terça-feira, setembro 30, 2025

Paralaxe Cognitiva e o Discurso Ideológico da Esquerda - Parte 1

Paralaxe Cognitiva e o Discurso Ideológico da Esquerda - Parte 1

A análise das contradições entre discurso ideológico e prática política constitui um dos temas centrais da crítica conservadora contemporânea. O conceito de "paralaxe cognitiva" — definido como a capacidade de manter simultaneamente dois sistemas de pensamento mutuamente contraditórios sem reconhecer explicitamente a incompatibilidade entre eles — oferece uma ferramenta analítica para examinar o posicionamento da esquerda política em relação ao capitalismo democrático. Ao investigar a tese de que existe uma dissonância estrutural entre a retórica anticapitalista da esquerda e sua dependência prática das estruturas do sistema que afirma combater, descobre-se uma complexa relação entre a teoria e a práxis das organizações e movimentos da esquerda.

O termo "paralaxe cognitiva" foi popularizado no ambiente intelectual conservador brasileiro por Olavo de Carvalho, inspirado nas reflexões do filósofo Eric Voegelin sobre a consciência revolucionária. Para Carvalho, a paralaxe cognitiva representa "a capacidade da mente ideologizada de sustentar dois padrões de pensamento mutuamente excludentes, operando em níveis diferentes de consciência, sem jamais confrontá-los diretamente".

Esta estrutura mental permite que um indivíduo ou movimento político defenda princípios abstratos — igualdade radical, abolição da propriedade privada, superação do capitalismo — enquanto suas ações concretas contradizem sistematicamente esses princípios. Roger Scruton observa fenômeno similar ao descrever o "duplo pensamento" da esquerda intelectual, que "denuncia privilégios enquanto os usufrui, condena hierarquias enquanto as perpetua, e ataca o sistema que lhe garante voz e sustento".

O anticapitalismo constitui elemento identitário central da esquerda desde o século XIX, e Karl Marx estabeleceu as bases desta crítica ao caracterizar o capitalismo como sistema de "exploração sistemática do trabalho pelo capital", gerador de alienação, desigualdade e antagonismo de classes. Esta tradição crítica atravessou o século XX e permanece viva no discurso progressista contemporâneo.

A retórica anticapitalista contemporânea apresenta o capitalismo não meramente como modelo econômico imperfeito, mas como estrutura moralmente condenável — "sistema opressor", "máquina de desigualdade", "regime de exploração". Thomas Sowell nota que esta linguagem carregada moralmente cumpre função estratégica: "transforma questões econômicas complexas em confrontos morais simples, facilitando a mobilização política ao custo da precisão analítica".

A contradição manifesta-se quando examinamos a prática concreta dos movimentos e intelectuais de esquerda em democracias capitalistas. Como observa Paul Hollander em seu estudo clássico sobre intelectuais progressistas, existe "padrão recorrente de denúncia apaixonada ao capitalismo combinada com usufruto sistemático de seus benefícios".

Universidades constituem epicentros da crítica anticapitalista, produzindo teorias sobre desmantelamento do capitalismo, críticas à mercantilização do conhecimento e denúncias da lógica de mercado. Paradoxalmente, estas mesmas instituições:

• Operam como corporações, com estruturas administrativas burocratizadas

• Estimulam a doutrinação ideológica através de base bibliográfica e avaliações seletivas pelo viés ideológico 

• Dependem de doações de fortunas capitalistas

• Investem fundos patrimoniais em mercados financeiros

• Comercializam propriedade intelectual através de patentes

Russell Kirk observou que "a academia progressista construiu castelos de crítica anticapitalista sobre fundações capitalistas, sem jamais reconhecer a ironia estrutural desta posição". Críticos do capitalismo utilizam intensivamente tecnologias e plataformas produzidas por corporações multinacionais — Google, Meta, Apple, Amazon — para disseminar mensagens anticapitalistas. Como nota David Horowitz, "a revolução anticapitalista do século XXI é patrocinada inadvertidamente pelos maiores capitalistas da história".

Influenciadores progressistas monetizam conteúdo anticapitalista através de publicidade e patrocínios.

 Jornalistas que denunciam o "capitalismo predatório" dependem de conglomerados midiáticos, consórcios, privados para suas carreiras. A contradição raramente é tematizada.

Partidos de esquerda em democracias capitalistas participam de processos eleitorais garantidos por constituições liberais, financiam campanhas através de doações privadas, e quando no poder, administram economias capitalistas sem transformá-las estruturalmente. Como argumenta William F. Buckley Jr., "a esquerda democrática aprendeu a parasitar o sistema que teoricamente deseja destruir".

A União Soviética oferece caso paradigmático. Enquanto proclamava construir sociedade sem classes, desenvolveu sistema de privilégios para a nomenklatura tão pronunciado quanto as capitalistas. Robert Conquest documentou extensivamente como "a elite soviética usufruía luxos materiais — carros importados, dachas exclusivas, acesso a bens ocidentais — negados à população comum, tudo sob retórica de igualdade socialista".

A Venezuela sob Chávez e Maduro exemplifica a paralaxe cognitiva contemporânea. O regime denunciava neoliberalismo e imperialismo capitalista enquanto suas elites acumulavam fortunas em bancos suíços, compravam propriedades em Miami, e dependiam da exportação de petróleo para mercados capitalistas globais.

A persistência desta contradição sugere que não se trata de mero acidente ou hipocrisia individual, mas de funcionalidade estratégica e sistêmica. A paralaxe cognitiva cumpre dupla função:

Mobilização Retórica - O discurso anticapitalista radical mobiliza bases, cria identidade de grupo, estabelece distinção moral contra adversários políticos. Como observa James Burnham, "a retórica revolucionária opera independentemente da viabilidade prática, sendo avaliada por eficácia mobilizadora, não por coerência lógica".

Sobrevivência Prática: A aceitação tácita e usufruto das estruturas capitalistas garantem recursos materiais, visibilidade midiática, proteções legais e espaço de atuação. Theodore Dalrymple nota que os "intelectuais de esquerda não buscam realmente destruir o sistema — buscam posição privilegiada dentro dele, posição que deriva precisamente de sua crítica ao sistema".

As implicações desta dinâmica produz consequências para a saúde democrática:

1. Erosão da Confiança: A percepção pública de incoerência entre discurso e prática corrói confiança em instituições e lideranças políticas.

2. Radicalização do Debate: A retórica anticapitalista extrema polariza discussões, dificultando compromissos pragmáticos necessários à governança democrática.

3. Deslegitimação da Crítica: Contradições evidentes enfraquecem críticas legítimas que se poderia fazer a excessos e injustiças reais do sistema.

O rigor e a honestidade intelectual exige reconhecer limitações desta análise. Primeiro, contradições entre ideais e prática — afetam todo espectro político. Segundo, participar de um sistema não invalida automaticamente críticas a ele; caso contrário, toda reforma seria impossível. 

Contudo, a questão específica permanece: movimentos que se definem fundamentalmente pela oposição ao capitalismo, mas dependem estruturalmente dele para existir, enfrentam contradição que merece escrutínio. Como argumenta Anthony Daniels (Theodore Dalrymple), "não se trata de proibir críticas ao capitalismo, mas de exigir que críticos reconheçam honestamente sua dependência daquilo que criticam". Nesse contexto a hipocrisia é abertamente usual e faz parte da prática normalizada de ações e contradições da esquerda no mundo.

A análise da paralaxe cognitiva aplicada ao discurso anticapitalista da esquerda revela padrão de contradição estrutural: no plano teórico, o capitalismo é denunciado como sistema de exploração a ser superado; no plano prático, suas estruturas são indispensáveis à sustentação material, institucional e comunicacional da própria crítica anticapitalista.

Esta contradição não representa necessariamente má-fé individual, mas fenômeno sistêmico que permite à esquerda manter relevância política através de retórica radical enquanto opera confortavelmente dentro das instituições que critica e condena. Como observa Roger Scruton, "a esquerda contemporânea não busca realmente destruir o capitalismo — busca controlá-lo, moralizá-lo, e extrair dele recursos materiais e simbólicos que garantam sua posição de crítico privilegiado".

O desafio intelectual não é simplesmente denunciar hipocrisia, mas compreender como e por que esta contradição persiste, que funções cumpre, e que alternativas existiriam para movimentos políticos que buscam genuinamente transformar sistemas dos quais necessariamente fazem parte. A paralaxe cognitiva revela menos sobre defeitos morais específicos e mais sobre tensões inerentes à crítica social radical em sociedades abertas — sociedades que, ironicamente, apenas democracias capitalistas têm tolerado sistematicamente.

quinta-feira, setembro 25, 2025

A "revolução cultural" no Brasil

 A "revolução cultural" no Brasil 

Numa aula, do COF 073, o professor Olavo de Carvalho registrou uma explicação excelente para esclarecer de maneira sintética e cabal o processo pelo qual a esquerda conseguiu a sua posição de unanimidade tanto na percepção da sociedade como na opinião de parte da intelectualidade brasileira.

As implicações da adoção do método gramsciano, da revolução cultural, para a esquerda conquistar o poder de qualquer maneira, trouxe como consequência a conquista do pensamento único e a opinião com viés ideológico da unanimidade, compreendida como a fase primordial, essencial, do processo histórico, que “levou a sociedade praticamente inteira a pensar como comunista, sentir como comunista, e agir como comunista, sem saber que é comunista”. E vemos que isso é literalmente dessa maneira.

As instituições de caridade orientadas pelo Betinho, a universidade domada pelo esquerdismo, o método educacional freireano, a Igreja ferida pela Teoria da Libertação, tudo que foi tomado pela linha do partido que conduziu à obediência, como "poder onipresente e invisível do imperativo categórico de um mandamento divino", o que todo mundo obedece sem saber que está obedecendo e nem poder, desse jeito, questionar. "É óbvio que a trapaça, a mentira e a camuflagem faz parte do processo, e sobretudo é a essência do mesmo, enganar a todos para que mudem de opinião". Muitas vezes "sem mudar o discurso, usando as mesmas palavras, os mesmos símbolos, vai gradativamente injetando outro significado prático, pragmático, e é nisso que consiste a revolução cultural". Fator decisivo na debacle da moral brasileira.

O PT como partido que conduziu o processo, impôs às relações um dever de aceitar a sua hegemonia e a corrupção, não da moralidade, mas do senso moral, do sentimento moral, que é diferente dos costumes existentes, passando a fazer das iniquidades a norma de conduta. A obediência aos poucos tornou-se direta às regras e aos aspectos da retórica de uma ideologia introjetada nas ideias, formadas sem reflexão, e na identidade que se superpõe à realidade do indivíduo.

O resultado desse processo é evidente, estamos a um passo da consolidação de um regime totalitário, no qual não haverá oposição, só a que for permitida, a censura seletiva e a falta de liberdade submetendo todos ao medo de represálias sem tipificação de crime, porém direcionadas ao escolhidos pelo desafeto do governo.

O BRASIL ENTRE O EGO DE LULA E O MUNDO REAL

O BRASIL ENTRE O EGO DE LULA E O MUNDO REAL

O discurso de Lula na 80a Assembleia Geral da ONU foi uma aula de evasão dos interesses domésticos. Enquanto o mercado financeiro celebra um suposto "tom moderado", a realidade na tribuna era a de um governante que deliberadamente silenciou sobre o Brasil real para se dedicar a uma guerra de narrativas globais. A euforia dos investidores se mostra míope, ignorando que a fala presidencial, longe de ser o tal desejado ato de diplomacia, foi um sintoma da profunda crise institucional e geopolítica em que o país há muito se encontra.

Os dramas nacionais foram obviamente ignorados. Nenhuma palavra sobre a inflação, a crise fiscal, a estagnação econômica, a violência desenfreada ou a insegurança jurídica que aflige a nação. Lula preferiu se dedicar a um ataque velado aos Estados Unidos e Israel. Parece que Lula continua a dobrar a aposta, talvez até pela falta de repertório: depois de transformar o Judiciário em instrumento de vingança contra Jair Bolsonaro, agora ele utiliza da diplomacia para se defender das reações internacionais que suas próprias ações provocaram.

A reação nacional do mercado a esse espetáculo é a peça-chave para entender como o Brasil continua refém do poder atual. Essa tolerância com a perseguição a opositores e a deterioração do Estado de Direito tem seus fiadores claros no jogo político, principalmente o Centrão. É ele quem garante a governabilidade e a estabilidade artificial que tanto agrada aos investidores, que blinda as péssimas decisões do governo no Congresso, permitindo que o presidente se dedique às suas obsessões ideológicas e vinganças pessoais, enquanto a fatura da irresponsabilidade fiscal e do aparelhamento institucional é empurrada para o cidadão comum. O mercado, por sua vez, finge não ver, feliz na ilusão de que, enquanto o sistema não ruir de vez, é possível seguir lucrando.

Ao classificar como "preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terro- rismo", o presidente se coloca do lado oposto aos esforços de Washington para incluir facções como o PCC e o Comando Vermelho em sua lista de organizações terroristas transnacionais. Esta postura não é ingênua, é uma capitulação ideológica que blinda efetivamente os grupos criminosos que controlam rotas do tráfico e territórios inteiros no Brasil. Para uma certa esquerda que romantiza o "inimigo do sistema", o crime organizado pode ser visto até como um "aliado tático" contra o avanço de uma direita alinhada aos EUA. O resultado prático é o aprofundamento da crise de soberania, com o Estado brasileiro se recusando a nomear e combater a principal ameaça à sua existência enquanto o seu chefe do executivo foca, quase que exclusivamente, no populismo e na destruição da imagem do país no cenário internacional.

O otimismo do mercado ignora o abismo que se abre sob os pés do país. O Brasil está no centro de um buraco geopolítico com o risco concreto de isolamento. Não apenas pela expansão das sanções Magnitsky a mais autoridades, mas também na possibilidade de mais tarifas sobre produtos brasileiros e da classificação do país como uma "ameaça à economia americana". Além disso, a designação do PCC como grupo terrorista teria, por si só, um impacto devastador em setores vitais como bancos, portos e cadeias logísticas. Sem uma reflexão e reversão profunda, que inclui todos os setores do poder (e se caracteriza plenamente na Anistia ampla, geral e irrestrita), o discurso de evasão na ONU servirá apenas como o epitáfio de um país que, para salvar seu projeto de poder, optou por ignorar a si mesmo.

(Observatório Brasil Soberano, 24/09/2025)

quarta-feira, setembro 24, 2025

O sistema, o Mito e Policarpo Quaresma

O sistema, o Mito e Policarpo Quaresma 

Logo após o resultado das eleições de 2022, um conhecido que foi contemporâneo do período de escola, do colegial, na verdade ele já fazia o curso de economia na Universidade Católica e eu era ainda um finalista do colégio Central. Ao sair o resultado das eleições de 2022, esse conhecido me mandou uma mensagem pelo Instagram comentando um post que eu tinha feito questionando o papel do TSE, ele dizendo que eram o “triste fim do Policarpo Quaresma”, ou seja a vitória do PT nas eleições tinha um significado parecido, e a saída do bolsonaro do Planalto era comemorada, significava o “triste fim” para o capitão. Na verdade olhando para o que conta o livro do Lima Barreto, olhando com mais cuidado percebi que no fundo a comparação da situação em que o Bolsonaro e o que o amigo, digamos, queria dizer era que haveria findado o período de sua importância, escarnecer o perdedor, desumanizado, o significado era o enterro da participação da direita na política e desse candidato, enquanto liderança do movimento da direita que se levantava e do intento conservador. Ele não imaginava que o resultado das eleições, a interferência dos ativistas do STF/TSE, o que seria ainda feito para que a esquerda se mantivesse no poder, pois ficou claro que haviam “tomado o poder”, e não se tratava apenas de eleições. Havia um projeto do Foro de São Paulo traçado para o país. E seria, a partir dessa hora, um dos períodos mais sombrios da nossa República. Obscuro, o custo de ter suplantado o candidato de uma evidente maioria, evidenciada pelas manifestações e votos alcançados por um número preponderante de representantes da direita para o Congresso, teria consequências de profundo impacto na sociedade e para as instituições de poder regidas pela Constituição. 

O significado e as consequências que os brasileiros teriam nesse novo período de governo petista seria o pior dos últimos trinta anos, um desgoverno, desastroso para os direitos humanos, para a economia e para as liberdades democráticas. E o Policarpo Quaresma que estaria, no desejo sombrio da militância petista, fora do jogo político, e até morto por assassinato encomendado na campanha de 2018, ainda poderia ser resgatado da sua condição de perseguido, agora prisioneiro político, e com grande em potencia, impressionante, por seus feitos ao país e a economia, com o crescimento de uma parcela significativa da população a seus favor, de um eleitorado opositor, crítico ao lulopetismo, que passou a demonstrar força em número e qualidade, enquanto adversários ao regime ditatorial da esquerda. 

A oposição conservadora, da direita organizada, passou a ter papel relevante no cenário político, com propostas, atitudes transparentes e clareza de opinião sobre as gestões, ideologia e planos da esquerda para o Brasil. Eles jamais teriam imaginado que tudo alcançaria esse patamar, uma esquerda cheia de ressentimentos por ter ficado fora do poder por quatro anos, afastada pela legítima eleição do odiado Mito. O Policarpo Quaresma do meu colega de época estudantil que deve estar torcendo para não perder sua boquinha. O Mito, por sua coragem em enfrentar o sistema corrupto, foi aprisionado por ele, aparelhado por criminosos e irresponsáveis em suas ações, um governo empossado com a faixa do poder em Brasília pelo ativismo do judiciário, a cumplicidade de parlamentares da extrema esquerda, uma oposição velada de alguns empresários atrás dos benefícios de mumunhas, banqueiros confiantes nos juros e na negociação vantajosa de precatórios, da gangue agraciada com a Lei Rouanet, e pelo suporte do Consórcio da grande imprensa financiada para divulgar as narrativas oficiais.

sábado, setembro 20, 2025

A consciência humana em perigo

A consciência humana em perigo

Por Olavo de Carvalho

Novamente, convido os leitores a me acompanhar numa rápida investigação filosófica. O assunto – os fundamentos, ou falta de fundamentos, da autoconsciência humana – parece estar longe da atualidade política imediata, mas quem tiver a paciência de chegar ao fim do artigo verá que não é assim. Nunca, como hoje, quando uma elite de burocratas iluminados remexe a seu belprazer os pilares da civilização como uma tropa de evadidos do hospício brincando de cientistas num laboratório nuclear, foi vital para cada habitante do planeta adquirir uma idéia clara das constantes que definem a condição humana, antes que o desenho mesmo da hominidade, sob o impacto de experimentos deformantes impostos em escala mundial, desapareça da sua lembrança. Mas uma dessas constantes é, precisamente, que toda constância humana só se revela, como em filigrana, sob o fundo da incessante mutação histórica. 

Só o conhecimento da história comparada das civilizações e culturas mostra, sob a variedade quase alucinante das formas, a durabilidade da estrutura geral do espírito humano. E, como aquilo que se encontra sob risco de perda imediata na voragem das transformações forçadas é sobretudo a unidade mesma da autoconsciência de cada indivíduo – a fragmentação da cultura resultando em estilhaçamento das almas –, nunca foi tão importante conhecer as mutações históricas da imagem do “eu” ao longo das épocas, para distinguir nela o que é acidental e transitório e o que é essencial, permanente e indispensável à defesa última da dignidade humana.

Um dos depósitos mais ricos de materiais para esse estudo são as autobiografias. O desenvolvimento histórico desse gênero literário evidencia de maneira particularmente clara as transformações da autoconsciência individual ao longo das épocas, paralelamente às modificações sobrevindas nas vivências respectivas do tempo, da memória e do próprio ato de narrar.

Dentre as muitas obras que têm saído a respeito, Memory and Narrative: The Weave of Life-Writing (The University of Chicago Press, 1998), de James Olsey, professor de Inglês na Universidade Estadual da Louisiana, é uma das mais úteis, porque, concentrando-se na história do gênero autobiográfico no período que vai das Confissões de Agostinho (397) até o monólogo cênico de Samuel Beckett, Company (1979), delineia muito claramente, no percurso entre esses dois extremos, a progressiva perda do sentido de unidade da autoconsciência, sem a qual a intenção mesma de narrar a própria vida se torna absurda.

O modelo estrutural da narrativa é o mesmo nos dois casos. Agostinho resume-o com o exemplo da prece. Quando ele vai recitar um salmo, já o sabe de cor, inteiro, de antemão. Enquanto o recita, as palavras que se sucedem em voz alta vão-se atualizando no tempo sobre o fundo estático do texto completo que permanece na memória. Terminada a recitação, o salmo se completou no tempo e é devolvido à memória, pronto para ser recitado de novo e de novo e de novo. Toda escrita autobiográfica tem mais ou menos essa estrutura.

A vida que vai ser contada está completa na memória, mas prossegue no ato de recordá-la e continua depois de terminada a narração, devolvida à memória para ser narrada de novo, lida ou ouvida. Qual a “substância” dessa narrativa? O tempo, mas qual tempo? O passado, que já não existe mais? O presente, instante atomístico infinitesimal que se dissolve tão logo aparece? O futuro, que tem uma existência meramente conjectural? O enigma aparece mais ou menos igual nas Confissões e em Company.

Irmanados na preocupação comum com o tempo, a memória e o eu, os dois livros não poderiam ser mais antagônicos nas suas respectivas visões a respeito.

As memórias de Agostinho são a confissão formal de uma alma que, assumindo plenamente a autoria, a responsabilidade e as consequências de cada um de seus atos, pensamentos e estados interiores, mesmo os mais obscuros e remotos no tempo, comparece ao seu próprio julgamento como que ostentando uma identidade inteiriça, na qual as várias forças internas em conflito não fazem senão realçar a unidade tensional do todo. 

Agostinho consegue fazer isso porque compõe sua narrativa diante de uma platéia onisciente, o próprio Deus. “Caminhar diante de Deus” não significa outra coisa senão agir e pensar em confronto permanente com o símbolo “onisciência” – a fonte inalcançável e incontornável de toda consciência, a única garantia da sinceridade dos pensamentos, dos atos e da sua rememoração. Embora a expressão apareça na Bíblia, Agostinho foi o primeiro a explicitar em palavras o sentido da experiência aí resumida. O homem que caminha diante de Deus se governa e se concebe, a cada instante, como se estivesse diante do Juízo Final, na forma completa do seu ser individual conscientemente responsável pela escolha do seu próprio destino eterno. A vida completa do futuro é, pois, a medida da rememoração do passado, que o narrador empreende no presente.

É daí também que Agostinho extrai a solução do problema da insubstancialidade do tempo. Deus não é apenas onisciente: é eterno. Boécio, mais tarde, definirá a eternidade como “a posse plena e simultânea de todos os seus momentos”, mas o conceito já está implícito em Agostinho. Se os vários momentos não tem nenhuma unidade entre si, só lhes resta esfarelar-se num imenso nada. Só a sua unidade total e simultânea tem existência, mas essa unidade é a própria eternidade, e nada mais. O tempo, em si, não tem mesmo substancialidade nenhuma. É apenas uma miragem, uma “imagem móvel da eternidade”.

Se Agostinho pode dominar intelectualmente o seu passado é porque o expõe ante o olhar da onisciência. Se pode ter a intuição da continuidade da sua existência, é porque a enxerga como um reflexo temporal da eternidade. A articulação da autoconsciência moral é a mesma articulação dos três tempos no eixo da eternidade.

A idéia do indivíduo como uma unidade complexa e dramática que se forma e se assume na encruzilhada dos três tempos incorpororou-se de tal modo à tradição ocidental que veio a inspirar toda a moderna psicologia da personalidade. Dezesseis séculos depois de Agostinho, Maurice Pradines, no seu Traité de Psychologie Générale (1948), definiria a consciência como “a memória do passado preparada para as tarefas do futuro”. Mesmo em Freud, ao qual se atribui erroneamente muito da culpa (ou do mérito) pela dissolução da unidade do eu, a personalidade é a resultante de uma arbitragem progressivamente imposta pela consciência aos impulsos antagônicos do Id e do Super-ego. Nada poderia celebrar mais claramente a vitória final da unidade do que a célebre profecia do pai da psicanálise: “Onde há Id, haverá Ego.”

Totalmente diversa é a perspectiva em Company. Aqui, um velho entrevado, no palco, ouve episódios da sua vida – a vida do próprio Samuel Beckett – narrados e comentados, em monólogo, por uma voz sem rosto. Será a “voz da consciência”? Sim e não. Ela lhe fala dele próprio ora na segunda pessoa, ora na terceira. Aquele que, no presente, recorda o passado, já não sabe se esse passado é seu, de um terceiro ou de um personagem inventado. E a voz lança ao senso de identidade do ancião um temível desafio: se você não se recorda do seu nascimento, como pode ter a certeza de que essa vida que está recordando é a mesma daquele que cujo nascimento você acha que é o seu?

Tal como Agostinho, o personagem de Beckett – indiscernível do autor – desenha suas memórias sobre a superfície de contraste fornecida por um interlocutor invisível que transcende o narrador e tem sobre ele a autoridade de uma instância formadora. O resultado, por isso, difere conforme a identidade desse interlocutor. A eternidade e onissapiência de Deus conferem à auto-imagem biográfica de Agostinho a unidade de uma história assumida como criação pessoal responsável. Mas o interlocutor de Beckett não é onissapiente: é apenas mais arguto que o personagem.

Ele é a razão crítica, poção corrosiva que dissolve o sentimento de unidade temporal do eu por meio de exigências epistemológicas que ele não tem como atender. O ancião entrevado não tem sequer o poder de dizer “eu” com consciência de causa, mas por isso talvez não lhe caibam também a culpa de seus pecados ou o mérito de suas realizações. O eu esfarelado, incapaz de contar sua própria história, é vítima de sua própria existência e não tem portanto nenhuma responsabilidade sobre ela. A narrativa de Agostinho sobe do fundo obscuro do coração para a luz divina que, em resposta, lhe confere a participação na sua própria unidade e claridade. A de Beckett vem de uma treva externa que obscurece o pouco de luz que o ego julgava possuir.

Na passagem de um extremo a outro, Olsey documenta algumas etapas da “crise da memória narrativa” que, como um fio condutor, atravessa toda a história da mentalidade ocidental moderna. Ele data das Confissões de Jean-Jacques Rousseau (1782) o começo da “crise”, mas está errado. Ela já estava plenamente instalada nas Meditações de Filosofia Primeira de René Descartes (1641), que se apresenta como uma autobiografia interior, a narrativa de um experimento cognitivo (v. http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/descartes.htm e

http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/descartes2.htm).

A confusão medonha que o filósofo aí produz entre o eu existencial concreto e o conceito abstrato do eu como autoconsciência absoluta (cogito ergo sum ), passando do primeiro ao segundo sem notar que saltou da ordem temporal para a ordem dedutiva, é uma das mais prodigiosas mutilações já impostas à consciência autobiográfica do homem ocidental. Todo o problema de Beckett já estava aí. Como bem observou Jean Onimus (Beckett, un Écrivain devant Dieu, Desclée de Brouwer, 1967): “Instalai-vos no cogito cartesiano em seu ponto de origem, … e vereis o homem de Beckett em toda a extensão do seu infortúnio.”

O eu cartesiano não pode narrar sua história porque é apenas uma forma abstrata isolada no espaço, amputada da experiência temporal. Se o filósofo, no entanto, o apresenta sob forma narrativa, é porque, literalmente, não percebe o que está fazendo. O cartesianismo não é o capítulo inaugural da dissolução da autoconsciência narrativa (numa apostila inédita do meu Seminário de Filosofia atribuí essa duvidosa honra aos fragmentos autobiográficos de Nicolau Maquiavel), mas é um episódio importante do processo. 

A incongruência de Descartes será formidavelmente ampliada por Immanuel Kant mediante a idéia do “eu transcendental”. Esta assombrosa criatura da filosofia alemã tem a autoridade de demarcar as fronteiras da experiência acessível ao pobre eu existencial sem ser ela própria limitada por elas, mas sem por isso abrir ao eu existencial nem mesmo uma estreita frestinha por onde ele pudesse enxergar o que está para além dessas fronteiras. Ele é chamado “transcendental” precisamente porque fecha as portas de acesso ao “transcendente”. Instalado nas alturas medianas do eu transcendental, que fica só um pouco acima do eu existencial, o filósofo não permite que ninguém suba acima dele. 

A satisfação perversa com que ele crê determinar os “limites do conhecimento humano” mostra que ele tinha a consciência de ser algo assim como, nas escaladas iniciáticas, o “guardião do portal”, uma espécie de Pasionária metafísica, gritando aos buscadores da eternidade: No pasarán! No pasarán! Não tenho a menor dúvida de que o interlocutor de Beckett é o eu transcendental kantiano. Kant, por um lado, acreditava que o conhecimento humano está limitado à experiência sensível, ao espaço e ao tempo; por outro, dizia que os dados da experiência são um farelo caótico, ao qual a consciência impõe sua própria unidade. 

Mas deixada a si mesma, sem o pano de fundo da eternidade, a própria consciência se esfarela. Mais claramente ainda do que em Descartes, o homem isolado e desesperado de Samuel Beckett está presente e manifesto na Crítica da Razão Pura de Kant (1781). Ao proibir o acesso da consciência à eternidade, o eu transcendental torna a própria consciência inacessível e evanescente. Daí a lógica aparente e a absurdidade profunda da cobrança que vem das trevas: a idéia de que só o eu que recordasse claramente o seu próprio nascimento teria autoridade para afirmar que sua história é sua própria história se baseia inteiramente numa pegadinha kantiana, e esta pegadinha, por sua vez, tem como premissa uma inépcia colossal: resulta em supor que a única autoconsciência legítima seria a de um ente que pudesse observar conscientemente seu próprio nascimento. Só que para isso ele teria de existir temporalmente antes de entrar na existência temporal. 

Na experiência real, todo começo, toda gestação, se dá na obscuridade: a luz é uma conquista progressiva. Narrar a própria vida sem ser testemunha do próprio nascimento não é uma pretensão indevida: é simplesmente a condição real da experiência humana. O eu transcendental, pretendendo fazer a crítica da experiência, estabelece premissas que negam a possibilidade de toda experiência e, portanto, da própria crítica. Beckett está consciente do caráter humorístico de suas especulações. Mas o humorismo kantiano é pateticamente involuntário. 

O estudo de Olsey guarda o mérito de elaborar o conceito fundamental da “crise”, mas, ao exemplificá-lo, é muito incompleto. Descartes só é mencionado de passagem, e o nome de Kant nem aparece. Imperdoável é a omissão de Proust, que passou a vida tentando resolver o problema agostiniano do tempo, assim como a de Arthur Koestler, que, em Darkness at Noon (1940), documentou a redução da autoconsciência, sob a pressão do totalitarismo moderno, a uma “ficção gramatical”. O autor também não dá sinal de associar a “crise da memória” a um processo paralelo e inseparável: a epidemia de narrativas autobiográficas e biográficas conscientemente falseadas para fins de propaganda política, fenômeno observado na França desde pelo menos um século antes desse mentiroso não muito consciente que foi Rousseau. Seria impossível, de fato, que a dissolução da autoconsciência não viesse junto com a perda progressiva do sentido de responsabilidade intelectual e a expansão formidável da amoralidade, do cinismo manipulador, da crueldade sádica. 

A destruição das bases civilizacionais da existência humana não começa nos campos de batalha nem nas bolsas de valores: começa nos tranqüilos gabinetes onde homens aparentemente inofensivos – quer se trate de filósofos ou de burocratas da ONU — tentam ser mais sábios que Deus. Não tem cabimento dissociar da crise da autoconsciência a progressiva rejeição moderna do senso de eternidade, e não é possível aceitar a dissolução da autoconsciência tentando preservar, ao mesmo tempo, altos padrões morais de conduta. Neste fim de era, as conseqüências históricas de decisões intelectuais tomadas três, quatro, cinco séculos atrás assumem a forma do totalitarismo, da violência generalizada, do genocídio e, sobretudo, do império universal da mentira. 

Aqueles que buscam na ação política um remédio para esses males vão ter de compreender, mais dia menos dia, que a raiz deles está nas regiões etéreas do pensamento abstrato. E aqueles que, por afeição pessoal, se dedicam ao pensamento abstrato, devem examinar com toda a seriedade de consciência os efeitos devastadores dos abstratismos aparentemente inócuos criados pelos filósofos dos séculos passados. Nesse sentido, a filosofia é política, e a política é filosofia.

sábado, setembro 13, 2025

Outro tipo de guerra

 Outro tipo de guerra

Acompanhando os fatos recentes, penso que foi iniciada uma guerra que não será só através da prática da força, à toda ação corresponde uma reação contrária e confiante, força que até então estava sendo afastada por questões de humanidades, numa "polida concorrência democrática", nos limites da paciência, respeito às regras, certa hesitação ao inevitável, mas diante da escalada da violência ativista da extrema-esquerda, de maneira aberta e global, a resposta está chegando, tomando postos, sobretudo por meio de atitudes firmes, corajosa, com rigor internamente e mundialmente, vindas de todos que apoiando a liberdade de expressão, a voz alta sobre a verdade, se dará em grande escala. Aguarde e acompanhe. Quem estiver ou se colocar em cima do muro estará do mesmo lado dos que querem o mal a seus opositores, querem vingança e ataques covardes contra os que têm opinião divergente, querem calar os indefesos e os inocentes. Os abusadores de poder, provocadores do terror, torturadores, são apoiadores de assassinos de impotentes, parceiros de terroristas, são juízes partidários com ações sujas de ilegalidades, esses, revelados defensores de regimes totalitários, que nunca mais deveriam estar presente neste lugar, qualquer lugar, nem neste momento histórico, tempo em que a humanidade tem, porque teve, conhecimento de experiências horríveis, do que já aconteceu no passado, que não é tão distante como muitos querem fazer pensar e ignorar com suas narrativas ideológicas e mentiras hediondas infernais.

quinta-feira, agosto 28, 2025

O Autoritarismo e a Erosão Moral

 

O Autoritarismo e a Erosão Moral: Uma Análise da Relação entre Desespero e Abandono de Princípios

Resumo

Este ensaio examina a relação dialética entre o autoritarismo, o desespero social e a erosão de princípios morais nas sociedades contemporâneas. Através de uma análise teórica fundamentada nos estudos sobre autoritarismo, psicologia política e filosofia moral, argumenta-se que o desespero coletivo constitui um catalisador fundamental para a ascensão de regimes autoritários e o consequente abandono de valores democráticos. O texto explora como líderes autoritários exploram situações de crise e vulnerabilidade social para consolidar seu poder, promovendo uma reflexão sobre os mecanismos de resistência moral em contextos de adversidade extrema.

Palavras-chave: Autoritarismo; Desespero social; Erosão moral; Psicologia política; Democracia.

Abstract

This essay examines the dialectical relationship between authoritarianism, social despair, and the degradation of moral principles in contemporary societies. Through a theoretical analysis grounded in studies on authoritarianism, political psychology, and moral philosophy, it argues that collective despair constitutes a fundamental factor in the rise of authoritarian regimes and the consequent abandonment of democratic values. The text explores how authoritarian leaders exploit situations of crisis and social vulnerability to consolidate their power, promoting reflection on the mechanisms of moral resistance in contexts of extreme adversity.

Keywords: Authoritarianism; Social despair; Moral erosion; Political psychology; Democracy.

Introdução

A relação entre crises sociais e o surgimento de regimes autoritários constitui uma das questões mais prementes da ciência política contemporânea¹. O presente ensaio propõe uma análise da dinâmica pela qual o desespero coletivo atua como facilitador do autoritarismo, criando condições propícias para o abandono de princípios morais e democráticos. Esta investigação se fundamenta na compreensão de que momentos de profunda instabilidade social representam janelas de oportunidade para lideranças autoritárias, que se aproveitam da fragilidade psicológica das massas para consolidar seu domínio².

O Desespero como Catalisador do Autoritarismo

A Psicologia do Desespero Coletivo

Hannah Arendt, em sua análise magistral sobre as origens do totalitarismo, observou que "o terror total, a essência do governo totalitário, existe nem para nem contra os homens"³. Esta observação captura a essência de como o desespero opera no contexto autoritário: ele se manifesta como uma força destruidora que não distingue entre culpados e inocentes, entre colaboradores e resistentes. O desespero, nesse sentido, funciona como um "incêndio noturno" que consome as estruturas morais previamente estabelecidas.

A literatura sobre psicologia política demonstra que situações de crise econômica, social ou política tendem a amplificar a propensão das populações a aceitar soluções autoritárias⁴. Theodor Adorno e seus colaboradores, em "A Personalidade Autoritária", identificaram que indivíduos em estados de ansiedade e incerteza desenvolvem maior tolerância a discursos que prometem ordem e segurança, mesmo que isso implique a renúncia a direitos fundamentais⁵.

A Instrumentalização do Medo

Os regimes autoritários demonstram particular habilidade na manipulação do desespero coletivo como instrumento de controle político. Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade líquida, argumenta que a insegurança constante torna as sociedades mais suscetíveis a "salvadores" que prometem certezas em meio ao caos⁶. Esta dinâmica explica como "ditadores sabem disso: basta cultivar o desespero para colher obediência".

A estratégia autoritária consiste, fundamentalmente, na criação e manutenção de um estado permanente de crise que justifique medidas excepcionais. Carl Schmitt, em sua controvertida teoria da exceção, já havia identificado que "soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção"⁷. Esta decisão sobre a exceção permite ao líder autoritário suspender normas jurídicas e morais em nome da necessidade, transformando o desespero em legitimidade política.

A Erosão dos Princípios Morais

A Fragilidade da Moralidade em Tempos de Crise

Stanley Milgram, em seus famosos experimentos sobre obediência à autoridade, demonstrou como indivíduos ordinários podem abandonar princípios morais fundamentais quando submetidos à pressão de figuras autoritárias⁸. Seus achados revelam que "a mão que se recusava à violência pode apertar o gatilho" quando as circunstâncias criam um ambiente de legitimação da transgressão moral.

Philip Zimbardo, através do Experimento da Prisão de Stanford, corroborou essas descobertas ao mostrar como situações de poder desigual podem rapidamente corroer barreiras morais⁹. Seus estudos sugerem que princípios éticos, longe de serem absolutos, são profundamente contextuais e vulneráveis a pressões situacionais extremas.

O Paradoxo da Moral Autoritária

Uma característica peculiar do autoritarismo é sua capacidade de apresentar-se como guardião da moralidade enquanto simultaneamente promove sua destruição. Eric Hoffer, em "O Verdadeiro Crente", observa que movimentos autoritários frequentemente atraem indivíduos que "se orgulham de sua retidão" e acreditam estar servindo a uma causa superior¹⁰. Esta contradição revela como o autoritarismo opera através da ressignificação moral, transformando a transgressão em virtude e a obediência em heroísmo.

A Dinâmica Coletiva do Abandono Moral

O Contágio Social do Desespero

Gabriel Tarde, pioneiro nos estudos sobre psicologia das multidões, identificou mecanismos de "contágio social" pelos quais emoções e comportamentos se propagam rapidamente através de grupos¹¹. No contexto autoritário, o desespero funciona como um vírus emocional que se espalha "por correia de transmissão", infectando progressivamente camadas mais amplas da sociedade.

Gustav Le Bon, em "Psicologia das Multidões", argumentou que indivíduos em grupos tendem a agir de maneira mais primitiva e emocional, abandonando seu julgamento crítico individual¹². Esta tendência é amplificada em contextos de crise, onde a pressão por conformidade se intensifica e a capacidade de resistência moral se debilita.

A Economia Política do Desespero

A análise marxista oferece insights valiosos sobre como condições materiais de privação contribuem para a vulnerabilidade ao autoritarismo. Antonio Gramsci, em seus "Cadernos do Cárcere", desenvolveu o conceito de hegemonia cultural para explicar como classes dominantes mantêm seu poder não apenas através da coerção, mas também através do consentimento das massas¹³. Os insights gramscianos serviram de suporte para as incursões de doutrinação e cooptação de movimentos organizados da esquerda no mundo, principalmente em países de baixos índices culturais e precárias estruturas educacionais carentes de métodos de ensino com diversidade de orientação, estas controladas por lideranças de ideais anticapitalistas. Em momentos de crise econômica, este consentimento pode ser facilmente manipulado por forças autoritárias que prometem soluções imediatas.

Mecanismos de Resistência e Preservação Moral

A Importância dos Espaços de Esperança

Jürgen Habermas, em sua teoria da ação comunicativa, enfatiza a importância de "espaços públicos" onde o diálogo racional pode florescer¹⁴. Estes espaços constituem antídotos naturais ao autoritarismo, pois permitem a contestação de narrativas dominantes e a preservação do pensamento crítico. A criação de "espaços de esperança" torna-se, assim, uma estratégia fundamental de resistência.

A Ética da Responsabilidade

Max Weber, em sua distinção entre "ética da convicção" e "ética da responsabilidade", oferece um framework para compreender como princípios morais podem ser preservados mesmo em circunstâncias adversas¹⁵. A "coragem de, mesmo diante do desespero, ainda tentar salvar uma fagulha dos nossos princípios" representa precisamente esta ética da responsabilidade: o compromisso de manter valores fundamentais independentemente das consequências pessoais.

Considerações Finais

A análise da relação entre autoritarismo, desespero e erosão moral revela que a preservação da democracia depende não apenas de instituições formais, mas também da manutenção de recursos psicológicos e morais que permitam às sociedades resistir à sedução autoritária. Como observou Karl Popper em "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos", a vigilância eterna é o preço da liberdade¹⁶.

O grande desafio contemporâneo consiste em desenvolver estratégias que fortaleçam a resiliência moral das sociedades sem cair no moralismo superficial que ignora as condições materiais e psicológicas que tornam as populações vulneráveis ao autoritarismo. Isto requer não apenas a denúncia dos riscos autoritários, mas também o investimento ativo na criação de condições que permitam aos indivíduos e comunidades manter sua dignidade e autonomia mesmo em face das tempestades históricas.

A metáfora final da "vela acesa em meio à tempestade" captura perfeitamente esta tensão: não se trata de negar a realidade da tempestade, mas de reconhecer que preservar a luz, por mais frágil que seja, constitui um ato de resistência fundamental contra as forças que buscam mergulhar o mundo na escuridão totalitária.


Referências

¹ LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. São Paulo: Zahar, 2018.

² ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 489.

³ Ibid., p. 518.

⁴ STENNER, Karen. The Authoritarian Dynamic. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

⁵ ADORNO, Theodor W. et al. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Brothers, 1950.

⁶ BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

⁷ SCHMITT, Carl. Teologia política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006, p. 7.

⁸ MILGRAM, Stanley. Obediência à autoridade: uma visão experimental. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.

⁹ ZIMBARDO, Philip. O efeito Lúcifer. Rio de Janeiro: Record, 2012.

¹⁰ HOFFER, Eric. O verdadeiro crente. São Paulo: É Realizações, 2010.

¹¹ TARDE, Gabriel. A opinião e as multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

¹² LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

¹³ GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000-2002. 6v.

¹⁴ HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.

¹⁵ WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.

¹⁶ POPPER, Karl. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1998.

 

O autoritário e o desespero não deixa espaço para princípios

O autoritário e o desespero não deixa espaço para princípios

O desespero chega como um incêndio noturno, consumindo não apenas as certezas, mas também as bases secretas da alma. O autoritário acredita nos seus ideais como solução de tudo, e evita a reflexão sobre seus erros, inclusive a negação de incompreensão da sua visão de mundo. Os princípios, que em dias claros foram colunas de mármore, tornam-se frágeis como madeira seca diante das chamas. O desespero do autoritário é voraz: não consulta a consciência, não escuta a razão, não respeita a linha tênue entre o certo e o errado. Ele apenas exige saída, ainda que seja por um corredor estreito e escuro. Para ele e seus propósitos de carregar os demais em sua jornada impossível.

Quem nunca se orgulhou de sua retidão? Da sua “visão de mundo”? Supostamente a mais justa e benéfica à todos. Quem nunca disse a si mesmo: “jamais cruzarei tal fronteira”? Mas quando o desespero da derrota do autoritário se instala, e por correia de transmissão impregna seus seguidores, o “jamais” evapora. A mão que se recusava à violência pode apertar o gatilho; os lábios que pregavam a verdade podem dobrar-se ao silêncio da mentira; o coração que defendia a liberdade pode entregar-se ao jugo em troca de um prato de comida, uma esmola, à ilusão da salvação prometida. O desespero é o grande corrosivo da moral, dissolvendo convicções como sal na água.

O objetivo autoritário em desespero não pede licença: rouba o horizonte. Onde havia um caminho longo de escolhas, resta apenas o agora, seco e estreito, a miserável condição da obediência, como uma trilha que conduz a uma única saída. E nessa urgência, princípios não têm assento — são bagagens pesadas demais para carregar.

No palco coletivo, o desespero causado pelo autoritarismo é ainda mais cruel. Povos inteiros, tomados pela fome, opressão, ignorância dos fatos ou pelo medo, entregam-se a salvadores de ocasião. Ditadores sabem disso: basta cultivar a mentira de suas ambições, o desespero colateral, para colher obediência. A liberdade, tão duramente conquistada, pode ser vendida por um punhado de certezas imediatas, e narrativas criadas como método de controle.

E no íntimo, o desespero nos desnuda. Tira-nos a máscara de moralistas e mostra o quão frágeis somos. Princípios são flores que precisam de solo fértil; não brotam em desertos. É fácil cultivá-los no jardim da abundância, difícil é mantê-los vivos quando a terra resseca e o vento cruel açoita.

Por isso, esta sentença é advertência e confissão: se desejamos que princípios sobrevivam, devemos aprender a não deixar que o totalitário e o desespero cresça e se expanda. Devemos criar espaços de esperança, fontes de dignidade, sementes de futuro e reflexão sobre a verdade. Pois onde o desespero impera, não há ética, não há lei, não há compasso. Há apenas a luta nua, o grito, a urgência da sobrevivência desatada dos fatos e do verídico na história.

Talvez o que nos distinga não seja a ausência do desespero — ele virá, cedo ou tarde — mas a coragem de, mesmo diante de seu estado sombrio, ainda tentar salvar uma fagulha dos nossos princípios, como quem protege uma vela acesa em meio à tempestade provocada pelo horror do totalitarismo no mundo.

sexta-feira, agosto 22, 2025

Os camelôs se reinventam, uns mais que outros

Os camelôs se reinventam, uns mais que outros 

Há alguns tipos de camelôs que exercem com maestria suas atividades de comércio. Se adaptam como camaleões às circunstâncias de mercado, seja na rua, na calçada, em local inusitado, pressentem a temperatura e pressão, como ensinam na escola de economia, eles sabem do Ceteris Paribus. O camelô  é um vendedor esperto, que muda de acordo com a hora, oferece na ordem do dia bugigangas variadas, mercadorias trazidas conforme o clima, objetos diretos da moda, os que cativam de imediato clientes os mais diferentes. 

Há também outros tipos de camelôs, os que vivem da função de juiz, e também os camelôs da filosofia. 

No Brasil ficamos acostumados a escutar, através da mídia televisiva, da imprensa, nas redes sociais, os dois últimos tipos de camelôs: o que milita no ofício de juiz e o filósofo que gosta da luz de auditórios. Os que vendem o que conhecem e se atraem por convites, os que adotam a veste de doutos, e os chegados ao preto da toga. Eles parecem sérios na batuta, tocam conforme a música aceita pelos mortais e ouvintes inquietos, um deita na fama e forma opinião, ainda que sem originalidade, o outro, que deveria proteger a lei, passam de criativos a iluminados, querem legislar, desrespeitam a própria função de guardar a Lei. E se afinam ao bem bom, desdenhar dos outros se dirigindo com palavras acintosas, chavões apropriados, típico dos que usam as facções.

Outros são camelôs se achando pensadores, filósofos que vendem boas ideias antigas em bacias de teorias e retóricas lidas, agradam platéias que ramam por bons ambientes, espaços de teatro, convenções e eventos políticos, se tornaram camelôs ofertantes de versátil prática de oralidade, em linguiças cheia de categorias para se mastigar.

Deixo por fim os camelôs da cultura e jornalismo, para exemplificar depois, porque esses são mais insinuantes, lustrosos, coloridos numa língua ubíqua, possuem até fonte oficial, e assim afamados, tem a cama pronta pelo ofício, chegando a tempo são acolhidos, podem assim e são elevados à letrada Academia.

sexta-feira, agosto 08, 2025

O negacionismo da imprensa

O negacionismo da imprensa

Por Guilherme Fiuza, GDP, 06/08/2025

A nova obsessão da imprensa é desacreditar manifestações populares. A importância da imprensa na história da civilização sempre foi associada ao fortalecimento das sociedades. Ou seja: disseminação de informação para o público, em oposição à concentração de conhecimento e poder. Uma imprensa que se dedica a desacreditar manifestações de rua, portanto, desistiu de ser imprensa.

E essa imprensa que desistiu de ser imprensa virou o que? Porta-voz do poder? Fica a dúvida.

Os últimos anos no Brasil concentraram algumas das maiores manifestações populares da história do país. Algum historiador que não seja empregado por institutos de pesquisa coreográficos pode fazer esse levantamento.

Constatará que as vultosas manifestações da última década, e em especial dos últimos cinco anos, tiveram três dados predominantes: foram pacíficas, tiveram as cores da bandeira nacional e pediam liberdade. Já os principais veículos de comunicação da mídia tradicional oscilaram entre dois pólos: dizer que tinha pouca gente ou associar o ato a propensões fascistas.

No último fim de semana não foi diferente. Manifestações populares expressivas tomaram diversas capitais e múltiplas cidades país adentro. Mais uma vez estavam lá as cores da bandeira, o comportamento pacífico e o pedido por liberdade. No caso, liberdade para a multidão de perseguidos por um regime que essa população que saiu às ruas considera autoritário. E como reagiu a imprensa tradicional?

Abriu a gaveta e sacou seu negacionismo providencial. A disposição de diminuir a realidade é tal, que os ativistas da alquimia jornalística chegam a se dedicar a um método bizarro: comparam entre si manifestações contra o regime atual, para dizer que uma foi menor do que a outra. Contando ninguém acredita.

E as manifestações populares a favor da corrente que conquistou o poder no Brasil? Onde estão? Onde estiveram? Foram maiores ou menores do que elas mesmas? A falta de povo a favor do grupo que a imprensa resolveu defender não comove os negacionistas das redações.

Eles não estão nem aí para esse negócio de gente nas ruas. Mas quando eventualmente um grupelho fingindo defender alguma minoria sai por aí tacando fogo e quebrando tudo, eles chamam de manifestação popular. Que papel triste.

“Não deve ser fácil olhar para multidões nas ruas e ficar pensando sofregamente como fazer para diminuir a importância daquilo”

Mesmo que não trabalhe na USP ou no DataFolha, algum jeito você vai ter que dar para minimizar o evento.

Sempre se tem o velho expediente de publicar uma foto do início da concentração e destacar os espaços vazios. Já cansaram de fazer isso sem o menor constrangimento. Também podem se dedicar à contagem de quarteirões ocupados - e se tiverem sido dez, ou mais que isso, sempre se pode dizer que ficou aquém de alguma outra manifestação por liberdade no mesmo local. Para o jornalismo da negação, nenhum pedido por liberdade será suficiente.

Será que a história vai expor devidamente os autores desse vexame? Será que o tempo é mesmo senhor da razão? A persistência da escalada mistificadora às vezes nos deixa em dúvida sobre isso. Seja como for, nos dias de hoje, se você está com a consciência em paz, pode se considerar um bilionário.

A Arquitetura da Censura: Mike Benz Expõe o Papel de Barroso na Interferência Eleitoral

A Arquitetura da Censura: Mike Benz Expõe o Papel de Barroso na Interferência Eleitoral

Por Karla Pegoraro Friedrichsen, 07/08/2025

Em depoimento recente à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN), o especialista norte-americano em censura digital, Mike Benz, revelou o que pode ser uma das denúncias mais graves contra a soberania brasileira desde a redemocratização. Segundo Benz, houve uma operação coordenada entre o governo dos Estados Unidos, por meio da administração Biden, e autoridades brasileiras para interferir diretamente no processo eleitoral de 2022.

No centro da acusação está o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. Segundo o depoente, Barroso teria mantido comunicação direta com a USAID – a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – para alinhar estratégias que envolviam não apenas a manipulação do discurso público, mas também ações de censura disfarçadas de “combate à desinformação”.

A denúncia ganha ainda mais peso quando Benz cita uma reportagem do Financial Times que revela a existência de uma “campanha silenciosa” do governo americano, envolvendo a CIA, o Pentágono e o Departamento de Estado. Um nível de envolvimento incomum até mesmo para os padrões já conhecidos de ingerência externa. Para Benz, tratou-se de um “engajamento diplomático anormal” com claros indícios de intromissão política.

A imagem construída até aqui de uma eleição transparente e legítima começa a ruir. O que se desenha, à luz dos fatos apresentados, não é o cenário de uma democracia vibrante, mas o de uma operação de guerra informacional onde a vontade popular foi condicionada, quando não suprimida, por uma aliança tóxica entre poderes nacionais e interesses estrangeiros.

Luís Roberto Barroso, que se projetou como o grande defensor da democracia, emerge agora como figura central de um esquema que subverteu os pilares da própria democracia que dizia proteger. Sua atuação vai muito além dos limites institucionais: Barroso teria ocupado um papel de coordenador silencioso de uma campanha de censura sistemática, valendo-se da mídia, de ONGs estrangeiras e da máquina estatal para moldar o debate público à sua conveniência.

O retrato que Mike Benz traça é o de um Brasil entregue. A soberania nacional, negociada em salas fechadas, foi rifada sob o pretexto da estabilidade institucional. O uso de organismos estrangeiros para controlar narrativas internas não é apenas uma afronta à Constituição — é um atentado à dignidade do povo brasileiro.

Essa denúncia não é uma teoria conspiratória. É um alerta fundamentado que exige investigação, responsabilização e, acima de tudo, memória. O que ocorreu em 2022 não pode ser normalizado como “proteção democrática”. Foi, sim, uma intervenção — sofisticada, silenciosa e eficaz — contra o livre exercício da cidadania.

E, como todo preço pago à mentira, a fatura chega. Barroso talvez entre para a história não como o guardião da democracia, mas como seu algoz em toga.

O que a Polônia entendeu — e o Brasil finge não saber

O que a Polônia entendeu — e o Brasil finge não saber

Por Alex Pipkin, PhD

Nos meus quase 60 anos, que completo em dezembro, nunca imaginei escrever um texto como este. Nunca imaginei ver, em todos esses anos, a esquerda brasileira pregar, abertamente, censura, perseguição política, controle de redes sociais e o uso sistemático do Judiciário como trincheira ideológica. Nunca imaginei ver a esquerda pedir de volta a mordaça, e ainda chamar isso de progresso.

Escrevo porque é preciso estudar, conhecer a história, ler de verdade. Não dá mais para opinar a partir de narrativas embaladas em vitimismo e servidas como virtude. O que está em jogo não é uma eleição, tampouco um partido. É a sanidade institucional do país, que se esvai diante dos nossos olhos.

Enquanto isso, a retórica segue intacta. Justiça social, redistribuição, luta de classes, ou seja, os mesmos slogans de sempre. Mas o que foi feito com tudo isso? O PT, partido que retornou à cena do crime, já esteve no poder por mais de 15 anos. Teve tempo, apoio popular, recursos históricos. E o que fez? Loteou o Estado, aparelhou instituições, consolidou castas estatais e manteve a pobreza sob controle político. Claramente, jamais como prioridade real.

A verdade é incômoda: a ideia nunca foi emancipar. Sempre foi manter os cidadãos em posição de servidão “consciente”, como beneficiários submissos de um Estado protetor, mas controlador. O discurso da inclusão serviu apenas como biombo para o autoritarismo.

A Polônia trilhou outro caminho. Após décadas de socialismo soviético, mergulhada em escassez, vigilância e repressão, viu surgir uma revolução real, o movimento Solidarność, liderado por Lech Wałęsa, um operário católico, anticomunista, genuíno. Eles não queriam controle. Ansiavam por liberdade. E quando ela chegou, o país rejeitou o socialismo não por ideologia, mas por vivência concreta. Naquele país a lição foi clara. Quando o Estado se torna gestor absoluto da economia, da moral e da vida cotidiana, a liberdade desaparece. O que se vende como justiça social se revela, cedo ou tarde, uma forma de dominação.

No Brasil, o socialismo nunca foi vivido, apenas encenado. Por isso muitos ainda fantasiam com a ideia de um Estado salvador, guiado por um “pai dos pobres” que nunca viveu a pobreza, mas aprendeu a explorá-la politicamente. Não há qualquer inocência nesse projeto. Ele não é bem-intencionado, como alguns preferem crer. É sofisticado, cínico e funcional, e dependente da miséria para justificar o poder, e do poder para perpetuar a miséria.

Friedrich Hayek já alertava, com precisão: mesmo quando nasce das melhores intenções, o planejamento centralizado exige o controle de tudo. E onde tudo é controlado, não resta liberdade possível. No nosso caso, nem é preciso discutir as intenções. Pragmaticamente, os resultados falam por si.

A Polônia escolheu a liberdade, mesmo com seus riscos e imperfeições. O Brasil parece disposto a aprender tudo da pior maneira, procrastinando e apostando que o autoritarismo, desta vez, virá com feição humana.

Este texto não é desabafo, é sim advertência.
De quem já viu muito, leu bastante e nunca imaginou viver em um país onde a esquerda voltaria ao poder pregando, como solução, a perseguição institucionalizada.

É também uma afirmação de convicção pessoal. É sempre preferível buscar, mesmo que imperfeita, a liberdade, a se render a um projeto de poder que, mesmo que fosse bem-intencionado (e não é), impõe ao indivíduo a servidão como destino — funesto.

quarta-feira, agosto 06, 2025

O rosto oculto do arbítrio

O rosto oculto do arbítrio 

Cristina Yukiko Kusahara (Morelli): a assessora por trás da engrenagem repressiva de Alexandre de Moraes

Por Rosa Cunha (jornalista e economista)

"Enquanto o Brasil testemunhava cenas dramáticas de centenas de pessoas presas após os protestos de 8 de janeiro de 2023, nos bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF) operava uma força silenciosa, sem rosto conhecido, mas com grande poder. No centro desse núcleo de controle, Cristina Yukiko Kusahara, chefe de gabinete do ministro Alexandre de Moraes, exerceu um papel decisivo — e altamente controverso.

Funcionária do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), cedida ao STF desde 2020, Yukiko coordenou informalmente o que críticos já denominam como uma “justiça paralela”, voltada a manter brasileiros presos sem provas concretas, com base em critérios ideológicos e digitais.

🔴 Censura e condenações sem julgamento

A maior denúncia envolvendo Cristina Yukiko está relacionada à coordenação de um grupo de WhatsApp batizado de “Audiências de Custódia”, no qual decisões sobre a manutenção da prisão de mais de mil manifestantes eram tomadas sem o devido processo legal, com base em postagens em redes sociais, curtidas, uso de camisetas verde e amarelo, ou presença em grupos de WhatsApp com palavras como “patriota”.

Ela mesma impôs uma dinâmica que ignorava garantias fundamentais:

“Temos 1.200 pessoas custodiadas, e a maioria vai ser liberada. Não podemos nos dar ao luxo de ficar filosofando.”

Esse tipo de fala ilustra o desprezo por princípios como presunção de inocência, ampla defesa e individualização da pena. Yukiko não apenas desconsiderou o papel da Procuradoria-Geral da República — que, em muitos casos, recomendava a soltura de presos — como impôs um sistema inquisitorial com base em perfis digitais e alinhamento político.

🔴 Triagens políticas e prisões arbitrárias

Sob sua coordenação, técnicos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) foram convocados a analisar perfis dos detidos, como se fossem peritos judiciais — embora sem nomeação oficial, sem contraditório e sem qualquer registro nos autos.

As prisões foram mantidas com base em relatórios de “comportamento digital”, e não por ações concretas no dia 8 de janeiro. Pessoas que jamais estiveram em Brasília, ou sequer haviam publicado conteúdo criminoso, foram enquadradas como “positivas” e mantidas encarceradas por semanas ou meses.

Em uma das mensagens, Yukiko pressiona diretamente os servidores do TSE:

“Eu preciso dessa análise, feita com cautela, mas não no ritmo de vocês aí do TSE… O pessoal aí está mal acostumado.”

A urgência imposta por Cristina era menos sobre justiça e mais sobre “mostrar serviço” e sustentar uma narrativa de repressão implacável, mesmo que à custa de direitos humanos e da legalidade.

Desprezo institucional pelo devido processo

Mesmo após o fim das audiências de custódia, o grupo coordenado por Cristina continuou sendo consultado para vetar pedidos de liberdade provisória. O ministro Alexandre de Moraes só autorizava solturas após o parecer extraoficial desse núcleo, o que representa uma usurpação de competências do Ministério Público e do próprio sistema de garantias judiciais.

Essa estrutura de poder — baseada em grupos de WhatsApp, comandos informais e rastreamento ideológico — é classificada por juristas como um "aparelho paralelo de perseguição judicial", que fere a Constituição e os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Apesar das graves denúncias, Cristina Yukiko foi condecorada com a Medalha do Pacificador pelo Exército Brasileiro, em agosto de 2023 — um prêmio geralmente reservado a personalidades que prestaram serviços relevantes à nação. A homenagem causou espanto entre juristas e militares da reserva, uma vez que sua atuação, longe de pacificadora, foi símbolo de uma escalada autoritária promovida de dentro do Judiciário.

O rosto oculto do arbítrio

Cristina Yukiko nunca apareceu diante das câmeras. Não presta contas ao público. Mas esteve no centro de uma das maiores perseguições políticas já registradas na história recente do país. Em vez de garantir os direitos dos detidos, como se espera de uma servidora pública, ela assumiu a linha de frente de um sistema de punição coletiva, vingança institucional e desrespeito às liberdades civis.

A história do 8 de janeiro será lembrada não apenas pelos atos nas ruas de Brasília, mas pelos atos a portas fechadas, nos bastidores do Supremo Tribunal Federal e TSE - onde decisões que destruíram vidas, famílias e reputações foram tomadas com base em curtidas, memes e opiniões políticas, sob o comando de uma assessora que jamais foi eleita, mas que operou com poder de Estado.



terça-feira, agosto 05, 2025

Os degraus do totalitarismo no Brasil

 Os degraus do totalitarismo no Brasil 

"De degrau em degrau o STF está colocando o Brasil na mesma prisão do Bolsonaro"

Vivemos um momento histórico sombrio e contundente, um instante no qual nos faz, e podemos fazer o exercício do pensamento que quer ser livre, entender como e porquê os políticos criminosos nazistas e fascistas chegaram ao poder. Toda a elite, seja intelectual, cultural e uma claque financeira, que se julgam a trupe da "inteligência" civilizadora da nação, todos esses, os que colaboram com o regime totalitário em ascensão, uma ditadura que ignora as leis, tripudia da liberdade e dos direitos humanos, perseguindo seus opositores, forjando provas para prender seus críticos e condená-los por crime de opinião, assassinando reputações e vidas pela guilhotina financeira; esses da militância de redação, os apoiadores da corrupção endêmica, defensores da censura e negação dos fatos, os da plateia de isentos, os admiradores dos absurdos de ilegalidades... são todos cúmplices daqueles que dobram a aposta e insistem em exercer o poder através do abuso de poder, através da incitação ao ódio e uso da vingança sem limites, esses que investem e incentivam a celebração do terror, das atrocidades operadas por uma organização criminosa contra cidadãos impotentes e inocentes.



quarta-feira, julho 30, 2025

A cegueira imanente da esquerda

 A cegueira imanente da esquerda 

O que parece uma incompreensão da realidade, da situação caótica que está a um palmo diante do nariz, absurdos acontecendo sob decisões autocráticas de um grupo radical do judiciário e da esquerda juntos no controle do poder, essa gente que abertamente, sem escrúpulos, passou a defender terrorismo, bandidos condenados, acusar os adversários de fascista quando eles apoiam atitudes desse matiz, sendo eles mesmos atores de perfil claramente nazista, assumem ações antissemitas e suportam ditaduras, com hipocrisia abjeta, em qualquer parte do mundo. A falsa defesa de princípios como liberdade de expressão, democracia, fica patente, uma configuração da expressão de toda formação ideológica recebida, com permissão própria, durante muitos anos. Uma parcela de jovens saem dessa "universidade", instituições originadas em organizações políticas de fundamentos e alicerces filosóficos experimentados, sempre com o intuito da tomada do poder ainda que "sem eleições". As revoluções lideradas por conhecidos genocidas históricos testaram o pragmatismo dessas ideias em populações de milhões de mortos nos quatro cantos do planeta.

Uma análise da prática histórica dessas organizações e partidos de esquerda, cooptando, treinando, orientando, "educando" por meio de metodologias voltadas à uma visão crítica do mundo, com particular atenção ao capitalismo, traz ao olhar de quem investiga, se ocupa do contexto presente, a questão da práxis dessas pessoas ser apenas uma escolha sem noção de um imberbe, incauto, uma experiência temporária decorrente de ignorância da história, falta de leitura, ausência de amplo painel cultural, dissonância cognitiva, ou um compromisso que definido em razão de circunstâncias da vida, patologias do ressentimento ao status do outro, idiossincrasias da vida, ou uma determinação em obedecer a renomadas autoridades (intelectuais, lideranças políticas), por fraca autoestima ou preguiça mental dessas que sempre aceita ser guiado sem reflexão as ordens e decisões de iluminados?

Cheguei a conclusão que deve ser um tipo de cegueira, que não foi e não é repentina no nosso contexto, não uma falta de visão física, porém tal como a que Saramago expõe em seu livro e que foi muito bem desenhada no cinema ela se mostra e pode ser comprovada atualmente.

O filme Ensaio Sobre a Cegueira (2008), baseado no romance homônimo de José Saramago, é uma poderosa alegoria sobre a condição humana, a fragilidade das estruturas sociais e, principalmente, sobre a forma como vemos — ou deixamos de ver — o mundo à nossa volta.

A cegueira que atinge repentinamente toda uma população não é apenas a perda da visão física, mas a metáfora da cegueira moral, social e espiritual. O “branco leitosa” que substitui o mundo visível é uma imagem perturbadora do colapso da empatia, da ética e da civilização. As pessoas não deixam de enxergar apenas com os olhos — elas perdem a capacidade de ver o outro, de reconhecer a dignidade humana, de construir relações baseadas em solidariedade.

Esse “não ver” representa nossa cegueira cotidiana diante da injustiça, da desigualdade, da exclusão. É uma crítica contundente à forma como muitas vezes escolhemos ignorar o sofrimento alheio, a corrupção dos sistemas, ou o próprio esvaziamento do sentido de humanidade.

A única personagem que não é afetada pela cegueira — a mulher do médico — simboliza aquele que enxerga em meio ao caos, mas que, em vez de exercer o poder com arrogância, carrega o fardo da lucidez. Ela vê, mas sofre por isso, pois assistir à degradação moral dos outros a obriga a confrontar sua impotência diante da barbárie. Isso nos leva a perguntar: quem realmente vê? Quem enxerga o mundo com clareza e responsabilidade?


O filme, portanto, expõe que a verdadeira cegueira talvez não seja a ausência de luz nos olhos, mas a ausência de lucidez no coração e na consciência. Quando a visão do mundo se torna egoísta, insensível ou automatizada, a humanidade se perde. Só quando somos forçados a confrontar a escuridão — ou o branco ofuscante de um mundo sem sentido — é que talvez possamos reaprender a ver de verdade.

Em tempos de crise, desigualdade e desinformação, A Cegueira é um chamado a abrir os olhos — não só os físicos, mas os olhos da ética, da compaixão e da reflexão. Afinal, como disse Saramago: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

terça-feira, julho 29, 2025

"As mudanças estão chegando…”

 “As mudanças estão chegando…”

Ontem assisti o filme “Um completo desconhecido”, que conta retalhos da vida e arte do artista Bob Dylan, e que me trouxe na tela pinceladas da criatividade diferenciada do artista, poeta e músico compositor de significativa importância para uma geração de jovens e amantes das mudanças, esses que conheceram e viveram as grandes transformações do prodigioso século XX.

Foi essa frase, “as mudanças estão chegando…”, simples e apocalíptica, que me atravessou como um raio em pleno Morumbi, São Paulo, 1989. Eu não era mais um jovem contestador, tampouco um daqueles que carregam cartazes na Avenida. Já estava trabalhando, imerso nas análises e relatórios para o Dieese, na implantação do sistema Arpan, que gerenciava o cadastro e financeiro de entidades sindicais. Uma estatística do mundo real. 

Mas naquela noite — ah, naquela noite — fui colhido por outra fonte de estatística: a de que um homem com um violão pode mudar a rotação da alma de milhares de pessoas ao mesmo tempo.

Quem me levou foi uma colega de trabalho, Verônica, daquelas que falam de programação e política com paixão, e de música com reverência. “Vamos ver o Dylan?”, ela disse, como quem convida para ver um eclipse. Eu fui. Talvez por curiosidade, talvez por saudade de algo que eu ainda nem sabia que me faltava. Retomei a possibilidade de mudanças, a partir da minha própria mudança.

Bob Dylan estava lá. Não como uma lenda distante, mas como uma presença rascante, meio curvada, envolta em sombras e luzes amareladas. A voz? Áspera como o cascalho das estradas que ele tanto cantou. Mas cada palavra era um golpe certeiro. Cada acorde, um lembrete de que estávamos todos — mesmo os mais céticos — imersos num tempo que se desfazia e se refazia diante de nossos olhos. Me emocionou.

“As mudanças estão chegando…” — ele cantou, e o estádio inteiro pareceu suspirar junto. Porque em 1989, o mundo estava mesmo à beira de um novo fôlego. Berlim ainda dividida, a Guerra Fria resfriando-se aos poucos, o Brasil saindo de décadas de sombra. E lá estava Dylan, o homem que nunca quis ser porta-voz de nada, encarnando tudo o que não sabíamos dizer.

Naquela noite, vi mais que um show. Vi um poeta em carne, osso e acordes. Vi a palavra ganhar corpo e saltar do palco como profecia suave. Vi a música deixar de ser apenas um entretenimento e se tornar espelho, farol e sismo. 

Parado diante da figura iluminada no palco, no criador de mensagens, escritor e músico, vi o artista diferente daquele dos anos 60-70, parecia cansado, sua voz estava dizendo mais algo sobre ele que o mundo presente, afinal havia passado por processos recentes bastante marcantes, com forte significado para a sua vida. De referência para uma juventude rebelde, inspirando e disparando mudanças, tinha passado alguns anos em um período de estado reflexivo, religioso, se afastando até certo ponto da relação de artista amado por milhões de fãs e cobrado por suas criações, preferiu recolher-se ao seu próprio mundo de crenças. Talvez o peso das mudanças, muitas que ocorreram no mundo, e as contribuições da sua arte tenham exigido demais de sua energia vital e tônus intelectual poético irretocável. Quase quebrou.

Mesmo depois que as luzes se apagaram, quando voltamos ao cotidiano de reuniões e relatórios, alguma coisa havia mudado. Não do lado de fora — o trânsito ainda era o mesmo, a inflação também. Mas por dentro, sim. Por dentro, as palavras dele continuavam ecoando: “the times they are a-changin’...”

E naquela noite, confesso, tive a estranha sensação de que o mundo começava a mudar ali — no Morumbi, entre solos sujos de guitarra, o choro da gaita, e versos que ainda ecoam dentro de mim.

Dylan cantou, o tempo continuava o mesmo, nada mudou ali, mas me surpreendi comigo mesmo, tinha mexido nas minhas emoções e na minha mente. Escutei a sua mensagem. Foi nesse momento que fiz uma guinada disruptiva em tudo que acreditava e defendia. O gatilho de minhas mudanças disparou novas escolhas, uma jornada de novos interesses, atitudes, que se abriram, e que nos anos seguintes me fez abandonar as regras do anacrônico “compromisso de classe”, de militante de uma só causa, da proximidade com a fidelidade ideológica de uma práxis de viés autoritário. E parti para critérios de aprendizado diferentes, iniciei uma profunda análise de vida, sobre a minha antiga percepção da realidade, direcionando-me para uma abertura aos princípios filosóficos clássicos e de valores reais com alicerces democráticos. Um ganho da maturidade, resultado da experiência que elimina erros da inocência ou ignorância dos fatos? As minhas descobertas quanto às más referências históricas, leituras revolucionárias, a formação crítica da desinformação, preferência por narrativas, não eram mais importantes, decisivas, e as influências na ação passaram a ser determinadas por pensamentos próprios, não copiados de preconceitos nem absorvidos de escolas de ideologias da violência e divisão da sociedade por uma educação motivada pela vingança, conflito permanente, ressentimentos, pelo ódio ao outro: assim são marxistas, leninistas, maoistas, trotskista ou a política velada existente na militância cultural do gramscismo; selos impressos como doutrinas nas mentes de jovens universitários do Brasil nas últimas longas cinco décadas. 

Os critérios das mudanças são uma construção de escolhas, que estão relacionadas com a busca da sabedoria e percepção verdadeira da unidade do real, e precisa estar firmada sobre pilares éticos, transparência de caráter e empatia humana, em valores inerentes aos marcos civilizatórios. As mudanças podem ser desejadas, conquistas que são motivadas, chegam, pode demorar, às vezes para uma, dezenas de pessoas, milhares mergulhados no oceano digital de informações, mas chegam e quando chega… muda, mudamos, e o mundo muda junto.



sexta-feira, julho 25, 2025

A medida da inteligência humana

 A medida da inteligência humana 

A inteligência se revela nas atitudes, comportamentos, e na forma como alguém interpreta a realidade e se expressa sobre ela. Não é apenas um acúmulo de fatos, mas sim a capacidade de interagir com o mundo de forma humana e significativa. Não basta saber; é preciso saber como aplicar o que se sabe em situações reais.

Quando observamos as ações de uma pessoa, como ela resolve problemas, como lida com desafios, como interage com os outros e como comunica suas ideias, estamos vendo a inteligência em ação, considerando contextos e com empatia. A forma como alguém interpreta os eventos, como se posiciona diante das circunstâncias e o tipo de soluções que propõe são indicadores muito mais ricos de sua capacidade intelectual do que a simples memorização de informações que obtiveram durante anos de vida.

Ao reparar as reações e comportamento de pessoas que antes agiam e apresentavam suas indignações na forma de arte, manifestando-se publicamente, mesmo que com dificuldades de viver em um regime totalitário, hoje essas mesmas pessoas estão usando sua inteligência com propósitos de defesa de mais um regime autoritário, apoiando o que antes condenavam quando protestavam por liberdade criando arte, música e literatura mesmo correndo o risco da censura e perseguição, no entanto essas mesmas pessoas parece que perderam ou esqueceram daqueles princípios balizadores da dignidade, dos direitos humanos, que respeita e de quem quer viver numa democracia. Falta de compreensão, esquecimento do passado, negação de suas experiências, inteligências sem referência, a percepção crítica das coisas do mundo se desmancharam no caminho de suas conquistas? De fato, as ideias mudam, porém essas pessoas seja por acomodação, indigência moral, mau caráter, se transformaram no pior exemplo de cidadãos de honestidade intelectual, abraçando a hipocrisia e se afastando do mundo real. Suas análises, discurso se parece com os dos defensores de regimes ditatoriais, vazios da razão e verdade dos fatos. Que desastre essa gente se tornou e comete!



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