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sexta-feira, julho 23, 2010

qual 'ajuda humanitária'

A África real
por Reginaldo Nasser (*), 10/07/2010.

Desde o início de seu governo, não há uma única viagem internacional de Lula ao Oriente Médio ou a África que não mereça crítica virulenta da oposição. De uma forma geral as críticas batem nas mesmas teclas: “ilusão terceiro-mundista”, “amigo dos ditadores” ou “cooperações ineficientes”.
As imagens mais frequentes evocadas por esses críticos são as de um continente imerso em uma mescla de corrupção, doenças, guerras e pobreza. Porém, antes de qualquer definição a respeito das estratégias de ação internacional é preciso reconhecer que o continente africano é um verdadeiro mosaico composto por uma grande variedade de sociedades de matriz religiosa, cultural, étnica e política muito diversa; o que torna praticamente impossível definir o que seja “África”.
Em dezembro de 2005 foi constituída uma força tarefa pelo “Council on Foreign Relations”, que teve por missão elaborar um diagnóstico sobre a África e determinar quais os principais desafios e as estratégias de oportunidade os EUA deveriam adotar. Esta comissão, integrada por 34 personalidades americanas ligadas ao meio acadêmico, político, militar e da sociedade civil, produziu um documento intitulado “More Than Humanitarianism: A Strategic U.S. Approach Toward Africa”; em que chama atenção para o fato de que ao se dedicar exclusivamente aos aspectos da ajuda humanitária, os EUA se descuidaram dos aspectos econômicos e financeiros. O relatório aponta para a necessidade de uma estratégia de aproximação econômica ao mercado global e um maior pragmatismo na conquista dos recursos minerais Dambisa Moyo, economista da Goldman Sachs, – que com certeza não tem “visão terceiromundista” – observou, recentemente, que é possível notar certo renascimento econômico no continente africano.
O PIB do continente duplicou desde os anos 80, de 130 a 300 bilhões de dólares em 2008, com crescimento anual de 7% (2% nos 90). Essa avaliação é corroborada pelo McKinsey Global Institute – que também não é terceiro mundista - que acrescenta ainda a informação de que, além da alta dos preços do petróleo, minerais e outras commodities que ajudaram a elevar o PIB desde 2000, as mudanças estruturais internas, relacionadas à governança foram essenciais para impulsionar a economia doméstica (a corrupção está diminuindo, o sistema financeiro africano está amadurecendo e os fluxos de investimento privado estão em ascensão). Guerras e catástrofes naturais podem vir a impedir, ou mesmo reverter, esses ganhos, mas as tendências internas e externas indicam que as perspectivas econômicas em África são consistentes no longo prazo.
Evidentemente que não se pode negar que a África tenha problemas gravíssimos, mas deve-se evitar que a constatação desses problemas ofusquem os êxitos alcançados, além do que sabe-se que esses problemas não são exclusivos da África e muito menos de sua inteira responsabilidade.
A chamada comunidade internacional ataca sistematicamente os líderes africanos, mas não reconhece suas responsabilidades nesse processo. De acordo com classificação do Instituto Fund for Peace, 7 dos 10 Estados considerados mais frágeis do mundo estão na África. Com péssimas pontuações nas áreas de injustiças coletivas e direitos humanos esses Estados não controlam grande parte de seu território. Mas o que esses institutos não mencionam é que a incapacidade de um Estado em se tornar um ator internacional legitimo está, em grande medida, intimamente relacionada às ações das grandes potências.
Ao intervir diretamente ou indiretamente na política interna de um Estado, as grandes potências tornam-se responsáveis por seu enfraquecimento e, o mais grave é que almejam mantê-lo nessa condição bastante conveniente para expandir sua área de influência. É preciso, pois perguntar: Onde estão os lugares convenientes para ocultar dinheiro pilhado? Quem sustenta os lideres corruptos de países que fornecem recursos naturais valiosos? De onde provêm os armamentos que alimentam as guerras civis? Onde são depositadas as enormes fortunas que são geradas mediante a venda de petróleo, diamantes e drogas? Quem são os principais responsáveis pelo suborno das autoridades nos países pobres? (sobre essas questões ver NASSER, R. M.. Estados Falidos: Ameaças e oportunidades. In: Reginaldo Mattar Nasser. (Org.). Conflitos Internacionais em Múltiplas Dimensões. 1a ed. São Paulo: Edunesp.)
É fundamental que o Brasil leve em consideração o fato de que a questão dos chamados Estados falidos está intimamente associada a uma disputa exacerbada entre as grandes potências e, se quiser ter uma atuação que vá além da realização de seus interesses, é fundamental levar em consideração que o espaço geopolítico da África é composto por vários centros de poder, de natureza funcional distinta (militar, econômica, ideológica) com uma ampla variedade de problemas e prioridades que não se vinculam as dinâmicas pautadas exclusivamente às regras formalmente estabelecidas pela comunidade internacional.
Muito embora ainda não esteja clara a forma pela qual o Brasil decidirá seu engajamento no continente africano, se quiser adquirir credibilidade e legitimidade nas questões comerciais, políticas e estratégicas; não deve desconsiderar as ações humanitárias. É preciso evitar duas avaliações recorrentes. Aquela que supõe que a África pode ingressar num processo de desenvolvimento e para isso deve trilhar os caminhos delineados pelas potências ocidentais. Ou uma outra que supõe haver certas "especificidades" africanas (leia-se irracionalidade) que tornam impossível qualquer tipo de cooperação internacional. O desafio é encontrar a melhor forma de obter resultados mais eficazes, tanto para os beneficiários como para os contribuintes do país doador, mas não se pode simplesmente condenar a ajuda humanitária (Proposta das consultorias citadas acima: Goldman Sachs e McKinsey Global Institute).

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC/SP.
Fonte: Carta Maior, 16/07/2010.

quinta-feira, julho 15, 2010

meio ambiente, filmes, livros e "Ouro Negro"

Solanas denuncia delírio neoliberal contra meio-ambiente
Depois de fazer o mosaico cinematográfico da Argentina contemporânea pós-2001, o cineasta e político Fernando "Pino" Solanas lança "Ouro Negro", segunda parte da série "Terra Sublevada". “Ouro Impuro”, lançado em 2009, é a primeira parte; "Ouro Negro" tem estréia prevista ainda em março. Ambos os filmes formam um painel da depredação dos recursos minerais argentinos, e da luta contra a crescente contaminação do solo, do ar e da água.
Clarissa Pont - 08/03/2010
Fernando “Pino” Solanas hoje é deputado nacional pela cidade de Buenos Aires e encabeça o Proyecto Sur, movimento político que reúne o Partido Socialista Autêntico, a ala social da Central de los Trabajadores Argentinos (CTA), além de outras frentes importantes da esquerda argentina.
Diretor e roteirista de um dos mais importantes filmes latino-americanos da década de 80, Solanas tem se dedicado a registrar a Argentina pós-crise em documentários desde 2001. Enquanto Sur, de 1988, melhor direção em Cannes e Prêmio do Júri do Festival de Havana, despejava na tela uma história de amor ao país em ficção, “Memória do Saqueio”, “A Dignidade dos Ninguéns”, “Argentina Latente” e “A Próxima Estação”, montam o mais importante mosaico cinematográfico da Argentina contemporânea.
"A crise social dos fins de 2001, com a queda do governo de (Fernando) de la Rúa, marcou um antes e depois na Argentina. Eu voltei a filmar pelas ruas e foi nascendo a idéia de fazer um filme sobre a crise argentina mirando, sobretudo, uma geração jovem que não entendia direito o que estávamos passando", relembra Solanas.
O enredo do último documentário (narrado em duas partes) começa nos anos 90, quando as políticas neoliberais de Carlos Menem entregaram o petróleo e a mineração a corporações privadas e estrangeiras, liberaram substâncias tóxicas e métodos de extração depredadores, contaminaram fontes de água e o meio ambiente. A partir daí, os bloqueios de estradas e as assembléias dos ambientalistas fizeram nascer uma nova consciência, pela salvaguarda da vida e a recuperação dos recursos minerais no país.
“Filmes ou livros não mudam a realidade, mas ajudam muito. Veja, eu passei os últimos dez anos falando sobre o saqueio da mineração no país. Os que estão ao meu redor já escutaram mil vezes meus argumentos e podem repetir letra por letra. Mas eles não tinham as imagens. Quando saímos do cinema no outro dia depois da exibição de "Ouro Impuro", as pessoas me diziam “que coisa tão extraordinária”! E eu respondia, “pô, vocês já me escutaram falar sobre isso mil vezes”.
Entende? Esse é o valor do cinema e isso não se apaga”, conta Solanas, referindo-se á noite de exibição da primeira parte de "Terra Sublevada" no Cine Gaumont, especializado em cinema argentino, em Buenos Aires. A estréia de “Ouro Impuro” foi tão movimentada que o filme quase não pôde ser exibido em outubro do ano passado na capital argentina. Naquela noite, ônibus de sindicatos patronais das minerarias recrutaram trabalhadores sob a alegação de que o filme de Solanas seria responsável caso os empregos na região sumissem. A briga polarizou trabalhadores e moradores das comunidades atingidas pela mineração e atrasou a estréia em algumas horas.
Os embates são freqüentes desde a ocasião. Em fevereiro deste ano, durante coletiva de imprensa realizada em Catamarca, na Argentina, por ocasião da exibição do documentário no local, os mesmos trabalhadores mineiros entraram em confronto com a polícia tentando impedir a exibição. O filme pôde ser exibido em Andalgalá, Belém e Santa Maria, comunidades do entorno que foram registradas por Solanas. Sobre o incidente, Solanas afirmou à imprensa local não ser contra a mineração, mas aos grandes projetos. Ouro Impuro é uma viagem ao redor de algumas das explorações ao ar livre com cianureto que corporações instalaram no noroeste argentino: San Juan, La Rioja, Tucumán e Salta, além de Catamarca. Nas mega-jazidas, como as de Alumbrera e Veladero, colinas são lançadas pelos ares com explosivos e são utilizados, diariamente, de 80 a 100 milhões de litros de água potável misturados a 10 toneladas de cianureto.
Segundo Solanas, estes números surpreendem, mas não contam toda a história, já que “o saque das riquezas minerais do país acontece sem controle público e praticamente sem recolher impostos”. As histórias da luta contra a mineração são contadas por seus protagonistas: engenheiros, professores, caseiros de chácaras, indígenas, ambientalistas, vizinhos, que contam comoventes histórias de resistência. Um tanto estimulados pela luta das assembléias populares de Gualeguaychú contra a instalação da indústria de celulose Botnia, o movimento ambientalista já conquistou a proibição de mineração ao ar livre com substâncias tóxicas em sete províncias argentinas: Chubut, Rio Negro, La Pampa, Mendoza, São Luís, Córdoba e Tucumán.
Mas não apenas em filmes Solanas denunciou o saque promovido pelos delírios neoliberais de Carlos Menem. Depois de uma série de entrevistas nas quais abria fogo contra o então presidente argentino, levou seis tiros nas pernas em 1991, no que ficou para ele evidente tratar-se de um atentado político. O novo alvo de cineasta é o casal Kirchner. Tanto que, através da frente de esquerda Proyecto Sur, ele pretende concorrer às próximas eleições presidenciais na Argentina, em 2011. Apesar de ser um nome bastante cotado para a prefeitura da cidade de Buenos Aires, uma candidatura à presidência ainda esbarra na tímida votação do Proyecto Sur fora de Buenos Aires. A candidatura se baseia em um plano de governo em que as principais linhas estão na nacionalização da mineração e da exploração do petróleo argentino.
Fonte: Carta Maior. Matéria da Editoria: Meio Ambiente, 09/07/2010.

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