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sábado, janeiro 08, 2011

os juros continuam a ser os maiores do mundo

Brasil: governo Dilma anuncia ajuste fiscal drástico

por Auditoria Cidadã da Dívida [*]
O jornal Correio Braziliense de hoje faz uma cobertura completa das primeiras medidas a serem tomadas pela presidente Dilma Rousseff, confirmando todos os alertas dados por este boletim desde o ano passado, acerca do ajuste fiscal. 
Este ajuste, denunciado diversas vezes pela Auditoria Cidadã, significará um corte de cerca de R$ 30 mil milhões [€11,17 mil milhões] no orçamento de 2011 e o congelamento dos salários dos servidores públicos, que não terão reajuste neste ano. Ou seja: conforme também alertado por esta seção, o governo já aplica, de fato, o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 549/2009, ao limitar o crescimento da folha de pagamento à inflação mais 2,5% ao ano, o que impede os reajustes e provoca a perda do valor real dos salários dos servidores. 
Hoje à tarde, em entrevista coletiva à imprensa, o ministro da Fazenda negou que o montante do corte já tenha sido definido, porém, afirmou que "haverá uma posição forte do governo na redução de gastos", conforme mostra o Valor Online. Tais cortes, segundo ele, "colaborarão para a redução dos juros pelo Banco Central", ou seja: o governo insiste na idéia de que, para possibilitar a queda das maiores taxas de juros do mundo, antes seria necessário sinalizar ao "mercado" um comprometimento maior ainda com o pagamento da dívida. Segundo o jornal Correio Braziliense, "a área econômica avalia que o ajuste fiscal a ser anunciado precisa ser duro, convincente e eficaz". 
Somente depois disso é que o Banco Central poderia reduzir as taxas de juros. Porém, o país aplica a política de ajuste fiscal há mais de uma década e os juros continuam a ser os maiores do mundo. 
Durante a entrevista, o ministro afirmou que o governo vetará qualquer aumento dado pelo Congresso ao salário mínimo de R$ 540 [€201], constante da Medida Provisória nº 516, encaminhada pelo governo ao Legislativo no dia 30 de dezembro de 2010. A justificativa é sempre a de que a Previdência não tem recursos, ignorando que esta área social está inserida na Seguridade Social que é amplamente superavitária, mas cujos recursos são destinados para o pagamento da dívida por meio da DRU (Desvinculação das Receitas da União). 
O jornal Correio Braziliense também mostra a posse do novo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na qual ele avisou que aumentará os juros. Ou seja: confirmando também os alertas deste boletim já no ano passado – ainda durante o anúncio da atual equipe econômica – o "Regime de Metas de Inflação" continuará a ser seguido, mantendo-se, portanto, as altíssimas taxas de juros que poderão até aumentar ainda mais na próxima reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Este Regime utiliza a taxa de juros como único instrumento de combate à inflação, mesmo que esta seja causada pelas tarifas públicas – controladas pelo próprio governo – ou alimentos. 
Sobre a inflação de alimentos, cabe ressaltar que é inadmissível que um país como o Brasil, que produz alimentos para o mundo inteiro – inclusive para alimentar o gado dos países do Norte – não disponha de uma política de produção e estoques capaz de evitar altas de preços da comida. 
Assim, o regime de metas de inflação continua determinando os juros mais altos do mundo, satisfazendo os rentistas, desestimulando o investimento produtivo, e assim, reduzindo a oferta futura de produtos, o que é novamente utilizado como justificativa para nova alta de juros, como em um círculo vicioso. 
Não por acaso, rentistas estiveram presentes na posse e também se reuniram com Tombini e o ex-presidente Henrique Meirelles, e assim se manifestaram, conforme o jornal: 
"Antes da transição de cargo, ocorrida na tarde de ontem, Tombini e Meirelles se reuniram com ex-dirigentes do BC e presidentes dos principais bancos do país. Todos saíram satisfeitos do encontro com o novo comandante da política monetária. "A escolha de Tombini denota a importância do sistema de metas e a conciliação do combate à inflação com as metas de crescimento", disse Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco. Roberto Setúbal, presidente do Itaú Unibanco também teceu elogios. "O país está bem servido com a escolha da presidente", avaliou. 
Para Fábio Barbosa, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e do Conselho de Administração do Santander, Tombini está indo no caminho certo, representa a continuidade do trabalho de Meirelles e a "consagração do sistema de metas de inflação". 
Durante seu discurso de posse, Tombini ainda defendeu a redução da "meta de inflação" de 4,5% para 3% ao ano, ou seja: a política de juros altos terá de ser ainda mais aprofundada, para que a inflação fique em um patamar ainda menor. 
Fonte: Resistir, 05/01/2011

terça-feira, agosto 17, 2010

reinventar um PT, com ousadia

Criar cinco Embraer por ano*
por Chico de Oliveira[1]

Carta MaiorA crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o sujeito histórico que ela acreditava ter se esfarelado na história?
Chico de Oliveira – Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico. A rigor, se formos localizá-la, isso se daria na incorporação de mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos – novidade esta que influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso. Uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.
CMA essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?
Chico – A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela. Ou seja, a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da capacidade de realizá-la.
CMPor quê?
Chico – Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos Estados Unidos é a manifestação disso. De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital na periferia para financiar o Tesouro dos Estados Unidos. A China sozinha tem mais de 1 trilhão de dólares aplicados em papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local é baixíssimo.
CMA crise marca o esgotamento desse casamento China/Estados Unidos?
Chico – Ele funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitoso aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho por todos os lados do globo. Os assalariados norte-americanos simplesmente não tem fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. O novo presidente Barack Obama teria de elevar brutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente: estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; Algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século [2].
CMO que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua manifestação financeira não basta?
Chico – É isso. A contribuição do economista francês François Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante em um outro momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.
CM1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu...
Chico – Foi uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt[3]; e uma guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à la 1929; o ferramental dos anos 1930 não dá conta disso.
CMO receituário keynesiano? [4]
Chico – As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer déficits em conta corrente[5] e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumental keynesiano necessitaria para ter eficácia atualmente.
CMEstamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...
Chico – Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o fim da associação China/Estados Unidos; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.
CMQue espaço sobra para a periferia do sistema, como o Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais, e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.
CMQual a opção à paralisia?
Chico – Não existiu Getúlio Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco Embraer por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorando-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...
CMMas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico – Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país. Enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.
CMHaveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?
Chico – A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon [6]; não sua derrocada, mas um hiato para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais que isso: haveria uma potencial complementaridade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de complementaridade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do buraco.
CMInternamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figura do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista, que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 1930 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.
CMLogo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Juscelino Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco Embraer por ano e ponto final.
CME o PT faria isso?
Chico – Se depender de torcida para que aconteça, tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.
CME os recursos pra esse ciclo de investimentos pesados?
Chico – O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão.
CMOs fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de 155 bilhões de reais.
Chico – Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT desfruta igualmente de massa e representatividade.
CMEssa é uma agenda para 2010?
Chico – É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 1930 e nos anos 1950 se fez por cima; destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do PSOL e do PSTU.
CMA candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?
Chico – Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má-vontade explícita da mídia em relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que ela é. Ou então, que seja alguém como o José Sérgio Gabrielli, o Presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e quais são as variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o operador, porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de ponta-de-lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.
CM – Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?
Chico – Serra, antes que um personagem político, é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém, se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória tucana em 2010; aí, sim, estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.
*Extraído do livro O abc da crise, organizado por Sérgio Sister, publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2009.

[1] Francisco de Oliveira é sociólogo e fundador do Partido de Trabalhadores (PT) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e coordenador-executivo do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP. Esta entrevista foi publicada no site Carta Maior no dia 6 de janeiro de 2009 com a chamada “Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização”.
[2] Carta Maior levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista a produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveis pela maior parcela da população global até recentemente, estão sendo desalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia. A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60 contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21/h nos Estados Unidos e cerca de US$ 4,50/h no Brasil. Resultado: dados compilados pela Comissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não para de crescer – desde 2001, cresceu 15% nos Estados Unidos e saltou em média 8% a 10% ao ano na China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela América Latina cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para 6,5%.
[3] Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945.
[4] John Maynard Keynes (1883-1946), economista britânico, defendeu o papel regulatório do Estado na economia, por meio de medidas de políticas monetária e fiscal, a fim de mitigar os efeitos das crises econômicas.
[5] Conta corrente é o balanço total de moedas fortes (como o dólar e euro) que entram e saem de um país.
[6] Hegemonia de uma potência que pode ditar as políticas de todas as outras potências, com certo grau de consenso, capaz de derrotar qualquer outro poder.

sexta-feira, julho 30, 2010

Los déficits

Haría cualquier cosa en favor de los estímulos públicos, pero no esto...
Paul Krugman · · · · ·
 
25/07/10
 
Es realmente irrelevante para los actuales debates políticos, pero hay un asunto que me viene encocorando desde hace un tiempo, y he decidido escribir sobre él.
Ahora mismo, el debate político real es si necesitamos austeridad fiscal aun hallándose la economía en un estado de profunda depresión. Obviamente, yo me opongo a eso, porque creo que lo apropiado es, al contrario, incurrir en déficits.
Pero aquí está la cosa: hay una escuela de teoría económica que sostiene que los déficits nunca son un problema, mientras el país pueda seguir emitiendo su propia moneda. El defensor más destacado de esta corriente de pensamiento es seguramente Jamie Galbraith, pero no es el único.
Jamie y yo, creo, estamos completamente de acuerdo respecto de lo que habría que hacer ahora. Así que estamos discutiendo de teoría, no de práctica. Ello es que no puedo acompañarle en su opinión de que:
"Mientras los bancos estadounidenses estén obligados a aceptar cheques del gobierno –es decir, mientras exista la República—, el gobierno podrá gastar y gastará sin necesidad de empréstito, si así decide hacerlo (…) La insolvencia, la quiebra o aun unos tipos de interés real más elevados no constituyen un riesgo para el sistema."  
Ahora bien; yo no creo que esté en lo cierto. A fin de poder gastar, el gobierno debe convencer al sector privado para que libere recursos reales. Puede hacerlo mediante la recaudación fiscal, con empréstitos, o a través de la rentabilidad del señoreaje, imprimiendo moneda. Las tres cosas tienen sus limitaciones. Incluso un país con moneda fiduciaria propia puede quebrar, si se empeña lo bastante.
¿Cómo? Un pequeño modelo ayudará a entenderlo.
Pensemos en términos de un modelo de dos períodos, aunque no necesito decir mucho sobre el primer período. En el período 1, el gobierno toma prestado emitiendo bonos indexados (podría hacerlos nominales, pero entonces necesitaría introducir las expectativas de inflación, y terminaríamos donde estábamos). Eso significa que en el período 2, el gobierno posee un servicio de la deuda por el monto D.
El gobierno puede honrar esta exigencia de servicio de la deuda, en todo o en parte, consiguiendo un excedente primario, un exceso del ingreso respecto del gasto corriente. Supongamos, empero, que  hay un límite máximo, S, al excedente primario factible, un límite impuesto por las restricciones políticas, las circunstancias administrativas (si los impuestos son demasiado altos, todos evadirán), o por el hecho palmario de que la recaudación fiscal no puede rebasar el PIB.
Pero el gobierno dispone también de una imprenta. El ingreso real que recauda sirviéndose de la imprenta es [M(t) - M(t-1)]/P(t), en donde M es la oferta monetaria y P el nivel de precios.
¿Qué determina el nivel de precios? Supongamos una teoría cuantitativa simple, con un nivel de precios proporcional a la oferta monetaria:
P(t) = V*M(t)
Suponiendo eso, estoy partiendo del supuesto más favorable respecto de la capacidad de señoreaje, porque, en la práctica, acudir a la imprenta lleva a una caída en la demanda real del dinero (la gente empieza a servirse de sacos de carbón o de cualesquiera otros substitutos).
Vale. Preguntémonos ahora qué pasa, si el gobierno ha incurrido lo suficiente en deudas como para que el límite máximo al excedente primario sea una restricción forzosa y resulte necesario acudir a la imprenta para salir del paso. En tal caso:

[M(t) - M(t-1)]/P(t) = D – S

Pero P es proporcional a M, de modo que:

[M(t) - M(t-1)]/VM(t) = D – S

Despejando, tenemos que:

M(t)/M(t-1) = 1/[1 - V[D-S]]

¿Y qué implica eso? Puesto que hemos supuesto que el nivel de precios es proporcional a M, lo que esto nos dice es que cuánto más elevada sea la carga de la deuda, tanto más elevada tendrá que ser la tasa de inflación, y que –lo que resulta crucial— a medida que D-S se acerca a un nivel crítico, la inflación generada tiende a infinito. La cosa pinta así:
De modo que hay un nivel máximo de deuda que resulte manejable. En la práctica, si es que tiene sentido decir tal cosa en relación un modelo estilizado, en algún punto por debajo del nivel crítico implicado por el modelo, el gobierno tendría que decidir que la quiebra es una opción mejor que la hiperinflación.
Y volviendo al período 1, los prestadores tomarán en cuenta esta posibilidad. De manera que hay límites reales a los déficits, aun en los países con capacidad para imprimir su propia moneda.
Bien, estoy seguro de que habrá comentarios y réplicas en otros blogs por el estilo de: "¡Ahahá! Krugman admite ahora que los déficits causan hiperinflación! ¡Peter Schiff mola cantidad!". Pues no: en condiciones extremas, los déficits PODRÍAN causar hiperinflación; ahora no estamos, ni por mucho, cerca de una situación así. Lo único que estoy diciendo es que no estoy preparado para seguir a Jamie Galbraith hasta el final. Los déficits pueden causar una crisis; pero no es razón para recortar el gasto público ahora.
Paul Krugman fue Premio Nobel de Economía en 2008. Para leer la réplica de Galbraith, pulse AQUí: Para ver los comentarios de Randal Wray a la polémica Galbraith/Krugman, pulse AQUÍ.
Traducción para www.sinpermiso.info: Roc F.Nyerro

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