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sexta-feira, julho 15, 2011

a credibilidade dos órgãos jornalísticos não é meramente um assunto doméstico

A globalização da ética de imprensa
"Não são apenas o capitalismo selvagem e a especulação financeira que rasgam fronteiras. As preocupações humanitárias em geral e a ética jornalística em particular também se globalizam como valores universais. É a isso que Murdoch terá de prestar contas. E com isso ele talvez não contasse", escreve Eugênio Bucci, professor da ECA-USP e da ESPM, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 14-07-2011.
Eis o artigo.
O fechamento do tabloide inglês The News of the World, que vendia 2,6 milhões de exemplares, deu a largada para a principal discussão sobre ética de imprensa no mundo globalizado. A partir de agora está claríssimo: a conduta dos órgãos encarregados de informar a sociedade é uma pauta supranacional. Não é apenas o capital que viaja em segundos de um continente para outro. Não são apenas as massas trabalhadoras que migram clandestinamente para disputar empregos em terras estrangeiras. Não é apenas a indústria da diversão que alcança simultaneamente os olhares de povos distantes entre si. Agora ficou evidente: a credibilidade dos órgãos jornalísticos não é meramente um assunto doméstico, ela floresce e sucumbe na arena global.
Já veremos por quê. Antes façamos uma recapitulação sumária do que se passou.
Esse jornal, The News of the World, tinha 168 anos de idade. Desde 1969 pertencia à News Corporation, o megaconglomerado internacional, com faturamento na casa dos US$ 33 bilhões ao ano, controlado pelo australiano Rupert Murdoch. Vivia de bisbilhotagem, luxúria e algum sangue. Vivia muito bem, apesar do lento declínio em circulação, que vinha de décadas. Sua fórmula editorial ia dos aposentos da família real em Londres às estripulias transoceânicas dos astros do show business, passando por bestialidades a granel.
Há poucos anos, seus métodos "jornalísticos" passaram a ser contestados. No site da Press Complaints Commission - instituição encarregada da autorregulamentação da imprensa britânica - há queixas de escutas clandestinas contra ele. Na esfera policial também houve investigações. Um jornalista do News of the World, Clive Goodman, chegou a ser preso em 2007.
Tudo isso não é novo, portanto. Mas até então se acreditava que os crimes registrados eram desvios individuais, casos isolados, como se diz. Agora se viu que não. Os crimes são mais sérios e muito mais numerosos. Segundo apontam as investigações, seriam mais de 4 mil os telefones grampeados pelo jornal. Estamos falando, portanto, da industrialização do grampo. Gerenciar milhares de escutas clandestinas é uma operação de monta: requer equipes treinadas, orçamentos bem planejados, estruturas próprias. Os inquéritos vão dando conta de que o News não era uma redação jornalística - era uma agência de arapongas assalariados.
Descobriu-se mais. Além de grampear celebridades - o que já constitui uma ilegalidade inaceitável, que se situa fora do campo do jornalismo -, o jornal teria invadido celulares de pessoas comuns, que não dependem do estrelato para inflar seus cachês. Grampeou parentes de soldados mortos. Grampeou até a adolescente Milly Dowler. A garota estava desaparecida - soube-se depois que já tinha sido assassinada - quando detetives contratados pelo News apagaram mensagens de seu celular, o que causou nos familiares a impressão de que ela ainda estava viva. Com isso o caso ganhou uma sobrevida - e, em consequência, a cobertura do caso, liderada pelo News of the World, também ganhou sobrevida. Lucrativa.
Essas revelações estarreceram a Inglaterra. O tabloide era um serial killer da privacidade de gente comum. Anunciantes caíram fora. Os protestos se generalizaram. Murdochfechou o semanário, na tentativa de estancar a sangria de reputação e de salvar um objetivo maior: ele queria comprar a totalidade da BSkyB, um poderoso grupo de canais a cabo do qual já é sócio. A tentativa não deu certo. O quadro só se complicou. Andy Coulson, ex-diretor do News of the World e porta-voz de David Cameron, o primeiro-ministro britânico, até janeiro de 2011, foi preso na sexta-feira passada. Só foi liberado sob fiança. O ex-primeiro ministro Gordon Brown diz que também foi grampeado. A crise do tabloide virou uma crise no Parlamento. Políticos de correntes várias passaram a contestar em público as pretensões do dono da News Corp., a tal ponto que, ontem mesmo, Murdoch anunciou que desistiu da compra da BSkyB. Ele está acuado.
Na Inglaterra e no mundo.
Aí é que entram as razões da internacionalização desse debate. O escândalo dos grampos virou notícia no mundo todo porque o conglomerado de Murdoch está no mundo todo - e se ele faz por aí o que parece ter feito em Londres, isso diz respeito a todos nós. Ontem pela manhã a Rádio CBN noticiou em primeira mão no Brasil que o senador democrata Jay Rockefeller pretende investigar o grupo de Murdoch nos Estados Unidos. Um dos jornais que mais se destacaram na cobertura dos bueiros da News Corp. - depois do diário inglês The Guardian - é o americano The New York Times, que vem sofrendo uma concorrência frontal do Wall Street Journal, comprado, em 2007, por ninguém menos que Murdoch. Na Newsweek desta semana, o jornalista Carl Bernstein - autor, ao lado de Bob Woodward, da série de reportagens sobre o escândalo de Watergate, publicadas no Washington Post, que levaram a renúncia de Richard Nixon, em 1974 - lança a pergunta que só ele pode fazer: será que esse escândalo não é o Watergate de Murdoch?
O sentimento geral foi bem sintetizado pela revista The Economist de quinta passada: "Se ficar provado que os diretores da News Corporation agiram contra a lei, eles não deveriam mais comandar nenhum jornal ou estação de TV. Deveriam estar na cadeia". Isso vale para qualquer país. No mundo de hoje, as práticas dos tabloides ingleses viraram tema do interesse público internacional.
Sim, isso mesmo. Existe um interesse público internacional, ainda que difuso, rarefeito, pouco institucionalizado. Não são apenas o capitalismo selvagem e a especulação financeira que rasgam fronteiras. As preocupações humanitárias em geral e a ética jornalística em particular também se globalizam como valores universais. É a isso que Murdoch terá de prestar contas. E com isso ele talvez não contasse.
Fonte: IHU | Notícias, 14/07/2011 

quinta-feira, dezembro 16, 2010

universalizar o acesso a uma internet aberta e livre

Wikileaks e o futuro da Internet

por Álvaro Díaz | Brasília
O gigantesco vazamento de documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que o Wikileaks pôs à disposição de cinco jornais de grande prestígio mundial, desencadeou uma crise de proporções muito maiores do que o Watergate ou a revelação dos papéis do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã. 
Mas o que mais preocupa é a reação diante dos vazamentos, que sacodem a opinião pública mundial. A resposta foi dura e reforçará o segredo. Empresas como a Amazon excluíram o Wikileaks de seus servidores. Prestigiadas universidades norte-americanas recomendaram aos estudantes que não acessem o site da organização, porque assim colocariam em risco a possibilidade de serem contatados pelo governo dos EUA. Ao mesmo tempo, hackers suspeitos ativaram milhares de computadores zumbis para lançar ciberataques à infraestrutura do Wikileaks. Alguns extremistas de direita foram além. Não só querem a “morte digital” como pedem a prisão e a execução de Julián Assange. 
Os vazamentos não terminaram e esta batalha apenas começou. Mas além das piadas e dos registros para a história, o que está em jogo aqui é a luta entre o controle e a liberdade da internet. Para entendê-la não se pode deixar-se confundir pelos tecnicismos. No fundo, toda a rede digital tem regras que podem incluir ou excluir, monitorar ou respeitar a privacidade, dar segurança ou insegurança, permitir a liberdade de expressão ou a censura. Sem dúvida, estas regras não se transformam em leis, mas em um software proprietário como o iPhone, como um software aberto como Wikipedia ou como tantos vírus que se espalham globalmente pela Internet, alguns dos quais não foram criados por hackers individuais, mas por Estados. 
Em países autoritários, o controle é simples e direto: existe censura e é proibido visitar alguns sites. Em países democráticos, também existem poderosas forças que tentam controlar as redes digitais. A diferença é que os processos são mais sofisticados e avançam por vias paralelas. Por um lado, há uma tendência à concentração do poder econômico na internet, que se manifesta na importância crescente das redes proprietárias, tais como iTunes, NetFlix, Facebook, assim como as redes de celulares dominadas por empresas de telecomunicações. 
Este movimento vem acompanhado por uma importante pressão para reforçar a propriedade intelectual na internet. Por outro lado, as corporações privadas e as organizações de inteligência tentam identificar preferências de consumo e vigiar a vida privada dos cidadãos, muitas vezes sem consentimento ou conhecimento dos mesmos. 
A sociedade civil não se submete facilmente. Importantes grupos de opinião pressionam para que os tribunais competentes investiguem mais cuidadosamente os casos de abuso de monopólio e a vulnerabilidade dos direitos do consumidor na internet. Deste modo, existe uma crescente pressão social por mais transparência do Estado na internet, o que também acontece com os grupos econômicos e as grandes empresas privadas. Importantes ONGs se mobilizam para alcançar uma legislação de propriedade intelectual que equilibre os direitos do autor e o acesso social na internet. 
Princípios 
A batalha pelo controle e pelo acesso às redes digitais é o espelho da velha luta histórica sobre os princípios de igualdade, liberdade e democracia. O primeiro se refere à igualdade de acesso, que continua sendo relevante em nosso país, porque só um terço dos chilenos tem acesso diário à internet. O segundo se refere à liberdade de expressão em uma rede cujo objetivo é superar o oligopólio dos meios de comunicação. E o terceiro, ao fato de que a Internet deve ser uma ferramenta que faz da transparência a base fundamental de uma democracia republicana, uma transparência que deve ser efetiva e informal. 
Neste contexto se desenvolve a disputa sobre o Wikileaks. As democracias conseguem superar as tendências concentradoras e autoritárias universalizando o acesso a uma internet aberta, inclusiva e sem censura? O que se impõem às redes proprietárias dominadas por monopólios que selecionam conteúdos, com Estados que desenvolvem sofisticados métodos de vigilância e legislações de propriedade intelectual excludentes que frearam a difusão do conhecimento e, portanto, a inovação? Não sabemos, mas é certo que a derrota da internet que conhecemos hoje poderia converter o sonho de uma sociedade da informação em uma utopia orweliana. 
Evitemos mal entendidos. Agora não se propõe que tudo seja conhecido porque isto se choca com o principio da privacidade. Tampouco se trata de questionar a necessária discrição com a qual se deve operar toda a diplomacia. Mas tal como expressa a lei chilena, toda matéria pública deveria ser, em princípio, transparente, sempre quando não afeta a segurança nacional ou privada. Com isto, não me refiro só à administração publica, mas toda atividade privada que gera interesses externos ou que está associada à provisão de bens públicos, tais como saúde, educação, energia elétrica, água potável e outras. 
A transparência é fundamental para impedir que nossa democracia seja prisioneira de poderes fanáticos e opacos, que tomam decisões que afetam a vida de milhões de chilenos. Não foi para isto que derrotamos a ditadura de Pinochet. Se queremos uma democracia inclusiva e efetiva, é indispensável universalizar o acesso a uma internet aberta e não controlada, porque com ela se construirão contrapesos efetivos aos poderes fanáticos, se deterão correntes autoritárias, ao mesmo tempo que inevitavelmente se terminará com o oligopólio dos meios de comunicação, substituindo-os por um espaço aberto, democrático e de ideias competentes. 
Wikileaks e os principais jornais do mundo ocidental trouxeram uma imensa contribuição. Longe de ameaçar a segurança mundial, o grande vazamento de 2010 é uma fonte de ensinamento de como funcionam as relações de poder no mundo, tanto em países autoritários como em países democráticos. Nos primeiros já temos experiência, mas é nos segundos que o Chile tem que aprender mais. As democracias devem saber se defender de poderes fanáticos, sejam nacionais ou estrangeiros, que atuam de forma opaca e secreta. A receita é clara: para mais democracia e mais transparência, precisamos universalizar o acesso a uma internet aberta e livre.
* Álvaro Díaz é economista e ex-embaixador do Chile no Brasil 
Fonte: Opera Mundi | Opinião, 15/12/2010 

quinta-feira, dezembro 02, 2010

WikiLeaks: 2.855 documentos sobre o Brasil

POR DENTRO DO WIKILEAKS: A DEMOCRACIA PASSA PELA TRANSPARÊNCIA RADICAL
por Natália Viana*
Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português. Todos os dias haverá no site matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.
Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.
Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.
Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas – no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem – leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: “São a coisa mais importante que eu já vi”, disse ele.
Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.
Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.
Documentos sobre Brasil
No caso brasileiro, os documentos são riquíssimos. São 2.855 no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.
Nas próximas semanas, eles vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.
O Wikileaks vai publicar muitas dessas histórias a partir do seu próprio julgamento editorial. Também vai se aliar a veículos nacionais para conseguir seu objetivo – espalhar ao máximo essa informação. Assim, o público brasileiro vai ter uma oportunidade única: vai poder ver ao mesmo tempo como a mesma história exclusiva é relatada por um grande jornal e pelo Wikileaks. Além disso, todos os dias os documentos serão liberados no site do Wikileaks. Isso significa que todos os outros veículos e os próprios internautas, bloggers, jornalistas independentes vão poder fazer suas próprias reportagens. Democracia radical – também no jornalismo.
Impressões
A reação desesperada da Casa Branca ao vazamento mostra que os Estados Unidos erraram na sua política mundial – e sabem disso. Hillary Clinton ligou pessoalmente para diversos governos, inclusive o chinês, para pedir desculpas antecipadamente pelo que viria. Para muitos, não explicou direto do que se tratava, para outros narrou as histórias mais cabeludas que podiam constar nos 251 mil telegramas de embaixadas.
Ainda assim, não conseguiu frear o impacto do vazamento. O conteúdo dos telegramas é tão importante que nem o gerenciamento de crise de Washington nem a condenação do lançamento por regimes em todo o mundo – da Austrália ao Irã – vai conseguir reduzir o choque.
Como disse um internauta, Wikileaks é o que acontece quando a superpotência mundial é obrigada a passar por uma revista completa dessas de aeroporto. O que mais surpreende é que se trata de material de rotina, corriqueiro, do leva-e-traz da diplomacia dos EUA. Como diz Assange, eles mostram “como o mundo funciona”.
O Wikileaks tem causado tanto furor porque defende uma ideia simples: toda informação relevante deve ser distribuída. Talvez por isso os governos e poderes atuais não saibam direito como lidar com ele. Assange já foi taxado de espião, terrorista, criminoso. Outro dia, foi chamado até de pedófilo.
Wikileaks e o grupo e colaboradores que se reuniu para essa empreitada acreditam que injustiça em qualquer lugar é injustiça em todo lugar. E que, com a ajuda da internet, é possível levar a democracia a um patamar nunca imaginado, em que todo e qualquer poder tem de estar preparado para prestar contas sobre seus atos.
O que Assange traz de novo é a defesa radical da transparência. O raciocínio do grupo de jornalistas investigativos que se reúne em torno do projeto é que, se algum governo ou poder fez algo de que deveria se envergonhar, então o público deve saber. Não cabe aos governos, às assessorias de imprensa ou aos jornalistas esconder essa ou aquela informação por considerar que ela “pode gerar insegurança” ou “atrapalhar o andamento das coisas”. A imprensa simplesmente não tem esse direito.
É por isso que, enquanto o Wikileaks é chamado de “irresponsável”, “ativista”, “antiamericano” e Assange é perseguido, os cinco principais jornais do mundo que se associaram ao lançamento do Cablegate continuam sendo vistos como exemplos de bom jornalismo – objetivo, equilibrado, responsável e imparcial.
Uma ironia e tanto.
* Natália Viana é jornalista e colaboradora do Opera Mundi
Fonte: Opera Mundi, 30/11/2010

quarta-feira, outubro 13, 2010

em defesa da liberdade de expressão

Voz dos donos: o seletor de opiniões

por Washington Araújo
Liberdade de expressão parece ser um seletor de opiniões grudado nas mãos dos donos de veículos de comunicação ou de seus prepostos (diretores de Redação, editores-chefes, editores em geral). A liberdade de expressão pode até ser exercida, mas seu alcance é limitado e não pode, em hipótese alguma, ultrapassar a cadeia hierárquica de comando. Que é louvável clamar por esta preciosa liberdade ninguém tem dúvidas, mas que é execrável concedê-la apenas aos que se alinham com a ideologia dos patrões, pouca gente se arrisca a duvidar.
Vejamos alguns casos bem recentes. Observo que ver apenas um caso nas cercanias da própria imprensa já reclamaria uma boa dose de atenção. Pois bem, até as paredes e os cenários da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, sabem o que teria sido o real motivo para a demissão do experiente jornalista e apresentador de tevê Heródoto Barbeiro: o exercício de sua liberdade para perguntar, da bancada do programa Roda Viva, ao ex-governador José Serra sobre os preços dos pedágios paulistas (ver aqui). No entanto, são estes mesmos que demitem, que mostram truculência e que desfraldam bandeiras pela liberdade de expressão; que altas horas da madrugada mostram-se receptivos a telefonemas exigindo a demissão desse ou daquele profissional que, na pior das hipótese, tenha cometido por pensamento ou por ação apenas um crime: o crime de pensar.
Não mais que passada uma semana e, em 8 de julho deste 2010, ainda na mesma emissora de cunho estatal, ficamos sabendo pela contumaz marolinha com que a imprensa repercute casos do gênero que o jornalista Gabriel Priolli deixara de ser diretor de jornalismo da TV Cultura. A decisão, tomada pelo jornalista Fernando Vieira de Mello, vice-presidente de conteúdo da emissora, alimentou boatos a respeito da ingerência política sobre o canal. O fato é que tanto nos corredores da emissora como na blogosfera, circulou – e ainda circula – a informação de que, por trás da demissão de Priolli, pendia em forma de guilhotina uma suculenta matéria sobre – adivinhem – o aumento nos pedágios paulistas.
Mais um pouco e ficaremos convencidos de que no jornalismo paulista expressões como "pedágios" e "liberdade de expressão" são como óleo e água e não podem conviver em uma mesma Redação. Um deles tem que cair, sumir, desaparecer, submergir, calar.
Indignação e espanto
Curioso é que o ato de pensar equivale em importância ao mesmo que cimento e tijolos representam para se tirar da prancheta de um arquiteto uma casa. Chama a atenção a este observador que nesses dois casos nem Barbeiro nem Priolli levaram os lábios ao trombone. No segundo caso é fácil de entender o motivo, uma vez que ele é funcionário da Cultura.
Mas tinha que ser assim? Estaremos diante de um imenso trololó midiático, essa coisa de defender em público seus próprios interesses e em privado fazer o que bem entender e do jeito que melhor lhes convier?
E, então, ficamos sabendo que o crime de pensar pode ser letal se não altamente contagioso: a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida do jornal O Estado de S. Paulodepois de ter escrito, no sábado (2/10), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. Sintomaticamente, recebeu como título duas palavras e reticências: "Dois pesos...". Mas foi sua possível continuação – ... duas medidas – que levantou ondas e ondas na internet. Todas elas mesclando indignação e espanto por ver como é comum que nas casas dos abastados ferreiros os espetos continuem teimando em ser de pau. 
140 toques
A explicação oficial do jornal paulista é que a colunista vinha de há muito enveredando por outros assuntos em sua coluna, que não os da psicanálise. Ora essa, pergunto a minha camisa sem botões: de qual tipo de imprensa estamos falando, quando se enquadra de forma muito natural o campo de expressão de um colunista? Então, na condição de psicanalista, é-lhe vedado abordar política? Tratar de política é campo de algum especialista somente – aqueles que portam carteirinha partidária – ou não se configura o tipo de tema que diz respeito ao interesse de todos nós cidadãos?
Sigamos em frente, do contrário este artigo corre risco de ficar inconcluso. Pois bem, Maria Rita, em sua elegância habitual e refinamento intelectual, afixou em entrevista ao Portal Terra na quinta-feira (7/10), este punhado de palavras sobre sua derrubada do Estadão: "Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um ‘delito’ de opinião." A partir disso minha admiração por ela só fez crescer e olha que já era bem grande.
Na semana que findou o mundo, aquele mundo amante da liberdade de expressão festejou o Premio Nobel da Paz concedido ao pensador chinês Lio Xiaobo, preso por escrever um manifesto pela liberdade de expressão na China. Alguns poucos se apressaram em homenagear Xiaobo. Um deles foi o ex-governador paulista José Serra que escreveu em seu twitter: "O ganhador do Nobel da Paz foi o professor chinês Liu Xiaobo, preso por ter publicado um manifesto em defesa da liberdade de expressão". Assíduo no twitter, bem que ele poderia ter teclado mais 140 caracteres para dizer algo como: "Mas se ele fosse brasileiro e escrevesse num jornal paulista, Xiaobo seria demitido".
Pelo que vejo existem legiões de pessoas decididas a cometer o crime de pensar.
(*) Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org, Email - wlaraujo9@gmail.com
Fonte: Carta Maior, 12/10/2010

na tela ou dvd

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  • A Árvore da Vida
  • A Bússola de Ouro
  • A Chave Mestra
  • A Cura
  • A Endemoniada
  • A Espada e o Dragão
  • A Fita Branca
  • A Força de Um Sorriso
  • A Grande Ilusão
  • A Idade da Reflexão
  • A Ilha do Medo
  • A Intérprete
  • A Invenção de Hugo Cabret
  • A Janela Secreta
  • A Lista
  • A Lista de Schindler
  • A Livraria
  • A Loucura do Rei George
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  • A Pele do Desejo
  • A Poeira do Tempo
  • A Praia
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  • A Prova
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  • A Razão de Meu Afeto
  • A Ressaca
  • A Revelação
  • A Sombra e a Escuridão
  • A Suprema Felicidade
  • A Tempestade
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  • O Último Vôo
  • O Visitante
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  • Olhos de Serpente
  • Onde a Terra Acaba
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