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quarta-feira, maio 04, 2011

a democracia é reduzida a um simulacro

"HÁ UMA GUERRA CIVIL RASTEJANTE NA SOCIEDADE CAPITALISTA"
A crise do capitalismo alimenta o crescimento, na Europa, de um populismo inquietante e autoritário que tem em Sílvio Berlusconi o maior intérprete. Mas abre também espaço inédito para uma política que tenda à sua superação, defende o filósofo esloveno Slavoj Zizek em entrevista a Benedetto Vecchi, do Il Manifesto. "Há uma guerra civil rastejante na sociedade capitalista. A inquietação ambiental atingiu os níveis de vigilância. A democracia é reduzida a um simulacro. Ainda assim, nem tudo está perdido", diz Zizek.
por Benedetto Vecchi - Il Manifesto
Escrita em estilo sóbrio, a obra analisa o mundo depois da crise econômica e a tendência de muitos governos de intervir, por meio de financiamento das dívidas dos bancos e das grandes instituições financeiras, para evitar aquilo que apenas há poucos anos parecia a trama de um filme de ficção sobre o colapso do capitalismo. Mas o autor procura distanciar-se das posições teóricas de muitos estudiosos marxistas, que sempre viram o neoliberalismo como um parêntese que, eventualmente, seria substituído por uma realidade social e política mais consentânea com as leis económicas, dando pouco espaço para os rentistas que enriqueceram com as loucuras especulativas das últimas décadas.
Para Zizek, ao contrário, o neoliberalismo tem sido uma adequada contra-revolução que cancelou a constituição material e formal surgida após a II Guerra Mundial, quando o capitalismo era sinonimo de democracia representativa. No início do terceiro milênio, a contra-revolução terminou, abrindo espaço para uma política radical que Zizek, em sintonia com o filósofo francês Alain Badiou, chama enfaticamente de “hipótese comunista”.
O filósofo esloveno não fecha, porém, os olhos para o fato de que os sinais provenientes de toda a Europa apontam para a ascensão de uma direita populista que conquista consensos onde os partidos social-democratas eram tradicionalmente fortes – como na Holanda, Noruega, Suécia. E também era irônico que com os democratas e norte-americanos radicais, que “nos Estados Unidos, depois de haver saudado a eleição de Obama para a Casa Branca como um evento divino, agora se deleitassem em discutir se é politicamente mais incisivo 'Avatar', de James Cameron, ou 'Estado de Guerra', de Kathryn Bigelow”. Eis a entrevista:
Num artigo, você lançou farpas contra “Avatar”, definindo-o como um filme apolítico. No entanto, no filme de Cameron, há fortes referências tanto à guerra do Iraque quanto à destruição da floresta amazônica: em ambos os casos, os vilões são as multinacionais…
Slavoj Zizek: O filme de James Cameron é agradável, divertido, uma obra inovadora do ponto de vista do uso das tecnologias digitais. Mas aqueles que sustentam que os críticos radicais nos Estados Unidos são uma espécie de ala marxista de Hollywood não me convencem. Eles escreveram que Avatar retrata a luta de classes e a luta dos pobres contra os ricos, com o fim de auto-determinarem a sua vida. Há um planeta, Pandora, que é invadido por uma tropa de mercenários a soldo de multinacionais. O objetivo é depredar os seus recursos naturais, colocando, assim, em perigo o milenário equilíbrio que os seres vivos estabeleceram com o luxuriante ecossistema. Podemos estabelecer certa analogia com o que as multinacionais e os países imperialistas fazem com a Floresta Amazônica, com o Iraque ou com toda aquela realidade onde estão as fontes energéticas e as matérias primas fundamentais para a produção de riqueza. No filme, os aborígenes de Pandora, em nome de uma visão holística de relação com a natureza, democracia opõem-se ao capitalismo, vencendo, no final, a sua batalha. Mas a natureza é um produto cultural que muda com a mudança das relações sociais.
Os seres sempre retiraram da natureza os meios para viver e se reproduzir como espécie. Mas ao fazê-lo, transformaram a natureza. Não é, portanto, retornando a uma idade de ouro idealizada, como sugere James Cameron, que se pode derrotar o capitalismo. “Avatar” é pura fantasia, fascinante por certo, mas sempre fantasia.
Você tem frequentemente sublinhado que o populismo é uma doença do Político. Não lhe parece que o populismo, mais que uma doença, seja a forma política que, melhor que as outras, se adapta ao capitalismo contemporâneo?
Zizek: Até há alguns anos, afirmava-se que o capitalismo era sinônimo de democracia na sua forma liberal, fundada sobre a tolerância, o multiculturalismo e o politicamente correto. Agora, ao contrário, assistimos às forças ou aos líderes políticos que invocam a mobilização do povo para combater os inimigos do estilo de vida moderno. O filósofo argentino Ernesto Laclau analisou a fundo a lógica do populismo, sustentando que existe uma variante de esquerda e uma variante de direita. A tarefa do pensamento crítico consistiria em evitar a derivação de direita.
Não estou de acordo com essa posição. Em primeiro lugar, o populismo é sempre de direita. Além disso, o povo, como a natureza, é uma invenção. Laclau acredita que para fazê-lo tornar-se realidade deve-se imaginar um universal que contenha e supere as diferenças dentro dele. Daí a necessidade de identificar um inimigo que impede a formação do povo. Não é uma coincidência, então, que a forma acabada de populismo seja o anti-semitismo, porque indica um inimigo que vive entre nós. O mesmo fazem os populistas contemporâneos quando indicam os migrantes como a quinta-coluna entre nós.
Na sua avaliação, o populismo dirigirá o conflito contra inimigos de conveniência, para esconder o sistema de exploração do capitalismo. Isso quer dizer que esta tendência ocupa um espaço político abandonado, por exemplo, pela esquerda. Como recuperar esse espaço?
Zizek: Walter Benjamin escreveu que o fascismo emerge de onde uma revolução foi derrotada. Um conceito que, aplicado à realidade contemporânea, explica o fato de o populismo emergir quando a hipótese comunista, que não coincide com o socialismo real, é retirada da discussão pública. Entretanto, no tolerante capitalismo contemporâneo assistimos à campanha midiática contra os migrantes, porque atentam contra a nossa segurança. Ou ficamos atordoados com intelectuais que, como Bernard Henri-Levy, debatem longamente sobre a superioridade da civilização ocidental e sobre o perigo representado pelo fundamentalismo islâmico, qualificado como islamo-facismo.
Creio, todavia, que há fortes pontos de contacto entre a ideologia liberal e o populismo: ambos são pensamentos políticos que levam em conta o estilo de vida capitalista ocidental como o único mundo possível. Os liberais, em nome da superioridade da democracia, os populistas em nome do único estilo de vida que as pessoas se dão. Há também diferenças. Os liberais estão impondo, mesmo com as armas, a democracia e a tolerância entre quem não é democrático nem tolerante. Os populistas desejam, ao contrário, aniquilar de modo suave de polícia étnica as diversidades culturais, sociais, de estilo de vida. O populismo é, portanto, uma das formas políticas do capitalismo global, mas não a única. Silvio Berlusconi, frequentemente julgado como um comediante ou um personagem de opereta, é, ao contrário, um líder político para ser estudado com atenção, porque pretende conjugar a democracia liberal com o populismo.
O primeiro-ministro italiano está, todavia, acelerando uma tendência presente em todos os sistemas políticos democráticos. Sua obra visa modificar o equilíbrio dos poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário – para benefício do Executivo, de modo tal que o executivo englobe o Legislativo e o Judiciário, mas sem cancelar os direitos civis e políticos. As eleições são consideradas como uma sondagem sobre a obra do executivo. Se Berlusconi perde, invoca em seguida a soberania popular representada por ele. A forma política que propõe é, sim, uma mescla entre democracia e populismo, se bem que a sua ideia de democracia seja uma democracia pós-constitucional que faz da invenção do povo o seu traço distintivo. Tudo isso faz com que a Itália, mais que um país atípico, seja um laboratório inquietante onde se desenvolveu uma democracia pós-constitucional. Desse ponto de vista, na Itália está sendo construído o futuro dos sistemas políticos ocidentais…
O que quer dizer com pós-constitucional?
Zizek: Uma democracia que elimina a antiga divisão e equilíbrio entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Equilíbrio dos poderes definido por todas as constituições europeias e pelo Bill of Rights dos Estados Unidos…
Na Europa, tudo isso é chamado pós-democracia. Claro, Sílvio Berlusconi deseja superar a democracia representativa que conhecemos no capitalismo. Por isso é um líder político mais que nenhum outro. Acho que o presidente Nicolas Sakozy tem uma visão muito mais clara do que aquela posta em jogo no capitalismo. Isso quer dizer que é mais perigoso do que os outros expoentes da direita europeia ou dos EUA. Não nos encontramos, portanto, em frente a um personagem de opereta, que vai às mulheres e promulga leis ad personam. A tragédia apresenta sempre momentos de opereta. Mas há tragédia quando se manifestam conflitos radicais, onde não há possibilidade nem de mediação nem de salvação.
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Será, por isso, interessante ver como evoluirá a situação italiana, que não representa – e sobre isso, estou de acordo consigo – uma anomalia, mas um laboratório político cuja existência condicionará muitíssimo o futuro político da Europa. Na Holanda, na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na França, na Inglaterra há, de fato, forças políticas populistas que recolhem sempre mais consensos eleitorais graças às campanhas anti-migratórias que conduzem, mas não têm aquele radicalismo que apresenta a situação italiana.
Dito isso, não é preciso, no entanto, desenvolver uma visão apocalíptica da realidade. É claro: há uma guerra civil rastejante na sociedade capitalista. A inquietação ambiental atingiu os níveis de vigilância. A democracia é reduzida a um simulacro. Ainda assim, nem tudo está perdido.
Pelo contrário. Como demonstra a recente crise econômica, quando tudo parece perdido, abre-se espaço para uma ação política radical, que eu chamo de comunista. Tomemos o recente encontro sobre ambiente realizado no ano passado em Copenhaga. O resultado final, mais que um êxito decepcionante, foi um desastre político. Há propostas, derrotadas nos trabalhos da cúpula, que indicam na salvaguarda do ambiente uma das prioridades para salvar o capitalismo. Podemos pensar numa aliança tática com quem o carrega avante.
A crise econômica, além disso, exigiu uma intervenção do Estado para salvar da bancarrota empresas, bancos e sociedades financeiras. Mas isso significou que o tabu sobre a periculosidade da intervenção reguladora do Estado foi quebrada. Isso pode reforçar os socialistas — isto é, aqueles que apontam para uma redistribuição dos rendimentos e de poder. Não é a política que eu amo, mas abre espaço a propostas mais radicais. Por outras palavras, volta forte a ideia comunista de transformar a realidade. O que proponho não é um mero exercício de otimismo da razão, mas a consciência de que há forças e relações sociais que podem ser liberadas a partir da camisa de força do capitalismo. Toni Negri e Michael Hardt acham que enfatizando as características do capitalismo pós-moderno criam-se condições para o governo da comuna isto é, do comunismo graças àquilo que definiu a virtude prometeica da multidão. Mais realisticamente, acho que devemos organizar as forças sociais oprimidas para uma ação praticável no presente e no futuro imediato.
Você escreve, em sintonia com Alain Badiou, que o comunismo é uma ideia eterna. Uma política “comunista” deve, todavia, ancorar-se numa análise das relações sociais de produção e das formas que ela assume numa contingência histórica. Pode-se estar de acordo ou em discordância com a tese de Negri e Hardt sobre o capitalismo cognitivo, mas os seus escritos assinalam exatamente essa necessidade. Caso contrário, o comunismo torna-se uma teologia política, não acha?
Zizek: Não acredito, como Hardt e Negri, que com o desenvolvimento capitalista as forças produtivas, mais cedo ou mais tarde, entrem em rota de colisão com as relações sociais de produção. Precisamos agir politicamente para que isso aconteça. É esse o legado de Lenin que não pode mais ser apagado. Mas deixemos fora os textos sagrados e olhemos o capitalismo real. Existe certamente um setor de força-trabalho cognitiva, mas que também continua a trabalhar em fábrica e que, como os migrantes, é reduzida a uma condição de submissão servil no processo laboral.
Para não jogar no lixo da história esses “excluídos”, ou “marginais”, é preciso uma forte imaginação política, capaz de recompor e unir os diferentes setores da força-trabalho. A teologia é sempre fascinante, mas, quando digo que a ideia comunista é eterna, refiro-me ao fato de que é uma constante na história humana a tensão de superar a condição de escravidão e exploração. Por isso, o comunismo volta sempre, mesmo quando tudo previa que fosse permanecer definitivamente sepultado sob os escombros do socialismo real.
Tradução: Anete Amorim Pezzini para o Outras Palavras
Fonte: Carta Maior | Internacional, 02/05/2011

segunda-feira, abril 04, 2011

de Fukushima, os países tiraram três tipos diferentes de lições...

ENERGIA NUCLEAR DEVE MIGRAR PARA PAÍSES EMERGENTES
Na semana passada, o presidente Barack Obama fez um discurso sobre o futuro energético prometendo usar um "recurso renovável crítico que o resto do mundo não pode igualar: a engenhosidade americana". Obama, como seus compatriotas cientistas, reivindicou um traço arquetipicamente americano (autoconfiança), ao mesmo tempo em que exibiu sinais de outro (autoilusão).
por Christopher Caldwell
Desde o tsunami japonês que precipitou o desastre nuclear na usina de Fukushima, os países tiraram três tipos diferentes de lições. Alguns decidiram que, diante dos riscos da energia nuclear, o tipo mais poderoso de energia "limpa" é uma aposta errada. O Japão sente-se assim, ao menos neste momento. A desativação da geração de energia nuclear implicou desligar elevadores em prédios comerciais e letreiros de neon pelo país, e transferir jogos de beisebol da noite para o dia.
Também a Alemanha parece disposta a reagir ao risco reduzindo sua dependência da energia nuclear. No domingo retrasado, eleitores em Baden-Württemberg impuseram uma derrota à União Democrata Cristã, da premiê Angela Merkel, que governou o Estado sem interrupção desde 1953. Eles substituíram a UDC pelos Verdes, que nasceram do movimento antinuclear dos anos 80 e que pela primeira vez comandarão um governo estadual. A UDC tentou aderir ao descontentamento pós-Fukushima, porém tarde demais e de modo pouco convincente.
Os países mais dinâmicos do mundo em desenvolvimento têm um modo diferente de encarar a questão. A China não diminuiu o passo. A África do Sul, poucos dias após incidente no Japão, anunciou que aumentará sua produção de energia nuclear. Veysel Eroglu, ministro do Ambiente na Turquia, ironizou os riscos das duas centrais nucleares em construção no país. "Se você dirige um carro, está assumindo um risco", disse ele.
Um argumento mais ponderado em defesa da continuidade desses projetos foi apresentado pelo ex-primeiro-ministro russo Sergei Kiriyenko, que hoje dirige a agência nuclear de seu país. Ele disse ter ficado impressionado com a resistência da usina de Fukushima, em operação há 40 anos. Embora espere que a energia nuclear seja, no futuro, substituída por algo mais seguro, acrescentou: "É evidente que, em termos de conhecimentos e de habilidades especializadas, o desenvolvimento dessa [futura] energia está ligado ao desenvolvimento da energia nuclear".
Obama delineou uma terceira posição. É a mais razoável, ou a mais tímida. Para tentar se reeleger, Obama precisará se submeter a um eleitorado que, repetidas vezes, reivindicou o direito à energia barata. Ele espera canalizar o ceticismo em relação à opção nuclear para a sua própria vantagem e dos EUA, tornando o país um "pioneiro" em combustíveis alternativos. "Vamos ajudar os empresários a inovar em quatro biorefinarias de próxima geração." Essas sugestões são um convite ao cinismo. Empresários podem ser dignos de subsídios governamentais. Porém, é mais provável que os americanos lhes atribuam mais "compadrio" do que "empreendedorismo".
A crise de confiança na energia nuclear gerou uma rápida alta nas ações das empresas de energia eólica, solar e outras renováveis, embora no fim de março elas tivessem voltado aos níveis pré-tsunami.
Há um perigo de complacência quando se fala de combustíveis alternativos. Em anos recentes, a mescla de energia solar e eólica tem sido um interessante suplemento energético (quando subsidiado), enquanto o sol brilha e o vento sopra. Mas o problema do armazenamento dessa energia - indispensável para que as energias renováveis substituam, em vez de complementar, outros combustíveis -, quase não foi abordado.
Além disso, as turbinas eólicas são barulhentas, matam pássaros e são feias. Parte da receita verde para reduzir a dependência alemã em relação à energia nuclear envolve a construção de mais turbinas, e maiores, e colocá-las mais próximas das cidades.
Para complicar as coisas, nos EUA grande parte dos imóveis residenciais nos EUA perderia todo seu valor se a gasolina fosse vendida a preços europeus. Obama reconheceu o fato, ao mencionar no discurso que os custos de transporte são responsáveis pela segunda maior fatia dos gastos de muitas famílias, presumivelmente após o gasto com habitação. A quase inacreditável demanda americana por petróleo - o país importa hoje cerca de 10 milhões de barris por dia - o levou a divergir do resto do Ocidente em termos de política energética. Mesmo se os EUA cortassem a produção de energia nuclear ou de petróleo em águas profundas ou de carvão, seus hábitos de consumo provavelmente o conduziriam a alguma "folie à deux" mercantil com algum exportador de energia, assim como seu apetite por bens de consumo impulsionou seu patológico comércio com a China.
A tragédia em Fukushima reforçou tendências que já vinha se manifestando. Nesse aspecto, seu efeito se assemelha ao da catástrofe de Tchernobil, em 1986, que provocou mais questionamento da energia nuclear no Ocidente do que na União Soviética. A atual incerteza em relação à energia nuclear representa a globalização do "nimbyismo" americano (referência ao acrônimo "not in my backyard" - não no meu quintal). Todo mundo quer se beneficiar da energia nuclear, mas nem todos têm o mesmo apetite para o risco.
Isso terá consequências econômicas e estratégicas. A capacidade de acessar uma grande quantidade de energia barata provavelmente migrará de países democráticos para semidemocráticos e não democráticos - não só porque esses governos são mais capazes de ignorar a oposição pública à energia nuclear, mas também porque a opinião pública tende a ser menos antagônica. Energia barata proporciona a um país um mercado mais rico e uma posição mais dominante no mundo. É improvável que um tsunami no Japão leve os cidadãos do mundo em desenvolvimento a moderar seus anseios por tais status.
Reportagem publicada pelo Financial Times e reproduzido pelo jornal Valor, 04-04-2011.
Fonte: IHU | Notícias, 04/04/2011

quinta-feira, março 31, 2011

soprando no seu próprio terreno e imprevisíveis...

OS VENTOS DA MUDANÇA

Os ventos da mudança são hoje verdadeiramente mundiais. Por enquanto, o epicentro é o mundo árabe, e os ventos ainda sopram ferozes por lá. A geopolítica desta região nunca mais será a mesma. Os EUA e a Europa Ocidental estão fazendo tudo o que está ao seu alcance para canalizar, limitar e redirecionar os ventos da mudança. Mas o seu poder já não é o que costumava ser. E os ventos da mudança estão soprando no seu próprio terreno. É a maneira de ser dos ventos. A sua direção e impulso não são constantes nem, portanto, previsíveis. Desta vez são muito fortes. Já não será fácil canalizá-los ou redireccioná-los.
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por Immanuel Wallerstein
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Há 51 anos, a 3 de Fevereiro de 1960, o então primeiro-ministro conservador da Grã-Bretanha, Harold Macmillan, dirigiu-se ao parlamento da África do Sul, cuja maioria era do partido que erigira o apartheid como base do seu governo. A sua intervenção ficaria conhecida como o discurso dos “ventos de mudança”. Vale a pena recordar as suas palavras:
“Os ventos da mudança estão a soprar neste continente, e o crescimento da consciência nacional é um fato político, queiramos ou não. Precisamos aceitá-lo como fato político, e as nossas políticas nacionais têm de levá-lo em conta”.
O primeiro-ministro da África do Sul, Hendrik Verwoerd, não gostou do discurso e rejeitou as suas premissas e o seu conselho. 1960 passou a ser conhecido como “O ano da África”, porque 16 colônias tornaram-se estados independentes. O discurso de Macmillan tinha como alvo, na verdade, os Estados do Sul da África que tinham grupos expressivos de colonizadores brancos (e, quase sempre, enormes riquezas minerais) e resistiam à simples ideia do sufrágio universal, na qual os negros constituiriam a esmagadora maioria dos eleitores.
Dificilmente Macmillan poderia ser considerado radical. Explicava o seu raciocínio em termos de conquistar as populações asiáticas e africanas para o lado do Ocidente, na Guerra Fria. O seu discurso foi significativo por ser um sinal de que os líderes da Grã-Bretanha (e, consequentemente, os dos Estados Unidos) viam como causa perdida o domínio eleitoral branco no Sul da África, que poderia arrastar o Ocidente para o abismo. O vento continuou a soprar, e num país após o outro as maiorias negras impuseram-se, até que, em 1994, a própria África do Sul sucumbiu ao voto universal e elegeu Nelson Mandela presidente. Neste processo, porém, os interesses econômicos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos foram de alguma forma preservados.
Há duas lições que podemos aprender deste episódio. A primeira é que os ventos da mudança são muito fortes e provavelmente irresistíveis. A segunda é que quando os ventos varrem os símbolos da tirania, não é certo o que virá a seguir. Quando os símbolos caem, todos, retrospectivamente, os denunciam. Mas todos querem também preservar os seus próprios interesses nas novas estruturas que emergem.
A segunda revolta árabe, que começou na Tunísia e no Egipto, está agora envolvendo mais e mais países. Não há dúvida de que outros símbolos da tirania vão cair, ou vão fazer grandes concessões e promover amplas mudanças nas suas estruturas estatais. Mas quem vai, então, deter o poder? Na Tunísia e no Egipto, os novos primeiros-ministros foram figuras-chave dos anteriores regimes. E o exército, em ambos países, parece estar dizendo às multidões para porem fim aos protestos. Nos dois países, há exilados que regressam, assumem cargos e procuram prosseguir, ou mesmo expandir, os laços com os mesmos países da Europa e da América do Norte que sustentavam os anteriores regimes. É claro que as forças populares estão reagindo e acabam de forçar a renúncia do primeiro-ministro tunisiano.
No meio da Revolução Francesa, Danton aconselhou “de l’audace, encore de l’audace, toujours de l’audace” (“audácia, mais audácia, sempre a audácia”). Ótimo conselho talvez, mas Danton foi guilhotinado não muito tempo depois. E os que o executaram foram guilhotinados em seguida. Depois, vieram Napoleão, a Restauração, 1848, a Comuna de Paris. Em 1989, no bicentenário, quase toda a gente era retrospectivamente a favor da Revolução Francesa, mas é razoável perguntar se a trindade da Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – foi realmente realizada.
Algumas coisas são diferentes, hoje. Os ventos da mudança são hoje verdadeiramente mundiais. Por enquanto, o epicentro é o mundo árabe, e os ventos ainda sopram ferozes por lá. A geopolítica desta região nunca mais será a mesma. Os pontos-chave a observar são a Arábia Saudita e a Palestina. Se a monarquia saudita for seriamente desafiada – e parece possível que isso aconteça – nenhum regime do mundo árabe vai se sentir seguro. E se os ventos da mudança levarem as duas maiores forças políticas da Palestina a dar-se as mãos, até mesmo Israel pode sentir que é preciso adaptar-se às novas realidades e levar em conta a consciência nacional palestiniana, queira ou não queira, para parafrasear Harold Macmillan.
Desnecessário dizer que os Estados Unidos e a Europa Ocidental estão fazendo tudo o que está ao seu alcance para canalizar, limitar e redirecionar os ventos da mudança. Mas o seu poder já não é o que costumava ser. E os ventos da mudança estão soprando no seu próprio terreno. É a maneira de ser dos ventos. A sua direção e impulso não são constantes nem, portanto, previsíveis. Desta vez são muito fortes. Já não será fácil canalizá-los, limitá-los ou redirecioná-los.
(*) Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
Fonte: Carta Maior | Internacional, 26/03/2011

quarta-feira, março 02, 2011

os preços do petróleo estão 64% acima do que estavam em maio de 2010

A liberdade árabe vale um choque

por Martin Wolf
O que o levante árabe pode significar para o mundo? Ninguém sabe a resposta para a questão. Isso, no entanto, não impede que se dê um palpite, dentro da margem de incertezas.
Como economista, vejo um aspecto desses eventos peculiarmente encorajador: eles demonstram que a capacidade de previsão dos especialistas em política é, no mínimo, tão limitada quanto a dos economistas. Todos esses eventos são, de forma inerente, imprevisíveis. Não porque sejam "desconhecimentos que desconhecemos". Na verdade, são "desconhecimentos que conhecemos": sabemos que muitos países são vulneráveis a tais levantes, mas ninguém sabe se e quando tais eventos podem acontecer. Não sabemos nem a probabilidade de tais eventos. Como diz Hamlet, "estar pronto é tudo".
O que, então, podemos dizer sobre as consequências políticas? Uma conclusão é que a noção de uma "exceção árabe" ao apelo da liberdade de expressão e participação política está morta. Também sabemos, no entanto, que o caminho que vai das repressões para democracias estáveis em países pobres com instituições fracas e histórias de repressão é longo e difícil. As dificuldades da Romênia pós-Ceausescu, apesar do engajamento com a União Europeia, mostram o tamanho da tarefa.
Um pouco mais além, a grande questão é até que ponto as manifestações podem se disseminar, não apenas no mundo árabe, mas também fora dele. A suposição vinha sendo que a capacidade dos exportadores de repartir a riqueza internamente os protegeria. Depois do Bahrein e, ainda mais, da Líbia, isso não é mais convincente. A distância cultural e geográfica do epicentro deveria proporcionar alguma proteção, assim como o dinamismo econômico e a governança competente. Mas os eventos mostram quão universal é o desejo por uma voz política. A ideia de imunidade cultural a esses ideais supostamente ocidentais parece menos crível. A atual onda pode dissipar-se; outras podem segui-la.
As implicações políticas de longo prazo parecem ser bem mais significativas que as econômicas. Tudo depende de se manter o antigo mau negócio: a repressão como preço pela estabilidade no fornecimento de petróleo. Mas será que é moralmente desejável?
Agora, vejamos as consequências econômicas. Desde que os produtores de petróleo ficassem imunes, poderiam ser consideradas mínimas no curto prazo e modestas no longo. Mesmo a economia do Egito, pelos preços de mercado, é menor que a da República Tcheca. Parece, contudo, que os produtores de petróleo não são imunes no fim das contas. Como resultado, os preços do petróleo subiram para mais de US$ 114 por barril ontem, 64% acima do que estavam em maio de 2010. Para os que se lembram de choques passados, é um presságio preocupante. A questão é: até que ponto devemos preocupar-nos?
Como ressaltou Gavyn Davies, em excelente comentário no "FT.com" na semana passada: "Cada uma das cinco últimas principais crises na atividade econômica mundial foi imediatamente precedida por aumentos importantes nos preços do petróleo". Em algumas das ocasiões, esses aumentos foram desencadeados por choques de oferta, como nos anos 70. Em outras, por aumentos na demanda, como em 2008. O resultado foi sempre amargo. Stephen King, do HBSC, também se mostrou pessimista: "Com a precisão de um relógio, aumentos no petróleo de mais de 100% levam ao declínio do PIB."
Um choque petrolífero tem efeitos econômicos complexos: transfere renda dos consumidores para os produtores; reduz os gastos totais, já que os consumidores normalmente cortam seus gastos com mais rapidez do que os produtores aumentam os seus; reduz gastos em outros bens e serviços; torna os países exportadores líquidos de petróleo mais ricos e os importadores líquidos mais pobres; eleva o nível dos preços; reduz os salários reais e a rentabilidade das indústrias que dependem muito das fontes de energia; e reduzem a oferta, já que a capacidade se torna não econômica.
Alguns efeitos são bem imediatos - o impacto no nível dos preços, por exemplo. Alguns são, de forma inerente, de longo prazo e, portanto, dependem da duração do choque - o impacto na capacidade é um desses casos. Além disso, alguns efeitos são diretos e outros dependem de reação da política econômica.
O que podemos dizer sobre tais impactos, nesta conjuntura inicial? Davies destaca que, pelos preços atuais, uma alta de US$ 20 por barril aumentaria os gastos em petróleo em cerca de 1% dos gastos mundiais em todos os produtos. Nos últimos dez meses, contudo, os preços subiram US$ 40. Isso significa um impacto próximo a 2% da produção mundial - o suficiente para desencadear uma desaceleração mundial considerável, pelo menos no curto prazo.
Se a recente elevação tiver vida curta, o impacto econômico será revertido. Por enquanto, o país pode substituir a produção perdida da Líbia: a produção líbia, cerca de 2% do total mundial, é menor que a capacidade ociosa saudita. Além disso, qualquer redução na produção, mesmo nos países afetados diretamente, deverá ser breve, desde que a capacidade não seja danificada: os governos dos países exportadores de petróleo querem receitas. Governos democráticos podem precisar mais do que os déspotas das receitas.
Quanto mais os gastadores acreditem que o choque será de curto prazo, mais inclinados estarão a recorrer a suas economias. Anteriormente, as economias emergentes importadoras de fontes de energia sofreram com a capacidade limitada de captar empréstimos, reservas cambiais inadequadas e posições externas enfraquecidas. Quando as economias emergentes captaram no fim da década de 70, para financiar as importações de petróleo, acabaram caindo em crises maciças de dívidas nos anos 80. Isso não deverá voltar a ocorrer. Elas, também, podem gastar se o choque for breve.
Além disso, desde que as expectativas inflacionárias continuem sob controle, os bancos centrais não precisarão entrar em um aperto preventivo. Nesse aspecto, os países de alta renda estão em forma bem melhor que os países emergentes, onde a inflação é um perigo maior e as expectativas inflacionárias estão menos ancoradas.
Acabamos, então, no ponto em que começamos, com um grande nível de incerteza. Sabemos que os levantes políticos são altamente significativos, provavelmente, um marco histórico. Sabemos também, que o choque petrolífero pode ser bastante importante, embora esteja longe de ser catastrófico e possivelmente seja bastante breve. No geral, portanto, as implicações políticas de longo prazo parecem ser bem mais significativas que as econômicas. Tal otimismo quanto aos efeitos econômicos de curto prazo, porém, depende em parte da suposição de que a disseminação dos protestos agora esteja contida. Isso também dependerá da continuação do antigo mau negócio: a repressão como preço pela estabilidade no fornecimento de petróleo. É um negócio atraente para os consumidores. Mas será que é moralmente desejável ou politicamente sustentável no longo prazo?
Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT
Fonte: Valor online, 02/03/2011

terça-feira, fevereiro 22, 2011

uma boa economia não significa necessariamente uma boa política

A miséria da ditadura

por Dani Rodrik*
Talvez a descoberta mais espantosa no recente Relatório de Desenvolvimento Humano do 20º aniversário da ONU seja o extraordinário desempenho dos países muçulmanos do Médio Oriente e do Norte da África.
Temos a Tunísia, em sexto lugar entre 135 países em termos de melhoramento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ao longo das últimas quatro décadas, à frente da Malásia, de Hong Kong, do México, e da Índia. Não muito atrás ficou o Egito, em 14º lugar.
O IDH é uma medida de desenvolvimento que avalia as realizações em saúde e educação, juntamente com o crescimento econômico. O Egito e (especialmente) a Tunísia tiveram um desempenho bastante razoável em termos de crescimento econômico, mas onde, de fato, brilharam foi nestes indicadores mais alargados. A esperança de vida na Tunísia - 74 anos - ultrapassa a da Hungria e da Estónia, países com mais do dobro da riqueza. Cerca de 69 por cento das crianças egípcias frequentam a escola, um índice semelhante ao da Malásia, que é um país muitíssimo mais rico. Foram, claramente, países que providenciaram serviços sociais ou distribuíram amplamente os benefícios do crescimento econômico.
Todavia, no fim, isso pouco importou. O povo tunisiano e o povo egípcio estavam, parafraseando Howard Beale, zangados como o diabo com os seus governos e não estavam dispostos a aguentar mais. Se Zine El Abidine Ben Ali da Tunísia, ou Hosni Mubarak do Egito estavam à espera de popularidade política como recompensa pelos ganhos econômicos, devem ter ficado amargamente desiludidos.
Uma lição a tirar do annus mirabilis árabe será, pois, que uma boa economia não significa necessariamente uma boa política; as duas podem seguir caminhos diferentes por bastante tempo. É verdade que os países ricos do mundo são, quase todos, democracias. Mas uma política democrática não é condição necessária nem suficiente para o desenvolvimento econômico durante décadas.
Apesar dos melhoramentos econômicos que registraram, a Tunísia, o Egito e muitos outros países do Médio Oriente continuaram a ser países com regimes autoritários governados por um grupo de comparsas, com corrupção, clientelismo e nepotismo. A classificação destes países em termos de liberdades políticas e corrupção é marcadamente contrastante com a sua classificação em indicadores de desenvolvimento.
Na Tunísia a Freedom House relatou antes da Revolução do Jasmim: "As autoridades continuaram a hostilizar, deter e prender jornalistas e bloggers, activistas dos direitos humanos e opositores políticos." O Governo egípcio ficou em 111º lugar entre 180 países na análise de 2009 da Transparência Internacional sobre a corrupção.
E, claro, o oposto é também verdade: a Índia é democrática desde a sua independência, 1947, e, no entanto, o país só se libertou da sua "baixa taxa de crescimento hindu" nos anos de 1980.
Uma segunda lição a retirar é que um crescimento econômico rápido não por si só garante de estabilidade política, a não ser que se permita que as instituições políticas também se desenvolvam e amadureçam rapidamente. Na realidade, o próprio crescimento econômico gera mobilização social e econômica, uma das principais fontes de instabilidade política. Como disse o falecido cientista Samuel Huntington há mais de 40 anos, "a mudança social e econômica, a urbanização, o aumento da literacia e da instrução, a industrialização, a expansão dos meios de comunicação social aumentam a consciência política, multiplicam as exigências políticas, alargam a participação política". Juntemos à equação as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, e as forças desestabilizadoras que uma rápida mudança econômica põe em movimento podem tornar-se esmagadoras. Essas forças tornam-se ainda mais fortes, quando o fosso entre a mobilização social e a qualidade das instituições políticas aumenta. Quando as instituições políticas de um país são fortes, respondem às exigências vindas de baixo com uma combinação de acomodação, resposta e representação. Quando não estão desenvolvidas, tentam calar essas exigências na esperança que elas deixem de existir - ou sejam "compradas" pelas melhorias econômicas,
Os acontecimentos no Médio Oriente demonstram amplamente a fragilidade do segundo modelo. Os manifestantes na Tunísia e no Cairo não protestavam contra a falta de oportunidades econômicas, nem contra maus serviços sociais. Manifestavam-se contra um regime político que consideravam insular, arbitrário e corrupto e que não lhes permitia ter voz. Um regime político que é capaz de lidar com estas pressões não tem de ser democrático no sentido que o termo tem no Ocidente. Podemos imaginar sistemas políticos capazes de dar resposta que não funcionam com eleições livres, nem com a liberdade de existência de outros partidos políticos. Há quem possa apontar Omã ou Singapura como exemplos de regimes ditatoriais duradouros a par de um rápido crescimento econômico. Talvez. Mas o único tipo de sistema político que provou funcionar bem a longo prazo é o que está associado às democracias ocidentais. O que nos leva à China. No auge das manifestações de protesto egípcias, os chineses que surfavam na Web e que procuravam os termos "Egito" ou "Cairo" recebiam mensagens dizendo que não foram encontrados resultados. É óbvio que o Governo chinês não queria que os seus cidadãos lessem sobre as manifestações egípcias e tivessem ideias. Tendo sempre na memória o movimento da Praça Tiananmen em 1989, os líderes chineses estão determinados a fazer com que isso não se repita.
Evidentemente que a China não é a Tunísia nem o Egito. O Governo chinês experimentou a democracia a nível local e tentou, verdadeiramente, acabar com a corrupção. Ainda assim, os protestos aumentaram durante a última década. Houve 87.000 casos daquilo a que o Governo chama "súbitos incidentes de massas" em 2005, o último ano em que foram divulgadas estas estatísticas, o que faz crer que a taxa aumentou desde então. 
A aposta da liderança chinesa é que uma rápida melhoria dos padrões de vida e oportunidades de emprego irá conter quaisquer tensões sociais e políticas. É por isso que a China está tão concentrada em atingir um crescimento econômico anual de oito por cento ou mais - o número mágico que o Governo chinês crê pode conter o conflito social.
Mas o Egito e a Tunísia acabaram de enviar à China e a outros países do mundo com regimes autoritários uma mensagem: não contem com o progresso econômico para vos manter para sempre no poder.
(*) Dani Rodrik é Professor de Economia Política na Universidade de Harvard
Fonte: Público 20 | Economia | Opinião, 20/02/2011 - 18:29 P

quinta-feira, janeiro 27, 2011

exclusivamente pela verdade e pela justiça

Julian Assange é entrevistado por internautas brasileiros

O texto a seguir foi encaminhado pela jornalista Natália Viana que tem feito a ponte com o Wikileaks no Brasil. Na semana passada ela me ligou e perguntou se toparia publicar no blog num horário pré-determinado (10h de hoje) a entrevista que segue.
Claro, que como outros blogueiros, topei [Renato Rovai – revista Fórum outro mundo em debate]. Acho fundamental abrir espaço para Assange e sua organização.
Mas também aproveito para reafirmar que discordo da opção adotada por eles de parceirizar a divugação dos dados dos documentos com a Folha de S. Paulo e O Globo no Brasil.
Segundo Assange, isso deve ao fato que o governo brasileiro é de  esquerda e os jornais de direita. Bobagem. Há muito tempo os veículos da mídia tradicional tupiniquim deixaram de fazer jornalismo. O problema é esse. E não a postura editorial que assumem.
E também vamos combinar que o governo não é exatamente de esquerda. É uma frentona que vai da centro direita à esquerda.
Mas o que importa é a íntegra da entrevista que me foi enviada na madruga de hoje pela Natália Viana. Aliás, a Natália conta com minha torcida e apoio para ser eleita a jornalista do ano da Revista Imprensa. A despeito da minha divergência em relação à parceria com a Folha e O Globo, avalio que ninguém fez  melhor jornalismo que ela no  ano passado com essa cobertura do Wikileaks.
Entrevista organizada por Natália Viana
“Não somos uma organização exclusivamente da esquerda.  Somos uma organização exclusivamente pela verdade e pela justiça”. Essa é apenas uma  das muitas afirmações feitas pelo fundador e publisher do WikILeaks, Julian Assange, em entrevista aos internautas brasileiros.
A entrevista será publicada por diversos blogs – entre eles, o Blog do Nassif, Viomundo, Nota de Rodapé, Maria Frô, Trezentos, O Escrevinhador e Blog do Guaciara.   
Julian, que enfrenta um processo na Suécia por crimes sexuais e atualmente vive sob monitoramento em uma mansão em Norfolk, na Inglaterra, concedeu a  entrevista para internautas que enviaram perguntas a este blog.
 Eu selecionei doze perguntas dentre as cerca de 350 que recebi – e não foi fácil. Acabei privilegiando perguntas muito repetidas, perguntas originais e aquelas que não querem calar. Infelizmente, nem todos foram contemplados. Todas as perguntas serão publicadas depois.
 No final, os brasileiros não deram mole para o criador do WikiLeaks. Julian teve tempo de responder por escrito e aprofundar algumas questões.
O resultado é uma entrevista saborosa na qual ele explica por que trabalha com a grande mídia – sem deixar de criticá-la -, diz que gostaria de vir ao Brasil e sentencia: distribuir informação é distribuir poder.
 Em tempo: se virasse filme de Hollywood, o editor do WikiLeaks diz que gostaria de ser interpretado por Will Smith.
 A seguir, a entrevista. 
Vários internautas - O WikiLeaks tem trabalhado com veículos da grande mídia – aqui no Brasil, Folha e Globo, vistos por muita gente como tendo uma linha política de direita. Mas além da concentração da comunicação, muitas vezes a grande mídia tem interesses próprios. Não é um contra-senso trabalhar com eles se o objetivo é democratizar a informação? Por que não trabalhar com blogs e mídias alternativas?
Por conta de restrições de recursos ainda não temos condições de avaliar o trabalho de milhares de indivíduos de uma vez. Em vez disso, trabalhamos com  grupos de jornalistas ou de pesquisadores de direitos humanos que têm uma  audiência significativa. Muitas vezes isso inclui veículos de mídia estabelecidos; mas também trabalhamos com alguns jornalistas individuais,  veículos alternativos e organizações de ativistas, conforme a situação demanda e os recursos permitem.
Uma das funções primordiais da imprensa é obrigar os governos a prestar contas sobre o que fazem. No caso do Brasil, que tem um governo de esquerda, nós sentimos que era preciso um jornal de centro-direita para um melhor escrutínio dos governantes. Em outros países, usamos a equação inversa. O  ideal seria podermos trabalhar com um veículo governista e um de oposição.
Marcelo Salles – Na sua opinião, o que é mais perigoso para a democracia: a manipulação de informações por governos ou a manipulação de informações por oligopólios de mídia?
A manipulação das informações pela mídia é mais perigosa, porque quando um  governo as manipula em detrimento do público e a mídia é forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a própria mídia se afasta  do seu papel crítico, não somente os governos deixam de prestar contas como os interesses ou afiliações perniciosas da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos governos. O exemplo mais claro disso foi a Guerra do  Iraque em 2003, alavancada pela grande mídia dos Estados Unidos.
Eduardo dos Anjos - Tenho acompanhado os vazamentos publicados pela sua  ONG e até agora não encontrei nada que fosse relevante, me parece que é muito barulho por nada. Por que tanta gente ao mesmo tempo resolveu confiar em você? E por que devemos confiar em você?
 O WikiLeaks tem uma história de quatro anos publicando documentos. Nesse período, até onde sabemos, nunca atestamos ser verdadeiro um documento falso. Além disso, nenhuma organização jamais nos acusou disso. Temos um histórico ilibado na distinção entre documentos verdadeiros e falsos, mas nós somos, é claro, apenas humanos e podemos um dia cometer um erro. No entanto até o momento temos o melhor histórico do mercado e queremos trabalhar duro para manter essa boa reputação. Diferente de outras organizações de mídia que não têm padrões claros sobre o que vão aceitar e o que vão rejeitar, o WikiLeaks tem uma definição clara que permite às nossas fontes saber com segurança se vamos ou não publicar o  seu material.  Aceitamos vazamentos de relevância diplomática, ética ou histórica, que  sejam documentos oficiais classificados ou documentos suprimidos por alguma ordem judicial.
Vários internautas - Que tipo de mudança concreta pode acontecer como  consequência do fenômeno Wikileaks nas práticas governamentais e empresariais? Pode haver uma mudança na relação de poder entre essas esferas  e o público?
James Madison, que elaborou a Constituição americana, dizia que o conhecimento sempre irá governar sobre a ignorância. Então as pessoas que pretendem ser mestras de si mesmas têm de ter o poder que o conhecimento traz. Essa filosofia de Madison, que combina a esfera do conhecimento com a esfera da distribuição do poder, mostra as mudanças que acontecem quando o conhecimento é democratizado. Os Estados e as megacorporações mantêm seu poder sobre o pensamento individual ao negar informação aos indivíduos. É esse vácuo de conhecimento que delineia quem são os mais poderosos dentro de um governo e quem são os  mais poderosos dentro de uma corporação. Assim, o livre fluxo de conhecimento de grupos poderosos para grupos ou indivíduos menos poderosos é também um fluxo de poder, e portanto uma força  equalizadora e democratizante na sociedade.
Marcelo Träsel - Após o Cablegate, o Wikileaks ganhou muito poder. Declarações suas sobre futuros vazamentos já influenciaram a bolsa de valores e provavelmente influenciam a política dos países citados nesses alertas. Ao se tornar ele mesmo um poder, o Wikileaks não deveria criar mecanismos de auto-vigilância e auto-responsabilização frente à opinião pública mundial?
O WikiLeaks é uma das organizações globais mais responsáveis que existem. Prestamos muito mais contas ao público do que governos nacionais, porque todo fruto do nosso trabalho é público. Somos uma organização essencialmente  pública; não fazemos nada que não contribua para levar informação às pessoas. O WikiLeaks é financiado pelo público, semana a semana, e assim eles “votam” com as suas carteiras. Além disso, as fontes entregam documentos porque acreditam que nós vamos protegê-las e também vamos conseguir o maior impacto possível. Se em algum momento acharem que isso não é verdade, ou que estamos agindo de maneira antiética, as colaborações vão cessar. O WikiLeaks é apoiado e defendido por milhares de pessoas generosas que oferecem voluntariamente o seu tempo, suas habilidades e seus recursos em nossa defesa. Dessa maneira elas também “votam” por nós todos os dias.
Daniel Ikenaga - Como você define o que deve ser um dado sigiloso?
Nós sempre ouvimos essa pergunta. Mas é melhor reformular da seguinte maneira: “quem deve ser obrigado por um Estado a esconder certo tipo de informação do resto da população?”  A resposta é clara: nem todo mundo no mundo e nem todas as pessoas em uma determinada posição. Assim, o seu medico deve ser responsável por manter a confidencialidade sobre seus dados na maioria das circunstâncias – mas não em todas.
Vários internautas - Em declarações ao Estado de São Paulo, você disse que  pretendia usar o Brasil como uma das bases de atuação do WikiLeaks. Quais os planos futuros?  Se o governo brasileiro te oferecesse asilo político, você aceitaria?
Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro. Com base nisso e na característica independente do Brasil em relação a outros países, decidimos expandir nossa presença no país. Infelizmente eu, no momento, estou sob prisão domiciliar no inverno frio de Norfolk, na Inglaterra, e não posso me mudar para o belo e quente Brasil.
Vários internautas - Você teme pela sua vida? Há algum mecanismo de proteção especial para você? Caso venha a ser assassinado, o que vai acontecer com o WikiLeaks?
Nós estamos determinados a continuar a despeito das muitas ameaças que sofremos. Acreditamos profundamente na nossa missão e não nos intimidamos  nem vamos nos intimidar pelas forças que estão contra nós. Minha maior proteção é a ineficácia das ações contra mim. Por exemplo, quando eu estava recentemente na prisão por cerca de dez dias, as publicações de documentos continuaram. Além disso, nós também distribuímos cópias do material que ainda não foi publicado por todo o mundo, então não é possível impedir as futuras publicações do WikiLeaks atacando o nosso pessoal.
Helena Vieira - Na sua opinião, qual a principal revelação do Cablegate? A sua visão de mundo, suas opiniões sobre nossa atual realidade mudou com as informações a que você teve acesso?
O Cablegate cobre quase todos os maiores acontecimentos, públicos e privados, de todos os países do mundo – então há muitas revelações importantíssimas, dependendo de onde você vive. A maioria dessas revelações ainda está por vir. Mas, se eu tiver que escolher um só telegrama, entre os poucos que eu li até agora – tendo em mente que são 250 mil – seria aquele que pede aos diplomatas americanos obter senhas, DNAs, números de cartões de crédito e números dos vôos de funcionários de diversas organizações – entre elas a ONU. Esse telegrama mostra uma ordem da CIA e da Agência de Segurança Nacional aos diplomatas americanos, revelando uma zona sombria no vasto aparato secreto de obtenção de inteligência pelos EUA.
Tarcísio Mender  e Maiko Rafael Spiess - Apesar de o WikiLeaks ter abalado as relações internacionais, o que acha da Time ter eleito Mark Zuckerberg o homem do ano? Não seria um paradoxo, você ser o “criminoso do ano”, enquanto Mark Zuckerberg é aplaudido e laureado?
A revista Time pode, claro, dar esse título a quem ela quiser. Mas para mim foi mais importante o fato de que o público votou em mim numa proporção vinte vezes maior do que no candidato escolhido pelo editor da Time. Eu ganhei o voto das pessoas, e não o voto das empresas de mídia multinacionais. Isso me parece correto. Também gostei do que disse (o programa humorístico da TV americana)  Saturday Night Live sobre a situação: “Eu te dou informações privadas sobre  corporações de graça e sou um vilão. Mark Zuckerberg dá as suas informações privadas para corporações por dinheiro – e ele é o ‘Homem do Ano’.” Nos bastidores, claro, as coisas foram mais interessantes, com a facção pró- Assange dentro da revista Time sendo apaziguada por uma capa bastante impressionante na edição de 13 de dezembro, o que abriu o caminho para a escolha conservadora de Zuckerberg algumas semanas depois.

Vinícius Juberte - Você se considera um homem de esquerda?
Eu vejo que há pessoas boas nos dois lados da política e definitivamente  há pessoas más nos dois lados. Eu costumo procurar as pessoas boas e trabalhar por uma causa comum.  Agora, independente da tendência política, vejo que os políticos que deveriam controlar as agências de segurança e serviços secretos acabam, depois de eleitos, sendo gradualmente capturados e se tornando obedientes a eles. Enquanto houver desequilíbrio de poder entre as pessoas e os governantes,  nós estaremos do lado das pessoas. Isso é geralmente associado com a retórica da esquerda, o que dá margem à visão de que somos uma organização exclusivamente de esquerda. Não é  correto. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e justiça – e  isso se encontra em muitos lugares e tendências.
Ariely Barata - Hollywood divulgou que fará um filme sobre sua trajetória. Qual sua opinião sobre isso?
Hollywood pode produzir muitos filmes sobre o WikiLeaks, já que quase uma dúzia de livros está para ser publicada. Eu não estou envolvido em nenhuma produção de filme no momento. Mas se nós vendermos os direitos de produção, eu vou exigir que meu papel seja feito pelo Will Smith. O nosso porta-voz, Kristinn Hrafnsson, seria interpretado por Samuel L Jackson, e a minha bela assistente por Halle Berry. E o filme poderia se chamar “WikiLeaks Filme Noire”.
Fonte: Blog do Rovai, 26/01/2011

domingo, janeiro 09, 2011

não está parecendo tão fácil agora...

O cortejo do atraso
O queixume entreouvido nos bastidores do governo logo evoluiu para um desavergonhado bate-boca. Primeiro, o PMDB se ressentiu da perda de espaço no primeiro escalão, com ministérios relevantes como o das Comunicações e da Saúde subtraídos da cota do principal partido aliado da presidente Dilma Rousseff e entregues, respectivamente, aos petistas Paulo Bernardo e Alexandre Padilha. Depois, a cúpula não se conformou com a troca de mãos das joias do segundo escalão das duas pastas, os Correios e a Funasa.
E o novo ministro teve de ouvir uma espécie de “vai para casa, Padilha” do líder peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN): “Parece que vocês não aprenderam com o mensalão. Depois não venham correr atrás do PMDB para resolver os problemas”.
A temperatura na formação de novos governos é tradicionalmente quente na história política brasileira, afirma o filósofo e coordenador do Núcleo Direito e Democracia, do Centro Brasileiro de Planejamento e Análise (Cebrap), Marcos Nobre. “Ministros se xingavam em público na composição da equipe do primeiro mandato do Fernando Henrique, em 1995”, lembra esse paulistano de 45 anos, doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doc na Universidade de Frankfurt, Alemanha. Mas Dilma deve estar atenta, diz, pois o xadrez da partilha de cargos pode complicar.
Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp), Nobre tem se dedicado ao estudo de um fenômeno singular da cultura política brasileira, o “peemedebismo” – espécie de consenso conservador, feito para acomodar todo o mundo e deixar tudo como está. Em artigo publicado na revista Piauí, Nobre sustenta que, diante de tal traço de continuidade na política brasileira, nem o Plano Real de FHC nem o “lulismo” descrito pelo cientista político André Singer podem se apresentar como grandes novidades.
Na entrevista a seguir, o filósofo defende que a polarização política é necessária ao funcionamento da democracia no Brasil. Afirma que o modelo da aliança PT–PMDB começou no programa Luz Para Todos, do Ministério das Minas e Energia, sob a batuta de Dilma – sendo essa a principal razão da escolha de Lula por ela. E alerta: a nova presidente terá dificuldades para lidar com um aliado que promete governabilidade, mas pode entregar a paralisia do País.
A entrevista é de Ivan Marsiglia e publicada pelo jornal O Estados de S. Paulo, 09-01-2011.
Eis a entrevista.
A primeira crise entre PT e PMDB já nos primeiros dias de governo o surpreendeu?
Nem um pouco. Mas é bom distinguir o que é tendência de curto prazo do que é mais longo. Todo governo que se instala passa por isso: se você lembrar a composição da equipe do primeiro mandato do Fernando Henrique, em 1995, em janeiro os ministros se xingavam em público. E a verdade é que Dilma foi muito inteligente em usar Lula como escudo na negociação. Ao deixar circular que foi ele quem “sugeriu” tais e tais nomes, emplacou na verdade os que ela queria. A discussão de cargos é apenas uma primeira etapa. Nos próximos três ou quatro meses é que vamos ver fechar o círculo central do poder. Aí, ou Dilma terá repactuado sua relação com o PMDB ou terá sérios problemas em seu governo.
O que achou da formação do ministério?
Até agora, o perfil se parece com o do governo Lula 1: com peso muito forte do PT. Minha impressão é que, cedo ou tarde, Dilma terá que entregar ao PMDB o que ele pede.
A temperatura entre aliados subiu mais por causa da Funasa e dos Correios, áreas historicamente apontadas como focos de corrupção. É por acaso?
Nem um pouco. Quando Dilma disse querer pessoas com currículo imaculado para esses postos, ecoava uma decisão política que tomou com Lula no fim do governo. O fato de Paulo Bernardo ter ido para as Comunicações e Padilha para a Saúde tem a ver com isso. Alguém tinha que controlar os Correios, pois de lá saíram todas as crises do governo Lula, do mensalão ao caso Erenice. Na Funasa, não estourou nada ainda. Mas o passado, com máfia dos sanguessugas, etc, mostra que é área delicada.
O sr. escreveu um artigo em que diz estarem errados tanto os acadêmicos tucanos, quando dizem que o Plano Real marcou um novo período da política brasileira, quanto o cientista político petista André Singer, que aponta o ‘lulismo’ como novidade. Por quê?
Porque há um movimento mais fundo na política brasileira, que vem desde a redemocratização, e trava a polarização necessária para que o sistema funcione. A democracia necessita de polarizações políticas consistentes, não apenas episódicas. Durante a redemocratização, os militares conduziram a transição. Havia, nos anos 80, uma pressão enorme da sociedade civil por participação, mas não se criaram instituições que pudessem dar vazão a ela. E passamos de uma situação de travamento total, com a hegemonia do PMDB, para o cesarismo alucinado do Collor. Dois extremos.
Essa polarização não se recolocou em seguida ao impeachment de Collor?
Sim, e foi o Plano Real, ainda no governo Itamar, que organizou isso. Quando Erundina é convidada a participar do governo e o PT recusa, opta pela oposição. Surgem dois polos que enfraquecem o ‘peemedebismo’.
O que é exatamente o peemedebismo?
É uma cultura política que tem como características estar no poder – igualar sobrevivência política com adesão a quem estiver no governo – e não ter consistência ideológica, um discurso completamente anódino, que qualquer um pode subscrever. É um sistema de gerenciamento de interesses no qual, como ninguém formula nada muito precisamente, todo mundo pode entrar. Fazer política dentro do peemedebismo significa receber direito de veto sobre algumas questões: a bancada evangélica pode vetar qualquer coisa que diga respeito à religião; a ruralista, questões relativas à terra; e assim por diante.
Se o Plano Real criou uma polaridade que enfraqueceu o peemedebismo, por que o sr. diz que o plano não representa novidade?
Porque não superou o peemedebismo, apenas o reorganizou, produzindo a polarização que durou alguns anos. De um lado, o PSDB e o então PFL; de outro, o PT e seus satélites. Tudo que fica no meio é o peemedebismo, que volta agora com força.
E os oito anos de governo Lula, trouxeram algo de novo em relação a esse consenso conservador?
O peemedebismo é extremamente conservador, como eu disse, pois você só consegue fazer transformações desviando-se dos vetos. Quando um projeto vai para o Congresso, tudo que for matéria de veto nem se discute, simplesmente tira-se do projeto. Por isso Lula optou por apresentar políticas que podiam até ser questionadas, mas não sofreriam veto – como o Bolsa-Família e os aumentos sistemáticos no salário mínimo, que os tucanos consideravam impossíveis. O combate à pobreza, contra o qual ninguém pode ser contra, é o que Lula introduziu de novo no tripé de FHC: câmbio flutuante, superávit fiscal e política de juros.
Então a frase dita por FHC, de que resta aos governos progressistas no Brasil atuar como ‘vanguarda do atraso’, está correta?
Fernando Henrique pegou essa frase do ex-ministro da Justiça de Sarney, Fernando Lyra, que a disse da tribuna da Câmara, em 1986. É uma expressão incrível. E de uma época em que, suprema ironia, Sarney é que era refém do PMDB...
Essa cultura do peemedebismo vai além do partido PMDB?
O PMDB é como se fosse a ponta do iceberg do peemedebismo. Este é um fenômeno de longo prazo, que vai além da agremiação partidária. Para mim, por exemplo, Aécio Neves é uma das maiores expressões do peemedebismo. O que ele tem para dizer? Nada. Seu discurso é anódino e ele nunca tem uma posição contra alguma coisa. Por isso é fácil imaginar que se o PSDB não deixá-lo se candidatar à Presidência, Aécio vai procurar outra opção partidária.
A presença do PMDB no governo petista é comparável à do ex-PFL nos anos FHC?
O PFL aceitou a liderança ideológica e a direção de governo do PSDB. O PMDB tende a ter o mesmo papel, mas até o momento não se submeteu. Por isso digo que, ou Dilma consegue renegociar os dividendos políticos com o PMDB, ou o partido não vai aceitar a liderança petista no governo. Veja que a presidente elencou dois projetos prioritários para o seu mandato: erradicar a miséria e fazer o plano nacional de banda larga. O acordo fechado entre os dois partidos é que desses dois projetos Dilma cuidará de perto, sem interferências – embora o PMDB possa até partilhar dividendos políticos. O problema é que ela ainda tem uma Copa do Mundo e uma Olimpíada para organizar, que poderão servir como matéria de chantagem por parte do PMDB.
Como esse acordo foi fechado?
O padrão de relacionamento entre o PT e o PMDB começou no Ministério das Minas e Energia, com Dilma. Quando a então ministra montou o Luz Para Todos, a liderança, a formulação do projeto e sua implementação ficaram com ela – mas o dividendo político, os louros do negócio, seriam dos prefeitos do PMDB. Porque o que o PMDB quer é aquele pequeno serviço ou obra pública no município que o prefeito da sigla possa vender como seus. Então, havia uma certa divisão do butim. Em minha opinião, foi por isso que Lula escolheu Dilma como candidata a sua sucessão: ele viu que ela era capaz de negociar com o PMDB.
Isso não está parecendo tão fácil agora...
Neste momento, essa divisão que funcionava está em causa. O que Dilma quer é reestabelecer um tipo de relação com o partido aliado nos moldes da que havia no programa Luz Para Todos.
Por que o sr. diz que, após o mensalão, as alianças que Lula formou tornaram ‘quase impossível’ a vida de um oposicionista?
Muitos dizem que o PSDB e o DEM não souberam fazer oposição a Lula. É um engano, pois o problema é estrutural. Diante do predomínio desse centro conservador, a polarização que tínhamos no Brasil durante os anos FHC só funcionava porque havia um partido com vitalidade bastante para permanecer na oposição por muito tempo, o PT. Quando ele vai para o governo e, após a crise do mensalão, compõe com esse centro, enfraquece a polarização.
É isso que explica a permanência de Sarney na presidência do Senado, apesar dos protestos da sociedade e da imprensa?
Exatamente. Sarney é o símbolo do peemedebismo: tem doutorado, livre-docência e titularidade sobre seu funcionamento. E esse predomínio do peemedebismo pode levar a um fechamento do sistema político para a sociedade. Veja a sucessão de crises e seus efeitos cada vez menores: primeiro Collor é derrubado por impeachment, depois ACM e Jader Barbalho são obrigados a renunciar, então Renan Calheiros deixa a presidência do Senado, mas não renuncia e, por fim, Sarney nem sai da presidência nem renuncia. A gente pode gritar quanto quiser porque o sistema está começando a se fechar em si mesmo, está em divórcio muito grave com a sociedade. O que esse sistema político diz? “Enquanto estivermos nesta bonança econômica podemos dar uma banana para a relação com a sociedade.” Agora, uma coisa é fazer isso com um líder popular como Lula mediando as demandas. Outra é com Dilma.
Dilma tem espaço para escapar desse arranjo que atrasa a modernização do País?
Que Dilma pode escapar, pode. Mas as opções que ela tem são muito restritas. É provavelmente a presidente com possibilidades mais restritas que já assumiu. Do ponto de vista político, as mãos dela estão acorrentadas. E a verdade é que, hoje, o jogo não se dá mais entre governo e oposição: ele migrou para dentro do governo.
O peemedebismo pode ser superado?
Não por acaso, Lula saiu do poder dizendo que sua prioridade é juntar lideranças para propor a reforma política. O ex-presidente não é a pessoa mais indicada para encaminhá-la, mas ela é necessária. Temos de produzir um sistema político que permita a polarização, no qual quem governa não seja engolido pela peemedebização. Para isso, não há receita, mas é preciso que o debate – da cláusula de barreira ao financiamento de campanha, por exemplo – seja pautado por esse objetivo. Senão, vamos continuar em uma democracia que patina, discute assuntos tópicos de maneira acalorada, mas não avança em reforma alguma nem desenvolve sua cultura democrática.
Fonte: IHU, 09/01/2011

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