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quarta-feira, novembro 24, 2010

uma desordem econômica!!!

GOLPES E CONTRAGOLPES NA ECONOMIA MUNDIAL
Existem temores de que se o caos monetário ou a guerra cambial não se solucionar, rapidamente o mundo deve enfrentar uma onda protecionista. O Instituto de Finanças Internacionais estima que cerca de 825 bilhões de dólares fluirão para os países em desenvolvimento este ano, um aumento de 42% em relação ao ano passado. Alguns países já introduziram mecanismos de controle de capitais. O Brasil triplicou o imposto aos estrangeiros que compram bônus locais. A Tailândia fixou um imposto de 15% sobre os juros e os rendimentos do capital em cima dos bônus tailandeses. A Coréia do Sul anunciou que estabelecerá novos limites no mercado futuro.
As últimas semanas viram o surgimento de um caos monetário que representa uma nova ameaça para as perspectivas de recuperação da economia mundial. Alguns dos países mais importantes estão tomando medidas para desvalorizar suas moedas a fim de obter vantagens comerciais. Se o valor da moeda de um país diminui, seus produtos de exportação ficam mais baratos e aumenta a demanda internacional. Por outro lado, as importações neste país ficarão mais caras, o que fomentará a produção local e melhorará a produção comercial. Mas os países que sofrem por causa destas políticas podem ir a forra, desvalorizando também suas moedas ou colocando barreiras ou altas tarifas alfandegárias em suas importações.
Isso pode levar a uma sucessão de desvalorizações competitivas como ocorreu nos anos 30, precipitando uma contração do comércio mundial e uma prolongada recessão. A situação atual é complexa e compreende ao menos três questões inter-relacionadas.
Em primeiro lugar, os Estados Unidos acusam a China de manter o yuan em um nível artificialmente baixo, o que – diz Washington – está causando seu enorme déficit comercial com a China. Um projeto de lei estadunidense está solicitando a aplicação de tarifas alfandegárias extras sobre os produtos chineses, enquanto a China assegura que isso vai contra as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que uma forte valorização do yuan seria desastrosa para sua economia e não contribuiria para corrigir o déficit estadunidense.
Em segundo, Washington está tratando de desvalorizar o dólar mediante uma nova rodada de “expansão quantitativa” nas qual o Banco Central gastará 600 bilhões de dólares para comprar bônus do governo e outras dívidas. Isso incrementará a liquidez no mercado, reduzindo as taxas de juro a longo prazo e, segundo se espera, contribuirá para a recuperação econômica.
Isso coloca os Estados Unidos na situação de ser acusado de provocar uma desvalorização competitiva. Além disso, essa nova liquidez se agregaria a uma onda de capitais que migram dos Estados Unidos, onde os rendimentos são muito baixos, para alguns países em desenvolvimento e emergentes. No passado, tais ondas de “dinheiro quente” foram bem recebidas pelos países receptores. Mas os países do Sur aprenderam com essas más experiências, quando repentinas entradas e saídas de capitais causaram sérios problemas como, por exemplo:
- A afluência de capital conduz a um excesso de dinheiro no país que o recebe, incrementando a pressão sobre os preços ao consumidor e alimentando as “bolhas de ativos” ou aumentos nos preços das casas e nas bolsas de valores. Essas bolhas cedo ou tarde explodirão, causando grande dano.
- A afluência de capitais estrangeiros fará com que a moeda do país receptor se valorize significativamente em relação a outras moedas. Nesse caso, as autoridades financeiras deveriam intervir no mercado para neutralizar essa valorização que encareceria as exportações nacionais.
- Os repentinos ingressos de capital também podem se converter em saídas repentinas de capital quando as condições globais mudam, como se viu na crise asiática de 1997. Isso pode causar uma desordem econômica, incluindo uma forte depreciação monetária, restrição de crédito, dificuldades na balança de pagamentos e recessão.
Recentemente o International Herald Tribune advertiu que Wall Street está comprando com avidez os ativos de economias emergentes e pediu as países em desenvolvimento que “prestassem muita atenção” e que “considerassem o controle de capitais para reduzir o ingresso desses capitais”.
Em terceiro lugar, alguns países já introduziram mecanismos de controle de capitais. O Instituto de Finanças Internacionais estima que uma soma de 825 bilhões de dólares fluirá para os países em desenvolvimento este ano, um aumento de 42% em relação ao ano passado. O Brasil triplicou o imposto aos estrangeiros que compram bônus locais. A Tailândia fixou um imposto de 15% sobre os juros e os rendimentos do capital em cima dos bônus tailandeses. A Coréia do Sul anunciou que estabelecerá novos limites no mercado futuro e solicitou aos bancos que não outorguem empréstimos em moedas estrangeira.
Finalmente, existem temores de que se o caos monetário ou a guerra cambial não se solucionar, rapidamente o mundo deve enfrentar uma onda protecionista, seja elevando barreiras aduaneiras, seja mediante depreciações competitivas.
(*) Martin Khor é diretor executivo do South Center
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior | Economia,  22/11/2010

domingo, novembro 21, 2010

atores-chave na OMC, mas não mais dominantes

VANTAGENS E INCONVENIENTES DA GLOBALIZAÇÃO COMERCIAL
Aqui está o paradoxo: o comércio aberto é mais fundamental que nunca para a economia mundial e um sistema de comércio multilateral, baseado em regras, nunca foi de tão vital importância para a prosperidade e a paz globais como agora. E isso não é fácil. As rapidamente emergentes potências, como China, Índia e Brasil jogam atualmente um papel que era inimaginável até 20 anos atrás. Mas, dado que o número de atores cresce e que sua participação se fortalece, a cooperação se torna mais difícil, especialmente quando os interesses são divergentes. A análise é de Pascal Lamy*
GENEBRA, Nov (IPS) – O panorama do comércio mundial mudou profundamente na última década e penso que o fez mais profundamente do que podemos compreender. 
Essas mudanças estão sendo impulsionadas parcialmente pela abertura do mercado, mas principalmente pelas tecnologias do transporte, as comunicações e a informação. Agora custa menos levar um contêiner de Marselha a Shangai, o que significa recorrer meio mundo, do que mandá-lo de Marselha a Avignon, cuja distância entre si é de 100 quilômetros. 
Um resultado dessas mudanças é a globalização continuada do comércio. Apesar da crise recente, as exportações mundiais foram 30% mais altas em 2009 do que em 2000 e uns 150% maior que em 1990. Nem todos os setores estão se expandindo no mesmo ritmo: as exportações de produtos industrializados estão subindo, as de matérias primas estão crescendo ininterruptamente e as agrícolas estão em grande medida estáticas. Mas a tendência é em direção à aceleração do crescimento. Nunca antes a economia mundial esteve tão relacionada com o comércio.
Outro resultado é a virada no que concerne ao poder econômico do Lest e do Sul, que se registra à medida em que os países em desenvolvimento aproveitam a globalização para “alcançar” o Ocidente industrializado. A participação dos países em desenvolvimento no comércio mundial cresceu em um terço a mais da metade só em 15 anos. É claro que nem todos os países em desenvolvimento são beneficiados por essa expansão, mas alguns que se converteram em grandes exportadores, como China, Índia, Brasil e outros estão crescendo a taxas historicamente sem precedentes. 
Outra novidade é a proliferação de cadeias de produção integradas globalmente. Com efeito, indústrias globais localizam diversos setores de sua produção nos mercados com custos mais eficientes. No entanto, pensamos que o comércio mundial se efetua entre nações, como o entendia Adam Smith no século XVIII, mas na realidade a maior parte do comércio agora tem lugar dentro de companhias multinacionais e de seus provedores. Não é a competição entre China e Estados Unidos que se torna tão relevante, frente que há entre, por exemplo, as cadeias produtivas da Nokia e da Samsung. Em lugar de “made in China” a marca de um iPhone deveria dizer “Feito no mundo”, dado que os microchips são japoneses, o design é estadunidense, as telas planas de cristal líquido são coreanas e a montagem é chinesa.
Estas novas realidades também nos forçam a reexaminar como analisar o conceito de “comércio internacional”. Com tanto comércio que envolve hoje companhias estrangeiras dentro de jurisdições nacionais e com tantos componentes que atualmente se entrecruzam as mesmas fronteiras em múltiplas oportunidades, que necessitamos de um novo enforque para as estatísticas comerciais que meçam o valor agregado em cada fase da cadeia de produção e não só no lugar em que o produto foi terminado. 
Aqui está o paradoxo: o comércio aberto é mais fundamental que nunca para a economia mundial e um sistema de comércio multilateral, baseado em regras nunca foi de tão vital importância para a prosperidade e a paz globais como agora. E isso não é fácil. O sistema comercial se tornou mais difícil de administrar à medida que também se tornou mais importante do que nunca. A espetacular redução das barreiras fronteiriças pôs em evidência diferenças estruturais mais profundas em parâmetros, regras ou sistemas legais, que estão gerando novas “fricções entre sistemas” as quais estão se demonstrando árduas de resolver.
Dado que o comércio se converteu em algo tão importante para as estratégias de desenvolvimento, estas também se tornaram cada vez mais importantes para o sistema. De fato, o desenvolvimento ocupa o centro do cenário nas atuais negociações comerciais da Rodada de Doha. E as regras do sistema em seu conjunto tiveram de se tornar mais técnicas, ter maior ingerência e ser mais vinculantes em relação a economias que, embora diversas, são muito mais interdependentes. 
À medida que o sistema se torna mais importante, também exerce um enorme impulso gravitacional sobre os países para que estes se associem e participem. A Organização Mundial do Comércio (OMC) se expandiu e de apenas 23 membros que tinha em 1947 passou a ter hoje 153 e facilmente poderia chegar a 180, dentro de uma década. Estados Unidos, União Européia e Japão seguem sendo atores-chave na OMC, mas já não são mais dominantes. As rapidamente emergentes potências, como China, Índia e Brasil jogam atualmente um papel que era inimaginável até 20 anos atrás. Mas, dado que o número de atores cresce e que sua participação se fortalece, a cooperação se torna mais difícil, especialmente quando os interesses são divergentes. 
(*) Pascal Lamy é Diretor Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior, 10/11/2010

quinta-feira, agosto 26, 2010

trabalho escravo, ainda...

Trabalho escravo pode ameaçar exportações do Brasil
Brasília - Durante o curso Trabalho Escravo – Aspectos Trabalhista e Penal, hoje (25), em Brasília, o ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, ressaltou que o trabalho escravo no país é uma questão que vai além dos direitos humanos e reflete na economia, ameaçando até as exportações. O ministro afirmou também que a não solução do problema é uma de suas “frustrações pessoais” na Secretaria.
“O Brasil corre os risco de ter problemas na Organização Mundial do Comércio (OMC) porque países concorrentes podem levar fotos e provas do uso de trabalho escravo na produção de soja, por exemplo”.
Ele também destacou a importância da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 438 para a erradicação do trabalho escravo no país. A PEC prevê a expropriação e destinação para a reforma agrária de todas as terras onde sejam flagrados trabalhadores em condições análogas ao trabalho escravo.
Os juristas presentes defenderam ainda a aprovação de outras proposições do Congresso, como o Projeto de Lei 207/2006 que proíbe a concessão de crédito e de participação em licitações do governo de empresas que expõe trabalhadores a situações degradantes.
Para o juiz Luciano Athayde Chaves, presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho, é preciso ir além das mudanças na lei e atentar para novas formas de exploração, que ocorrem também em centros urbanos. Ele acredita que o Estado deve oferecer apoio em várias frentes para resolver o problema. “Libertar o trabalhador sem oferecer reparação através de ações pedagógicas e da concessão de recursos por danos morais em ações coletivas é condenar o libertado a voltar à antiga condição”.
Segundo a presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho, Rosângela Rassy, a produção de etanol vem mudando os locais onde trabalhadores são submetidos a condições de trabalho escravo. “Em 2009, a Região Sudeste foi a campeã em autuações e resgate e também houve aumento no Sul”, afirmou. O curso para aprimoramento de magistrados continua até sexta (27) com palestras e oficinas.
Edição: Talita Cavalcante
Fonte: Agência Brasil, 25/08/2010

segunda-feira, abril 05, 2010

a "longa onda" da China

A China amarra os seus vizinhos

A locomotiva chinesa está realmente levando consigo, na pista de alta velocidade, o resto da Ásia para o nirvana econômico? Na realidade, o crescimento da China tem se realizado às expensas do Sudeste da Ásia. Os baixos salários impulsionaram os fabricantes locais e estrangeiros a deslocar suas operações da zona do Sudeste Asiático, com salários relativamente altos, e deslocá-las para a China. O contrabando maciço de mercadorias da China desbaratou praticamente todas as economias da ASEAN. O artigo é de Walden Bello.
Walden Bello - Huffington Post
Data: 21/03/2010

Com as negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, os pesos pesados do comércio internacional se lançaram numa corrida para alinhavar acordos comerciais com sócios menores. A China tem sido um dos países mais agressivos nesse jogo, como se tornou claro em 1° de janeiro, data em que entrou em vigor a Área de Livre Comércio China-ASEAN ou CAFTA (China ASEAN Free-Trade Area).
Apresentada como a maior zona de livre comércio do mundo, a CAFTA agrupará 1,7 bilhões de consumidores com um produto interno bruto de 5,9 trilhões de dólares e um comércio total de 1,3 trilhões de dólares. Com o acordo, o comércio entre a China e Brunei, Indonésia, Malásia, Filipinas, Tailândia e Cingapura, mais de 7000 produtos passaram a circular livres de impostos. Em 2015, os membros mais recentes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) – Vietnã, Laos, Cambodja e Miamar – irão se somar ao acordo de tarifa zero.
Especialmente em Beijing, as fábricas de propaganda vêm proclamando que o acordo de livre comércio traria “benefícios mútuos” para a China e a ASEAN. Em troca, a retórica triunfal tem estado ausente por parte da ASEAN. Em 2002, ano em que o acordo foi assinado, a presidenta das Filipinas, Gloria Macapagal-Arroyo, aplaudiu a emergência de um “grupo regional formidável”, que rivalizaria com os Estados Unidos e com a União Européia. Parece que os líderes da ASEAN começaram a se dar conta das consequências do que acordaram, que nesta zona de livre comércio a maioria das vantagens serão da China.
À primeira vista parece que a relação China-ASEAN tem sido proveitosa. Ao fim e ao cabo, tem sido um fator-chave de desenvolvimento do Sudeste Asiático a demanda da economia chinesa crescendo a um ritmo frenético, que começou em 2003, depois do baixo crescimento que se seguiu à crise financeira asiática de 1997-98.
Para o conjunto da Ásia, a China foi em 2003 e no começo de 2004 um importante motor de crescimento para a maioria das economias da região, segundo um informe das Nações Unidas, “as importações do país cresceram inclusive mais do que suas exportações, com uma grande proporção das mesmas procedentes do resto da Ásia”. Durante a atual recessão internacional os governos da ASEAN confiaram na China – que registrou uma taxa de crescimento anual de 10,7% no último trimestre de 2009.

Uma visão mais complexa

Porém, a locomotiva chinesa está realmente levando consigo, na pista de alta velocidade, o resto da Ásia para o nirvana econômico? Na realidade, o crescimento da China tem se realizado às expensas do Sudeste da Ásia. Os baixos salários impulsionaram os fabricantes locais e estrangeiros a deslocar suas operações da zona do Sudeste Asiático, com salários relativamente altos, e deslocá-las para a China.
A desvalorização do yuan chinês em 1994 teve o efeito de desviar do Sudeste Asiático parte do investimento estrangeiros direto. A tendência da ASEAN de perder terreno para a China se acelerou depois da crise financeira de 1997. Em 2000, os investimentos estrangeiros diretos na ASEAN reduziram-se a 10% de todo o investimento estrangeiro direto na Ásia em desenvolvimento, que era de 30% na metade dos anos noventa.
O declive continuou durante o resto da década, devido, em parte, segundo o Informe dos Investimentos Mundiais da ONU, à tendência a uma “maior competência da China”. Visto que os japoneses tinham sido os investidores mais dinâmicos da região, foi recebido com muito receio um informe do governo japonês que revelou que 57% das empresas manufatureiras transnacionais japonesas achavam a China mais atrativa que a ASEAN-4 (Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas).

Obstáculos numa relação comercial

O comércio tem sido uma outra área de preocupação, talvez maior. O contrabando maciço de mercadorias da China desbaratou praticamente todas as economias da ASEAN. Por exemplo, a indústria do calçado vietnamita sofreu muito com 70-80% das lojas do Vietnã vendendo sapatos chineses contrabandeados.
No caso das Filipinas, um estudo recente de Joseph Francia e Errol Ramos, da Aliança para o Livre Comércio, mostra que a indústria do calçado local também foi fortemente golpeada pelo contrabando de mercadorias chinesas. E mais, há uma ampla série de mercadorias que têm sofrido efeitos negativos, entre elas o aço, o papel, cimento, petroquímicos, plásticos e lajotas de cerâmica. Eles dizem que “muitas empresas filipinas, inclusive as que são globalmente competitivas, tiveram de fechar ou reduzir a produção e o emprego, devido ao contrabando”.
Devido ao contrabando, as cifras oficiais publicadas pela China, através de sua embaixada em Manila, que mostram que a balança de bens manufaturados e industriais da Filipinas é positiva, são questionáveis.
A CAFTA pode razoavelmente legalizar todo esse contrabando e piorar ainda mais, com isso, os já negativos efeitos das importações chinesas sobre a indústria da ASEAN.

A débâcle da "Colheita Precoce" tailandesa

Quando se trata de agricultura, as tendências estão mais claras. Inclusive sem acordo de câmbio livre, por exemplo, as Filipinas têm já um déficit de 370 milhões de dólares com a China.
Recentemente, estive em Benguet, uma área-chave de produão de frutas e verduras do país. Os agricultores estavam desanimados, quase resignados a serem destruídos pelo esperado dilúvio das mercadorias chinesas. Um funcionário do governo nacional lhes avisou de que sua única oportunidade de sobreviver era a invocação de restrições comerciais, baseando-se em queixas de que as importações chinesas não cumpriam as normas sanitárias – uma ação perigosa que poderia acarretar medidas de vingança. O governador da província se queixou de que a CAFTA atuava com má-fé, visto que a maioria dos agricultores não sabiam que as Filipinas tinham assinado o acordo lá em 2002.
Queixas igualmente amargas surgiram na Tailândia, onde o impacto do acordo Colheita Precoce com a China, sob os auspícios da CAFTA, tem estado melhor documentado.
Sob este acordo, a Tailândia e a China acordaram em eliminar imediatamente as tarifas de mais de 200 frutos e produtos agrícolas. A Tailândia exportaria frutas tropicais a China, enquanto que as frutas de inverno da China seriam escolhidas para o acordo de tarifa-zero. Contudo, as expectativas de um benefício mútuo se evaporaram em poucos meses. À Tailândia coube o cumprimento da parte do acordo.
Como anotado numa análise, “apesar do alcance limitado do acordo colheita precoce entre Tailândia e China, houve um impacto considerável sobre os setores por ele abarcados. O 'impacto considerável' foi o de eliminar os produtores de alho e cebolas roxas do norte da Tailândia e prejudicar as vendas de frutas e verduras de zonas temperadas dos Royal Projects [Foundation of Thailand]. Os jornais assinalaram que oficiais do sul da China se negavam a baixar as tarifas, como estipulava o acordo, enquanto o governo tailandês eliminou as barreiras aos produtos chineses.
O ressentimento dos produtores tailandeses de frutas e verduras diante dos resultados do acordo com a China contribuiu para o desencanto generalizado com o programa mais amplo de livre comércio do governo Thaksin Shinawatra. A oposição ao livre comércio foi um aspecto importante das mobilizações populares que culminaram num golpe militar que pôs esse regime abaixo em setembro de 2006.
A experiência tailandesa da Colheita Precoce criou consternação não apenas na Tailândia, mas em todo Sudeste Asiático. Ela fez crescer o temor de que a ASEAN se converta no desaguadouro dos setores muito competitivos da indústria e agricultura chineses, o que faria baixarem os preços devido ao trabalho urbano barato na China e ao trabalho ainda mais barato dos imigrantes das zonas rurais que chegam às cidades mais próximas. Contudo, esses temores nas bases da população caíram nos ouvidos moucos dos governantes da ASEAN que têm sido extremamente relutantes a contrariar a China.
O ponto de vista chinês Para os funcionários chineses, os benefícios de um tratado de livre comércio com a ASEAN, para o seu país estão claros. O objetivo da estratégia, segundo o economista chinês Angang Hu, é integrar mais completamente a China na economia global, como o “centro da indústria manufatureira mundial”. Uma parte central do plano consistiria em abrir os mercados da ASEAN aos produtos manufaturados chineses.
A China considera o Sudeste Asiático, que apenas absorve algo como 8% das suas exportações, como um importante mercado, com um potencial enorme para absorver ainda mais mercadorias, o que é especialmente importante, tendo em conta a crescente popularidade dos sentimentos protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia.
A estratégia comercial da China é um “modelo meio aberto”, argumenta Hu: “comércio aberto ou livre do lado exportador e protecionista do lado importador”.
A ASEAN beneficiária? Apesar das boas palavras de Arroyo e outros líderes, em 2002, quando o acordo foi firmado, o que está muito menos claro é como pode a ASEAN beneficiar-se da relação ASEAN-China. Os benefícios não virão certamente da fabricação intensiva de mão de obra, em que a China goza de vantagem imbatível por conta de seu trabalho barato. Os benefícios tampouco viriam da alta tecnologia, já que inclusive os EUA e o Japão têm medo da notável habilidade da China em mover-se rapidamente na direção da indústria de alta tecnologia, inclusive enquanto consolida sua vantagem na produção intensiva de mão de obra.
Tampouco a agricultura da ASEAN sairá beneficiária. Como a experiência do acordo Colheita Precoce, entre Tailândia e China mostrou, a China é claramente super-competitiva numa ampla gama de produtos agrícolas. Desde produtos temperados a produtos semi-tropicais, assim como na transformação dos produtos agrícolas. O Vietnã e a Tailândia poderiam ser capazes de defender-se na produção de arroz, a Indonésia e o Vietnã, na do café, e as Filipinas na do côco e seus derivados, mas é possível que não haja produtos a serem acrescidos à lista. Ademais, mesmo se a ASEAN, sob as regras da CAFTA, pudesse ganhar ou conservar competitividade em algumas áresa de manufatura e de comércio, não é provável que a China se afaste do que Hu chama de seu modelo “meio aberto” de comércio internacional. A experiência tailandesa da Colheita Precoce ressalta a eficácia dos obstáculos administrativos que podem atuar como barreiras não tarifárias na China.
No que concerne às matérias primas, a Indonésia e a Malásia têm petróleo, que é escasso na China; e a Malásia tem estanho e borracha, e as Filipinas têm azeite de dendê e metais. A China, porém, está reproduzindo amplamente a antiga divisão colonial do trabalho, com a qual recebe recursos naturais e produtos agrícolas de baixo valor agregado e vende às economias do Sudeste Asiático produtos manufaturados de alto valor agregado.
Estancadas as negociações multilaterais sobre o comércio na OMC, os grandes países comerciais embarcaram numa corrida para celebrarem acordos comerciais com sócios mais fracos. A China está se convertendo no país com mais êxito neste jogo, tendo conseguido criar a maior área de livre comércio mundial.
Para a China os benefícios estão claros. Para seus sócios no Sudeste Asiático, nem tanto. E mais: com a provável erosão de sua indústria e agricultura locais, o Sudeste Asiático pagará um alto preço por um mau acordo.

(*) Walden Bello é colunista sênior de Política Externa, é economista e analista da “Focus on the Global South”, com sede em Bangkok, preside a Coalizão para a Abolição da Dívida e é professor de sociologia da Universidade das Filipinas.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior

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