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segunda-feira, agosto 24, 2009

prosa

Andar ereto
por Viviane de Santana Paulo

Houve aquele domingo da semana, sem saber ao certo o que fazer a mãe ficou feliz com a espontânea idéia de ir ao zoológico com as crianças — programa perfeito para um domingo sem planos. As crianças estavam animadíssimas, empolgadas em ver o leão, o urso polar e os macacos. Foram de carro, suas duas filhas e os dois filhos da vizinha, o marido ficou em casa, reparando alguma coisa no computador, um vírus de última hora se alastrando na sagrada paz do domingo, não houve remédio, o homem teve de ficar sentado em frente à tela eletrônica.
É uma grande vantagem não haver trânsito nas ruas, elas adquirem uma outra aparência, temos a impressão de estarmos em uma outra cidade ao depararmos com o sossego superficial e as ruas momentaneamente desabitadas.
Um repentino bem-estar apoderou-se da motorista cantando uma música infantil com as crianças, dirigindo o automóvel, atravessando uma metrópole infestada de civilização duvidosa. Ela logo arrumou um lugar no estacionamento, não estava cheio, não se sabe o que as famílias ficam fazendo nos domingos ao invés de levarem os filhos ao zoológico. Ah, talvez estivessem em casa, assim como seu marido, consertando o computador. A mãe comprou o sorvete na entrada e todos seguiram para dentro do parque, bem próximos uns dos outros para não se perderem.
Havia a jaula estreita da pantera andando de um lado para o outro, quase não havendo espaço para dar a volta com seu corpo negro e selvagem e ela fitava as grades de aço passando verticais pelos olhos felinos e verdes. Como se não houvesse nenhum mundo por trás das grades e não havia, porque o mundo que se tem é aquele no qual se vive.
Eva estava agora diante da jaula dos macacos, viu uma fêmea amamentando o filho. Quantas vezes não se sentou assim com a Maria no peito? Mas aquela não era ela, era um animal, um mamífero, que dá leite às crias, mas não as levam à escola. Riram com os macacos, da semelhança que possuem com os seres humanos e porque não limpam a bunda. A fêmea fez um carinho no filho. Repararam que do outro lado do habitat um velho macaco pegava no sono deitado numa rede, os pequenos olhos abriam e fechavam, ele olhava sonhando para as crianças. O macaco estava nesse zoológico já havia alguns anos, depois que escreveu o tal relatório para a academia, deram-lhe um monte de medalhas, de prêmios, e o deixaram em paz. Porém, logo viram que ele vivia muito em paz e resolveram lhe tirar as medalhas, os prêmios, e o colocaram na jaula dos macacos para ser igual aos outros. Temos que fazer parte de nossa espécie e ser como ela e não rebelar-se ou mostrar superioridade. Foi esse o argumento usado para o processo de regressão doAffe. Contudo, ele demorava-se a ficar igual aos de sua espécie, continuava inteligente e escrevendo as esconsas. Os manuscritos eram sabotados para fora da jaula e publicados sob pseudônimo nos jornais. De resto, ele dissimulava que era igual aos outros e os homens sabiam que ele dissimulava e que ele sabia que eles sabiam que era simulacro.
A arte de viver é também fingir não conhecer a verdade, seguir mostrando que o que sabemos é somente aquilo que exigem de nós, o que é permitido, outra coisa é fuga, o risco de sobreviver por si só, de ser livre; fingir que não estamos cientes de os outros de nossa espécie saberem que simulamos a verdade. Enfim, tudo se resume em um fingimento e a verdade em si se perde em alguma fresta dessa encenação, da hipocrisia.
Eva não se recordava muito bem, mas havia lido algo do macaco no jornal. Engraçado, com tantas coisas para fazer, não conseguia se lembrar do tema, tinha apenas certeza de ter sido um desses escritos levados para fora do zoológico. Os leitores conheciam o dilema, liam os artigos impregnados de desespero apático, sabendo que era injusto, mesmo assim ninguém fazia nada pelo macaco. Deixaram-no abandonado à sina de ser ele próprio.
A míope ajeitou os óculos na cara, viu que estavam sujos, tirou-os, limpou-os na barra da blusa, e colocou-os novamente. Muitos não haviam lido o tal do relatório, senão esse animal não estaria ali, atrás da jaula de vidro cheia de plantas e cipós, de onde os macacos nos olham sem entender o quanto somos esquisitos, selvagens e falsos com nossa espécie e com as outras.
Estavam agora em frente à jaula do orangotango, Eva reparou que os pêlos meio alaranjados estavam sujos e refletiu sobre a sorte que ele teve de ser absolvido, os crimes cometidos na rua Morgue foram perdoados. Afinal... não passava de um animal que não sabe o que faz.
E Eva continuou pensando que, há milhões de anos, se não tivéssemos nos levantado, estaríamos como eles. Foi o andar ereto a grande chave do desenvolvimento, a partir daí iniciou-se o vôo rasante para o futuro imprevisível e inerente, em linha reta ao progresso humano, à solidão e ao isolamento. Porém, a partir daí procura-se o distanciamento do mundo animal. O homem se colocou num ápice, cada vez mais evidente, onde somente ele é o soberano e tenta negar a si próprio. O andar ereto para o futuro desconhecido, contra a parede, as grades da jaula estreita.
Eva andava ereta, com o corpo de fêmea que havia parido, os seios caídos amparados pelo sutiã, os quadris largos, as celulites nas nádegas, a barriga flácida, o excesso de peso inchando os pés pequenos. Estavam no caminho que ia dar no viveiro dos pássaros: gaivotas; araras coloridas; tucanos curiosos; papagaios verdes e amarelos, e tagarelas; revoada de periquitos... Pareciam tão livres, tão livres...! Batiam as asas e alguns se sustentavam no ar: tão leves, tão leves... e soltos ali dentro. Habituaram-se porque quando não há outra possibilidade, a única sobrevivência é adaptar-se ao que se vive no momento. E o homem se adapta com rapidez! Os animais demoram mais, alguns acabam morrendo. Não estes que já estavam habituados à restrita imensidão, ao azul do céu engradado e à brisa trazendo, de vez em quando, o cheiro do distante.
Em seguida pegaram um atalho para irem ao habitat do jaguar onde uma pomba obstruía o caminho estreito e não se movia com os movimentos espalhafatosos das crianças, os gritos e risos altos. A pomba inofensiva e insistente, fitava arrulhando aqueles seres humanos, amedrontando passantes de um caminho corriqueiro. Mas ela não era o Noel, não ficaria ali estarrecida e ameaçada, pensando em tudo que poderia ter sido e não foi e no abismo que havia entre ela e aquela espécie. Pegou as crianças pela mão e foi decidida em cima do estorvo. A pomba que desse passagem e não ela! Porém, a ave não saiu do lugar, mesmo tendo os pés das crianças quase em cima da cabeça. As crianças riram e em seguida ignoraram a pomba, esqueceram o episódio, queriam ver o jaguar que era muito mais interessante do que uma simples pomba cotidiana e doméstica.
Eva deu a volta, as crianças a seguindo, juntas, para não se perderem no enorme zoológico tranqüilo de um domingo à tarde, com os pais na frente do computador, por causa de um vírus infectando os costumes e rituais de antigamente. E o jaguar que havia andado pela imensa floresta do equador, salvado Antonio José Bolivar, estava mancando, dava para ver quando se levantou para ir comer o alimento que os funcionários lhe ofereceram. As crianças ficaram com muita pena dele. Melhor sair daqui, ir para outro bicho menos fragilizado! Porque não queremos a fragilidade, buscamos a força e nos esquecemos que uma depende da outra, para entrelaçar-se e formar uma coisa só.
Chegaram então na jaula da mula-sem-cabeça jorrando fogo pelo pescoço, cavalgando num cercado sem mato e capim e defecando crenças que lhe introduziam pescoço abaixo, como se enfia uma pá de carvão no forno. Impressionante como modernizaram seu habitat: um vidro à prova de fogo e escuro, lá dentro as noites de quinta-feira, os pecados da carne da mulher e a infidelidade dos sacerdotes.
No habitat do boto a água turva do Rio Negro reluzia a pele rosa. Ele nadava com tanta desenvoltura e sorria atrás do vidro do gigantesco aquário. Aquele sorriso incrustado no focinho. Há espécies que são assim: carregam esse sorriso incrustado que não desmancha nem quando estão tristes ou odiando ou falecendo. E, enquanto todos se certificam de sua felicidade, eles se corroem por dentro cada vez mais e o sorriso ficando ainda mais evidente.
Ali estavam no covil das anacondas. Eva se lembrou da manchete dos jornais sobre o regresso da anaconda que fugiu do zoológico. Depois de ter conseguido a liberdade, caiu nas garras da selva que não era mais a mesma. Veio um homem, depois outro e mais outros e a selva se tornou outra coisa. A anaconda não reconheceu mais sua pátria e regressou ao cárcere voluntariamente. Isto também acontece, quando cerceiam a confiança no nosso mundo, desmatam aquilo que tanto conhecemos e que faz parte de nossa natureza. Foi uma sensação! Todos queriam visitá-la, recebeu um habitat maior, mais alimento e aquele respeito indevido, do qual era obrigada a usufruir, porque o respeito maior e autêntico seria a selva, mas esta já lhe era há muito inacessível.
Havia também os filhotes da imensa anaconda, que havia sido a rainha da selva, e que morreu com um tiro na cabeça, quando certo vaporzinho passava pelo rio Paranahyba. O passageiro avistou, de longe, o réptil na margem do rio, e atirou, acertando-a na mente. Restaram os ovos que havia botado, um momento antes, no meio do corpo em putrefação do homem que havia morrido por ali, sem ninguém saber. O homem morto que ela tanto velou para, por fim, usá-lo como ninho de vida selvagem e livre.
Agora estavam cansados e foram para uma dessas lanchonetes estratégicas no meio do zoológico, cheia de souvenires de bichos de plástico, adesivos, camisetas, canecas, livros, Cds e etc. Havia algumas mesas no terraço, com o guarda-sol aberto, pois fazia calor, de onde se podia ver os longos pescoços das girafas comendo folhas colocadas nas cestas penduradas nos galhos das árvores.
As crianças comeram hambúrgueres, tomaram coca-cola e estavam correndo pra lá e pra cá. Eva se cansou de dizer para uma e para outra: não faz isso, não faz aquilo, não mexe aí, não sobe aí, deixa isso e etc. Calou-se e a boca mordeu o hambúrguer. Estava mastigando o grande pedaço e só reparou que estava com mais fome do que pensava quando sentiu o gosto da carne bovina. Não era nenhuma vaca sagrada, nenhum boi mitológico seqüestrando a Europa sentada em seu lombo, atravessando o Mediterrâneo. Era a carne de um boi cheio de antibióticos, que passou a vida inteira imóvel dentro de um cercado de ferro, onde não podia sequer enfiar os chifres no impenetrável obtuso e tê-los partidos. Ter partido não o obtuso que é duro demais, mas os chifres! Nem isso podia fazer, autodestruir-se, tinha de esperar que outros o fizessem da maneira e na hora que quisessem. Para depois devorarem-no assim: com maionese e ketchup.
Continuaram o passeio, mas de repente, entrando por um atalho para chegar no viveiro das focas, depararam-se com um chiqueiro de porcos. Mas o que esses animais estavam fazendo num zoológico? Eram simplesmente porcos, desses que a gente vê nas fazendas. Naturalmente, os filhos nunca os haviam visto, viviam nessa grande cidade e estavam integrados nessa época, gostavam de ver televisão e jogar no computador. Onde veriam suínos? Só mesmo no meio do pão, no lanche para a escola, ou no feijão, quando cozinhava feijoada. Seja como for, achou interessante encontrar o animal caseiro no meio de um zoológico cheio de bichos selvagens. Vai ver que serviriam de alimento para alguns dos animais! E por que quebraria a cabeça se não era nenhuma Mrs. Jones na fazenda de Mr. Jones cuidando de alguma revolução de bichos?
Contemplaram os porcos como se fossem qualquer outro animal exótico na iminência de ser extinto, encarcerado na civilização.
Depois seguiram adiante.
Pararam em frente aos rinocerontes, parece que não se achavam mais os melhores do mundo e não tentavam mais dominar toda a cidade, como haviam feito em certo momento da história. Andavam de um lado para o outro, com o corpo maciço, preocupados com o passado pesado. E as crianças, de repente, repararam no senhor Behringer, que coçava a cabeça do seu lado, e gritaram seu nome. O senhor behringer era o vizinho alcoólatra de Eva que costumava vir sempre ao zoológico para tentar descobrir se era o rinoceronte africano que possuía dois chifres ou o asiático. Era fixado nos rinocerontes ou traumatizado porque, por mais que Behringer seja ele mesmo, os rinocerontes não irão deixar de ser rinocerontes com um ou dois chifres, não serão extintos, alguns permanecerão ainda tentando dominar a cidade e o mundo. Mas Eva nunca se deixará dominar por esses brutamontes, pensou ela também coçando a cabeça num gesto automático. Depois olhou furtivamente para o senhor Behringer que lhe sorria, cumprimentando-a. Ele sempre lhe perguntava se ela sabia qual rinoceronte possuía dois chifres. "O africano" —, respondia, pois ela se informara, depois de ouvir essa pergunta várias vezes. Mas o que adiantava lhe responder se o senhor Behringer não deixava de repetir essa pergunta? Eva se despediu do vizinho amavelmente, chamou as crianças e continuaram o passeio. Porém, de vez em quando, sentia suas pernas engrossarem, ficarem pesadas, se sentia corpulenta, maciça e cansada, com uma dor de cabeça no meio da testa...
Melhor ir embora!
No final da tarde, na saída do zoológico Eva pensou: bem mais adiante é a amplitude ou o cimo frio do pedestal?
No fundo, fomos nós que andamos uma parte muito importante de nós. Para, por fim, pegarmos nossos filhos e levá-los para casa.
Havia começado a chuviscar uma garoa fina de verão, o ar estava abafado e nublado. Eva veio dirigindo o carro, torcendo para que o marido tivesse terminado de consertar o computador e as crianças pudessem jogar.

Do livro: Estrangeiro de mim, Gardez Verlag Alemanha, 2005.

Viviane de Santana Paulo publicou Passeio ao longo do Reno (poesia) e Estrangeiro de mim(contos), na Alemanha. A autora pertence à primeira geração de escritores brasileiros radicados no exterior. Promove autores brasileiros no meio literário alemão:foi mediadora na publicação dos artigos de Affonso Romano de Sant`anna e José Miguel Wisnik em duas edições da Lettre International, revista de grande renome na Alemanha. "Procuro criar um amálgama entre os valores heterogêneos das culturas, e também uma ponte entre a realidade brasileira e a internacional e fazer com que muitos leitores a transitem de um lado para o outro." Vive em Berlim e trabalha na Embaixada do Brasil.

E-mail: vsantanapaulo@yahoo.com.br

Fonte: Cronópios

sexta-feira, março 27, 2009

derretendo os sólidos

Consumo e (pós) modernidade: A vitória de Eros em Caio Fernando Abreu (*)

Por Marcos Alexandre Ramos 

I

 

Adelina, desnorteada protagonista de Os Sapatinhos Vermelhos, de Caio FernandoAbreu[1], movida pela cólera produzida ao término de um relacionamento afetivo, decide sair de sua casa para satisfazer seus desejos e preencher suas ausências subjetivas. Um espaço de variedades múltiplas, atraentes cardápios, opções de degustação, gôndolas de afeto, uma composição de fumaça, uísque, pouca iluminação: a transeunte protagonista de Caio Fernando Abreu elege a boate urbana como espaço de trânsito e vitrine de consumo. Lá, Adelina está livre para encontrar diversos parceiros, aleatórios e anônimos, acolher e produzir espasmos sexuais. Entre Adelina e seus possíveis parceiros, não há diálogo propriamente dito, não há troca de idéias, experiências ou memórias. Existe, apenas, uma breve troca de olhares que antecede um ligeiro reconhecimento. Como garante o narrador: “pacientes, divertidos, excitados:  cumpriram o ritual até chegar o ponto”. A protagonista, inserida no anonimato ofertado pela cidade[2], parece leve e pronta.

 

II

 

Ser leve e líquido. Segundo Zygmunt Bauman, o estado de fluidez é a representação adequada para captar o modo como se configura a presente fase da modernidade[3] - momento em que se insere a narrativa de Caio Fernando Abreu. A metáfora sobre o fluido (ou o líquido) tem raízes na famosa frase do “derretimento dos sólidos” cunhada pelos autores do Manifesto comunista. Em 1848, como nos lembra o pensador polonês, a frase “referia-se ao tratamento que o autoconfiante e exuberante espírito moderno dava à sociedade, que considerava estagnada demais para seu gosto e também resistente em demasia para mudar em seus caminhos habituais”. Se o “espírito” era “moderno”, como recapitula Bauman, ele o era na medida em que a sociedade deveria ser emancipada da inércia de sua própria história, e isso só poderia ser feito derretendo os sólidos, isto é, “dissolvendo o que quer que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune a seu fluxo.”

“‘Derreter os sólidos’, na modernidade, significava, antes e acima de tudo, eliminar as obrigações ‘irrelevantes’, era necessário, além disso, livrar-se de todo e qualquer entulho e obrigação que impedisse as iniciativas: “libertar a empresa de negócios dos grilhões dos deveres para com a família e o lar e da densa trama de obrigações éticas; ou, como preferiria Tomas Carlyle, dentre os vários laços subjacentes às responsabilidades humanas mútuas, deixar restar somente o “nexo dinheiro”. [4] De forma progressiva, o espírito moderno tornou-se um espírito contábil e preencheu o dia de inúmeros seres humanos com “comparações, cálculos, determinações numéricas” e a “redução de valores qualitativos a valores quantitativos”[5].

Além de clamar pela libertação de todos os vínculos que resultaram historicamente no estado e na religião, na moral e na economia, o sujeito moderno, resistente ao nivelamento subjetivo enunciado pelo estreitamento entre as relações de alteridade e a economia monetária, reivindicou, como garante o sociólogo Simmel, “a particularidade humana” [6] - “os indivíduos, liberados dos vínculos históricos tradicionais, agora desejavam se distinguir um do outro[7]. Progressivamente, a modernidade se tornou o local da enunciação dos mecanismos de individuação e experimentou os grandes centros urbanos como palco dos conflitos que circunscrevem este processo.

 Georg Simmel aponta elementos fundamentais da constituição e do modo como se organizam as sociedades urbanas. Segundo o pensador alemão, a metrópole tem uma função essencial no desenvolvimento da modernidade, pois com a velocidade e as diversas formas da vida econômica, profissional e social que proporciona, fornece a arena para o incessante movimento de seus habitantes, visto que se define como “o lugar da divisão econômica do trabalho, da especialização, da fragmentação e do rompimento com vínculos históricos tradicionais.”

No entanto, como sublinha Bruno Souza Leal, “ao longo do século XX, muitas transformações interpuseram uma distância entre o mundo do flâneur e o do habitante da metrópole contemporânea” [8]. Se a metrópole moderna nasce sob o signo da ruptura, da cisão dos padrões e da fragmentação da tradição, a metrópole contemporânea (ou pós-moderna), local de enunciação das narrativas de Caio Fernando Abreu, se distingue, pois nela o “passado não é mais apagado”, ao contrário, “é recuperado, incorporado, sendo compartilhado inclusive com outras versões de si e, assim, torna-se mais um território escrito/inscrito/escritor da malha urbana.”[9]

Falar hoje em “derretimento dos sólidos”, modernidade líquida ou ainda em metrópole pós-modernasignifica referir-se a uma sociedade constituída de diversas possibilidades de existência e configuração subjetiva e modos de vida. Significa, ainda, reportar-se a um lugar em que seus habitantes não possuem a liberdade como uma opção ou como um processo de constituição subjetiva, tem, paradoxalmente, a obrigação e a necessidade deliberdade de escolha[10]. No entanto, livrar-se do peso dos mundos sólidos da modernidade, ou seja, ser leve e líquido, como recomenda a racionalidade pós-moderna (nas palavras de Bauman, a líquida racionalidade moderna), ao contrário do que escreveu Freud em sua análise sobre a modernidade, na modernidade líquida, não garante modos de vida que impliquem seguranças, certezas e garantias (unsicherheit[11]) subjetivas e materiais.

As mudanças estruturais nas bases da modernidade[12] tornaram-se, dessa maneira, fonte de um novo mal-estar – naturalmente, diverso daquele a que aludia o pensador vienense em seu famoso texto[13]  e passaram a corresponder ao que poderíamos denominar uma afirmação problemática dos mecanismos de subjetivação.

sujeito líquido (ou pós-moderno) e aquele do fim da modernidade, personagens de Caio Fernando Abreu, estão em condições para transitar, mas parecem destinados a uma condição subjetiva entre a melancolia latente e a fragilidade dos laços, pois habitam espaços efêmeros (urbanos e subjetivos) e tateiam, no fluxo, possibilidades, apenas, fugazes. Como veremos em Os sapatinhos vermelhos, impelidos por estímulos artificiais a fim de preencher a lacuna que os separa das relações de alteridade e, portanto, da sociabilidade efetiva, os indivíduos, dominados por intensa angústia, estão fadados “a perambular pelas ruas numa infindável e eterna vã procura de abrigo”[14].

III

 

O texto Os Sapatinhos vermelhos, de Os Dragões não conhecem o paraíso[15], é divido em três partes, o primeiro momento é reservado para o anúncio do término de uma relação afetiva entre a protagonista e um personagem anônimo, descrito como um professor, “um-senhor-de-família-da-Vila-Mariana”. Em seguida, ainda na primeira parte do texto, verifica-se a reconstrução da identidade da protagonista e a reorganização dos possíveis sentidos implicados na constituição dessa nova identidade.

O narrador conduz a história, no início, em um espaço hegemonicamente subjetivo em que a protagonista, imersa em reflexões regadas a doses de uísques e tragadas de cigarro, repensa, não sem um acre sabor de ironia, momentos em que, segundo a própria personagem, esteve submissa aos desejos do seu amante. Vejamos no texto de Caio Fernando Abreu:


Uma japa, uma gueixa, isso que eu fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas – Glenn Miller ou Charles Aznavour? –, vertendo trêfega os sais – camomila ou alfazema? – na água da banheira, preparando uísques – uma ou duas pedras hoje, meu bem?

 

A narração, em Os sapatinhos vermelhos, operada como uma câmera sem suporte, oscila entre o olhar da protagonista narrado em primeira pessoa e em terceira pessoa, e aquele de um narrador heterodiegético. No espaço subjetivo encenado na narrativa, o narrador, apresentando-se predominantemente de forma heterodiegética, é peça decisiva na construção da identidade da protagonista. Enquanto a narradora-personagem descreve experiências e insatisfações referentes ao rompimento do laço afetivo, o narrador heterodiegético revela, já desde o início, a necessidade de mudança do processo de efetivação do desejo que será desenvolvido problematicamente no decorrer do texto.

Ao longo da primeira parte do texto, a protagonista Adelina, que “evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade de mulher solteira-e-independente-que-tem-um-amante-casado”, em decorrência do abandono afetivo[16] (leia-se: interrupção do desejo), caminha em direção a uma prática contrária aos elementos repressivos contidos nos símbolos moralizantes da cultura. Isso fica mais evidente quando o narrador situa a história no período da Sexta-feira Santa para o Sábado de Aleluia - momento, segundo a tradição judaico-cristã, da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ironicamente, o que prevalece na narrativa não é o amor cristão (Ágape), mas o desejo do corpo, a atração carnal (Eros). O conto Os Sapatinho Vermelhos é, sobretudo, uma história sobre a vitória de Eros[17].

 Adelina, após o término da relação com o professor, depara-se com um esvaziamento absoluto de sua identidade. Aqui, observamos uma alusão ao ritual cristão, onde a morte representaria o término do laço e a ressurreição, por sua vez, o início da reconstrução dos fragmentos de identidade e a renovação de um eu dividido[18]. Os sapatinhos vermelhos, presente dado a Adelina pelo amante, simbolizam, no texto, o momento da reconfiguração da identidade. Se outrora a protagonista julgara o objeto ofertado ousado, agora, lhe parecia apropriado.

Após um longo e detalhado ritual de transformação inaugurado pelos sapatinhos vermelhos, Adelina se livra de qualquer atributo moralizante que organizava seu comportamento.  Vejamos, no texto de Caio F.:

(...) sublinhou os olhos de negro, escureceu os cílios, espalhou perfume no rego dos seios, nos pulsos, na jugular, atrás das orelhas, para exalar quando você arfar, minha filha, então as meias de seda negra transparente, costura atrás, tigresa noir(...)

 

Apagou a luz do quarto, olhou-se no espelho de corpo inteiro do corredor. Gostou do que viu. Bebeu o último gole de uísque e, antes de sair, jogou na gota dourada do fundo do copo o filtro brando manchado de batom.

 

         Como vemos neste fragmento, a mudança na configuração identitária tornam-se evidentes. Se, inicialmente, a narrativa elucida a representação de uma mulher “passiva" e queixosa, logo a seguir, essas características se liquefazem, pois a protagonista inicia um longo processo de defesa. A fim de proteger o eu das agressões contra suas exigências pulsionais, este processo desloca não só a identidade mas também o próprio desejo.[19]

Como um produto pronto para consumo, Adelina muni-se de todos os atributos femininos de sedução: “sublinhou os olhos”, “escureceu os cílios”, “espalhou perfume no rego dos seios”, vestiu “meias de seda negra transparente”, etc. Pronta, a personagem quer, agora, preencher a lacuna que a separa das relações de alteridade, de laços afetivos e de identidade. Para isso, Adelina busca certo distanciamento das instâncias legitimadoras sociais e dos espaços de controle, deixa sua casa e adentra os limites da metrópole pós-moderna.

A personagem vê suas possibilidades de reconstrução identitária na dinâmica do espaço, na possibilidade de anonimato e não-mapeamento que a metrópole propicia. Na boate, a protagonista se sente à vontade para assumir um outro nome. Adelina, agora, é Gilda. E Gilda está livre para transitar e multiplica relações efêmeras, ou seja, relações de curta duração que sustentam a reconfortante consciência de que você não precisa sair do seu caminho nem se desdobrar para mantê-las intactas por um tempo maior[20]. Como é de se esperar, nesse tipo de relação, as possíveis configurações fixas, sólidas, com seu cortejo de vetustas representações efetivas recém-formadas envelhecem antes de poderem cristalizar-se. Nenhum fluxo se orienta para o laço, o sexo é a síntese, mas efetua-se como espasmos e não como consolidação do laço e da alteridade.

O segundo momento da narrativa é reservado para o clima de sedução que se instala na boate e antecede o apogeu da narrativa. O ambiente de fascínio é evidenciado e fortalecido pela troca de olhares, contatos íntimos e, principalmente, pela narração de características corporais denotando excessiva sensualidade. Como se depreende, produtos prontos para serem consumidos, os personagens desfilam atributos sedutores.

No jogo de sedução, os anônimos personagens vão se aproximando da protagonista, primeiro “o negro”, depois o “moço dourado com jeito de tenista” e, finalmente, “o mais baixo”. Não há, entre eles, troca de memórias, menção a continuidades ou diálogo efetivo. O breve momento de reconhecimento, como é comum na obra de Caio Fernando Abreu, é seguido da efetivação sexual. Após o rápido ritual de sedução entre os atores sociais, o narrador heterodiegético conduz uma performática cena de sexo em que os três personagens se misturam à protagonista num revezamento exacerbado de consumo de possibilidades das práticas sexuais.

Na cena seguinte, “em frente ao espelho de corpo inteiro”, a protagonista, como garante o narrador,

não era mais Gilda, nem Adelina nem nada. Era um corpo sem nome, varado de prazer, coberto de marcas de dentes e unhas, lanhados de tocos de barbas amanhecidas, lambuzadas de leite sem dono dos machos das ruas. Completamente satisfeita.”

 

Esperava-se que o sexo preenchesse a lacuna da alteridade, não admira que, como garante o sociólogo inglês Anthony Giddens[21], tenha crescido sua capacidade de gerar frustrações e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. O que ocorre em Os sapatinhos vermelhos é, novamente, um esvaziamento identitário da protagonista. A vitória de Eros na grande guerra da satisfação é, na melhor das hipóteses, segundo Zygmunt Bauman, uma vitória de Pirro. Pois, a satisfação imediata garantida não é sinal do fim, mas de recomeçar.

Como afeto dissonante, o espasmo de Adelina parece reescrever o ideal pós-moderno, ou seja, recomeçar, reorganizar, ressemantizar sem rupturas drásticas, enfim rever e redirecionar a identidade, o passado e o desejo. Entretanto, apesar do espasmo, da exuberância das práticas sexuais e dos consumos urbanos, bem como da plasticidade de todas as práticas simbólicas e de produção do sentido, a frustração ainda parece dominar a cena textualmente inscrita e, digamos, ousadamente, também o sujeito pós-moderno que transita caminhando por espaços e espasmos de demolição.


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[1] ABREU, Caio Fernando. Os Dragões não Conhecem o Paraíso. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

[2] SIMMEL, George. Metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio (Org.) O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

[3] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001

[4] Ibidem.

[5] SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: CHOAY, Françoise (org.). O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, 1997.

[6] SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: CHOAY, Françoise (org.). O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, 1997.

[7] Idem. Metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio (Org.) O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976, p. 12-25.

[8] LEAL, Bruno Souza. Caio Fernando Abreu, a metrópole e a paixão do estrangeiro: contos, identidade e sexualidade em trânsito. São Paulo: Annablume, 2002.

[9] Ibidem.

[10] JAMESON, Fredric. O pós-modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 2000.

[11] BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Trad.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
[12] Idem. Modernidade liquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

[13] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros trabalhos. In Obras completas, vol. XXI Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

[14] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

 

[15] ABREU, Caio Fernando. Os Dragões não Conhecem o Paraíso. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

[16] KAUFMANN. Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Trad. Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 1996

[17] Ibidem.

[18] LAING, R. D. eu dividido: estudo existencial da sanidade e da loucura. Trad. ÁureaBrito Weissenberg. Petrópolis: Vozes, 1982.  .

[19] KAUFMANN. Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. O legado de Freud e Lacan. Trad. Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 1996

[20] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

[21] GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Trad. Raul Fiker. São Paulo. Editora UNESP, 1991.

 

Marcos Alexandre Ramos é graduando em Letras-português pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em psicologia pelas Faculdades Integradas Espírito-Santenses (FAESA) e integra desde 2006 o grupo de pesquisa Literatura e outros sistemas de significação com o projeto de pesquisa Leves e líquidos – a urgência do sujeito e a constituição dos laços afetivos em narrativas de Caio Fernando Abreu. E-mail:marcos@marcosramos.com.br 


(*) texto extraído do Portal Literatura e Arte Cronópios, postado em 23/1/2009 17:57:00 


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  • 12 Horas até o Amanhecer
  • 1408
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  • 21 Gramas
  • 30 Minutos ou Menos
  • 8 Minutos
  • A Árvore da Vida
  • A Bússola de Ouro
  • A Chave Mestra
  • A Cura
  • A Endemoniada
  • A Espada e o Dragão
  • A Fita Branca
  • A Força de Um Sorriso
  • A Grande Ilusão
  • A Idade da Reflexão
  • A Ilha do Medo
  • A Intérprete
  • A Invenção de Hugo Cabret
  • A Janela Secreta
  • A Lista
  • A Lista de Schindler
  • A Livraria
  • A Loucura do Rei George
  • A Partida
  • A Pele
  • A Pele do Desejo
  • A Poeira do Tempo
  • A Praia
  • A Prostituta e a Baleia
  • A Prova
  • A Rainha
  • A Razão de Meu Afeto
  • A Ressaca
  • A Revelação
  • A Sombra e a Escuridão
  • A Suprema Felicidade
  • A Tempestade
  • A Trilha
  • A Troca
  • A Última Ceia
  • A Vantagem de Ser Invisível
  • A Vida de Gale
  • A Vida dos Outros
  • A Vida em uma Noite
  • A Vida Que Segue
  • Adaptation
  • Africa dos Meus Sonhos
  • Ágora
  • Alice Não Mora Mais Aqui
  • Amarcord
  • Amargo Pesadelo
  • Amigas com Dinheiro
  • Amor e outras drogas
  • Amores Possíveis
  • Ano Bissexto
  • Antes do Anoitecer
  • Antes que o Diabo Saiba que Voce está Morto
  • Apenas uma vez
  • Apocalipto
  • Arkansas
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  • As Idades de Lulu
  • As Invasões Bárbaras
  • Às Segundas ao Sol
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