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terça-feira, fevereiro 22, 2011

sétimo país com maior desigualdade social

Até onde irá o cinismo?
"Na hora da crise desses poucos, generosidade, flexibilidade, repasse de recursos públicos - na forma de "renúncia fiscal". Pouco depois, na hora da urgente necessidade de reequilíbrio fiscal, só os que são remunerados a partir do salário mínimo são lembrados como contribuintes!".
"Até quando nossos governantes continuarão decidindo políticas que têm a ver com a sobrevivência de milhões de brasileiros e brasileiras com argumentos cínicos, dando impressão de que tomam decisões com seriedade e responsabilidade, quando, na realidade, escondem as responsabilidades e ampliam os privilégios das elites econômicas, fazendo que o Brasil continue o sétimo país com maior desigualdade social, que é o reverso da concentração da riqueza e da renda em poucas e, por enquanto, poderosas mãos?"
Ninguém desconhece que o salário mínimo recuperou relativamente seu poder de compra nos últimos anos. Nada muito significativo, porém. Afinal ele continua muito distante do que deveria ser se o que determina a Constituição Federal sobre salário mínimo fosse aplicado. Aqui o primeiro cinismo: quando a decisão se refere aos mais pobres, que recebem salário mínimo por seu trabalho ou igual valor em sua aposentadoria, as elites, os governos e a grande mídia fazem de conta que não conhecem a Constituição, mas a conhecem de cor e salteado sempre que algum privilégio das elites, ainda presente na Constituição como se fosse "direito", é colocado em questão! Basta lembrar como os deputados e senadores conhecem e aplicam a norma constitucional na hora de aumentar seus próprios salários e demais privilégios, e como, além deles, também praticamente todos os juízes sempre estão prontos para defender grandes proprietários, muitos deles relés grileiros, para aplicar a Constituição que, para nossa desonra, não estabelece sequer o tamanho máximo e o número de propriedades que cada ricaço pode possuir!
Até perto do final do ano passado, a capacidade aquisitiva das mal denominadas "classe C e D" e seu desejo de comprar teria sido um dos fatores que ajudaram a enfrentar a crise internacional, reduzindo-a a uma simples "marola", nas palavras do ex-presidente Lula. Passados alguns meses e já em ação um novo governo, agora a continuidade de melhoria da capacidade de compra das mesmas "classes", remuneradas na base do salário mínimo, não pode mais acontecer, já que causaria desequilíbrio das contas públicas e seria fonte de crescimento da inflação. Como entender esse jogo de argumentos sem perceber que se trata de cinismo desbragado?
Na realidade da história, os pobres não causaram crise financeira internacional e nacional alguma; ela foi causada pelos desvarios dos donos e executivos dos grandes bancos e pela falta total de controle dos governos sobre essas loucuras. Assim mesmo, aos causadores da sua própria crise foram repassados em torno de 20 trilhões de dólares para evitar que quebrassem, pois seriam "grandes demais" e sua quebra provocaria uma quebradeira geral. Pergunto: será possível encontrar argumentos e práticas mais cínicas?
Voltemos ao nosso dramático problema na hora de definir o aumento do salário mínimo. O ministro da Fazenda Guido Mantega foi à Câmara dos Deputados, e contou com apoio incondicional do PMDB e das lideranças e ampla maioria dos petistas e demais partidos da "base" governamental, para argumentar que o salário mínimo com aumento restrito era absolutamente necessário para "garantir o equilíbrio fiscal" do Orçamento público. Uma vez mais, um cinismo quase perfeito! Por que não cobrar a devolução dos que foram beneficiados para enfrentarem a crise criada por eles próprios, e que retomaram a geração de bilhões e bilhões de reais de lucros, como no caso dos bancos e das fabricantes e revendedoras de automóveis e outros produtos que foram liberados de recolher impostos para venderem mais? Na hora da crise desses poucos, generosidade, flexibilidade, repasse de recursos públicos - na forma de "renúncia fiscal". Pouco depois, na hora da urgente necessidade de reequilíbrio fiscal, só os que são remunerados a partir do salário mínimo são lembrados como contribuintes!
Se até articulistas conservadores reconhecem que não se chegará ao fim da crise financeira internacional sem que se cobre a devolução do que foi a eles erroneamente transferido, e sem que os governos controlem o funcionamento do capital financeiro, cabe-nos apenas perguntar: até quando nossos governantes continuarão decidindo políticas que têm a ver com a sobrevivência de milhões de brasileiros e brasileiras com argumentos cínicos, dando impressão de que tomam decisões com seriedade e responsabilidade, quando, na realidade, escondem as responsabilidades e ampliam os privilégios das elites econômicas, fazendo que o Brasil continue o sétimo país com maior desigualdade social, que é o reverso da concentração da riqueza e da renda em poucas e, por enquanto, poderosas mãos?
Há outro argumento eminentemente cínico: o de que se deve evitar o controle sobre os preços das commodities agrícolas, que dispararam porque estão sendo usados para especulação mundial, e já levaram à miséria mais 40 milhões de pessoas, para que o Brasil possa continuar tendo vantagens em sua balança comercial. Mas isso é assunto para outra reflexão crítica.
(*) Ivo Poletto é assessor de pastorais e movimentos sociais. Trabalhou durante os dois primeiros anos do governo Lula como assessor do Programa Fome Zero e foi o primeiro secretário-executivo da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Autor, entre outros, do livro Brasil, oportunidades perdidas: Meus dois anos no governo Lula (Rio de Janeiro: Garamond, 2005), é cientista social e educador popular.
Fonte: IHU, 22/2/2011

terça-feira, fevereiro 01, 2011

um quebra cabeça que mostra opção pelo privado

Subfinanciamento do SUS influi no crescimento dos planos de saúde

por Fabíola Tavares - Agência Fiocruz de Notícias
.
Embora o país tenha uma política pública de saúde universal destinada a toda população, o Sistema Único de Saúde (SUS), o número de usuários de planos de assistência médica com ou sem odontologia no Brasil cresceu três vezes mais que a população brasileira no período de 2000 a 2008 (33,29% contra 10,7%). Esse crescimento está relacionado ao subfinanciamento do SUS e com a renúncia fiscal feita pelo governo federal, que permite que pessoas e empresas abatam no Imposto de Renda os gastos com saúde privada.
Essa é uma das conclusões a qual chegou um estudo realizado no Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CPqAM/Fiocruz Pernambuco) pela assistente social Débora Maltez, em seu mestrado em saúde pública, sob orientação do pesquisador Garibalde Gurgel.
Para ela, esse quadro revela a opção do governo pela assistência à saúde privada em desfavorecimento da assistência pública universal. “Essas questões estão relacionadas, mas não há casualidade entre elas. Essas são peças de um quebra cabeça que mostra opção pelo privado. Nunca houve prioridade ao SUS”, adverte Débora. Em 2008, 21,1% da população brasileira estava ligada a um plano de assistência médica, segundo dado da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Na pesquisa foi observado o crescimento do número de usuários de sete modalidades de planos de saúde no período de 2000 a 2008: medicina de grupo, cooperativa médica, odontologia de grupo, seguradoras especializadas em saúde, autogestão, cooperativa odontológica e filantropia. Dentre essas, a pesquisadora destacou que as cooperativas médicas cresceram 78,66%, enquanto as empresas de medicina de grupo e as seguradoras especializadas em saúde tiveram, respectivamente, 29,03% e 7,52% de crescimento. Já as autogestões tiveram crescimento negativo (0,94%) no quantitativo de usuários. No referente à receita/despesa, o setor de planos de saúde apresentou, no período de 2001 a 2008, um crescimento de receita menor que o crescimento da despesa total. Já as seguradoras especializadas em saúde, odontologia de grupo e cooperativas odontológicas constituíram-se exceções, pois o crescimento de suas receitas foi maior que o de suas despesas.
O financiamento da saúde pública também sofreu um incremento de 2000 a 2006, de acordo com o estudo, “porém esse aumento está aquém do necessário, apesar do SUS ser uma proposta universal”. A pesquisadora acredita que tal fato está relacionado com a aprovação da Emenda Constitucional 29, que estabeleceu o repasse de recursos das três esferas de governo (municípios, estados e União), possibilitando maior estabilidade ao financiamento.
Em 2006, o valor total dos repasses representou menos de 4% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo ano, os gastos públicos do Brasil em saúde representaram 45,3%, contra 69,9% do Canadá, que também tem um sistema público universal. “Os nossos gastos públicos são semelhantes aos dos Estados Unidos (44,6%), onde a política de saúde tem caráter liberal”, completa Débora, que é fiscal da ANS.
Na pesquisa, além da análise de dados documentais e coleta em bases de dados oficiais, foram entrevistados representantes do governo, das instituições operadoras de planos de saúde, dos consumidores, dos prestadores de serviços, do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e dois pesquisadores da saúde pública. Alguns relacionaram ao financiamento do SUS outras questões, como o acesso, a gestão e a qualidade da assistência prestada.
Renúncia fiscal
Sobre a renúncia fiscal, dados da Receita Federal mostram que, de 1988 a 2003, os gastos declarados como despesas de saúde por pessoas físicas e jurídicas aumentaram 127,25% e 36,29%, respectivamente. Para muitos entrevistados, entre eles o representante da ANS, esses benefícios são incentivos governamentais ao mercado de planos de saúde e promovem a iniquidade por tirar recursos da coletividade e destinar a setores com melhores condições na sociedade. Os benefícios também favorecem à classe média.
Para os representantes de planos de saúde, a renúncia demonstra a incapacidade de o governo oferecer serviço de saúde satisfatório à população e desonera o SUS, já que segmentos populacionais são atendidos pelos serviços privados e não pelo sistema. Há também aqueles, como a Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), que acreditam que a renúncia favoreça à equidade uma vez que as pessoas que têm necessidades diferenciadas podem ser tratadas de tal forma.
A extinção da renúncia fiscal para alguns atores traria consequências negativas para o mercado por forçar a migração dos usuários para o SUS. Outros, no entanto, acreditam que não haveria abalos significativos para o setor de planos de saúde. Estudos internacionais observaram que o fim dos benefícios tributários relacionados às despesas com saúde, feitas por famílias e empresas, não gerou diminuição proporcional da demanda por serviços privados de saúde. No caso brasileiro, o estudo aponta que a extinção da renúncia fiscal poderia favorecer às operadoras líderes, que têm maior porte econômico e são capazes de suportar melhor esse impacto.
Fonte: EcoDebate, 01/02/2011

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