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segunda-feira, julho 04, 2011

é a gota de água que transborda o copo

A Teoria do Caos e o Meio Ambiente

por Roberto Naime*

 A gente imagina que caos é anarquia, falta de organização, algo assim. Mas a teoria do caos, conforme proposta de JAMES GLEICK (Caos, criação de uma nova ciência, Rio de Janeiro, Campus, 1989), tem outra conceituação. Os sistemas naturais apresentam mudanças significativas na maneira como funcionam mesmo quando permanecem dentro do mesmo padrão global, de forma que certas fronteiras críticas que definem este padrão não podem ser transpostas sem que este equilíbrio seja ameaçado.
Traduzindo para exemplos simples e de fácil compreensão poderíamos dizer que é a gota de água que transborda o copo, ou de como a movimentação das asas de uma borboleta em Pequim, altera a condição dos ventos em Cuiabá. Coisas que aparentemente não tem nenhum sentido, mas estão relacionadas por equilíbrios frágeis e complexos.
Tem fatos naturais que não guardam as mesmas leis de organização que estamos acostumados a saber, não tem geometria, não são passíveis de descrições por algoritmos matemáticos lineares ou logarítmicos, mas nem por isso deixam de existir. São as chamadas ordens naturais não-lineares ou fractais ou nem compreendidas.
Na análise dos impactos ambientais existem vinculações com o espaço, o tempo e a ciclicidade. Isto implica interação com o equilíbrio endógeno (interno) e exógeno (externo). É como quando alguém adoece. Uma dor de estomago atrapalha muito qualquer outra atividade e interfere no conjunto da saúde.
Nesta paisagem ocorre de forma indiscutível, a intervenção da questão política como cenário de fundo para muito, ou quase tudo que ocorre no planeta.
Existem relações ainda não completamente descritas entre várias ocorrências da civilização, com fatores de clima, condições naturais ou interferências antrópicas, que desequilibram o meio natural. Podem se citar exemplos bem prosaicos e ao nosso alcance, como as monoculturas e as ações históricas dela decorrentes. Que tornam os ecossistemas muito vulneráveis ou frágeis.
De fato, muitas das conexões demonstradas tiveram conseqüências registradas e demonstradas sobre eventos históricos, mas não é possível afirmar que a abordagem reducionista aplicada, limitando os fatores para explicar os fatos, possam resistir a análises mais completas.
Complexidade é isto, são inúmeros fatores, geralmente muito além do que a gente possa citar ou analisar e que estão envolvidos com a ocorrência. Todo mundo associa a gordura com os níveis de colesterol, e está certo. Mas não é o único fator, tem sedentarismo, e vários outros itens que a medicina cita.
Conseguir vincular todos os itens relevantes e as relações entre eles numa análise de impacto ambiental é um grande desafio, bastante difícil de atingir mesmo que se tenha extrema boa vontade.
Na visão de mundo apresentada por várias religiões orientais antigas, é destacada a experiência de viver a unidade em um corpo integrado física e mentalmente, vale dizer emocionalmente. O mesmo pode ser dito para a maioria das intervenções antrópicas sobre o meio natural. Deve resguardar sua unidade tanto fisiológica quanto funcional.
Para estas escolas do pensamento humano, enquanto a sociedade humana viver dicotomias que precipitam comportamentos desintegrados, a vida será entendida como um processo de aquisições sem compromisso. E sabemos que não é assim, talvez nossa maior festividade seja o compromisso celebrado quando um homem e uma mulher casam. Talvez tenha que ser assim com o mundo um dia.
Apenas a sensação de integração entre a vida e os sentimentos que são criados ou propagados pelas vivências é que poderão transformar o prazer de ter no prazer de ser, conforme já amplamente demonstrado por CRISTOPHER LASCH em 1986, no seu livro “The minimal self” (O mínimo eu).
O aprofundamento desta discussão talvez possa ser resumido na conscientização de que novos paradigmas geram novas formas de visão e abordagem. Deste processo resultam novos valores éticos e humanos que vão se tornar relevantes em todas as dimensões da vida.
(*) Dr. Roberto Naime, colunista do Ecodebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Fonte: EcoDebate, 09/06/2011

segunda-feira, maio 30, 2011

“O ser humano, perdeu a capacidade de prever e de prevenir..." - Schweitzer

Código Florestal: a luta entre a razão e a morte

O debate ambiental no Brasil é dominado hoje por supostos porta-vozes do "bom senso", inimigos de posições "radicais". Mas essas pessoas estão propagando a irracionalidade, não a verdade. Isso precisa ser dito assim, em alto e bom tom. São produtores de irracionalidade e de morte.

O debate em torno da proposta de mudança do Código Florestal expôs, mais uma vez, a gigantesca ignorância de lideranças políticas e econômicas da nossa sociedade que se consideram seres racionais e esclarecidos. Essa ignorância, como se viu, espalha-se por boa parte do espectro político com ramificações à direita e à esquerda. 
A argumentação utilizada por esses setores começa sempre afirmando, é claro, a importância de proteger o meio ambiente para, logo em seguida colocar um senão: não podemos ser radicais nesta questão, precisamos gerar renda e emprego, desenvolver o país, etc. e tal. É curioso e mesmo paradoxal que essa argumentação apele para um bom senso mítico que seria sempre o resultado de uma média matemática entre dois extremos. Você quer 2, ele quer 10, logo o bom senso nos diz para dar 6. Esse cálculo infantil pode funcionar para muitas coisas, mas certamente não serve para buscar respostas à destruição ambiental do planeta, que não cessa de aumentar.
É curioso também, mas não paradoxal neste caso, que a argumentação utilizada pelos defensores do “desenvolvimento” seja sempre a mesma, com algumas variações. Supostamente recoberta por um bom senso capaz de conciliar desenvolvimento com proteção do meio ambiente (combinação que até hoje tem sido usada para justificar toda sorte de crimes ambientais), essa argumentação, na verdade, é atravessada por falácias e por uma irracionalidade profunda, na medida em que, em última instância, volta-se contra a possibilidade de sobrevivência da razão, entendida como uma faculdade humana. 
O guarda-chuva do agronegócio abriga, assim, além de muitas riquezas, armazéns lotados de falácias e irracionalidade. Não é por acaso que alguns de seus representantes cheguem ao ponto de vaiar o anúncio do assassinato de um casal de extrativistas no Pará, como aconteceu terça-feira, no Congresso Nacional. Alguém dirá: são uma minoria, a maioria desse setor é composta por gente de bem. Pode ser que sim. Se até o inferno, como se sabe, é pavimentado por boas intenções, que dirá as galerias e o plenário do nosso parlamento.
Mas voltemos ao suposto bom senso daqueles que só incluem o meio ambiente em suas falas quando é preciso flexibilizar ou eliminar alguma lei de proteção ambiental. Uma das dificuldades que os ambientalistas têm para travar esse tipo de luta é que o outro lado sempre apresenta-se como porta-voz do bom senso. O clichê “não podemos ser radicais” é usado em todas as suas possíveis variações. Os meios de comunicação e seus profissionais funcionam, em sua maioria, como produtores, reprodutores e amplificadores dessa suposta usina de bom senso e racionalidade. Em um cenário muito, mas muito otimista, algum dia poderão ser considerados como criminosos ambientais. Mas ainda estamos muito longe disso.
Em 1962, Rachel Carson lançou “A Primavera Silenciosa” nos Estados Unidos, um livro que acabou forçando a proibição do DDT e despertou a fúria da indústria dos agrotóxicos. Está publicado em português pela editora Gaia. É um livro extraordinário e luminoso que Carson dedicou a Albert Schweitzer. “O ser humano”, escreveu Schweitzer, “perdeu a capacidade de prever e de prevenir. Ele acabará destruindo a Terra”. O deputado Aldo Rebelo talvez considere essa afirmação como uma típica expressão de um representante do imperialismo que já destruiu todo o meio ambiente em seu país e agora quer evitar que “exploremos nossas riquezas naturais”. Ele parece apreciar esse tipo de falácia. Schweitzer também disse: “O ser humano mal reconhece os demônios de sua criação”. Talvez seja esse o problema.
Tudo isso, obviamente, é vã e retrógrada filosofia para os porta-vozes do bom senso. Hoje, eles dominam o debate público. Mas estão errados e propagam a mentira, não a verdade. Isso precisa ser dito assim, em alto e bom tom. São produtores de irracionalidade e de morte. E a nossa sociedade vem consumindo avidamente esses produtos. Rachel Carson pergunta-se: “Estamos correndo todo esse risco – para quê? Os historiadores futuros talvez se espantem com o nosso senso de proporção distorcido”. A consciência da natureza da ameaça ainda é muito limitada, escreve ela. E conclui: 
“Precisamos urgentemente acabar com essas falsas garantias, com o adoçamento das amargas verdades. A população precisa decidir se deseja continuar no caminho atual, e só poderá fazê-lo quando estiver em plena posse dos fatos. Nas palavras de Jean Rostand: “a obrigação de suportar nos dá o direito de saber”.
É disso que se trata. A sociedade tem o direito de saber e o dever de decidir querer saber. Do outro lado, estão a mentira, a destruição do planeta e a morte. Simples assim. Deixe o bom senso de lado, escolha seu lado e mãos à obra.
(*) Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
Fonte: Carta Maior | Debate Aberto, 26/05/2011

segunda-feira, maio 16, 2011

a falta de uma política ambiental ampla

A nova proposta de reforma do Código Florestal causou preocupação no meio científico

Novo Código preocupa cientistas – Especialistas apontam falta de coordenação com as demais leis ambientais do País
A nova proposta de reforma do Código Florestal, apresentada no Congresso na noite de quarta-feira passada, causou preocupação no meio científico e expôs a falta de coordenação da nova lei florestal que o Brasil pretende criar com as demais leis ambientais do País, como a lei nacional de mudanças climáticas.
Para especialistas ouvidos pelo Estado, o novo Código Florestal pode levar a mais desmatamentos, o que poria em risco os compromissos internacionais do País de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
por Andrea Vialli - O Estado de S.Paulo
O novo texto apresentado pelo relator Aldo Rebelo (PC do B-SP) trouxe modificações que não agradaram ao governo, o que levou a votação da reforma a ser adiada mais uma vez – não há nova data para a votação.
“O texto abre muitas brechas para reduzir a proteção ambiental”, analisa o ex-deputado federal e indigenista Márcio Santilli, fundador do Instituto Socioambiental (ISA). Entre outros pontos, a proposta gera um estímulo ao fracionamento das grandes propriedades rurais no País, ao permitir que imóveis de até 4 módulos fiscais – entre 20 e 400 hectares, variando conforme o município – deixem de ser obrigadas a recompor a reserva legal. “Isso já está acontecendo nos cartórios pelo interior do País e dificultará a fiscalização pelos órgãos ambientais.”
Santilli concorda que é necessária uma atualização do Código Florestal, que data de 1965, mas avalia que o texto proposto espelha a falta de uma política ambiental ampla para o País. “Existe uma incoerência entre as normas estabelecidas pelo Legislativo. Se aprovado, esse Código Florestal não vai dialogar com a Lei de Mudanças Climáticas e a Lei da Mata Atlântica, ambas aprovadas pelo próprio Congresso.”
Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a proposta que está no Congresso aponta para um rumo desenvolvimentista, que penaliza o meio ambiente e não agregou a contribuição da ciência. “O texto não incorpora o conhecimento científico que temos”, resume Metzger, doutor em ecologia.
Entre os pontos mais preocupantes estão a redução das áreas de reserva legal, seja pela dispensa para pequenos proprietários, o que representa 25% do território, ou pela incorporação das Áreas de Preservação Permanente (APPs, como matas ciliares e topos de morros) no cômputo da reserva legal. “Tudo isso vai levar a mais desmatamento, perda de espécies e de serviços ecossistêmicos”, diz Metzger.
Elíbio Rech, pesquisador da Embrapa e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), pondera que, mesmo com falhas, o propósito da reforma do Código é mostrar novos caminhos para a agricultura brasileira, com aumento da produtividade sem prejuízos ao ambiente. “É preciso uma intensificação sustentável da agricultura. Produzimos ciência para isso: dar subsídios ao Brasil do futuro.”
por Andrea Vialli – O Estado de S.Paulo
Faltou diálogo com a comunidade científica na elaboração da proposta de reforma do Código Florestal que está na pauta do Congresso. Essa é a avaliação de Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Em abril a entidade, juntamente com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) apresentou aos parlamentares um estudo, chamado de O Código Florestal e a Ciência, oferecendo subsídios para a discussão. Para Helena, no entanto, o relator da reforma, deputado Aldo Rebelo (PC do B -SP), não levou as contribuições científicas em consideração.
“Ele disse recentemente que a ciência não trouxe contribuições para o debate do Código Florestal. Isso desmoraliza a ciência e o trabalho de todos os pesquisadores que assinaram o estudo”, diz a presidente da SBPC. A abordagem junto ao relator Aldo Rebelo, segundo Helena, começou em junho do ano passado, quando as entidades científicas enviaram carta ao relator oferecendo subsídios científicos.
A carta apontava, entre outros pontos, para os riscos da “substituição de áreas naturais por áreas agrícolas em locais extremamente sensíveis como são as áreas alagadas, a zona ripária ao longo de rios e riachos, os topos de morros”. Segundo as entidades, o apelo não surtiu efeito. “Não fomos chamados para esse debate”, diz Helena. “Nem a SBPC nem a ABC estão propondo limites para a agricultura. O que temos a oferecer são dados, é ciência, não opiniões.”
Para Jean Paul Metzger, da Universidade de São Paulo, a ciência não foi ouvida desde o início das discussões da reforma do Código, há cerca de dois anos. Ele afirma que as atuais tentativas de reformar a lei resultaram em um texto ruim. “Estamos remendando um texto ruim. Essas pequenas mudanças que estão sendo estabelecidas agora, por meio de acordos entre o Ministério do Meio Ambiente e bancada ruralista não vão alterar a essência da proposta” diz. “Tudo o que a SBPC e ABC apontaram na publicação foi basicamente ignorado.”
PRINCIPAIS PONTOS
Reserva legal
O texto levado ao plenário da Câmara permite o fatiamento de médias e grandes propriedades para que elas sejam beneficiadas pela dispensa da recuperação da reserva legal, assim como as pequenas.
Pantanal
O último texto autoriza a exploração do Pantanal mato-grossense, com aval do órgão estadual de meio ambiente.
Regularização ambiental
Regularizaria o uso de áreas rurais consideradas de ocupação consolidada por atividades da agricultura e pecuária. Permite compra de terras para compensar a reserva legal, com pressão sobre pequenos imóveis rurais.
Fonte: EcoDebate, 16/05/2011

quarta-feira, maio 11, 2011

Terra: nossa única Casa Comum e não temos outra

A TERRA ESTÁ DOENTE

por Leonardo Boff
 “Que devolvemos à Terra como forma de gratidão e de compensação? Nada. Só agressão, exaustão de seus bens. Estamos conduzindo, todos juntos, uma guerra total contra a Terra. E não temos nenhuma chance de ganharmos essa guerra. Temo que a Mãe Terra se canse de nós e não nos queira mais hospedar aqui. Ela poderá nos eliminar como eliminamos uma célula cancerígena”, escreve Leonardo Boff, teólogo.
Segundo ele, “o momento é de resistência, de denúncia e de exigências de transformações nesse Código que  modificado honrará  a vida e alegrará a grande, boa e generosa Mãe Terra“.
Eis o artigo.
Lamento profundamente que a discussão do Código Florestal foi colocada preferentemente num contexto econômico, de produção de commodities e de mero crescimento econômico.
Isso mostra a cegueira que tomou conta  da maioria dos parlamentares e também de setores importantes do Governo. Não tomam em devida conta as mudanças ocorridas no sistema-Terra e no sistema-Vida que levaram ao aquecimento global.
Este é apenas um nome que encobre práticas de devastação de florestas no mundo inteiro e no Brasil, envenenamento dos solos, poluição crescente da atmosfera, diminuição drástica da biodiversidade, aumento acelerado da desertificação e, o que é mais dramático, a escassez progressiva de água potável que  atualmente já tem produzido 60 milhões de exilados.
Aquecimento global significa ainda a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, que estamos assistindo no mundo inteiro e mesmo em nosso país, com enchentes devastadoras de um lado, estiagens prolongadas de outro e vendavais nunca havidos no Sul do Brasil  que produzem grandes prejuízos em casas e plantações destruídas.
Só cegos e estupidificados pela ganância do lucro não vêem as conexões causais entre todos estes fenômenos.
A Terra está doente. A  humanidade sofredora de 860 milhões passou, por causa da crise econômico-financeiro dos paises opulentos, onde grassam ladrões, salteadores de beira de estrada das economias populares, a um bilhão e cem milhões de pessoas.
Consequência: a questão não é salvar o sistema econômico-financeiro, não é produzir mais grãos, carnes e commodities em geral para exportar mais e aumentar o lucro.
A questão central é salvar a vida, garantir as condições físico-químicas e ecológicas que garantem a vitalidade e integridade da Terra e permitir a continuidade de nossa civilização e do projeto planetário humano.  A Terra pode viver sem nós e até melhor. Nós não podemos viver sem a Terra. Ela é  nossa única Casa Comum e não temos outra. Ela é a Pacha Mama dos andinos, a grande mãe, testemunhada por todos os agricultores e a  Gaia, da ciência moderna que a vê  como um superorganismo vivo que se autoregula de tal forma que sempre se faz apto para produzir e reproduzir vida.
Então, é nossa obrigação manter a floresta em pé. É uma exigência da humanidade, porque ela pertence a todos, embora gerenciada por nós . O equilíbrio climático da Terra e a suficiência de água para a humanidade passa pela floresta amazônica. É ela que sequestra carbono, nos devolve em oxigênio, em flores, frutos e biomassa. Por isso temos que manter nossas matas ciliares para garantir a perpetuidade dos rios e a preservação da pegada hidrológica (o quanto de água temos a nossa disposição). É imperioso não envenenar os solos pois os agrotóxicos alcançam o nível freático das águas, caem nos rios,  penetram nos animais pelos alimentos quimicalizamos e acabam se depositando dentro de nossas células, nos intoxicando lentamente.
A luta é pela vida, pelo futuro da humanidade e pela preservação da Mãe Terra.  Vamos sim produzir, mas respeitando o alcance e o limite de cada ecossistema, os ciclos da natureza e cuidando dos bens e serviços que  Mãe Terra gratuita e permanentemente nos dá.
Que devolvemos à Terra como forma de gratidão e de compensação? Nada. Só agressão, exaustão de seus bens. Estamos conduzindo, todos juntos, uma guerra total contra a Terra. E não temos nenhuma chance de ganharmos essa guerra. Temo que a Mãe Terra se canse de nós e não nos queira mais hospedar aqui. Ela poderá nos eliminar como eliminamos uma célula cancerígena. Devemos devolver seus benefícios, com cuidado, respeito, veneração para que ela se sinta mãe amada e protegida e nos continue a querer como filhos e filhas queridos.
Mas não foi a devastação que fomos criados e estamos sobre esse ridente Planeta. Somos chamados a ser os cuidadores, os guardiões desta herança sagrada que o Universo e Deus nos entregaram. E vamos sim  salvar a vida, proteger a Terra e garantir um futuro comum, bom para todos os humanos e para a toda a comunidade de vida, para as plantas, para os animais, para os demais seres da criação.
A vida é chamada para a vida e não para a doença e para morte. Não permitiremos que um Código Florestal mal intencionado ponha em risco nosso futuro e o futuro de nossos filhos, filhas e netos. Queremos que eles nos abençoem por aquilo que tivermos feito de bom para a vida e para a Mãe Terra e não tenham motivos para nos amaldiçoar por aquilo que deixamos de fazer e podíamos ter feito e não fizemos.
O momento é de resistência, de denúncia e de exigências de transformações nesse Código que  modificado honrará  a vida e alegrará a grande, boa e generosa Mãe Terra.
(Ecodebate, 09/05/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.
Fonte: EcoDebate, 09/05/2011

terça-feira, maio 10, 2011

para que matar o sapos?

A NATUREZA PEDE SOCORRO
(por Vinícius Ausier Campos - 12 anos)
...
A natureza pede socorro,
Sem ela eu morro.
Os carros a matam sufocada,
As serras a matam cortadas.
Os mares ficam sem peixes
As florestas sem animais.
O que será que eu faço,
Para ajudar a natureza que é demais!
Eu coleto, eu reciclo, o que faço?
Faço de tudo para ajudar o mato.
Madeira só reflorestada,
Desenho em papel, uso os dois lados.
Mas, o que eu não entendo,
Para que matar os sapos?
Voltando ao assunto,
A natureza pede socorro,
Sem ela eu morro.

segunda-feira, maio 09, 2011

o rápido crescimento econômico aumenta o consumo de água

China enfrenta desertificação acelerada

Em Turpan, no noroeste do país, os sistemas tradicionais não conseguem mais atender à demanda de água
Sentado ao lado de seu pai no quintal de uma antiga casa tradicional uigure de tijolos ocre, Kalik comemora: “Nós conseguimos produzir 500 quilos de uva por dia”, diz. Essa produtividade é um milagre, considerando as condições climáticas às quais está submetida Turpan, oásis situado em pleno deserto, na região de Xinjiang, extremo noroeste da China. O solo é seco, muitas vezes arenoso. As chuvas não passam de 20 milímetros ao ano. Reportagem de Harold Thibault, em Le Monde.
O jovem sabe que deve sua produção, que sustenta toda sua família, ao canal que passa a alguns passos da propriedade e foi escavado quatro séculos atrás. É uma das artérias do karez, um sistema de irrigação que remonta a mais de dois milênios e que serviu de corda de segurança para esse oásis, funcionando como parada para as caravanas que tomavam a antiga Rota da Seda. Esses canais de irrigação, outrora chamados de “qanats”, se encontram em diversas regiões áridas da Ásia Central.
“A água é doce, ela provém diretamente da Tian Shan”, explica Kalik, evocando as Montanhas Celestiais, a cordilheira que atravessa a região a quilômetros de Turpan. A rede de canais subterrâneos permite que a água das montanhas chegue até essa depressão, ao mesmo tempo em que evitam a evaporação nessa zona onde a temperatura pode chegar a 50 graus Celsius durante os meses de verão.
Na frente da casa ainda florescem cerejeiras, mas o milagre tem sido colocado duramente à prova há alguns anos. A algumas ruas de lá, os trabalhadores migrantes se empenham nos canteiros de obras de concreto, que aos poucos vão tomando conta dos antigos bairros tradicionais. O sistema de irrigação acompanha com dificuldades o ritmo de crescimento. Turpan não escapa da urbanização maciça e da superexploração dos recursos naturais. Para uma cidade chinesa, ela continua tendo uma dimensão modesta, mas a população hoje ultrapassa os 600 mil habitantes, sendo que em 1949 ela possuía 67.300.
Nos lençóis freáticos
Se os habitantes conseguiram cultivar em pleno deserto uma uva que se tornou famosa em todo o país, foi graças aos 5 mil quilômetros de canais. Mas, superexplorados e mal cuidados, estes secaram. Somente 300 dos 1.237 karez registrados em 1957 ainda estão em funcionamento. O ecossistema que havia se organizado em torno deles está se degradando.
Ao mesmo tempo, a produção agrícola, principal fonte de atividade econômica em Turpan, decolou. A área a ser irrigada passou de 60 mil hectares em 1970 para 113 mil em 2008. Como os karez não fornecem mais água o suficiente para garantir os rendimentos e alimentar as habitações modernas, o vilarejo começou a retirar diretamente dos modestos lençóis freáticos.
Como consequência direta dessa decisão, seu nível tem baixado de 1,5 a 2 metros por ano, calcula o Banco Mundial. “Com o rápido crescimento econômico desses últimos anos, o consumo de água vem subindo e ultrapassa as quantidades disponíveis, levando a um uso excessivo dos lençóis”, observava a instituição em 2010.
“Nos cinco últimos anos, a água se tornou menos abundante, isso se vê particularmente em julho e agosto”, constata Liu Daohong, um trabalhador agrícola que chegou há dez anos da província central de Henan. Ele trabalha em um campo irrigado diretamente pelos lençóis freáticos. Assim como ele, muitos migrantes Han, a etnia maioritária na China, vieram se instalar em Turpan, atraídos pela possibilidade de encontrar um emprego no setor agrícola, nessa região onde a maioria da população pertence à etnia uigure.
A alguns quilômetros ao sul da cidade, a constatação é similar no “jardim botânico”, na verdade um laboratório de pesquisa no meio da natureza sobre a capacidade das plantas de resistirem em zona árida extrema e de servirem de barreira natural contra o avanço do deserto. “Há dez anos, nós podíamos encontrar água a 18 metros de profundidade, mas hoje é preciso perfurar entre 25 e 30 metros. Preferimos utilizar a água a uma profundidade de 156 metros, pois é menos salgada”, explica um professor da Academia de Ciências chinesa, especializada no combate à desertificação.
Ao se conscientizar sobre a ameaça que pesa sobre Turpan, a China deu início a grandes obras, cujo custo deverá ser de US$ 204 milhões (R$ 330 milhões). Três reservatórios serão construídos nas montanhas próximas, a fim de assegurar o abastecimento de água durante o ano, a um custo de US$ 142 milhões (R$ 230 milhões).
No papel, esses projetos apresentam o papel histórico dos karez. Mas as autoridades locais não parecem realmente convencidas do futuro desses canais: do total de somas liberadas, somente US$ 500 mil serão dedicados à recuperação de um único karez, um projeto apresentado como um experimento.
Tradução: Lana Lim
Fonet: EcoDebate, 09/05/2011

quarta-feira, maio 04, 2011

reaparecimento de casos de megadesmatamentos


Proposta de alteração do Código Florestal provoca corrida ao desmatamento em Mato Grosso
Nas últimas semanas acumularam-se provas de que está ocorrendo uma forte retomada do desmatamento no estado de Mato Grosso. Dados do Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), do Imazon, já indicavam uma tendência de alta de 22% do desmatamento e de 225% na degradação florestal entre agosto/2010 e março/2011, com relação ao mesmo período do ano anterior. No mês de abril, operações de fiscalização realizadas pelo Ibama e divulgadas na mídia local e nacional revelaram o reaparecimento de casos de megadesmatamentos (desmatamentos acima de 1.000 hectares), que haviam praticamente desaparecido em Mato Grosso nos últimos três anos. O ICV mapeou o desmatamento recente em três municípios do centro-norte do estado, confirmando a tendência.
Nos meses de agosto/2010 a abril/2011, identificamos 66 novos desmatamentos no município de Nova Ubiratã, totalizando cerca de 37 mil hectares (Figura 1).
Clique aqui para ver o mapa em alta resolução.
No mesmo período, no município de Santa Carmem foram 24 novos desmatamentos totalizando 9 mil hectares e, no município de Cláudia, 22 novos desmatamentos totalizando também 9 mil hectares. No período de agosto/2009 a julho/2010, o desmatamento nesses municípios havia sido de 2.300, 1.200 e 700 hectares, respectivamente. O aumento nesses três municípios, somente até o mês de abril, já foi de mais de 1.200%.
Até o momento, a maior parte dos grandes desmatamentos detectados foi na região centro-norte do estado, que é a primeira a ter abertura da cobertura de nuvens. Nessa região predomina o plantio de grãos em grande escala. No entanto, com o final da estação chuvosa, podem aparecer grandes desmatamentos também nas regiões norte e noroeste. Com base nessas informações, alertamos que a taxa de desmatamento no estado de Mato Grosso, que havia caído abaixo de 100 mil hectares em 2010, pode voltar nesse ano aos níveis do período de pico, de 2001 a 2005, quando a média foi de 900 mil hectares por ano (Figura 2).
Clique aqui para ver a tabela do desmatamento.
Segundo informações de campo, o que está acontecendo é uma corrida para desmatar grandes áreas o quanto antes, visando aproveitar-se da anistia do desmatamento ilegal prometida pela proposta de alteração do Código Florestal. Essas ações estão sendo realizadas à revelia da lei em vigor, com a expectativa de impunidade, mesmo sabendo que certamente haverá fiscalização do órgão ambiental. Como demonstrado por várias análises, nas autuações por desmatamento ilegal, apenas um percentual ínfimo das multas são pagas.
Essa retomada dos desmatamentos em Mato Grosso baseada na aposta da alteração do Código Florestal também ecoa a atuação do próprio governador do estado, Silval Barbosa, que, em 20 de abril do corrente ano, sancionou uma lei do zoneamento estadual que prevê a possibilidade de regularização ambiental para áreas desmatadas até a data de sua publicação e, ainda, pretende isentar de reserva legal propriedades abaixo de 400 hectares, em franca contradição com a legislação federal.
Essa situação pode gerar consequências dramáticas não somente em termos ambientais, mas também políticos e possivelmente econômicos para Mato Grosso e para o Brasil. Mato Grosso vinha sendo responsável por mais de 60% da redução do desmatamento na Amazônia desde 2005, fator primordial para o cumprimento das metas de redução das emissões de gases de efeito estufa contidas na Política Nacional de Mudanças Climáticas. Nesse contexto, a retomada do desmatamento constitui um retrocesso inaceitável e uma demonstração concreta de que a proposta de alteração do código florestal atualmente em tramitação no congresso nacional é extremamente nefasta, assim como foi a sanção da lei do zoneamento de Mato Grosso. É fundamental que o governo federal atue com a máxima urgência, tomando as atitudes necessárias, inclusive junto ao congresso nacional, para reverter essa situação e assim evitar maiores prejuízos à natureza e à sociedade brasileira.
Clique aqui para baixar pdf da análise.
Texto de Laurent Micol, Ricardo Abad e Sérgio Guimarães, Instituto Centro de Vida – ICV
Colaboração de Daniela Torezzan, do ICV, para o EcoDebate, 04/05/2011
Fonte: EcoDebate, 04/05/2011

quinta-feira, abril 28, 2011

toda essa energia sendo exportada e os impactos ambientais vão ficar com ribeirinhos e índios

‘Belo Monte vai exportar empregos e ficaremos com os impactos’

Biólogo diz que, apesar de ser vendida como solução contra o apagão, usina será fonte de energia para indústrias que exportam produtos primários, como alumínio
O biólogo americano Philip Fearnside acompanha os planos do governo para explorar o potencial hidrelétrico da Amazônia desde os anos 70, quando morou em Altamira, no Pará. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), órgão federal, Fearnside afirma que a Usina de Belo Monte, vendida como solução para evitar o apagão no País, terá boa parte de sua energia usada pela indústria de eletrointensivos, em especial a de alumínio. Para ele, o Brasil vai exportar produtos primários, criando empregos no exterior. “E os impactos vão ficar aqui, com os ribeirinhos e os índios.” Entrevista realizada por Karina Ninni, em O Estado de S.Paulo.
O projeto de Belo Monte mudou muito nesses 30 anos?
Mudou e não mudou. Lembro de, em 1976, ter entrado no escritório do Incra e ter conseguido o mapa com as hidrelétricas que iam inundar uma parte da área da colonização idealizada pelo Estado e terras indígenas. Na época ninguém podia fazer nada porque era uma ditadura. Hoje, temos o sistema do EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), mas a tomada de decisões não mudou, continua no mesmo círculo, e todo o resto parece que vira formalidade. Para tomar uma decisão dessas, você tem de olhar todos os impactos, não só os do EIA-Rima.
E o que há de importante que não está no EIA-Rima?
O que chama atenção é que 30% da energia (de Belo Monte) vai para a indústria de eletrointensivos, basicamente alumínio. Será a fonte de energia para novas unidades de grandes produtoras de alumínio no Pará e no Maranhão. Vai haver expansão das usinas de alumina e de alumínio primário. Belo Monte é apresentada como uma iniciativa contra o “apagão”. O brasileiro médio é levado a pensar que vai ficar sem ver TV se não forem feitas as hidrelétricas do Madeira, de Altamira, mas o País tem grande margem de flexibilidade. Tem toda essa energia sendo exportada, boa parte em forma de lingote de alumínio. Algo muito diferente de exportar um avião de alumínio feito pela Embraer, que gera empregos. O importante no valor do lingote não é o minério ou a mão de obra: é a energia. Exportamos energia elétrica e, com ela, empregos.
Os impactos se justificariam, então, se os objetivos da geração fossem “mais nobres”?
O Brasil não enfrentou ainda a questão mais crítica: o que fazer com essa energia. Mas está importando os impactos ambientais para gerá-la. Ninguém quer fazer hidrelétrica nos Estados Unidos, na Europa, para fazer alumínio. A solução é fazer isso na Amazônia e deixar os impactos aqui e os benefícios no Hemisfério Norte. Lá vão gerar empregos para transformar esse lingotes em produtos acabados e os impactos vão ficar com ribeirinhos e índios. No caso de Belo Monte, está se deixando quase seco um trecho de mais de 100 quilômetros do Rio Xingu com duas áreas indígenas e comunidades de ribeirinhos.
O que é “quase seco”?
No EIA-Rima, a “vazão ecológica” é o mínimo necessário para passar para essas comunidades. Uma dos condicionantes foi aumentar esse volume, o que foi feito. Belo Monte tem duas casas de força e duas barragens. Em Volta Grande do Xingu gera-se pouca energia, correspondente à vazão ecológica. O grosso da água vai ser desviado para o Reservatório dos Canais, onde está a casa de força principal, com 11 mil megawatts. Isso deixa na Volta Grande uma quantidade de água mínima. O impacto de uma hidrelétrica em geral é inundação, aqui é a falta de água.
E quanto seria inundado para a construção da usina?
A soma dos reservatórios dos Canais e da Calha (o da Volta Grande) estava calculada em 400 quilômetros quadrados de inundação. Subiu para 516 km² e depois saiu o edital com o número em torno de 615 km². O reservatório de Belo Monte é pequeno se comparado à energia gerada. Agora, cerca de 11 km acima da Volta Grande ficaria, pelos planos do governo, a barragem de Altamira. Ela é um lago de 6.140 km². Mais que duas vezes Balbina (usina inaugurada nos anos 80 que é considerada o maior desastre ambiental do País). Em 2008, o Conselho Nacional de Política Energética disse que só iria fazer Belo Monte, e não as outras hidrelétricas. Mas o conselho muda de um governo para outro.
Existe esse risco?
O projeto de só uma hidrelétrica é inviável. Durante quatro meses, na seca do Rio Xingu, não se conseguirá movimentar uma turbina sequer da grande casa de força. O governo e as empresas planejam com outros cenários. O plano inicial previa seis hidrelétricas no Xingu. Depois, diminuiu para quatro. Quando Marina Silva era ministra, tentou criar uma Reserva Extrativista na área que seria inundada pelas hidrelétricas, e isso foi vetado pela Dilma, na época na Casa Civil. A cúpula não tem intenção de ter só uma hidrelétrica.
Quanto de metano Belo Monte emitiria?
Belo Monte e o reservatório da barragem de Altamira juntos, para os primeiros dez anos, uma média de 11,2 milhões de toneladas de carbono equivalente ao ano. É mais do que a cidade de São Paulo emite em um ano.
Você contesta a geração de energia por hidrelétricas?
Não. Para cada uma você tem de avaliar os impactos e as alternativas a elas. E tem de saber para que vai servir essa energia.
(*) Philip Fearnside é Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, formado em Biologia pelo Colorado College, nos EUA, é mestre em Zoologia e doutor em Ciências Biológicas pela Universidade de Michigan. Está no Inpa desde 78.
Fonte: EcoDebate, 28/04/2011

terça-feira, abril 26, 2011

conflitos ecológicos distributivos e os diversos discursos de valoração

Origens e alcance da economia ecológica*
por Juan Martínez Alier
A economia ecológica proporciona uma visão sistêmica das relações entre a economia e o meio ambiente. Portanto, o estudo dos conflitos ambientais não se reduz a uma coletânea de episódios interessantes, mas antes constitui uma parte do estudo do enfrentamento em evolução entre economia e meio ambiente. Observamos as economias do ponto de vista do “metabolismo social”. De acordo com o “perfil metabólico” dessas economias, assim serão seus conflitos ambientais.
            A economia – a economia de um “mundo cheio” de pessoas, para utilizar a expressão de Herman Daly – está incrustada nas instituições sociais e na percepção social dos fluxos físicos e dos impactos ambientais. A relação entre natureza e sociedade é histórica em dois sentidos. Primeiro, a história humana também modifica a natureza. Segundo, a percepção da relação entre os humanos e a natureza tem sido alterada ao longo do tempo. Exemplificando, as leis da termodinâmica não foram enunciadas ou estabelecidas até 1840-1850. A conexão entre a termodinâmica e a evolução não foi traçada até a década de 1880. A economia ecológica deve estar consciente desses aspectos históricos, mesmo tendo renunciado, fato com o qual concordo, ao entendimento da natureza como uma “construção social”.
            A economia ecológica é às vezes equivocadamente concebida como uma tentativa de impingir valores monetários aos recursos e serviços ambientais. Mas, isso seria apenas um fragmento de uma tarefa mais ampla, crucial para o problema principal levantado neste livro: as relações entre os conflitos ecológicos distributivos e os diversos discursos de valoração. Temos como exemplo de valoração em um contexto não-ambiental: as empresas e o governo alemães acordaram em 1999 compensar os sobreviventes do trabalho forçado no período nazista (após 55 anos), mediante o pagamento de 5,2 bilhões de dólares. Um evento pode ser julgado de acordo com diversos critérios ou escalas de valor. Podemos dizer: foi um ato desumano fazer uso de mão-de-obra escrava, e, além do mais, a compensação é demasiadamente barata. Entretanto, também é possível dizer que nenhuma compensação “real” é possível, mesmo que 5,2 bilhões de dólares configurem um razoável montante monetário (tendo de resto em conta que a maioria dos afetados já estão mortos). A compensação monetária não significa de forma alguma que as empresas ou os Estados possam utilizar mão-de-obra escrava desde que, quando são desmascarados, procedam ao pagamento de uma compensação. Finalmente, como conclusão, qualquer um poderia ponderar que o sacrifício humano observado durante o nazismo não pode ser avaliado em termos monetários.
            A economia ecológica é um campo de estudos transdisciplinar estabelecido em data recente, que observa a economia como um subsistema de um ecossistema físico global e finito. Os economistas ecológicos questionam a sustentabilidade da economia devido aos impactos ambientais e a suas demandas energéticas e materiais, e igualmente devido ao crescimento demográfico. As pretensões de atribuir valores monetários aos serviços e às perdas ambientais, e as iniciativas no sentido de corrigir a contabilidade macroeconômica, fazem parte da economia ecológica. Todavia, sua contribuição e eixo principal é, mais precisamente, o desenvolvimento de indicadores e referências físicas de (in)sustentabilidade, examinando a economia nos termos de um “metabolismo social”. Os economistas ecológicos também trabalham com a relação entre os direitos de propriedade e de gestão dos recursos naturais, modelando as interações entre economia e meio ambiente, utilizando ferramentas de gestão como avaliação ambiental integrada e avaliações multicriteriais para a tomada de decisões, propondo novos instrumentos de política ambiental.
            O livro resultante da primeira conferência mundial de economistas ecológicos em Washington D.C. em 1990 (Constanza, 1991) definiu o campo conceitual como “a ciência e gestão da sustentabilidade”. No final do século XIX e princípio do XX, o biólogo e planejador urbano Patrick Geddes, o revolucionário “narodnik” e médico Sergei Podolinsky e o engenheiro social Josef Popper-Lynkeus pretenderam sem êxito promover uma visão biofísica da economia como um subsistema incorporado a um sistema mais amplo sujeito às leis da termodinâmica (Martínez Alier e Schlüpmann, 1987). Por volta de 1850 ou 1880, o ciclo de carbono e os ciclos de nutrientes das plantas tinham sido descobertos, e na sequência foram estabelecidas a primeira e a segunda lei da termodinâmica (a conservação e transformação da energia, mas também a dissipação da energia e aumento da entropia). O conflito criado entre a teoria “otimista” da evolução, que explica a diversidade da vida, e a “pessimista” segunda lei da termodinâmica constituiu um importante elemento da dieta cultural do início do século XX. Desse modo, as contribuições essenciais de uma visão ecológica da economia existiam muito antes do nascimento de uma economia ecológica consciente de si mesma. Essa demora é explicada pela rigidez das fronteiras existentes entre as ciências naturais e sociais.
            O biólogo e ecólogo de sistemas Alfred Lotka, nascido em 1880, introduziu, entre os anos 1910 e início de 1920, a distinção fundamental entre os usos endossomático e exossomático da energia por parte dos humanos ou, em outras palavras, entre “biometabolismo” e “tecnometabolismo”. O prêmio Nobel de Química, Frederick Soddy, nascido em 1877, e que também escreveu sobre energia e economia, comparou a “riqueza real”, que evolui acompanhando o ritmo da natureza, esgotando-se quando transformada em capital manufaturado, com a “riqueza virtual”, na forma de dívidas que à primeira vista podem crescer exponencialmente de modo incessante com taxas de juros compostos. Mais tarde, quatro reconhecidos economistas, que no entanto não formavam um escola, foram retrospectivamente vistos como economistas ecológicos. São eles: Kenneth Boulding, nascido em 1910, e que trabalhou principalmente na análise de sistemas; K. W. Kapp, também nascido em 1910, e S. Von Ciriacy-Wantrup, que nasceu em 1906, sendo estes dois últimos economistas institucionalistas; por fim, Nicholas Georgescu-Roegen, autor de A lei da entropia e do processo econômico (1971). Já o ecólogo de sistemas H. T. Odum (1924-2002) voltou-se para o estudo do uso da energia na economia. Alguns dos seus ex-alunos integraram o grupo fundador da Sociedade Internacional de Economia Ecológica. Outras inspirações da economia ecológica podem ser encontradas na economia ambiental e dos recursos naturais (isto é, na microeconomia aplicada à contaminação ambiental e ao esgotamento dos recursos do meio ambiente), na ecologia humana, na antropologia ecológica,[1] na ecologia urbana e também no estudo do “metabolismo industrial”, tal como foi desenvolvido por Robert Ayres, hoje conhecido como ecologia industrial.
            Após uma importante reunião organizada na Suécia em 1982 pela ecóloga Ann Mari Jansson a respeito da integração da economia e da ecologia (Jansson, 1984), foi tomada a decisão de lançar a revista Economia ecológica. Além disso, durante uma oficina realizada em Barcelona em 1987 – o mesmo ano em que foi publicado o Relatório Brundtland sobre o “desenvolvimento sustentável” -, foi deliberada a fundação da Sociedade Internacional de Economia Ecológica, a ISEE, em conformidade com a sua sigla em inglês (Internacional Society for Ecological Economics). Herman Daly (um ex-aluno de Georgerscu-Roegen, o mais conhecido economista ecológico de hoje) propõe que a palavra “desenvolvimento” implica mudanças na estrutura econômica social, enquanto “crescimento” significa uma expansão na escala de economia que provavelmente não tem condições de se sustentar ecologicamente. Por essa exata razão, “desenvolvimento sustentável” é aceito pela maioria dos economistas ecológicos, ao passo que “crescimento sustentável” não é. No meu ponto de vista, “desenvolvimento” é uma palavra detentora de uma forte conotação de crescimento econômico e modernização uniforme. Nessa ordem de colocações, seria proferível deixá-la de lado e falar somente de “sustentatibilidade”.
            Nesse mesmo ano de 1987 surgiu o primeiro livro intitulado Economia ecológica (Martinez Alier e Schlüpmann, 1987), e com esse mesmo título foi publicado, sob a responsabilidade de Daly e Costanza, um número monográfico de Ecological Modeling. A bem-sucedida revista acadêmica Ecological Economics teve seu primeiro número publicado em 1989, sendo dirigida desde essa data por Robert Costanza, que, ademais, foi o primeiro presidente da ISSE, que conta com sociedades afiliadas na Argentina e Uruguai, Austrália, Nova Zelândia, Brasil, Canadá, União Europeia, Índia e Rússia. Fora dos Estados Unidos e da Europa, a “escola de entropia” japonesa (Tamanoi et al., 1984) estudou os serviços ambientais proporcionados pelo ciclo hídrico, bem como o ecossistema urbano de Edo, nome que antigamente designava a capital do Japão, Na Índia, vários economistas e biólogos (Madhav Gadgil) vêm realizando trabalhos desde os anos 1970 sobre a relação entre manejo florestal e o da água e os direitos comunitários de propriedade (Jodha, 1986, 2001). Essa constitui atualmente uma importante área de interesse tanto para a economia ecológica quanto para a ecologia política (Berkes e Folke, 1998). Outros economistas ecológicos europeus dos anos 1970 e 1980, cuja obra principal não foi publicada inicialmente em inglês, foram, na França, Rena Passet (1979, 1996) e Inacy Sachs, que propôs no início dos anos 1970 a concepção de “ecodensenvolvimento”; Roefie Hueting (1980), na Holanda; Cristian Leipert, 1989), na Alemanha; José-Manuel Naredo, na Espanha (para uma introdução geral: Costanza et al. (eds.), 1977; Costanza et al., 1997; Common, 1995).
            Na economia ecológica, considera-se que a economia está inserida ou incrustada no ecossistema – ou para dizê-lo do modo mais preciso – animada pela historicamente cambiante percepção social do ecossistema. A economia também está incrustada na estrutura de direitos de propriedade sobre os recursos e serviços ambientais, numa distribuição social do poder e da riqueza em estruturas de gênero, de classe social ou de casta, vinculando a economia ecológica com a economia política e com a ecologia política (figura 1). Para compreender esse ponto sugiro o seguinte exemplo. O crescimento de uma economia baseada na utilização de combustíveis fósseis pode (ou não) encontrar um primeiro limite na estrutura dos direitos de propriedade sobre os sumidouros e os depósitos de carbono. Pode encontrar um segundo limite na capacidade de absorção da biosfera através da qual o dióxido de carbono é reciclado num determinado tempo, sem provocar alteração do clima. Outra possibilidade é que as excessivas emissões de carbono sejam reduzidas através da alteração dos direitos de propriedade sobre os sumidouros e os depósitos de carbono e/ou por mudanças na estrutura de preços, através de ecoimpostos ou licença de emissão. A política a respeito do clima requer uma integração de análise dos três níveis.
            Por outro lado, a ciência econômica convencional observa o sistema econômico como um sistema auto-suficiente no interior do qual são formados os preços dos bens e serviços de consumo, assim como os dos serviços e dos fatores de produção. Tal posição pré-analítica se reflete na categoria das “externalidades”. Os economistas ecológicos simpatizam com as intenções no sentido de “internalizar” as externalidades no sistema de preços, aceitando de bom grado as propostas para corrigir os preços através de impostos (como os tributos sobre o esgotamento do capital natural ou taxas incidindo sobre a contaminação). Contudo, negam a existência de um conjunto de “preços ecologicamente corretos”.
            Por fim, a economia ecológica constitui um novo campo transdisciplinar que desenvolve e introduz temas e métodos, tais como os que seguem:
·    Novos indicadores e índices de (in)sustentabilidade da economia;
·    A aplicação, nos ecossistemas humanos, de concepções ecológicas como capacidade de carga e resiliência;
·    A valoração dos serviços ambientais em termos monetários, mas também a discussão sobre a incomensurabilidade dos valores, e a aplicação de métodos de avaliação multicriterial;
·    A análise do risco, da incerteza, da complexidade e da ciência pós-normal;
·    Avaliação ambiental integral, incluindo a construção de cenários, modelagem dinâmica e métodos participativos na tomada de decisões;
·    Macroeconomia ecológica, a contabilidade do “capital natural”, o debate entre as noções de sustentabilidade “fraca” e sustentabilidade “forte”;
·    As relações entre economia ecológica e economia feminista;
·    Os conflitos ambientais distributivos;
·    As relações entre a atribuição dos direitos de propriedade e o manejo de recursos, as velhas e as novas instituições públicas para a gestão ambiental;
·    O comércio internacional e o meio ambiente, a dívida ecológica;
·    As causas e consequências ambientais das mudanças tecnológicas ou do lock-in tecnológico, as relações entre economia ecológica e a economia evolucionista;
·    As teorias do consumo (necessidades, “satisfatores”), e como o consumo se relacional com os impactos ambientais;
·    O debate sobre a “desmaterialização”, as relações com a ecologia industrial, aplicações na administração de empresas;
·    Os instrumentos de política ambiental, muitas vezes baseados no “princípio da precaução” (ou em “standards mínimos de segurança”, tal como desenvolvidos por Ciriacy-Wantrup).
[...]
Não existe produção sem distribuição
            Embora na teoria econômica neoclássica o estudo do direcionamento dos recursos para a produção esteja analiticamente dissociado da distribuição da produção em distintas categorias sociais, na economia ecológica esses dois aspectos são enfocados conjuntamente. Além disso, na economia ecológica “distribuição” não significa somente distribuição econômica, pois igualmente diz respeito à distribuição ecológica. Por essa razão, nesta obra as “considerações de equidade” não são apresentadas como é feito pelos economistas, ou seja, como um pensamento caridoso que aparece no último momento, mas, sim, considera-se que os aspectos distributivos são centrais para que sejam entendidas as valorizações e os aportes dos recursos naturais e serviços ambientais.
            Na economia clássica, antes da revolução neoclássica da década de 1870, não se separava analiticamente a produção econômica da distribuição. A teoria de Ricardo sobre a renda da terra refere-se à distribuição da produção e também, por sua vez, a uma teoria da dinâmica capitalista. Suponhamos uma estrutura agrária tríplice, composta de grandes latifundiários e de agricultores capitalistas que alugam a terra dos grandes proprietários, contratando diaristas para o trabalho agrícola. À medida que a agricultura avança na direção dos terrenos de menor fertilidade (modo extensivo), ou utilizando mais insumos nos campos (modo intensivo), se iniciará uma fase de rendimentos decrescentes. Caso os salários sejam estáveis em um nível de subsistência, os rendimentos decrescentes, conjuntamente com a competição entre os agricultores capitalistas que visam a alugar os melhores solos, induzirão ao crescimento a renda a ser paga aos grandes senhores de terras. Supondo-se que os latifundiários gastem as rendas obtidas em consumo suntuoso (ao invés de investi-las), então, o fato de que os ganhos de capital diminuam enquanto as rendas de latifundiários aumentam se desdobra numa estagnação da economia.
            São bastante conhecidas as objeções aos prognósticos traçados por Ricardo. O mesmo Ricardo posicionou-se a favor das importações de trigo. E os novos territórios agrícolas, não na Grã-Bretanha, mas sim no ultramar, foram mais e não menos férteis. Ademais, as famílias dos capitalistas e dos grandes proprietários de terras da Grã-Bretanha estabeleceram laços de parentesco entre si. Analiticamente, quero aqui destacar que a análise econômica da produção e da distribuição foi combinada em um só modelo ou esquema. Note-se igualmente que a distribuição ecológica não foi levada em consideração. Ponderações similares se aplicam à economia marxista. Uma maior capacidade de produção, origem da acumulação de capital, conjuntamente com uma deficiente capacidade de compra de um proletariado explorado (e dos igualmente explorados fornecedores de matérias-primas e mão-de-obra nos territórios coloniais, como depois acrescentou Rosa Luxemburgo), produzia uma contradição inescapável do capitalismo, empurrando-o para uma crise periódica. O proletariado estaria social e politicamente mais bem organizado e as crises do capitalismo desencadeariam a revolução. A famosa frase de Henry Ford propondo que os trabalhadores se tornassem capazes de adquirir os automóveis que produziam (algo sem sentido em nível de uma só indústria ou empresa) deu seu nome (graças à análise de Gramsci) ao “fordismo” e à escola de “regulação” da economia política, enquanto a economia keynesiana igualmente se baseou na concepção de que a demanda efetiva podia, nas economias capitalistas, ser inferior do que a oferta potencial em plena utilização da capacidade produtiva e nível máximo de emprego. Por isso, a política estatal deveria estar orientada a aumentar a demanda efetiva. Aqui, mais uma vez a análise da distribuição econômica e da produção se manteve articulada. Não obstante, essas escolas econômicas não incluíram nas suas análises a deterioração ambiental (ainda que exista uma interessante discussão sobre o uso do “metabolismo social” na obra de Marx).
            Não se toma nenhuma decisão produtiva a menos que existam de antemão normas ou práticas a respeito da distribuição. Um senhor de terras que utiliza parceiros não iniciará a produção a menos que se chegue a um acordo ou que exista uma norma costumeira sobre a proporção da colheita que lhe corresponderá. Exemplificando, caso 40% da colheita sejam orientados para os parceiros, a terra será utilizada para o cultivo do algodão; se os parceiros exigirem 70%, o grande proprietário terá que mudar o uso da terra para um cultivo muito mais produtivo e intensivo em mão-de-obra ou descartá-los e usar a terra como pastagens. A distribuição precede as decisões da produção. Esse é um ponto também óbvio para outras relações de produção, como a escravidão ou o trabalho assalariado. Nesse sentido, o pleno emprego dos anos 1960 na Europa orientou um forte poder de negociação por parte dos trabalhadores e um pressão sobre os lucros dos empresários (o profit squeeze[2]), resolvida mais tarde na recessão econômica de meados dos anos 1970, e por novas políticas neoliberais.
            Considerando agora não a distribuição econômica, mas sim a distribuição ecológica, pode-se argumentar que não será tomada nenhuma decisão sobre a produção enquanto não existir um acordo ou norma habitual sobre como os recursos naturais serão apropriados ou como serão destinados seus resíduos. Por exemplo, a decisão de produzir energia nuclear requer uma decisão sobre o armazenamento dos resíduos radioativos. Serão guardados nas centrais nucleares? Serão transladados para um distante depósito final (como Yucca Mountain nos Estados Unidos)? Mesmo a localização das centrais nucleares requer uma decisão sobre a distribuição social e geográfica doa perigos da radiação nuclear. Da mesma forma, a decisão de produzir energia elétrica a partir do carvão requer uma decisão prévia sobre a destinação dos dejetos da mineração, sobre o dióxido de enxofre, os óxidos de nitrogênio e o dióxido de carbono em distintas escalas geográficas. Quem desfruta do direito de propriedade sobre esses lugares? Em termos econômicos, se as externalidades podem permanecer como tais – isto é fora da contabilidade dos resultados e do balanço da empresa -, as decisões seriam diferentes caso tais passivos ambientais fossem incorporados na sua conta (inserindo algum valor econômico). Efetivamente, caso os produtores de veículos sejam obrigados a não produzir externalidades ou incluí-las no preço final dos seus produtos – e me refiro a todas as externalidades inevitáveis presentes ao longo de seu ciclo de vida, desde o berço até o túmulo, e depois, desde o túmulo até o berço quando reciclamos os materiais, incluindo as externalidades produzidas pelo dióxido de carbono -, então, as decisões relativas à produção na nossa economia seriam outras, dependendo em parte do preço associado a essas externalidades. O poder de jogar os veículos (distribuí-los) em depósitos de sucata e o poder de emitir (distribuir) na atmosfera os contaminantes a baixo preço ou gratuitamente detêm influencia decisiva no momento de assumir decisões sobre a produção. Questionando com maior precisão: existem grupos sociais que reclamam das externalidades produzidas? Devemos argumentar em termos de definir um valor crematístico às externalidades ou utilizar outros discursos de valoração?
             Por exemplo, se uma fábrica de celulose no Brasil pode plantar eucaliptos ignorando a compensação pela perda de fertilidade e pode lançar os efluentes exercendo de fato direitos de propriedade sobre o rio ou o mar, suas decisões de produção são diferentes das que existiriam na hipótese de se ver obrigada a pagar por essas externalidades ou caso tivesse que se confrontar com normas legais mais estritas, sendo essas levadas a efeito à risca. A idéia da “segunda contradição” do capitalismo foi introduzida por James O’Connor em 1988. Não se pode levar a produção a cabo sem a utilização dos recursos naturais e sem gerar resíduo. Pode ser que os diaristas agrícolas e os parceiros mal remunerados em termos econômicos também sofram os efeitos do malathion[3] na sua saúde juntamente com suas famílias e seus vizinhos que não trabalham nas plantações. Nesse contexto, os aspectos distributivos ambientais não recaem unicamente sobre os produtores. Isso possui influência nas formas assumidas pelos conflitos ecológicos distributivos. Afinal, os protagonistas dos conflitos não necessariamente são trabalhadores assalariados, mesmo que casualmente o sejam. Senão vejamos: podemos aventar que a luta contra os efluentes de um fábrica de celulose seja liderada por um grupo de naturalistas, por um grupo local de mulheres, ou, como acontece no Brasil, por um grupo indígena, todos exigindo compensação (na linguagem dos economistas, a internalização das externalidades) ou utilizando outras linguagens (direitos territoriais indígenas, direitos humanos pela saúde...). Caso obtenham êxito, os custos serão diferentes para as empresas envolvidas e as decisões da produção serão igualmente diferentes. Os agentes dos conflitos ambientais distributivos não estão bem definidos como os agentes econômicos de Ricardo ou de Marx – grandes proprietários e agricultores capitalistas no primeiro caso, capitalistas industriais e proletários no segundo.
___________________________________
(*) Extraído de: Martinez Alier, Juan. O ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração. Trad. Maurício Waldman. 1ª ed., 1ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2009.

[1] N.T.: Recorde-se a distinção realizada a partir dos finais dos anos 1990 entre antropologia ecológica e antropologia ambiental, sendo a primeira próxima das ciências naturais e a segunda, das ciências sociais.
[2] N.T.: Literalmente “arrocho dos lucros”.
[3] N.T.: Malathion é a denominação de um inseticida, também conhecido como Carbophos na ex-URSS, Maldison na Austrália e Nova Zelândia, e Mercaptothion na República Sul-Africana. Embora possuindo toxidade relativamente baixa para seres humanos, sua degradação no ambiente tem por subproduto o Malaoxon, que é sessenta vezes mais tóxico do que a substância original. Por isso, o uso do Malathion é objeto de agudas polêmicas em muitos países.

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