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terça-feira, junho 28, 2011

"não acredite que tem realmente a ver com análises econômicas"

O forte desejo de purgar

27 de junho de 2011 | 15h39
por Paul Krugman
No ano passado foi a OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento das Nações Unidas; agora é a vez do BIS – Banco de Compensações Internacionais. E novamente, senhores muito sérios de uma organização internacional parecem determinados a encontrar razões para um aperto da política monetária em face de uma forte depressão econômica que continua persistente.
O BIS cita os preços cada vez mais altos das commodities e o implícito aumento da inflação com base nos spreads bancários. No caso de informes como este, contudo, a questão é que foram escritos e aprovados por comissões, o que significa que se baseiam em dados retroativos – e com certeza, os spreads bancários e a inflação dos preços das commodities estão narrando uma outra história no momento presente.
O informe da comissão afirma também que a produção potencial vem sendo permanentemente reduzida pela depressão econômica, afirmando em particular que “a destruição de capital humano devido ao desemprego a longo prazo” pesará no crescimento. Você pode achar que esta é uma das razões para adotar medidas urgentes com vistas a o nível de desemprego de longo prazo. Mas não.
E, inevitavelmente, constam também do informe os supostos paralelos com a década de 70. Salvo os próprios dados do BIS, nada sugere que exista algum paralelo, absolutamente. Existe uma única comparação (o Custo Unitário do Trabalho, ou ULC na sigla em inglês).
Note a diferença em escalas. Nos anos 70 havia uma importante espiral de preços dos salários; desta vez não há nada disso. Mas tanto faz.
E O BIS ainda emite uma série de alertas vagos sobre como as taxas de juro baixas desencorajam o comportamento responsável.
Algo está ocorrendo, e não acredite que tem realmente a ver com análises econômicas. Como outros, o BIS está claramente engajado num “Calvinball” monetário, criando regras e conceitos de improviso para justificar um aperto monetário, sejam quais forem as circunstâncias. Parece que há uma profundo desejo de infligir sofrimento, purgar o que há de imprestável ou qualquer coisa do gênero.
É assustador. E o mundo irá sofrer por isso.
Fonte: Estadão | Blogs, 27/06/2011

quarta-feira, abril 06, 2011

"hora de ver a necessidade de regular os mercados para que estejam a serviço da sociedade"

É HORA DE JULGAR  OS CRIMES ECONÔMICOS CONTRA A HUMANIDADE?
Da mesma forma que se criaram instituições e procedimentos para julgar os crimes políticos contra a humanidade, é hora de fazer o mesmo com os crimes econômicos. Este é um bom momento, dada sua existência difícil de refutar. É urgente que a noção de “crime econômico” se incorpore ao discurso cidadão e se entenda sua importância para construir a democracia econômica e política. No mínimo, isso nos fará ver a necessidade de regular os mercados para que, como diz Polanyi, eles estejam a serviço da sociedade e não o contrário. 
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por Lourdes Benería e Carmen Sarasúa - El País
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Segundo a Corte Penal Internacional, crime contra a humanidade é “qualquer ato desumano que cause graves sofrimentos ou atente contra a saúde mental ou física de quem o sofre, cometido como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma população civil”. Desde a Segunda Guerra Mundial estamos familiarizados com este conceito e com a ideia de que, não importa qual tenha sido sua magnitude, é possível e necessário investigar estes crimes e punir os culpados.
Situações como a gerada pela crise econômica tem feito com que se comece a falar de crimes econômicos contra a humanidade. O conceito não é novo. Já nos anos 1950, o economista neoclássico e prêmio Nobel, Gary Becker, introduziu sua “teoria do crime” em nível microeconômico. A probabilidade de que indivíduo cometa um crime depende, para Becker, do risco que assume, do possível botim e do possível castigo. Em nível macroeconômico, o conceito foi usado nos debates sobre as políticas de ajuste estrutural promovidas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial durante os anos oitenta e noventa, que acarretaram gravíssimos custos sociais à população da África, América Latina, Ásia (durante a crise asiática de 1997-1998) e Europa do leste. Muitos analistas apontaram esses organismos como responsáveis especialmente o FMI, que perdeu muito prestígio após a crise asiática.
Hoje são os países ocidentais que sofrem os custos sociais da crise financeira e de emprego, e dos planos de austeridade que supostamente lutam contra ela. A perda de direitos fundamentais, como o trabalho e a habitação e o sofrimento de milhões de famílias que veem em perigo sua sobrevivência são exemplos dos custos aterradores desta crise. Os lares que vivem na pobreza estão crescendo sem parar. Mas quem são os responsáveis? Os mercados, lemos e ouvimos todos os dias.
Em um artigo publicado na Businessweek, no dia 20 de março de 2009, intitulado “Wall Street’s economic crimes against humanity”, Shoshana Zuboff, antiga professora da Harvard Business School, sustentava que o fato de os responsáveis pela crise negarem as consequências de suas ações demonstrava “a banalidade do mal” e o “narcisismo institucionalizado” em nossas sociedades. É uma mostra da falta de responsabilidade e da “distância emocional” com que acumularam somas milionárias e que agora negam qualquer relação com o dano provocado. Culpar só o sistema não era aceitável, argumentava Zuboff, assim como não seria culpar, pelos crimes nazistas, só as ideias e não aqueles que os cometeram.
Culpar os mercados é efetivamente ficar na superfície do problema, Há responsáveis e são pessoa e instituições concretas: são aqueles que defenderam a liberalização sem controle dos mercados financeiros; os executivos e empresas que se beneficiaram dos excessos do mercado durante o boom financeiro; aqueles que permitiram suas práticas que permitem agora com que saiam imunes e fortalecidos, com mais dinheiro público, em troca de nada. Empresas como Lehman Brothers ou Goldman Sachs, bancos que permitiram a proliferação de créditos podres, empresas de auditoria que supostamente garantiam as contas das empresas, e pessoas como Alan Greenspan, chefe do Federal Reserve norteamericano durante os governos de Bush e Clinton, opositor ferrenho da regulação dos mercados financeiros.
A Comissão do Congresso norteamericano encarregada de investigar as origens da crise foi esclarecedora neste sentido. Criada pelo presidente Obama, em 2009, para investigar as ações ilegais ou criminais da indústria financeira, entrevistou mais de 700 especialistas. Seu informe, tornado público em janeiro passado, conclui que a crise financeira poderia ter sido evitada. Assinala falhas nos sistemas de regulação e supervisão financeira do governo e das empresas, nas práticas contábeis e de auditorias, e na transparência nos negócios. A Comissão investigou o papel direto de alguns gigantes de Wall Street no desastre financeiro, por exemplo, no mercado de subprimes, e das agências encarregadas do ranking de bônus. É importante entender os distintos graus de responsabilidade de cada ator deste drama, mas não é admissível a sensação de impunidade sem responsáveis.
Quanto às vítimas dos crimes econômicos, na Espanha um desemprego de 20% há mais de dois anos significa um enorme custo econômico e humano. Milhares de famílias sofrem as consequências de terem acreditado que pagariam hipotecas com salários mileuristas (1): 90 mil execuções hipotecárias em 2009 e 180 mil em 2010. Nos EUA, a taxa de desemprego é metade da espanhola, mas envolve cerca de 26 milhões de pessoas sem trabalho, o que implica um tremendo aumento da pobreza em um dos países mais ricos do mundo. Segundo a Comissão sobre a Crise Financeira, mais de quatro milhões de famílias perderam suas casas, e quatro milhões e meio estão em processo de despejo. Cerca de 11 bilhões de dólares de “riqueza familiar” desapareceram com a desvalorização de patrimônios, incluindo casas, pensões e poupanças. Outra consequência da crise é seu efeito sobre os preços dos alimentos e outras matérias primas básicas, setores para os quais os especuladores estão desviando seus capitais. O resultado é a inflação de seus preços e o aumento ainda maior da pobreza.
Em alguns casos notórios de fraudes como o de Maddof, o autor está na prisão e o processo judicial contra ele continua porque suas vítimas têm poder econômico. Mas em geral aqueles que provocaram a crise não só obtiveram lucros fabulosos, como também não temem castigo algum. Ninguém investiga suas responsabilidades nem suas decisões. Os governos os protegem e o aparato judicial não os persegue.
Se tivéssemos noções claras de que se trata de um crime econômico e se existissem mecanismos para investigá-los e persegui-los muitos dos problemas atuais poderiam ter sido evitados. Não é uma utopia. A Islândia oferece um exemplo muito interessante. Em vez de resgatar os banqueiros que arruinaram o país em 2008, a promotoria abriu uma investigação penal contra os responsáveis. Em 2009, o governo inteiro teve que renunciar e o pagamento da dívida foi suspenso. A Islândia não socializou as perdas como estão fazendo muitos países, incluindo a Espanha, mas decidiu aceitar que os responsáveis fossem castigados e que seus bancos quebrassem.
Da mesma forma que se criaram instituições e procedimentos para julgar os crimes políticos contra a humanidade, é hora de fazer o mesmo com os crimes econômicos. Este é um bom momento, dada sua existência difícil de refutar. É urgente que a noção de “crime econômico” se incorpore ao discurso cidadão e se entenda sua importância para construir a democracia econômica e política. No mínimo, isso nos fará ver a necessidade de regular os mercados para que, como diz Polanyi, eles estejam a serviço da sociedade e não o contrário. 
NOTA (1) O neologismo “mileurista” (surgido a partir de “mil euros”) se aplica para definir a uma pessoa pertencente à geração nascida entre 1965 e 1985, na Espanha, que possuem uma renda que não supera a casa de 1.000 euros/mês.
(*) Lourdes Benería é professor de Economia na Universidade de Cornell. Carmen Sarasúa é professora de História Econômica na Universidade Autônoma de Barcelona. Artigo publicado originalmente no jornal El País, no dia 29 de março de 2011.
Tradução: Katarina Peixoto
Fonte: Carta Maior | Economia, 04/04/2011

sábado, março 12, 2011

perigo claro e presente...

Como assassinar uma recuperação

por Paul Krugman

O perigo vem da exigência dos republicanos de que o governo americano corte gastos com nutrição infantil, entre outros

O noticiário econômico tem melhorado ultimamente. As novas solicitações de seguro-desemprego diminuíram e pesquisas com empresas e consumidores sugerem um crescimento sólido. Ainda estamos perto da base de um buraco muito fundo, mas ao menos estamos subindo.
Pena que tantas pessoas, sobretudo da direita política, queiram nos empurrar para baixo de novo.
Antes de tratar disso, falemos sobre a razão porque a recuperação econômica está demorando a chegar.
Alguns economistas esperavam uma recuperação rápida depois de passarmos a fase aguda da crise financeira – o que eu penso como o período de pessimismo absoluto -, que durou aproximadamente de setembro de 2008 a março de 2009.
Mas isso nunca esteve nas cartas. A economia de bolha dos anos George W. Bush deixou muitos americanos sobrecarregados de dívidas. Quando a bolha estourou, os consumidores foram obrigados a parar e inevitavelmente precisariam de tempo para reequilibrar suas finanças. E o investimento das empresas também estava fadado a diminuir. Por que aumentar a capacidade quando a demanda de consumo está fraca e não se está usando as fábricas e escritórios que se tem?
A única maneira para evitarmos uma recessão prolongada teria sido os gastos do governo fazerem o que devia ser feito. Mas isso não ocorreu: o crescimento dos gastos governamentais em geral desacelerou depois do começo da recessão, na medida em que um estímulo federal com pouco poder foi comprometido por cortes nos níveis estadual e local.
Assim, vivemos anos de desemprego alto e crescimento inadequado.
Melhoria. Apesar dos percalços, porém, as famílias americanas melhoraram gradualmente sua situação financeira. E, nos últimos meses, houve sinais de um círculo virtuoso emergente. À medida em que as famílias iam ajustando suas finanças, elas iam aumentado seus gastos; à medida em que a demanda de consumo começava a reviver, as empresas se mostravam mais dispostas a investir; e tudo isso levou a uma economia em expansão, o que melhora ainda mais a situação financeira das famílias.
Mas esse processo ainda é frágil, especialmente por conta dos efeitos da alta dos preços do petróleo e dos alimentos. Essas altas de preços têm pouco a ver com a política americana. Elas se devem basicamente à demanda crescente da China e de outros mercados emergentes, de um lado, e da interrupção do suprimento por tumultos políticos e condições climáticas adversas, de outro. Mas representam um golpe no poder de compra num momento especialmente difícil. E as coisas se agravarão se o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e outros bancos centrais erroneamente responderem à inflação total mais alta elevando as taxas de juros.
O perigo claro e presente para a recuperação, no entanto, vem da política – especificamente, da exigência dos republicanos da Câmara de que o governo reduza imediatamente os gastos com nutrição infantil, controle de doenças, água limpa etc. Muito aparte de suas consequências negativas no longo prazo, esses cortes poderiam levar, direta e indiretamente, à eliminação de centenas de milhares de empregos – e isso poderia interromper o círculo virtuoso de aumento das rendas e melhoria das finanças.
Evidentemente, os republicanos acreditam (ou ao menos fingem acreditar) que os efeitos de sua proposta sobre empregos seriam mais que compensados por um aumento na confiança das empresas. Como eu gosto de dizer, eles acreditam que a fada da confiança ajeitará tudo. Mas não há nenhuma razão para o restante de nós partilhar dessa crença.
Antes de mais nada, é difícil de ver como um plano obviamente irresponsável – desde quando deixar a Receita Federal à míngua de recursos ajuda a reduzir o déficit? – pode melhorar a confiança.
Além disso, temos muitas evidências de outros países sobre as perspectivas de “austeridade expansionista” – e essas evidências são negativas. Em outubro, um estudo abrangente do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que “a ideia de que a austeridade fiscal estimula a atividade econômica no curto prazo tem pouca sustentação nos dados”.
E vocês se lembram dos pródigos elogios colhidos pelo governo conservador da Grã-Bretanha que anunciou medidas severas de austeridade após assumir o governo em maio? No que deu isso? Bem, a confiança das empresas não aumentou, de fato, quando o plano foi anunciado; ela despencou, e até agora não se refez.
E pesquisas recentes sugerem que a confiança caiu ainda mais tanto entre as empresas quanto entre os consumidores, indicando, como disse um relatório, que o setor privado está “despreparado para preencher o buraco deixado pelos cortes do setor público”.
O que nos traz de volta ao debate orçamentário americano.
Nas próximas semanas, os republicanos da Câmara tentarão chantagear o governo Obama a aceitar seus propostos cortes de gastos, usando a ameaça de uma paralisação do governo. Eles alegam que esses cortes seriam bons para os Estados Unidos no curto e no longo prazos.
Mas a verdade é exatamente o oposto: os republicanos conseguiram propor cortes de gastos que fariam um estrago duplo, minando o futuro dos Estados Unidos e ameaçando abortar a nascente recuperação econômica. 
Artigo publicado no The New York Times – O Estado de S.Paulo
Fonte: Estadão | Blogs, 07/03/2011

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

crescimento do rombo vai sendo facilmente compensado com capitais que entram (!)

Cresce o rombo externo

por Celso Ming
O déficit nas contas externas (déficit em Conta Corrente) vai se alargando e poucos analistas apostam em que vá parar nos US$ 64 bilhões, ou 35% acima do registrado ao final do ano passado, como está nas projeções do Banco Central. Por enquanto, esse rombo está sendo coberto com certa facilidade. Mas ele reflete distorções que precisam de correção para não criarem problema depois.
Saldo em Conta Corrente é o resumo de todas as operações com o exterior (com exceção dos fluxos de capital). É o total de receitas e pagamentos no comércio (exportações e importações), serviços (juros, transportes, turismo, etc.) e as transferências unilaterais (o dinheiro recebido ou mandado pelas famílias a parentes do/no exterior). Se o saldo é negativo (déficit) tem de ser coberto ou com entradas de capitais ou com reservas.
Os levantamentos da Pesquisa Focus feitos semanalmente apontam para um déficit em Conta Corrente em 2011 de US$ 67,5 bilhões, ou 5,5% maior do que as projeções do Banco Central. Mas esta é uma avaliação que sobe todas as semanas.
O déficit crescente em Conta Corrente reflete dois problemas. O primeiro deles, mais citado, é o câmbio baixo, ou seja, a forte valorização da moeda brasileira ante o dólar, que barateia em reais os produtos importados e encarece em dólares a mercadoria nacional.
O enorme salto do déficit na conta de turismo, de US$ 1,1 bilhão apenas em janeiro (ou 76% mais alto do que o de janeiro de 2010), é uma boa ilustração desse fato. Hotéis, passagens aéreas, tarifas, refeições estão mais baratos no exterior do que por aqui. Fica mais em conta passar uma semana em Buenos Aires ou em Santiago do que no Rio ou em Salvador.
Mas a valorização do real não explica tudo e aí chegamos ao segundo problema. Como ensina a macroeconomia, expansão do déficit reflete aumento do consumo. Assim, boa parte desse saldo negativo se deve à disparada das importações em 2010, que foram 42% mais altas do que em 2009 e continuam crescendo em torno dos 30%. E essa aceleração tem a ver com o consumo interno turbinado pelo crescimento das despesas públicas em 2010.
O governo federal bem que gostaria de conter as importações. O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, já fez inúmeras promessas de que tomaria providências enérgicas para barrar a entrada predatória de produtos estrangeiros. Mas vai engolindo de volta seu discurso porque as importações de produtos mais baratos têm de continuar fortes para controlar a inflação.
Por enquanto, o crescimento do rombo vai sendo facilmente compensado com capitais que entram em duas portas: Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), que foram de US$ 45 bilhões em 2010 e podem passar dos US$ 50 bilhões em 2011; e tomada de empréstimos externos, que somaram US$ 34,6 bilhões em 2010 e podem chegar aos US$ 35 bilhões em 2011.
Por enquanto, há uma enorme disponibilidade de recursos no mercado internacional porque os bancos centrais dos países ricos estão emitindo moeda como nunca, alegadamente para financiar a retomada. Mas a volta da inflação pode mudar rapidamente essas condições e o que hoje abunda pode escassear.
Fonte: Estadão |Economia, 23/02/2011 | 19h12

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

em favor dos interesses da banca privada

A carga ideológica do conservadorismo

O gasto público mais estéril e de menor efeito benéfico para o conjunto da sociedade é o gasto de natureza financeira. Se a intenção do governo é realmente liberar recursos para infra-estrutura e gastos de natureza social, que se promova a redução da taxa de juros para diminuir o impacto de gastos financeiros no orçamento.
Cada vez mais eu me surpreendo com a força com que as idéias conservadoras e ortodoxas conseguem se impor e atravessar fronteiras ideológicas antes consideradas mais autênticas e preservadas das influências típicas dos que atuam, propõem e operam segundo os interesses das chamadas classes dominantes. Em suma, os que reproduzem a todo instante os desejos e as necessidades do capital, em especial daquele vinculado ao ramo das finanças.
Mais uma vez estava me preparando para escrever sobre um tema mais prospectivo, algo mais tranquilo. Mas a leitura dos jornais desse início de final de semana não me permitiram escapar de tratar das manchetes que certamente dominarão os debates dos dias a seguir. O núcleo duro da equipe da Presidenta Dilma acaba de anunciar - de forma dura, séria e solene - que o governo vai promover um corte de R$ 50 bilhões no Orçamento da União para o ano de 2011.
Na verdade, os verdadeiros desdobramentos operacionais de tal decisão não estão completamente claros nem mesmo regulamentados por medidas de menor importância hierárquica. Afinal, quais serão mesmo as consequências práticas de tal ato governamental? Muitos políticos experientes, particularmente os parlamentares com muitos mandatos de atuação no interior do Congresso Nacional, não se preocupam muito com a matéria. Dizem que já viram tal cena montada uma enorme quantidade de vezes, com diferentes atores, múltiplos personagens, diretores de diversas tendências, produtores de origens variadas, mas com final quase sempre parecido. Ou seja, muita encenação e pouco resultado prático. Trata-se, de acordo com eles, de um jogo de cartas marcadas entre os representantes dos Poderes Executivo e Legislativo. Uma espécie de “me engana que eu gosto” e que no frigir dos ovos pouco ou quase nada muda de forma substancial. O governo tenta demonstrar uma faceta de “austeridade e responsabilidade”, alguns congressistas reclamam da “dureza” das medidas e depois “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Um alto custo político inicial para quem anuncia e depois até dezembro tudo se ajeita.
Mas, afinal, a que vem o anúncio de tal medida, mal passados 40 dias sob a presidência de Dilma Roussef? Ao que tudo indica, trata-se de um novo passo na mesma direção da triste notícia de algumas semanas atrás, quando o Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central (BC) resolveu elevar a taxa oficial de juro, a SELIC, de 10,75% para 11,25% ao ano. Em tese, um retrocesso em relação ao período de maior afastamento das condições menos rígidas da ortodoxia monetária, tal como verificado ao longo dos anos 2008 a 2010.
O discurso oficial se baseia em um tripé de argumentações. Em primeiro lugar, a voz fica empolada para discorrer a respeito da necessidade de uma condução responsável da política fiscal e monetária. Em segundo lugar, cria-se um cenário aterrorizante com o risco potencial do retorno da inflação a níveis mais elevados, como ocorria nos anos 1980 e 90. Finalmente, fala-se na necessidade de buscar o equilíbrio orçamentário e na geração do todo poderoso superávit primário. Pronto! Diante de um quadro tão catastrofista quanto esse, aí realmente ao governo não restaria mesmo outra alternativa a seguir.
Porém, o fato é que tal argumentação e os elementos para análise caberiam muito bem e adequadamente na boca dos assessores das entidades vinculadas ao setor financeiro, que estão formados e habituados a trabalhar e a raciocinar de acordo com os interesses do capital. Mas não oferecem a menor sinceridade ou autenticidade quando proferidas por representantes do governo capitaneado por um partido que diz defender os interesses dos trabalhadores! 
De acordo com autoridades envolvidas com a decisão, trata-se de uma medida que também tem por objetivo fazer com que o governo consiga atingir com maior facilidade a meta de superávit primário. E aqui, mais uma vez, revela-se com toda a evidência a maneira quase vergonhosa com que se rende à carga ideológica do conservadorismo tupiniquim. Ora, como explicar a existência dessa preocupação tão pungente com tais metas na forma de apurar a contabilidade entre receitas e despesas públicas? Ainda mais agora, nesse período pós crise econômico-financeira internacional, em que as próprias instituições multilaterais – a exemplo do FMI e do Banco Mundial, entre outras – iniciam um lento, complexo e difícil processo de avaliação e de auto-crítica (sim, podem acreditar! Pode parecer incrível, mas é verdade!) de todas as políticas de ajuste levadas a cabo ao longo das últimas décadas pelos continentes afora.
Mais uma vez, parece estarmos face ao comportamento típico do “bom mocismo”, que tão bem caracterizou o primeiro mandato do Presidente Lula, quando a cadeira do Ministro da Fazenda era ocupada pelo atual Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci. Lá no início de 2003, poucas semanas após a posse de Lula, sua equipe surpreendeu o Brasil e o mundo, ao oferecer - assim de mão beijada - sem nenhuma exigência oficial por parte de nenhuma instituição do mundo financeiro internacional, uma elevação unilateral da meta de superávit primário. Na verdade, uma demonstração inequívoca de uma postura: abrir mão da defesa dos interesses nacionais em favor dos interesses da banca privada internacional.
Quem quiser que faça sua pesquisa. Nada como uma “gugouzada” para recuperar a memória histórica. A sincronicidade chama a atenção para essa medida anunciada agora no dia 9 de fevereiro. É que no dia 7 de fevereiro de 2003, uma semana antes da chegada de uma equipe do FMI ao Brasil, para demonstrar quão sérios eram os propósitos do governo recém-empossado, Palocci anunciava que o Brasil iria realizar um esforço fiscal ainda maior, elevando o superávit primário de 3,75% para 4% do PIB. Uma loucura!
Mas por que tamanha preocupação dos sucessivos governos com tal conceito, o tão famoso superávit primário? Na verdade, trata-se de uma sofisticação de natureza retórica para um propósito nada nobre. 
Normalmente, quando se discute e se analisa a política econômica de um País, um dos aspectos a serem considerados é o equilíbrio nas contas públicas. Em síntese, como anda a relação entre tudo aquilo que o Estado arrecada e o que ele gasta. Se o nível de despesas vem se revelando estruturalmente mais elevado do que a capacidade de levantar recursos, isso pode significar que o nível da dívida pública poderia estar aumentando ou ainda (como acontecia mais no passado) o governo poderia estar lançando mão da emissão de moeda para fazer face às suas necessidades e isso poderia ter algum efeito inflacionário no futuro. Em princípio, nada contra. É sempre bom mesmo estar atento a esses indicadores e fazer os alertas necessários para as possíveis correções de rumo.
Porém (e sempre tem um porém), o pulo do gato surge com o conceito mesmo do “superávit primário”. Que vem a ser uma forma matreira e esperta de retirar um tipo muito especial de gasto público – os gastos de natureza financeira. Ou seja, os gastos que o Estado realiza que estão relacionados com o pagamento de juros e demais serviços da dívida pública. Assim, aqueles mesmos que defendem com todo o ardor a “seriedade e a austeridade na condução da política fiscal” – leia-se, contenção dos gastos públicos, são os mesmos que criaram o conceito de “superávit primário” e não mais apenas o tradicional de “superávit fiscal”. Ué, mas não se trata de apenas um outro adjetivo para designar o mesmo fenômeno? Não! Quando se calcula o superávit primário, não estão incluídas as despesas financeiras. Moral da estória: a autoridade econômica deve ter toda a liberdade e a obrigação para gastar e honrar todos os compromissos com o setor financeiro, associados ao pagamento do volume astronômico de juros previsto no Orçamento. Depois de calculadas e efetuadas essas despesas sem nenhum tipo constrangimento, aí sim. Vamos, então, começar a avaliar a necessidade de austeridade na condução das contas públicas, pois afinal o nível de despesas está muito exagerado, o País não suporta esse volume de gastos e blá-blá-blá.
E, assim, mais uma vez voltamos ao nosso trivial debate sobre a suposta impossibilidade de conceder o reajuste no salário mínimo tal como merecido pela grande maioria de nossa população, sobre a recusa em alterar o mecanismo de cálculo para se conceder aposentadorias sem o famigerado fator previdenciário, sobre o cancelamento de nomeações de novos servidores já aprovados em concursos públicos, entre tantos outros gastos públicos essenciais ao desenvolvimento nacional.
Se o governo está mesmo preocupado com os gastos públicos, que os encare como um conjunto e estabeleça a prioridade na forma da despesa a ser reduzida. Com toda a certeza, o gasto público mais estéril e de menor efeito benéfico para o conjunto da sociedade é o gasto de natureza financeira. Mas, como essa verdade dói e grita, a forma escamoteada de fugir de tal realidade é encher a boca e deitar falação a respeito do “superávit primário”. Uma forma travestida de transferir recurso público para o setor privado, que já superou a cifra de R$ 1 trilhão desde aquele anúncio de fevereiro de 2003. Em suma: o gasto com juros é nobre e intocável. Os demais devem ser cortados.
E uma lembrança para finalizar: se a intenção do governo é realmente liberar recursos para infra-estrutura e gastos de natureza social, que se promova a redução a taxa de juros para diminuir o impacto de gastos financeiros no orçamento. A próxima reunião do COPOM será realizada nos dias 1° e 2 de março. No caso, se houver mesmo vontade política, basta um telefonema da Presidenta Dilma ao Presidente do BC, Alexandre Tombini.
Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
Fonte: Carta Maior | Debate Aberto, 10/02/2011

terça-feira, janeiro 25, 2011

tumulto devido ao preço das commodities?

A volta da ''crise da comida''
"Alta dos preços de grãos, de metais e de combustíveis provoca inflação e temor de crises como as de 2008"
por Vinícius Torres Freire
Está de volta a conversa sobre o risco de tumulto devido ao preço das commodities. Risco de a comida cara provocar convulsões em países pobres, inflação precoce em países ricos ainda deprimidos e altas de juros nos "emergentes" que agora carregam o crescimento mundial (China, Índia e até Brasil).
A situação ainda não se assemelha à de meados de 2008, quando a economia mundial superaquecida e o dinheiro barato na especulação com commodities inflacionaram arroz, milho e trigo do Egito ao México (lembra-se da crise da tortilla?).
Os tumultos na Tunísia e na Argélia têm sido em parte atribuídos ao preço da comida. A nova inflação dos alimentos seria devida à retomada forte do consumo no mundo dito emergente e, mais uma vez, à ação de especuladores no mercado futuro de commodities. A oferta de dinheiro barato no mundo rico, a juro zero, estimularia a especulação.
Ontem, Nicolas Sarkozy voltou a sugerir a regulamentação dos derivativos de recursos naturais (comida, minérios, combustíveis). A França ocupa a presidência do G20 e apresentou um esboço de seu plano de ação. As ideias do presidente francês sobre regulação financeira, câmbio e "reequilíbrio do poder econômico e político" mundial vêm sendo ignoradas por quem importa (EUA, China), mas seu discurso se soma à onda recente de alertas sobre a escassez de recursos naturais.
O tema está na pauta do Fórum Econômico Mundial, o de Davos. A OCDE acaba de soltar um estudo sobre os problemas de segurança alimentar nas próximas quatro décadas. O Banco Central Europeu entrou nessa dança, ao dizer na semana passada que o preço das commodities fez a inflação da eurolândia ultrapassar a meta implícita da região. Até a autorização para que se misture mais etanol de milho na gasolina, nos EUA, entrou nas listinhas recentes de perigos.
A multiplicidade de catástrofes naturais em grandes produtores de matérias-primas chamou a atenção para o risco de uma crise climática crônica afetar a oferta desses bens. Neste ano, pela primeira vez desde 2008 deve haver redução do estoque mundial de grãos, segundo estimativa do International Grains Council divulgada na sexta-feira passada. A FAO (burocracia da comida da ONU) e cúpulas de ministros de agricultura têm feito alertas sobre a nova crise da comida.
"Se não fizermos nada, há o risco de tumultos por causa de comida nos países mais pobres e um efeito muito negativo para o crescimento econômico global", disse Sarkozy.
Um tanto como em 2008, a discussão cheira a farisaísmo. Primeiro, porque há preocupação com o aumento marginal da fome e de outras necessidades, mas não com a fome "regular", "normal". Segundo e mais importante, porque nem mesmo após 2008 houve qualquer iniciativa de lidar com os empecilhos à oferta de comida em país pobre.
Além dos problemas causados por selvagerias políticas autóctones de África e sul da Ásia em particular, há os danos causados pelas políticas do mundo rico e da falta de assistência aos miseráveis. Em suma:  1) subsídios e barreiras comerciais em países ricos; 2) falta de infraestrutura e mercados agrícolas nos pobres; 3) falta de condições tecnológicas (se o Brasil fez agricultura tropical, a África pode ter a sua também). Disso, pouco se fala.
(*) Vinícius Torres Freire, jornalista - Folha de S. Paulo.
Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo , 25/01/2011.
Fonte: IHU, 25/01/2011

quinta-feira, janeiro 20, 2011

supremacia das finanças desreguladas

Duas lógicas: A rentista e a do desenvolvimento

Índice de preços de alimentos da FAO estava na marca de 140 em março de 2009; bateu em 215 em dezembro de 2010; encontra-se acima dos níveis recordes registrados na bolha de 2008. Estoques são curtos, mas não há escassez de alimentos que justifique o aumento. 
Alta especulativa no plano internacional pressiona inflação doméstica urbi et orbi pela equiparação entre valor exportado e vendas internas. 
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No Brasil, 'mercados' [sic] pressionam para combater a distorção internacional com outra igualmente nefasta: nova escalada de aumento dos juros (pode ser iniciada a partir de hoje pelo Banco Central) 'para evitar que o choque vindo de fora ganhe corpo e se dissemine nos demais preços' [sic]. Juros altos soterram o crescimento e o emprego. 
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Na Argentina, governo progressista de Cristina Kirchner determinou cotas de exportações para alimentos. Sem alternativa de colocar toda safra no exterior, produtores têm que vender no mercado interno a preços mais baixos, fixados pelo setor público. O 'agrobusiness' quer escalpelar Cristina Kirchner. Mas a população e a economia ficam preservadas da lógica predatória imposta pela supremacia das finanças desreguladas.”

O ESTADO DAS COISAS E O 'AJUSTE' PRIORITÁRIO
"Já superamos aquela etapa que predominou nos anos 80 e 90 em que a meta do Brasil era o ajuste fiscal permanente. Hoje, o tema central é o desenvolvimento. O ajuste fiscal não pode ser um fim em si mesmo. É um meio para sustentar o desenvolvimento de um país.
Nesse sentido, não tenho dúvida que é plenamente possível haver ajustes nas finanças públicas, especialmente naquelas áreas cujo gasto é improdutivo para o país. O Brasil gasta demasiadamente com juros.
O País compromete de 5% a 6% do PIB pagando juros da dívida interna (...) O que me preocupa em utilizar os juros para enfrentar a inflação é que a política monetária tem um efeito generalizado na economia, e não ataca apenas os setores que estão com problemas. Existe um arsenal de outras políticas que poderiam atuar mais focadamente... ". (Marcio Pochman, no Estadão de 16/01. Nesta terça-feira, 18/01, o BC se reúne para decidir sobre a taxa de juro. O 'mercado' quer aumento).
Fonte: Carta Maior | Blog das Frases, 19/01/2011

sábado, janeiro 08, 2011

os juros continuam a ser os maiores do mundo

Brasil: governo Dilma anuncia ajuste fiscal drástico

por Auditoria Cidadã da Dívida [*]
O jornal Correio Braziliense de hoje faz uma cobertura completa das primeiras medidas a serem tomadas pela presidente Dilma Rousseff, confirmando todos os alertas dados por este boletim desde o ano passado, acerca do ajuste fiscal. 
Este ajuste, denunciado diversas vezes pela Auditoria Cidadã, significará um corte de cerca de R$ 30 mil milhões [€11,17 mil milhões] no orçamento de 2011 e o congelamento dos salários dos servidores públicos, que não terão reajuste neste ano. Ou seja: conforme também alertado por esta seção, o governo já aplica, de fato, o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 549/2009, ao limitar o crescimento da folha de pagamento à inflação mais 2,5% ao ano, o que impede os reajustes e provoca a perda do valor real dos salários dos servidores. 
Hoje à tarde, em entrevista coletiva à imprensa, o ministro da Fazenda negou que o montante do corte já tenha sido definido, porém, afirmou que "haverá uma posição forte do governo na redução de gastos", conforme mostra o Valor Online. Tais cortes, segundo ele, "colaborarão para a redução dos juros pelo Banco Central", ou seja: o governo insiste na idéia de que, para possibilitar a queda das maiores taxas de juros do mundo, antes seria necessário sinalizar ao "mercado" um comprometimento maior ainda com o pagamento da dívida. Segundo o jornal Correio Braziliense, "a área econômica avalia que o ajuste fiscal a ser anunciado precisa ser duro, convincente e eficaz". 
Somente depois disso é que o Banco Central poderia reduzir as taxas de juros. Porém, o país aplica a política de ajuste fiscal há mais de uma década e os juros continuam a ser os maiores do mundo. 
Durante a entrevista, o ministro afirmou que o governo vetará qualquer aumento dado pelo Congresso ao salário mínimo de R$ 540 [€201], constante da Medida Provisória nº 516, encaminhada pelo governo ao Legislativo no dia 30 de dezembro de 2010. A justificativa é sempre a de que a Previdência não tem recursos, ignorando que esta área social está inserida na Seguridade Social que é amplamente superavitária, mas cujos recursos são destinados para o pagamento da dívida por meio da DRU (Desvinculação das Receitas da União). 
O jornal Correio Braziliense também mostra a posse do novo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na qual ele avisou que aumentará os juros. Ou seja: confirmando também os alertas deste boletim já no ano passado – ainda durante o anúncio da atual equipe econômica – o "Regime de Metas de Inflação" continuará a ser seguido, mantendo-se, portanto, as altíssimas taxas de juros que poderão até aumentar ainda mais na próxima reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Este Regime utiliza a taxa de juros como único instrumento de combate à inflação, mesmo que esta seja causada pelas tarifas públicas – controladas pelo próprio governo – ou alimentos. 
Sobre a inflação de alimentos, cabe ressaltar que é inadmissível que um país como o Brasil, que produz alimentos para o mundo inteiro – inclusive para alimentar o gado dos países do Norte – não disponha de uma política de produção e estoques capaz de evitar altas de preços da comida. 
Assim, o regime de metas de inflação continua determinando os juros mais altos do mundo, satisfazendo os rentistas, desestimulando o investimento produtivo, e assim, reduzindo a oferta futura de produtos, o que é novamente utilizado como justificativa para nova alta de juros, como em um círculo vicioso. 
Não por acaso, rentistas estiveram presentes na posse e também se reuniram com Tombini e o ex-presidente Henrique Meirelles, e assim se manifestaram, conforme o jornal: 
"Antes da transição de cargo, ocorrida na tarde de ontem, Tombini e Meirelles se reuniram com ex-dirigentes do BC e presidentes dos principais bancos do país. Todos saíram satisfeitos do encontro com o novo comandante da política monetária. "A escolha de Tombini denota a importância do sistema de metas e a conciliação do combate à inflação com as metas de crescimento", disse Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco. Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco também teceu elogios. "O país está bem servido com a escolha da presidente", avaliou. 
Para Fábio Barbosa, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e do Conselho de Administração do Santander, Tombini está indo no caminho certo, representa a continuidade do trabalho de Meirelles e a "consagração do sistema de metas de inflação". 
Durante seu discurso de posse, Tombini ainda defendeu a redução da "meta de inflação" de 4,5% para 3% ao ano, ou seja: a política de juros altos terá de ser ainda mais aprofundada, para que a inflação fique em um patamar ainda menor. 
Fonte: Resistir, 05/01/2011

mais perdas para quem vive de seu trabalho

Inflação: a mesma desculpa de sempre!

Para um leitor desatento das páginas de economia dos grandes meio de comunicação, aparece como um consenso generalizado a “necessidade inescapável” de, mais uma vez, aumentar a taxa oficial de juros.
Nos próximos dias 18 e 19 de janeiro reúne-se a diretoria do Banco Central, sob a presidência de Alexandre Tombini, para realizar o primeiro encontro do Comitê de Política Monetária (COPOM) no mandato da Presidenta Dilma. Como ocorre em todo evento a cada 45 dias, figura em pauta a definição da taxa oficial de juros - a SELIC, atualmente no patamar de 10,75% ao ano.
O mercado financeiro está em plena agitação, como sempre. Mas as apostas agora ganham em expectativa, uma vez que existe uma incerteza generalizada quanto à capacidade de Dilma Roussef manter seu compromisso à época da campanha eleitoral de reduzir a taxa de juros vigente em nosso País e trazê-la para níveis mais, digamos assim, “civilizados”... Ou seja, os desejos pesados do capital financeiro se manifestam por meio da divulgação de consultas e relatórios de empresas e indivíduos que têm interesse na continuidade dessa política monetária irracional e irresponsável. Para um leitor desatento das páginas de economia dos grandes meio de comunicação, aparece como um consenso generalizado a “necessidade inescapável” de, mais uma vez, aumentar a taxa oficial de juros.
O argumento evocado pelos agentes que operam no mercado financeiro é o de sempre: os riscos apresentados pelas informações disponíveis a respeito da economia de que a meta de inflação anual escape do controle governamental. Não custa aqui recordar alguns elementos básicos para compreender a essência de tal raciocínio. O regime atual de estabilidade macroeconômica pressupõe a existência de uma meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Hoje em dia ela está fixada em 4,5% ao ano, com uma margem de tolerância de 2% para cima ou para baixo. Ou seja, enquanto a inflação estiver situada entre 2,5% e 6,5% ao ano, a situação estaria dentro do intervalo esperado. Assim, caso haja uma tendência de elevação dos preços superior a tal meta anual, a solução usada até o momento tem sido, fundamentalmente, a de aumentar a taxa SELIC, de forma a promover uma elevação generalizada dos juros na economia e se obter como resultado uma redução no volume de consumo agregado, do conjunto da sociedade.
Mas afinal, por que tanta preocupação assim com a inflação, poderão perguntar alguns? Pois é, a coisa é mais complicada do que aparenta. Vamos aos poucos. De acordo com os dados preliminares do Censo 2010, a nossa pirâmide populacional apresenta por volta de 26% de pessoas com até 16 anos de idade. Isso significa dizer que 50 milhões de brasileiros, do total de 191 milhões, nasceram após 1994. A conclusão é que aproximadamente 1 em cada 4 brasileiros nasceu após o advento do Plano Real. Trata-se de uma parcela importante de nossa gente, para quem a normalidade cultural e comportamental inclui o sentido de viver em um ambiente social e econômico de preços estáveis. Para essa geração, inflação baixa e sob controle é o padrão. Porém, são crianças e jovens adolescentes, a grande maioria deles ainda dependentes dos pais e da família para efeito de assegurar a renda para a sobrevivência e o consumo.
Já os demais 141 milhões de indivíduos experimentaram, de uma forma ou outra, os períodos anteriores ao Plano Real e sentiram em sua própria pele os efeitos perversos de viver em um ambiente de preços em constante elevação acelerada e mesmo de hiperinflação. A história é longa e tortuosa – fiquemos nas últimas 5 décadas. Depois do golpe militar de 1964, a reforma monetária de 1967, com a perda de 3 zeros do “cruzeiro” da época e a criação da nova moeda - o “cruzeiro novo” ( na verdade, as cédulas antigas ganharam um carimbo com o novo valor e novo nome). Logo após, em 1970 o “cruzeiro novo” ganha cédula nova e vira simplesmente “cruzeiro”. Em 1986, após 16 anos de inflação elevada e perda do valor da moeda, o Plano Cruzado cria a moeda de mesmo nome – o “cruzeiro” perdia 3 zeros e cada 1.000 “cruzeiros” passavam a valer 1 “cruzado”. Em 1989, nova reforma monetária e cada 1.000 unidades do recente “cruzado” passavam a valer 1 ”cruzado novo”, nova moeda criada naquele momento. Pouco mais de um ano depois, no início de 1990, com o Plano Collor, a reforma monetária reintroduz o nome “cruzeiro” para a nossa moeda, sem perdas de zeros. E em agosto de 1993, o então recente “cruzeiro” vê-se transformado em “cruzeiro real”, para logo em seguida efetivar-se a transformação no nosso atual “real” por meio das tabelas de conversão da Unidade Real de Valor (URV). Ufa!
Ora, é mais do que compreensível o receio da maioria da população com relação a eventual volta aos cenários pré 1994. Quem viveu sob a égide do crescimento diário dos preços e sofreu as consequências de tal processo reconhece a importância do ambiente de estabilidade de preços.
Principalmente, aqueles que vivem de remuneração de seu próprio trabalho ou de aposentadoria e têm menor capacidade de se proteger da perda contínua do valor monetário do dinheiro guardado fora da esfera financeira.
Apenas a título de comparação: entre 1995 e 2010, a média da inflação oficial (IPCA) foi de 7,6% ao ano. No período mais recente, entre 2003 e 2010, a média anual caiu para 5,7%. Porém, nos 4 meses que antecederam o Plano Collor (dez/89 a mar/90), a inflação acumulada superou a marca de 700%. Apenas nos 31 dias daquele março ela foi de 82%. Já nos 12 meses que antecederam ao Plano Real, a inflação acumulada foi superior a 5.000%. Realmente, a diferença para os tempos atuais é enorme e significativa!
Por mais contraditório que possa parecer, o fenômeno da inflação é carregado de forte abstração. Ou melhor, encerra em si mesmo uma contradição: o elemento real/concreto, ao mesmo tempo em que explicita um aspecto ideal/abstrato. O concreto refere-se ao efeito gerado pelo crescimento dos preços em si mesmo, à capacidade de transformar o montante da moeda em mercadoria, ao volume das compras que podem ser efetuadas a cada momento com aqueles recursos. É a sensação bem objetiva que a sabedoria popular denomina como “sentir no próprio bolso” as consequências da inflação. É palpável, é real. Os preços do pão, do leite, do ônibus, da gasolina, da batata, do tomate, do telefone, da televisão, do aluguel sobem. Tudo aumenta de preço. E, mais uma vez, a sabedoria popular explica melhor com a imagem da “falta de salário no final do mês”.
No entanto, a inflação é também sintetizada por um número, por um índice. E tal movimento implica um elevado grau de abstração. Na verdade, busca-se a síntese de um fenômeno generalizado de elevação de preços no conjunto da economia para algo que se expressa sob a forma de um x % ao ano, de um y % ao mês e, às vezes, até mesmo de um z % ao dia. E aqui reside um aspecto essencial: esse de conglomerar, adensar num único número um fenômeno carregado de significados que tangenciam o econômico, o social, o cultural. 
O fato é que cada indivíduo, cada família ou cada empresa apresenta um padrão de consumo diferenciado. E isso também varia de acordo com as características regionais (a cesta de consumo de uma família no Sul ou no Nordeste), com as características de renda (padrão de consumo da chamada classe A versus a classe C, por exemplo), com o tipo de empresa considerada (compradora de matérias-primas, mais intensiva em capital ou trabalho, etc). E a lista das diferenças é praticamente inesgotável: moradia própria ou pagamento aluguel; veículo próprio ou uso de transporte público; família morando em ambiente urbano ou rural; consumo nas regiões metropolitanas das capitais ou em pequenos municípios do interior; matrícula dos filhos em escola pública ou privada; uso de serviços de saúde do SUS ou pagamento de plano de saúde privado; etc, etc, etc.
Assim, quando se depara com o número “oficial” da inflação do período, cada agente econômico vai se sentir mais ou menos identificado com aquela referência. Exatamente por ser uma média, tal índice opera como se fosse uma abstração. Para tentar mapear o comportamento de forma mais específica e detalhada, aos poucos foi sendo desenvolvido um conjunto amplo de indicadores que buscam dar conta de tal diversidade de situações. E quem se atrever a correr atrás vai se deparar com uma verdadeira sopa de letrinhas, tanto para as siglas dos índices (em geral começam com a letra “I”...) como para as instituições que os elaboram. Alguns exemplos:
INPC (IBGE) – Índice Nacional de Preços ao Consumidor (1 a 6 salários mínimos)
IPC (FIPE/USP) – Índice de Preços ao Consumidor – município de São Paulo
IPC (FGV) – Índice de Preços ao Consumidor
IPC - S ( FGV) – Índice de Preços ao Consumidor - semanal
IPCA (IBGE) – Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (1 a 40 salários mínimos)
IPCA – 15 (IBGE) - Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (entre dias 15 de cada mês)
IGP - DI (FGV) – Índice Geral de Preços - disponibilidade interna 
IGP - M ( FGV) - Índice Geral de Preços - mercado
ICV - SP (DIEESE) – Índice de Custo de Vida – município de São Paulo.
INCC (FGV) – Índice Nacional da Construção Civil
IPA (FGV) - Índice de Preços por Atacado
IPA - M (FGV) - Índice de Preços por Atacado - mercado 
Como a apuração de cada índice resulta em um número diferente para a inflação do período, dependendo do indicador utilizado há perdas ou ganhos relativos. É conhecido o fato dos contratos das prestadoras de serviços públicos pós privatização terem sido reajustados pelo IGP-M, que apurava índices mais elevados do que a inflação oficial e dos reajustes salariais. Resultado: transferência de renda da maioria da população para um grupo restrito de empresas privadas. 
Uma sofisticação importante foi a elaboração dos índices que incorporam os produtos importados e a pesquisa dos preços no atacado. Assim, por exemplo, pode-se avaliar se a inflação em um certo momento tem determinantes externos importantes, como a alta no preço do petróleo, do minério de ferro, da soja e outras bens chamados “commodities” no mercado internacional, sobre os quais a demanda brasileira não tem nenhuma capacidade de atuar – a não ser por meio da taxa de câmbio. Ou então, pode-se captar alguma tendência de elevação futura quando os preços no atacado apresentam alta. Isso significa que os insumos serão processados ou os estoques vendidos já num patamar de preços mais elevado, quando chegarem na ponta para o consumidor final.
E as diferenças continuam: a FGV divulgou que o IGP-DI para 2010 ficou em 11,3%. Mas a o IBGE informou que a inflação medida pelo IPCA para o mesmo período ficou em 5,9%. Por um lado, mais perdas para quem vive da remuneração de seu trabalho. Por outro, maior pressão do mundo financeiro sobre o governo para aumentar a taxa de juros na reunião do COPOM. 
E termino com a pergunta que não quer calar: mas afinal, no frigir dos ovos, qual foi mesmo a inflação do Brasil ao longo do ano passado?
(*) Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
Fonte: Carta Maior, 07/01/2011

segunda-feira, dezembro 27, 2010

os mercados de commodities estão nos dizendo...

O mundo finito
por Paul Krugman – "New York Times"

Então, qual é o significado dessa disparada nas commodities?
Seria causada pela especulação descontrolada? Ou resultado da criação excessiva de dinheiro, e, portanto, prenúncio de uma inflação descontrolada no futuro próximo? Não e não.
O que os mercados de commodities estão nos dizendo é que vivemos em um mundo finito, no qual o rápido crescimento das economias emergentes pressiona a oferta limitada de matérias-primas, elevando seus preços. E os Estados Unidos são, em geral, apenas espectadores dessa história.
O retrospecto: na última ocasião em que os preços do petróleo e das commodities estiveram altos assim, dois anos e meio atrás, muitos comentaristas descartaram o pico de preços como uma aberração causada pela ação de especuladores. E se declararam confirmados quando os preços das commodities despencaram, no segundo semestre de 2008.
Mas aquele colapso de preços coincidiu com uma severa recessão mundial, que conduziu a uma queda acentuada na procura por matérias-primas. O grande teste viria quando a economia mundial se recuperasse. As matérias-primas voltariam, então, a se tornar dispendiosas?
Bem, aqui nos Estados Unidos a sensação é a de que a recessão persiste. Mas graças ao crescimento dos países em desenvolvimento, a produção industrial mundial recentemente superou seu pico anterior -- e, como seria de esperar, os preços das commodities voltaram a disparar.
Isso não significa necessariamente que a especulação não tenha desempenhado papel algum em 2007/8. Nem deveríamos rejeitar a ideia de que a especulação de alguma forma influencie os preços atuais; quem seria, por exemplo, o investidor misterioso que arrematou tamanha porção da oferta mundial de cobre? Mas o fato de que a recuperação econômica mundial tenha também trazido recuperação nos preços das commodities sugere fortemente que as flutuações recentes nos preços refletem fatores fundamentais.
E a quanto à possibilidade de que alta nos preços das commodities prenuncie uma disparada na inflação? Muitos comentaristas da direita vêm alegando há anos que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), ao imprimir muito dinheiro -- não é o que a instituição está fazendo, mas é disso que é acusada -- estaria criando uma inflação severa no futuro. A estagflação está a caminho, alertou o deputado Paul Ryan em fevereiro de 2009; Glenn Beck vem avisando sobre hiperinflação iminente desde 2008.
Mas a inflação continua baixa. O que resta a fazer, para aqueles que acreditam em ameaça inflacionária?
Uma resposta é a proliferação de teorias da conspiração, e de alegações de que o governo está ocultando a verdade quanto a aumentos de preços. Mas recentemente, muita gente na direita tem usado a alta nos preços das commodities como prova de que estavam certos desde sempre em seus alertas de que uma alta na inflação geral está a caminho.
É preciso imaginar o que esse pessoal da direita estava pensando dois anos atrás, quando os preços das matérias-primas estavam despencando. Caso a alta nos preços das commodities nos últimos seis meses seja prenúncio de inflação, por que a queda de 50% no segundo semestre de 2008 não causou deflação?
Desconsiderada essa incoerência, porém, o grande problema com aqueles que culpam o Fed pela alta no preço das commodities é que estão sofrendo de mania de grandeza quanto à economia dos Estados Unidos. Pois os preços das commodities são determinados em nível mundial, e o que os Estados Unidos fazem não é fator assim tão importante.
Um aspecto importante, hoje como em 2007/8, é que a principal força propulsora na alta dos preços das commodities não é demanda norte-americana, e sim demanda da China e outras economias emergentes. À medida que mais e mais pessoas em países antes pobres ingressam na classe média mundial, começam a comprar carros e a comer mais carne, o que eleva cada vez mais a pressão sobre a oferta mundial de petróleo e alimentos.
E a oferta simplesmente não acompanha o ritmo. A produção convencional de petróleo está estagnada há quatro anos; nesse sentido, ao menos, o pico produtivo do petróleo de fato chegou. É verdade que fontes alternativas, tais como o petróleo extraído de areias oleaginosas canadenses, continuam a se desenvolver. Mas elas têm custos relativamente elevados, tanto monetários quanto ambientais.
Além disso, nos últimos 12 meses, o clima extremo -- especialmente o calor e seca severos em algumas importantes regiões agrícolas -- desempenhou papel importante em promover alta nos preços dos alimentos. E, sim, há todo motivo para acreditar que a mudança no clima esteja tornando episódios climáticos como esses cada vez mais comuns.
Assim, quais são as implicações da alta recente nos preços das commodities? Trata-se, como eu disse, de um sinal de que estamos vivendo em um mundo finito, no qual as limitações de recursos se tornam cada vez mais severas. Isso não resultará no final do crescimento econômico, e muito menos em um colapso ao estilo Mad Max. Mas requererá que mudemos gradualmente a nossa maneira de viver, adaptando nossas economias e estilos de vida à realidade de recursos naturais mais dispendiosos.
Mas isso virá no futuro. Por enquanto, a alta nos preços das commodities resulta basicamente da recuperação mundial. Ela não se relaciona de maneira alguma à política monetária dos Estados Unidos. Pois a história em questão é mundial, e não se relaciona de maneira alguma a nós, em termos fundamentais.
Tradução de Paulo Migliacci
Fonte: Folha| Mercado, 27/12/2010

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