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terça-feira, fevereiro 22, 2011

preços dos alimentos estão no maior patamar desde 1990

Alimentos mais caros, e nas mãos de poucos.
Dez empresas dominam mercado global e dificultam reação à alta de preços
Um punhado de grandes empresas domina os setores de alimentos, sementes, fertilizantes e transgênicos, no atacado e no varejo globais, agravando as dificuldades dos países de conter o impacto da disparada dos preços nas suas economias — a segunda em três anos — e reduzindo a sua capacidade de reação a crises. Dados da ETC, organização especializada no acompanhamento de alimentos, indicam que apenas dez empresas — entre elas Cargill, Bunge, Louis Dreyfus e ADM — dominam o mercado mundial neste segmento. O grupo restrito concentra nada menos do que 67% das marcas registradas de sementes e 89% dos agroquímicos.
A reportagem é de Vivian Oswald e publicada pelo jornal O Globo, 20-02-2011.
Nem mesmo o Brasil, celeiro global, escapa da sina. Responsáveis por pouco mais de 7% de tudo o que o país exportou no ano passado, as quatro empresas figuram na lista dos 14 maiores exportadores do país: Bunge (3ª posição), Cargill (6ª), Louis Dreyfus (7ª) e ADM (14ª). De acordo com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), o grupo controla o armazenamento de grãos do país e ainda condiciona o financiamento da produção e pesquisa, além da aquisição das plantações, à venda dos fertilizantes e defensivos agrícolas, segmentos que também dominam.
 — Em março, vamos ver a força destas empresas. É o anúncio da safra dos Estados Unidos. Como são todas americanas (à exceção da Louis Dreyfus), diante do que sair lá, vão pautar o que temos de plantar aqui — disse a presidente da CNA, Kátia Abreu.
Grandes controlam exportação aqui e compras lá fora
As mesmas grandes tradings que exportam no Brasil são as empresas que compram, na outra ponta, no exterior, dominando todos os extremos da cadeia. Das 13 milhões de toneladas do último leilão de milho da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para regular os preços da commodity no Brasil, 11,2 milhões foram comprados pelas grandes empresas.
O diretor de Assuntos Corporativos da Bunge, Adalgiso Telles, garante que as grandes empresas não têm o poder que se imagina e que os preços são ditados pelos volumes de oferta e demanda. Ele atribui as pressões recentes nos preços de alimentos às enchentes e secas pelo mundo e à alta da demanda de consumidores de países como Índia e China.
 — Como podem ter controle de preços, se os lucros de empresas como a Bunge oscilam próximos de 1% do seu faturamento? — diz.
As três maiores redes de supermercados que operam no Brasil, Wal-Mart, Carrefour Pão de Açúcar, que detêm cerca de 50% dos alimentos comercializados no país, também estariam pautando o que o consumidor brasileiro come, do campo à mesa, segundo o diretor de Política agrícola e Informações da (Conab), Silvio Porto. A maioria dá até as sementes que quer plantadas.
— Até pouco tempo, quase não se consumia manjericão e outros temperos frescos. Os supermercados nos pediram para plantar e tivemos que aprender a lidar com a planta. Depois, o pessoal tomou gosto. Eu mesma passei a fazer salada sempre com manjericão — diz a produtora Carmelita Horn, que abastece grandes redes em Brasília.
Porto afirma que os grandes determinam uma espécie de padronização nos hábitos de consumo segundo os seus próprios interesses. Ao ignorar os regionalismos, sujeitam o país inteiro às oscilações de preços sem abrir margem para a substituição de produtos por iguarias locais, obrigando o consumidor do Nordeste ao Sul a consumir os mesmos itens. Elas também tiram do mapa a concorrência dos pequenos e médios mercados, aumentando ainda mais a dependência dos clientes.
Pão de Açúcar tem rede de 415 fornecedores
 O vice-presidente Corporativo do grupo Pão de Açúcar, Hugo Bethlem, garante que não existe concentração no varejo brasileiro, diferentemente do que há na Europa, por exemplo. Segundo ele, é o cliente que dá as regras.
 — As empresas não têm essa força. Dos 20 mil produtos novos lançados pela indústria por ano, apenas 2% têm mais de dois anos de vida útil — defendeu Bethlem.
Ele admitiu que o Pão de Açúcar foi pioneiro ao desenvolver 415 fornecedores de frutas, legumes e verduras, ajudando a escolher desde a semente a garantir que estão todos certificados.
— Isso garante a quantidade, a qualidade e o preço que o cliente quer — afirmou.
Outra grande falha apontada por todos os especialistas é o fato de a infraestrutura — ou a falta dela — nos países em desenvolvimento também estar concentrada nas mãos de alguns, oferecendo pouca concorrência e encarecendo de maneira significativa o custo dos transportes.
— Quando começamos a ver um processo extremamente significativo de concentração nos âmbitos dos insumos, grãos, produção, infraestrutura, varejo, atacado, sementes e químicos, é preocupante. É suicídio e perda total de controle por parte do Estado, que perde a capacidade de intervir — diz Porto.
 A economista sênior da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Concepción Calpe, explicou que a concentração não é o principal fator responsável pela alta dos preços, mas agrava o cenário e reduz as armas dos governos. Ela diz que o freio à alta de preços passa pelo aumento da produção e o investimento em tecnologia e inovação.
 Preços estão no maior patamar desde 1990
Já a redução da volatilidade, diz, passa por uma maior regulação no mercado financeiro. Concepción garante que aumentar os estoques dos produtos não resolve os problemas mundiais e oferecem um custo muito alto para os países.
Números da FAO mostram que a inflação das commodities já supera aquela registrada em 2008, no auge da alta dos preços dos alimentos. O índice subiu em janeiro pelo sétimo mês seguido, registrando o maior patamar desde o início da série histórica, em 1990, a 230,7 pontos. De acordo com dados do Banco Mundial, o setor de alimentos e agrícola corresponde a 10% do PIB global, o que equivale a mais de US$4,8 trilhões.
Cargill, ADM e Dreyfus não comentaram o assunto. O Carrefour e o Wal-Mart também não.
Fonte: IHU, 21/02/2011

sexta-feira, julho 23, 2010

qual 'ajuda humanitária'

A África real
por Reginaldo Nasser (*), 10/07/2010.

Desde o início de seu governo, não há uma única viagem internacional de Lula ao Oriente Médio ou a África que não mereça crítica virulenta da oposição. De uma forma geral as críticas batem nas mesmas teclas: “ilusão terceiro-mundista”, “amigo dos ditadores” ou “cooperações ineficientes”.
As imagens mais frequentes evocadas por esses críticos são as de um continente imerso em uma mescla de corrupção, doenças, guerras e pobreza. Porém, antes de qualquer definição a respeito das estratégias de ação internacional é preciso reconhecer que o continente africano é um verdadeiro mosaico composto por uma grande variedade de sociedades de matriz religiosa, cultural, étnica e política muito diversa; o que torna praticamente impossível definir o que seja “África”.
Em dezembro de 2005 foi constituída uma força tarefa pelo “Council on Foreign Relations”, que teve por missão elaborar um diagnóstico sobre a África e determinar quais os principais desafios e as estratégias de oportunidade os EUA deveriam adotar. Esta comissão, integrada por 34 personalidades americanas ligadas ao meio acadêmico, político, militar e da sociedade civil, produziu um documento intitulado “More Than Humanitarianism: A Strategic U.S. Approach Toward Africa”; em que chama atenção para o fato de que ao se dedicar exclusivamente aos aspectos da ajuda humanitária, os EUA se descuidaram dos aspectos econômicos e financeiros. O relatório aponta para a necessidade de uma estratégia de aproximação econômica ao mercado global e um maior pragmatismo na conquista dos recursos minerais Dambisa Moyo, economista da Goldman Sachs, – que com certeza não tem “visão terceiromundista” – observou, recentemente, que é possível notar certo renascimento econômico no continente africano.
O PIB do continente duplicou desde os anos 80, de 130 a 300 bilhões de dólares em 2008, com crescimento anual de 7% (2% nos 90). Essa avaliação é corroborada pelo McKinsey Global Institute – que também não é terceiro mundista - que acrescenta ainda a informação de que, além da alta dos preços do petróleo, minerais e outras commodities que ajudaram a elevar o PIB desde 2000, as mudanças estruturais internas, relacionadas à governança foram essenciais para impulsionar a economia doméstica (a corrupção está diminuindo, o sistema financeiro africano está amadurecendo e os fluxos de investimento privado estão em ascensão). Guerras e catástrofes naturais podem vir a impedir, ou mesmo reverter, esses ganhos, mas as tendências internas e externas indicam que as perspectivas econômicas em África são consistentes no longo prazo.
Evidentemente que não se pode negar que a África tenha problemas gravíssimos, mas deve-se evitar que a constatação desses problemas ofusquem os êxitos alcançados, além do que sabe-se que esses problemas não são exclusivos da África e muito menos de sua inteira responsabilidade.
A chamada comunidade internacional ataca sistematicamente os líderes africanos, mas não reconhece suas responsabilidades nesse processo. De acordo com classificação do Instituto Fund for Peace, 7 dos 10 Estados considerados mais frágeis do mundo estão na África. Com péssimas pontuações nas áreas de injustiças coletivas e direitos humanos esses Estados não controlam grande parte de seu território. Mas o que esses institutos não mencionam é que a incapacidade de um Estado em se tornar um ator internacional legitimo está, em grande medida, intimamente relacionada às ações das grandes potências.
Ao intervir diretamente ou indiretamente na política interna de um Estado, as grandes potências tornam-se responsáveis por seu enfraquecimento e, o mais grave é que almejam mantê-lo nessa condição bastante conveniente para expandir sua área de influência. É preciso, pois perguntar: Onde estão os lugares convenientes para ocultar dinheiro pilhado? Quem sustenta os lideres corruptos de países que fornecem recursos naturais valiosos? De onde provêm os armamentos que alimentam as guerras civis? Onde são depositadas as enormes fortunas que são geradas mediante a venda de petróleo, diamantes e drogas? Quem são os principais responsáveis pelo suborno das autoridades nos países pobres? (sobre essas questões ver NASSER, R. M.. Estados Falidos: Ameaças e oportunidades. In: Reginaldo Mattar Nasser. (Org.). Conflitos Internacionais em Múltiplas Dimensões. 1a ed. São Paulo: Edunesp.)
É fundamental que o Brasil leve em consideração o fato de que a questão dos chamados Estados falidos está intimamente associada a uma disputa exacerbada entre as grandes potências e, se quiser ter uma atuação que vá além da realização de seus interesses, é fundamental levar em consideração que o espaço geopolítico da África é composto por vários centros de poder, de natureza funcional distinta (militar, econômica, ideológica) com uma ampla variedade de problemas e prioridades que não se vinculam as dinâmicas pautadas exclusivamente às regras formalmente estabelecidas pela comunidade internacional.
Muito embora ainda não esteja clara a forma pela qual o Brasil decidirá seu engajamento no continente africano, se quiser adquirir credibilidade e legitimidade nas questões comerciais, políticas e estratégicas; não deve desconsiderar as ações humanitárias. É preciso evitar duas avaliações recorrentes. Aquela que supõe que a África pode ingressar num processo de desenvolvimento e para isso deve trilhar os caminhos delineados pelas potências ocidentais. Ou uma outra que supõe haver certas "especificidades" africanas (leia-se irracionalidade) que tornam impossível qualquer tipo de cooperação internacional. O desafio é encontrar a melhor forma de obter resultados mais eficazes, tanto para os beneficiários como para os contribuintes do país doador, mas não se pode simplesmente condenar a ajuda humanitária (Proposta das consultorias citadas acima: Goldman Sachs e McKinsey Global Institute).

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC/SP.
Fonte: Carta Maior, 16/07/2010.

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