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terça-feira, março 01, 2011

"Trabalhos Promíscuos", "idiot savant" e a falta de um código de ética

''Inside Job'', documentário imperdível
"Há uma livre e brutal concorrência. A expressão grande demais para falir esconde mais do que revela", escreve Luiz Gonzaga Belluzzo, professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, comentando o documentário Inside Job, de Charles Ferguson que, na madrugada de ontem, levou o Oscar na sua categoria, em artigo publicado no jornal Valor, 01-03-2011.
por Luiz Gonzaga Belluzzo
O sempre instigante Eu & Fim de Semana publicado nas edições de sexta-feira do Valor, ofereceu a seus leitores uma entrevista do economista Lawrence Summers.Summers, entre outras proezas, ficou conhecido por declarações polêmicas. Recomendou o incentivo à deslocalização de indústrias poluidoras para os países da periferia. Reitor de Harvard, Summers decretou a incapacidade da inteligência feminina em lidar com as complexidades das "hard sciences".
Observei Summers no café do pavilhão onde se realizava a reunião do Fórum Mundial Davos, em 1993. Entre um gole de café e outro, Summers iniciou um sermão aos circunstantes sobre políticas econômicas nos países em desenvolvimento. As lições de Summers sucederam uma tertúlia sobre a economia mexicana que, segundo os participantes da mesa, navegava de velas enfunadas rumo à prosperidade. Não faltaram reverências e salamaleques ao então presidente Salinas de Gortari e a seu ministro da Fazenda, Pedro Aspe.
Sentados na plateia, o professor Carlos Antonio Rocca e este locutor que vos fala, entre estarrecidos e irritados, ouvíamos os julgamentos peremptórios que fluiam do debate entre os sabidos da academia e financistas mais sabidos ainda. As opiniões iam da celebração incondicional do modelo mexicano às referências derrisórias ao Brasil. Digo estarrecidos porque, naquele momento, o México apresentava um déficit em transações correntes de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), déficit fiscal elevado e a dolarização galopante de sua dívida interna, infestada de Tesobonos.
Em dezembro de 1994, o México quebrou vítima de uma "parada súbita" e só sobreviveu com o socorro do Tesouro Americano e do Fundo Monetário Internacional (FMI), providência destinada a salvar os bancos de Tio Sam. Summers, então subsecretário do Tesouro de Clinton capitaneou a operação de salvamento.
Não havia como escapar da impressão de que Summers era encarnação mais acabada do personagem de Molière, o "idiot savant", cheio de si, como tantos outros que se abrigam sob o manto hoje prestigioso dos estudos da economia. (Evito a expressão ciência econômica para evitar que o ego já inflado dos sabichões sofra um processo fatal de inchaço e implosão).
Pois Summers é um dos personagens centrais do imperdível documentário "Inside Job" de Charles Ferguson que, na madrugada de ontem, levou o Oscar na sua categoria. O título do filme foi traduzido para o português como "Trabalhos Internos" - é lamentável a falta de imaginação do tradutor, que provavelmente não viu o filme. "Inside Job" é uma expressão idiomática. Um amigo, mais versado do que eu no idioma de Shakespeare, sugeriu "Trabalhos Promíscuos".
O documentário mostra que Summers faturou uma nota preta ao ministrar palestras remuneradas pelos senhores do Universo sobre as maravilhas da desregulamentação financeira. Entre suas idas e vindas ao governo, dedicava-se a assessorar instituições financeiras mediante farta remuneração. Não sei se ele está no rol de 19 economistas investigados no estudo do seu colega Gerald Epstein, da Universidade de Massachusetts Amherst.
O estudo trata do conflito de interesses entre a atividade acadêmica, a ocupação de funções no Estado e as atividades de consultoria, quando os personagens não advertem a opinião pública a respeito de suas ocupações e pertinências. Essa confusão de papéis está gerando um movimento entre os economistas americanos para a adoção de um código de ética.
Não se trata de limitar as atividades profissionais dos economistas, mas sim de tornar claro ao público que as opiniões podem estar viciadas e deformadas pela infiltração de interesses estranhos à independência acadêmica e à função pública.
Enquanto secretário do Tesouro de Clinton, Lawrence Summers trabalhou intensamente para a aprovação no Congresso dos Estados Unidos do Gramm-Leach-Bliley Act. Essa lei derrotou a legislação dos anos 1930, o Glass-Steagal Act, que separava os bancos de depósito, os bancos de investimento, seguradoras e instituições voltadas para o financiamento imobiliário e "fundeadas" na poupança das famílias.
Os mercados financeiros contemporâneos lograram capturar os controles da economia e do Estado, mediante o incrível aumento do seu poder social e político. As transformações ocorridas no sistema financeiro desataram a livre e brutal concorrência no capitalismo da grande empresa e das grandes instituições financeiras.
Nos últimos anos, a securitização e a alavancagem construíram uma teia de relações de débito e crédito entre as grandes instituições espalhadas pelo mundo. Os bancos de investimento e os demais bancos sombra aproximaram-se das funções monetárias dos bancos comerciais, abastecendo seus passivos nos "mercados atacadistas de dinheiro" ("wholesale money markets"), amparados nas aplicações de curto prazo de empresas e famílias. Não por acaso, a dívida intrafinanceira como proporção do PIB americano cresceu mais rapidamente do que o endividamento das famílias e das empresas. Esse fenômeno corresponde ao controle da riqueza social pelas instituições privadas, o que torna impossível a omissão dos bancos centrais quando um elo da cadeia se rompe.
O depoimento mais constrangedor, entre tantos de "Inside Job", é prestado pelo economista Frederick Mishkin. Ex-membro do Federal Reserve, Mishkin não consegue explicar porque às vésperas do colapso dos bancos da Islândia produziu um relatório que assegurava a estabilidade do sistema financeiro do país, mediante o estipêndio de US$ 124 mil.
Fonte: IHU, 01/03/2011

sábado, dezembro 18, 2010

racionalidade descontrolada?

A respeito da racionalidade e da eficiência na economia

Ao que tudo indica cada vez mais se generaliza, em quase todas as esferas de discussão no mundo, a sensação de que o sistema financeiro internacional, mantidas as regras e a institucionalidade atuais, não resiste a mais uma crise como a que eclodiu em 2008 e vem se arrastando até os dias de hoje. A urgência das mudanças parece consensual, mas o tempo e a dinâmica para transformar o “status quo” parecem lentos demais. E nessas horas todo mundo começa a se perguntar com maior preocupação onde residiria a suposta racionalidade da ação humana.
Bem que a teoria econômica hegemônica tentou conferir ares de seriedade e cientificidade aos modelos sofisticados que sustentavam o sistema vigente. Afinal, a partir do final da década de 80, foi sendo consolidada uma percepção de que realmente estávamos frente à porta de entrada do “fim da História”, nas palavras de Francis Fukuyama. O autor norte-americano era um dos que puxavam o carro-chefe daqueles que acreditavam que o fim do modelo adotado pelos países do chamado socialismo real confirmava a supremacia definitiva da alternativa liberal dos países ocidentais. Os tempos das contradições eram coisa do passado. Dali para a frente, era só se preocupar em supervisionar a sintonia fina para a administração do modelo e se preparar para curtir a felicidade terna a ser proporcionada pelo capitalismo.
No campo da economia do “establishment”, por exemplo, ganhava bastante força uma abordagem que ficou conhecida como a “corrente das escolhas racionais”. O pressuposto básico era que a eficiência do sistema de livre troca no mercado sempre se manifestava de forma inquestionável, desde a singela opção da dona de casa na escala da feira de rua até as complexas relações entre nações soberanas na busca do equilíbrio macroeconômico no plano internacional. O fundamental era assegurar a tal da “liberdade” para que as condições de plenitude das “forças de mercado” oferecessem ao conjunto dos agentes econômicos a decisão que levaria sempre à solução mais eficiente. Em síntese, o encontro dos agentes da demanda e os da oferta – sem nenhuma intervenção do Estado, diga-se de passagem – proporcionaria um ponto de equilíbrio em que todos sairiam ganhadores. Ou seja, o melhor dos mundos!
Como a realidade tende a ser mais complexa do que a simplificação inerente a qualquer modelo, uma primeira pergunta sempre vinha à tona: mas por que? Qual a garantia de que haveria um todo poderoso deus “ex-machina” a assegurar tamanha situação de bonança para todos? A resposta foi sendo elaborada teoricamente e chegou-se a um ponto essencial: a racionalidade dos agentes econômicos. Afinal, toda ação econômica envolve a intervenção do ser humano em algum tipo de cenário – pessoal, doméstico, empresarial, governamental, transnacional. E como o ser humano é dotado de racionalidade (afinal seria esse o maior diferencial na escala evolutiva, em relação aos demais seres vivos), as ações derivadas estariam, portanto, embasadas no senso da racionalidade.
A cada momento, frente à necessidade de tomar uma decisão, as pessoas acabariam optando pela alternativa dotada de maior dose de racionalidade. Se algum chato insistisse, ainda, questionando a respeito das situações de crise aguda ou de mesmo de guerra, a resposta era de que ou elas conteriam algum elemento de racionalidade intrínseca (o que não deixa de ser verdadeiro, aliás!) ou então que aqueles não passariam de momentos de exceção na história, o que só faria confirmar a validade da regra das “escolhas racionais”.
Vocês já devem ter percebido que, ao introduzir o conceito de racionalidade, o próprio modelo reconhece, sem talvez tomar consciência do ato inadvertido, a interdisciplinaridade do tema da economia. Para além das já conhecidas tangências com os elementos do social, do histórico e do cultural, aqui surge uma ponte com a psicologia. E justamente esse vai ser um dos aspectos que comprometerá a sustentação das explicações oferecidas pelas “escolhas racionais”. Qual o tipo de racionalidade que estaria por trás dos tomadores de decisão na seara da economia? Será que o resultado coletivo derivado de um conjunto contraditório de ações individuais manteria ao final do processo seu caráter racional? Na verdade, os fatos da história econômica têm demonstrado que a ação dos assim chamados “agentes econômicos” guarda uma relação profunda com a defesa dos seus próprios interesses, tal como eles se colocam frente a cada tomada de decisão.
E aí, a racionalidade de cada um dos tomadores de decisão pode ser considerada como absolutamente “irracional” pelos outros envolvidos no mesmo cenário. E justamente por existir essa contradição, essa oposição entre interesses distintos, é que a solução se dá por meio de alguma forma de disputa. E isso vale desde as relações entre países no plano do comércio internacional, até a definição do preço do carro usado na feira do final de semana entre comprador e vendedor, passando pelas guerras comerciais entre conglomerados empresariais no estabelecimento de preços e quantidades de compras e vendas. E assim, cada vez mais, parecemos nos afastar da hipótese generosa de que o pressuposto do “comportamento racional dos agentes” levaria a uma solução racional, em que seriam confirmadas as benesses da eficiência da decisão para todos.
Ora, se defender seus próprios interesses pode até ser considerado como uma atitude racional, o fato do conjunto da sociedade ser influenciada por esse tipo de comportamento não significa que estejamos todos sendo beneficiados, em termos de uma suposta eficiência, por essa ação. Os salários dos trabalhadores chineses, a maioria do povo da Grécia, os detentores de hipotecas imobiliárias nos EUA e os aposentados da França que o digam, para citar apenas alguns casos emblemáticos recentes e fora de nossas fronteiras nacionais.
Um dos fatos mais carregados de significado, após a crise iniciada há 2 anos nos Estados Unidos e rapidamente alastrada pelo mundo afora, é que a História continua e que as contradições do sistema social e econômico tampouco foram resolvidas. Desde a fundamental contradição entre capital e trabalho, passando por contradições entre diferentes setores do próprio capital, entre os interesses de diferentes países na disputa global, entre diferentes regiões por maior espaço planetário, etc.
Podemos nos perguntar qual a racionalidade de uma sociedade, como a norte-americana, que tem como um dos pilares de sua economia o chamado complexo industrial bélico-militar. Quando as pressões se fazem para aumentar produção e emprego, o resultado é sempre alguma ação dos Estados Unidos envolvendo aventuras de suas forças armadas – e sempre fora de seu território, é importante observar. Se existe algum grau de eficiência em tal opção, ela passa muito longe da melhoria das condições de vida da maioria dos povos no mundo.
A mesma indagação pode ser feita a partir do comportamento dos grandes oligopólios atuantes na esfera financeira. Exatamente como ocorreu com a crise recente, quando os principais gestores dos patrimônios buscavam soluções para seu próprio umbigo, sempre adiando assumir o que muitos analistas já anunciavam: o sistema estava quebrado, insustentável a curto prazo com aquelas bolhas de valorização artificial no mercado financeiro e nas bolsas de valores. Qual a eficiência derivada dessa busca de racionalidade descontrolada? Os zilhões de dólares , em seguida alocados pelo governo americano, contrariando inclusive a própria racionalidade da não-intervenção pública no domínio econômico e de deixar todas as soluções para o tal do “mercado”. E o espalhar dos efeitos da crise para além de suas fronteiras, atingindo severamente o resto do mundo.
O quer dizer da questão da sustentabilidade de nosso planeta? A lógica econômica que guia a ação dos principais dirigentes governamentais e empresariais nos tempos de hoje pouco avançou no sentido de alterar os modelos que claramente comprometem o futuro da Terra e da própria humanidade. Efeito estufa, aquecimento planetário, degelo, aumento do nível dos oceanos, desertificação, carência de água, emissão de gases, desmatamento, uso irracional dos recursos escassos do meio-ambiente em modelos predatórios. Exemplos não faltam. Para quem está dirigida alguma suposta eficiência inerente a esse modelo?
E para finalizar, voltando ao nosso cantinho. Como justificar o modelo de política macroeconômica vigente há mais de uma década em nosso País, que pressupõe a manutenção de taxas estratosféricas de juros pela política monetária, sacrificando uma parcela expressiva dos recursos do orçamento público para transferir renda a uma elite, ao mesmo tempo em que se anunciam cortes nas despesas públicas essenciais, sob o argumento batido da suposta falta de recursos? É óbvio que há interesses por trás dessa orientação. Mas parece mais do que demonstrado que tal “racionalidade” não apresenta “eficiência” para o conjunto da sociedade.
* Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
Fonte: Carta Maior, 17/12/2010

segunda-feira, agosto 09, 2010

muy lejos del equilibrio

No hay nada más peligroso que una mala teoría econômica
por Steve Keen*
¿Por qué los bancos centrales ignoran sistemáticamente el dato de la proporción de la deuda en relación con el PIB?
La razón es muy simple: porque son economistas neoclásicos. No puedes llegar a ser banquero central sin algún diploma en economía, y la escuela de pensamiento dominante hoy en teoría económica es la neoclásica. Aunque buena parte de lo que ésta dice parece a primera vista inteligente, casi nada pasa de la charlatanería intelectual, según mostré en mi libro Debunking Economics, en donde resumí un siglo de profundas críticas a esa teoría, críticas que sus cultivadores han ignorado con premeditación.
Puesto que las críticas que de la teoría neoclásica han venido haciendo economistas y matemáticos podrían literalmente llenar bibliotecas enteras, no entraré aquí más que en la crítica de tres mitos neoclásicos que bastan para explicar por qué los economistas de obediencia neoclásica no pueden entender la dinámica de una sociedad como la nuestra, movida por el crédito. Los economistas neoclásicos creen que:
(1) La oferta de moneda nominal no afecta al producto económico real;
(2) El sector privado es racional, mientras que el sector público no lo es; y
(3) Se puede modelar la economía como si estuviera en equilibrio.
Lo que el primer mito trae consigo es que sus modelos matemáticos prescinden del dinero y de la deuda: el grueso de los modelos neoclásicos están construidos en términos - reales, y omiten completamente el dinero y la deuda. Así pues, puesto que la deuda ni siquiera aparece en sus modelos, se les escapa completamente la influencia de la misma (a pesar de que sus unidades de medida estadísticas funcionan muy bien registrando el nivel real de deuda).
El segundo mito significa que ignoran los hechos que apuntan a que la economía se halla muy lejos del equilibrio y significa también que malentienden los efectos de variables cruciales en el marco de desequilibrio en el que realmente vivimos.
Puedo ofrecer dos ejemplos del modo en que esto ha influido en los intentos de hacer comprender a los banqueros centrales que la proporción de la deuda en relación con el PIB es una magnitud muy importante: la discusión que hizo Ben Bernanke de la - Teoría de la deflación por deuda como causa de la Gran Depresión de Irving Fisher, y una discusión que yo mismo tuve sobre el asunto con un alto funcionario de la banca central australiana.
¿Bernanke un experto en la Gran Depresión?
Ben Bernanke accedió a su actual cargo [de presidente de la Reserva Federal de EEUU] en buena medida gracias a su reputación como experto en la Gran Depresión. En sus Ensayos sobre la Gran Depresión explicó por qué la mayoría de economistas no tomaban en consideración la teoría de Irving Fisher sobre las causas de la Gran Depresión, una teoría que destacaba la importancia de la deflación por endeudamiento:
- La idea de la deflación por endeudamiento se remonta a Irving Fisher (1933). Fisher contempló un proceso dinámico en el que unos activos a la baja y unos precios de materias primas igualmente en caída ejercían presión sobre los deudores nominales, forzándoles a la venta angustiosa de activos, la cual, a su vez, contribuía a la ulterior caída de los precios y a ulteriores dificultades financieras. Su diagnóstico le llevó a urgir al presidente Roosevelt a subordinar los problemas de la tasa de cambio a la necesidad de reflación, consejo que Roosevelt terminó por seguir. La idea de Fisher, empero, fue menos influyente en los círculos académicos, debido al contraargumento de que la deflación por deuda no significaba sino redistribución de recursos de un grupo (los deudores) hacia otro (los acreedores). En ausencia de grandes – e implausibles - diferencias en la propensión al gasto marginal entre los grupos, se le objetaba, las redistribuciones puras no podían tener efectos macroeconómicos significativos. (Bernanke, 1995, p. 17.) [1]
Aunque Bernanke se percata de que Fisher ― contempló un proceso dinámico, su explicación de por qué los economistas neoclásicos ignoraron la teoría de Fisher se expresa en términos intrínsecamente neoclásicos: ve la deflación por deuda como una mera redistribución del ingreso de un grupo social (deudores) a otro (acreedores). ¿Cómo es posible que la demanda agregada caiga tanto, si todo lo que ocurre es una transferencia de ingresos y riqueza de un grupo de consumidores a otro?
Pero cuando uno piensa en términos genuinamente dinámicos, el ingreso no es todo en materia de demanda agregada. En un contexto dinámico, la demanda agregada no es simplemente igual al ingreso, sino al ingreso más el cambio en la deuda.
En el curso de una burbuja financiera hinchada por la deuda – obvia precursora de una deflación por deuda -, los crecientes niveles de deuda impulsan la demanda agregada harto por encima de lo que ocurriría en condiciones normales, generando un auge tanto en la economía real como en los mercados de activos. Pero ese proceso viene a sumarse a la carga deudora soportada por la economía, especialmente cuando se usa la deuda para financiar la especulación con los precios de los activos más que para expandir la producción (pues eso incrementa la carga de la deuda, sin añadir capacidad productiva).
Cuando los niveles de deuda suben demasiado, el proceso que Fisher describió entra en acción, y los actores económicos pasan de aumentar voluntariamente sus niveles de deuda a buscar activamente reducirla. El cambio en la deuda se hace entonces negativo, lo que resta demanda agregada y el auge económico trueca en quiebra.
La deuda tiene poco impacto en la demanda cuando la razón entre la deuda y el PIB es baja: como en Australia en los 60, o como en los EEUU desde el comienzo de la II Guerra Mundial hasta los años 60. Pero en cuanto la proporción de la deuda en relación con el PIB llega a ser significativa, los cambios en la deuda pasan a dominar el rendimiento de la economía, como puede verse en los dos cuadros que siguen:
Cuadro 1: Demanda inducida por la deuda y desempleo: Australia
 Cuadro 2: Demanda inducida por la deuda y desempleo: EEUU
 Este es el efecto que pasaba por alto el marco neoclásico de Bernanke, que insistía en modelar el mundo como si siempre estuviera en equilibrio. El proceso de la demanda inducida por deuda resulta obvio cuando se piensa dinámicamente, pero si tratas de meterlo en la camisa de fuerza del equilibrio, como hacen los economistas neoclásicos, entonces no puedes entender nada de nada.
¿Un error de colegial?
En 2008, di una conferencia en un seminario que tuvo lugar en Adelaida, y al que asistía también Guy Debelle, un alto funcionario (para mercados financieros) del Banco Central australiano. Al terminar mi charla, comentó que no podía entender por qué buscaba yo relacionar comparativamente la deuda con el PIB, puesto que eso era tanto como comparar un stock con un flujo.
No me llamó entonces la atención esta observación crítica – para mí, las razones de la comparación resultaban obvias -, pero traté de responderle y me olvidé del asunto.
Un tiempo después, el antiguo colega y buen amigo de Debelle Rory Robertson, del Macquarie Bank, repitió las observaciones de Debelle en su circular sobre la tasa de interés, partes de la cual fueron luego reproducidas en varios blogs económicos, incluyendo el Business Spectator. Entre otras cosas, Rory decía que:
―El Dr. Steve Keen, entre otros, sigue cometiendo el error de colegial de comparar deuda e ingreso (un stock con un flujo, manzanas con naranjas) y pierde de vista lo principal.
La observación de que comparar deuda con PIB es cometer un error de confusión stock/flujo [2] puede parecer aguda a primera vista, pero lo cierto es que es un sinsentido. Lo que revela es que quien la hace no entiende de dinámica, cosa común a casi todos los economistas neoclásicos.
En términos dinámicos, la razón entre la deuda y el PIB te dice cuántos años tomaría reducir a cero la deuda, si todo el ingreso se dedicara a honrar la deuda. Es un indicador extremadamente valioso del grado de tensión financiera al que está sometida una sociedad (o un individuo).
En mi experiencia, el público general entiende perfectamente eso. Sólo los economistas parecen tener dificultades en comprenderlo: no porque resulta difícil, sino porque están profesionalmente entrenados para no prestar atención al análisis dinámico, y por lo mismo, y a diferencia de los ingenieros de sistemas, no se les ha enseñado que las comparaciones entre stocks y flujos pueden ser indicadores extremadamente importantes del estado de un sistema.
La ignorancia en marcha: hacia un capitalismo zombi
Con tamaña ignorancia de la dinámica de la deuda, los economistas académicos y los bancos centrales de todo el mundo esperan haber dejado atrás la crisis, aun cuando la causa de la misma – los excesivos niveles de la deuda privada - no ha sido atacada. Recomiendan el retroceso de los paquetes de estímulo público en la creencia de que la economía puede regresar a la normalidad tras las perturbaciones de la Gran Crisis Financiera.
Lo cierto es que lo ― normal en el último medio siglo ha sido un crecimiento insostenible de la deuda privada que, finalmente, ha terminado en una cumbre de la que ahora se está despeñando. Y a medida que vaya cayendo –porque los banqueros no quieren prestar, porque las empresas y los hogares no quieren tomar prestado, por la intención generalizada de reducir deudas, por quiebras y por bancarrotas —, la demanda agregada se reducirá hasta niveles muy por debajo de la oferta agregada. Por consecuencia, la economía trastabillará erráticamente, y sólo los estímulos públicos podrán reanimarla.
Será, sin embargo, un capitalismo zombi: las reducciones de deuda del sector privado vendrán a contrarrestar los intentos públicos de estímulo de la economía a través del gasto financiado con deuda pública. El crecimiento, si llega a darse, no será lo bastante alto como para evitar un desempleo creciente, y lo más probable es que el crecimiento se evapore en cuanto se retiren los paquetes de estímulos.
El único cursi de acción razonable pasa por reducir los niveles de deuda. Como sostiene Michael Hudson, hay una sencilla dinámica que resulta ineluctable: las deudas que no se pueden pagar, no serán honradas. La única cosa que hay que hacer es elaborar políticamente la manera en que ha de proceder esa sencilla dinámica.
Puesto que los préstamos fueron irresponsablemente ampliados por el sector financiero, a fin de apoyar esquemas piramidales tipo Ponzi en los mercados de valores y en los bienes raíces, deberían será los acreedores y no los prestatarios los que cargaran con los daños: exactamente lo contrario de la mentalidad de los rescates que ha dominado en todos los gobernantes del mundo.
Desgraciadamente, tendrá que haber un largo período de fracasos de las políticas económicas convencionales, antes de que se pongan por obra políticas alternativas, como la reducción deliberada de la deuda. Aplicar esas políticas alternativas requerirá un cambio espectacular de mentalidad, y probablemente también, un cambio generalizado de la vieja guardia de las elites políticas.
Requerirá asimismo romper con la hegemonía de la teoría económica neoclásica en la ciencia económica. Yo dudo mucho de que la profesión académica, o los economistas de los bancos centrales y de los ministerios de finanzas, sean capaces de cambiar. El cambio tendrá que venir de los rebeldes dentro de la profesión y de científicos ajenos a ella pero dispuestos a tomar al asalto una disciplina que los economistas han conducido al fracaso.
La segunda década del siglo XXI promete ser espectacular: política y económicamente.
NOTAS: 
[1] Bernanke llegó a desarrollar su propia interpretación de la teoría de Fisher. No entro en esa interpretación; no me parece que valga la pena el esfuerzo. 
[2] Un flujo es una magnitud económica medida como una tasa por unidad de tiempo; un stock, una magnitud medida en un momento del tiempo [n.T.].
(*) Steve Keen es un reputado economista australiano que trabaja en modelos matemáticos dinámicos, y que se ubica a sí mismo en la “tradición científica de Marx-Schumpeter-Keynes-Robinson-Sraffa-Minsky”. En los últimos años ha saltado las barreras de la estricta reputación académico-científica al construir un modelo matemático dinámico (a partir de las ya clásicas intuiciones de Hyman Misnky) que le permitió pronosticar en 2005 la crisis financiera capitalista que estalló en 2008.
Traducción: Miguel de Puñoenrostro
Fonte: Sin Permiso (http://www.sinpermiso.info)

sexta-feira, julho 30, 2010

bomba relógio no sistema financeiro

BP, uma bomba relógio no sistema financeiro internacional
Segundo Michael R. Kratke, Professor de Economia Política e Diretor do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido, a BP é uma bomba de relógio no sistema financeiro mundial. A empresa refinancia-se com derivados creditícios e fundos de pensões que agora, e para infelicidade dos seus clientes, têm grandes perdas. Dois elementos tão centrais como obsoletos do atual capitalismo – uma economia baseada na energia fóssil e na especulação financeira à escala planetária – levam-nos diretamente à próxima catástrofe.
Michael Kratke - Sin Permiso, 29/07/2010.

O que começou como uma crise financeira em setembro de 2008, com a irrevogável falência do banco Lehman-Brothers, pode agora entrar na próxima ronda com a previsível queda da BP. A transnacional britânica é uma bomba relógio financeira, não só para a Grã-Bretanha mas para todo o Reino Unido. Os custos do desastre petrolífero no Golfo do México estimam-se em 70 bilhões de dólares.
Para os britânicos, a BP é como instituição nacional, a maior sociedade anônima do país, a blue chip mais brilhante do mercado de valores londrino. Muitas pessoas julgam que a BP é uma empresa petrolífera. E é verdade. A BP fornece petróleo, tem oleodutos e refinarias um pouco espalhados por todo o mundo. Mas a BP é, simultaneamente, um banco com um raio de ação internacional que, tal como a Enron ou a General Motors, actua nos mercados financeiros internacionais.
De AA a BBB
Como, oficialmente, não é uma entidade financeira, a British Petroleum esta a meio caminho de ser um negócio OTC ou fora do mercado organizado de valores, isto é, que atua fora das bolsas, num negócio sem regulação nem controle. O refinanciamento é através da titularização de derivados creditícios de alto risco, CSOs [obrigações colaterais sintéticas, na sua sigla inglesa], a que não corresponde qualquer valor patrimonial, mas apenas derivados creditícios. São um próspero comércio esses derivados financeiros. A BP é detentora ou tem participações em pelo menos 18% dos papéis deste tipo que circulam por todo o mundo. Recordamos que a crise financeira mundial foi desencadeada pela queda em cadeia de derivados titularizados: as CDOs [obrigações de dívida colateral, na sua sigla inglesa] e os CDS [derivados creditícios de dívida, na sua sigla inglesa]. Agora, os riscos nas CSOs são muito maiores e o alavancamento creditício de maior envergadura e as regulações são desconhecidas.
Por outras palavras: Quando a BP quebrar, a sua falência terá consequências globais. Como supostamente sucedeu no caso Lehman-Brothers, ninguém sabe até que ponto a BP está endividada, nem quem nem em que jogos de azar estão envolvidos os créditos da BP. Mas, como a transnacional é considerada a pérola da coroa da indústria financeira britânica, com fundamento se pode suspeitar que estão aqui metidos todos os que gozam de reputação e hierarquia no mundo financeiro internacional. Não há dúvidas: a próxima bolha está prestes a rebentar. É só uma questão de tempo. Mais provável dentro de semanas que de meses.
O valor patrimonial das instalações da British Petroleum atinge agora o montante de 240 bilhões de dólares. Muitos dos seus campos petrolíferos e participações estão à venda por todo o mundo. Desde finais de abril, perdeu metade do seu valor em bolsa. Deverá entrar um investidor estratégico, provavelmente um fundo estratégico árabe. Os líbios querem ser uma opção mas ninguém se balança a tamanho risco. E os meros boatos de uma entrada de mil milionários árabes não convencem as agências de qualificação do risco.
A Fitch, a menor das três grandes, baixou drasticamente no passado dia 15 de junho a qualificação do gigante petrolífero, pela segunda vez em duas semanas: e desta vez nada menos do que seis escalões de uma vezada, de AA para BBB. Se as duas grandes – a Moody’s e a Standard & Poor’s – a seguirem, os empréstimos da BP baixarão à categoria de lixo, como os títulos da dívida pública grega. De qualquer modo, grandes investidores destas agências, como Warren Buffet, colocaram milhares de milhões em ações e obrigações da BP, o que explica a moderação da Moody’s e da Standard & Poor’s.
Nada de OPAs hostis
Entretanto, a BP teve que ceder à pressão do governo dos EUA e sujeitar-se a um fundo de garantias num montante de 20 bilhões de dólares. Pelo menos até ao próximo ano a BP não poderá continuar a pagar dividendos, terá que seguir uma política de poupança férrea e eliminar milhares de postos de trabalho, os primeiros 5.000 já em 2010. Há fortes indícios que levam à suspeita que a explosão do passado dia 20 de abril no Golfo do México assenta numa implacável política de redução de custos. A segurança e o cuidado, como é sobejamente sabido, custam tempo e dinheiro. Quem louva o capitalismo pela sua eficiência não sabe do que fala. Ou se sabe, dá a entender aquilo em que não acredita.
A questão é que Londres prepara-se para o pior. Debaixo de um clamoroso silêncio acompanhado de rotundos desmentidos, trabalha-se em planos de emergência. A queda descontrolada ou uma tomada de controle da BP seria uma catástrofe para os britânicos. As ações da BP têm fama em todo o mundo de investimentos seguros e lucrativos. A BP pagava regularmente, trimestre a trimestre, polpudos dividendos.
Os fundos de pensões, os maiores investidores institucionais nos mercados financeiros internacionais, compravam e mantinha enormes quantidades de acções da BP. E no sistema britânico de reformas os fundos de pensões jogam um papel chave. Só que, precisamente os rendimentos de reforma cobertas por capital são tudo menos seguros. Quando rebentou a bolha imobiliária estadunidense em 2008, muitos fundos de pensões resultaram em prejuízos dos depositantes e pensionistas. Para os fundos de investimento britânicos que há alguns anos investiam em acções da BP, a catástrofe petrolífera é ao mesmo tempo um desastre financeiro. Cerca de um sexto de todos os dividendos que se pagam no Reino Unido vêm da BP! Assim, os fundos perderam de três formas: patrimonialmente pela queda livre das ações da BP, pelos dividendos evaporados, e pela diminuída capacidade de crédito.
Os fundos de pensões perderam já muito dinheiro com as ações dos bancos e, agora, cai-lhes em cima a situação da BP. Se se calcularem as possíveis perdas tendo por base uma pensão média entre 12 mil e 13 mil libras esterlinas anuais, falamos de 800 a 1.000 libras esterlinas por ano. Daí, o governo do primeiro-ministro Cameron não ter escolha. Se a BP ajoelha, terá que intervir com um novo pacote milionário de resgate. Se foi necessário para os grandes bancos, não será menos necessário para a BP. Isso significa mais dívida pública e ainda mais desproporcionados pacotes de poupança.
A BP não pode desaparecer, pois ela é, de longe, um dos maiores contribuintes fiscais da Ilha e controla uma boa parte das infra-estruturas vitais do reino insular, como a Forties Pipeline System que liga mais de 50 campos petrolíferos no Mar do Norte, ou o oleoduto Baku-Tiblisi-Ceihan, que possibilita o trânsito de petróleo do Cáucaso para a Europa ocidental. Por isso, David Cameron anuncia que o seu governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir o controle da BP por empresas petrolíferas chinesas, árabes ou russas. Se a BP cai nas mãos das gigantes norte-americanas, acabaram-se as considerações para com os fundos de pensões ou para quaisquer outras necessidades britânicas. Dentro de poucos dias a BP tem que liquidar os pagamentos que se vencem no segundo trimestre de 2010. O seu montante é enorme.
Este caso ilustra com clareza como dois elementos tão centrais como obsoletos do capitalismo – uma economia baseada na energia fóssil e na especulação financeira planetária – nos aproximam do abismo da próxima catástrofe.
(*) Michael R. Krätke é Professor de Economia Política e Director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.
Este texto foi publicado dia 26 de Julho de 2010 em www.sinpermiso.info
Tradução de José Paulo Gascão
Fonte: Carta Maior, 29/07/2010.

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