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quarta-feira, maio 18, 2011

está em curso uma reavaliação sobre o futuro da “renascença nuclear”

O FUTURO DA ENERGIA NUCLEAR

por José Goldemberg*
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Existem tecnologias que resolvem problemas importantes e vieram para ficar. Outras atravessam um “período de ouro”, perdem importância ou até desaparecem.
Automóveis, por exemplo, desenvolvidos no início do século 20, mudaram a face da civilização como a conhecemos. E mesmo que as reservas mundiais de petróleo se esgotem, soluções técnicas vão ser encontradas para mantê-los circulando.
Outras tecnologias promissoras enfrentaram problemas e foram abandonadas. Um bom exemplo é o dos zepelins, enormes balões cheios de hidrogênio que abriram caminho para viagens aéreas intercontinentais na década de 1930, época em que a aviação comercial ainda engatinhava. Mas bastou o acidente com o Hindenburg, zepelim alemão que se incendiou em Nova Jersey (EUA), em 1937, para selar o destino dessa tecnologia.
A energia nuclear parece atravessar um desses períodos críticos: ela teve uma “época de ouro” entre 1970 e 1980, quando entraram em funcionamento cerca de 30 novos reatores nucleares por ano. Após o acidente nuclear de Three Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979, e em Chernobyl, na Ucrânia, então parte da União Soviética, em 1986, o entusiasmo por essa tecnologia diminuiu muito e desde então apenas dois ou três reatores entraram em funcionamento por ano. Houve uma estagnação da expansão do uso dessa energia.
As causas dessa estagnação são complexas: por um lado, a resistência do público, preocupado com os riscos da energia nuclear; e, por outro, razões mais pragmáticas, como o seu custo elevado.
Apesar desses problemas, a produção de energia nuclear não resulta em emissões de gases responsáveis pelo aquecimento da Terra, que é o caso quando se produz energia elétrica com combustíveis fósseis, como carvão ou gás natural. As preocupações com o efeito estufa levaram vários ambientalistas a apoiar uma “renascença nuclear”.
Mas eis que acontece o desastre de Fukushima, com gravidade comparável à de Chernobyl, afetando diretamente centenas de milhares de pessoas e espalhando inquietações sobre o efeito da radiação nuclear numa vasta área do Japão e de países vizinhos.
O setor nuclear tem tentado minimizar a gravidade do acidente no Japão, atribuindo-o a eventos raríssimos, como um terremoto de alta intensidade seguido por tsunami, que dificilmente ocorreriam em outros locais. Essa é uma estratégia equivocada, que pode satisfazer engenheiros nucleares, mas não os setores mais esclarecidos da população e governos de muitos países.
Reatores nucleares contêm dentro deles uma enorme quantidade de radioatividade e o problema é sempre o de evitar que ela se espalhe, como se verificou em Chernobyl. Sucede que não é preciso um terremoto e um tsunami para que isso aconteça. Bastam falhas mecânicas e erros humanos, como ocorreu em Three Mile Island. Segurança total não existe.
É possível melhorar o desempenho dos reatores e torná-los mais seguros, mas isso acarretará custos mais elevados, o que tornará a energia nuclear ainda menos competitiva do que já é em relação a outras formas de geração de eletricidade. Além disso, a grande maioria dos reatores nucleares atualmente em uso começou a funcionar 30 ou 40 anos atrás e forçosamente eles terão de ser “aposentados” em breve – os de Fukushima funcionam há mais de 40 anos. A redução da vida útil dos reatores diminuirá, certamente, sua competitividade econômica.
Mais ainda, será preciso resolver de vez o problema do armazenamento permanente dos resíduos nucleares, que se arrasta há décadas. Até hoje os elementos combustíveis usados, que são altamente radiativos, são depositados em piscinas situadas ao lado dos reatores – e um dos problemas em Fukushima foi a radioatividade liberada quando o nível da água da piscina baixou. Só nos Estados Unidos existem essas piscinas ao lado dos 104 reatores lá existentes. Em Angra dos Reis a situação é a mesma.
Finalmente, há o problema de quem pagará pelas compensações para a população atingida pelos acidentes nucleares. Os limites fixados pelos governos para cobrir esses danos são atualmente muito baixos e deverão aumentar muito.
Como resultado dessas inquietações e incertezas, está em curso uma reavaliação, em grande número de países, sobre o futuro da “renascença nuclear” e da sobrevivência da própria opção do uso de reatores nucleares para a geração de eletricidade. Alguns países já adotaram o que se chama de “estratégia de saída”, pela qual novos reatores não serão construídos.
A Bélgica e a Suíça já adotaram essa política, bem como o Chile e a Alemanha. A China suspendeu a autorização para a construção de mais usinas até que seja feito um reestudo completo das suas condições de segurança. Nos Estados Unidos, acaba de ser abandonado o projeto de construção de dois reatores no Estado do Texas, os primeiros a serem iniciados após mais de 30 nos de moratória nuclear.
Outros países, provavelmente, seguirão o mesmo caminho, sobretudo os que dispõem de outras opções mais econômicas e menos perigosas para a geração de energia elétrica. Esse é, claramente, o caso do Brasil, onde existe um amplo potencial hidrelétrico a explorar, bem como a cogeração de eletricidade nas usinas de açúcar e álcool, e também a energia eólica. A Agência Internacional de Energia Atômica reduziu sua projeção de novos reatores nucleares no mundo para 2035 em 50%.
Alguns países, como a França, onde quase 75% da eletricidade tem origem nuclear, e até mesmo o Japão, que não tem muitos recursos naturais, aumentarão o uso do gás, o que, consequentemente, aumentará as emissões de carbono. Haverá, nesse caso, escolhas difíceis. Mas o aquecimento global ocorrerá num horizonte de tempo longo e prevenir novos acidentes nucleares é uma tarefa urgente.
(*) José Goldemberg é Professor da Universidade de São Paulo (USP)
Artigo originalmente publicado em O Estado de S.Paulo.
Fonte: EcoDebate, 18/05/2011

segunda-feira, maio 16, 2011

conflitos ecológicos distributivos

Moradores de Caetité, BA, impedem a entrada de carga nuclear na cidade

Cerca de 2000 moradores da cidade de Caetité realizaram neste domingo no inicio da noite uma vigília em protesto, “contra o lixo atômico e em defesa da vida”. O protesto foi uma iniciativa da Comissão Paroquial de Meio Ambiente de Caetité (Ba), da Comissão Pastoral da Terra, da Cáritas e do Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania após informação de que um comboio com containers de material radioativo estaria se deslocando de São Paulo com destino à região da mina de urânio em Caetité – Bahia. A população, revoltada com o descaso e com a total desinformação por parte da INB acerca do conteúdo da tal carga radioativa, bloqueou a rodovia que liga Caetité ao distrito de Maniaçu, principal rota de acesso à área da mina de urânio, impedindo a passagem das carretas com os containers. Com o bloqueio da rodovia, as carretas se deslocaram partindo algumas em sentido a cidade de Lagoa Real e outras por estradas vicinais que dão acesso ao local da Mina. A população se manteve no local em vigília e com gritos de protesto.
Segundo os manifestantes, a preocupação agora é quanto ao caminho alternativo que está sendo buscado pelo comboio para desviar dos manifestantes, uma vez que as demais estradas de acesso à mina não oferecem condições que garanta a chegada do material com segurança, expondo ainda mais a população ao risco com um possível acidente.
As organizações envolvidas com o ato informaram que foi feito comunicado ao Ministro da Ciência e Tecnologia, ao Governador da Bahia, à Ministra de Meio Ambiente, ao Presidente do IBAMA, à Diretoria de Licenciamento Ambiental – DILIC, ao Superintendente do IBAMA / Bahia, à Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia, à Comissão Nacional de Energia Nuclear, à INB – Indústrias Nucleares do Brasil, à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal da Bahia e ao Ministério Público Estadual da Bahia solicitando pedido de explicações e providências de acordo à competência de cada um, porém ainda não obteve nenhuma resposta.
Por volta das vinte e uma horas o Prefeito da cidade, José Barreira, compareceu ao local da manifestação e declarou publicamente que o mesmo não tinha nenhum conhecimento acerca da carga que estaria chegando ao município e afirmou que não permitirá que a mesma seja descarregada sem antes ter conhecimento do tipo de material transportado de quais os riscos oferece à população.
* * *
Antes cogitado para chegar na próxima semana, tudo indica que o comboio radioativo, possivelmente vindo de São Paulo, que chegaria à Bahia na próxima semana, foi antecipado para hoje, revoltando a população local que está se mobilizando para rejeitar a carga nuclear, que deverá passar pela sede do município, rumo ao distrito de Maniaçu. Os sindicatos de trabalhadores do Rio de Janeiro e de Brumado estão questionando a insegurança com que este transporte está sendo feito e os riscos que isto representa para os trabalhadores, as populações e o meio ambiente.
Na última quinta-feira, a Rádio Educadora Santana de Caetité tratou do assunto, levantando a possibilidade da carga radioativa, ser a mesma que saiu da cidade de Poços de Caldas (MG), na década de 1990, destinada a São Paulo a ser utilizada pela Marinha Brasileira em um projeto de submarino nuclear. Ainda segundo informações extra-oficiais, depois de usado no projeto, esse material ficou confinado em algum lugar da capital paulista (Interlagos?), até ser liberado para voltar a Poços de Caldas.
Em 2000, quando que a carga voltaria a Minas, o então governador, Itamar Franco, proibiu a entrada da carga radioativa no Estado, inclusive colocando um helicóptero para sobrevoar a área da INB, impedindo a entrada ou saída de caminhões com contêineres. Na quinta-feira passada, os microfones da Educadora de Caetité foram colocados à disposição da direção da INB e reservado o horário da sexta-feira para esclarecimentos, mas ninguém se pronunciou até o momento (http://www.icaetite.com.br). Organizações e movimentos sociais e populares de Caetité enviaram por e-mail e telefone a mensagem, transcrita abaixo, com pedido de explicações e providências às autoridades federais, estaduais e municipais dos três Poderes:
Salvador, 12 de maio de 2011
Ilmos. (as):
Sr. Aluisio Mercadante, Ministro da Ciência e Tecnologia
Sr. Jaques Wagner, Governador da Bahia
Sra. Izabella Mônica Vieira Teixeira, Ministra de Meio Ambiente
Sr. Curt Trennepohl, Presidente do IBAMA
Com cópia:
Diretoria de Licenciamento Ambiental – DILIC
Sr. Célio Costa Pinto, Superintendente do IBAMA / Bahia
Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia
Prefeitura Municipal de Caetité
Câmara de Vereadores de Caetité
Comissão Nacional de Energia Nuclear
Indústrias Nucleares do Brasil
Sindicato dos Mineradores de Brumado
Polícia Federal
Ministério Público Federal da Bahia
Ministério Público Estadual da Bahia
Ref: CHEGADA DE CARGA RADIOATIVA A CAETITÉ, NA BAHIA
Tomamos conhecimento de que chegará a Caetité uma carga de material radioativo, vindo de outro estado, que não sabemos a quê se destina.
Será lixo radioativo para ser depositado em Caetité?
Estarão trazendo material das antigas usinas paulistas, a USIN – que guarda cerca de 1.500 toneladas de Torta II (concentrado de urânio e tório) – e a USAM, que também guarda toneladas desse material atômico – ou do Planalto de Poços de Caldas, que estoca cerca de 12.500 toneladas de Torta II?
Estarão vindo lixo atômico das experiências da construção do submarino nuclear e mais toneladas de material radioativo de urânio, em diversas formas, do Centro Tecnológico da Marinha (Iperó-SP), para reprocessamento em Caetité?
Será que, devido ao gasto de 40 milhões de dólares com a importação de urânio, por causa da queda da produção de Caetité, querem “misturar” o minério caetiteense, de alto teor, com a Torta II (urânio de baixa qualidade), e, assim, colocar o produto no mercado externo, diminuindo o prejuízo?
Por que este material está vindo para Caetité?
Será Caetité um dos três municípios brasileiros que, segundo a CNEN, já se dispuseram a receber lixo atômico do Programa Nuclear Brasileiro, em troca de royalties e outras compensações financeiras, mistério mantido a sete chaves, pela CNEN, que não informa quais são esses municípios?
Quais riscos esta carga trará para o Município e os moradores da região?
Por se tratar de uma empresa federal, este material pode ser trazido sem que a comunidade seja previamente informada?
Autoridades rodoviárias dos estados, municípios e da União autorizaram o transporte, como define a Lei, e tomaram as providencias cabidas?
E a Prefeitura Municipal e o Estado da Bahia autorizaram a importação deste lixo?
Os órgãos fiscalizadores federais, estaduais e municipais não devem explicações à população de Caetité?
Porque o IBAMA ainda não divulgou o relatório da inspeção feita na Unidade de Concentração de Urânio, realizada em 4 e 5 de abril passado? O que será que viram os inspetores? Ou nada viram?
Tendo em vista a falta de transparência que caracteriza o setor nuclear, e considerando que o vazamento desta noticia levou grande intranqüilidade aos trabalhadores da INB e às populações da região, estamos solicitando a Vs. Sas., respostas urgentes a estas perguntas, que atormentam a comunidade, bem como pedimos esclarecimentos à Comissão Nacional de Energia Nuclear, à INB, ao Sindicato dos Mineradores de Brumado, ao Prefeito Municipal e Câmara de Vereadores de Caetité, ao Ibama e Superintendência desse órgão na Bahia e à Policia Federal, aos quais estamos enviando cópia desta mensagem.
Atenciosamente,
Adélia Alves de Brito Nunes
Comissão Paroquial de Meio Ambiente de Caetité
Zoraide Vilasboas
Associação Movimento Paulo Jackson- Ética, Justiça, Cidadania
Textos de Diacisio Ribeiro Leite, CPT Sul/Sudoeste-BA e Zoraide Vilasboas, Associação Movimento Paulo Jackson- Ética, Justiça, Cidadania, editados por Henrique Cortez, do Portal EcoDebate
EcoDebate, 16/05/2011

sexta-feira, março 18, 2011

a tragédia no Japão estilhaçou o espelho da ilusão

SEGURANÇA NUCLEAR É ILUSÓRIA

Para o físico nuclear e expert em meio ambiente José Goldemberg, como num conto de Alice, a tragédia no Japão estilhaçou o espelho da ilusão de controle sobre as usinas atômicas no mundo
por Vanessa Barbosa - Exame.com - 17/03/2011
Embalada pela entrada do tema das mudanças climáticas na agenda global, na última década, a indústria nuclear caiu nas graças de muitos países por ser considerada de baixa emissão. Nesse novo processo de expansão, chamado de renascimento nuclear, o setor conseguiu recuperar a imagem de produção energética segura e controlada, que havia sido severamente abalada após as catástrofes de Three Mile Island, em 1957 e Chernobyl, a pior da história, quase trinta anos depois. 
Mas a onda de sorte da energia nuclear pode estar com os dias contados. Diante da iminência de uma catástrofe atômica no Japão, muitos países estão suspendendo seus programas nucleares e revisando protocolos de segurança. Para um dos maiores especialistas em energia, o físico nuclear e professor da USP José Goldemberg, não há dúvidas que de que a imagem de segurança da energia nuclear foi novamente abalada. Uma segurança, segundo ele, que nunca passou de mera fantasia. 
Em entrevista à EXAME.com, o físico eleito pela revista Times um dos Heróis do Meio Ambiente, em 2007, e vencedor do Prêmio Planeta Azul, considerado o 'Nobel' da área, comparou o acidente japonês ao popular conto de Lewis Carrol. "Como em Alice no País das Maravilhas, o espelho da ilusão de segurança das usinas nucleares foi estilhaçado", disse. Goldemberg chamou de 'equivocado' o programa nuclear brasileiro e falou da necessidade de se adotar novas alternativas energéticas. 
EXAME.com - A crise no Japão levanta preocupações com a segurança das usinas nucleares em todo o mundo. Como o senhor avalia essa situação? 
José Goldemberg - É natural que, diante de uma catástrofe como essa, os países recuem em seus programas nucleares. Isso já aconteceu antes. Nas décadas de 70 e 80, a energia nuclear viveu uma grande expansão e ficou competitiva em decorrência da crise do petróleo, que afetou os preço do combustível e do gás, e da necessidade de segurança energética. Na França, por exemplo, que queria se ver livre da importação de gás da Rússia para suas centrais térmicas, a adoção da energia nuclear foi determinante. 
Nesse período, inauguravam-se cerca de 30 usinas por ano em todo o mundo. Assim foi até 1979, quando ocorreu o desastre nuclear de Three Mile Island, nos EUA, que abalou a confiança no setor. A situação piorou em 86, com a explosão do reator de Chernobyl. Daí em diante, o setor nuclear praticamente paralisou, inaugurando apenas três usinas por ano. 
EXAME.com - Mas aí veio o renascimento nuclear... 
José Goldemberg - Sim. Com o desenvolvimento de sistemas de segurança mais apurados, os reatores nucleares ficaram mais caros até 1995. A salvação para o setor veio nos anos seguintes, com as discussões sobre emissão de gases efeito estufa e mudanças climáticas. 
Na ocasião, os países já haviam retomado a confiança nessa forma de geração e o setor viu nessa nova pauta ambiental uma oportunidade para aumentar a participação da energia nuclear na matriz energética mundial. Os Estados Unidos lideraram essa nova expansão com importantes susbsídios para estimular a criação de usinas. Outros países fizeram igual e a indústria se reanimou. Até a semana passada, antes da tragédia no Japão, a ideia do renascimento nuclear vinha ganhando força. 
EXAME.com - Então o acidente na Ásia afetou o ciclo de crescimento da energia nuclear? As usinas deixaram de ser seguras ou a culpa é dos desastres naturais? 
José Goldemberg - Com ou sem desastres naturais, usinas nucleares sempre foram perigosas. Nenhuma tecnologia é 100% segura. O acidente no Japão lembra o conto de Alice no País das Maravilhas. O espelho se estilhaçou, a segurança era ilusória. Quem trabalha com energia nuclear sabe como ela é perigosa, por sua própria natureza. 
Um reator precisa ser refrigerado, tem que ter água circulando dentro dele. Se por uma falha, isso deixa de acontecer, ele derrete e temos então uma catástrofe, como aconteceu em Tree Mile Island, que teve o mesmo grau de gravidade do acidente no Japão. Não foi um desastre natural que atingiu a usina americana, foi uma válvula que encrencou, falha de segurança. 
EXAME.com - Segundo o governo, o programa nuclear brasileiro, que prevê, além de Angra 3, mais quatro ou oito usinas até 2030, não será abalado. O que o senhor acha disso? 
José Goldemberg - No Brasil, a energia nuclear é dispensável. Não precisamos disso. Apesar de atraente, esse tipo de geração deve ser a última das opções, restrita a países que não têm outra opção, como a França. Quando Angra 3 ficar pronta, a energia gerada será menor que o potencial de produção de energia do bagaço de cana, que só em São Paulo é de 2 milhões de kilowatts. Trata-se da energia de dois reatores nucleares. Devemos apostar mais na biomassa e nas hidrelétricas, ainda há muito potencial para ser aproveitado. 
EXAME.com - O momento é propício para as energias alternativas?
José Goldemberg - Sem dúvida, a tragédia nuclear no Japão vai dar um impulso nos investimentos em energia renovável em todo o mundo. A Alemanha, que anunciou o desligamento de suas usinas nucleares, já investe pesado em energia eólica e isso só tende a aumentar. 
Por aqui, temos que dar mais atenção à energia eólica no Norte do país, os ventos bons estão lá no Piauí, no Ceará, no Norte do Maranhão. E não adianta dizer que faltam boas linhas de transmissão ligando o Norte ao Sul. Todas as dificuldades técnicas para longas distâncias já foram resolvidas há trinta anos, com a hidrelétrica de Itaipu, que é muito longe. O que falta é interesse político.
Fonte: Planeta Sustentável, 18/03/2011

o encontro com a realidade dos riscos inerentes à energia nuclear

ANTES E DEPOIS

por Miriam Leitão
A energia nuclear passará inevitavelmente por uma revisão no mundo inteiro. A China, que é o endereço de 25 das 49 usinas em construção, está revendo todos os protocolos de segurança e os Estados Unidos, que estavam iniciando uma retomada, também. A França, altamente dependente, rediscutirá o assunto. A Alemanha está mudando de novo de posição sobre o tema.
Na matriz global, a energia nuclear é pequena, mas para alguns países, a fonte é fundamental. Na França, 76% da eletricidade consumida são de usina nuclear; na Alemanha, 28,8%; Finlândia, 30%; Espanha, 18%; Suécia, 42%; Suíça, 39%; Reino Unido, 13,5%; Rússia, 17%; Ucrânia, 47%; Japão, 25%; Coreia, 36%. Há uma série de países com alta dependência da energia nuclear, como a Lituânia: 72%. Armênia, Bulgária, República Checa e Hungria dependem em mais de 30% da fonte nuclear para a geração de eletricidade. Os países menos dependentes são Brasil, China e Índia, entre 3% e 2%.
A cada desastre, o mundo interrompe tudo, revê procedimentos de segurança, vai com menos sede ao pote e segue adiante. Mas é diferente quando acontece numa ditadura, como a soviética, onde não havia oposição e as autoridades escondiam informações. Agora, o acidente acontece num dos países com melhor reputação do mundo em termos de prevenção de desastres.
O pior que um país como o Brasil pode fazer neste momento é tentar, de novo, a política do avestruz; ou aquela arrogância sem lastro que faz autoridades dizerem que as nossas são mais seguras do que as japonesas. Mais humildade faria bem ao governo.
Temos duas usinas em funcionamento. Duas velhas usinas. Uma, de tecnologia americana Westinghouse, Angra 1, e a outra que é a primeira do acordo nuclear com a Alemanha, assinado no governo Geisel. As duas são do começo dos anos 1980. A construção da terceira se arrasta por décadas. Houve erros no projeto tão absurdos e sequenciais que paralisaram a obra, agora retomada. O governo diz que construirá mais quatro até 2030, uma delas às margens do nosso magro, desprotegido e desaguado Rio São Francisco.
O governo Geisel tinha metas ambiciosas que foram escritas no acordo nuclear com a Alemanha: fazer, naquela época, 10 usinas e absorver tecnologia de todas as fases do processo de construção e enriquecimento de urânio. Estancou na terceira — a segunda das dez do acordo — por motivos que vão dos erros do projeto ao custo alto.
O Brasil teve naquela época, em plena ditadura, um intenso debate. O governo não estava interessado nele, mas os cientistas e políticos de oposição forçaram a redução da megalomania e o encontro com a realidade dos riscos inerentes à energia nuclear. Um deles: o que fazer com os rejeitos que duram centenas de anos?
Uma CPI no Senado, presidida na época por Itamar Franco, teve a ajuda substancial do físico Luiz Pinguelli Rosa para entender todos os riscos a que estávamos expostos. Ambientalistas mobilizaram a sociedade civil. O fato histórico é que Angra 3 parou na fase das fundações até que o governo Lula retomou a construção. Na época, a piada na CPI é que o problema do governo era não saber tupi-guarani. A praia onde Angra 3 estava sendo construída era chamada, no passado remoto, pelos índios, de Itaorna. Que queria dizer “pedra podre”. De fato, os trabalhos de fundações foram surpreendidos por um detalhe: o que se pensava no projeto que era a rocha firme eram pedras soltas. Isso encareceu mais ainda a obra.
Projeto reiniciado, ficam duas observações: sabe-se pouco dos planos de contingência e de proteção da área densamente povoada que é Angra; a construção das usinas nucleares é cara demais.
Nos últimos anos, com a intensificação da preocupação com as mudanças climáticas, parte do ambientalismo deixou sua aversão à energia nuclear porque ela não emite gases de efeito estufa; parte continuou resistente pelos motivos de segurança que agora, mais uma vez, se confirmam reais. Um desastre numa usina, ainda que aconteça raramente, tem um potencial de dano impressionantemente alto.
Não há energia sem risco, e o Brasil não é área de terremotos, vulcões ou furacões de grande intensidade. Temos nossas muitas vantagens. Mas nenhum desastre é como o outro. A pior atitude é a das autoridades brasileiras nos últimos dias. No mundo inteiro, ouve-se governos anunciando revisão do procedimento de segurança ou dos planos de expansão do número de usinas atômicas. No Brasil, tudo o que se ouve é que somos melhores do que os outros, as nossas são mais seguras, e que novas serão construídas. Em que planeta habitam nossas autoridades?
Segurança é aquilo que precisa ser sempre revisto diante de fatos novos, exatamente para aprender com eles. Risco zero não existe em lugar algum. O país com o qual o Brasil fez o acordo nuclear já paralisou há muito tempo seu programa nuclear, retomou, para novamente anunciar revisão após o acidente. Lá, as usinas anteriores a 1980 serão fechadas.
Aqui, não existe uma agência reguladora independente. Não são ouvidos os cientistas. O ministro da energia é o mesmo que tem um conhecimento tosco do assunto. Aliás, de qualquer assunto da sua pasta. Existirá no mundo da energia nuclear um antes e depois de Fukushima. O Brasil não escapará dessa fronteira.
Fonte: O Globo | Economia, 18/03/2011

quinta-feira, março 17, 2011

a eletricidade do futuro será mais verde

O QUE ACONTECE SEM A ENERGIA NUCLEAR?
O mundo aposta nos possíveis substitutos do átomo. As fontes renováveis competem com as centrais em termos de custo. A eletricidade do futuro será mais verde, mas não mais barata.
por Maurizio Ricci - La Reppublica
E agora? Se o pós-Fukushima, assim como o pós-Chernobyl, inaugurasse uma segunda era pós-nuclear, o mundo estaria destinado a uma paralisia, além disso escura, fria e intoxicada por petróleo e carvão?
Na realidade, embora muitos defendam que o átomo é uma escolha conveniente, ninguém jamais disse que se trata de um caminho obrigatório. A cota da energia nuclear na oferta de energia mundial está relativamente contida. Hoje está em 16%. Na Itália, se a Enel[maior operadora de eletricidade do país] realizasse as quatro centrais que tem programada, passaríamos de zero para 12-13%. Mas, no mundo, de acordo com a maior parte das previsões, antes de Fukushima, a cota do átomo devia permanecer mais ou menos em 16%, a não ser que houvesse uma drástica reviravolta na luta contra o efeito estufa.
Outras energias
E o "renascimento nuclear" do qual se fala já há tanto tempo? Em grande medida, consiste, mais do que no alargamento do número total das centrais, na substituição das velhas instalações, construídos nos anos 60 e 70. A história da energia dos próximos anos, dizem também as companhias petrolíferas, será o boom das fontes renováveis. Painéis e turbinas já não são mais brinquedos, mas constituem megainstalações, capazes de rivalizar, em termos de eletricidade fornecida, com as centrais tradicionais.
Um gigante do petróleo como a BP prevê que, em 2030, a cota das renováveis, na oferta de energia, será igual à da nuclear. Porém, esse montante da energia mundial, hoje fornecido pelo átomo, é uma massa conspícua, e substituí-lo não parece ser simples. Ao contrário, nos últimos meses, acumularam-se estudos e relatórios que indicam o objetivo de uma energia, toda (ou quase toda) renovável, excluindo também a nuclear, como perfeitamente possível, sem interferir no nosso modo de vida. A afirmação é de ambientalistas como WWF e Greenpeace, mas também de sérios e reconhecidos institutos como o McKinsey, uma das maiores sociedades de consultoria do mundo.
O defeito desses relatórios é que colocam o objetivo para 2050, um pouco longe demais dos problemas de hoje. O problema, porém, não é técnico. Embora saltos tecnológicos (como a introdução das películas no lugar dos custosos painéis fotovoltaicos, ou de espelhos planos, ao invés de côncavos, nas centrais termossolares) dariam um novo estímulo às energias alternativas, esses relatórios fazem as suas contas com base na técnica atual. As escolhas decisivas são, principalmente, políticas e, portanto, poderiam ser aceleradas. Além disso, para ter eletricidade nuclear na Itália também teríamos que esperar até 2025-2030.
De quais renováveis estamos falando? Os experimentos em curso são múltiplos: ondas, marés, correntes, calor da terra, salinidade do mar. De fato, as tecnologias consolidadas são três: a solar (nas duas formas dos painéis fotovoltaicos e das centrais de concentração, que produzem vapor com o calor do sol) e a eólica.
Todas as três devem o seu desenvolvimento aos incentivos públicos. Mas também a energia nuclear (sob a forma de garantias nos empréstimos ou de preços garantidos), e, em muitos países, os próprios combustíveis fósseis gozam de facilidades de vários títulos: as polêmicas entre os dois alinhamentos com relação às respectivas ajudas públicas alcançam periodicamente graus elevadíssimos. Em todo o caso, uma gigantesca conversão de gás, carvão, petróleo e energia nuclear ao sol e ao vento não seria nada gratuita. O Energy Report da WWF calcula um gasto de um trilhão de euros por ano. Parecem ser mais do que são na realidade. Uma boa parte desse dinheiro deveria ir para a melhoria da eficiência no uso da energia. Particularmente, para realizar o isolamento térmico dos edifícios que, provavelmente, deveriam ser construídos. E a maior parte do restante para construir centrais que, também elas, deveriam ser construídas, tradicionais ou não.
Grande parte do parque de instalações, pelo menos no Ocidente, é constituído pelas centrais, de carvão ou nucleares, construídas nas primeiras décadas do pós-guerra, que estão alcançando o fim da vida ativa. Desse ponto de vista, as decisões que forem tomadas nos próximos três a cinco anos sobre o tipo de centrais a serem construídas (tradicionais, nucleares, alternativas) serão determinantes para o estabelecimento do futuro da energia mundial.
Custos
No debate, será determinante o problema dos custos. A gigantesca extensão de turbinas a vento, que o governo de Londres conta instalar ao longo das costas inglesas, tem um custo mais ou menos igual ao de centrais nucleares de potência semelhante. O motivo não é que as turbinas custam tanto quanto os reatores. Mas sim que uma central atômica produz energia 24 horas por dia, sete dias por semana, enquanto uma central eólica fornece energia, em média, durante um terço do tempo possível: depende do vento que há.
A volatilidade das provisões é, hoje, o maior obstáculo ao desenvolvimento das energias alternativas. As companhias elétricas têm dificuldade para abrir suas próprias redes a uma cota superior a 20-30% de renováveis, porque não têm certeza que teriam essa energia se dela precisassem. A taxa de incerteza está se reduzindo, na realidade. Hoje, as previsões meteorológicas permitem acertar, com 1.836 horas de antecipação, a situação do sol e do vento. Os desenvolvimentos técnicos, no caso das centrais solares de concentração, permitem, além disso, armazenar energia por sempre mais tempo, mesmo depois do pôr do sol. Mas, enquanto houver baterias a serem carregadas, quando houver muita energia de vento ou de sol, quando houver pouca, as fontes alternativas pareceriam destinadas a acrescentar sua própria eletricidade às fontes tradicionais ao invés de a substituí-las.
A menos que, como nos relatórios que circularam nestes meses, pense-se ainda maior. No fundo, se não há vento ou sol aqui, há provavelmente duas baías mais além. Ou na África ou na Escandinávia. O Desertec é um gigantesco projeto que prevê a união da eletricidade produzida por centrais solares na África e eólicas no Norte da Europa e distribuí-la, depois, em todo o continente. E também a ideia da Super-Rede, um pool europeu de energia para intercambiar as provisões das diversas energias alternativas. Mas é possível pensar também em um nível menor, contanto que se aceite algum compromisso. Quem fez isso foram ambientalistas pragmáticos, como os da Worldwatch. Segundo o seu presidente, Christopher Flavin, a verdadeira ponte para um futuro da energia totalmente de fontes alternativas é um combustível fóssil: o metano.
O gás, ao contrário da energia nuclear, produz gás carbônico – e, portanto, efeito estufa – embora em uma medida inferior do que o carvão e o petróleo. Nos últimos anos, uma série de modificações nas técnicas de extração o tornaram, surpreendentemente, econômico e abundante. Flavin destaca que uma central de gás custa cerca de um décimo da instalação nuclear equivalente. Pode ser de dimensões reduzidas. Principalmente, ao contrário de uma nuclear atômica, que deve estar permanentemente em funcionamento, possivelmente no máximo da capacidade, ela pode ser facilmente desligada, ligada ou atuar em um regime menor. O complemento perfeito, segundo Flavin, para uma central eólica ou solar, às quais se somaria, fornecendo energia nos momentos de queda da produção.
Nada de tudo isso, juram os autores dos relatórios sobre o futuro das fontes alternativas, incidirá sobre o nosso modo de vida.
De resto, ainda hoje, se reestruturarmos nossas casas, teremos que montar janelas isolantes. E, com a tarifa bi-horária [taxas diferenciadas da energia, dependendo do horário do consumo], é conveniente ligar a lavadora de noite ou no final de semana, quando a demanda de eletricidade é mais baixa.
Os relatórios, entretanto, estão menos dispostos a abordar o tamanho das contas a serem pagas. Mas, com ou sem a energia nuclear, é difícil não pensar que as contas irão aumentar: a era da energia de baixo custo, no futuro previsível, acabou.
Reportagem publicada no jornal La Reppublica, 16-03-2011.
Tradução: Moisés Sbardelotto
Fonte: IHU, 17/3/2011

quarta-feira, março 16, 2011

todo acidente nuclear é um desastre mundial

De Chernobyl até hoje, a tecnologia melhorou, mas os riscos continuam

As instalações nucleares são seguras? Pode-se responder a essa pergunta de dois modos: com uma análise técnica ou com um simples teste psicológico. Tomemos o teste. Dizem-lhe que uma refinaria explodiu a 40 quilômetros de casa. Você estende um doloroso pensamento às dezenas de vítimas da bola de fogo e volta para se ocupar com os seus afazeres. Dizem-lhe, ao contrário, que explodiu uma central nuclear do outro lado do mundo, no Japão. Você se apressa para fechar as janelas e retira leite e verduras da despensa.
por Maurizo Ricci - La Repubblica, 13-01-2011.
Existem 400 centrais nucleares no mundo, e o número de acidentes relatados é baixo. Mas, embora improvável, o risco, como se viu no Japão, existe. E, se o improvável acidente se verifica, as consequências são enormes: potencialmente, todo acidente nuclear é um desastre mundial, que coloca em perigo qualquer ser vivo e cujos efeitos se prolongam – como em Chernobyl – por décadas.
Quanto mais um reator é novo e moderno, mais é seguro, asseguram os técnicos. Na realidade, os progressos no campo da segurança referem-se sobretudo à introdução de um interruptor automático, que interrompe a fissão quando criam-se situações de perigo. Mas nem isso, no entanto, foi conquistado: os trabalhos de construção das centrais de Olkiluoto e Flamanville (onde funcionaram reatores idênticos aos previstos para a Itália) foram bloqueados pelas autoridades de vigilância, justamente por dúvidas sobre a eficiência do software que constitui o interruptor.
Em todo o caso, o problema japonês, em Fukushima, não se refere ao reator e ao seu apagamento. Não conta que se tratem de reatores de água leve, embora pressurizada (como os que serão importados da França para a Itália), nem que o reator japonês já tenha 40 anos. O reator parou disciplinadamente. O problema é que, depois, porém, é preciso esfriá-lo rapidamente. O drama japonês está aqui. É um problema de tubos, bombas, torneiras. Velhas tecnologias com um forte componente humano.
No incidente de Fukushima, há uma inquietante concatenação de casualidades, banais e nada remotas. O terremoto interrompeu a eletricidade: é preciso bombear água para esfriar as barras. Mas o motor a diesel da bomba de emergência se bloqueia. Enquanto isso, as barras de urânio continuam aquecendo-se, aproximando-se perigosamente do nível de mais de 500 graus, quando correm o risco de começar a se fundir e escoar para baixo. E a temperatura faz explodir (provavelmente) um dos tubos que levam a água, fazendo ruir o teto do edifício. O que explodiu exatamente?
“Explodiu o reservatório do reator”, explica Paddy Regan, físico nuclear inglês. “É fundamentalmente o que aconteceu em Chernobyl, e o vazamento de radioatividade é enorme”. Se, ao contrário, o dano está limitado à estrutura externa, “enquanto o reservatório interno de aço permanecer intacto – diz Robin Grimes, professor do Imperial College de Londres – a maior parte das radiações será contida”. Mas há uma terceira e angustiante possibilidade, que até agora jamais ocorreu: que o terremoto ou a explosão tenham danificado o pavimento do reservatório do reator e que o combustível fundido se propague pelo terreno, onde se tornaria impossível contê-lo ou recuperá-lo.
Mais do que Chernobyl, portanto, Fukushima lembraria Three Mile Island (zero vítimas). Mas o incidente revela quanto os eventos externos e incontroláveis podem ser determinantes. Em uma visita à central de Olkiluoto, na Finlândia, o diretor dos trabalhos, Martin Landtman, disse que o reator será protegido por uma dupla camada de cimento (contra ataques aéreos tipo 11 de setembro) e por um tanque de aço para evitar que, em caso de fusão, o combustível acabe no terreno.
“Naturalmente – acrescenta –, preparamo-nos para os eventos que podemos prever”. Mas a natureza oferece muitas vezes eventos imprevisíveis. A velha central de Trino Vercellese, por exemplo, está na beira do rio Po, sete metros acima do nível normal da água. Jamais houve no Po uma cheia superior a sete metros. Se, porém, houvesse uma de oito metros, a água poderia penetrar na central e levar embora consigo as sobras radiativas.
O outro exemplo é oferecido por Fukushima. Todas as centrais são construídas para resistir a um certo nível de abalo sísmico. Fukushima foi pensada para resistir a abalos de seis graus da escala Richter. Na sexta-feira, ela sofreu tremores mil vezes mais fortes. Se as estruturas principais permaneceram firmes, significa que os critérios de construção podem permitir que se superem eventos externos, até superiores ao previsível. Mas não as consequências. Se tudo vai bem, sempre é possível se resignar, como os habitantes de Fukushima, a uma dieta de iodo.
Tradução: Moisés Sbardelotto.
Fonte: Ecodebate, 15/03/2011. Publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

terça-feira, março 15, 2011

energia nuclear está ultrapassada é hora das energias e tecnologias do futuro

Energia nuclear é perigosa e ultrapassada

por Judith Hartl
Central Nuclear de Fukushima. Foto: Reuters/AE
A catástrofe nuclear no Japão vai mudar o mundo, e de forma permanente. Ela deixa claro o quão perigosa e incontrolável a energia atômica de fato é. Sim, conseguimos controlar a fissão nuclear. Sim, sabemos como os átomos se comportam e o que temos de fazer para que eles forneçam uma enorme quantidade de energia. Mas sabemos também que especialistas, físicos atômicos e políticos ficam assustadoramente perplexos quando uma usina nuclear resolve se comportar de forma não prevista. Aí o que predomina é a impotência, e a simples esperança de que a fusão do núcleo do reator pare por si mesma.
Argumentar que o Japão conhece o barril de pólvora sobre o qual está sentado, e que terremotos como o atual não acontecem na Alemanha, é simplificar as coisas. E se um avião cair sobre uma central? E quanto aos ataques terroristas, às múltiplas falhas técnicas ou humanas?
Além disso, o perigo não reside apenas nas panes – também o lixo radiativo, para o qual ninguém tem um destino adequado, vai um dia se tornar um obstáculo. Até hoje não existe em nenhum país do mundo um lugar adequado para depositar detritos atômicos, apesar de buscas intensas.
Queremos continuar correndo esses riscos? Apesar de termos alternativas mais promissoras, como a energia solar e a eólica? Essas são energias renováveis, que nos tornam independentes do petróleo, que não oferecem perigo, que são sustentáveis e que não comprometem as gerações futuras. É nessas energias que devemos investir. Elas não são um sonho ambientalista. Elas representam uma sociedade limpa, sustentável e moderna.
A energia nuclear, por outro lado, está ultrapassada. Ela é poluente e perigosa e consome recursos naturais. O urânio, combustível das usinas nucleares, está em declínio. Há urânio suficiente para no máximo 50, 60 anos, calculam especialistas. Isso é sustentável? Os únicos que asseguram que sim, são os lobistas da energia atômica e as empresas de energia, que se enriquecem com a fissão nuclear e exercem enorme influência sobre a política.
Tomara que a catástrofe no Japão sirva para acordar os políticos. Chegou a hora de eles mostrarem coragem. Coragem de virar as costas para o passado e investir nas energias e tecnologias do futuro.
Revisão: Augusto Valente
Original da Agência Deutsche Welle, publicada pelo EcoDebate, 15/03/2011

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