vem vadiar ao léu
talho sem dor não deixa sinal
vem provar do fel
nosso destino é tão desigual
Seja no meu lamento
um corpo sedento pra me abraçar
seja um braço atento que se levanta
pra me guiar
E ainda seja em todo o momento
sopro de vento chuva no mar
seja amor sangrento seja tormento
que já passou
e que vai chegar
Vem provar do mal
plante essa flor e rasgue esse véu
vem quebrar o pau
nosso destino não cai do céu
Vejo no seu futuro
um porto inseguro pra se atracar
vejo um tempo escuro que já passou
e que vai chegar
E ainda vejo um gesto duro
nome no muro grito no ar
vejo amor maduro no beijo puro
que vai nascer
mas não chego lá
a crítica
o conceito
O Economista na sociedade moderna
Por: Cristovam Buarque (*)
Nas últimas décadas os países em desenvolvimento, em especial o Brasil, passaram a ser administrados por economistas ou por uma lógica economicista dissociada do mundo real. O resultado foi a formação de um grupo considerado de economistas, verdadeiros tecnocratas, que passaram a ditar os rumos da economia brasileira, baseados apenas em modelos econométricos e estatísticos, sem levar em consideração os aspectos éticos, culturais e humanitários do conjunto da sociedade.
Os problemas sociais e aqueles vinculados diretamente à essência do processo humano deixaram de ter uma identidade própria, e foram apropriados pela realidade única do discurso economicista. E a sociedade, influenciada por anos de primazia do econômico, caiu na armadilha de considerar as dificuldades econômicas como sendo os únicos problemas do país. Desapareceram como problemas enfáticos a fome do povo brasileiro, o analfabetismo, o desemprego, a falta de acesso à cultura e de saúde.
Tornaram-se problemas graves a dívida externa, a inflação, a taxa de juros e a taxa de câmbio. Os economistas que são formados nas universidades brasileiras raciocinam, exclusivamente, com projeções numéricas, em torno de quanto vai ser a inflação do próximo mês, se os juros devem subir ou descer, sobre o tamanho da dívida externa. Os economistas atuais perderam de vista a dimensão social do povo brasileiro.
Hoje, infelizmente, não se discute nas faculdades de economia a fome do povo brasileiro, que é o principal problema nacional. O desemprego que atinge níveis alarmantes e joga na rua da amargura milhares de pais de famílias e jovens é visto no discurso economicista como um mal necessário para conter a taxa de inflação. A maior safra agrícola do Brasil é vista com êxito, independentemente da fome de 50 milhões de brasileiros que ela não ajuda a solucionar, porquê é mais rentável exportá-la para alimentar animais que fornecerão sofisticações gastronômicas para poucos.
A indústria de equipamentos médicos pode ser um elemento dinâmico, independentemente do fato de ajudar ou não a reduzir o problema das doenças. Uma multidão de esfomeados, por falta de salários, nada representa para o economista, se o equilíbrio de preços se mantém, ao nível da renda disponível. O desabastecimento não existe, se os necessitados ficam fora das filas de poder de compra.
O conceito de valor é elaborado sem incluir o efeito de depredação sobre o meio ambiente. O valor de uma obra literária é representado apenas pelo número de exemplares vendidos. Buscando quantificar e limitar a esta quantificação o valor das coisas, o economista funciona como um elemento abstrato, que encobre a realidade, dentro de uma determinada lógica e com um determinado propósito.
Em todos os países, os economistas tecnocratas assumiram um distanciamento aparente da realidade política que lhes serviu de base para viabilizar suas estratégias. Não duvidaram em utilizar a repressão policial, a tortura, a abolição de toda liberdade, como instrumentos de política econômica, com uma dupla falta de ética: durante as ditaduras, em relação aos valores básicos do humanismo; e nos momentos de retomada da democracia, negando seus comprometimentos autoritários com os militares dos quais eram cúmplices. O problema não é que os economistas não tenham aprendido as lições recebidas nos cursos, o problema é que aprenderam da mesma forma que um químico aprende o que deve misturar para obter bicarbonato de sódio, não se perguntando por que, para que, a que custo.
Ao estudar a ciência como algo alienado das realidades de seus países, o economista perdeu a perspectiva de entender a essência do processo econômico e a realidade em mutação na qual este processo se situa. Os economistas transformam-se, assim, em uma espécie de "sapiências endeusadas" com a função de elaborar as argumentações que justificam os dogmas vigentes. Ainda mais grave é que, quando a realidade não se apresenta como as teorias previam, eles manipulam os dados criando uma realidade nova, desvinculada do real.
Este problema não é característica apenas dos economistas, mas de toda a rede que forma a moderna burocracia em cada país do mundo. O que diferencia e agrava a situação dos economistas, em relação a outros burocratas, como aqueles das forças armadas, dos sistemas de saúde etc., é que, modernamente, os economistas têm tido a possibilidade de exercer um papel ativo de liderança na definição do rumo da sociedade e da civilização.
No auge da elevação do preço do petróleo, um alto funcionário do governo da Arábia Saudita declarou que o maior problema de seu país era que toda vez que perfuravam um poço procurando água só encontravam petróleo. Como os demais países petroleiros do Oriente Médio, a Arábia Saudita vivia o drama do rei Midas, da Frigia, que, por ter liberado Sileno, recebeu como prêmio o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse. Deslumbrado com as possibilidades, o rei Midas só percebeu as conseqüências negativas quando foi ter sua primeira refeição depois do novo poder.
Os economistas modernos trabalham ainda sem o conhecimento do mito de Midas ou sem a experiência do funcionário saudita. É este desconhecimento que faz com que depois da morte do último dos elefantes o mundo acordará mais rico, porque os donos dos armazéns terão mais marfim para comercializar, ou seja, diante da irracionalidade em que a realidade econômica funciona, o economista vê-se forçado a criar mitos, que façam os homens julgarem racionais comportamentos claramente absurdos.
Apesar de todas as suas limitações e fragilidades, a ciência econômica, e com ela o economista, é um dos campos das ciências sociais que maior contribuição pode vir a dar a uma compreensão do fenômeno das relações entre os homens, e destes com a natureza. Para isso, é necessário que a ciência econômica se desvincule dos preconceitos dogmáticos e da alienação em relação à realidade. Os economistas que se consideram cientistas exatos e defensores de uma economia positiva devem olhar a realidade natural e social cambiante e, a partir dela, formular modelos que de fato sirvam a uma racionalidade na combinação produtiva dos homens, entre eles e com a natureza.
Esta nova ciência e este novo economista, devem ser capazes de desvendar o que há por trás do véu de premissas definidas ideologicamente, e buscar a essência da economia. Ao mesmo tempo, será preciso prever que esta busca não pode se limitar a uma visão mecanicista, positivista ou materialista-histórica. Deve estar aberta ao sentimento da magia do processo econômico. A magia por trás de objetivos e métodos inexplicáveis, como o próprio desejo e lutas libertárias, ou o uso do trabalho para concretizar este desejo. A magia de processos organizativos que canalizam esforços que significam tempo em vidas, seja para levar o homem à lua, construir pirâmides, realizar um desfile de escola de samba, ou aumentar o consumo. A magia capaz de montar a logística estatal para enfrentar uma guerra e a logística privada que viabiliza o abastecimento de megalópoles. A magia dos milhares de anos, milhões de horas de trabalho físico e intelectual de centenas de milhares de outras pessoas que, ao longo da história, se unem, se articulam, se complementam com base em leis que não se conhecem e que jamais serão inteligíveis, se ficarmos presos a preconceitos e não formos capazes da modéstia de saber que há uma mágica, no limite de nosso conhecimento.
(*) Cristovam Buarque é Doutor em economia, ex-reitor da Universidade de Brasília e ex-Governador do Distrito Federal
Quarta-feira, Julho 01, 2009
de Die Massnahme
Sábado, Junho 27, 2009
natureza
A Flor e a Fera
Sexta-feira, Junho 19, 2009
fala sério
Uns "traços" do Picasso?
Segunda-feira, Junho 15, 2009
brevidade
Uma volta pela gravidade amorosa
Quinta-feira, Junho 11, 2009
nosso paradoxo
De olho na crise da água
Emir Sader (Cientista político, jornalista e escritor)
Antes que a globalização liberal invadisse o mundo, tratando de fazer de tudo mercadoria, de fazer com que tudo tenha preço, se venda e se compre, usávamos o exemplo da água para diferenciar, nas aulas, o que tem valor de uso, mas não valor de troca, porque as pessoas têm acesso livre a elas. Quem diria que poucas décadas de liberalismo tenham feito da água uma razão tal de cobiça econômica, que um ex-vice-presidente do Banco Mundial previu, ainda antes de entrarmos no nosso século que “as guerras do Século 21 serão travadas por causa da água''.
A América Latina é um dos cenários dessa luta e, desse ponto de vista, não se pode prever que estejamos fora dos roteiros da cobiça bélica dos grandes conglomerados e governos imperiais no Século 21. Podemos dizer que primeira batalha pela água se deu por aqui, na Bolívia, quando o Banco Mundial exigiu, para a renovação de um empréstimo de 25 milhões de dólares, a condição de que fossem privatizados os serviços de água do país mais pobre da América do Sul. Quando foi privatizado o serviço hídrico da cidade de Cochabamba à poderosa empresa estadunidense Bechtel, o preço da água aumentou brutalmente já nos dois primeiros meses. Como resposta, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Cochabamba para manifestar seu protesto pelo aumento dos preços e os cortes feitos pela empresa com os devedores. O movimento desembocou em uma greve geral que paralisou a cidade, o que obrigou a Bechtel a fazer as malas e fugir da Bolívia, embora não por muito tempo. Regressou com uma demanda de 25 milhões de dólares contra o governo boliviano, exigindo o pagamento de indenizações por perda de lucros.
Outras zonas do continente são cenário de lutas similares, entre elas a Argentina, o Uruguai – em que o povo decidiu em plebiscito simultâneo às eleições presidenciais impedir qualquer forma de privatização dos serviços de água –, o Chile, a Guatemala, o México, que vivem movimentos similares na América Latina.
Nosso continente vive o paradoxo de desfrutar de grande abundância de mananciais de água doce – 20% do resíduo líquido mundial provêm somente do Amazonas –, nosso território abriga quatro dos 25 rios mais caudalosos do mundo – Amazonas, Paraná, Orinoco e Magdalena –, além de alguns dos maiores lagos.
Deveríamos, então, ter uma das mais elevadas distribuições de água doce per capita do mundo, mas algumas zonas do continente sofrem secas tão duras que 25% do continente é considerado árido ou semi-árido.
O Brasil é o melhor exemplo desse paradoxo, porque temos mais água do que qualquer outro país, dispondo da quinta parte dos recursos de água do planeta, mas enormes zonas estão incluídas nessas regiões áridas e semi-áridas. Mas, além disso, uma cidade como São Paulo enfrenta racionamento de água, porque seu abastecimento de água depende de fontes que estão cada vez mais longe das cidades e o custo do transporte supera a capacidade aquisitiva de uma parte grande de habitantes.
Os recursos de água doce da América Latina sofrem grandes problemas de contaminação. O país mais contaminado de todo o continente é o Brasil, apesar de possuirmos o recorde de recursos de água doce. O Brasil permite a contaminação química e industrial maciça, da mesma forma que aos derramamentos de mercúrio originários das minas de ouro. Só somos superados por algumas regiões da Europa do Leste e pela China nos níveis de contaminação aquática.
A demanda mundial de água doce se duplica a cada 20 anos, a um ritmo duas vezes superior à taxa de crescimento da população. Os maiores contaminadores de água são as grandes indústrias de alta tecnologia e a agricultura industrial, e não as casas particulares. Os sistemas de irrigação agrícola consomem entre 65 e 70% da água, principalmente para produzir alimentos para exportação; 20 a 25% são dedicados a fins industriais, entre eles a produção de chips de silício de alta tecnologia e, os 10% restantes de água são para uso doméstico. Mantendo-se essas tendências, a demanda de água superará os recursos terrestres em 56 por cento.
De olho na crise da água na América Latina, muitas empresas privadas européias buscam assumir os serviços de abastecimento público de países da região, incluído o Brasil. Em geral são filiais locais das três principais corporações de serviços de água: as empresas francesas Suez e Vivendi e a alemã RWE-Thames, que juntas fornecem serviços de água corrente e saneamento a 300 milhões de clientes em mais de 130 paises do mundo. Seguindo o Uruguai, seria um bom tema para que os brasileiros se pronunciem em plebiscito, antes que a privatização da água seja uma realidade irreversível.
Fonte: Revista Eco 21, ano XV, Nº 101, março/2005.
cidadania
Caneta ou ferramenta?
FREI BETTO
Quantos advogados você conhece? Uns tantos, certamente. Mas na hora de socorrer o seu computador pifado, consertar o vazamento da pia da cozinha ou traduzir-lhe o manual de funcionamento do novo televisor que você lê, lê e não entende, a quem recorre?
O Brasil é uma nação de bacharéis. Como abrigamos a mais longa escravidão das três Américas (350 anos), ainda guardamos, do período colonial, resquícios elitistas, como julgar que profissões técnicas são para incompetentes que não chegam a doutor... Boa profissão é a que domina a caneta, e não a ferramenta.
Você sabia que de cada 100 brasileiros (as) no mercado de trabalho, 72,4% (ou exatos 71,5 milhões de pessoas), nunca fizeram um curso profissionalizante? Entre os desempregados, 66,4% (5,3 milhões de pessoas) nunca passaram por um curso de educação profissional. O dado é do IBGE, divulgado no último 22 de maio.
O mais grave é o poder público, como diria aquele deputado, estar "pouco se lixando" para a qualificação de nossos trabalhadores. Segundo o IBGE, em 2007 apenas 22,4% dos alunos de cursos profissionalizantes estavam matriculados em escolas públicas.
Dos que buscam tais cursos, 53% dependem de ofertas de ONGs, sindicatos e instituições particulares. O famoso Sistema S (como Senai, Senac, Sebrae), que recebe robustas verbas do governo, forma apenas 20% dos interessados em qualificação.
Mesmo os cursos existentes nem sempre primam pela qualidade. Entre os matriculados, 80,9% freqüentavam cursos que não exigiam escolaridade prévia. O que explica o alto número de analfabetos virtuais em profissões técnicas. Consertam a geladeira, mas são incapazes de redigir um bilhete explicando a causa do defeito.
Na mesma pesquisa, o IBGE constatou que são analfabetos 13,5 milhões de brasileiros (9,5% da população) com mais de 15 anos de idade. E de 1,8 milhão que freqüentavam salas de aula, 810 mil (45%) admitiram não saber ler nem escrever um simples recado.
A falta de motivação é a principal causa de desinteresse por cursos profissionalizantes. O Brasil é o reino do improviso. O auxiliar de eletricista aprende na prática, assim como o de cozinha acredita que, amanhã, a intimidade com o fogão fará dele um chef. Muitos (14,1%) admitiram não poder pagar um curso dessa natureza. E 8,9% se queixaram da falta de escola na região.
Dos alunos em cursos profissionalizantes, 17,6% freqüentavam cursos técnicos de nível médio. E apenas 1,5% cursos de graduação tecnológica equivalente ao nível superior. O mais procurado é o curso de informática (41,7%), seguido de comércio e gestão (14%) e indústria e manutenção (11,25). Ao todo, 215 mil estudantes, o que representa um índice muito baixo dadas as dimensões do país e de suas necessidades.
Esse quadro explica, em parte, a razão do nosso subdesenvolvimento – ou eterna situação de país emergente. O MEC promete que, até o fim de 2010, o Brasil passará de 185 mil para 500 mil vagas em cursos profissionalizantes. As escolas, hoje 140, serão 354.
Um das causas dessa realidade preocupante foi a lei de n° 1988, proposta pelo presidente FHC e aprovada pelo Congresso, que proibiu a União de criar novas escolas técnicas federais. Felizmente, Lula a revogou em 2005.
Falta ao atual governo corrigir outro erro crasso: o EJA (Educação de Jovens e Adultos, que substituiu o antigo supletivo), embora acolha trabalhadores em suas aulas, não propõe educação profissionalizante. Isso explica o alto índice de evasão – 42,7% dos matriculados não concluem o curso, sobretudo no Nordeste (56%).
Muitas vezes o horário de aulas coincide com o do trabalho (o que induz à evasão de quase 30% dos alunos), e a metodologia de ensino ignora Paulo Freire e os recentes avanços da educação popular.
O Brasil precisa trocar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) pelo PAD, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, sobretudo humano. Sem recursos humanos qualificados, uma nação está fadada a sempre depender do mercado externo e, portanto, do jogo cruel da especulação internacional, da flutuação de divisas conversíveis e das concessões aos importadores que jamais abrem mão de suas políticas protecionistas.
Sem educação o Brasil não tem solução. Nem salvação.
Domingo, Junho 07, 2009
prefácio
“mundialização do capital”*
François Chesnais
(...)
A expressão “mundialização do capital” é que corresponde mais exatamente à substância do termo inglês “globalização”, que traduz a capacidade estratégica de todo grande grupo oligopolista, voltado para a produção manufatureira ou para as principais atividades de serviços, de adotar, por conta própria, um enfoque e conduta “globais”. O mesmo vale, na esfera financeira, para as chamadas operações de arbitragem. A integração internacional dos mercados financeiros resulta, sim, da liberalização e desregulamentação que levaram à abertura dos mercados nacionais e permitiram sua interligação em tempo real. Mas baseia-se, sobretudo, em operações de arbitragem feitas pelos mais importantes e mais internacionalizados gestionários de carteiras de ativos, cujo resultado decide a integração ou exclusão em relação às “benesses das finanças de mercado”. Como veio lembrar a crise mexicana de 1994-1995, basta pouca coisa para que um lugar financeiramente “atraente” deixe de sê-lo em questão de dias e, de certa forma, fuja da órbita da mundialização financeira.
As operações feitas com finalidade lucrativa, para “frutificar” um capital, são por definição (sem que seja uma tautologia) “seletivas”. Não é todo o planeta que interessa ao capital, mas somente partes dele, mesmo que suas operações sejam poluidoras a nível mundial, no plano da ecologia como em outros. Ligar o termo “mundialização” ao conceito de capital significa dar-se conta de que, graças ao seu fortalecimento e às políticas de liberalização que ganhou de presente em 1979-1981 e cuja imposição foi depois continuadamente ampliada, o capital recuperou a possibilidade de voltar a escolher, em total liberdade, quais os países do Pacto de Bangdum eram fortes. Mas, como sugerem os elementos de análise apresentados (neste livro), os critérios de seletividade modificaram-se, igualmente, em relação àqueles que predominavam na época do imperialismo clássico. A modificação de critérios leva à chamada “desconexão forçada”, acompanhada por formas dramáticas de retrocesso econômico, político, social e humano. Hoje em dia, muitos países, certas regiões dentro de países, e até áreas continentais inteiras (na África, na Ásia e mesmo na América Latina) não são mais alcançadas pelo movimento de mundialização do capital, a não ser sob a forma contraditória de sua própria marginalização. Esta deve ser estritamente compreendida, como mecanismo complementar e análogo ao da “exclusão” da esfera de atividade produtiva, que atinge, dentro de cada país, uma parte da população, tanto nos países industrializados como nos países em desenvolvimento.
(...)
* CHESNAIS, François. A Mundialização do Capital. São Paulo: Xamã, 1996.
Riscos e medos
Sábado, Maio 30, 2009
la economía española
El modelo productivo
Publicado en Sistema Digital el 29 de mayo de 2009
Quienes hemos criticado desde hace años el modelo de crecimiento de la economía española hemos de estar satisfechos por la voluntad de cambio expresada por el gobierno de José Luis Rodríguez Zapatero.
Es verdad que lo que hizo el presidente en el debate sobre el estado de la Nación fue apuntar el inició de una nueva estrategia. Se limitó a manifestar sus intenciones ("la transformación del modelo productivo es la clave para retomar una senda de prosperidad sostenible.") y a establecer algunos puntos de partida a partir de los que se propone ponerlas en práctica y de los que me parece que hay que destacar tres principales: la creación de un nuevo entorno para la actividad económica, la reconducción de la actividad y "del volumen exagerado" del sector inmobiliario y la identificación y potenciación de nuevos sectores. Y como añadido de eso, mencionó los tres instrumentos a partir de los que el gobierno piensa que puede contribuir a poner en marcha el cambio: financiación, una norma jurídica específica y una propuesta de acuerdo político.
Yo creo que en la situación en la que se encuentra hoy día nuestra economía esa apuesta del presidente es imprescindible y que merecería un apoyo social amplio y sincero porque limitarnos a seguir el mismo camino seguido hasta ahora puede llevarnos a medio plazo, e incluso una vez que pase la crisis, a un callejón sin salida y a condiciones mucho peores incluso que las que ahora tenemos en su pleno desarrollo.
Lo que ocurre es que para que esa propuesta sea viable hacen falta algunas cosas más que las buenas intenciones, o incluso que los recursos legales y financieros que se han anunciado.
Quizá lo primero sería ponernos de acuerdo sobre lo que entendemos exactamente por modelo productivo y sobre sus elementos que se desean o se pueden modificar.
A veces da la impresión de que lo que en realidad se busca es hacer sostenible el actual estado de cosas, es decir, lograr que se siga reproduciendo aunque sin tantos sobresaltos. Es la sensación que se tiene cuando al mismo tiempo que se habla de cambio de modelo, las ayudas y los incentivos que se ponen sobre la mesa van a los mismos sectores de siempre y dejando que los mismos sujetos lleven la iniciativa y se sigan beneficiando de manera privilegiada de las medidas que se adoptan.
¿Consideramos ya como irreversible la desindustrialización de nuestra economía? ¿Aceptamos ya para siempre que renunciamos a nuestros activos y que el modelo a seguir ha de ser el que se basa en la venta de su práctica totalidad al capital extranjero?
El Presidente se refirió, yo creo que correctamente, a la necesidad de buscar otros sectores (aunque alguno de los que citó, como el de la moda, debería sonar muy raro en los planes de un gobierno que se ha autoproclamado feminista) pero el cambio de modelo no puede consistir solamente en la sustitución de un tipo de actividad por otro.
El modelo tiene que ver sobre todo con el tipo de uso que se haga en cualquier actividad y no solo con los que tienen que ver con el medio ambiente. Y ese uso es el resultado del diferente poder que tienen los distintos sujetos económicos, por lo que para hablar de cambio de modelo hay que hablar de si se va a dejar intacta la correlación de fuerzas o si se va a tratar de empoderar de otro modo y cómo a los sectores más débiles modificando a su favor normas como las que ahora hay en relación con el mercado laboral. Es lo que hacen, pero en el sentido contrario de favorecer a los intereses de la patronal, quienes proponen despidos más fáciles, acabar con la negociación colectiva o establecer un único tipo de contrato.
¿Queremos ahora ser más competitivos pero a base de salarios bajos, como constantemente están proponiendo la patronal o el Banco de España?
También tiene que ver, como el propio presidente reconoció, con la financiación. Pero sería imposible que el cambio, y mucho menos el propio modelo, se financie solo con un gasto público que se encuentra tan lejos de los estándares de nuestro entorno y de cuyo aumento a medio plazo no solo no se habla sino que incluso se dice que en cuanto se pueda volverá a contenerse.
Y aunque seguramente el gasto público será imprescindible, es evidente que no será suficiente y que habrá que contar con un sistema financiero comprometido con este cambio, algo realmente impensable mientras predomine su actual ordenación y la lógica que lo guía. Y aún menos, si se lleva a cabo el plan que parece preparar el gobierno para facilitar la concentración bancaria en el sector privado y la jibarización de el de las cajas.
Un modelo productivo también es un modelo de distribución de la renta. En economía no ocurre lo que pasa en la repostería, que primero se hace la tarta y luego se reparte, sino que es justamente al mismo tiempo que se produce que ya se está distribuyendo. Por eso es trascendente que, al mencionar los inconvenientes del modelo actual, el presidente no haga referencia explícita a sus negativos efectos sobre la distribución de la renta y la riqueza.
Si se va a cambiar el modelo se va a afectar inevitablemente al reparto y por tanto se tiene que poner sobre la mesa a qué esquema distributivo se quiere llegar y, sobre todo, qué medios se van a utilizar para lograrlo.
Hablar de cambiar el modelo productivo y no mencionar este problema de la desigualdad que el actual está incrementando no es solo una gran ingenuidad.
La manera en que se ha desenvuelto nuestra economía en los años recientes es la que ha provocado una concentración de la riqueza sin igual y la que ha llevado a que la participación de los salarios en el reparto de la "tarta" de las rentas sea la más baja desde los años sesenta. Solo en los años 2002-2005, gloriosos desde el punto de vista de crecimiento del PIB, la renta media correspondiente al 20% más pobre de los hogares de España se redujo en un 23’6%, mientras que la renta media del 10% más rico se incrementó más de un 15%.
¿Y cómo no hablar del endeudamiento de los hogares ocasionado por el actual modelo productivo, que ha pasado de ser el 66,5% de su renta disponible en 1994 al150,4% en 2007? ¿se va a mantener esa tónica tan beneficiosa para la banca (cuyo negocio es precisamente que la gente y las empresas se endeuden) o se va a tratar de cambiar? Y si se quiere cambiar, ¿cómo se va a lograr, cómo se va a doblegar el poder de los bancos y cómo se va a conseguir otra distribución de la renta que no obligue a los hogares a endeudarse de esta forma?
El modelo productivo y su cambio también tiene que ver con las cuestiones fiscales. ¿Se va a mantener el actual discurso fiscal?, ¿se va a seguir considerando que reducir los impuestos es una política progresista, cuando al mismo tiempo se debilita la provisión de bienes sociales? ¿se va a ir, como se ha apuntado en algunos documentos doctrinarios, a promover amnistías fiscales, a seguir facilitando, como desgraciadamente ha hecho el gobierno, que los residentes en paraísos fiscales dispongan de condiciones tan privilegiadas como inaceptables desde el punto de vista de la justifica fiscal, o que las ganancias del capital que reciben principalmente los que ya de por sí son más ricos tributen mucho menos que las del trabajo?
Por otro lado, para poner en marcha la estrategia de sostenibilidad (económica, social y medioambiental) a la que aspira el gobierno harían falta nuevos instrumentos de registro y medida de la actividad económica, salvo que se quiera conducir el coche del cambio productivo sin tablero de mandos o con los ojos tapados. No vale el Producto Interior Bruto, ni valen las cuentas que no recogen nuestra producción de residuos, ni la actividad no monetaria que, sin embargo, es una pieza clave de la sostenibilidad, o el grado de eficiencia con que usamos los recursos, entre otras muchas.
No nos conviene engañarnos. Si lo que se desea es realmente un cambio de modelo productivo tenemos que hablar de todas estas cosas. Lo otro es sencillamente limitarse a encontrar algunos nuevos yacimientos de negocio para que los mismos de siempre sigan poniéndose las botas aunque en actividades distintas y con un barniz de responsabilidad social corporativa por encima.
La primera apuesta, la sincera, es difícil. Obliga también a modificar las conductas, a corregir inercias y comodidades y a acabar con privilegios inaceptables, lo que provocará lógicas y fuertes resistencias. Si el gobierno la plantea con inteligencia y con claridad, hablándole a los ciudadanos con credibilidad y promocionando un nuevo tipo de participación y complicidad social podrá dar pasos de gigante. Si es conservador y quiere cambiar todo dejando todo como está, se quedará solo a la hora de afrontar un reto tan importante.
Fonte: Ganas de Escribir, de Juan Torres López.
Sexta-feira, Maio 29, 2009
a academia
O Suicídio da Universidade
Monclar Valverde*
Tal situação gera uma mentalidade de gincana, em que predomina, do ponto de vista institucional, o “eventismo” (a multiplicação virótica de “eventos científicos”, cada vez mais inchados e improdutivos) e, do ponto de vista da produção individual, a publicação requentada de artigos antigos ou a mera colcha de retalhos de citações e auto-citações, produzidos, muitas vezes, por pessoas que não têm rigorosamente nada a dizer, mas são obrigados a “tornar públicas suas reflexões”, para continuar a receber suas bolsas e dotações suplementares.
Muitos dos chamados “grupos de pesquisa” se organizam como pequenas seitas, em que recém-doutores embevecidos com seus títulos, sentem-se autorizados (e quiçá obrigados) a forjar continuamente novos conceitos e metodos, mesmo que ainda não tenham conseguido dar conta das idéias que pretendem superar. Basta analisar a bibliografia adotada pelos participantes de um desses grupos para se ter idéia de sua homogeneidade intelectual e do centralismo “metodológico” exercido por boa parte das supostas lideranças acadêmicas.
O teor das pesquisas, teses e dissertações é um problema à parte: anos após o famoso “caso Sokal”, vemos multiplicarem-se aqui, especialmente nas áreas de artes, letras e ciências humanas, verdadeiros casos de delírio intelectual, sempre justificados pelo progresso intrínseco da “produção do conhecimento”, mas incapazes de distinguir a ousadia do mero deslumbramento. Quando não é este o caso, trata-se de exercícios de empirismo bem intencionado e politicamente correto, a favor de qualquer tipo de “inclusão social” ditada pelas ONGs ou pelo Estado (que se parece cada vez mais com uma ONG). Os trabalhos de qualidade são raros. Os que possuem, além da qualidade, elegância e sobriedade são raríssimos.
Chega a ser constrangedor verificar o zelo com que todo um exército de pesquisadores (com seus batalhões de bolsistas, da Iniciação Científica ao Pós-Doutorado) preenche, incansável, todos os relatórios que lhe pedem, respeitando prazos arbitrários e se submetendo a formulários nem sempre muito inteligentes. Esses operários do saber passam a maior parte do seu tempo atualizando o famigerado Currículo Lattes (triste homenagem ao grande César...) ou produzindo material ad hoc para preenchê-lo, sem deixar passar nem mesmo o bate-papo informal, devidamente transformado em “palestra” ou “trabalho de orientação”.
Os Programas de Pós-Graduação, por sua vez, vivem em função de um senhor virtual, sua majestade “o Relatório (da CAPES)”, procurando obsessivamente cumprir não só as exigências da agência, mas até mesmo as expectativas apenas insinuadas por ela. É possível mesmo dizer que muitos deles se programam a partir de tais expectativas, chegando a farejar no ar os temas que agradarão aos comitês científicos ou atenderão às prioridades proclamadas pelo governo vigente, em nome dos “interesses nacionais” ou “sociais”, conforme o caso.
No governo anterior, o tripé ensino-pesquisa-extensão favoreceu claramente a “pesquisa”, possibilitando a constituição de uma verdadeira aristocracia de professores - bolsistas, que soube muito bem defender seus interesses e barrar o caminho ao baixo clero universitário, relegado ao trabalho pesado das aulas e da administração acadêmica. No governo atual, a balança pende fortemente para o lado da extensão, entendida de modo assistencialista e até mesmo demagógico. No primeiro período, até a própria extensão foi travestida de pesquisa; no segundo, é a vez da pesquisa disfarçar-se em projetos de extensão. Nos dois contextos, o ensino viveu praticamente abandonado, como um primo pobre, solenemente abandonado às cotas e à educação à distância, apresentada como grande panacéia.
Contudo, há quem pondere que não deveríamos tratar a CAPES como um agente externo, pois, afinal, são os próprios professores- pesquisadores que compõem os seus quadros. Mas não passa despercebido a ninguém o fato de que a maioria dos chamados “representantes das áreas (de conhecimento) na CAPES”, muito rapidamente se transformam em representantes da CAPES nas diversas áreas de conhecimento, atuando como verdadeiros feitores, que não deixam de ser recompensados por sua conveniente subserviência. De qualquer modo, não há como negar que tais agentes, muitas vezes mais realistas que o rei, fazem parte da chamada “comunidade universitária”. Por isso, quando a Universidade chegar ao esgotamento total de sua força criativa, quando perder de vez seu melhor material humano, quando transformar-se completamente numa fábrica de tabelas e relatórios e, de fato, “morrer”, teremos que admitir que isto não aconteceu por obra de forças hostis ou devido a causas naturais, mas por suicídio premeditado.
*Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996), com pós-doutorados em Teoria da Comunicação (Paris V, 2002) e Filosofia (UFPR, 2007). Possui graduação em Física pela Universidade Federal da Bahia (1975) e mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1986). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal da Bahia. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Comunicação, com ênfase em Estética da Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: sensibilidade, experiência estética, arte, sentido e comunicação. É também músico e pesquisador da canção popular. Em sua produção, destacam-se os cds Word Music (2003) e Cinema Imaginário (2004) e os livros Objetos de Papel (2000) e Estética da Comunicação (2007).
diapasão
O que revela os desejos que nos estruturam?
"A vida dá um jeito de nos parar, se vivemos correndo".
Uma mentira descoberta, um gole a mais de um bom vinho,
Uma briguinha banal, manter o amor escondido. Fazer sem o ter.
Um rabo de olho pra outro lugar, uma panacéia sem razão.
Sonhos não contados, mas interrompidos; desejos que só viagens os realizam.
Dançar uma música que toca o coração e vibrar como um diapasão
Ter um caso mal resolvido, sair sem se despedir dos amigos.
Deixar rolar sem ter escolhido, abaixar mais do que o devido.
Por o chapéu em um canto mais alto do que consigo. Consumir sem poder.
Ficar mais no dizer e nunca conseguir fazer. Estar no antes preciso disso...
Desculpas por deixar de conquistar um objetivo, criticar demais o amigo.
Pensar demais sempre o que não é preciso... e esperar um motivo.
Correr tanto para chegar e acreditar que tem algum sentido.
Sábado, Maio 23, 2009
laços
Sexta-feira, Maio 22, 2009
temas recorrentes
Sexta-feira, Maio 15, 2009
debate aberto
América Latina, um continente sem teoria?
O professor Nildo Ouriques, da UFSC, contesta artigo de José Luís Fiori, publicado nesta página: "No Brasil, o debate acerca da dependência sempre foi mal compreendido. Contudo, este desconhecimento não é resultado do acaso, pois tem sido construído como um instrumento de dominação política e de legitimação do capitalismo dependente no país".
Nildo Ouriques
Em recente artigo – Um continente sem teoria – José Luis Fiori nos oferece uma brevíssima e curiosa história das idéias na América Latina destinada a espetar o liberalismo que sempre se contentou em repetir nos trópicos as teorias “cosmopolitas” que com freqüência colonial aqui se reproduzem. Contudo, neste breve artigo, Fiori adere ao esporte nacional preferido pela intelectualidade paulista: a crítica à interpretação marxista da dependência e o elogio velado “a escola paulista de sociologia”, especialmente aquela vinculada ao nome de Fernando Henrique Cardoso.
No Brasil, o debate acerca da dependência sempre foi mal compreendido. Na verdade, é quase que desconhecido entre nós. Contudo, este desconhecimento não é resultado do acaso, pois tem sido construído como um instrumento de dominação política e de legitimação do capitalismo dependente no país. As ciências sociais paulistas – USP e UNICAMP especialmente, mas não exclusivamente – manufaturaram um consenso sobre a teoria da dependência que rendeu prestígio acadêmico e posições no aparelho de estado para alguns professores, mas é rigorosamente falso.
O principal “argumento” para a manufatura do consenso é agora repetido por Fiori, para quem a vertente marxista da dependência considerava “o desenvolvimento dos países centrais e o imperialismo um obstáculo intransponível para o desenvolvimento capitalista periférico. Por isto, falavam do “desenvolvimento do subdesenvolvimento” e defendiam a necessidade da revolução socialista imediata, inclusive como estratégia de desenvolvimento econômico”. (Cursiva nossa, NDO)
Sabemos que a fórmula “desenvolvimento do subdesenvolvimento” é uma criação do genial André Gunder Frank. O mineiro Ruy Mauro Marini, quem defendeu a necessidade de uma teoria marxista da dependência e deu importante contribuição nesta direção com seu magistral Dialética da dependência, escreveu que a formula frankiana era mesmo “impecável”. Portanto, posso concluir sem medo de errar que a crítica de Fiori – repetindo agora Fernando Henrique Cardoso, Guido Mantega e José Serra –esta dirigida basicamente contra Frank e Marini. Mas esta crítica é essencialmente injusta e não corresponde a história do debate.
André Gunder Frank (1929-2005) jamais disse a asneira de que o capitalismo era inviável na periferia do sistema mundial. Ao contrário, Frank, que pode ser considerado sem dúvida o precursor do debate marxista acerca da dependência, não somente desbancou as teses sobre a feudalidade na América Latina, como foi o principal crítico do capitalismo dependente que se desenvolvia aos olhos de todos. Neste contexto, a crítica recente é injusta porque o próprio Fiori teve o privilégio de assistir aos seminários de Frank no Chile e certamente ouviu não poucas vezes do próprio sua crítica tanto ao reformismo comunista quanto ao estagnacionismo que de certa forma seduziu muita gente antes do chamado “milagre brasileiro”. Mas nao era necessário participar das aulas de Gunder Frank para saber o óbvio sobre sua longa e ainda desconhecida obra; bastaria (re)ler Capitalism and underdevelopment in Latin América. Historical studies of Chile and Brazil para entender a posição de Frank e sua notável contribuição ao debate das idéias latino-americanas.
É correto afirmar que em épocas passadas existiam aqueles que defendiam – reciclando idéias cepalinas tingidas de marxismo do Partidão (PCB) – que os “obstáculos externos” ao desenvolvimento representavam uma estratégia imperialista. Postulavam, portanto, que a “nação” deveria se opor ao “imperialismo” o que, obviamente, implicava em uma aliança de classe no interior do país dependente entre o proletariado e a burguesia considerada “nacional”. Mas precisamente contra estes, André Gunder Frank dirigiu suas baterias, destruindo a numa só vez o “mito do feudalismo na agricultura brasileira” e os “obstáculos externos” ao desenvolvimento. Foi uma crítica devastadora e ainda insuperável ao dualismo estruturalista da CEPAL e aliados. A fórmula “desenvolvimento do subdesenvolvimento” capta com precisão esta dinâmica. Ao contrário daqueles que afirmavam os “obstáculos” e/ou o “estagnacionismo” – presentes nos escritos de Furtado em 1965, por exemplo – Gunder Frank e Ruy Mauro Marini afirmavam que o desenvolvimento capitalista efetivamente ocorreria, mas sob a forma do subdesenvolvimento.
Na breve historia narrada por Fiori, existiria uma vertente da teoria da dependência – de filiação a um só tempo marxista e cepalina (!?) – que teve vida mais longa e logrou resultados melhores, num surpreendente e discreto elogio – tanto tardio quanto surrado – à FHC. Contudo, a tipologia construída por este e Enzo Faletto no Dependência e desenvolvimento na América Latina é obviamente de inspiração weberiana e o reconhecimento do conflito de classes no interior da nação que despertou tanta simpatia nos intelectuais progressistas não é, como sabemos, exclusividade de marxistas, porque também existem liberais que valoram a luta de classes sem vacilação, ainda que não tirem as mesmas conclusões que os marxistas.
O “apagão mental” mencionado por Fiori foi produto de uma derrota política que, no Brasil, se consolidou com o golpe militar de 1964. No interior da luta pela democratização, os liberais progressistas fizeram sua parte, caluniando e falsificando a história do pensamento crítico, especialmente da versão marxista da dependência, sem recorrer aos textos de Frank e Marini, muitos ainda sem tradução ao português. O CEBRAP foi um instrumento valioso nesta operação ideológica, mas “respeitáveis figuras” do mundo acadêmico paulista – especialmente nas escolas de economia e sociologia da USP e UNICAMP – aproveitaram a correlação de forças permitida pela ditadura para extirpar a principal contribuição marxista sobre o capitalismo latino-americano da vida intelectual e universitária brasileira. Frank e Marini não foram apenas proscritos: foram também falsificados! Outro tanto ocorreu também com Theotonio dos Santos, autor do imperdível “Socialismo ou fascismo: o dilema latino-americano”, lamentavelmente ainda não traduzido ao português.
Parte daquele “apagão mental” é produto da outrora útil distinção partidária entre tucanos e petistas que sempre ocultou algo importante, cada dia mais difícil de disfarçar: no terreno teórico, tanto uns quanto outros se alinhavam na manufaturação do consenso em favor da versão palatável dos estudos acerca da dependência, representada por Cardoso e Faletto. Não é apenas uma coincidência que a tese doutoral de Guido Mantega, finalmente vertida no livro que adultera completamente as teses de Frank e Marini, foi orientada por Fernando Henrique Cardoso.
Finalmente a questão central. Vivemos num continente sem teoria? É pouco provável. O programa de pesquisa lançado por Frank e Marini não foi superado teoricamente, ainda que sofreu uma derrota política a partir de 1964 pela força do terror de estado. Mas as condições mudaram radicalmente no cenário latino-americano e aquela vertente crítica da dependência, de extração marxista, esta sendo resgatada com muita força em toda a América Latina impulsionada pelos governos do nacionalismo revolucionário existentes na Venezuela, Equador e Bolívia. Mas também no Brasil o interesse pela teoria marxista da dependência voltou e não é mais possível reforçar o coro dominante que anestesiou algumas gerações de estudantes e militantes socialistas. Enfim, se efetivamente queremos construir um projeto nacional-popular para o Brasil – que eu defendo socialista – a tarefa intelectual decisiva é a superação do “apagão mental” que tantas limitações impôs ao ambiente universitário e político brasileiro.
Neste contexto, podemos ou nao compartilhar o ceticismo em relação as insuficiências teóricas nos programas destinados a superar a dependência e o subdesenvolvimento, mas não temos o direito de esquecer e menos ainda alterar os termos do debate de décadas passadas. Daí o caráter surpreendente do artigo de Fiori, pois ele reforça velhos preconceitos e não capta a nova correlação de forças que já esta criando uma nova América Latina sob o lema do “socialismo do século XXI”. Afinal, diante do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, não era o socialismo a única alternativa indicada por Frank e Marini?
Professor do Departamento de Economia e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC. (www.iela.ufsc.br )
Sexta-feira, Maio 08, 2009
crescer por crescer? PIB e FIB
O debate sobre o PIB: "estamos fazendo a conta errrada"
Ladislau Dowbor (*) - 07/05/2009
"Crescer por crescer, é a filosofia da célula cancerosa" - Banner colocado por estudantes, na entrada de uma conferência sobre economia.
PIB, como todos devem saber, é o produto interno bruto. Para o comum dos mortais que não fazem contas macroeconômicas, trata-se da diferença entre aparecerem novas oportunidades de emprego (PIB em alta) ou ameaças de desemprego (PIB em baixa). Para o governo, é a diferença entre ganhar uma eleição e perdê-la. Para os jornalistas, é uma ótima oportunidade para darem a impressão de entenderem do que se trata. Para os que se preocupam com a destruição do meio-ambiente, é uma causa de desespero. Para o economista que assina o presente artigo, é uma oportunidade para desancar o que é uma contabilidade clamorosamente deformada.
Peguemos o exemplo de uma alternativa contábil, chamada FIB. Trata-se simplesmente um jogo de siglas, Felicidade Interna Bruta. Tem gente que prefere felicidade interna líquida, questão de gosto. O essencial é que inúmeras pessoas no mundo, e técnicos de primeira linha nacional e internacional, estão cansados de ver o comportamento econômico ser calculado sem levar em conta – ou muito parcialmente – os interesses da população e a sustentabilidade ambiental. Como pode-se dizer que a economia vai bem, ainda que o povo va mal? Então a economia serve para quê?
No Brasil a discussão entrou com força recentemente, em particular a partir do cálculo do IDH (Indicadores de Desenvolvimento Humano), que inclui, além do PIB, a avaliação da expectativa de vida (saúde) e do nível da educação. Mais recentemente, foram lançados dois livros básicos, Reconsiderar a riqueza, de Patrick Viveret, e Os novos indicadores de riqueza de Jean-Gadrey e Jany-Catrice. Há inúmeras outras iniciativas em curso, que envolvem desde o Indicadores de Qualidade do Desenvolvimento do IPEA, até os sistemas integrados de indicadores de qualidade de vida nas cidades na linha do Nossa São Paulo. O movimento FIB é mais uma contribuição para a mudança em curso. O essencial para nós, é o fato que estamos refazendo as nossas contas.
As limitações do PIB aparecem facilmente através de exemplos. Um paradoxo levantado por Viveret, por exemplo, é que quando o navio petroleiro Exxon Valdez naufragou nas costas do Alaska, foi necessário contratar inúmeras empresas para limpar as costas, o que elevou fortemente o PIB da região. Como pode a destruição ambiental aumentar o PIB? Simplesmente porque o PIB calcula o volume de atividades econômicas, e não se são úteis ou nocivas. O PIB mede o fluxo dos meios, não o atingimento dos fins. Na metodologia atual, a poluição aparece como sendo ótima para a economia, e o IBAMA vai aparecer como o vilão que a impede de avançar. As pessoas que jogam pneus e fogões velhos no rio Tieté, obrigando o Estado a contratar empresas para o desassoreamento da calha, contribuem para a produtividade do país. Isto é conta?
Mais importante ainda, é o fato do PIB não levar em conta a redução dos estoques de bens naturais do planeta. Quando um país explora o seu petróleo, isto é apresentado como eficiência econômica, pois aumenta o PIB. A expressão “produtores de petróleo” é interessante, pois nunca ninguém conseguiu produzir petróleo: é um estoque de bens naturais, e a sua extração, se der lugar a atividades importantes para a humanidade, é positiva, mas sempre devemos levar em conta que estamos reduzindo o estoque de bens naturais que entregaremos aos nossos filhos. A partir de 2003, por exemplo, não na conta do PIB mas na conta da poupança nacional, o Banco Mundial já não coloca a extração de petróleo como aumento da riqueza de um país, e sim como a sua descapitalização. Isto é elementar, e se uma empresa ou um governo apresentasse a sua contabilidade no fim de ano sem levar em conta a variação de estoques, veria as suas contas rejeitadas. Não levar em conta o consumo de bens não renováveis que estamos dilapidando deforma radicalmente a organização das nossas prioridades. Em termos técnicos, é uma contabilidade grosseiramente errada.
A diferença entre os meios e os fins na contabilidade aprece claramente nas opções de saúde. A Pastoral da Criança, por exemplo, desenvolve um amplo programa de saúde preventiva, atingindo milhões de crianças até 6 anos de idade através de uma rede de cerca de 450 mil voluntárias. São responsáveis, nas regiões onde trabalham, por 50% da redução da mortalidade infantil, e 80% da redução das hospitalizações. Com isto, menos crianças ficam doentes, o que significa que se consome menos medicamentos, que se usa menos serviços hospitalares, e que as famílias vivem mais felizes. Mas o resultado do ponto de vista das contas econômicas é completamente diferente: ao cair o consumo de medicamentos, o uso de ambulâncias, de hospitais e de horas de médicos, reduz-se também o PIB. Mas o objetivo é aumentar o PIB ou melhorar a saúde (e obem-estar) das famílias?
Todos sabemos que a saúde preventiva é muito mais produtiva, em termos de custo-benefício, do que a saúde curativa-hospitalar. Mas se nos colocarmos do ponto de vista de uma empresa com fins lucrativos, que vive de vender medicamentos ou de cobrar diárias nos hospitais, é natural que prevaleça a visão do aumento do PIB, e do aumento do lucro. É a diferença entre os serviços de saúde e a indústria da doença. Na visão privatista, a falta de doentes significa falta de clientes. Nenhuma empresa dos gigantes chamados internacionalmente de “big pharma” investe seriamente em vacinas, e muito menos em vacinas de doenças de pobres. Ver este ângulo do problema é importante, pois nos faz perceber que a discussão não é inocente, e os que clamam pelo progresso identificado com o aumento do PIB querem, na realidade, maior dispêndio de meios, e não melhores resultados. Pois o PIB não mede resultados, mede o fluxo dos meios.
É igualmente importante levar em consideração que o trabalho das 450 mil voluntárias da Pastoral da Criança não é contabilizado como contribuição para o PIB. Para o senso comum, isto parece uma atividade que não é propriamente econômica, como se fosse um bandaid social. Os gestores da Pastoral, no entanto, já aprenderam a corrigir a contabilidade oficial. Contabilizam a redução do gasto com medicamentos, que se traduz em dinheiro economizado na família, e que é liberado para outros gastos. Nesta contabilidade corrigida, o não-gasto aparece como aumento da renda familiar. As noites bem dormidas quando as crianças estão bem representam qualidade de vida, coisa muitíssimo positiva, e que é afinal o objetivo de todos os nossos esforços. O fato da mãe ou do pai não perderem dias de trabalho pela doença dos filhos também ajuda a economia. O Canadá, centrado na saúde pública e preventiva, gasta 3 mil dólares por pessoa em saúde, e está em primeiro lugar no mundo neste plano. Os Estados Unidos, com saúde curativa e dominantemente privada, gastam 6,5 mil, e estão longe atrás em termos de resultados. Mas ostentam orgulhosamente os 16% do PIB gastos em saúde, para mostrar quanto esforço fazem. Estamos medindo meios, esquecendo os resultados. Neste plano, quanto mais ineficientes os meios, maior o PIB.
Uma outra forma de aumentar o PIB é reduzir o acesso a bens gratuitos. Na Riviera de São Lourenço, perto de Santos, as pessoas não têm mais livre acesso à praia, a não ser através de uma séria de enfrentamentos constrangedores. O condomínio contribui muito para o PIB, pois as pessoas têm de gastar bastante para ter acesso ao que antes acessavam gratuitamente. Quando as praias são gratuitas, não aumentam o PIB. Hoje os painéis publicitários nos “oferecem” as maravilhosas praias e ondas da região, como se as tivessem produzido. A busca de se restringir a mobilidade, o espaço livre de passeio, o lazer gratuito oferecido pela natureza, gera o que hoje chamamos de “economia do pedágio”, de empresas que aumentam o PIB ao restringir o acesso aos bens. Temos uma vida mais pobre, e um PIB maior.
Este ponto é particularmente grave no caso do acesso ao conhecimento. Trata-se de uma área onde há excelentes estudos recentes, como A Era do Acesso, de Jeremy Rifkin; The Future of Ideas, de Lawrence Lessig; O imaterial, de André Gorz, ou ainda Wikinomics, de Don Tapscott. Um grupo de pesquisadores da USP Leste, com Pablo Ortellado e outros professores, estudou o acesso dos estudantes aos livros acadêmicos: o volume de livros exigidos é proibitivo para o bolso dos estudantes (80% de famílias de até 5 salários mínimos), 30% dos títulos recomendados estão esgotados. Na era do conhecimento, as nossas universidades de linha de frente trabalham com xerox de capítulos isolados do conjunto da obra, autênticos ovnis científicos, quando o MIT, principal centro de pesquisas dos Estados Unidos, disponibiliza os cursos na íntegra gratuitamente online, no quadro do OpenCourseWare (OCW)(1). Hoje, os copyrights incidem sobre as obras até 90 anos após a morte do autor. E se fala naturalmente em “direitos do autor”, quanto se trata na realidade de direitos das editoras, dos intermediários.
É impressionante investirmos por um lado imensos recursos públicos e privados na educação, e por outro lado empresas tentarem restringir o acesso aos textos. O objetivo, é assegurar lucro das editoras, aumentando o PIB, ou termos melhores resultados na formação, facilitando, e incentivando (em vez de cobrar) o aprendizado? Trata-se, aqui também, da economia do pedágio, de impedir a gratuidade que as novas tecnologias permitem (acesso online), a pretexto de proteger a remuneração dos produtores de conhecimento.
Outra deformação deste tipo de conta é a não contabilização do tempo das pessoas. No nosso ensaio Democracia Econômica, inserimos um capítulo “Economia do Tempo”. Está disponível online, e gratuitamente. O essencial, é que o tempo é por excelência o nosso recurso não renovável. Quando uma empresa nos obriga a esperarmos na fila, faz um cálculo: a fila é custo do cliente, não se pode abusar demais. Mas o funcionário é custo da empresa, e portanto vale a pena abusar um pouco. Isto se chama externalização de custos. Imaginemos que o valor do tempo livre da população econômicamente ativa seja fixado em 5 reais. Ainda que a produção de automóveis represente um aumento do PIB, as horas perdidas no trânsito pelo encalacramento do trânsito poderiam ser contabilizadas, para os 5 milhões de pessoas que se deslocam diariamente para o trabalho em São Paulo, em 25 milhões de reais, isto calculando modestos 60 minutos por dia. A partir desta conta, passamos a olhar de outra forma a viabilidade econômica da construção de metrô e de outras infraestruturas de transporte coletivo. E são perdas que permitem equilibrar as opções pelo transporte individual: produzir carros realmente aumenta o PIB, mas é uma opção que só é válida enquanto apenas minorias têm acesso ao automóvel. Hoje São Paulo anda em primeira e segunda, gastando com o carro, com a gazolina, com o seguro, com as doenças respiratórias, com o tempo perdido. Os quatro primeiros itens aumentam o PIB. O último, o tempo perdido, não é contabilizado. Aumenta o PIB, reduz-se a mobilidade. Mas o carro afinal era para quê?
Alternativas? Sem dúvida, e estão surgindo rapidamente. Não haverá o simples abandono do PIB, e sim a compreensão de que mede apenas um aspecto, muito limitado, que é o fluxo de uso de meios produtivos. Mede, de certa forma, a velocidade da máquina. Não mede para onde vamos, só nos diz que estamos indo depressa, ou devagar. Não responde aos problemas essenciais que queremos acompanhar: estamos produzindo o quê, com que custos, com que prejuizos (ou vantagens) ambientais, e para quem? Aumentarmos a velocidade sem saber para onde vamos não faz sentido. Contas incompletas são contas erradas.
Como trabalhar as alternativas? Há os livros mencionados acima, o meu preferido é o de Jean Gadrey, foi editado pelo Senac. E pode ser utilizado um estudo meu sobre o tema, intitulado Informação para a Cidadania e o Desenvolvimento Sustentável. Porque não haverá cidadania sem uma informação adequada. O PIB, tão indecentemente exibido na mídia, e nas doutas previsões dos consultores, merece ser colocado no seu papel de ator coadjuvante. O objetivo é vivermos melhor. A economia é apenas um meio. É o nosso avanço para uma vida melhor que deve ser medido.
* Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social: propostas para uma gestão descentralizada”, “O Mosaico Partido: a economia além das equações”, “Tecnologias do Conhecimento: os Desafios da Educação”, todos pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social, inclusive o artigo Informação para a Cidadania mencionado acima, estão disponíveis no site http://dowbor.org – Contato: ladislau@dowbor.org
(1) O material do MIT pode ser acessado no site www.ocw.mit.edu; Em vez de tentar impedir a aplicação de novas tecnologias, como aliás é o caso das empresss de celular que lutam contra o wi-fi urbano e a comunicação quase gratuita via skype, as empresas devem pensar em se reconverter, e prestar serviços úteis ao mercado. A IBM ganhava dinheiro vendendo computadores, e quando este mercado se democratizou com o barateamento dos computadores pessoais migrou para a venda de softwares. Estes hoje devem se tornar gratuitos (a própria IBM optou pelo Linux), e a empresa passou a se viabilizar prestando serviços de apoio informático. Travar o acesso aumenta o PIB, mas empobrece a sociedade.
La Glória
A gripe dos porcos e a mentira dos homens
Mauro Santayana – 01/05/2009
O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods.
La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos.
A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país.
É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata. O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos.
A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco. Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada "ação social". Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.
Quinta-feira, Maio 07, 2009
riquezas
Domingo, Maio 03, 2009
liberais: neoclássicos e keynesianos
"Não há vitória do keynesianismo nem abandono da ideologia liberal", diz Fiori
CLAUDIA ANTUNES
Editora de Mundo da Folha de S.Paulo -
Desde "Poder e Dinheiro" (editora Vozes), de 1998, o cientista político José Luís Fiori se destacou como um estudioso das mudanças recentes do sistema capitalista mundial, com ênfase nos fatores políticos e econômicos que puseram fim à chamada "época de ouro", os 30 anos depois da Segunda Guerra Mundial.
Seu último livro, "O mito do colapso do poder americano" (editora Boitempo), contesta a tese de que a crise econômica originada nos mercados financeiros americanos signifique o declínio da superpotência.
Nesta entrevista por e-mail, Fiori, professor de economia política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), analisa o momento histórico da ascensão ao poder de Margaret Thatcher, há 30 anos, e diz que a nem a crise atual nem a adoção pelos EUA e países europeus de medidas de intervenção nos mercados para conter a crise significam o abandono do ultraliberalismo associado à ex-premiê britânica.
FOLHA - A eleição de Thatcher é considerada a fronteira entre a era keynesiana e a chamada neoliberal. Ela foi de fato líder dessa mudança?
JOSÉ LUIS FIORI - O epicentro da crise dos anos 70 foi nos EUA. As principais decisões que mudaram a história político-econômica da segunda metade do século 20 também foram tomadas nos EUA. Algumas, antes da eleição de Thatcher.
A inflexão neoliberal no campo acadêmico e político começou nos EUA, já no fim dos anos 60, durante o primeiro governo Nixon [1969-1972]. Os principais responsáveis pela sua política financeira internacional --George Shultz, William Simon e Paul Volcker-- já defendiam o abandono da paridade cambial estabelecida pelo sistema de Bretton Woods e a livre circulação de capitais.
Todos eles viam nessa decisão uma forma de restabelecer o poder mundial das finanças e da moeda norte-americanas, ameaçado pelos déficits comerciais e pela pressão sobre as reservas de ouro dos EUA.
Em 1979, a política de estabilização de Paul Volcker, no governo democrata de Jimmy Carter [1977-1980], foi o verdadeiro ponto de virada na política econômica norte-americana.
Na própria Inglaterra, a virada neoliberal da política econômica também começou antes da eleição de Thatcher, durante o governo trabalhista do premiê James Callaghan [1976-1979], depois da crise cambial de 1976.
O governo trabalhista se dividiu entre os que defendiam uma "estratégia alternativa" de radicalização das políticas de controle de viés mais keynesiano, liderados por Tony Benn, e a ala, vitoriosa, dos que defenderam a ida da Grã Bretanha ao FMI e a adoção de uma política ortodoxa e conservadora que foi assumida pelo governo de Callaghan, em sintonia com o governo social-democrata alemão de Helmut Schmidt [1974-1982], que já havia aderido à mesma ortodoxia muito antes da chegada ao poder de Helmut Kohl [1982-1988]. Apesar de tudo isso, não há a dúvida de que Thatcher que foi transformada pela história na porta-estandarte da "restauração conservadora" do fim do século 20, assim como de todas as políticas e reformas neoliberais preconizadas durante aquele período.
Acho que cabe uma pergunta sem resposta para reflexão dos que se dedicam à análise da história econômica e da política internacional: como entender o fato de que, mesmo depois do que alguns analistas chamam de "fim da hegemonia britânica", seguiu-se considerando a [John Maynard] Keynes [economista britânico] e não a [Harry Dexter] White [assessor econômico de Franklin Roosevelt] a figura forte na criação do Sistema de Breton Woods; que se atribua a [Winston] Churchill [1940-45; 1951-55], mais do que a [Harry] Truman [1945-1953], a paternidade da Guerra Fria; que tenham sido os ingleses e não os norte-americanos os pais do euromercado de dólares, que está na origem do fim de Bretton Woods e da globalização financeira; que seja Margareth Thatcher, e não Ronald Reagan, o símbolo da era neoliberal; que tenham sido os ingleses e não os americanos que tenham liderado os demais países no movimento de estatização bancária para enfrentar a crise financeira de 2008, por cima dos próprios princípios ortodoxos e liberais; e que, finalmente, tenha sido o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, quem anunciou na reunião do G20, em Londres, o fim do Consenso de Washington? Para não falar, numa outra clave, do motivo por que Tony Blair [1997-2007], mais do que Bill Clinton [1993-2000], tenha ficado associado ao anúncio, no ano 2000, da solução anglo-saxônica do enigma do genoma humano?
FOLHA - Qual seria o marco zero do thatcherismo em sua versão internacionalizada? Alguns estudiosos sugerem o abandono, pelos EUA, do padrão ouro? Qual é a sua opinião?
FIORI - O abandono americano do padrão dólar/ouro e o fim do Sistema de Bretton Woods, em 1973, foi um momento importante da virada econômica que deixou para trás a economia política do imediato pós-guerra. Mas é preciso levar em conta o conjunto das mudanças que alteraram a trajetória do sistema mundial, além da questão monetária.
Também em 1973 ocorreu o primeiro choque do preço do petróleo, que jogou por terra a base energética do "milagre econômico" pós-Segunda Guerra e encharcou o sistema financeiro mundial com os petrodólares. Naquele ano, os EUA reconheceram sua derrota na Guerra do Vietnã, depois de iniciar sua reaproximação diplomática com a China.
É impossível dizer hoje, com certeza, o que foi mais importante para as transformações mundiais das últimas décadas do século 20, se o fim do padrão ouro, por exemplo, ou o inicio da parceria China-EUA.
O que você chama de "marco zero do thatcherismo" é uma soma de decisões e acontecimentos anteriores e posteriores à eleição de Thatcher, que envolveram alterações na distribuição do poder mundial que foram a um só tempo causa e consequência da própria mudança do sistema monetário internacional.
Basta dizer que o próprio abandono americano do padrão ouro foi uma estratégia consciente de poder, que enfraqueceu os países mais fracos e fortaleceu os países mais fortes, dentro do sistema mundial, mas sobretudo fortaleceu o poder global dos EUA, cuja elite governante nunca teve duvidas sobre o função estratégica de sua moeda.
FOLHA - A tese mais comum entre os analistas de esquerda é que o thatcherismo foi a reação conservadora a uma crise de sobreprodução nos países capitalistas centrais. Ela teria vindo não para desregulamentar, mas para regulamentar a favor do capital. O senhor concorda?
FIORI - Dizer que a reação conservadora dos anos 80 foi determinada por uma crise de sobreprodução e pela necessidade de regulamentar a favor do capital é no mínimo uma simplificação grosseira. Todas as grandes crises econômicas internacionais sempre tiveram e têm algo a ver, do ponto de vista puramente econômico,com algum grau de sobreacumulação e subconsumo, em algum ponto do sistema econômico mundial.
Mas isso não explica a especificidade de cada crise. É impossível acreditar que a gigantesca transformação mundial depois da década de 1970 foi apenas resposta a mais uma crise de sobreprodução nos países capitalistas centrais.
As crises têm um papel central na análise marxista do capitalismo. Mas elas também acabaram ocupando um papel às vezes que favorece distorções no imaginário da esquerda: toda nova crise capitalista seria sempre anúncio do fim do capitalismo.
O problema é que depois que as crises passam, como o capitalismo não terminou e a revolução não aconteceu, a maioria desses analistas acaba encontrando uma nova explicação funcional para a crise. A crise não era terminal, era apenas uma solução oportuna para um problema estrutural do capital, inventada pelo próprio capital e sua classe dirigente.
Isso já aconteceu com a crise econômica de 1870, e voltou a acontecer com as crises de 1930 e 1970, e está acontecendo de novo com a crise de 2008. Talvez fosse hora de parar de repetir o mesmo erro e aprender um pouco com a história.
FOLHA - A crise econômica atual trouxe de novo ao primeiro plano as teses do economista John Maynard Keynes. Trata-se de abandono completo do liberalismo?
FIORI - Não há hoje, no campo da política econômica, uma vitória teórica do keynesianismo nem um abandono da ideologia liberal. Todas as medidas que vêm sendo tomadas para enfrentar a crise são uma reação emergencial e pragmática frente à ameaça de colapso do poder dos Estados, das moedas e dos bancos, e, como consequência, da produção e do emprego.
Foi uma mudança de política imposta pela força dos fatos e não por uma nova convicção teórica ou ideológica dos governantes mundiais. É como se estivéssemos assistindo à inversão automática da famosa frase de Thatcher: "There is no alternative".
Só que o novo consenso nasceu de forma abrupta e sem nenhum entusiasmo ou mobilização política, ao contrário do que aconteceu com a virada liberal-conservadora dos anos 80.
É verdade que as teorias de origem neoclássica e as políticas ortodoxas saíram do primeiro plano. Mas elas permanecem atuantes em todos as frentes de resistência às políticas em curso. Além disso, as novas políticas não significam a morte da ideologia econômica liberal porque, ao contrário do que pensa o senso comum, o keynesianismo também é liberal.
Keynes era um liberal, e sua teoria recupera algumas teses essenciais do ultraliberalismo econômico dos fisiocratas do século 18 e do próprio liberalismo de Adam Smith. Os fisiocratas franceses consideravam indispensável um "tirano esclarecido" para o bom funcionamento das sociedades de mercado. E o próprio Smith defendia a necessidade do Estado para assegurar o funcionamento da sua mão invisível, sempre que fosse necessário proteger os capitais nacionais ou realizar investimentos de infraestrutura que não fossem cobertos pelo capital privado.
Talvez por isso os trabalhistas e os social-democratas europeus tenham trocado com tanta naturalidade as teses keynesianas pelas politicas neoliberais na década de 70, assim como estão se convertendo de novo ao ideário keynesiano.
Do meu ponto de vista, os neoclássicos e os keynesianos pertencem à mesma família ideológica liberal, e, em política econômica, defendem estratégias que podem ser complementares e que muito provavelmente são indissociáveis dentro do capitalismo. Na verdade, são retóricas e políticas econômicas que atendem a interesses e a funções diferentes, mas intercambiáveis, dependendo do tempo e do lugar.
Sábado, Maio 02, 2009
saúde pública: gripe A vírus H1N1
Gripe suína (2)
By José SaramagoContinuemos. No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas fábricas porcinas – mais barato que em ambientes humanos – estava proporcionando o auge de infecções estafilocócicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar-se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.
Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?
Sexta-feira, Maio 01, 2009
loco por ti latinoamerica
Un continente sin teoría
José Luis Fiori * - 26/04/2009
En el siglo XIX, el pensamiento social europeo dedicó poquísima atención al continente americano. Incluso los socialistas y marxistas que discutieron la “cuestión colonial”, al final del siglo, sólo estaban preocupados por Asia y África. Nunca tuvieron interés teórico y político en los nuevos Estados americanos que alcanzaron su independencia aunque se mantuvieron bajo la tutela diplomática y financiera de Gran Bretaña. Fue solamente en el inicio del siglo XX que la teoría marxista del imperialismo se dedicó al estudio específico de la internacionalización del capital y de su papel en el desarrollo capitalista a escala global.
Asimismo, su objeto siguió siendo la competencia y la guerra entre los europeos, y la mayor parte de los autores marxistas todavía compartían cierta visión evolucionista procedente de Marx sobre el futuro económico de los países atrasados, seguros de que “los países más desarrollados industrialmente muestran, a los menos desarrollados, la imagen de lo que será su propio futuro”.
Fue sólo después de la década de los 20 que la III Internacional Comunista transformó el imperialismo en un adversario estratégico y en un obstáculo al desarrollo de las fuerzas productivas en los países “coloniales y semicoloniales”. De cualquier forma, el objeto central de todos los análisis y propuestas revolucionarias fue siempre para China, Egipto, Indonesia, mucho más que para la América Latina. En la primera mitad del siglo XX, los Estados Unidos ya se habían transformado en una gran potencia imperialista, y el resto de América Latina fue incluida por la III Internacional, después de 1940, en la misma estrategia general de las “revoluciones nacionales”, o de las “revoluciones democrático burguesas”, contra la alianza de las fuerzas imperialistas con las oligarquías agrarias feudales y a favor de la industrialización nacional de los países periféricos.
Un poco más adelante, en la década de 1950, la tesis de la “revolución democrático burguesa” y su defensa del desarrollo industrial fue reforzada por la “economía política de la CEPAL” (Comisión Económica para la América Latina) que analizaba la economía latinoamericana en el contexto de una división internacional del trabajo entre países “centrales” y países “periféricos”. La CEPAL criticaba la tesis de las “ventajas comparativas” de la teoría del comercio internacional de David Ricardo, y consideraba que las relaciones comerciales entre las dos “franjas” del sistema económico mundial perjudicaban el desarrollo industrial de los países periféricos. Se trataba de una crítica económica heterodoxa, de filiación keynesiana, aunque desde el punto de vista práctico terminó confluyendo con las propuestas “nacional-desarrollistas”, hegemónicas en el continente después de la II Guerra Mundial. En la década de los 60, entretanto, la Revolución Cubana, la crisis económica y la multiplicación de los golpes militares en toda América Latina provocaron un desencanto generalizado con la estrategia “democrático-burguesa” y con la propuesta “cepaliana” de la industrialización por “sustitución de importaciones”.
Su crítica intelectual dio origen a las tres grandes vertientes de la “teoría de la dependencia”, que tal vez haya sido la última tentativa de teorización latinoamericana del siglo XX. La primera vertiente – de filiación marxista – consideraba el desarrollo de los países centrales y del imperialismo como un obstáculo insuperable para el desarrollo capitalista periférico. Por eso hablaban del “desarrollo del subdesarrollo” y defendían la necesidad de una revolución socialista inmediata, incluso como estrategia de desarrollo económico. La segunda vertiente – de filiación “cepaliana”– también identificaba obstáculos para la industrialización del continente, pero consideraba posible superarlos a través de una serie de “reformas estructurales” que se transformaron en tema central de la agenda política latinoamericana durante toda la década de los 60. En realidad, la propia teoría de la CEPAL sobre la relación “centroperiferia” ya no daba cuenta de la relación de los Estados Unidos con su “territorio económico supranacional”, que era diferente de lo que había ocurrido con Gran Bretaña.
Finalmente, la tercera vertiente de la teoría de la dependencia – de filiación a un mismo tiempo marxista y cepaliana – fue la que tuvo más larga vida y arrojó resultados más sorprendentes. Por tres razones fundamentales: primero, porque defendía la viabilidad del capitalismo latinoamericano; segundo, porque defendía una estrategia de desarrollo “dependiente y asociado” con los países centrales; y tercero, porque salieron de estas corrientes algunos de los principales dirigentes políticos e intelectuales de la “restauración neoliberal” de los años 90. Como si hubiese ocurrido un apagón mental, viejos marxistas, nacionalistas y desarrollistas abandonaron sus teorías latinoamericanistas y adhirieron a la visión del sistema mundial y del capitalismo propia del liberalismo europeo del siglo XVIII.
En esta línea de pensamiento, todavía en 2009, un importante intelectual de esta corriente de ideas defendía – por sobre todo lo que pasó en el mundo, desde el inicio del siglo XXI – que “no existe más geopolítica ni imperialismo en el nuevo mundo poscolonial, de la globalización, del sistema político y de la democracia global… [y que] la estrategia clásica de la geopolítica de garantizar acceso exclusivo a los recursos naturales en la periferia del capitalismo ya no tiene sentido no solo por sus costos, sino también porque todas las fronteras ya están definidas…”(1). Ingenuidades aparte, los liberales nunca tuvieron una teoría original con respecto a América Latina. Ni precisan de ella. La repetición recurrente de algunos tópicos cosmopolitas fue más que suficiente para sostener su visión de la economía mundial y legitimar su acción política y económica idéntica en todos los países. Aunque en el caso de los intelectuales progresistas del continente, es una mala noticia saber que no existe ya una teoría capaz de leer e interpretar la historia del continente y fundamentar una estrategia coherente de construcción del futuro, congruente con la inmensa heterogeneidad del continente latinoamericano.
NOTA: (1) Bresser Pereira, L.C. “O mundo menos sombrío. Política e economia nas relações internacionais entre os grandes países”, en Jornal de Resenhas. Marzo de 2009, Nº 1. Discurso Editorial, Sâo Paulo, pp: 6 y 7.
(*) José Luis Fiori, profesor de economía y ciencia política en la Universidad pública de Río de Janeiro, es miembro del Consejo Editorial de SINPERMISO.
Segunda-feira, Abril 27, 2009
mercado da água (III)
Os olhos dos capitais no mercado da água
Afranio Campos - 26/04/2009
O fato da crise financeira mundial se dá em uma dimensão nunca antes vista, numa dinâmica extremamente rápida, se tornou preocupante, tanto para grandes investidores privados, via setor financeiro-bancário, como para o mercado real ou produtivo; o que diferencia a situação atual da crise de 1929. Com a globalização tudo se interliga, de forma integrada e aceleradamente, o que “empurrou” os Estados nacionais e seus governos a colaborar entre si, através de um processo de discussão no tratamento das grandes questões econômicas e financeiras sob pressão da sociedade forçando a abrir espaços para o conhecimento do mundo e a intervenção concreta em problemas que antes não eram vistos ou eram relegados ao segundo plano, ou sem se dar a devida importância; abriu-se a caixa preta da "questão ambiental" para quem quer que seja, em sua grave situação.
Os recursos hídricos, que há algum tempo já faz parte da agenda dos governos enquanto bem econômico, antes, um direito da humanidade, bem de uso comum, bem ambiental, bem essencial à vida; esse recursos, estão no centro das discussões sobre dominialidade, precificação, onde a sua tutela por parte do Estado se configurou como essencial na confiabilidade do modelo. A definição de instrumentos de gestão passa a sustentar-se sobre a teoria econômica tradicional e a valoração do tipo de uso, consumo e poluição dos recursos hídricos vem objetivando a sua preservação e formas de uso racionalmente sustentável que estabeleçam uma possível harmonia e eficiência do emprego desses recursos com o meio ambiente. O quadro que se firma torna-se cada vez mais favorável a consolidação desse mercado ainda que efetivamente não se enquadre nos padrões da economia de mercado.
A busca de mercados rentáveis e seguros a médio-longo prazos despertaram o interesse dos investidores especulativos em tempos de crise financeira. E o que parece obvio, não só para os mortais, mas fica patente para os “capitais à deriva” no mundo, é que eles partiram em busca de um outro tesouro no fim do arco-íris: os recursos hídricos, ou melhor, a água. Os olhos de cifrões estão voltados para o recente e imberbe mercado da água. Água, bem já escasso na maioria dos paises, em conseqüência do modelo de desenvolvimento e consumo excessivo adotados na extração dos recursos naturais, que foram utilizados em demasia, e inadequadamente, até a completa exaustão, diferentemente dos países que naturalmente possuem recursos hídricos ainda abundantes. Particularmente, no caso de países como o Brasil, só na última década vem empregando esforços na regulamentação da exploração do meio ambiente e dos usos múltiplos dos seus recursos hídricos: através da criação de leis, da ação das agências reguladoras ou na aplicação de investimentos vultosos na formação do mercado da água.
Destarte, esse é justamente o tipo de mercado que parece contrariar os pressupostos da teoria econômica, apesar do Estado proporcionar legal e financeiramente sua ordenação, seja como gestor de políticas públicas e na implantação de projetos em tecnologias limpas para o setor, seja através das outorgas (concessões, permissões etc), delegatários agindo em parceria, usuários, representantes da comunidade das bacias (Parlamento das Águas). Entretanto, o que no mercado tradicional, o preço, se constitui como o termometro das preferências dos consumidores, e o fator importante na equação da valoração econômica dos recursos hídricos, nesse caso, se torna mais uma variável do modelo, embora sem o destaque costumeiro dos fundamentos da teoria neclássica:
"Está fora do interesse dos investidores assumir diretamente a responsabilidade por entregar a água e taxar o consumidor final. Isso porque, em geral, os governos subsidiam as tarifas, já que a água é um bem vital. 'O governo precisa da água, então pagará qualquer valor para quem a tornar disponível', avalia Tara[1]. 'Porém, a água em si continuará sob controle do governo. Então, o preço da água em si não é o melhor investimento'.
Aqui, corre-se o grande risco desse empenho social e do Estado cair na desmoralização, ou até na grande perda dos frutos oriundos do processo de criação do mercado da água, representado por uma possível corrupção dos princípios originais, ou com a captura dessa estrutura por parte do lobby “privativista” dos grandes capitais, sobretudo sustentados pelos conhecidos fundamentos das leis de mercado de produtos e serviços.
O Estado ao criar as agências de água balizadas por regras pré-estabelecidas em critérios da economia de mercado, para o setor, tem buscado há mais de uma década (Política de Meio Ambiente e Política dos Recursos Hídricos) a obtenção de resultados que assegurem seu papel na estruturação do mercado da água, mercado esse, reconhecidamente singular diante das leis econômicas tradicionais; até então, as Agências de Água não tem demonstrado a eficiência esperada na consecução de seus objetivos: apresentam-se deficitárias diante da necessidade dos vultosos investimentos exigidos, bem como no controle efetivo dos conflitos sócio-ambientais entre os usuários dos recursos hídricos, o que ocorre em função da sua natureza de bem difuso, bem de múltiplo uso, etc.
Aparentemente, reconhece-se que o momento é bastante propício para capitais aventureiros se voltarem para o mercado da água, afinal, ao se criar a experiência de um “mercado misto” da água, isto é, nem privado nem público, sob a égide dos fundamentos das leis econômicas do mercado privado, e por outro lado tutelado pelo Estado através de leis específicas que dão credibilidade ao seu funcionamento, abriu-se um laboratório para o ensaio de algo inovador, sendo operacionalizado sobre princípios claros da preservação ambiental por intermédio das agencias reguladoras; a diferença para nós, é que talvez possa funcionar por mais algum tempo com seus objetivos ético-sócio-ambientais historicamente distintos dos mercados lucrativos, agora transacionando os recursos hídricos através de preços públicos; e que ainda logramos pensar, continuar intocado pelo inevitável "toque de midas" capitalista.
Uma questão fica para o debate: o que poderá evitar a socialização das externalidades negativas ou prejuízos sócio-ambientais, sem privatizar totalmente os benefícios?
[1] Kimberly Tara, da empresa que gerencia investimentos FourWinds Capital Management.
[2] Ciência e saúde, Planeta. Investidores já estão de olho no mercado da água. Veja On-line. 19 de março de 2008. http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia-saude/investidores-ja-estao-olho-mercado-agua-333262.shtml
Quinta-feira, Abril 23, 2009
mercado da água (II)
Quarta-feira, Abril 22, 2009
mercado da água (I)
17/03/2009 - 00h01
Modelo de livre mercado para exploração de água destrói cidade chilena
NYT Alexei Barrionuevo - Em Quillagua (Chile)
Durante as últimas quatro décadas aqui em Quillagua, uma cidade registrada nos livros de recordes como o local mais seco da terra, os moradores algumas vezes enxergaram gotas de chuva sobre as montanhas à distância. Mas elas nunca atingiram o solo, tendo se evaporado como uma miragem ainda no ar. O que a cidade tinha era um rio, que alimentava um autêntico oásis no deserto de Atacama. Mas, segundo os moradores, as companhias mineradoras poluíram e compraram uma quantidade tão grande da água que durante vários meses por ano o rio transforma-se em apenas um filete imprestável.
Caminhão-tanque abastece caixa d'água usada por moradores de Quillagua, Chile Quillagua é uma das várias pequenas cidades que estão sendo engolidas em meio à cada vez mais intensa guerra pela água no país. De acordo com os especialistas, em nenhum outro lugar o sistema de compra e venda de água é mais permissivo do que no Chile, onde os direitos à água constituem-se em propriedade privada, e não em um recurso público, e podem ser comercializados como mercadorias, em um ambiente caracterizado por pouca fiscalização governamental e escassas salvaguardas do meio ambiente.
Em algumas áreas a propriedade privada é tão concentrada que uma única companhia de eletricidade da Espanha, a Endesa, comprou até 80% dos direitos à água em uma enorme região no sul do país, provocando uma onda de protestos. E no norte, os produtores rurais estão competindo com companhias de mineração pelo aproveitamento dos rios e exploração das escassas reservas de água, deixando cidades como estas completamente secas e definhando. "Parece que tudo está contra nós", lamenta Bartolome Vicentelo, 79, que no passado cultivava alimentos e pescava camarões no Rio Lova, que abastece Quillagua. A população caiu para cerca de um quinto do que era duas décadas atrás. Tanta gente saiu da cidade que hoje só restam 120 pessoas aqui.
Alguns economistas elogiam o sistema de comercialização de direitos à água no Chile, que foi criado em 1981, durante a ditadura militar, afirmando que se trata de um modelo de eficiência do livre mercado que permite que a água seja utilizada pelos projetos de maior valor econômico.
Mas outros acadêmicos e ambientalistas argumentam que o sistema do Chile é insustentável porque promove a especulação, coloca o meio ambiente em risco e permite que interesses menores sejam esmagados por forças poderosas, como a indústria mineradora chilena.
"O modelo chileno foi longe demais no rumo da regulação descontrolada", afirma Carl J. Bauer, especialistas nos mercados de água do Chile que leciona na Universidade do Arizona. "É um modelo que não levou em conta o interesse público". A Austrália e o oeste dos Estados Unidos têm sistemas um pouco semelhantes a este, mas, segundo Bauer, existe neles regulação ambiental e resolução de conflitos mais fortes do que no Chile. O Chile é um exemplo notável da polêmica sobre a crise da água em todo o mundo. Temores quanto à carência de água prejudicam a expansão econômica chilena em áreas de recursos naturais como a de cobre, de frutas e de pescados - todas elas conhecidas por necessitarem de muita água em um país que tem reservas aqüíferas limitadas.
"O dilema que estamos enfrentando é determinar se podemos continuar nos desenvolvendo com a mesma quantidade de água que possuímos hoje", explica Rodrigo Weisner, diretor do setor de recursos hídricos do Ministério de Obras Públicas. "Não existe um consenso político a respeito de como lidarmos com o desafio de explorarmos os recursos que temos - incluindo as maiores reservas de cobre do mundo - em um país que possui o deserto mais árido do planeta", afirma Weisner.
Fernando Dougnac, um advogado ambiental de Santiago, diz que o equilíbrio é especialmente difícil porque "o mercado é capaz de promover a regulação para que haja mais eficiência econômica, mas não promove mais eficiência sócio-econômica". Ultimamente, a abordagem do país quanto à questão dos direitos à água tem exibido algumas falhas. "Na cidade de Copiapo, no deserto de Atacama, a comercialização descontrolada e uma seca de dois anos fez com que a quantidade real de água contida no rio acabasse sendo muito menor do que aquela contida nas quotas de exploração da água", afirma Dougnac.
Quillagua é mencionada no livro Guiness de recordes mundiais como o "local mais seco da terra" há 37 anos, mas ela mesmo assim prosperou devido ao Rio Loa, chegando a ter uma população de 800 habitantes na década de 1940. Um trem de longo curso parava aqui - atualmente a estação está abandonada - e a escola municipal tinha capacidade para quase 120 alunos (hoje em dia há apenas 16 estudantes).
Segundo Raul Molina, geógrafo da Universidade do Chile, a prosperidade começou a desaparecer em 1987, quando o governo militar reduziu em mais de dois terços a quantidade de água para a cidade. Mas os maiores golpes ocorreram em 1997 e 2000, quando dois episódios de contaminação arruinaram o rio, impedindo que a sua água pudesse ser utilizada para a irrigação de culturas agrícolas ou para o fornecimento ao gado durante os críticos meses de verão. Um estudo inicial conduzido por um acadêmico resultou na conclusão de que a contaminação de 1997 foi provavelmente provocada por um projeto de mineração de cobre administrado pela Codelco, a gigantesca mineradora estatal. Depois do incidente o governo chileno contratou especialistas alemães, que afirmaram que a contaminação tinha uma origem natural.
Em 2000, o Serviço de Pecuária e Agricultura, que integra o Ministério da Agricultura do Chile, refutou essa conclusão, e afirmou em um relatório que a responsabilidade pela contaminação era de pessoas e não da natureza. Foram encontrados metais pesados e outras substâncias associadas ao processamento de minérios que mataram os camarões do rio e fizeram com que a sua água não pudesse ser consumida pelo gado (faz décadas que a água potável para os moradores é transportada de outras regiões).
A Codelco, a maior companhia mineradora de cobre do mundo, rejeita qualquer responsabilidade. Pablo Orozco, um porta-voz da companhia, diz que a água do rio é ruim há anos, e que chuvas pesadas ocorridas na época dos episódios de contaminação provocaram uma enchente de curto período no curso d'água, o que fez com que sedimentos e outras substâncias fossem arrastados para a água. Mas a natureza do debate é em grande parte acadêmica porque, sem água apropriada para irrigar as culturas, muitos moradores não veem motivo para continuar resistindo às ofertas externas de compra dos direitos à água da cidade. Uma companhia mineradora, a Soquimich, ou SQM, acabou comprando cerca de 75% dos direitos à água de Quillagua. A maioria dos moradores se mudou; aqueles que permaneceram na cidade tem em média 50 anos de idade.
"Quillagua não será capaz de resistir por muito mais tempo", adverte Alejandro Sanchez, 77, apontando com uma bengala para um campo completamente seco e desprovido de vegetação, onde antigamente ele plantava milho e alfafa. Em 2007, a agência nacional de água passou a investigar alegações de que a Soquimich estaria extraindo mais água do Rio Loa do que teria direito. As autoridades dizem que o inquérito ainda está em andamento, embora a companhia sustente que nunca retirou água além da quantidade que lhe foi designada. Mas no início do ano passado, a agência regional de água passou a fazer monitoramento por satélite do Rio Loa. Após não ter registrado fluxo algum em 2007, Quillagua de repente recebeu pequenas quantidades de água no ano passado, e novamente em janeiro deste ano.
Segundo Claudio Lam, diretor regional da agência chilena de água, isso fez com que as autoridades suspeitassem que as companhias estivessem drenando mais água do que o permitido.
Mesmo assim, a água que chegou à cidade no verão ainda não é suficiente para possibilitar o cultivo de lavouras, afirma Victor Palape, chefe dos índios aimara de Quillagua. A cidade só sobrevive devido aos caminhões pipa que chegam diariamente, e que são parcialmente financiados pela Codelco e pela Soquimich, as duas companhias que os moradores culpam pelos seus problemas.
Quarta-feira, Abril 15, 2009
retratos
Terça-feira, Abril 14, 2009
momento
Os episódios recentes demonstram apenas o “processo de conta gotas" (Tavares) em que a crise vem sendo postergada, administrada. É sabido que nenhum arauto desse sistema sabe exatamente aonde isso tudo vai dar, inclusive porque os paradigmas históricos, inclusive do "ecologismo", continuam a procurar “associar à ofensiva destruidora contra os povos esses mesmos povos e suas organizações”. A propalada "gestão da crise", a questão dos preços do petróleo e o desenvolvimento dos biocombustíveis, a questão da “escassez” (de qualidade) da água, o “ouro azul” do século XXI, um direito humano, bem universal; apenas definida como “necessidade humana” pelo V Fórum Mundial da Água recém realizado em Instambul sob a pressão exercida pelo poderoso lobby privado do setor hídrico, que desconsiderou, mesmo em meio a presente crise econômica, que o peso de tal decisão atrasará em uma década o acesso à água potável para cerca de um bilhão de seres humanos, que ainda vivem sem ela, embora, seja de fato um bem essencial à vida na Terra.
A exportação da água virtual através do comércio de grãos e frutas para a China, União Européia e EUA, revela que onde a fome tem presença marcante também falta o uso adequado desse bem ambiental, e que o capital transformou através da criação dos mercados da água em um bem econômico (recurso hídrico). Tem um sentido fundamental toda a manobra dos governos do G7 frente a situação atual da economia mundial, em um quadro de crise gerada pela grande bolha originada de “capitais podres” e derivativos americanos, quando tangencia o problema da relação entre o tsunami da crise financeira e a questão climática global, que na verdade é propriamente ecossistêmica, partes que estão intrinsecamente relacionadas ao todo que não é somente uma expressão ou soma das partes e que não devem ser tratadas isoladamente, separadas, em qualquer tempo, pois, há um (des)equilíbrio vital por existir um inter-retro-relacionamento entre elas.
É de se questionar qualquer defesa desse quadro atual do capitalismo financeiro, transnacional, que se sustenta em fundamentos caducos ou "renovados" sobre um arcabouço teórico por demais testado e pouco criativo, que não engana mais ninguém (ou não?) em suas "repetições" e falsas crises de identidade que se reinventa, mas que não dura muito tempo em mostrar, a cada desmatamento, crime ambiental ou exploração do próprio homem, a sua direção: destruição da natureza e do ser humano. Fato é, que estamos frente a um momento de sérias mudanças (necessárias), não só de paradigmas relacionados ao que chamamos econômico, financeiro, mas, sobretudo, quanto à "teia da vida que não só humana", senão, da preservação da vida, em um sentido holístico, da percepção do "desenraizamento” da emoção humana, do ser da terra e da água, do ecossistema onde se insere o próprio homem.
Estamos no limiar de uma significativa ruptura de paradigmas, independente do que alguns iluminados achem, ou professem em suas "crenças" ou referências ideológicas.
O capitalismo já deu provas que tem limitações, e nos condiciona (a maioria da humanidade) a "sobreviver" como animais; seguindo as premissas darwinianas para "justificar a existência da concorrência e fazer da economia de mercado uma lei natural". Lembrando Engels: "Darwin não sabia que amarga sátira da humanidade, e especialmente de seus concidadãos, ele escrevia quando demonstrava que a livre concorrência, a luta pela vida, celebrada pelos economistas como a mais alta conquista da história, era o estado normal do reino animal".
pássaros
Os poemas...
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mario Quintana - Esconderijos do Tempo
Domingo, Abril 12, 2009
vivência (permanente)
Permanecer
Até onde nosso olhar se estende
Inesperada dança viva de entregas
Ainda que pareça simples e singela
Vamos em passos que se aprende
Mãos entreabrem visões distintas
Nossos rostos se mostram profundos
Risos nascem de nossa cara criança
Por alguns minutos recriamos tudo
Somos transformação seguida em vida
Queremos limpar o musgo das unhas
Brilhar livres às ìntimas galáxias
Sexta-feira, Abril 10, 2009
nu
Banho de rio
Amanhã, o movimento das águas será outro. As esperanças interiores são nítidas no ciclo da água. O que se enxerga de maneira diferente está lá, a um nariz de começar a querer o que a mudança oferece, e acontecer de ser como o rio. Entrar nele é o que ele sugere, molhar-se do fio do cabelo ao dedão do pé, se aproximar mais da margem desconhecida, caber dentro e fora dos limites, evitar estar só no querer, não esperar a hora que se vai, flutuar no banho ao seguir o fluxo corrente inteiro no respirar, daí chegar mais perto do outro lado sem previsão do efeito dessa renovação. Isso é como se trouxesse uma corredeira para dentro de si (a rocha tornar-se a bacia de águas suavizando-se, e as pedras, também conseguem encontrar umas as outras moldando-se arredondadas), e vivenciar ser o rio indo para o mar.
Veja o plano: sinta o toque, se dobre na emoção, seja isso logo cedo; sinta-se na carícia da textura das águas, seja parte do cio da terra, com algum cuidado ou mesmo tímido ar de afeto, aproxime-se, mas, seja algo de verdade próximo disso. Agora, como água corrente seguindo o aconchego do leito, já não será o mesmo. Que se descubra o outro, sem sentir os próprios pés no chão! Aceitando inovar-se inteiramente no que se ganha em alegria pelo presente trazido no sentimento do mesmo rio diferente. Afinal, temos uma certa correnteza que nem damos mesmo conta.
Às coisas dizem em sinais silenciosos, muitas vezes ignorados, que há uma esperança permanente de voltarmos àquelas paisagens como se ainda fossem as mesmas. Mesmo com os motivos que temos, como recuperar a chance colocada no passado? O que jamais podemos fazer mesmo após o descanso da viagem. O que mudou não continua sob a sombra das árvores que recuaram na curva do rio lá atrás, segue sempre com a gente. O truque é achar a hora de plantar as sementes esquecidas na mão, no coração. Assim, chegamos a outra margem do rio.
Há uma força que equilibra essa viagem, ela se banha na energia que consumimos do rio. Ela é recriada constantemente nessa experiência transparente, quando cada casca se quebra pelos raios de um sol sem repouso (nem sempre de graça), expondo nossa alma intensa que queima ao renascer no denso sentido que instiga a experiência da vida, e nos faz subir nos ares de sua criação desenhando o alfabeto das trocas, nos esperados abraços e nas lembranças de carinho. Aqui expandimos em uma chuva doce batida no chão, indo como o orvalho dormir sobre ramos de tulipas nas bordas do horizonte. E como guerreiros após o êxtase da vitória caímos em sono na cama do mar dos símbolos.
Sábado, Março 28, 2009
vindo no vento
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
Sexta-feira, Março 27, 2009
armadilhas
O AUTOMATISMO CONCORDO-DISCORDO E AS ARMADILHAS DO REDUCIONISMO
Humberto Mariotti *
Comecemos falando sobre a nossa tendência a reduzir. Trata-se de um processo natural, e como tal necessário para que possamos perceber e tentar entender o mundo. Reduzimos sempre o que percebemos à nossa capacidade de entendimento, ou seja, à forma como é estruturada a nossa mente.
O reducionismo é como o ego: indispensável mas questionável. Diante de um determinado fenômeno, nós o percebemos e reduzimos o que foi percebido à nossa estrutura de compreensão — ao nosso conhecimento, portanto. Mas, como é óbvio, reduzir algo ao nosso conhecimento é o mesmo que reduzi-lo à nossa ignorância. Daí a necessidade de um segundo passo — a reampliação —, que consiste em conferir o que foi percebido. Fazemos isso comparando-o com compreensões pessoais prévias e, a seguir, cotejando-o com a compreensão dos outros, por meio do diálogo e outras formas de interação e convivência. Dessa maneira, procuramos reampliar o que havia sido reduzido.
O problema é que nem sempre é fácil voltar a ampliar depois da redução inicial. Isso se dá porque tendemos a reduzir nossas compreensões às dimensões do nosso ego, que é frágil, medroso e teme a reampliação. Teme-a porque ela o põe à prova, leva-o a confrontar as suas percepções e entendimentos com os dos outros. Como está preparado para competir, o ego sempre vê os outros como adversários, e portanto sente-se sempre ameaçado por eles. Por isso, pensar segundo modelos predeterminados e buscar apoio em referenciais que julgamos inquestionáveis (pressupostos) tornou-se uma forma de remediarmos a nossa fraqueza. É um modo de pôr em prática o ponto de vista empiricista, que diz que existe uma realidade externa que é a mesma para todos.
Se essa tese fosse correta a cognição seria um fenômeno passivo. E assim, todos entenderiam o mundo da mesma maneira. Nessa ordem de idéias, quem não percebesse a "verdade" universal estaria com problemas e, portanto, precisaria de ajuda para alcançar o nível de percepção dos outros. Isto é: para perceber as coisas como "todo mundo" — o que equivaleria a entender a vida e pautar a conduta segundo as normas do senso comum. Entretanto, sabemos que percepções padronizadas levam a comportamentos padronizados. Esse é o principal problema da redução não seguida de reampliação.
Nossa tendência a eliminar é mais forte que a necessidade de integrar. Não sabemos ouvir. Quando alguém nos diz alguma coisa, em vez de escutar até o fim logo começamos a comparar o que está sendo dito com idéias e referenciais que já temos. Esse processo mental — que chamo de automatismo concordo-discordo — quando levado a extremos é muito limitante.
Ouvir até o fim, sem concordar nem discordar, tornou-se muito difícil para todos nós. Não sabemos ficar — mesmo de modo temporário — entre o conhecido e o desconhecido. Confundimos o desconhecido com o nada e por isso o tememos. A frase do escritor americano William Faulkner, "entre a dor e o nada eu prefiro a dor", traduz nosso apego a esse tipo de repetição.
Faça você mesmo a prova: tente escutar até o fim, sem concordar nem discordar, o que o seu interlocutor está dizendo. Procure evitar que logo às primeiras frases dele você já esteja pensando no que irá responder. Veja como isso é difícil — e então constatará que o automatismo concordo-discordo é uma das manifestações mais poderosas do condicionamento de nossa mente pelo pensamento linear, isto é, pelo modelo mental "ou/ou", — a lógica binária do sim/não.
O mundo desencantado
Em sua obra Ser e tempo — por muitos considerada um dos trabalhos filosóficos mais importantes do século 20 —, Martin Heidegger afirma que a história da metafísica ocidental é a história do esquecimento do Ser, porque esse pensamento configurou um modelo lógico, objetivo e tecnicista.
Em outras palavras, Heidegger sustenta que a razão instrumental ignorou o Ser. Para ele, ao longo da história da metafísica ocidental deu-se privilégio ao pensar — e ao pensar segundo a lógica binária de Aristóteles. Se tomarmos a frase cartesiana cogito ergo sum (penso, logo existo), é fácil observar que a filosofia ocidental se ateve aos padrões lógicos do cogito e esqueceu-se do sum, isto é, ligou-se ao pensar e esqueceu-se do existir.
Ao analisar o sujeito a partir de sua dimensão de existente (o sum), o propósito de Heidegger foi proceder ao que chamou de analítica existencial. Em obras posteriores a Ser e tempo, ele se preocuparia mais especificamente com a questão da técnica. Questionaria a transformação desta e da ciência positivista em objetos de adoração e culto por nossa cultura, tudo isso em função da prevalência do racionalismo e do pensamento quantificador.
Assim, o projeto da modernidade fez com que o homem se julgasse senhor do mundo natural. Por meio da técnica (que corresponde à colocação em prática do pensamento linear), ele vem tentando investigar, desvelar esse mundo. Contudo, os fatos mostram com uma freqüência cada vez maior que esse projeto não vem dando os resultados anunciados e esperados. De fato, a observação revela que em muitos casos a técnica tem criado mais problemas do que soluções. A devastação e a poluição da natureza pelos dejetos industriais é apenas um exemplo.
De acordo com Heidegger, o desvelamento do mundo por meio da técnica reprime esse mesmo desvelamento por meios não-técnicos. Em outras palavras, a consciência lógica (linear) reprime a consciência poética (não-linear). Eis o resultado do condicionamento de nossa cultura por esse modelo mental. Para o filósofo, ao reprimir outros modos de desvelamento da realidade (ou seja, ao unidimensionalizar essas tentativas de descobrimento), o racionalismo excluiu também muitas das possibilidades de compreendermos a nós próprios — passo indispensável para a investigação do mundo real. Além disso, esse modo de pensar não se deixa questionar com facilidade, o que por sua vez o torna limitado.
Leitor dos grandes poetas — em especial Hölderlin —, Heidegger costumava citá-lo: "Lá onde há perigo, ali também cresce o que salva". Dessa maneira, chegou a acreditar na salvação pela poesia (no sentido amplo do termo). Depois, entretanto, tornou-se cada vez mais cético a esse respeito: em vez de uma salvação pela consciência poética, ele previu o desencantamento cada vez maior do mundo pelo racionalismo.
Como se sabe, o desencantamento do mundo — ou racionalização — é a manifestação básica do condicionamento da civilização ocidental pelo pensamento linear. Antes de Heidegger, Max Weber já havia abordado esse tema. Weber caracteriza a história do Ocidente como um período no qual a visão de mundo mágica, extra-racional, foi substituída pelo método, pelo cálculo e pela quantificação. O processo se estendeu a todas áreas da atividade humana, inclusive ao âmbito dos Estados modernos. Essa circunstância produziu o fenômeno da dominação baseada em determinantes abstratas, traduzidas em normas e leis concebidas e aplicadas por uma casta de técnicos e especialistas — o universo da burocracia.
A mente desencantada
Como Weber, Heidegger também denuncia a dominância de nossa cultura pelo pensamento linear e analisa alguns de seus resultados. Este ensaio pretende mostrar que o automatismo concordo-discordo é um dos instrumentos mais eficazes desse modelo mental.
Tanto faz discordar ou concordar: o que é limitante é a reação instantânea, automática, linear, do tipo sim/não. É ela que fecha a nossa razão, que faz com que não possamos suspender, nem mesmo momentaneamente, nossos pressupostos e julgamentos. Desse modo, impede-nos de fazer escolhas além das programadas.
Concordar logo que percebemos que o interlocutor trata de algo sobre o qual já temos opinião formada também é uma forma de não querer ouvi-lo até o fim: "Já sei do que você está falando: por isso, não vou me dar ao trabalho de escutar mais". Dessa forma, utilizamos algumas das variantes do "já conheço", do "isso é antigo". Como se o outro não tivesse o direito de pensar e expor o que pensa à sua maneira, sendo ou não original o seu ponto de vista.
O mais comum, porém, é que logo que alguém começa a expor uma determinada idéia comecemos a buscar formas de contradizê-lo. Em qualquer das hipóteses, no fundo o que pretendemos é desqualificar o interlocutor. Discordando, concordando, ou mesmo fingindo concordar, nosso imediatismo acaba negando-o existencialmente.
Outro artifício é o chamado argumento ad hominem. Trata-se de dar destaque a quem argumenta e não ao argumento. E uma manobra muito usada para rejeitar uma idéia ou concepção só porque vem de alguém de quem não gostamos ou com quem não concordamos — ou o contrário.
Um exemplo disso pode ser observado na bibliografia de certas publicações. Pondo em prática o preceito "quem não está comigo está contra mim", muitos escritos são julgados sem leitura. De acordo com os autores citados (ou não) em uma determinada bibliografia, o texto é de saída julgado e rejeitado no ato ou aceito sem análise, conforme o caso. Parte-se do princípio de que ao incluir uma determinada referência o autor concorda com ela ou vice-versa. Logo, para que dar-se ao trabalho de ler?
O automatismo concordo-discordo é típico da lógica da nossa cultura patriarcal, que faz da desconfiança uma reação automática. Com efeito, numa cultura competitiva e reativa como a que vivemos, gostar dos outros e confiar neles não é nada fácil. O argumento ad hominemestá na gênese dos preconceitos, e continuará existindo e predominando enquanto durar a hegemonia desse sistema de pensamento.
O primeiro passo para a formação do preconceito é a separação entre o fato e o juízo que fazemos dele, isto é, pôr o julgado no lugar do dado. Sempre que isso acontece, ficamos com uma idéia-padrão, à qual recorreremos quando estivermos em situações semelhantes. O preconceito precisa da repetição, de referenciais passados, e abomina a diferença, as situações mutantes e a criatividade. Dessa maneira, o que antes podia (ou não) ser concebido agora é preconcebido. Trata-se de uma espécie de mecanismo de defesa contra a realidade, por meio do qual nos dispensamos do incômodo de viver certas experiências.
Desse modo, pomos de lado a vida e a substituímos por pressupostos. O que antes era experiência se estilhaçou e agora só restam fragmentos de percepção, dos quais escolhemos os que nos parecerem mais convenientes. Essa é a essência do julgado. Nossa cultura é orientada desse modo. Somos propensos a colocar o que deve ser no lugar do que é. Eis o universo da regra e do julgamento que, mesmo necessário em muitos casos, é devastador em inúmeros outros.
A arte de esperar
No dizer do matemático Claude Shannon, os fatos que acontecem de forma desordenada e sem significado são ruídos de comunicação. Contudo, o que para nós é ruído para outros pode ser informação e vice-versa. Além disso, o que num primeiro instante percebemos como ruído pode, algum tempo depois, ser percebido como informação.
Esse intervalo é o que se chama de tempo de defasagem ou tempo de espera dos sistemas. A incapacidade de respeitá-lo é um dos fatores que mais contribui para o estreitamento e o obscurecimento do nosso horizonte mental. É por isso que a diversidade de opiniões precisa ser respeitada: ela é a melhor forma de evitar a redundância e gerar informação. A redundância uniformiza. A informação forma por dentro, isto é transforma. A redundância gera condicionamentos. A informação produz aprendizagem, educa.
Os processos do mundo natural não são imediatos, como quer a ansiedade da nossa cultura. Exigem um tempo de evolução — o tempo de defasagem sistêmico —, que pode durar uma fração de segundo ou ser muito longo. Para nós é muito difícil lidar com essa imprevisibilidade, e por isso estamos sempre querendo atropelá-la, o que significa que tendemos a não respeitar as dinâmicas da natureza.
É claro que diminuir a prevalência do automatismo concordo-discordo não implica ter de concordar com tudo nem discordar de tudo. O que é importante é não concordar ou discordar logo de saída, porque essa atitude trava o nosso entendimento e fecha a nossa razão. Precisamos aprender a transformar o reducionismo em aliado, tirando-o de condição de armadilha que tende a nos aprisionar nos limites de nossa visão imediatista de mundo.
Aprender a ouvir até o fim, sem concordar nem discordar de imediato, é antes de mais nada uma postura de respeito ao outro. Talvez ele demore a entender isso e daí nem sempre nos retribua com o mesmo respeito. Mas não podemos depender dessa condição para exercer a nosso própria postura ética. No entanto, concordar nem sempre significa que devamos nos colocar à mercê das opiniões e preconceitos do outro, e discordar nem sempre significa que devamos colocar-nos à mercê de nossas próprias opiniões e preconceitos.
Em meu livro As paixões do ego, proponho um método a que dou o nome de "reflexão inclusiva". Ele busca ser um dos meios de tentar diminuir a dominância do automatismo concordo-discordo. Um de seus pontos básicos consiste em prestar especial atenção àquilo com que menos concordamos e aproximarmo-nos do que mais nos desafia. Isso não quer dizer, porém, que tenhamos de ficar sempre ouvindo ou observando sem tomar uma posição. Repito que o automatismo concordo-discordo é a reação reducionista imediata, automática, limitante, não seguida de reampliação.
Já sabemos que é muito difícil reampliar o que reduzimos. É bem mais fácil declarar que o horizonte mental de nosso interlocutor é estreito e que o nosso é amplo. A esse respeito, convém relembrar aqui uma curiosa espécie de reducionismo — a que pretende reduzir tudo a uma totalidade ideal: tudo é o "cosmos", tudo é a "totalidade" e assim por diante.
Trata-se, é claro, de uma forma de idealizar a compreensão, reduzir os seres humanos a espectadores de suas próprias vidas, evitar o convívio com as diferenças e incertezas e tentar eliminá-las por absorção. Como todo reducionismo radical, esse também constitui uma forma de autoritarismo. Traduz a falta de respeito à diversidade de opiniões e, portanto, à legitimidade humana do outro.
Existe outra variante do automatismo concordo-discordo, que consiste em a todo momento tentar estancar o discurso do interlocutor por meio de advertências, ressalvas e constantes recomendações de cautela, aconselhá-lo a "pensar bem", adverti-lo de que deve estar ciente dessa ou daquela exceção etc. São observações que, quando colocadas nos momentos oportunos, são em geral sensatas e pertinentes. Mas sua repetição compulsiva funciona como trava e produz um efeito censório e repressivo.
Para que o diálogo dê bons resultados, é preciso que respeitemos a legitimidade humana do outro. O que isso quer dizer? Para o biólogo Humberto Maturana, significa que o outro é legítimo por si mesmo: seu valor é intrínseco e por isso ele não precisa justificar-se por sua existência. É por essa razão que não devemos negá-lo por meio de artifícios como o automatismo concordo-discordo.
Mas, como já vimos, não podemos superar esse automatismo sem pôr o nosso ego à prova. As dificuldades implicadas nesse processo são imensas. Um exemplo do cotidiano ilustra esses obstáculos. Sabemos que os homens "práticos" costumam não levar a sério a "espiritualidade". De outra parte, os homens "espiritualizados" desprezam a prática, como alguns dos antigos faziam com os trabalhos manuais.
Dessa maneira mantém-se a divisão, que nada mais é do que uma manifestação do automatismo ao qual nos referimos. Ela pode ser expressa assim: "Presto sempre o máximo de atenção à pessoa com quem falo, mas não para verificar o efeito que o conteúdo do que ela diz produz em mim. Em vez disso o que faço é ficar vigilante, com a finalidade de surpreendê-la numa falha. Estou sempre alerta, para no momento ‘certo’ concordar ou discordar de modo automático. Para julgar essa pessoa a partir do que ela me diz agora. Para isso, uso a minha primeira impressão". Em nossa cultura esse mecanismo atinge a todos nós, sejamos ‘práticos’ ou "espirituais’".
É evidente que a capacidade de ouvir sem discordar nem concordar de imediato (isto é, ouvir de modo fenomenológico), pode ser aprendida, embora não seja um processo fácil. Vimos, com Shannon, que fatos que se reproduzem com regularidade são redundâncias. Já os eventos portadores de novidade, de surpresa, são informações. Ao acionar o automatismo concordo-discordo, buscamos reduzir a informação a um referencial conhecido. Tiramos-lhe o efeito surpresa, a aleatoriedade. Essa redução tem a "vantagem" adicional de fazer com que não pensemos.
É por isso que as pessoas nos cobram sempre opiniões fechadas. A dúvida e o talvez são circunstâncias assustadoras para nós. Em geral, assumimos uma posição preconceituosa diante dos indivíduos que nos dizem que ainda não têm opinião formada sobre um determinado assunto. Costumamos chamá-los de indecisos, porque estamos convencidos de que todos devem ter sempre posições imediatas e definitivas sobre tudo.
Preocupação e cuidado
Não tomar posição imediata, respeitar o tempo de espera dos sistemas, ouvir até o fim sem concordar nem discordar (isto é, sem fazer juízos imediatos de valor) — tudo isso nos ameaça. A sociedade nos cobra o uso sistemático do automatismo concordo-discordo. A atitude de espera, de observação inicial não-julgadora, é vista como estranha, como algo a ser combatido, um perigo. Se olharmos com cuidado, veremos que o ato de ouvir sem concordar nem discordar de imediato significa renunciar a traçar uma fronteira e ficar de fora dela.
Penso que agora é possível resumir alguns dos pontos que podem ajudar na prática da reflexão inclusiva:
1. A mente faz parte do cérebro; o cérebro faz parte do corpo; o corpo faz parte do mundo. Logo, a mente não é separada do mundo.
2. A realidade de um indivíduo é a visão de mundo que sua estrutura lhe permite perceber num dado momento.
3. Essa estrutura muda sempre, de modo que essa compreensão, que num dado instante nos parece fora de dúvida e definitiva, pode não sê-lo mais tarde.
4. Enquanto permanecer apenas individual, qualquer compreensão de mundo será precária. Por isso, é
preciso ampliá-la por meio do diálogo.
5.Com quanto mais pessoas conversarmos sobre nossas percepções e compreensões, melhor.
6. Quando maior a diversidade de pontos de vista dessas pessoas, melhor ainda.
7. Se uma conversa produzir em nós uma tendência a achar que não ouvimos nada de novo, é bem provável que estejamos na defensiva.
8. É muito importante dar especial atenção aos pontos de vista com os quais mais discordamos e aos comportamentos que mais nos irritam e desafiam.
9. Mas isso não quer dizer que estejamos obrigados a aceitar tudo ou a concordar com tudo. Significa apenas que o contato com a diversidade é fundamental para a aprendizagem e para a abertura de nossa mente.
10. Do mesmo modo, é fundamental dar a mesma atenção (no sentido de reavaliar sempre) aos pontos de vista com os quais mais concordamos, isto é, às crenças e pressupostos que nos deixam mais confortáveis, mais acomodados.
Pode-se também dizer que a reflexão inclusiva busca mais a sabedoria do que o conhecimento, pois o conhecimento procura definir e — em casos extremos — rotular os fenômenos, como se isso pudesse explicá-los em sua profundeza ou substituir sua naturalidade e originalidade. Chamar uma percepção que não conseguimos explicar de "ilusão de ótica" é um exemplo. Rotular (que é um exagero do diagnosticar) é bem mais rápido e exige menos esforço do que experienciar e compreender. Neste último caso, como já foi dito, é preciso aprender a lidar com o tempo de espera dos sistemas, coisa que nossa ansiedade torna muito difícil.
Daí a tendência a superdiagnosticar, que vem sendo denunciada, por exemplo, na medicina atual: grande ênfase no diagnóstico (que implica muita tecnologia, muito trabalho mecânico) e comparativamente poucos resultados no tratamento. Este exige a complementação do trabalho mecânico do diagnóstico pela compreensão da pessoa como uma totalidade: a preocupação, a solidariedade, o cuidado — enfim, tudo aquilo que o modelo de alteridade hoje predominante em nossa cultura dificulta ao extremo.
Mas sabemos que, infelizmente, a ênfase excessiva no diagnóstico nem sempre ajuda a quem de direito, isto é, ao doente. Basta lembrar as inúmeras doenças (e são muitas) diante das quais a medicina continua a confundir tratamento com explicações "científicas". Fala-se muito em "controle" e pouco em qualidade de vida, e assim a solidariedade que o paciente precisa receber do médico se perde no labirinto da tecnoburocracia e no hermetismo de seus jargões.
Por fim, é preciso ter sempre presente que as sugestões de reflexão acima enumeradas não constituem receitas nem muito menos diretivas. É melhor considerá-las componentes de uma lista necessariamente incompleta, a ser questionada, acrescida e melhorada. Não poderia ser de outra maneira, aliás. Daí se segue que a reflexão inclusiva está também muito longe pretender resolver, mesmo em parte, o problema do conhecimento. Seu objetivo é apenas ajudar a suavizar a rigidez do modelo mental dominante em nossa cultura.
Referências
HEIDEGGER, Martin. Being and time. Nova
BOHM, David. Thought as a system. Londres: Routledge, 1994.
BOHM, David. On dialogue. Londres: Routledge, 1998.
MATURANA, Humberto, VARELA, Francisco J. Autopoiesis and cognition; the organization of the living. Boston: Reidel, 1980.
VARELA, Francisco J. Sobre a competência ética. Lisboa: edições 70, s.d.
VARELA, Francisco J., THOMPSON, Evan, ROSCH, Eleanor. The embodied mind; cognitive science and human experience.
© Humberto Mariotti, 2000.
* HUMBERTO MARIOTTI. Professor e Coordenador do Centro de Desenvolvimento de Lideranças da Business School São Paulo. Consultor em desenvolvimento pessoal e organizacional. Conferencista nacional e internacional. Coordenador do Núcleo de Estudos de Gestão da Complexidade da Business School São Paulo.
E-mail: homariot@uol.com.br
derretendo os sólidos
Por Marcos Alexandre Ramos
I
Adelina, desnorteada protagonista de Os Sapatinhos Vermelhos, de Caio FernandoAbreu[1], movida pela cólera produzida ao término de um relacionamento afetivo, decide sair de sua casa para satisfazer seus desejos e preencher suas ausências subjetivas. Um espaço de variedades múltiplas, atraentes cardápios, opções de degustação, gôndolas de afeto, uma composição de fumaça, uísque, pouca iluminação: a transeunte protagonista de Caio Fernando Abreu elege a boate urbana como espaço de trânsito e vitrine de consumo. Lá, Adelina está livre para encontrar diversos parceiros, aleatórios e anônimos, acolher e produzir espasmos sexuais. Entre Adelina e seus possíveis parceiros, não há diálogo propriamente dito, não há troca de idéias, experiências ou memórias. Existe, apenas, uma breve troca de olhares que antecede um ligeiro reconhecimento. Como garante o narrador: “pacientes, divertidos, excitados: só cumpriram o ritual até chegar o ponto”. A protagonista, inserida no anonimato ofertado pela cidade[2], parece leve e pronta.
II
Ser leve e líquido. Segundo Zygmunt Bauman, o estado de fluidez é a representação adequada para captar o modo como se configura a presente fase da modernidade[3] - momento em que se insere a narrativa de Caio Fernando Abreu. A metáfora sobre o fluido (ou o líquido) tem raízes na famosa frase do “derretimento dos sólidos” cunhada pelos autores do Manifesto comunista. Em 1848, como nos lembra o pensador polonês, a frase “referia-se ao tratamento que o autoconfiante e exuberante espírito moderno dava à sociedade, que considerava estagnada demais para seu gosto e também resistente em demasia para mudar em seus caminhos habituais”. Se o “espírito” era “moderno”, como recapitula Bauman, ele o era na medida em que a sociedade deveria ser emancipada da inércia de sua própria história, e isso só poderia ser feito derretendo os sólidos, isto é, “dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune a seu fluxo.”
“‘Derreter os sólidos’, na modernidade, significava, antes e acima de tudo, eliminar as obrigações ‘irrelevantes’, era necessário, além disso, livrar-se de todo e qualquer entulho e obrigação que impedisse as iniciativas: “libertar a empresa de negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da densa trama de obrigações éticas; ou, como preferiria Tomas Carlyle, dentre os vários laços subjacentes às responsabilidades humanas mútuas, deixar restar somente o “nexo dinheiro”. [4] De forma progressiva, o espírito moderno tornou-se um espírito contábil e preencheu o dia de inúmeros seres humanos com “comparações, cálculos, determinações numéricas” e a “redução de valores qualitativos a valores quantitativos”[5].
Além de clamar pela libertação de todos os vínculos que resultaram historicamente no estado e na religião, na moral e na economia, o sujeito moderno, resistente ao nivelamento subjetivo enunciado pelo estreitamento entre as relações de alteridade e a economia monetária, reivindicou, como garante o sociólogo Simmel, “a particularidade humana” [6] - “os indivíduos, liberados dos vínculos históricos tradicionais, agora desejavam se distinguir um do outro”[7]. Progressivamente, a modernidade se tornou o local da enunciação dos mecanismos de individuação e experimentou os grandes centros urbanos como palco dos conflitos que circunscrevem este processo.
Georg Simmel aponta elementos fundamentais da constituição e do modo como se organizam as sociedades urbanas. Segundo o pensador alemão, a metrópole tem uma função essencial no desenvolvimento da modernidade, pois com a velocidade e as diversas formas da vida econômica, profissional e social que proporciona, fornece a arena para o incessante movimento de seus habitantes, visto que se define como “o lugar da divisão econômica do trabalho, da especialização, da fragmentação e do rompimento com vínculos históricos tradicionais.”
No entanto, como sublinha Bruno Souza Leal, “ao longo do século XX, muitas transformações interpuseram uma distância entre o mundo do flâneur e o do habitante da metrópole contemporânea” [8]. Se a metrópole moderna nasce sob o signo da ruptura, da cisão dos padrões e da fragmentação da tradição, a metrópole contemporânea (ou pós-moderna), local de enunciação das narrativas de Caio Fernando Abreu, se distingue, pois nela o “passado não é mais apagado”, ao contrário, “é recuperado, incorporado, sendo compartilhado inclusive com outras versões de si e, assim, torna-se mais um território escrito/inscrito/escritor da malha urbana.”[9]
Falar hoje em “derretimento dos sólidos”, modernidade líquida ou ainda em metrópole pós-moderna, significa referir-se a uma sociedade constituída de diversas possibilidades de existência e configuração subjetiva e modos de vida. Significa, ainda, reportar-se a um lugar em que seus habitantes não possuem a liberdade como uma opção ou como um processo de constituição subjetiva, tem, paradoxalmente, a obrigação e a necessidade deliberdade de escolha[10]. No entanto, livrar-se do peso dos mundos sólidos da modernidade, ou seja, ser leve e líquido, como recomenda a racionalidade pós-moderna (nas palavras de Bauman, a líquida racionalidade moderna), ao contrário do que escreveu Freud em sua análise sobre a modernidade, na modernidade líquida, não garante modos de vida que impliquem seguranças, certezas e garantias (unsicherheit[11]) subjetivas e materiais.
As mudanças estruturais nas bases da modernidade[12] tornaram-se, dessa maneira, fonte de um novo mal-estar – naturalmente, diverso daquele a que aludia o pensador vienense em seu famoso texto[13] – e passaram a corresponder ao que poderíamos denominar uma afirmação problemática dos mecanismos de subjetivação.
III
O texto Os Sapatinhos vermelhos, de Os Dragões não conhecem o paraíso[15], é divido em três partes, o primeiro momento é reservado para o anúncio do término de uma relação afetiva entre a protagonista e um personagem anônimo, descrito como um professor, “um-senhor-de-família-da-Vila-Mariana”. Em seguida, ainda na primeira parte do texto, verifica-se a reconstrução da identidade da protagonista e a reorganização dos possíveis sentidos implicados na constituição dessa nova identidade.
O narrador conduz a história, no início, em um espaço hegemonicamente subjetivo em que a protagonista, imersa em reflexões regadas a doses de uísques e tragadas de cigarro, repensa, não sem um acre sabor de ironia, momentos em que, segundo a própria personagem, esteve submissa aos desejos do seu amante. Vejamos no texto de Caio Fernando Abreu:
Uma japa, uma gueixa, isso que eu fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas – Glenn Miller ou Charles Aznavour? –, vertendo trêfega os sais – camomila ou alfazema? – na água da banheira, preparando uísques – uma ou duas pedras hoje, meu bem?
A narração, em Os sapatinhos vermelhos, operada como uma câmera sem suporte, oscila entre o olhar da protagonista narrado em primeira pessoa e em terceira pessoa, e aquele de um narrador heterodiegético. No espaço subjetivo encenado na narrativa, o narrador, apresentando-se predominantemente de forma heterodiegética, é peça decisiva na construção da identidade da protagonista. Enquanto a narradora-personagem descreve experiências e insatisfações referentes ao rompimento do laço afetivo, o narrador heterodiegético revela, já desde o início, a necessidade de mudança do processo de efetivação do desejo que será desenvolvido problematicamente no decorrer do texto.
Ao longo da primeira parte do texto, a protagonista Adelina, que “evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade de mulher solteira-e-independente-que-tem-um-amante-casado”, em decorrência do abandono afetivo[16] (leia-se: interrupção do desejo), caminha em direção a uma prática contrária aos elementos repressivos contidos nos símbolos moralizantes da cultura. Isso fica mais evidente quando o narrador situa a história no período da Sexta-feira Santa para o Sábado de Aleluia - momento, segundo a tradição judaico-cristã, da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ironicamente, o que prevalece na narrativa não é o amor cristão (Ágape), mas o desejo do corpo, a atração carnal (Eros). O conto Os Sapatinho Vermelhos é, sobretudo, uma história sobre a vitória de Eros[17].
Adelina, após o término da relação com o professor, depara-se com um esvaziamento absoluto de sua identidade. Aqui, observamos uma alusão ao ritual cristão, onde a morte representaria o término do laço e a ressurreição, por sua vez, o início da reconstrução dos fragmentos de identidade e a renovação de um eu dividido[18]. Os sapatinhos vermelhos, presente dado a Adelina pelo amante, simbolizam, no texto, o momento da reconfiguração da identidade. Se outrora a protagonista julgara o objeto ofertado ousado, agora, lhe parecia apropriado.
Após um longo e detalhado ritual de transformação inaugurado pelos sapatinhos vermelhos, Adelina se livra de qualquer atributo moralizante que organizava seu comportamento. Vejamos, no texto de Caio F.:
(...) sublinhou os olhos de negro, escureceu os cílios, espalhou perfume no rego dos seios, nos pulsos, na jugular, atrás das orelhas, para exalar quando você arfar, minha filha, então as meias de seda negra transparente, costura atrás, tigresa noir(...)
Apagou a luz do quarto, olhou-se no espelho de corpo inteiro do corredor. Gostou do que viu. Bebeu o último gole de uísque e, antes de sair, jogou na gota dourada do fundo do copo o filtro brando manchado de batom.
Como vemos neste fragmento, a mudança na configuração identitária tornam-se evidentes. Se, inicialmente, a narrativa elucida a representação de uma mulher “passiva" e queixosa, logo a seguir, essas características se liquefazem, pois a protagonista inicia um longo processo de defesa. A fim de proteger o eu das agressões contra suas exigências pulsionais, este processo desloca não só a identidade mas também o próprio desejo.[19]
Como um produto pronto para consumo, Adelina muni-se de todos os atributos femininos de sedução: “sublinhou os olhos”, “escureceu os cílios”, “espalhou perfume no rego dos seios”, vestiu “meias de seda negra transparente”, etc. Pronta, a personagem quer, agora, preencher a lacuna que a separa das relações de alteridade, de laços afetivos e de identidade. Para isso, Adelina busca certo distanciamento das instâncias legitimadoras sociais e dos espaços de controle, deixa sua casa e adentra os limites da metrópole pós-moderna.
A personagem vê suas possibilidades de reconstrução identitária na dinâmica do espaço, na possibilidade de anonimato e não-mapeamento que a metrópole propicia. Na boate, a protagonista se sente à vontade para assumir um outro nome. Adelina, agora, é Gilda. E Gilda está livre para transitar e multiplica relações efêmeras, ou seja, relações de curta duração que sustentam a reconfortante consciência de que você não precisa sair do seu caminho nem se desdobrar para mantê-las intactas por um tempo maior[20]. Como é de se esperar, nesse tipo de relação, as possíveis configurações fixas, sólidas, com seu cortejo de vetustas representações efetivas recém-formadas envelhecem antes de poderem cristalizar-se. Nenhum fluxo se orienta para o laço, o sexo é a síntese, mas efetua-se como espasmos e não como consolidação do laço e da alteridade.
O segundo momento da narrativa é reservado para o clima de sedução que se instala na boate e antecede o apogeu da narrativa. O ambiente de fascínio é evidenciado e fortalecido pela troca de olhares, contatos íntimos e, principalmente, pela narração de características corporais denotando excessiva sensualidade. Como se depreende, produtos prontos para serem consumidos, os personagens desfilam atributos sedutores.
No jogo de sedução, os anônimos personagens vão se aproximando da protagonista, primeiro “o negro”, depois o “moço dourado com jeito de tenista” e, finalmente, “o mais baixo”. Não há, entre eles, troca de memórias, menção a continuidades ou diálogo efetivo. O breve momento de reconhecimento, como é comum na obra de Caio Fernando Abreu, é seguido da efetivação sexual. Após o rápido ritual de sedução entre os atores sociais, o narrador heterodiegético conduz uma performática cena de sexo em que os três personagens se misturam à protagonista num revezamento exacerbado de consumo de possibilidades das práticas sexuais.
Na cena seguinte, “em frente ao espelho de corpo inteiro”, a protagonista, como garante o narrador,
“não era mais Gilda, nem Adelina nem nada. Era um corpo sem nome, varado de prazer, coberto de marcas de dentes e unhas, lanhados de tocos de barbas amanhecidas, lambuzadas de leite sem dono dos machos das ruas. Completamente satisfeita.”
Esperava-se que o sexo preenchesse a lacuna da alteridade, não admira que, como garante o sociólogo inglês Anthony Giddens[21], tenha crescido sua capacidade de gerar frustrações e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. O que ocorre em Os sapatinhos vermelhos é, novamente, um esvaziamento identitário da protagonista. A vitória de Eros na grande guerra da satisfação é, na melhor das hipóteses, segundo Zygmunt Bauman, uma vitória de Pirro. Pois, a satisfação imediata garantida não é sinal do fim, mas de recomeçar.
Como afeto dissonante, o espasmo de Adelina parece reescrever o ideal pós-moderno, ou seja, recomeçar, reorganizar, ressemantizar sem rupturas drásticas, enfim rever e redirecionar a identidade, o passado e o desejo. Entretanto, apesar do espasmo, da exuberância das práticas sexuais e dos consumos urbanos, bem como da plasticidade de todas as práticas simbólicas e de produção do sentido, a frustração ainda parece dominar a cena textualmente inscrita e, digamos, ousadamente, também o sujeito pós-moderno que transita caminhando por espaços e espasmos de demolição.
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[1] ABREU, Caio Fernando. Os Dragões não Conhecem o Paraíso. São Paulo: Cia das Letras, 1988.
[2] SIMMEL, George. Metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio (Org.) O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
[3] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001
[4] Ibidem.
[5] SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: CHOAY, Françoise (org.). O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, 1997.
[7] Idem. Metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio (Org.) O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976, p. 12-25.
[8] LEAL, Bruno Souza. Caio Fernando Abreu, a metrópole e a paixão do estrangeiro: contos, identidade e sexualidade
[9] Ibidem.
[10] JAMESON, Fredric. O pós-modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 2000.
[11] BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Trad. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
[12] Idem. Modernidade liquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
[13] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros trabalhos. In Obras completas, vol. XXI Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
[14] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
[15] ABREU, Caio Fernando. Os Dragões não Conhecem o Paraíso. São Paulo: Cia das Letras, 1988.
[16] KAUFMANN. Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Trad. Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 1996
[17] Ibidem.
[18] LAING, R. D. O
[19] KAUFMANN. Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Trad. Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 1996
[20] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
[21] GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Trad. Raul Fiker. São Paulo. Editora UNESP, 1991.
Marcos Alexandre Ramos é graduando em Letras-português pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em psicologia pelas Faculdades Integradas Espírito-Santenses (FAESA) e integra desde 2006 o grupo de pesquisa Literatura e outros sistemas de significação com o projeto de pesquisa Leves e líquidos – a urgência do sujeito e a constituição dos laços afetivos em narrativas de Caio Fernando Abreu. E-mail:marcos@marcosramos.com.br
(*) texto extraído do Portal Literatura e Arte Cronópios, postado em 23/1/2009 17:57:00.
Domingo, Março 22, 2009
só ouvidos
Nos 30 graus do outono
Minha nuca dói, pode ser que seja a pressão (16 por 9!!!!), talvez baixe logo ao normal, me deixe retomar as tarefas do dia que virou noite. Fico escutando, baixinho, a Diana Krall em “Maybe you’ll be there”, as tensões parecem que se desarmam nos meus ombros, escorregando devagar numa rota corporal descendente, por estruturas, dobraduras, pelos pontos de energia, até sumirem desatando os nós dos músculos aliviando um tanto meu temor já medido no aparelho digital.
Sigo na esperança de atualizar os estudos dessa semana passada. “Maybe...” me ajuda nesse momento no relax, regula pouco a pouco minha febre pela boa música, que está presente em quase todas as horas do dia-a-dia. Apenas procuro um dial não comercial. Pego a guitarra e complemento o calor da emoção em harmonia, “levo” o coração na mão com algumas canções minhas, são composições recentemente criadas. Logo dou uma pausa.
Volto a escutar a Lastfm, a Nina Simone cantando “Feeling Good”. Madeleine Peiroux vem chegando sensível e bate à porta da veia musical. A primeira vez que ouvi o seu CD “The Half Perfect World” foi uma sensação gostosa, resgatando coisas que imaginava ter esquecido há tempos, uma descoberta do verão passado com ela cantando “The Heart of Saturday Night” e “Little Bit”, me fez “ganhar” uma viajem até os anos ’60. Outra voz que cai bem na minha sintonia é a da Norah Jones, escute “Shoot the Moon”.
Então, vem a Billie Holiday, subitamente me arrepia “chorando” suavemente a linda “Lady Sings the Blues” e “I’ll Beeing See You”. Fico leve, me sinto melhor. Em uma seqüência incrível a Anita O’day canta “That Old Feeling” e a noite segue com “Quiet Fire” com a Melody Gardot, “Cry Me a River” pela divina voz de Dinah Washington, e é a vez de Natalie Colie (“You Gotta Be”), se ficar listando toda “constelação” vou sobrar na madrugada, vou nessa... Paro de escrever derretendo no calor de 30 graus do outono soteropolitano, e sou só ouvidos.

