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quarta-feira, fevereiro 09, 2011

somos todos leigos e aventureiros

Todos os reis estão nus

Que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez, sejam eles reis ou não
por Contardo Calligaris
.
Já está em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o  terapeuta).
Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.
O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?
O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.
1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.
Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.
2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.
3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.
4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.
5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)
Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.
Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saísse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.
Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.
Fonte: Blog Contardo Calligaris, 02/02/2011

sábado, março 14, 2009

sem Dalila

Pêndulos e Máscaras

Como irei continuar, assim? Estou com uma sensação de quem não dormiu nada. Tem mais outra emoção, vaga. A minha alma está de roupa nova, está como a manhã que vemos o sol e a lua juntos, será pelo mesmo motivo? Acabo de esquecer a minha máscara mais perfeita no armário em casa; me sinto uma outra pessoa sem ela, nem sentiria a timidez que empoa minhas bochechas nem nada, estou vermelha, com ela continuaria forte em qualquer situação, ela me faz igual em tudo, basta tê-la na posição certa, bem aqui... Mais nada.

Acredito que ela tem um guia, sabe qual a carreira onde ponho o nariz, parece que possui um pêndulo, até sinto como se ela fosse descendo devagarzinho para o lado esquerdo, ou para o lado direito. Não saberia dizer qual a posição que ela tomaria, mais rápido ou menos ácida, diante das circunstâncias, dos outros. Agora percebo que qualquer caminho seria igualmente indiferente, o que fosse mais fácil e agradável, que trouxesse algo de ganho, que evitasse algum deslize ou a solidão, aí caberia direitinho uma expressão oportuna, que me deixasse “legal”, assim ganharia um “amigo” ou quem sabe um sorriso momentâneo. O erro era colocá-la de jeito estranho, num ângulo reto, era um barulho do nada. Ao falar com as pessoas faltava sensibilidade, em certas circunstancias até causava um extravio de etiqueta, mau comportamento, falsas emoções, criava algum escândalo por pouca coisa. De fato, era muito inoportuna. Mas, como diz o ditado, pensava: “os incomodados que se mudem”. Que outro que nada, eu, eu e eu.

Um dia, nem liguei ao passar com meus sapatos sujos de barro pelo carpete branco acetinado da recepção da empresa, fui discretamente caminhando, calmamente. O moderno espaço metalizado ficou enfeado, a faxineira limparia, e eu nem aí; atravessei diante dos que trabalhavam e dos clientes presentes, sem culpa nenhuma. A ficha não caiu, só ao chegar até a minha mesa de trabalho dando de encontro com minha outra “máscara”: a funcionária do mês. Mas, me sentei cheia de grilos, pouco antes a máscara que agora caia camuflou tudo isso, essa clareza, me escondeu ao longo dos cem passos marcados em preto e branco, passos que carregaram outra pessoa coberta de pinturas, mostrando uma máscara perfeita de não se deixar em casa. "Não saia de casa sem ela"!

Uma pessoa sem “máscara” nunca entraria porta adentro de outra maneira, de pés descalços, porque andar sem meus os sapatos, ainda que sujos, não suportaria a vergonha, entrar de pés no chão, sapatos na mão, expondo minhas intocáveis fraquezas, ou sensibilidades outras, as delicadezas de dedos sinuosos molduras de unhas sem cor, ou o que mais fosse, abrir-se na frente de todos, jamais. Se houver, alguma máscara serve a um dado momento!

Até então, não lembrava ter esquecido nenhuma das que possuía. Desespero. Socorro aqui! O que está acontecendo? Meus anéis, meus sapatos, minha bolsa prateada, meus cartões de crédito, minhas idéias de ontem, meus preconceitos, minhas máscaras, aonde os depositei? Devem estar em algum lugar. Acho que desencontrei meus maiores pertences, minhas coisas materiais, meu cash que tanto confio, cadê você? Tudo que me conservava, acho. O que sou agora? Sem eles acho-me nua no tempo, um eu sem máscaras.

Por enquanto é bem difícil falar disso, estou suando frio, nervosa, pensando bem meus olhos até vêem melhor sem os óculos, encontrei no espelho alguém que me ajude, o que aconteceu com meu rosto, céus, com alguma certeza tenho um brilho diferente. Já duvidei de muita coisa, do mundo mudar por eu existir, não em cem ou duzentos anos, mas numa única vida, minha simples vida. Eu mesmo que mudei?

na tela ou dvd

  • 12 Horas até o Amanhecer
  • 1408
  • 1922
  • 21 Gramas
  • 30 Minutos ou Menos
  • 8 Minutos
  • A Árvore da Vida
  • A Bússola de Ouro
  • A Chave Mestra
  • A Cura
  • A Endemoniada
  • A Espada e o Dragão
  • A Fita Branca
  • A Força de Um Sorriso
  • A Grande Ilusão
  • A Idade da Reflexão
  • A Ilha do Medo
  • A Intérprete
  • A Invenção de Hugo Cabret
  • A Janela Secreta
  • A Lista
  • A Lista de Schindler
  • A Livraria
  • A Loucura do Rei George
  • A Partida
  • A Pele
  • A Pele do Desejo
  • A Poeira do Tempo
  • A Praia
  • A Prostituta e a Baleia
  • A Prova
  • A Rainha
  • A Razão de Meu Afeto
  • A Ressaca
  • A Revelação
  • A Sombra e a Escuridão
  • A Suprema Felicidade
  • A Tempestade
  • A Trilha
  • A Troca
  • A Última Ceia
  • A Vantagem de Ser Invisível
  • A Vida de Gale
  • A Vida dos Outros
  • A Vida em uma Noite
  • A Vida Que Segue
  • Adaptation
  • Africa dos Meus Sonhos
  • Ágora
  • Alice Não Mora Mais Aqui
  • Amarcord
  • Amargo Pesadelo
  • Amigas com Dinheiro
  • Amor e outras drogas
  • Amores Possíveis
  • Ano Bissexto
  • Antes do Anoitecer
  • Antes que o Diabo Saiba que Voce está Morto
  • Apenas uma vez
  • Apocalipto
  • Arkansas
  • As Horas
  • As Idades de Lulu
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  • O Protetor
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  • O Som do Coração (August Rush)
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