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domingo, janeiro 09, 2011

"Talvez, o imponderável nos salvará."

Edgar Morin, mestre do pensamento, às vésperas de seus 90 anos
A morte da mãe quando criança, a ocupação nazista, a Resistência. Mas também as viagens, as mulheres, os estudos que o tornaram famosos. Agora, às vésperas dos 90 anos, o "Diderot do século XX", que previu os danos da globalização, confessa ter "bebido a vida". E pensa nos mais jovens: "Nós nos iludimos com o comunismo e o consumismo. Eles perderam o futuro. Precisam de esperança".
A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 02-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
"Se eu fosse guiado só pela luz da razão, diria que o mundo vai rumo à catástrofe, que estamos à beira do abismo. Todos os elementos que temos sob os olhos nos prospectam cenários apocalípticos. Mas, na história da humanidade, existe o imprevisto, aquele fato inesperado que muda o curso das coisas. Eis porque, no fundo, sou otimista".
Mesmo quando se trata de olhar para o longo prazo, Edgar Morin não renuncia ao seu famoso "pensamento complexo", que ele teoriza já há 40 anos. Tese, antítese, síntese. A sua marca de fábrica. Unir os opostos, abraçar saberes diversos, como explicou nos seis volumes do Méthode, a obra enciclopédica escrita entre 1967 e 2006, que já lhe valeu o apelido de "Diderot do século XX".
Morin é um pensador poliédrico, culturalmente onívoro. Filósofo, sociólogo, antropólogo, uma bibliografia feita de mais de 50 títulos, ensaios que vão da elaboração do luto aos novos mitos do espetáculo, da ecologia à reforma do welfare. Em poucos meses, ele irá completar 90 anos. O Le Monde lhe dedicou um número especial. Segundo o Nouvel Observateur, ele é um dos "gigantes do pensamento" do século passado. Diante do computador, no pequeno escritório do seu apartamento da rua Saint-Claude, debaixo das velhas tipografias de Marais, ele trabalha no seu novo livro. Ele será dedicado à esperança. "Sim, gostaria de restituí-la aos jovens que sentem que perderam o futuro. Nós tínhamos a fé no progresso, nos iludimos antes com o comunismo e depois com o consumismo. A democracia ainda parecia a fórmula perfeita de convivência. Agora, esse horizonte foi arrebatado".
Jamais trocaria de lugar com um jovem de 20 anos de hoje, embora caminhe lentamente na casa vazia, ajudando-se com uma bengala. Há dois anos, morreu sua terceira esposa, Edwige Lannegrace, à qual dedicou um livro, Edwige l'inséparable. Com a modelo e atriz canadense Johanne Harelle, que conheceu nos EUA, havia passado os barulhentos anos 60 viajando pela América Latina. Grande sedutor, conta ter "bebido a vida". Não deixou faltar nada.
Nascido em 1921, na comunidade judaica sefardita do bairro de Menilmontant, correu o risco de morrer durante as fases do parto, junto com a mãe Luna, gravemente doente do coração. "Os médicos lhe haviam aconselhado a não ter filhos. Ela havia escondido a sua patologia até do meu pai Vidal". A mãe sobreviveu por milagre, acudiu o filho único como um pequeno príncipe, mas nove anos depois foi vítima de um infarto. "Aquela morte foi a minha Hiroshima", lembra. Não por acaso, o seu primeiro livro de antropologia, publicado em 1951, intitula-se L'homme et la mort e analisa, dentre outras coisas, o conceito de "resiliência", a capacidade de resistir aos choques.
Resistência
Durante a ocupação nazista, encontrou a sua segunda família. Entrou nas forças de combate da Resistência, na facção liderada por François Mitterrand. Foi assim que Edgar Nahoum, para o registro civil, tornou-se Edgar Morin, nome de batalha que manterá também depois da guerra. Aprendeu a se esconder, a comprar as informações, a antecipar os movimentos da polícia. Um dia, estava chegando a Lyon para um encontro. Teve um pressentimento, decidiu não ir. O amigo que o esperava foi capturado, torturado e morto. 
Na clandestinidade, conheceu Violette Chapellaubeau, primeira mulher e mãe das duas filhas Irène e Véronique. No dia da Libertação, entrou em Paris a bordo de um automóvel militar, hasteando a bandeira junto com a amiga escritora Marguerite Duras. Logo decidiu partir para Baden-Baden. Em 1946, dois anos antes do filme de Roberto Rossellini, escreveu O Ano Zero da Alemanha, um conta sobre o país em ruínas, uma tentativa de entender como a nação de Goethe e de Beethoven pôde provocar a barbárie do nazismo.
Até os 30 anos, acreditou no Sol do Porvir. "Fui um comunista de guerra, porque deu a prioridade à luta contra o nazismo, ignorando, porém, os defeitos do stalinismo. Mas em tempos de paz, assim que começaram os processos e as "purgas", rasguei a minha carteirinha". 
Em 1951, foi definitivamente expulso da direção do Partido Comunista Francês por ter criticado, em um artigo, o Grande Timoneiro Mao Tse Tung. "O partido era como uma igreja, um ambiente sagrado – lembra –, algo inimaginável para os jovens de hoje".
"Direitista de esquerda"
Morin escreveu naqueles anos Autocritique, memórias de um ex-comunista, gênero destinado a fazer prosélitos não só na França. Hoje, considera-se um droitier gauchiste. "À direita, porque, segundo a tradição revolucionária, quero defender as liberdades, e à esquerda, porque penso que há necessidade de radicalidade". De Karl Marx, ao qual dedicou um pequeno ensaio no ano passado, diz que "foi um formidável profeta da globalização capitalista, mas não viu que o homo faber, o homem produtor, era também ohomo economicus, e que o homo sapiens era também o homo demens, a loucura humana que se manifesta em toda a história da humanidade".
Em 2008, Nicolas Sarkozy citou a "política de civilização" teorizada por Morin em um discurso seu. Ele fez saber que não gostou. "Duvido que o presidente conheça os meus trabalhos e o significado real dessa expressão", repete ainda, com um movimento de incômodo. Para Morin, a "política de civilização" consiste no retorno da supremacia da política sobre a economia, do público sobre o privado. "Os partidos de esquerda aceitaram de cima para baixo o liberalismo, sem entender que antes era preciso discutir regras e salvaguardas dos direitos. Com a globalização econômica, tivemos coisas positivas, como a circulação das pessoas e das ideias, mas integramos também os ritmos de trabalho da China".
No seu álbum pessoal, conserva fotos com muitos líderes da esquerda francesa, de Maurice Thorez a Mitterrand, com os quais frequentemente polemizou. Porém, todas as vezes que a gauche está em dificuldade, Edgar Morin é consultado como um oráculo. Todos, também os seus inimigos, lhe reconhecem uma grande capacidade de farejar o esprit du temps, o espírito do tempo, título de um estudo seu de 1962. 
Batizou os anos 60 como a geração yé yé, os jovens dependentes do consumismo. Em 1993, publicou um panfleto sobre a Terra-Pátria, antes que o ambientalismo se tornasse uma moda. Previu o retorno dos nacionalismos e da xenofobia na Europa. "Fiquei chocado ao ver o que a França fez com os ciganos, um povo perseguido há séculos, que foi mandado aos campos de concentração pelos nazistas". Morin não tem medo de se encontrar em posições politicamente incômodas. Inclinou-se para o lado dos palestinos durante a Intifada, foi falar na universidade de Sarajevo debaixo das bombas.
Metamorfose
Enquanto fala, continua consultando os e-mails no computador. "Já sou dependente desta coisa", brinca. Ainda viaja para conferências, principalmente para o Brasil, onde há diversos cursos dedicados ao seu trabalho. Recém recebeu um convite para ir à China. O seu sonho, hoje, seria ver nascer uma nova fase da esquerda. "Não há segredos. As duas palavras que devemos redescobrir são solidariedade e responsabilidade. Em sentido ético, mas também político. A ideia de um único partido de esquerda me parece destinada ao fracasso, porque contém forças que sempre se combateram e que dificilmente podem superar as suas diversidades internas.  Pelo contrários, é preferível uma coalizão que una as esquerdas, sem que ninguém deva renegar sua própria origem, seguindo um processo que eu chamo de metamorfose".
Na natureza, explica, a lagarta se autodestrói para se tornar uma crisálida e depois uma borboleta. Muda, mas permanece o mesmo ser vivo. "É exatamente o contrário do conceito de fazer 'tábula rasa', como diz o slogan da Internacional. Eu penso, ao contrário, que devemos seguir em frente, sempre integrando o nosso passado".
O medo é a nova ideologia. Um sentimento que paralisa as consciências, a doença deste século. Quando estourou a crise, Morin se separou do coro. "É uma extraordinária oportunidade para repensar o nosso estilo de vida, o momento em que se pode finalmente aprender com os próprios erros. Infelizmente, não está acontecendo isso, e ainda estamos dentro do túnel. Lembremos que Adolf Hitler chegou ao poder de modo absolutamente legal, justamente depois de uma longa crise econômica".
Talvez, o imponderável nos salvará. Aquilo que nem acadêmicos como Edgar Morin se arriscam a prever. A pequena Atenas que resiste ao império da Pérsia, fazendo nascer a filosofia e a democracia. A URSS que, em 1941, expulsa os nazistas às portas de Moscou e preanuncia o fim da guerra. "Já aconteceu, acontecerá de novo", confia Morin, com o tom de quem ainda tem muito a estudar. Quando se está à beira do abismo, não há tempo para se entediar.
Fonte: IHU, 09/01/2011

segunda-feira, outubro 04, 2010

eleições Brasil

Balanço inicial do primeiro turno
por Emir Sader
A esquerda teve o melhor resultado eleitoral de sua história: Dilma em primeiro lugar, governadores no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, no Espírito Santo, Sergipe, Acre, boas possibilidades no Distrito Federal, possibilidades ainda no Pará, limpa impressionante e renovação com grande bancada no Senado, maiores aumentos nas bancadas parlamentares na Câmara.
A frustração veio da expectativa criada pelas pesquisas de uma eventual vitória no primeiro turno para presidente. Uma análise mais precisa é necessária, a começar pelo altíssimo numero de abstenções e também dos votos nulos e brancos que, somados, superam um quarto do eleitorado.
Mas também dos efeitos das campanhas de difamação – sobre o aborto, luta contra a ditadura, etc., assim como o efeito que o caso da Erenice efetivamente teve para diminuir o resultado final da Dilma.
A votação da Marina certamente influenciou. A leitura desse eleitorado é complexa, nem de longe se trata de onda ecológica no Brasil – as outras votações dos verdes foram inexpressivas. Juntaram-se varias coisas, desde votos verdes, esquerda light, até votos anti-Dilma, votos desencantados com o Serra, entre outros. Mas o montante alto requer uma análise mais precisa.
Para o segundo turno contam esses votos: mais da metade concentrados em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, além do DF, onde ela ficou em primeiro lugar. Qualquer que seja a decisão de apoio no segundo turno – a convocação de assembléias para definir deve confirmar a tendência a abstenção, tornando mais difícil a operação política da direção de apoiar Serra -, esse eleitorado se orientará, em grande medida, não pela decisão partidária, ficando disponível para os outros candidatos. Em 2006, nem o PSol conseguiu que seus votos deixassem de ir para outros candidatos, desobedecendo a orientação do voto em branco.
É uma ilusão considerar que o segundo turno é outra eleição. É a continuação do primeiro, em novas condições – de bipolarização. A campanha deve ser dirigida diretamente por Lula, deve ser centrada na comparação dos governos do FHC e do Lula, deve ter uma estratégia específica para o eleitorado da Marina e deve multiplicar os comícios e outros atos de massa – um diferencial importante entre as duas candidaturas.
Em 2006 o segundo turno foi muito importante para dar um caráter mais definido à polarização com os tucanos, o mesmo deve se dar agora. Que ele multiplique a votação e a mobilização, para tornar mais forte ainda a vitória da Dilma. Ela é favorita, mas devemos precaver-nos das manobras dos adversários, do uso da imprensa, das campanhas difamatórias.
Pode ser um segundo turno de polarização mais clara também, porque os debates diluíam os temas, na medida em que havia um coro de 3 candidatos colocando ênfase nas denúncias. Não soubemos colocar como agenda central o fato de que o Brasil se tornou menos injusto, menos desigual, com Lula, e que esse é o caminho central a seguir.
Outros temas do primeiro turno abordaremos em outros artigos. Este é para abrir a discussão com todos.
Emir Sader é sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP - Universidade de São Paulo.
Fonte: Carta Maior, Blog do Emir, 04/10/2010 

quarta-feira, agosto 11, 2010

falou e disse... sério!

Democracia, esquerda e direita

por Antonio Risério*

.
De uns tempos para cá, virou um certo lugar-comum dizer que essa história de direita e esquerda não existe mais, foi superada, é papo furado. Que suas políticas e projetos se confundiram. Etc. Não penso assim. Em primeiro lugar, porque, deixando de lado fanáticos dos dois lados (a espécie de gente que não me interessa, do neonazismo europeu aos catatônicos do stalinismo), a distinção me parece muito clara. Em segundo, porque, regra geral, quem diz que a distinção entre direita e esquerda se dissolveu no ar é, quase invariavelmente, de direita.
Para ressaltar com clareza a distinção, basta pensar como esquerda e direita concebem a democracia. Para a direita, a democracia é um determinado regime político. Um regime onde vigora o voto universal. Onde a liberdade de expressão floresce. Onde os direitos individuais se acham assegurados. E coisas do gênero. Vale dizer: a direita circunscreve a definição de democracia a um plano estritamente institucional. Para a esquerda, a democracia, em sua plenitude, é muito mais que isso. Articula-se na convergência da democracia política (à qual se resume a concepção de direita) e da democracia social. Ou seja: vai-se além do conceito “clássico” sobre o assunto.
Isto significa que, da perspectiva da esquerda, democracia implica a existência ou a construção de meios de combate às desigualdades sociais e econômicas. Não se trata apenas de garantir direitos políticos. O objetivo é assegurar, também, direitos sociais. É por isso que o recente processo de ascensão social, no Brasil, deve ser visto não apenas em termos sociológicos, mas, igualmente, como uma alteração significativa no horizonte político, de forte sentido democrático. Avançar no caminho democrático é, portanto, garantir o exercício da liberdade e o funcionamento livre das instituições, tanto quanto ampliar direitos sociais, da universalização dos serviços públicos ao acesso à moradia, passando, entre outras coisas, pela distribuição de renda.
Considero tudo isso muito óbvio. Assim como é óbvio que democracia não é um simples conceito, mas uma entidade que existe numa sociedade real. Daí, a implicação também óbvia, mas para a qual nem sempre se atenta: é necessário deixar que a própria estrutura social se encarregue de esclarecer a realidade democrática que pretendemos construir, em determinada circunstância histórica.
A construção democrática é não somente uma práxis incessante, como deve se ajustar a situações nacionais específicas e objetivas. No caso brasileiro, construir democracia, hoje, é o mesmo que construir cidadania.
É ir além da afirmação prática dos direitos individuais, para chegar à realidade mais viva dos direitos sociais. E, assim, à configuração mais plena de uma democracia de massas.
Cidadania implica voto, claro. Mas as coisas não param no rito eleitoral. Desigualdade social é sinônimo de desigualdade política.
Logo, uma negação da vida democrática plena.
Construir democracia é construir cidadania. E construir cidadania é avançar no caminho da inclusão, em todas as suas dimensões. Inclusão social, educacional, cultural, digital etc. O que equivale a dizer que, para prosseguir no processo de construção da verdadeira democracia brasileira, devemos providenciar meios para aumentar a participação de todos na riqueza nacional. É tão simples assim.
Escrevo essas coisas apenas porque perdi a paciência para ver políticos, artistas e intelectuais dizendo que não existe mais “essa coisa de direita e esquerda”. Existe, sim. E um bom teste para saber quem é quem, em noite de gatos supostamente pardos, é checar o que a pessoa entende por democracia. No caso de políticos e governantes, em especial, não apenas em plano retórico, que essa gente é craque em malabarismos discursivos, mentindo sem pudor. Mas, sobretudo, no campo do fazer. Ou, como diria Antonio Vieira, no campo da matrícula das ações de cada um. Aqui, sim, não há lugar para conversa fiada. E ninguém, como costuma dizer um amigo meu, vai confundir chacais com passarinhos.
Perdi a paciência para ver políticos, artistas e intelectuais dizendo que não existe mais “essa coisa de direita e esquerda”. Existe, sim.
E um bom teste é checar o que a pessoa entende por democracia
.
*Antonio Risério é Escritor, e-mail: ariserio@terra.com.br
Fonte: EcoDebate, 11/08/2010.

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