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quarta-feira, março 02, 2011

bilhões em lucro da especulação sobre a comida

Especuladores da fome fazem preço dos alimentos aumentar
Não são apenas más colheitas e mudanças no clima; especuladores também estão por trás dos preços recordes nos alimentos. E são os pobres que pagam por isso. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo. 
por John Vidal - The Observer
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Há pouco menos de três anos, as pessoas da vila de Gumbi, no oestede Malawi, passaram por uma fome inesperada. Não como a de europeus,que pulam uma ou duas refeições, mas aquela profunda e persistente fome que impede o sono e embaralha os sentidos e que acontece quando não se tem comida por semanas. Estranhamente, não houve seca, a causa tradicional da mal nutrição e fome no sul da África, e havia bastante comida nos mercados. Por uma razão não óbvia o preço de alimentos básicos como milho e arroz havia quase dobrado em poucos meses. Não havia também evidências de que os donos de mercados estivessem estocando comida. A mesma história se repetiu em mais de 100 países em desenvolvimento. 
Houve revolta por causa de comida em mais de 20 países e governos tiveram que banir a exportação e subsidiar fortemente os alimentos básicos. A explicação apresentada por especialistas da ONU em alimentos era de que uma “perfeita” conjunção de fatores naturais e humanos tinha se combinado para inflar os preços. Produtores dos EUA, diziam as agências da ONU, tinham disponibilizado milhões de acres de terra para a produção de biocombustíveis; preços de petróleo e fertilizantes tinham subido intensamente; os chineses estavam mudando de uma dieta vegetariana para uma baseada em carne; secas criadas por mudanças no clima estavam afetando grandes áreas de produção. 
A ONU disse que 75 milhões de pessoas se tornaram mal nutridas em função do aumento de preços. Mas uma nova teoria está surgindo entre economistas e mercadores. Os mesmos bancos, fundos de investimento de risco e investidores cuja especulação nos mercados financeiros globais causaram a crise das hipotecas de alto risco (sub-prime) são responsáveis por causar as alterações e a inflação no preço dos alimentos. A acusação contra eles é que, ao se aproveitar da desregulamentação dos preços dos mercados de commodities globais, eles estão fazendo bilhões em lucro da especulação sobre a comida e causando miséria ao redor do mundo. 
Conforme os preços sobem além dos níveis de 2008, fica claro que todos estão agora sendo afetados. Os preços da comida está subindo até 10%por ano no Reino Unido e na Europa. Mais ainda, diz a ONU, os preços deverão subir pelo menos 40% na próxima década. Sempre houve uma modesta, mesmo bem-vinda, especulação nos preços dos alimentos e tradicionalmente funcionava assim. O produtor X se protegia contra o clima e outros riscos vendendo sua produção antes da colheita para o investidor Y. Isso lhe garantia um preço e o permitia planejar o futuro e investir mais, e dava ao investidor Y um lucro também. Num ano ruim, o fazendeiro X tinha um bom retorno. Mas num ano bom, o investidor Y se saía melhor. 
Quando esse processo era controlado e regulado, funcionava bem. O preço da comida que chegava ao prato e do mercado de alimentos mundial ainda era definido por reais forças de oferta e demanda. Mas tudo mudou no meio dos anos 1990. Na época, após um pesado lobby de bancos, fundos de investimento de risco e defensores do "mercado livre" nos EUA e no Reino Unido, as regulamentações no mercado de commodities foram abolidas. Contratos para comprar e vender alimentos foram transformados em “derivativos” que poderiam ser comprados e vendidos por negociantes que não tinham relação alguma com a agricultura. Como resultado, nascia um novo e irreal mercado de “especulação de alimentos”. 
Cacau, sucos de fruta, açúcar, alimentos básicos e café agora são commodities globais, assim como petróleo, ouro e metais. Então, em 2006, veio o desastre das hipotecas podres e bancos e especuladores correram para jogar os seus bilhões de dólares em negócios seguros, alimentos em especial. “Nós notamos isso [especulação de alimentos] pela primeira vez em 2006. Não parecia algo importante então. Mas em 2007, 2008 aumentou rapidamente”, disse Mike Masters, gerente de um fundo no Masters Capital Management, que confirmou em testemunho ao Senado dos EUA em 2008 que a especulação estava inflando o preço mundial dos alimentos. “Quando você olha para os fluxos, se tem uma evidência forte. Eu conheço muitos especuladores e eles confirmaram o que está acontecendo. A maior parte do negócio agora é especulação – eu diria 70 a 80%.” Masters diz que o mercado agora está muito distorcido pelos bancos de investimentos. “Digamos que apareçam notícias sobre colheitas ruins e chuvas em algum lugar. Normalmente os preços vão subir algo em torno de 1 dólar (por bushel). Quando se tem 70-80% de mercado especulativo, sobe 2 a 3 dólares para levar em conta os custos extras. Cria volatilidade. Vai acabar mal como todas as bolhas de Wall Street. Vai estourar.” 
O mercado especulativo é realmente vasto, concorda Hilda Ochoa-Brillembourg, presidente do Strategic Investment Group de Nova York. Ela estima que a demanda especulativa para o mercado agrícola de futuros tenha aumentado entre 40 e 80% desde 2008. Mas a especulação não está apenas em alimentos básicos. No ano passado, o fundo Armajaro, de Londres, comprou 240 mil toneladas – mais de 7% do mercado mundial de cacau – ajudando a elevar o preço do chocolate ao seu mais alto valor em 33 anos. Enquanto isso, o preço do café pulou 20% em apenas três dias, resultado direto de aposta de especuladores na quebra do preço do café. 
Olivier de Schutter, Relator da ONU para o Direito à Alimentação, não tem dúvidas que especuladores estão por trás do aumento de preços. “Os preços do trigo, do milho e do arroz tem aumentado de modo significante, mas isso não está ligado a estoques ou colheitas ruins, mas sim a negociantes reagindo a informações e especulações do mercado”, ele diz. “As pessoas estão morrendo de fome enquanto os bancos estão se matando para investir em comida”, diz Deborah Doane, diretora do Movimento Global de Desenvolvimento de Londres. 
A FAO, órgão da ONU para agricultura, se mantém diplomaticamente evasiva, dizendo, em junho, que: “Fora mudanças reais em oferta e procura em alguns commodities, o aumento dos preços pode também ter sido amplificado pela especulação no mercado de futuros”. A [visão da] ONU tem o apoio de Ann Berg, uma das mais experientes negociantes do mercado de futuros. Ela argumenta que diferenciar commodities dos mercados de futuro e os relacionados com investimento sem agricultura é impossível. “Não existe maneira de saber exatamente [o que está acontecendo]. Tivemos a bolha das casas e o não-pagamento dos créditos. O mercado de commodities é outro campo lucrativo [onde] os mercados investem. É uma questão sensível. [Alguns] países compram direto dos mercados. Como diz um amigo meu. “O que para um homem pobre é um problema, para o rico é um investimento livre de riscos”. 
Tradução: Wilson Sobrinho
Fonte: Carta Maior, 01/03/2011

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

a negociação global de comida por investidores

Alta da comida é causada por especulação financeira, diz jornal britânico The Guardian

Reportagem do jornal britânico “The Guardian” divulgada nesta quinta-feira afirma que a alta nos preços da comida no mundo, que atinge recorde segundo a ONU, não é causada apenas por problemas climáticos (secas e enchentes), mas também por especulação de investidores com alimentos.
Alimentos como carne, cacau (matéria-prima para chocolate), café e suco de frutas viraram commodities globais e sofrem efeitos especulativos tanto quanto petróleo, ouro e outros metais, diz o texto.
A explicação da FAO (órgão da ONU para questões alimentares) é que a comida está subindo de preço porque grandes áreas de agricultura estão sendo usadas para produzir biocombustíveis, houve aumento no preço dos fertilizantes e a China está consumindo mais vegetais. Além disso, as mudanças climáticas também produzem colheitas piores.
Segundo o “Guardian”, uma nova teoria está surgindo entre economistas e empresários. Os mesmos bancos e investidores que especularam na crise imobiliária do sub-prime estão provocando a inflação global da comida, “ganhando bilhões e causando miséria ao redor do mundo”, diz a reportagem.
De acordo com o jornal, esses especuladores estão se aproveitando da desregulamentação do setor de commodities em meados dos anos 90, quando se passou a permitir a negociação global de comida por investidores que não têm relação nenhuma com agricultura. Isso mudou o panorama. Com as dificuldades do mercado imobiliário americano em 2007, bilhões de dólares de fundos foram movidos para investimento em alimentos (leia a reportagem do “Guardian” na íntegra em inglês). Também "colada" logo abaixo
Da Redação de UOL Notícias.
Fonte: EcoDebate, 04/02/2011
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Food speculation: 'People die from hunger while banks make a killing on food'

It's not just bad harvests and climate change – it's also speculators that are behind record prices. And it's the planet's poorest who pay
Illustration: Katie Edwards
Just under three years ago, people in the village of Gumbi in western Malawi went unexpectedly hungry. Not like Europeans do if they miss a meal or two, but that deep, gnawing hunger that prevents sleep and dulls the senses when there has been no food for weeks.
Oddly, there had been no drought, the usual cause of malnutrition and hunger in southern Africa, and there was plenty of food in the markets. For no obvious reason the price of staple foods such as maize and rice nearly doubled in a few months. Unusually, too, there was no evidence that the local merchants were hoarding food. It was the same story in 100 other developing countries. There were food riots in more than 20 countries and governments had to ban food exports and subsidise staples heavily.
The explanation offered by the UN and food experts was that a "perfect storm" of natural and human factors had combined to hyper-inflate prices. US farmers, UN agencies said, had taken millions of acres of land out of production to grow biofuels for vehicles, oil and fertiliser prices had risen steeply, the Chinese were shifting to meat-eating from a vegetarian diet, and climate-change linked droughts were affecting major crop-growing areas. The UN said that an extra 75m people became malnourished because of the price rises.
But a new theory is emerging among traders and economists. The same banks, hedge funds and financiers whose speculation on the global money markets caused the sub-prime mortgage crisis are thought to be causing food prices to yo-yo and inflate. The charge against them is that by taking advantage of the deregulation of global commodity markets they are making billions from speculating on food and causing misery around the world.
As food prices soar again to beyond 2008 levels, it becomes clear that everyone is now being affected. Food prices are now rising by up to 10% a year in Britain and Europe. What is more, says the UN, prices can be expected to rise at least 40% in the next decade.
There has always been modest, even welcome, speculation in food prices and it traditionally worked like this. Farmer X protected himself against climatic or other risks by "hedging", or agreeing to sell his crop in advance of the harvest to Trader Y. This guaranteed him a price, and allowed him to plan ahead and invest further, and it allowed Trader Y to profit, too. In a bad year, Farmer X got a good return but in a good year Trader Y did better.
When this process of "hedging" was tightly regulated, it worked well enough. The price of real food on the real world market was still set by the real forces of supply and demand.
But all that changed in the mid-1990s. Then, following heavy lobbying by banks, hedge funds and free market politicians in the US and Britain, the regulations on commodity markets were steadily abolished. Contracts to buy and sell foods were turned into "derivatives" that could be bought and sold among traders who had nothing to do with agriculture. In effect a new, unreal market in "food speculation" was born. Cocoa, fruit juices, sugar, staples, meat and coffee are all now global commodities, along with oil, gold and metals. Then in 2006 came the US sub-prime disaster and banks and traders stampeded to move billions of dollars in pension funds and equities into safe commodities, and especially foods.
"We first became aware of this [food speculation] in 2006. It didn't seem like a big factor then. But in 2007/8 it really spiked up," said Mike Masters, fund manager at Masters Capital Management, who testified to the US Senate in 2008 that speculation was driving up global food prices. "When you looked at the flows there was strong evidence. I know a lot of traders and they confirmed what was happening. Most of the business is now speculation – I would say 70-80%."
Masters says the markets are now heavily distorted by investment banks: "Let's say news comes about bad crops and rain somewhere. Normally the price would rise about $1 [a bushel]. [But] when you have a 70-80% speculative market it goes up $2-3 to account for the extra costs. It adds to the volatility. It will end badly as all Wall Street fads do. It's going to blow up."
The speculative food market is truly vast, agrees Hilda Ochoa-Brillembourg, president of the Strategic Investment Group in New York. She estimates speculative demand for commodity futures has increased since 2008 by 40-80% in agricultural futures.
But the speculation is not just in staple foods. Last year, London hedge fund Armajaro bought 240,000 tonnes, or more than 7%, of the world's stocks of cocoa beans, helping to drive chocolate to its highest price in 33 years. Meanwhile, the price of coffee shot up 20% in just three days as a direct result of hedge funds betting on the price of coffee falling.
Olivier de Schutter, UN rapporteur on the right to food, is in no doubt that speculators are behind the surging prices. "Prices of wheat, maize and rice have increased very significantly but this is not linked to low stock levels or harvests, but rather to traders reacting to information and speculating on the markets," he says.
"People die from hunger while the banks make a killing from betting on food," says Deborah Doane, director of the World Development Movement in London.
The UN Food and Agriculture Organisation remains diplomatically non-committal, saying, in June, that: "Apart from actual changes in supply and demand of some commodities, the upward swing might also have been amplified by speculation in organised future markets."
The UN is backed by Ann Berg, one of the world's most experienced futures traders. She argues that differentiating between commodities futures markets and commodity-related investments in agriculture is impossible.
"There is no way of knowing exactly [what is happening]. We had the housing bubble and the credit default. The commodities market is another lucrative playing field [where] traders take a fee. It's a sensitive issue. [Some] countries buy direct from the markets. As a friend of mine says: 'What for a poor man is a crust, for a rich man is a securitised asset class.'"
Fonte: Guardian | Posted by John Vidal Sunday 23 January 2011 00.02 GMT

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