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quinta-feira, abril 07, 2011

vale a pena parar para pensar por um momento, sobre todos os aspectos

A VERDADE, AINDA INCONVENIENTE

por Paul Krugman

A piada começa assim: um economista, um advogado e um professor de marketing entram em uma sala. Qual é a graça? Eles são três dos cinco "especialistas" que o Partido Republicano convocou na semana passada para uma audiência sobre ciência do clima no Congresso.
Mas a piada terminou se voltando contra os republicanos quando um dos dois verdadeiros cientistas que eles convocaram a depor abandonou o roteiro predeterminado.
O professor Richard Muller, da Universidade da Califórnia em Berkeley, um físico que aderiu ao campo dos céticos quanto à mudança climática, comanda o projeto de medição de temperatura da superfície da terra da universidade, financiado em parte por não menos que a fundação Koch. E aqueles que negam que o planeta esteja sofrendo mudanças climáticas - e alegam que os pesquisadores da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) e outras organizações que analisam as tendências do clima manipularam e distorceram dados - esperavam que o projeto de Berkeley levasse à conclusão de que o aquecimento global é um mito.
Em lugar disso, no entanto, o professor Muller reportou que as constatações preliminares de sua equipe apontam para uma tendência de aquecimento global "bastante semelhante à reportada por grupos anteriores".
A resposta daqueles que negam o problema foi tanto previsível quanto reveladora; falarei mais sobre isso adiante. Primeiro, vamos discutir um pouco mais a lista de peritos, a qual desperta a mesma questão que eu e outras pessoas já propusemos sobre o número de audiências realizadas pelos comitês da casa desde que os republicanos se tornaram maioria na Câmara dos Deputados: onde é que eles encontram essas pessoas?
Minha favorita continua a ser a primeira audiência organizada pelo deputado Ron Paul sobre política monetária, na qual o principal depoimento veio de um homem mais conhecido por escrever um livro no qual o presidente Abraham Lincoln é denunciado como "horrendo tirano", e por advogar um novo movimento de secessão como resposta correta ao "novo estado fascista norte-americano".
Os não cientistas convocados a depor na semana passada não eram exatamente desse calibre, mas seus depoimentos pré-preparados ainda assim contiveram diversos momentos memoráveis. Um foi a declaração de um advogado no sentido de que a EPA (Agência de Proteção Ambiental) não pode declarar que as emissões dos gases causadores do efeito estufa representam risco de saúde porque elas vêm crescendo há um século mas ainda assim a saúde pública melhorou ao longo do período. Não estou inventando.
Oh, e o professor de marketing, ao oferecer uma lista de casos passados de "analogias para o alarme quanto ao perigoso aquecimento global causado pelo homem", aparentemente com o objetivo de provar por que deveríamos ignorar as preocupações quanto ao tema, incluiu questões como a chuva ácida e o buraco na camada de ozônio, os quais foram contidos exatamente devido à regulamentação ambiental.
Mas de volta ao professor Muller: suas credenciais como cético com relação às questões climáticas são fortes: ele criticou tanto Al Gore quanto meu colega Tom Friedman por seus "exageros", e participou de alguns ataques às pesquisas sobre o clima, entre os quais a caça às bruxas motivada por uma troca de e-mails inócuos entre pesquisadores britânicos do clima. Não surpreende, portanto, que aqueles que negam a mudança climática tivessem forte esperança de que o projeto dele serviria para sustentar seus argumentos.
É fácil adivinhar o que aconteceu quando essas esperanças foram frustradas.
Algumas semanas atrás, Anthony Watts, que opera um dos mais conhecidos sites de contestação à mudança climática, havia elogiado o projeto de Berkeley e declarado devotadamente que estava "disposto a aceitar o resultado que ele produzir, não importa qual seja, ainda que prove que minha premissa está errada". Mas não foi bem isso o que aconteceu: ao saber que o professor Muller apresentaria resultados preliminares que o desagradariam, descartou a audiência como "apenas o teatro político habitual". E um dos colaboradores regulares do site criticou o professor Muller, definindo-o como "homem conduzido por uma agenda política muito séria".
Na verdade, fica claro que aqueles que negam a mudança climática é que se deixam conduzir por agendas políticas, e ninguém que venha acompanhando esse debate se deixou iludir nem por um momento quanto a aceitarem resultados que confirmem o aquecimento global. Mas vale a pena parar para pensar por um momento, e não apenas sobre o aspecto científico do debate nesse caso, e sim também sobre o aspecto moral.
Já há anos, grande número de cientistas conhecidos tem alertado, com veemência crescente, de que se continuarmos a agir como temos agido, os resultados serão muito ruins, possivelmente catastróficos. Pode ser que estejam errados. Mas se a pretensão é asseverar que estão de fato errados, seria obrigatório abordar a questão com mente aberta e toda a seriedade. Afinal, caso estejam certos, desconsiderar seus avisos poderia resultar em danos graves.
Mas o que encontramos, em lugar de seriedade, foi uma farsa: uma audiência supostamente crucial que envolvia o depoimento de pessoas que não tinham credenciais para estar presentes, e ostracismo instantâneo para um cientista cético quanto à mudança climática que se demonstrou disposto a mudar de opinião diante das provas. Surpresa nenhuma: como afirmou o escritor Upton Sinclair muito tempo atrás, é difícil fazer com que um homem compreenda alguma coisa quando seu salário depende de que ele não a compreenda.
Mas é aterrorizante perceber que essa modalidade de carreirismo cínico - pois é disso que se trata - provavelmente já garantiu que não façamos coisa alguma quanto à mudança do clima até que a catástrofe seja inevitável.
Por isso, eu talvez estivesse errado ao dizer que a piada se voltou contra os republicanos; na verdade, a vítima da piada é a espécie humana.
Tradução de Paulo Migliacci
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos publicados em jornais especializados.
Fonte: Estadão | Colunas, 04/04/2011

segunda-feira, abril 04, 2011

urbanização segue rumo de alto risco devido às transformações no clima

CIDADES NÃO ESTÃO PRONTAS PARA AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

“Nas próximas décadas, as mudanças climáticas irão fazer com que centenas de milhões de pessoas, na sua maioria as mais pobres e marginalizadas, fiquem cada vez mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos de terra e outros desastres naturais. Esta é a previsão que fazemos baseados na melhor ciência que temos disponível”, alerta Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, no prefácio do relatório Cidades e Mudanças Climáticas, produzido pelo UN-Habitat.
Se os cálculos das emissões de gases do efeito estufa das cidades englobarem processos como o consumo e geração de energia, os transportes e a produção industrial, as áreas urbanas aparecerão como as grandes vilãs mundiais, ficando responsáveis por 70% das emissões sendo que ocupam apenas 2% do território do planeta.
É justamente como protagonistas das mudanças climáticas que o relatório Cities and Climate Change: Global Report on Human Settlements 2011 (Cidades e Mudanças Climáticas: Relatório Global sobre as Ocupações Humanas 2011) apresenta as cidades. Produzido pelo UN-Habitat, programa da ONU direcionado para promover o desenvolvimento social e ambiental das cidades, o documento afirma que o modelo atual de urbanização está seguindo um rumo de alto risco devido às transformações no clima.
“Nas próximas décadas, as mudanças climáticas irão fazer com que centenas de milhões de pessoas, na sua maioria as mais pobres e marginalizadas, fiquem cada vez mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos de terra e outros desastres naturais. Esta é a previsão que fazemos baseados na melhor ciência que temos disponível”, alerta Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, no prefácio do relatório.
O aumento populacional nas cidades e como consequência a ocupação de áreas de risco são fatores apontados pelo documento que tornarão cada vez maiores os números dos flagelados. Segundo dados da ONU, 59% da população mundial habitará áreas urbanas até 2030, sendo que a cada ano mais 67 milhões de pessoas passam a viver em cidades.
Baseado nessas estatísticas e nos fenômenos climáticos extremos que foram observados nos últimos anos, o estudo do UN-HABITAT traça um panorama sombrio para o futuro das áreas urbanas:
- Mais de 200 milhões de pessoas devem perder suas casas por causa das mudanças climáticas até 2050;
- Mesmo o mínimo aquecimento de 1°C ou 2°C na temperatura pode fazer com que de 6 a 25 milhões de pessoas fiquem sujeitas a inundações apenas no litoral do norte da África;
- Atualmente 40 milhões de pessoas vivem em áreas onde podem ocorrer grandes enchentes, em 2070 essa população será de 150 milhões, elevando os prejuízos para até US$ 38 trilhões;
- Na América Latina, entre 12 a 81 milhões de pessoas podem sofrer com a escassez de água até 2020. Em 2050 esse número deve ser de 79 a 178 milhões.
Corrida contra o tempo
Esse cenário pode ainda ser alterado, pois o lado positivo das cidades serem responsáveis por 70% das emissões é que ações vigorosas bem direcionadas podem surtir um grande efeito.
“O nosso relatório procura disseminar o conhecimento e contribuir para que as cidades consigam mitigar o aquecimento global e se adaptar às mudanças climáticas. Além disso, identificamos medidas já existentes e que podem ser replicadas em mais locais”, explicou Joan Clos, diretor executivo do UN-Habitat.
Entre essas políticas o relatório destaca, por exemplo, a cobrança de pedágio para a circulação de veículos privados nos centros das grandes metrópoles européias. Além de reduzir as emissões e melhorar a mobilidade urbana, os recursos adquiridos podem ser destinados para ações sustentáveis.
Outra medida citada é a reforma de prédios públicos e a obrigatoriedade de adoção de padrões de eficiência energética para novas construções. A cidade de Londres apresenta neste sentido uma política exemplar pela qual o governo financia a troca de antigos aquecedores residenciais por modelos mais modernos e eficientes. Com isso, as emissões dos domicílios londrinos podem ser reduzidas em 60%.
Com relação à adaptação às mudanças climáticas que já são irreversíveis, o UN-Habitat recomenda algumas normas simples principalmente para a construção de casas populares em países em desenvolvimento. Melhores fundações, aterramento mais elevado e colocação de plataformas sob os móveis são medidas simples que podem evitar com que as pessoas percam tudo o que possuem em cada enchente.
“Muitas cidades não conseguem colocar em prática medidas de adaptação ou mitigação simplesmente por falta de conhecimento ou de acesso aos recursos internacionais que tem esse fim. Nosso relatório pode ajudar neste sentido, divulgando as melhores práticas já existentes e facilitando o intercâmbio de informações. É fundamental que as cidades percebam o quão importante é o papel delas para combater as mudanças climáticas”, concluiu Joan Clos.
Fotos: La Paz, Bolívia / Wikimedia Commons – Arria Belli 
Fonte: Carta Maior | Meio Ambiente, 30/03/2011

domingo, janeiro 23, 2011

a idéia de que as mudanças climáticas seja natural é ridícula

Alerta que vem da lama

Biogeógrafo americano Jared Diamond afirma que estamos sob risco de suicídio ecológico, mas há saída

por Ivan Marsiglia e Carolina Rossetti

Dilúvio. Capela de Santo Antônio, em Nova Friburgo, dia 21: 'Precisamos estar preparados para um número cada vez maior de tragédias relacionadas a mudanças climáticas'.

Rubbish! É a resposta - em bom inglês - do biogeógrafo americano Jared Diamond para a pergunta sacada com frequência pelos "céticos do clima" no afã de congelar o debate ambiental: o aumento da temperatura do planeta, ao qual se atribui a intensificação dos ciclos de calor e frio testemunhada hoje por toda a parte, pode ser o resultado de um ciclo natural da Terra? Rubbish - lixo, besteira. "A ideia de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje são naturais é tão ridícula quanto a que nega a evolução das espécies", fustiga o autor de Colapso (Record, 2005), um tratado multidisciplinar de 685 páginas na edição brasileira que analisa as razões pelas quais grandes civilizações do passado entraram em crise e virtualmente desapareceram. E a questão assustadora que emerge de seu olhar sobre as ruínas maias, as estátuas desoladoras da Ilha de Páscoa ou os templos abandonados de Angkor Wat, no Camboja, é: será que o mesmo pode acontecer conosco?
A resposta de Diamond, infelizmente, é sim. Ganhador do Prêmio Pulitzer por sua obra anterior, Armas, Germes e Aço (Record, 1997), em que focaliza as guerras, epidemias e conflitos que dizimaram sociedades nativas das Américas, Austrália e África, o cientista americano há anos nos adverte sobre os cinco pontos que determinaram a extinção de civilizações inteiras. O primeiro, é a destruição de recursos naturais. O segundo, mudanças bruscas no clima. O terceiro, a relação com civilizações vizinhas amigas. O quarto, contatos com civilizações vizinhas hostis. E, o quinto, fatores políticos, econômicos e culturais que impedem as sociedades de resolver seus problemas ambientais. Salta aos olhos em sua obra, portanto, a centralidade que tem a ecologia na sobrevivência dos povos.
Foi na semana subsequente à pior catástrofe natural da história do País, na região serrana do Rio de Janeiro - a mesma em que um arrepiante tornado surgiu nos céus de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense -, que Jared Diamond falou por telefone ao Aliás. Às vésperas do lançamento no Brasil de um de seus primeiros livros, O Terceiro Chimpanzé (1992), o professor de fisiologia e geografia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, fala das providências cruciais que o ser humano deverá tomar nos próximos anos para garantir sua existência futura. Diz que as elites políticas, seja nos EUA, na Europa, nos países pobres e nos emergentes, tendem a tomar decisões pautadas pelo retorno em curto prazo - até um ponto em que pode não haver mais retorno. Avalia que o Brasil dos combustíveis verdes tem sido "uma inspiração para o mundo", mas também um "mau exemplo" na preservação de suas florestas tropicais. E fala da corrida travada hoje, cabeça a cabeça, entre "o cavalo das boas políticas e aquele das más", que vai determinar o colapso ou a redenção das nossas próximas gerações.
O Brasil enfrentou tempestades de verão que mataram mais de 700 pessoas. Debarati Guha-Sapir, do Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres da ONU, disse que o tamanho da tragédia é indesculpável, pois o País tem apenas um desastre natural para gerenciar. Como evitá-lo no futuro?
Precisamos estar preparados para um número cada vez maior de tragédias humanas relacionadas a mudanças climáticas. O clima se tornará mais variável. O úmido será mais úmido e o seco, mais seco. A Austrália, por exemplo, acaba de sair da maior seca de sua história recente e agora enfrenta o período mais úmido já registrado no país. Em Los Angeles, onde moro, recentemente tivemos o dia mais quente da história e, há algum tempo, o ano mais chuvoso e também o mais seco que a cidade já viu.
Em seus escritos, o sr. aponta a Austrália como um país com estilo de vida antagônico às suas condições naturais. Mas, em comparação com o Brasil, os australianos se saíram melhor: enfrentaram a pior enchente em 35 anos, mas contabilizaram apenas 30 mortos. Como explicar isso?
É verdade que o modo de vida dos australianos não está em harmonia com suas condições naturais. Mas o estilo de vida dos americanos e dos brasileiros tampouco. O modo de vida do mundo não está em harmonia com as condições naturais deste próprio mundo. No caso da Austrália, o país fica no continente que tem o meio ambiente mais frágil, o clima mais variável e o solo menos produtivo. Mas a Austrália é um país rico e dispõe de mais dinheiro que o Brasil para criar uma infraestrutura que gerencie tais problemas. Em Los Angeles, onde as enchentes são recorrentes, não resta um rio em seu leito natural: todos receberam canais de concreto para reduzir o risco de enchentes. A minha casa fica literalmente em cima de um córrego coberto por uma estrutura de concreto. Nos 34 anos em que vivi nessa casa, apenas duas vezes a água invadiu o porão.
Em Colapso, o sr. lista cinco razões que explicam o declínio das sociedades. Elas continuam as mesmas?
Sim. Os cinco fatores que levo em consideração ao tentar entender por que uma sociedade é mais ou menos propícia a entrar em colapso são, em primeiro lugar, o impacto do homem sobre o meio ambiente. Ou seja, pessoas precisam de recursos naturais para sobreviver, como peixe, madeira, água, e podem, mesmo que não intencionalmente, manejá-los erradamente. O resultado pode ser um suicídio ecológico. O segundo fator que levo em conta é a mudança no clima local. Atualmente, essa mudança é global, e resultado principalmente da queima de combustíveis fósseis. O terceiro fator são os inimigos que podem enfraquecer ou conquistar um país. O quarto são as aliados. A maioria dos países hoje depende de parceiros comerciais para a importação de recursos essenciais. Quando nossos aliados enfrentam problemas e não são mais capazes de fornecer recursos, isso nos enfraquece. Em 1973, a crise do petróleo afetou a economia americana, que dependia da importação do Oriente Médio de metade dos combustíveis que consumia. O último fator recai sobre a capacidade das instituições políticas e econômicas de perceber quando o país está passando por problemas, entender suas causas e criar meios para resolvê-los.
O colapso da sociedade como hoje a conhecemos é evitável ou apenas prorrogável?
É completamente evitável. Se ocorrer, será porque nós, humanos, o causamos. Não há segredo sobre quais são os problemas: a queima exagerada de combustíveis fósseis, a superexploração dos pesqueiros no mundo, a destruição das florestas, a exploração demasiada das reservas de água e o despejo de produtos tóxicos. Sabemos como proceder para resolver essas coisas. O que falta é vontade política.
O Brasil tem feito sua parte? 
Nunca estive no Brasil, portanto não posso falar a partir de uma experiência de primeira mão. Mas pelo que entendo, vocês adotaram uma solução imaginativa para a questão energética, com a produção de etanol. O Brasil é uma inspiração para o resto do mundo em relação aos carros flex. Por outro lado, mesmo que o País esteja consciente dos riscos de se desmatar a maior floresta tropical do mundo, muito ainda precisa ser feito. A Amazônia é muito importante para os brasileiros, pois ela regula o clima do país. Se a destruírem, o Brasil inteiro sofrerá com as secas.
De que maneira as elites tomadoras de decisão podem encabeçar a solução dos problemas ou ser responsáveis por conduzir sociedades à autodestruição?
Uma elite que foi competente em solucionar problemas é a composta por políticos dos Países Baixos, que têm grandes dificuldades com o manejo de água, já que um terço da área desses países está abaixo do nível do mar. A Holanda investiu uma quantidade enorme de dinheiro no controle de enchentes. Uma coisa que motivou os políticos holandeses é que muitos deles vivem em casas que estão sob o nível do mar. Eles sabem que se não resolverem a coisa vão se afogar com os demais. Outra elite razoavelmente bem-sucedida é a realeza do Butão, nos Himalaias. O rei butanês disse ao seu povo que o país precisa se tornar uma democracia quer queira, quer não. Ele também anunciou que a meta do país não é aumentar o PIB, mas elevar o índice que mede a felicidade nacional. Isso é verdadeiramente uma meta maravilhosa. Nos EUA, temos políticos poderosos com uma visão curta e destrutiva. Acho que contamos com um bom presidente, mas temos uma oposição cujos objetivos no presente momento se resumem a ganhar a próxima eleição presidencial e, repetidamente, tem negado a existência da mudança climática e do aquecimento global.
De que forma o declínio de sociedades antigas pode nos servir de lição?
Algumas sociedades do passado cometeram erros decisivos, outras agiram com sabedoria e tiveram longos períodos de estabilidade. Um vizinho de vocês, o Paraguai, é um exemplo de país que cometeu um erro crucial, há 120 anos: lutar simultaneamente contra Brasil, Argentina e Uruguai. Isso resultou na morte de 80% dos homens e um terço da população. Tomando como exemplo o Paraguai, precisamos aprender a adotar metas realistas. Podemos aprender também com os países que manejam bem seus recursos, como a Suécia e a Noruega, ou tomar como mau exemplo a Somália - que desmatou suas florestas e hoje sofre com a seca. Em defesa da Somália, podemos argumentar que o país não conta com um grande número de ecologistas capacitados, ao contrário de Brasil e EUA.
O sr. estudou a ascensão e queda de sociedades no passado, mas o que se discute agora é o futuro da própria humanidade. Sua teoria é capaz de explicar os desafios do mundo globalizado?
Sim. É verdade que esta é a primeira vez na história que enfrentamos o risco de o mundo inteiro entrar em colapso. No passado, o colapso do Paraguai, por exemplo, não teve nenhum efeito na economia da Índia ou da Indonésia. Hoje, até mesmo quando um país remoto, como a Somália ou o Afeganistão, entra em colapso isso repercute ao redor do mundo. Mas, por analogia, é possível tirar conclusões semelhantes.
O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001) enfatizou aspectos socioculturais para explicar os dilemas da sociedade, enquanto seu trabalho é considerado por alguns como geodeterminista. Aspectos culturais não teriam mais influência sobre o futuro das sociedades que os naturais?
Com frequência as pessoas me perguntam se isso ou aquilo é mais importante para explicar o declínio das sociedades. Questões como essas são ruins. É o mesmo, por exemplo, que perguntar sobre as causas que levaram ao fracasso de um casamento. O que é mais importante para manter um casamento feliz? Concordar sobre sexo ou dinheiro, ou crianças, ou religião, ou sogros? Para se ter um casamento feliz é preciso estar de acordo a respeito de sexo e crianças e dinheiro e religião e sogros. O mesmo se dá no entendimento do colapso de sociedades. Fatores culturais são importantes, mas diferenças ambientais não podem ser ignoradas. Por exemplo, as regiões Sul e o Sudeste do Brasil são mais ricas que a Norte. Isso é por causa do meio ambiente, não porque as pessoas no norte sejam burras e as do sul mais inteligentes ou cultas. A explicação é que o norte do país é mais tropical e áreas tropicais tendem a ser mais pobres porque têm menos solos férteis e mais doenças. O mesmo é verdade nos EUA, onde até 50 anos atrás o sul foi sempre mais pobre que o norte. Ao redor do mundo, esse padrão é repetido: países tropicais tendem a ser mais pobres que os de zonas temperadas.
Que sociedades estão em colapso hoje?
Todas as sociedades do mundo estão em risco de colapso. Se a economia mundial colapsar isso afetará todos os países. Nós vimos o que houve dois anos atrás, quando o mercado financeiro americano quebrou, afetando todas as bolsas do mundo. Então, embora todos os países estejam em risco de colapso, alguns estão mais próximos dele do que outros - por uma maior fragilidade ambiental, porque são menos maduros política ou ecologicamente ou por qualquer outro motivo. Por exemplo, o Haiti, que retornou agora às manchetes com a volta do ditador Baby Doc, viu seu governo virtualmente colapsar e continua em grande dificuldade. O México enfrenta dificuldades gravíssimas relacionadas a problemas ecológicos, com a aridez de suas terras, e políticos, com a onda de assassinatos ligada ao tráfico de drogas. Paquistão é um exemplo óbvio, Argélia, Tunísia, que também estão no noticiário... Do outro lado, dos países com menos risco de colapso estão a Nova Zelândia, o Butão e, na América Latina, a Costa Rica. Chile também vai bem. E o Brasil tem melhores perspectivas que vizinhos como a Bolívia, claro.
Países podem se recuperar do colapso?
O colapso normalmente não é definitivo. Houve colapsos no passado que foram sucedidos por retomadas. O Império Romano caiu e, apesar disso, a Itália é hoje um país de Primeiro Mundo.
A Europa, onde o debate a as leis de proteção ambiental mais avançaram, também entrou em crise. Quando isso ocorre, há risco de retrocesso nas políticas ambientais?
É possível. Muita gente sustenta que, quando a economia está fraca, não se consegue investir como se deve no meio ambiente. O colapso econômico de fato põe em risco os avanços em sustentabilidade. Só que os problemas ambientais só são fáceis de resolver nos estágios iniciais. Nesse ponto custam menos, mas se aguardamos 20 ou 30 anos, eles se tornarão muito caros ou impossíveis de solucionar.
Nos EUA, quando o presidente Obama condicionou empréstimos às montadoras americanas ao investimento em carros mais baratos e menos poluentes, a crise não ajudou?
Tanto as crises econômicas podem ter bons efeitos para a política ambiental como fazê-la retroceder. Nos EUA, antes do crash financeiro, estava muito em moda o Hummer, um jipe de 3 toneladas, versão civil de um veículo militar utilizado no Iraque. Era caríssimo e gastava horrores em combustível. Aparentemente, suas vendas despencaram e isso é um efeito positivo da crise econômica. Ainda assim, há americanos ignorantes que ainda insistem em dizer que, uma vez que estamos em crise, podemos deixar a agenda ecológica de lado.
Há modelos econômicos melhores e piores no que diz respeito aos danos ecológicos?
No momento em que falamos, tenho que dizer que o modelo econômico americano não parece ser o mais adequado. Por outro lado, somos uma democracia, com maus políticos, mas também bons - que denunciam os problemas que põem em risco o futuro. Numa ditadura comunista, por exemplo, isso seria impossível. Gosto do sistema capitalista porque ele pressupõe competição, inclusive de ideias. Mas aprecio também o papel do Estado em interferir no capitalismo, evitando os monopólios e enfrentando grupos cujos interesses vão de encontro aos da maioria da população. Em comparação, eu diria que o modelo europeu de capitalismo, mais socializado e comprometido com o bem comum, é atualmente a alternativa menos ruim.
Alguns cientistas afirmam que não se pode dizer ao certo que o aquecimento global seja culpa da ação do homem; pode ser parte de um ciclo natural da Terra. 
Sabe a palavra inglesa rubbish? Significa lixo, mas é usada em linguagem coloquial em referência a ideias ridículas. O argumento de que as mudanças climáticas que estamos presenciando hoje sejam apenas naturais é simplesmente ridículo. Tanto como aquele que nega a evolução das espécies. As evidências de que tais mudanças se devem a causas humanas são irrefutáveis. Os anos mais quentes registrados em centenas de anos se concentram nos últimos cinco que passaram. O planeta já enfrentou flutuações de temperatura no passado, mas nunca nos padrões registrados hoje. Não conheço um único cientista respeitável que afirme que as atuais mudanças de clima não se devam à ação humana. É por isso que eu digo: rubbish.
Seis anos depois do lançamento de Colapso, o sr. está mais otimista ou pessimista em relação ao futuro de nossa civilização? 
Diria que me mantenho mais ou menos no mesmo nível. Tenho visto coisas ruins piorarem e boas tornarem-se melhores. O que mais me preocupa é que continuamos vendo um aumento vertiginoso do consumo no mundo, seja nos EUA, na China, na Índia ou no Brasil. O que me anima é que cada vez mais pessoas reconhecem a gravidade da situação e estão tomando iniciativas. Uma metáfora que gosto de usar é a da corrida de cavalos. Há dois deles correndo agora, o cavalo da destruição e o cavalo das boas políticas. Nestes últimos seis anos, eu diria que os dois têm corrido cada vez mais rápido, disputando cabeça a cabeça. Não sei qual vencerá a corrida, mas diria que as chances do cavalo do bem vencer são de 51%, enquanto o das más políticas tem 49%. E, se nossa destruição não é certa, nem um destino inescapável, é preciso saber que se não tomarmos medidas urgentes vamos ter grandes problemas.
A indústria do entretenimento mostra, cada vez mais, imagens do fim do mundo, prédios em ruínas, cidades abandonadas. Por que somos tão fascinados por nossa destruição?
Parte disso se deve à força romântica das imagens de civilizações passadas que entraram em colapso, como as ruínas dos maias, incas e astecas. Ou os escombros das guerras no Iraque e no Irã. E pensamos: quem construiu aqueles templos e monumentos, tinha uma cultura e arte admiráveis, podia imaginar que isso aconteceria? Por que essas civilizações entraram em colapso, sem poder evitar? E nos angustiamos: será que isso também vai acontecer conosco?
Fonte: Estadão, 22/01/2011

quarta-feira, janeiro 05, 2011

aquecimento global é um assunto “frio” ?

Ambientalistas e cientistas estão preocupados com queda do interesse público pelas mudanças climáticas

Environmentalists and scientists are worried about falling public interest in climate change
Grupos ambientalistas tentam tornar a mudança climática atraente – A quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera continua crescendo, mas o interesse público pela mudança climática está diminuindo. Os ambientalistas estão buscando novas formas de tornar o assunto mais atraente. Mas as táticas de choque podem ser um tiro pela culatra.
A mudança climática costumava sair nas manchetes. Mas hoje em dia o assunto parece ter sumido do radar. Reportagem de Axel Bojanowski, no Der Spiegel.
Líderes mundiais negociaram recentemente um novo acordo do clima na Conferência da ONU para a Mudança Climática em Cancun, México, mas o interesse do público pelo assunto foi limitado. Foi uma diferença marcante em relação à conferência climática de Copenhague, em dezembro de 2009, que foi considerada de importância histórica às vésperas do encontro, para depois fracassar de forma espetacular. O roubo de e-mails da Universidade de East Anglia prejudicou muito a imagem da pesquisa climática pouco antes da cúpula.
Ambientalistas e cientistas estão preocupados com uma queda massiva do interesse público pelo assunto durante o último ano. Agora eles estão buscando novas estratégias para mudar essa tendência. Eles estão procurando as chamadas “bombas mentais” – imagens muito fortes emocionalmente, que reduzem um problema complexo a uma mensagem essencial.
Fontes de sangue
Algumas organizações ambientais estão colocando suas apostas no fator do choque. Um comercial de uma campanha da organização ambientalista 10:10, com sede na Inglaterra, mostra um professor inflando dois alunos que não acreditavam em cortar suas emissões de carbono, com fontes de sangue espirrando por toda a sala. Outros vídeos da 10:10 dão o mesmo destino a funcionários de escritório e jogadores de futebol recalcitrantes. Mas a campanha fracassou – ela gerou protestos massivos e foi rapidamente retirada.
Um anúncio de TV do Greenpeace que tinha como alvo a multinacional Nestlé teve mais sucesso. O Greenpeace queria que o vídeo, no qual uma barra de chocolate se transforma no dedo ensanguentado de um gorila, fosse entendido como um símbolo dos danos à floresta tropical, onde a coleta de óleo palmeira para produzir chocolate destrói os habitats dos grandes símios. Depois que o vídeo causou uma reação considerável, a Nestlé prometeu parar de usar produtos que prejudiquem as florestas tropicais.
Anúncios de TV como o do Greenpeace atraem a atenção por um tempo curto, mas não são suficientes para deter a tendência da mídia de ignorar os assuntos climáticos, confirma Sebastian Metzger da organização co2online de Berlim, que mede regularmente o interesse do público pelo tema usando seu “barômetro do clima”.
“Cha-a-a-ta”
Os pesquisadores do clima confirmam um declínio perceptível nesse interesse. Hans Joachim Schellnhuber, diretor do respeitado Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto no Clima, lembra que seu telefone costumava tocar sem parar sempre que havia condições climáticas extremas. Agora quase ninguém liga, diz ele.
O aquecimento global é um assunto “frio” em termos de mídia, explicou recentemente um editor do jornal diário Tagesspiegel num programa de TV alemão. Na mesma linha, o grande jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung perguntou ironicamente em relação à cúpula de Cancun: “Espere, isso não tinha alguma coisa a ver com o clima?”
Enquanto os jornalistas debatem se o assunto da mudança climática se adequa à mídia, o New York Times citou um diretor de filmes de ciência que chamou a pesquisa sobre o clima de “cha-a-a-ta” e “provavelmente o assunto mais entediante que o mundo científico já apresentou ao público”. O problema de comunicação nessa área pode ser resolvido, mas exige que a pessoa ou o grupo certo encontrem a abordagem adequada para atingir o público.
O Greenpeace não parece ser esse grupo. Embora a organização esteja atraindo doações recordes, apenas 1% dos alemães associam o Greenpeace à proteção climática, reclama um especialista da organização ambientalista. O tópico é difícil de transmitir, disse ele, acrescentando que o Greenpeace tem uma nova campanha que deve finalmente atingir o “consumidor Zé da Silva médio”.
Estratégia falha
Uma pesquisa feita com 13 mil pessoas em 18 países, apresentada pela rede de televisão pública internacional alemã Deutsche Welle no Fórum Global de Mídia em Bonn em junho, sugere que os cidadãos comuns estão menos interessados na mudança climática do que se imaginava. A pesquisa mostrou, por exemplo, que apenas um em cada três holandeses estão preocupados com a mudança climática – embora a Holanda seja especialmente considerada uma área de risco por causa do aumento do nível do mar.
A revista científica britânica Nature identificou dois motivos para esta perda de credibilidade. Um deles foram os erros, que vieram a público há mais ou menos um ano, no relatório do clima da ONU de 2007. O outro foi o escândalo conhecido como “Climagate”, que envolveu o roubo de e-mails de pesquisadores do clima na Universidade de East Anglia. O vazamento de correspondência revelou a grande divisão entre os cientistas, que fazia com que eles escondessem alguns dados e defendessem seus próprios resultados a todo custo.
O pesquisador de comunicação Martin Ludwig Hofmann da Universidade Ostwestfalen-Lippe de Ciências Aplicadas acredita que o escândalo causou um sério prejuízo. “A estratégia de comunicação até lá dependia principalmente da credibilidade dos cientistas”, diz Hofmann. O London Times considerou os danos de relações públicas piores do que o da BP depois do vazamento de óleo no Golfo do México.
Sexo, emoção e um novo Messias
Os ambientalistas inventaram várias abordagens para tornar o tópico da mudança climática atraente novamente. A Spiegel Online apresenta um resumo de suas ideias.
* Uma mensagem emotiva: ambientalistas de cabelos longos em botes de borracha entraram numa área de caça a baleias no norte do Pacífico, capturando imagens de baleias sangrando até a morte por ferimentos de arpão. Essas fotos serviram de base para a campanha “Salve as Baleias” do Greenpeace. Foi uma “bomba mental” que encontrou um alvo direto, e as fotos de baleias tornaram não só a campanha, mas também o Greenpeace mundialmente famosos.
Mas o que funcionou para a conservação das baleis não deu certo para a proteção climática – todos os motivos simbólicos propostos fracassaram. Um urso polar sozinho num pedaço de gelo flutuante é “distante demais das pessoas”, diz Metzger da co2online. A imagem de uma nuvem de furacão – que Al Gore usou para divulgar seu filme “Uma Verdade Inconveninente” – só faz sentido em algumas regiões do mundo. O impressionante gráfico em formato de taco de hóquei das temperaturas globais, chamado assim por causa do aumento drástico na época da Revolução Industrial, é controverso entre os cientistas. Imagens de pessoas sofrendo desastres ambientais esbarram no problema de que há muita incerteza em relação ao aquecimento global ter sido de fato responsável por determinadas catástrofes. E as fotos de células solares ou turbinas eólicas não são “suficientemente comoventes”, diz Klaus Merten, pesquisador de comunicação na Universidade de Münster.
* Sexo: Talvez a arma mais potente da propaganda também possa ser usada para a proteção climática. Um experimento inicial mostrou uma pesquisadora atraente posando de maiô em frente ao gelo do Ártico. “A mudança climática é atraente” também foi o tema de vários grupos de trabalho no Fórum Global de Mídia em Bonn.
A Índia até conseguiu transformar um símbolo sexual num ícone para a proteção climática. O Shiva Lingam de gelo, uma enorme estalagmite de gelo nas cavernas Amarnath no norte da Índia, é reverenciado como um símbolo de fertilidade. Grandes veículos noticiosos do país começaram a reportar o aquecimento global desde que o símbolo fálico congelado começou a derreter.
* Um novo tipo de jornalismo: ativistas pelo clima começaram a direcionar milhões para financiar programas de treinamento para jornalistas ambientais, com o objetivo de encorajar o chamado “jornalismo de causa”. Esse tipo de jornalismo está “praticamente morto na Europa”, diz Markus Lehmkuhl, especialista em mídia na Universidade Livre de Berlim. O jornalista científico britânico Alexander Kirby alerta que os jornalistas que permanecem neutros em relação ao assunto podem prejudicar a causa da proteção climática, mas muitos de seus colegas se recusam a assumir um lado. O jornal suíço Neue Zürcher Zeitung, por exemplo, teme que a linha que separa o jornalismo científico da propaganda possa se tornar confusa. Owen Gaffney, diretor de comunicações na Academia Real de Ciências da Suécia, aconselha que, em vez de deixar que a mídia reporte sobre a mudança climática, os cientistas devem estabelecer seus próprios canais de mídia, de preferência online. “Temos mais credibilidade do que os jornalistas e precisamos tirar vantagem disso”, diz Gaffney.
* Debate crítico: O pesquisador de comunicações Klaus Merten critica as conferências ambientais como o Fórum Global de Mídia em Bonn, que, segundo ele, costumam parecer festas particulares. Ele acredita que o debate corre o risco de se reduzir e acabar, e diz que é limitante quando todos fazem parte de um grupo pequeno que nunca discorda: “as críticas dão espaço para a criatividade”. Os ativistas pela proteção climática também arriscam prejudicar sua causa quando tentam apresentar a si mesmos como totalmente objetivos, sugere Merten. “Os ambientalistas têm seus próprios interesses, como qualquer um, e eles devem revelá-los”, diz – do contrário, arriscam sua credibilidade.
* Pense pequeno: “Muitas pessoas ainda veem a catástrofe climática como algo abstrato que não têm consequências concretas”, diz Hofmann, pesquisador de comunicação. Ele recomenda uma abordagem em três etapas: isolar um problema individual causado pelo clima, reduzir esse problema a um aspecto, e então criar uma área-alvo que pode funcionar como um objetivo para medidas de proteção climática. Campanhas para “salvar a floresta tropical” foram bem sucedidas com este método, concentrando-se na perda de habitat dos orangotangos. “As pessoas querem ajudar os macacos, então apoiam a conservação das florestas”, explica Hofmann. Metzger também acredita que é necessária uma nova abordagem, uma com “menos lições e mais incentivos para tomar atitudes”. “Precisamos falar sobre soluções, não sobre problemas”, disse Ken Caldeira, pesquisador ambiental na Universidade Stanford nos EUA, na conferência em Bonn.
* Fale menos: A Anistia Internacional vem demonstrando durante os últimos 50 anos que também é possível ter sucesso usando métodos mais silenciosos. Enquanto os ativistas ambientais estavam ocupados tentando causar uma comoção, a organização de direitos humanos conseguiu um sucesso considerável enfatizando a modéstia. “Fato e ato” é o lema da organização – sem exageros, sem um foco único e permitindo aos membros decidirem por si mesmos em que áreas querem ajudar. “Em comparação”, diz Merten, “as organizações ambientais às vezes parecem corporações estéreis”.
* A busca por um novo messias: Assim como Martin Luther King Jr. despertou o movimento pelos direitos civis, a causa climática precisa de seu próprio messias, diz o pesquisador ambientalistas Andreas Ernst da Universidade Kassel. A mensagem análoga desse messias pode ser algo parecido com “Eu tive um pesadelo”, sugere Ernst. Al Gore, que ganhou um prêmio Nobel da Paz por seu filme que sacudia os espectadores para fora da complacência, pareceu exercer esse papel com sucesso por algum tempo, mas desde então ele desapareceu da vista do público.
* Uma nova linguagem científica: Os pesquisadores do clima começaram a montar novas organizações para comunicar melhor seus dados. Um pioneiro é o Centro de Serviço Climático (CSC) em Hamburgo, uma nova instituição de pesquisa de nível federal. O Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA tem planos para estabelecer uma organização semelhante, e os pesquisadores do renomado instituto australiano CSIRO sugeriram até mesmo compor uma “instituição nacional de comunicação” para coordenar melhor a comunicação dos resultados dos pesquisadores do clima para os políticos e cientistas.
O Painel Intergovernamental da Mudança Climática também quer um uso mais cuidadoso da linguagem. O órgão internacional enviou aos cientistas um código de conduta para suas interações com os jornalistas. Os cientistas devem evitar usar palavras como “risco” e “incerteza” em suas entrevistas, diz o documento, para evitar mal-entendidos – e evitar prejudicar ainda mais o movimento de proteção climática.
Tradução: Eloise De Vylder
Reportagem do Der Spiegel, no UOL Notícias.
Fonte: EcoDebate, 05/01/2011

segunda-feira, dezembro 20, 2010

o REDD é bom demais para ser verdade?

REDD: as realidades em branco e preto

Quando se trata de mudanças climáticas, o mecanismo de REDD é o assunto do momento. “Redução de Emissões por Desmatamento nos Países em Desenvolvimento” traz a perspectiva atraente de mitigação das mudanças climáticas, conservação da biodiversidade ameaçada e de trazer o tão necessário financiamento para o desenvolvimento para os povos indígenas e povos e comunidades que vivem nas florestas – e ao mesmo tempo, oferecer ganhos significativos para investidores. Tudo isto junto levanta uma questão imediata: o REDD é bom demais para ser verdade?
A resposta, infelizmente, é “sim”. Apesar de REDD poder beneficiar algumas comunidades e a biodiversidade em áreas específicas, em termos globais REDD está emergindo como um mecanismo que tem o potencial de exacerbar a desigualdade, colhendo recompensas enormes para as empresas e outros grandes investidores e trazer benefícios consideravelmente menores – ou até mesmo sérias desvantagens – para os povos indígenas e outras comunidades dependentes da floresta. Além disso, se os governos focarem isoladamente em REDD, ele poderia se tornar uma distração perigosa e ineficaz com relação à necessidade de implementar políticas públicas reais e eficazes para a mitigação e adaptação das mudanças climáticas.
Os estudos de caso deste informe mostram claramente que uma corrida para implementar REDD já está em andamento. Os estudos de caso também mostram que os projetos de REDD variam significativamente, dependendo do país de implementação e os objetivos dos patrocinadores do projeto. Embora alguns projetos sejam mais bem elaborados, outros são claramente focados em maximizar os lucros.
Mesmo no caso do melhor cenário, contudo, parece que os povos indígenas devem trabalhar arduamente para se fazerem ouvir ou para se beneficiarem dos projetos de REDD de uma forma equitativa. Além disso, organizações da sociedade civil consideradas críticas aos projetos de REDD são muitas vezes excluídas das consultas e suas contribuições anteriores são ignoradas. Além disso, alguns investidores estão obviamente tentando apressar o processo de negociação dos projetos tão rapidamente quanto possível, mesmo que isso signifique exercer pressão indevida sobre os parceiros de negociação ou pular partes já acordadas de processos, como a necessidade de consulta prévia.
Uma das conclusões mais claras é que as grandes corporações transnacionais, especialmente aquelas envolvidas no setor de energia ou indústrias dependentes de energia intensiva estão rapidamente se perfilando para os projetos de REDD porque estes lhes oferecem – talvez mais do que para qualquer outro participante – uma verdadeira oportunidade de “ganha-ganha”. Através de REDD estes atores são capazes de remodelar-se como campeões na luta contra as mudanças climáticas, mesmo que continuem ou até mesmo expandam suas operações para extrair combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, eles têm a possibilidade de lucrar com REDD centenas de milhões de dólares.
* Para acessar o documento, na íntegra e no formato PDF, clique aqui
Análise originalmente publicada no Informe Nº 241 do Portal Biodiversidad en América Latina y el Caribe.
Fonte: EcoDebate, 20/12/2010

quinta-feira, dezembro 09, 2010

a pressão sobre as últimas florestas

REDD: As florestas tropicais poderiam ser salvas com injeções de capital?

Estoques de CO2
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A proteção das florestas tropicais do mundo é uma questão de importância central na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que ocorre neste mês em Cancún. Quantias enormes estão sendo oferecidas aos países que protegem as suas florestas. No entanto, os especialistas temem que essas recompensas possam ser mal aplicadas e que elas possam na verdade promover o desmatamento.
Se você deseja salvar o mundo, não faz sentido começar a tarefa em Paradise. Pelo menos foi isso o que os grupos de proteção ambiental disseram quando foi anunciado que a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas seria realizada na costa tropical de Cancún. Reportagem de Christian Schwägerl e Gerald Traufetter, no Der Spiegel.
Mas as aparências podem enganar. Esse resort litorâneo mexicano não é realmente um mal lugar para sediar um tribunal de julgamento da maior pecadora ambiental do planeta: a humanidade. Um grupo local de proteção ambiental, “Cielo, Tierra y Mar”, apresentou essa argumentação na abertura da mega conferência, na semana passada. No que se refere à proteção climática, “Cancún é o melhor exemplo do que não deve ser feito”, afirmou um porta-voz do grupo.
Isso fica muito claro no momento em que você se aventura a ir além dos hotéis altos e fulgurantes nos quais os negociadores do clima estão se reunindo. No passado os manguezais estendiam-se por vários quilômetros ao longo da margem da lagoa de água salgada. Mas atualmente só restam 11.392 hectares de mangue — e cerca de 500 hectares mais são destruídos a cada ano.
Os ecologistas afirmam que Cancún é um exemplo nítido da forma irracional como nós estamos explorando o nosso planeta. É por isso que eles acham que esse é um excelente lugar para se falar sobre a destruição das florestas tropicais. “Esse será o tema dominante em Cancún”, prevê Tim Tennigkeit, que representará na conferência a firma de consultoria florestal Unique, que tem sede em Freiburg.
REDD (sigla em inglês de Reduzindo Emissões provenientes do Desmatamento e da Degradação) é o acrônimo de um ambicioso programa da Organização das Nações Unidas (ONU) que pretende salvar as florestas restantes do nosso planeta e, desta forma, prevenir a liberação de mais de 4,4 gigatoneladas de dióxido de carbono por ano. “Se o mundo não for capaz de chegar a um acordo quanto às metas de redução de gás carbônico, pelo menos a ONU pode usar o REDD para provar que ainda é capaz de realizar alguma coisa”, acrescenta Tennigkeit.
Pagando nações para deixarem as florestas intocadas
As primeiras verbas estão prontas para serem distribuídas em todo o mundo, e essa perspectiva já entusiasmou os militantes da recém-criada indústria da proteção climática que comercializa direitos de emissão, administra verbas e certifica os chamados “projetos verdes”. O diretor de proteção ambiental da ONU, Achim Steiner, da Alemanha, está cautelosamente otimista. “O REDD pode ser uma parte da solução, tanto para a mudança climática quanto para a proteção do meio ambiente”, declara ele.
Outros advertem para os perigos de uma ação muito precipitada. “Não importa o quão bem intencionados eles possam ser, o fato é que soluções rápidas podem ser perigosas”, alerta o economista climático Reimund Schwarze, do Centro de Serviços Climáticos, em Hamburgo. Schwarze diz que, embora o programa REDD deva injetar bilhões de dólares em nações em desenvolvimento, esse dinheiro poderá ter um efeito exatamente contrário àquele que é desejado. Em outras palavras, ele poderia provocar um aumento do desmatamento em vez de conter a devastação.
A ideia norteadora do REDD é tão simples quanto convincente: a destruição global das florestas produz mais de um sexto das emissões totais de dióxido de carbono provocadas pelo ser humano. Se, em vez de cortarmos árvores, preservarmos as florestas e praticarmos o reflorestamento, grandes quantidades de gases causadores do efeito estufa poderiam ser absorvidas pela atmosfera. Dessa maneira, cada árvore salva contribui para reduzir o aquecimento global.
Infelizmente, existe pouco incentivo econômico para proteger as selvas do planeta. Uma floresta tropical no Brasil, uma floresta litorânea em Madagáscar e uma floresta na taiga russa não valem nada quando estão simplesmente crescendo. Mas elas geram muitos lucros como madeira e ao serem derrubadas para dar lugar a terras agrícolas.
O REDD deseja reverter essa lógica transformando a proteção da natureza em uma atividade lucrativa. As nações industrializadas contribuem para um fundo que é utilizado para pagar os países em desenvolvimento para que estes mantenham as suas florestas intocadas.
A Noruega, país rico em petróleo, deseja doar um bilhão de dólares para o fundo. E somas bem maiores estarão disponíveis no futuro, quando as companhias forem capazes de pagar pela proteção das florestas e receberem em troca direitos de emissão. Esses direitos de emissão estarão também disponíveis para países. Assim sendo, se um determinado país desejar alcançar as suas metas de redução de dióxido de carbono, ele pode simplesmente comprar “florestas REDD” no exterior.
Estudos encomendados pelo Secretariado de Biodiversidade da ONU preveem que essa ideia poderá ter “efeitos positivos anteriormente desconhecidos” – contanto que ela seja implementada de maneira apropriada. Muitos países, incluindo o Brasil, o Nepal e a República Democrática do Congo, já estão testando formas de ganhar dinheiro com a proteção das suas florestas.
Medo da corrupção e da má administração
Mas os grupos ambientais estão divididos quanto a essa questão. Eles dizem que o REDD poderá criar um sistema extremamente prático, mas ele poderia também facilmente transformar-se em um monstro no qual enormes quantidades de dinheiro acabassem promovendo a corrupção, a má administração e a destruição. “Tudo vai depender de os delegados em Cancún conseguirem ou não encontrar a formulação correta dos conceitos”, diz o economista climático Schwarze.
Chris Lang testemunhou pessoalmente a destruição de áreas de floresta tropical. “Nós necessitamos de mecanismos de proteção efetivos”, diz Lang, um inglês que morou na capital indonésia, Jacarta, durante vários anos. Lang fundou e gerenciou uma iniciativa chamada REDD Monitor, que fiscaliza atentamente o programa de proteção das florestas.
Isso deve-se ao fato de que, embora ainda não tenha sido obtido um acordo internacional, estruturas apropriadas já foram criadas. E essas estruturas não pressagiam boas coisas. “O aspecto principal dessa ideia é determinar qual deve ser a característica da floresta a ser protegida”, explica Lang.
Muitas definições diferentes estão atualmente circulando na ONU. Segundo uma dessas definições, uma floresta pode ser classificada como sequestradora de carbono se apenas um décimo da área preenchida por árvores situar-se debaixo de um dossel florestal (a camada superior das florestas) ou se as árvores apresentarem o potencial para crescerem até uma altura de pelo menos dois metros. “E esse é um retrato de um conjunto de troncos de árvores ou de um projeto de reflorestamento comercial”, argumenta Lang.
Esse tipo de classificação poderia ter consequências devastadoras. Lang teme que as empresas madeireiras possam garantir para si concessões para a exploração de áreas já semidevastadas de florestas a fim de implementar projetos econômicos de reflorestamento e, ao mesmo tempo, receberem subsídios do programa REDD.
Alegações falsas de benefícios ambientais
Esse cenário bizarro não é exatamente uma novidade. A companhia japonesa de celulose Oji pretende criar uma monocultura de eucalipto em uma área de 80 mil hectares em Laos. Essas árvores serão derrubadas, trituradas e enviadas para uma usina de fabricação de celulose. “No seu website a companhia gaba-se de desejar inscrever-se para receber dinheiro do REDD”, observa Lang. Ele diz que uma outra grande companhia do setor de celulose, a Asia Pulp and Paper, da Indonésia, está utilizando práticas similares na sua terra. Tal atividade praticamente não implica em nenhum benefício ambiental. Qualquer quantidade de dióxido de carbono que for capturada é liberada de novo na atmosfera no momento em que o papel que já foi usado for incinerado.
Lang suspeita que a indústria madeireira utilizará um truque simples para receber subsídios, tirando vantagem de um procedimento empregado em algumas áreas de floresta por pequenos agricultores que queimam pequenas áreas florestadas, plantam culturas agrícolas e a seguir mudam-se para outra área após alguns anos. “Essa é uma maneira relativamente não agressiva de utilizar a floresta”, explica Lang.
No entanto, as companhias poderiam redefinir a área florestada usada dessa forma, classificá-las como áreas inferiores, desmatá-las e replantá-las com árvores de valor comercial e receberem dinheiro por tudo isso, por supostamente ajudarem a combater as mudanças climáticas.
A Indonésia fornece um bom exemplo do motivo pelo qual as preocupações de Lang são justificadas. Antes que os inspetores internacionais tivessem a oportunidade de avaliar a área de floresta existente, o Ministério das Florestas indonésio declarou que 41 milhões de hectares de floresta tropical eram “áreas especiais” para o uso das companhias.
        Infelizmente, mesmo que fosse evitado o uso abusivo dos subsídios do REDD, o efeito positivo ainda poderia desaparecer. Um fenômeno que atualmente tem provocado dores de cabeça nos economistas chama-se “vazamento de carbono”. Se uma área de floresta tornar-se protegida, as madeireiras e latifundiários simplesmente usam a terra adjacente. Neste caso, também, existe um precedente preocupante.
Nos últimos 14 anos, uma organização de proteção ambiental dos Estados Unidos chamada Nature Conservancy vem gerenciando uma área de 832 mil hectares de terras protegidas na Bolívia que fazem parte do chamado Projeto de Ação Climática Noel Kempff. O dinheiro para isso foi doado por empresas como a gigante do setor petrolífero BP e pela American Electric Power, a maior operadora de usinas termoelétricas movidas a carvão dos Estados Unidos. O dinheiro é bem empregado por ambas as companhias porque elas podem usar o projeto para exibirem as suas “credenciais verdes”.
Entretanto, o desmatamento continua ocorrendo em toda a Bolívia. A única diferença é que agora as motosserras estão derrubando árvores em outros lugares. A quantidade de emissões de carbono prevenida pelo projeto modelo de florestas tropicais precisa, portanto, ser corrigida para baixo não apenas uma vez, mas duas. Se o volume inicialmente estimado era de sete milhões de toneladas métricas, agora fala-se de apenas 840 toneladas métricas. “Lavagem verde” é como os céticos denominam essa prática.
Os planejadores do REDD esperam ser capazes de acabar com tais vazamentos ao envolver o maior número possível de países no projeto. Mas a pressão sobre as últimas florestas integralmente preservadas do mundo está aumentando, em parte como resultado da demanda crescente por carne, mas também devido a medidas cujo objetivo original era proteger o meio ambiente: biocombustíveis fabricados a partir de cana-de-açúcar, milho, óleo de palmeira e jatropha, por exemplo.
Os povos indígenas das florestas tropicais poderiam facilmente tornar-se vítimas de uma “corrida ao REDD”. No ano passado, uma companhia australiana tentou vender certificados de emissões a índios na Papua Nova Guiné. Foi dito aos índios que a companhia não tocaria nas suas florestas caso eles comprassem os direitos de poluição REDD.
        Quando o caso veio à tona, a mídia australiana cunhou um novo termo para designar esses inescrupulosos empresários: “caubóis do carbono”.
Tradução: UOL
Fonte: EcoDebate, 09/12/2010

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