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quarta-feira, janeiro 12, 2011

um elogio que não se estende aos aliados

Troca de ano e de Presidente

por Contardo Calligaris
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Gosto de Dilma porque ela se mostrou disposta a sacrificar seu corpo natural para o bem do político
1) RÉVEILLON
Ao longo da costa da Liguria, na Itália, entre Monterosso a Riomaggiore, sucedem-se cinco pequenas cidades (incluindo as duas que mencionei), ditas as Cinque Terre (cinco terras). É possível visitá-las todas, em seis horas, pelo "sendeiro azul", uma trilha que eu já achava grandiosa e emocionante quando, moleque, saía de Rapallo de trem para Riomaggiore e voltava a pé até Monterosso.
O caminho corre no encosto da montanha: de um lado a rocha, do outro, uma queda abrupta para um mar especialmente azul por ser imediatamente profundo.
O que me emocionava era a própria existência das aglomerações, num lugar tão improvável (migre.me/3oPbE).
Pois bem, passei a noite do Réveillon em São Conrado, Rio de Janeiro, enxergando, ao leste, os fogos que o Hotel Intercontinental ofereceu a seus hóspedes e, ao oeste, a favela da Rocinha.
Parece que, neste fim de 2010, os fogos da Rocinha foram mais alegres do que nunca. Graças à Presidência de Lula, talvez a população da Rocinha tenha acabado o ano com alguma sobra, que deu para investir na festa do Réveillon.
O fato é que, na comparação, os fogos da Rocinha ganhavam dos do Intercontinental, não pela quantidade ou pela variedade de formas e cores, mas pelo cenário que iluminavam. A cada rosa de luz que explodia no céu, eu via uma vinheta da persistência, da obstinação da vida humana, subindo e se segurando pelo morro.
Senti a mesma admiração comovida que sentia nas caminhadas de Riomaggiore a Monterosso.
Em suma, festejei a chegada do novo ano lembrando-me do seguinte: o que mais aprecio na nossa espécie é sua incrível resiliência - nossa capacidade de continuar existindo com e contra a natureza e com e contra os horrores que nós mesmos não nos cansamos de inventar.
Bem vindos a 2011. Incrível, gente: duramos até aqui!
2) Dilma Presidente
Uma leitora, Sofia Segalla, pergunta: "Uma mulher que luta pelo direito de ser protagonista de uma transformação histórica (...) o que essa mulher pode esperar perder? Do que ela está abrindo mão?". Sofia gostaria que eu "falasse a respeito das perdas das mulheres que assumem grandes posições políticas".
Aqui vai, e vou me servir de um clássico insubstituível, "Os Dois Corpos do Rei", de E. Kantorowicz (Companhia das Letras).
Qualquer indivíduo, ao se tornar governante, adquire um "corpo político" e sacrifica (deveria sacrificar), total ou parcialmente, seu "corpo natural". Ou seja, no caso do governante, o corpo oficial (o que desfila na praça e também o que, supostamente, à noite, está sempre debruçado sobre as necessidades da nação) torna-se mais relevante do que o próprio corpo natural, que ama, sofre e goza.
Em março/abril 1985, o corpo político de Tancredo se manteve vivo para salvar a democracia brasileira, enquanto seu corpo natural já estava morto ou quase. Ou, então, o corpo natural do presidente Roosevelt era confinado numa cadeira de rodas pela poliomielite; seu corpo político se ergueu sobre suas próprias pernas nas horas em que a história da nação o exigia.
Desde os anos 1960, paira no ar a ideia de que o governante que se importasse com o seu corpo natural seria mais humano e mais próximo da gente. Certo, mas será que, por isso, ele seria melhor governante? Duvido.
Em regra, no Brasil "cordial", as razões privadas invadem o espaço público; com isso, o corpo natural do político não sai de cena e continua gozando obscenamente de privilégios indevidos, do nepotismo, da corrupção e, naturalmente, da nossa cara.
E Dilma com isso? Pois bem, gosto de Dilma porque, até aqui, ela se mostrou disposta a sacrificar seu corpo natural para o bem do corpo político. Entendo o fato de ela ter desafiado a doença para continuar candidata como o gesto de quem considera que a função pública está acima de sua saúde e de sua vida.
Gosto também da reputação de "braba" de Dilma: no papo cordial dominante, quem leva sua tarefa a sério é considerado muito brabo.
Nota: infelizmente, não acredito que esse elogio a Dilma possa se estender a seus aliados, nem a todos seus ministros.
Respondendo a Sofia: Dilma, por governar o Brasil, perderá (já perdeu) sua relação com o cotidiano da vida, do amor e da amizade. É uma pena; mas sejamos egoístas: se ela for mesmo uma governante capaz de colocar sua função acima de sua vida concreta, sorte nossa.
Fonte: Blog Contardo Calligaris, 06/01/2011

segunda-feira, novembro 01, 2010

"Não deixemos que a vitória nos faça esquecer..."

Bem-vinda, presidente Dilma Roussef
por Izaías Almada*
Bem que o Brasil do atraso tentou, o Brasil da calúnia, da infâmia, da subserviência, o Brasil que perdeu a noção da História e da realidade em que vive e da realidade que o cerca. Não adiantou o cidadão e candidato José Serra e a oposição que representa construírem uma estratégia eleitoral torpe, baseada no ódio, na intolerância e no preconceito, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que parte de sua acertada estratégia política está cumprida ao eleger sua candidata e sucessora.
Vitória da perspicácia, da sensibilidade no trato das coisas políticas, da coragem pessoal em confrontar, à sua maneira, a oligarquia que deixou o governo em 2002. E o fez com paciência e tentativas de diálogo e – sobretudo – com o conhecimento do seu povo. É preciso reconhecer: haja sociologia para explicar 83% de aprovação popular a um governo no Brasil. Já disse alguém que a política é a arte do possível. Para muitos, infelizmente, ainda é difícil entender isso. À direita e à esquerda.
Ontem, 31 de outubro de 2010, venceu o Brasil que quer continuar mudando, que busca alternativas para se tornar um país mais soberano e menos injusto. Venceu o povo brasileiro mais sofrido e humilde. Venceu novamente a esperança. Ou, para os menos otimistas, a possibilidade de se continuar tendo esperança. E ouso dizer também que, mais do que o Brasil, venceu a nova América Latina de Chávez, Morales, Correa, Lugo, Cristina e Nestor, Castro, Funes, Mujica e Ortega.
Os miasmas da intolerância e de um fascismo travestido de faniquitos democráticos não muito bem explicados em manifestos e editoriais jornalísticos, em telejornais e revistas de final de semana, em violência e profanação religiosa, em tentativa de manipulação da opinião do eleitor, nos últimos três meses, ou se quisermos, nos últimos oito anos, não foram suficientes para desviar milhões de eleitores brasileiros da rota de um desejo sincero de ver o Brasil mais justo, mais independente e de olhos postos no futuro e não no passado.
Retomando a História interrompida com a morte de Getúlio Vargas e traumatizada pelo golpe civil/militar de 1964, que derrubou um governo eleito democraticamente, a vitória de Dilma Roussef faz uma ponte com nosso passado ainda recente e relança as bases de um protagonismo popular para o futuro, fazendo o país voltar ao leito democrático de onde foi retirado pela força de tanques e baionetas apoiados pelo Departamento de Estado norte americano, esse mesmo Estado que continua a insistir com sua política de desestabilizar governos eleitos democraticamente, como a Venezuela de Chávez, a Bolívia de Evo Morales, a Honduras de Manuel Zelaya ou o Equador de Rafael Correa. E que, com certeza, não dará tréguas ao governo de Dilma Roussef. É bom que não nos esqueçamos disto no calor e na alegria da vitória.
No vácuo da repressão policial/militar da ditadura, com a sua falta de garantias democráticas plenas, instalou-se também no Brasil, em anos mais recentes, a ditadura do poder econômico, impondo-se entre nós o pensamento e a prática hegemônica neoliberal, assumida por uma social democracia encantada com a possibilidade de chegar ao poder político, como de fato chegou, com a chamada redemocratização do país na metade dos anos oitenta. E com o sonho de lá permanecer por pelo menos 20 anos, no dizer de alguns de seus caciques, começando com a imoral compra de votos para a reeleição do seu até então maior ideólogo, Fernando Henrique Cardoso, o presidente das privatarias e traidor do povo brasileiro. Essa prática política encantou àqueles que olharam o país e a História com o binóculo posto ao contrário.
Nesses últimos cinquenta anos de História, tanto uma, a ditadura, quanto o outro, o poder econômico imposto pelo Consenso de Washington, tiveram a seu lado aquele que pode ser considerado o mais forte aliado do mundo contemporâneo: a força do quarto poder, a mídia. Jornais, rádios, televisões, revistas, em grande parte subsidiados ideologicamente por pensadores e acadêmicos de dentro e de fora do país, fizeram de seus editoriais e matérias jornalísticas a apologia diária do paraíso para o capital transnacional, com seus deslumbrados e submissos defensores internos, ao mesmo tempo em que combatiam e dilapidavam as garantias e a defesa dos direitos dos trabalhadores através do arrocho salarial, da terceirização de serviços, do aumento do desemprego, do desestímulo às reivindicações de inúmeras categorias profissionais, da privatização de empresas nacionais estratégicas, agindo contra os interesses nacionais, da criminalização dos movimentos sociais, mantendo intacto – de certa maneira – o arcabouço repressivo ditatorial com um inquestionável conservadorismo na sua prática política.
Tudo isso sustentado por uma democracia e uma Constituição, aquela que melhor se pôde arranjar em 1988, a tal Constituição Cidadã, um imenso tratado com quase quinhentos artigos, tamanho o número de interesses a serem contemplados e acomodados, e que ainda assim, na prática, vem sendo solapada e substituída no dia a dia por um mecanismo anacrônico denominado Medida Provisória, que sempre poderá agradar ou desagradar a gregos e troianos, conforme os interesses de momento e o grupo que estiver no poder político.
Em verdade, passamos a viver a partir da segunda metade dos anos 80 um arremedo de democracia. Dá para o gasto, é claro, pois sempre podemos encher a boca e dizer que vivemos num país democrático, e sob vários aspectos isso é verdade, muito embora os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, com as honrosas exceções de sempre, se deixaram ou ainda se deixam escorregar tentadoramente por caminhos tortuosos, para dizer o menos, quando fica bastante evidente a verdadeira luta de classes no país.
A recente campanha eleitoral deixou à mostra como muitos brasileiros entendem a democracia: um regime de privilégios que é preciso manter a ferro e fogo, sempre e quando para isso se use tais “privilégios” para arrasar o adversário, assassinar sua reputação, atribuindo-lhe as piores qualidades morais e profissionais. São os democratas de fins de semana, dos almoços dominicais com a família. Hipocrisia que a campanha do candidato José Serra mostrou à perfeição.
Nesse quadro político e institucional, os homens que queriam governar “por 20 anos” descuidaram-se e o sentimento de mudanças que permeava partidos de esquerda e movimentos sociais desde o período ditatorial, soube se movimentar, mesmo com suas divergências, contradições e até defecções, criando condições para que o país buscasse alternativas para o sufoco neoliberal.
Incrédulos com a vitória do metalúrgico semi-analfabeto em 2002, os serviçais e bajuladores da “Casa Grande”, fiéis leitores da cartilha econômica do neoliberalismo, apostaram suas fichas no fracasso e na incompetência do operário, sem jamais esconder o seu preconceito de classe e seu espírito impatriótico. À medida que o tempo avançou e o fracasso esperado do governo Lula não vinha, os órgãos de comunicação social foram mais uma vez acionados com bastante virulência no ano de 2005, pois nova derrota eleitoral seria o início do desastre.
De nada adiantou a campanha moralista naquela altura, curiosamente liderada por alguns dos políticos mais imorais e corruptos do país, alguns deles felizmente defenestrados nas recentes eleições, ou as CPIs policialescas instaladas nas duas casas do Congresso Nacional, onde a pregação intolerante contra o Partido dos Trabalhadores e a esquerda de um modo geral chegou a ser defendida com o chamamento à eliminação “dessa gente” da política brasileira. Bravatas, arrogância e intolerância substituíam os discursos políticos daquilo que se poderia esperar de uma oposição minimamente civilizada, se é que se pode chamar de civilizados um grande número de dilapidadores do patrimônio nacional em beneficio próprio.
Acuado, o governo soube esperar a hora do contra ataque. E o fez no seu segundo mandato, aprofundando as suas políticas sociais e de infraestrutura econômica. Lula se reelegeu em 2006 e chega a 2010, no final do seu governo, com um índice de popularidade “nunca visto antes na história desse país”. E mais: sai o operário e entra uma mulher. Impensável no Brasil de dez anos atrás.
O desafio que tem pela frente a presidente Dilma Roussef é enorme, a começar pela guerra diária que lhe imporá a vetusta oligarquia brasileira e sua velha mídia incompetente, desonesta e oportunista.
Mas, guerra é guerra e o povo, atento e organizado, sempre que chamado, irá se manifestar através de sindicatos, dos movimentos sociais, das entidades estudantis e dos partidos políticos comprometidos com a soberania do país e das suas conquistas sociais, fazendo avançar essas conquistas. E também através de uma nova mídia que se forma pela internet ou – o que espera o país – ver alguns jornais, revistas e televisões tendo que se ajustar a um novo marco regulatório para a comunicação social, tornando-a verdadeiramente democrática.
De hoje em diante toda atenção é pouca, porque o conservadorismo, agora efetivamente de mãos dadas com o emergente fascismo tupiniquim não irá descansar. E essa é uma união mais do que perigosa. Alguém já disse que para onde pender o Brasil, deverá pender a América Latina. Não deixemos que a vitória nos faça esquecer que o inimigo é forte e continuará sua insidiosa luta no dia a dia das calúnias, das mentiras, dos factóides, tentando minar a confiança do povo no seu novo governo.
Felicidades, presidente Dilma Roussef! Seja bem-vinda.
*Izaías Almada é escritor, dramaturgo, autor – entre outros – do livro “Teatro de Arena: uma estética de resistência” (Boitempo) e “Venezuela povo e Forças Armadas” (Caros Amigos).
Fonte: Escrevinhador, 01/11/2020

segunda-feira, outubro 04, 2010

eleições Brasil

Balanço inicial do primeiro turno
por Emir Sader
A esquerda teve o melhor resultado eleitoral de sua história: Dilma em primeiro lugar, governadores no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, no Espírito Santo, Sergipe, Acre, boas possibilidades no Distrito Federal, possibilidades ainda no Pará, limpa impressionante e renovação com grande bancada no Senado, maiores aumentos nas bancadas parlamentares na Câmara.
A frustração veio da expectativa criada pelas pesquisas de uma eventual vitória no primeiro turno para presidente. Uma análise mais precisa é necessária, a começar pelo altíssimo numero de abstenções e também dos votos nulos e brancos que, somados, superam um quarto do eleitorado.
Mas também dos efeitos das campanhas de difamação – sobre o aborto, luta contra a ditadura, etc., assim como o efeito que o caso da Erenice efetivamente teve para diminuir o resultado final da Dilma.
A votação da Marina certamente influenciou. A leitura desse eleitorado é complexa, nem de longe se trata de onda ecológica no Brasil – as outras votações dos verdes foram inexpressivas. Juntaram-se varias coisas, desde votos verdes, esquerda light, até votos anti-Dilma, votos desencantados com o Serra, entre outros. Mas o montante alto requer uma análise mais precisa.
Para o segundo turno contam esses votos: mais da metade concentrados em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, além do DF, onde ela ficou em primeiro lugar. Qualquer que seja a decisão de apoio no segundo turno – a convocação de assembléias para definir deve confirmar a tendência a abstenção, tornando mais difícil a operação política da direção de apoiar Serra -, esse eleitorado se orientará, em grande medida, não pela decisão partidária, ficando disponível para os outros candidatos. Em 2006, nem o PSol conseguiu que seus votos deixassem de ir para outros candidatos, desobedecendo a orientação do voto em branco.
É uma ilusão considerar que o segundo turno é outra eleição. É a continuação do primeiro, em novas condições – de bipolarização. A campanha deve ser dirigida diretamente por Lula, deve ser centrada na comparação dos governos do FHC e do Lula, deve ter uma estratégia específica para o eleitorado da Marina e deve multiplicar os comícios e outros atos de massa – um diferencial importante entre as duas candidaturas.
Em 2006 o segundo turno foi muito importante para dar um caráter mais definido à polarização com os tucanos, o mesmo deve se dar agora. Que ele multiplique a votação e a mobilização, para tornar mais forte ainda a vitória da Dilma. Ela é favorita, mas devemos precaver-nos das manobras dos adversários, do uso da imprensa, das campanhas difamatórias.
Pode ser um segundo turno de polarização mais clara também, porque os debates diluíam os temas, na medida em que havia um coro de 3 candidatos colocando ênfase nas denúncias. Não soubemos colocar como agenda central o fato de que o Brasil se tornou menos injusto, menos desigual, com Lula, e que esse é o caminho central a seguir.
Outros temas do primeiro turno abordaremos em outros artigos. Este é para abrir a discussão com todos.
Emir Sader é sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP - Universidade de São Paulo.
Fonte: Carta Maior, Blog do Emir, 04/10/2010 

terça-feira, agosto 17, 2010

reinventar um PT, com ousadia

Criar cinco Embraer por ano*
por Chico de Oliveira[1]

Carta MaiorA crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o sujeito histórico que ela acreditava ter se esfarelado na história?
Chico de Oliveira – Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico. A rigor, se formos localizá-la, isso se daria na incorporação de mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos – novidade esta que influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso. Uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.
CMA essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?
Chico – A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela. Ou seja, a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da capacidade de realizá-la.
CMPor quê?
Chico – Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos Estados Unidos é a manifestação disso. De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital na periferia para financiar o Tesouro dos Estados Unidos. A China sozinha tem mais de 1 trilhão de dólares aplicados em papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local é baixíssimo.
CMA crise marca o esgotamento desse casamento China/Estados Unidos?
Chico – Ele funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitoso aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho por todos os lados do globo. Os assalariados norte-americanos simplesmente não tem fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. O novo presidente Barack Obama teria de elevar brutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente: estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; Algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século [2].
CMO que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua manifestação financeira não basta?
Chico – É isso. A contribuição do economista francês François Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante em um outro momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.
CM1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu...
Chico – Foi uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt[3]; e uma guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à la 1929; o ferramental dos anos 1930 não dá conta disso.
CMO receituário keynesiano? [4]
Chico – As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer déficits em conta corrente[5] e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumental keynesiano necessitaria para ter eficácia atualmente.
CMEstamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...
Chico – Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o fim da associação China/Estados Unidos; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.
CMQue espaço sobra para a periferia do sistema, como o Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais, e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.
CMQual a opção à paralisia?
Chico – Não existiu Getúlio Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco Embraer por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorando-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...
CMMas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico – Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país. Enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.
CMHaveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?
Chico – A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon [6]; não sua derrocada, mas um hiato para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais que isso: haveria uma potencial complementaridade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de complementaridade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do buraco.
CMInternamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figura do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista, que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 1930 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.
CMLogo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Juscelino Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco Embraer por ano e ponto final.
CME o PT faria isso?
Chico – Se depender de torcida para que aconteça, tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.
CME os recursos pra esse ciclo de investimentos pesados?
Chico – O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão.
CMOs fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de 155 bilhões de reais.
Chico – Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT desfruta igualmente de massa e representatividade.
CMEssa é uma agenda para 2010?
Chico – É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 1930 e nos anos 1950 se fez por cima; destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do PSOL e do PSTU.
CMA candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?
Chico – Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má-vontade explícita da mídia em relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que ela é. Ou então, que seja alguém como o José Sérgio Gabrielli, o Presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e quais são as variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o operador, porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de ponta-de-lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.
CM – Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?
Chico – Serra, antes que um personagem político, é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém, se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória tucana em 2010; aí, sim, estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.
*Extraído do livro O abc da crise, organizado por Sérgio Sister, publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2009.

[1] Francisco de Oliveira é sociólogo e fundador do Partido de Trabalhadores (PT) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e coordenador-executivo do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP. Esta entrevista foi publicada no site Carta Maior no dia 6 de janeiro de 2009 com a chamada “Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização”.
[2] Carta Maior levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista a produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveis pela maior parcela da população global até recentemente, estão sendo desalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia. A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60 contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21/h nos Estados Unidos e cerca de US$ 4,50/h no Brasil. Resultado: dados compilados pela Comissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não para de crescer – desde 2001, cresceu 15% nos Estados Unidos e saltou em média 8% a 10% ao ano na China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela América Latina cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para 6,5%.
[3] Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945.
[4] John Maynard Keynes (1883-1946), economista britânico, defendeu o papel regulatório do Estado na economia, por meio de medidas de políticas monetária e fiscal, a fim de mitigar os efeitos das crises econômicas.
[5] Conta corrente é o balanço total de moedas fortes (como o dólar e euro) que entram e saem de um país.
[6] Hegemonia de uma potência que pode ditar as políticas de todas as outras potências, com certo grau de consenso, capaz de derrotar qualquer outro poder.

na tela ou dvd

  • 12 Horas até o Amanhecer
  • 1408
  • 1922
  • 21 Gramas
  • 30 Minutos ou Menos
  • 8 Minutos
  • A Árvore da Vida
  • A Bússola de Ouro
  • A Chave Mestra
  • A Cura
  • A Endemoniada
  • A Espada e o Dragão
  • A Fita Branca
  • A Força de Um Sorriso
  • A Grande Ilusão
  • A Idade da Reflexão
  • A Ilha do Medo
  • A Intérprete
  • A Invenção de Hugo Cabret
  • A Janela Secreta
  • A Lista
  • A Lista de Schindler
  • A Livraria
  • A Loucura do Rei George
  • A Partida
  • A Pele
  • A Pele do Desejo
  • A Poeira do Tempo
  • A Praia
  • A Prostituta e a Baleia
  • A Prova
  • A Rainha
  • A Razão de Meu Afeto
  • A Ressaca
  • A Revelação
  • A Sombra e a Escuridão
  • A Suprema Felicidade
  • A Tempestade
  • A Trilha
  • A Troca
  • A Última Ceia
  • A Vantagem de Ser Invisível
  • A Vida de Gale
  • A Vida dos Outros
  • A Vida em uma Noite
  • A Vida Que Segue
  • Adaptation
  • Africa dos Meus Sonhos
  • Ágora
  • Alice Não Mora Mais Aqui
  • Amarcord
  • Amargo Pesadelo
  • Amigas com Dinheiro
  • Amor e outras drogas
  • Amores Possíveis
  • Ano Bissexto
  • Antes do Anoitecer
  • Antes que o Diabo Saiba que Voce está Morto
  • Apenas uma vez
  • Apocalipto
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