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segunda-feira, dezembro 06, 2010

entrevista com Robert Barbault

A destruição da biodiversidade tem as mesmas causas que a degradação social

Robert Barbault é um reconhecido especialista em biologia das populações humanas e, a partir dos anos 1980, foi um dos primeiros a refletir sobre o conceito de “biodiversidade”. Em sua reflexão, se reúnem duas fontes dissociadas: a ecologia naturalista e a ecologia política. O resultado ressalta uma evidência nem sempre destacada: “Nossa existência se fundamenta sobre os sistemas vivos”. Daí sua cruzada científica contra o crescimento do PIB como única variável do desenvolvimento e sua defesa de uma “cooperação” com o tecido vivo do planeta.
A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada no jornal Página/12, 04-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O que é a vida? Um passeio pelas passarelas da Galeria da Grande Evolução do Museu de História Natural de Paris oferece uma resposta singular: os elefantes, os dinossauros, as girafas, as zebras, os macacos, os tigres, os rinocerontes, as focas, os incontáveis pássaros e borboletas compõem um retrato alucinante da diversidade da vida terrestre.
Do silêncio atomizado desses animais, de sua eterna imobilidade científica oferecida à observação, desprende-se uma sensação de admiração, de estranheza e de irmandade substancial com aquele labirinto de espécies. A terminologia moderna define essa variedade de seres vivos que povoam a Terra com um termo nem sempre compreendido em sua exata profundidade: a biodiversidade, isso que o biólogo francés Robert Barbault chama de “o tecido vivo do planeta”. Tecido, rede, malha, entrelaçado, entramado, a relação entre as espécies é uma interconexão permanente que não exclui o ser humano.
Barbault é um reconhecido especialista da biologia das populações humanas e, a partir dos anos 1980, foi um dos primeiros a refletir sobre o conceito de “biodiversidade”, que o entomólogo Edward Wilson pôs de moda quando advertiu sobre o acelerado desaparecimento das espécies.
Biólogo, professor da Universidade de Paris VI e diretor do Departamento de Ecologia e Gestão da Biodiversidade no Museu Nacional de História Natural, Barbault explorou esse “tecido vivo”, mas não como uma curiosidade científica, e sim em sua relação mais direta e perigosa com as sociedades humanas. Em seu livro mais célebre, “El elefante en la cacharrería” (Ed. Laetoli, 2009), o biólogo francês analisou a “destruição programada da biodiversidade” sob a pressão do crescimento das sociedades humanas. A União Internacional de Conservação da Natureza – UICN calcula que uma terça parte das espécies animais ou vegetais está ameaçada de extinção e que a velocidade dessa extinção é mil vezes mais elevada do que o ritmo natural.
Barbault reúne em sua reflexão duas fontes dissociadas: a ecologia naturalista e a ecologia política. O resultado é um trabalho rigoroso e claro que ressalta uma evidência nem sempre destacada pela ecologia política: “Nossa existência se fundamenta sobre os sistemas vivos”. Daí sua cruzada científica contra o crescimento do PIB como única variável do desenvolvimento e sua defesa de uma “cooperação” com o tecido vivo do planeta, isto é, com os seres vivos.
Robert Barbault observa frequentemente que, da “biodiversidade”, só percebemos a palavra, que o Ocidente vive tão afastado da biodiversidade que até perdeu a consciência de que a aventura do ser humano no planeta é possível graças a ela, até quando consumimos gás ou petróleo. O que é a vida? Pois precisamente isto: um tecido de diversidades que a espécie humana se empenhou em destruir.
Eis a entrevista.
Os sentidos da biodiversidade
A biodiversidade é uma palavra de moda, cujo sentido profundo, no entanto, escapa à compreensão completa. Os meios de comunicação a resumem à relação que pode haver entre uma aranha e uma mosca, mas a biodiversidade é algo mais complexo e até mais estratégico que as mudanças climáticas.
Se a palavra biodiversidade foi inventada não foi só para afirmar que a vida é diversificada. Não, foi para introduzir algo novo e radicalmente diferente: trata-se de tomar consciência das nossas implicações na biodiversidade, à qual eu defino como o tecido vivo do planeta. Existem redes, malhas, tecidos e interações entre as espécies, entre nós e as espécies. E esse tecido é que hoje está se desconstruindo, destecendo. A biodiversidade é um fenômeno geopolítico que apresenta muitos problemas. Quando nos referimos à biodiversidade estamos aprendendo muitas coisas sobre nós, os seres humanos. A biodiversidade é um espelho, é um problema da sociedade humana, e não só dos seres vivos, que podem prescindir de nós. O sistema de lobbies que está por trás do desenvolvimento atual tem um tal poder financeiro, uma capacidade de comunicação e de manipulação da opinião tão grande que chega a semear a dúvida na sociedade sobre os problemas derivados da biodiversidade ou das mudanças climáticas. Temos uma visão limitada da biodiversidade, como se se tratasse só de um catálogo de espécies ou de uma coleção de figurinhas. Não se chega a entender que uma espécie é semelhante à população humana, é um conjunto de indivíduos que depende de recursos, de um território.
O senhor assinala em seus trabalhos um paradoxo terrível: nossa relação com o sistema dos seres vivos é destrutiva quando, na realidade, o ser humano depende inteiramente da integridade desse sistema.
O modo de desenvolvimento econômico é governado por uma espécie, a humana, que se desenvolveu em um passo acelerado e que, para viver, requer constantes recursos. O sistema econômico dominante fez perder de vista a noção segundo a qual nossa existência se funda sobre os sistemas vivos. As energias fósseis, carvão ou petróleo, são o resultado dos seres vivos. Tudo o que comemos provém dos seres vivos, da diversidade. A roupa com a qual nos vestimos, até quanto é sintética, provém da diversidade, porque sai do petróleo, e o petróleo é o trabalho da vida durante milhões e milhões de anos. Tudo parte das estruturas dos seres vivos, estamos rodeados delas. A razão de ser da diversidade é a estratégia de adaptação às mudanças, às catástrofes. Isso explica por que os seres vivos são tão diversificados e por que existe muito mais do que três espécies na Terra. Para durar em um mundo que muda todo o tempo, só a diversidade tem essa capacidade de adaptação.
O papel da cooperação
O senhor também destaca outra das carências da visão contemporânea da natureza. Aprofunda-se muito nos princípios de preservação, de proteção, mas se aborda muito pouco a noção de cooperação entre as espécies, concretamente, entre o ser humano e seu entorno natural. Erigiu-se a competição e o desenvolvimento como norma, ou seja, como abuso.
Consumimos em excesso o que nos dá a vida e esquecemos com isso a noção de cooperação entre as espécies. Trabalhou-se muito pouco sobre a cooperação entre as espécies. Até os anos 1980, falava-se muito sobre a relação entre o predador e a presa, mas muito pouco sobre a interação, a cooperação. Isso me levou a me interessar pela história do pensamento ecológico. Nesses textos, encontrei um reflexo da sociedade industrial, isto é, o conceito de concorrência acima de tudo, a relação comedor/comido. Não havia nada sobre a importância das relações baseadas na cooperação. No entanto, na história dos seres vivos, a cooperação e as interações positivas entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes são fundamentais, ainda mais quando constituem a fonte da diversidade e da vida na Terra. Não nego a existência da concorrência entre as espécies, mas também encontramos os mesmos níveis de cooperação. Por exemplo, se refletirmos um pouco, logo nos damos conta de que a agricultura nada mais é do que uma relação de cooperação entre o “Homo sapiens”, as plantas e os animais que domesticamos. As sociedades humanas também funcionam em torno da confiança e da cooperação. Como vimos com a crise financeira, quando se produz uma ruptura na confiança, rompe-se a sociedade, e nada funciona. A mesma lei que rege as sociedades humanas vale para os seres vivos.
No entanto, o modelo de desenvolvimento é totalmente destrutivo, ao contrário da biodiversidade e da ideia de cooperação.
Esse sistema foi construído segundo a hipótese de que a natureza era uma questão de recursos infinitos, ilimitados. Durante os séculos XVI, XVII y XVIII, essa hipótese podia ser válida porque o impacto do ser humano sobre a natureza era moderado. Mas com a aceleração do tempo, graças aos desenvolvimentos técnicos e científicos e a irrupção da sociedade industrial, a população humana cresceu enormemente, e com isso as suas necessidades. Essa hipótese é, então, inaplicável. A mudança se produziu com a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, acelerou-se a depredação dos recursos. Desde então, nada deteve o movimento. Hoje, sabemos que essa política não pode continuar. Inventou-se o conceito de desenvolvimento sustentável, mas tenho a impressão de que essa ideia feliz se limita a uma espécie de marca, de etiqueta, de selo carente de benefícios. De fato, por mais desenvolvimento sustentável que se queira impulsionar, se não refletirmos sobre a falsidade em que se baseou o nosso modo de funcionar, não serve para muito. Se quisermos mudar o rumo da situação, é imprescindível levar a cabo essa reflexão, encontrar em que erramos a fim de reincorporar-nos ao tecido do vivo planetário e tomar consciência de que dependemos dele. É preciso mudar muitas coisas de forma radical. Isso não se fará de um dia para o outro. Passar de um sistema de desenvolvimento como o nosso, totalmente depredador, a outro mais racional levará tempo. Desenvolvimento sustentável também quer dizer desenvolver mais qualidade de vida. Mas, claro, se falarmos de desenvolver o crescimento do PIB, então caímos em um sem sentido. Lamentavelmente, esse é o risco que corremos hoje.
A ditadura do PBI
A ideia de crescimento é intrínseca ao conceito de desenvolvimento. É filosófica e politicamente impossível fazer com que se entenda que a ditadura do crescimento do PIB como única medida do desenvolvimento humano e do progresso é um suicídio programado.
A realidade é a seguinte: se passarmos para um modo de crescimento mais econômico e eficaz, só isso nos permitirá ganhar um pouco de tempo para tentar, pelo menos, mudar de direção. Mas o problema que se propõe é que é quase impossível falar de decrescimento. Não se aceita a ideia de que o crescimento não pode ser eterno, é impossível falar disso ou analisar o que estamos colocando dentro da palavra crescimento, o que é que pode crescer e o que não pode. Esse foi um dos limites que eu encontrei no desenvolvimento sustentável. Não se trata de discutir sobre o sustentável, mas sim sobre o que é exatamente o desenvolvimento, isso que concerne às sociedades humanas e que deveria permitir-lhes durar o maior tempo possível. A crise da biodiversidade nos obriga hoje a refletir nesses termos. Lamentavelmente, a biodiversidade continua limitada às reservas, à ideia simples de preservação. E tudo continua igual, porque as referências são estritamente econômicas, e esse modo de desenvolvimento econômico não leva em conta os estragos que são produzidos. Muito pelo contrário, os estragos estão incluídos no crescimento! Quanto mais se destrói, mais se aumenta o PIB. Com um indicador desses, começamos muito mal!
Chegou-se a uma velocidade de destruição da biodiversidade mil vezes superior à velocidade natural.
A velocidade de destruição da biodiversidade é consideravelmente maior do que a natural, e, principalmente, se não mudarmos nada, essa destruição continuará se acelerando. Essa é a principal preocupação, que muitos poucos levam a sério.
Inclusive, quando existe um debate sobre isso, muitos cientistas defendem que chegamos à sexta etapa da extinção.
Depende de como as coisas são ditas, porque senão isso pode ter um aspecto mais negativo do que construtivo. Diz-se: estamos na sexta crise de extinção e faz-se a analogia com as cinco anteriores, que ocorreram quando o ser humano não estava aqui e em escalas de tempo que não têm nada a ver com as escalas com as quais vivemos hoje. A última extinção durou milhares de anos. Dito isso, devemos compreender que estamos em um processo, em uma fase de aceleração da taxa de extinção. Em nossa qualidade de espécie humana, temos a capacidade de reagir. Se somos capazes de fazer a guerra de um dia para o outro, até quando não há dinheiro, penso que podemos resolver o problema. Não acredito que vamos erradicar completamente a amplificação da erosão da biodiversidade, mas podemos tender para uma estabilização, para uma coexistência pacífica com a biodiversidade. Prefiro dizer que estamos em uma fase de incremento da extinção, conhecemos a causa e temos os meios para corrigir a tendência. Precisamos da riqueza dos seres vivos para continuar tendo uma qualidade de vida humana na Terra. Não é a sobrevivência biológica do homem que está ameaçada, é a sua sobrevivência como ser humano com H maiúsculo que está na corda bamba, isto é, sua dimensão de ser humano. As causas da destruição da biodiversidade são as mesmas que desencadeiam a degradação social. Fazer como se fossem coisas diferentes, como se os problemas das espécies fossem secundários e os problemas do desemprego uma coisa de primeiro plano não é pertinente: na realidade, o mesmo rolo compressor que degrada a sociedade humana degrada o marco de vida das sociedades humanas em todo o mundo.
Como explicar a diferença e até a irresponsabilidade planetária da população humana, especialmente no Ocidente, frente à degradação da biodiversidade, ao desaparecimento das espécies?
Acredito que, acima de tudo, é um problema de impotência. Além disso, a população humana é cada vez mais humana e falta um elemento central: o desaparecimento da transmissão da informação sobre as espécies. Mas o mais fundamental que ocorreu é que o ser humano se cortou do resto dos seres vivos. Descompôs-se a trilogia judaico-cristã: Deus, o homem e a natureza. Quando alguém se aprofunda na visão dinâmica da biodiversidade, no tecido do vivo no planeta, em suas interações, nas relações de parentesco que existem entre as espécies, o que se chama de árvore da vida, isso nos leva a tomar consciência de que estamos arraigados muito profundamente no vivo. Em nossos genes, temos heranças que remontam a milhões e milhões de anos. Por conseguinte, sentir-se um primo próximo dos outros seres vivos em uma época de profunda desestabilização equivale a uma forma saudável de arraigamento. A partir daí, podemos redescobrir nossa relação parental com as outras espécies, nossa dependência com o resto dos seres vivos e ver assim a riqueza que existe em tudo isso. Nossa relação de dependência com os seres vivos também nos dá nossa liberdade de seres humanos para desenvolver novas coisas. Há um paradoxo na tomada de consciência da dependência, que é, por sua vez, a base de uma autêntica liberdade.
Os caminhos da humanidade
Como transmitir esse saber, essa consciência, para as novas gerações? A educação, que é uma base decisiva, fracassou até agora. Não seria necessário refundar o sistema educativo para desenvolver as noções de biodiversidade, cooperação, interação?
A educação continua sendo essencial. A educação deve ser um instrumento de formação para o espírito crítico.
A ecologia política tem um lugar sobressalente no discurso e na sociedade. Por acaso, os ecologistas não pecaram por falta de amplitude, por uma incapacidade de explicar com mais generosidade a relação do ser humano com a natureza?
Essa crítica é válida tanto para a ecologia política quanto para a ecologia científica. Se olharmos para a história, a ecologia nasceu pouco depois da explosão da Revolução Industrial, com a influência de Thomas Malthus e dos problemas que ele propôs em torno ao equilíbrio entre o crescimento da população e os recursos. Imediatamente, os cientistas puseram-se a analisar como funcionava a natureza, em que se baseia a regulação dos efetivos das plantas e dos animais. Enquanto isso, a ecologia se fazia perguntas que hoje o desenvolvimento sustentável se faz. Era o problema de fundo. Mas depois, de forma progressiva, a ecologia foi monopolizada pelos naturalistas. Começou-se a falar das populações animais e vegetais, dos ecossistemas, como se o homem não tivesse nada a ver. De fato, pôs-se o ser humano de lado. A ecologia política fez o mesmo, com o condicionante negativo de que a ecologia política não se apoiou na ecologia científica. Não tenho certeza de que um único partido político pode responder aos problemas que o mundo dos seres vivos nos apresenta. Devemos passar de um mundo em que se veem as coisas divididas para um mundo em que se percebem as interações entre o todo e o todo, tanto entre as próprias sociedades humanas entre si, como entre as sociedades humanas e o resto do mundo. Essa visão permite compreender as interações e os efeitos colaterais. Com esse enfoque, estamos certos de que somos conscientes de que pertencemos à biosfera. As pessoas nem sequer são conscientes de que a atmosfera é um recurso natural e que também é o resultado do trabalho dos seres vivos. Se não houvesse vida na terra, não teríamos atmosfera.
Finalmente, a ideia individual de desenvolvimento, ou seja, de crescimento, esmagou todas as demais.
O acento que foi posto na individualização foi nefasto, mas essa ideia é também uma das riquezas das sociedades ocidentais. Se não for controlada como é devido ou se não tivermos consciência dela, só colheremos o negativo. A liberdade para cada indivíduo não exclui a responsabilidade e a interação. Veja a história dos EUA, cheia de páginas escuras. Os EUA são hoje um dos grandes, grandes problemas, são um dos responsáveis mais decisivos da situação atual. Há algo de muito perverso no sistema norte-americano: por um lado, está a imagem da liberdade total, de império do bem. Mas não é assim. Quando analisamos o resultado da cúpula de Copenhague, a culpa do fracasso não é nem da China nem da Índia. A situação a que chegamos hoje foi produzida pela sociedade ocidental. Por exemplo, depredamos muitos países. Mas o sucesso da sociedade ocidental foi forjado com o tributo obscuro que os escravos, o tráfico de seres humanos, a espoliação pagaram. O saque dos recursos do mundo inteiro fez a nossa riqueza, mas hoje nos leva a constatar que até o clima se degrada. Então, os responsáveis somos nós. Se fôssemos responsáveis, não diríamos que a culpa é dos chineses ou da Índia, porque querem nos imitar. Seria preciso dizer: pecamos em excesso e, agora, devemos sanar a situação. Lamentavelmente, não se procedeu assim, e vamos perder 30 anos. O Ocidente perdeu uma oportunidade. Tudo isso é consequência do culto ao individualismo que nos leva a perder de vista uma noção essencial: nas sociedades humanas, o mais importante é o social, inclusive na economia. Sem a dimensão social, o homem não existiria.
Fonte: Ecodebate, 06/12/2010 publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

sexta-feira, novembro 12, 2010

o que é desenvolvimento sustentável?

Conceito de sustentabilidade

por Mauro da Fonseca Ellovitch
O que poucas pessoas questionam é: o que é desenvolvimento sustentável?
Uma das palavras mais em voga em anúncios e comerciais é sustentável. Qualquer marca que se preze quer agregar a ideia de sustentabilidade a seu produto. De mineradoras e fábricas de automóveis até alimentos e shows, todos alegam que seus produtos e serviços são sustentáveis. Um grande publicitário, certa vez, me disse que o qualificativo sustentável nos dias atuais é usado para dar status a produtos, assim como a palavra globalizado era empregada como sinônimo de moderno no início da década de 1990.
O que poucas pessoas questionam é: o que é desenvolvimento sustentável? Podemos defini-lo como a exploração racional do meio ambiente, da maneira menos degradante possível. Significa a adoção de medidas para prevenir e mitigar impactos, associadas à compensação adequada das alterações ambientais inevitáveis.
A verdadeira sustentabilidade é prevista pela Constituição Federal, quando impõe como dever do poder público e da coletividade a defesa e preservação do meio ambiente para as presentes e futuras gerações (artigo 225, caput) e quando estabelece a defesa do meio ambiente como um dos princípios da ordem econômica (artigo 170, VI).
Sustentabilidade implica o reconhecimento da necessidade do homem de fazer uso dos recursos naturais, sem esquecer que tais recursos são finitos e que prestam serviços importantes em um contexto mais amplo. Durante muito tempo, confundiu-se liberalismo econômico com liberalidade: cada empreendedor fazia uso egoísta e predatório de “seus” rios e matas, sem qualquer consideração com a manutenção da sadia qualidade de vida para toda a sociedade.
O chamado “setor produtivo” esgotava recursos ambientais e gerava poluição descontrolada, sem qualquer questionamento. Com a difusão dos estudos sobre meio ambiente, aquecimento global e escassez de recursos naturais, iniciou-se a preocupação com a exploração desenfreada do meio ambiente.
A sociedade despertou para esses graves problemas e passou a valorizar quem compartilhava dessa preocupação. Como reação natural, empreendedores e administradores públicos perceberam que a ideia de sustentabilidade poderia agregar valor a seus produtos ou angariar votos. Todavia, a maioria deles não associou medidas efetivamente sustentáveis ao discurso comercial/institucional, preferindo optar por paliativos e medidas predominantemente estéticas e mais baratas.
Um empreendimento agropecuário não é sustentável só porque não usa sementes transgênicas. Para ser considerado sustentável, ele deve passar por procedimento de licenciamento ambiental (artigo 10 da Lei 6.938/81 c.c. Resolução Conama 237/97); possuir reserva legal (artigo 16 da Lei 4.771/65) conservada, demarcada e averbada no registro do imóvel; não intervir em áreas de preservação permanente (artigo 2º da Lei 4.771/65); cuidar da destinação de efluentes líquidos e de resíduos sólidos; não realizar queimadas (artigo 27 da Lei 4.771/65); fazer uso adequado de defensivos agrícolas (Lei 7.802/89); usar racionalmente os recursos hídricos (Lei 9.433/97); entre outras medidas.
Uma fábrica não é sustentável só porque patrocina uma horta comunitária ou porque instalou “lixeirinhas” coloridas para colocação de resíduos (que depois são recolhidos, misturados e destinados, sem tratamento, a lixões). Essa fábrica só faz jus ao uso do qualificativo sustentável se tem as necessárias licenças ambientais (artigo 10 da Lei 6.938/81 c.c. Resolução Conama 237/97); se apresentou estudo de impacto ambiental no caso de significativo impacto ambiental (artigo 225, §1°, IV, da Constituição Federal c.c. Resolução Conama 1/1986); se opera com controle de dispersão de particulados (Resolução Conama 3/1990 e Deliberação Normativa Copam 11/86); se seus resíduos sólidos são efetivamente separados, reincorporados no processo produtivo e/ou destinados a locais adequados (Lei 12.305/10); se os efluentes industriais são tratados antes de serem destinados a cursos d’água (Resolução Conama 357/05 e Deliberação Normativa Copam 10/1986) etc.
Os mesmos que se dizem sustentáveis são aqueles que buscam a flexibilização das normas de proteção ao meio ambiente. Essa flexibilização é outro conceito deturpado, não passando de um eufemismo para dispensa de estudos e de medidas para mitigação de impacto. Todos os empreendedores são, em teoria, a favor da preservação do meio ambiente. Na prática, muitos buscam evitar qualquer medida que possa gerar ônus, evitando a internalização dos danos e deixando-os para serem absorvidos pela sociedade.
Mesmo no âmbito do poder público, a ideia de sustentabilidade é cercada de falácias. Diversos candidatos perceberam que a defesa da preservação do meio ambiente pode render dividendos políticos e soa muito bem em discursos de campanha. Esses mesmos representantes, quando eleitos, não adotam medidas concretas para proteção ambiental. A construção de um aterro sanitário não é tão vistosa quanto o asfaltamento de uma via pública. Por isso, não são poucos os administradores que optam por manter “lixões” poluentes em imóveis afastados de centros urbanos em vez de investir para a adequada gestão dos resíduos sólidos domiciliares. Politicamente, também é interessante o apoio irrestrito a grandes empreendedores “geradores de emprego e renda”, mesmo que isso implique a dispensa de medidas para mitigação de impacto ou na autorização ilícita para desmates em áreas legalmente protegidas.
O administrador público deve tratar adequadamente o lixo e o esgoto domiciliar, regulamentar a expansão urbana e fiscalizar a instalação de empreendimentos, para que estes respeitem o ordenamento jurídico, não destruam áreas de proteção ambiental e não gerem poluição que deteriore a qualidade de vida dos munícipes.
Somente quando houver a real aplicação do conceito de desenvolvimento sustentável na implementação de políticas públicas e na instalação e operação de empreendimentos poderemos pensar em desenvolvimento sustentável. Do contrário, sustentabilidade será apenas mais uma palavra vazia em comerciais de televisão.
(*)Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado em O Estado de Minas.
Fonte: EcoDebate, 12/11/2010

terça-feira, agosto 24, 2010

China, Índia, cenários de um modelo

Enorme necessidade energética da China cria cenário propício a desastres ambientais


Vazamento de petróleo em Dalian, China. Foto: Reuters/NYT
Vazamento de petróleo em Dalian, China. Foto: Reuters/NYT

Às vezes as estatísticas colidem no momento exato para mostrar um quadro mais amplo. A necessidade crescente de energia da China está resultando num aumento dos incidentes industriais, e são poucas as chances de que a série de catástrofes ambientais do país diminua no futuro próximo.
Faz um mês que a República do Povo sofreu seu pior vazamento de petróleo. O desastre de 16 de julho aconteceu num momento sensível para Beijing, ao mesmo tempo em que veio a notícia de que a China ultrapassou os Estados Unidos no consumo de energia.
O vazamento aconteceu depois que dois oleodutos explodiram num depósito de armazenagem de petróleo no porto de Dalin, administrado pela China National Petroleum Corp., parente da companhia mais valorizada por capitalização de mercado do mundo, a PetroChina. Desde 2006, o local do acidente havia sido considerado um risco ambiental pelas autoridades locais. Reportagem de Sam Chambers, International Herald Tribune/The New York Times.
O incidente detonou uma chama espetacular que queimou por três dias, espalhando um cheiro acre pela metrópole do nordeste chinês, que costumava vencer as enquetes sobre cidade mais habitável da China.
Alguns dias depois da explosão, a Agência Internacional de Energia disse que a China era a maior consumidora de energia do mundo, e não os Estados Unidos. A mudança histórica aconteceu anos antes do que se previa, uma vez que o consumo de energia da China mais do que dobrou em menos de uma década.
A AIE disse que o consumo de energia da China em 2009, do petróleo e carvão até a energia eólica e solar, equivaleu a 2,265 bilhões de toneladas de petróleo. Os Estados Unidos usaram 2,169 bilhões de toneladas no ano passado. Per capita, entretanto, os norte-americanos ainda consomem cinco vezes mais energia.
No ano passado a China se tornou o maior mercado de carros do mundo. Só em agosto de 2009 os habitantes de Beijing compraram mais carros novos do que toda a população norte-americana. E no entanto a China tem apenas 1/20 do número de carros por pessoa do que os Estados Unidos têm. E a consultoria Mckinsey estima que o número de automóveis nas estradas da China irá mais do que triplicar até 2020.
Beijing contestou os números da AIE. Entretanto, a confusão estatística foi esclarecida mais tarde com números do próprio ministério de proteção ambiental da China.
O número de acidentes ambientais aumentou 98% nos primeiros seis meses do ano, de acordo com o ministério, enquanto a demanda por energia e minerais levou ao envenenamento de rios e derramamentos de óleo no país que hoje é o maior poluidor do mundo.
“O rápido desenvolvimento econômico está ocasionando cada vez mais conflitos com a capacidade de o meio ambiente absorver” as demandas, disse o ministério numa declaração no mês passado. Ele acrescentou que a qualidade do ar se deteriorou pela primeira vez em cinco anos nos seis primeiros meses deste ano.
Durante as duas últimas décadas, o fornecimento de petróleo se tornou uma prioridade de segurança nacional. Em janeiro de 2009, a dependência da China do petróleo estrangeiro atingiu 50% pela primeira vez. Essa dependência só irá crescer – nem a China, nem a Índia nesse caso, têm reservas significativas de petróleo para explorar; seu crescimento econômico irá continuar e superar em muito a capacidade da produção doméstica de petróleo. Importar a maior parte de sua necessidade energética é agora um fato para as duas nações mais populosas do mundo.
Entre 2004 e 2009, a China respondeu por 40% do aumento total do consumo de petróleo, um fator-chave no aumento dos preços do petróleo visto durante o período. Beijing sabe que qualquer interrupção no fornecimento de petróleo deixará o país refém dos interesses estrangeiros, gerará um caos em sua indústria manufatureira e deixará milhões de pessoas desempregadas.
Assim, a China embarcou num esforço para aumentar seus estaleiros e frota mercante, e está aumentando o investimento estratégico em algumas áreas portuárias, principalmente no oceano Índico. Beijing quer que a China seja a maior construtora de navios até 2015, e que 40% de todas as importações de petróleo do país sejam feitas por navios chineses até essa data.
Há uma década só existia um estaleiro na China capaz de construir os grandes navios-tanque. Hoje, o país tem uma dúzia de estaleiros capazes de construir esses navios gigantescos.
No ano de 2000, a frota da China carregava apenas 6,7% das importações de óleo bruto do país; essa quantidade aumentou para 20% em 2005. O objetivo de 40% deve ser atingido em 2011, quatro anos antes do previsto, enquanto a maior parte das entregas de novos navios a cada duas semanas é feita para proprietários chineses. Mas a qualidade ainda é um problema – a mão de obra de baixa qualidade transforma muitos dos navios construídos na China em bombas-relógio ambientais.
A China também acelerou dramaticamente a construção de grandes terminais de petróleo acima de 200 mil toneladas de porte bruto. Em 2000, existiam apenas três grandes terminais de petróleo para o país inteiro. No final de 2009, a China havia construído 13 terminais de petróleo de 200 mil toneladas de porte bruto ou mais, com a capacidade de receber 282 milhões de toneladas de petróleo.
No período de uma década, a China construiu uma gama incrível de infraestrutura para gerir seu comércio marítimo de petróleo. Ninguém nunca montou uma frota de navios-tanque ou terminais dessa escala num período tão curto de tempo. Mas essa pressa traz problemas – como mostra o desastre de Dalian.
(Sam Chambers é coautor de “Petróleo na Água”, um estudo sobre como a China está mudando os padrões do comércio mundial de petróleo.)
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Tradução: Eloise De Vylder
Reportagem [China's Ticking Time Bomb] do International Herald Tribune/The New York Times, no UOL Notícias.
Fonte: EcoDebate, 24/08/2010

segunda-feira, agosto 09, 2010

etanol e desenvolvimento socioeconômico

Produção de etanol não traz desenvolvimento social

Pesquisador do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da UnB analisa 306 municípios produtores de cana-de-açúcar e conclui que impulso econômico não se traduziu em melhora para a população.
Os municípios produtores de etanol no estado de São Paulo não praticam um tipo sustentável de lavoura e nem conseguiram melhorar seu desenvolvimento socioeconômico. É o que aponta a dissertação Sustentabilidade Ambiental do Etanol no Estado de São Paulo, defendida nesta terça-feira, 3 de agosto, por Antônio Juliani, no Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da UnB.
Juliani analisou 306 municípios paulistas com área de produção de cana de açúcar superior a 5 mil hectares. Segundo o pesquisador, 218 deles têm baixo índice de desenvolvimento socioeconômico, ou seja, 71%. Quando analisada somente a sustentabilidade ambiental, somente oito (2%) apresentam índice satisfatório.
O autor sustenta que muito se fala sobre as implicações ambientais da produção da cana-de-açúcar para biocombustíveis, mas pouco sobre as condições de vida das populações das regiões produtoras. “Parece que está tudo bem desde que não se plante na Amazônia”, pondera. Segundo ele, não se pode desconsiderar os níveis de escolaridade e renda das populações, porque isso tem também implicações ambientais. “Uma população em condição de vulnerabilidade social tem menos consciência da necessidade de preocupar-se com o meio ambiente”, defende.
Outra causa para os baixos níveis de sustentabilidade ambiental é a falta de envolvimento das prefeituras com políticas voltadas para a área. “É necessário criar leis que regulamentem e fiscalizem a produção de etanol”, sugere.
ÍNDICE – Para medir o desenvolvimento socioeconômico, o pesquisador utilizou o Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS), que mede a riqueza do município e a escolaridade e longevidade da população. “Ele se difere do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) porque pondera outras variáveis, como a faixa etária ou o consumo de energia elétrica”, conta. Também utilizou o Índice Paulista e Vulnerabilidade Social (IPVS), que mede a dificuldade de acesso a questões básicas como saúde e educação. Casando os dois índices, Juliani montou o índice de desenvolvimento sócio-econômico (ID).
Para medir a sustentabilidade ambiental, o autor utilizou indicadores relacionados à biodiversidade, qualidade do ar, qualidade da água, concentração da cultura de cana de açúcar, nível de mecanização da lavoura, uso de adubação verde e adequação ao zoneamento agroambiental para o setor no estado de São Paulo.
“O trabalho do Juliani é relevante porque se preocupa com as práticas por trás da produção do etanol”, sustenta o professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Hans Bellen. Segundo ele, o índice tem a preocupação de mostrar o lado social por trás do desenvolvimento econômico nos municípios. A professora Vanessa Castro, do CDS/UnB, destaca o grande número de municípios analisados. “É relevante porque faz grande estudo de caso e ainda traz grupo de comparação. É quase um censo da produção de etanol no estado de São Paulo”, diz.

Reportagem de Juliana Braga, da Secretaria de Comunicação da UnB, publicada pelo EcoDebate, 09/08/2010.

segunda-feira, julho 26, 2010

qual 'modelo de desenvolvimento'

Modelo predatório: termoelétricas, usinas nucleares e desmatamento

por Heitor Scalambrini Costa*

[EcoDebate] Nas últimas semanas foram veiculadas pela mídia notícias que deixaram, no mínimo, preocupados todas as pessoas que querem, esperam e desejam que Pernambuco se desenvolva de forma sustentável e assim, melhore a condição de vida da população pernambucana. O crescimento econômico do Estado tão propalado e propagandeado não é um fim em si mesmo.  Ele é uma ferramenta, um instrumento para o desenvolvimento.  E o desenvolvimento que nós defendemos é aquele que seja sustentável em todos os aspectos: econômico, ambiental, social e cultural.
Inicialmente, deixou-nos perplexos, o anúncio do secretario estadual de Recursos Hídricos, na 9ª Reunião do Conselho deliberativo da SUDENE, ocorrida em 29 de abril, de que o Estado vai entrar na disputa para receber uma central nuclear que o governo federal planeja instalar no Nordeste. É sabido que no seu artigo 216, a Constituição Estadual proíbe a instalação de usinas nucleares em Pernambuco enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia elétrica de outras fontes. Logo, o governador vai ter que mudar a Constituição Estadual.
Outra ação do executivo, na mesma linha da perplexidade, foi o envio à Assembléia Legislativa (AL) do Projeto de Lei (PL) 1496/2010, autorizando o desmatamento de 1.076,49 hectares de vegetação nativa, para a ampliação do Complexo Industrial e Portuário de Suape, no Grande Recife. Com a pressão das organizações da sociedade civil pelo absurdo proposto, um substitutivo foi enviado e aprovado, para o desmatamento de 691 hectares (tamanho aproximado de 700 campos de futebol), de mata nativa, sendo 508 de mangue, 166 de restinga e 17 de mata atlântica. Ação idêntica de desmatamento de vegetação nativa está também em tramitação na AL, o PL 1591, que autoriza o desmatamento de 7,4 hectares, distribuídos em 44 fragmentos, visando o alagamento de uma área para a formação do reservatório de uma PCH (pequena central hidrelétrica) chamada Pedra Furada, no município de Ribeirão, na Mata Sul.
Mais recentemente, o comunicado divulgado pelo grupo finlandês Wärtsilä, que irá assumir a construção da usina termelétrica Suape II, no Complexo Industrial e Portuário de Suape, com uma potência instalada de 380 MW, funcionando com óleo combustível: uma sujeira só para o meio ambiente. O projeto do tipo “chave na mão” (turnkey) pertence a um grupo formado pela Petrobrás e a Nova Cibe Energia (Grupo Bertin), cujo início de operação comercial está prevista para 1º de janeiro de 2012.
Em nome de alavancar o desenvolvimento do Estado, com novos investimentos para a região e a criação de novos postos de trabalho e geração de renda, se perpetua um modelo predatório, cujas consequências podem ser traduzidas na aceleração da degradação ambiental e no aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsável pelas mudanças climáticas; além de pressionar os problemas econômicos e sociais com mais concentração da riqueza gerada.
A questão das opções e das escolhas das fontes de energia é assunto em pauta, no contexto mundial, pois são as fontes energéticas atuais (petróleo/derivados, gás natural, carvão mineral e minérios radioativos) responsáveis por mais de 2/3 das emissões de gases de efeito estufa no mundo. Com relação à instalação de termoelétricas no Estado, recordemos da TermoPernambuco (TermoPe), movida a gás natural, que até recentemente, por falta deste insumo, nunca havia atingido sua capacidade instalada plena de 520 MW, além de ter contribuído e contribuir significativamente para a majoração extraordinária das tarifas de energia elétrica no Estado. Trata-se de um exemplo que não podemos esquecer.
O que deixa atônito a todos é este anúncio, completamente inexplicável do ponto de vista ambiental e da oferta de energia elétrica, da Energética Suape II. O combustível a ser empregado é o óleo combustível, que dentre os combustíveis fósseis é o mais “sujo”, pois para cada 0,96 m3 de óleo combustível consumido na usina serão emitidas 3,34 toneladas de CO2 (segundo a Agência Internacional de Energia).
O interesse pelas usinas nucleares é outra decisão absurda do governo estadual, completamente descabida, fora de propósito e equivocada. Os argumentos utilizados como o da diversificação da matriz energética, atendendo o crescimento da demanda de energia da região, de que é uma tecnologia segura, não emissora de CO2 e barata para a produção de energia elétrica, são argumentos falaciosos e não representam a verdade dos fatos.
Com relação aos custos da eletricidade nuclear eles são caros e irão impactar ainda mais as tarifas de energia elétrica, uma das mais caras do mundo. De que é uma tecnologia segura? Como se fosse possível, alguns de seus defensores chegam a afirmar que os riscos de ocorrer um acidente inexistem. Obviamente, não podemos negar os renovados esforços da indústria nuclear em apresentar-se como segura, todavia, acidentes em instalações nucleares em diversos países continuam a demonstrar que esta tecnologia é perigosa, oferecendo constantes riscos que podem trazer conseqüências catastróficas ao meio ambiente e à humanidade, por centenas de milhares de anos. Sem falar em outro problema que continua sem solução no Brasil e no mundo, que é o armazenamento do lixo radioativo gerado pelas usinas. Estima-se que estes rejeitos tenham que ficar isolados durante até 10 mil anos. Aí se evidencia um problema de ordem ética, pois usamos a eletricidade agora e deixaremos para as gerações futuras resolver o que fazer com este lixo.
Afirmar que as centrais nucleares não contribuem para os gases de efeito estufa, que são “limpas”, é uma meia verdade. No conjunto de etapas do processo industrial que transforma o mineral urânio, desde quando ele é encontrado nas minas em estado natural até sua utilização como combustível dentro de uma usina nuclear, chamado ciclo do combustível nuclear, são produzidas quantidades consideráveis de gases de efeito estufa. Segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica se consideramos a mineração do urânio, o transporte, o enriquecimento, a posterior desmontagem da central (descomissionamento) e o processamento e confinamento dos rejeitos radioativos, esta opção produz entre 30 e 60 gramas de CO2 por kWh gerado. Já de acordo com a metodologia de Storm e Smith para o cálculo de emissões, o ciclo de geração por fontes nucleares emite de 150 a 400 g CO2/kWh, enquanto o ciclo para geradores eólicos emite de 10 a 50 gCO2/kWh. O cálculo que faz a Oxford Research Group chega a 113 gramas de CO2 por kWh. Isso é aproximadamente o que produz uma central a gás. Portanto, aqui também tem um mito, um afã de descartar, cortar e mostrar uma parcialidade sobre a realidade desta fonte de energia.
Quanto os desmatamentos previstos na área de Suape, também há um engano que comprometerá as futuras gerações, em afirmar que o “novo ciclo de desenvolvimento (?)”, e que a “redenção econômica do Estado (?)” exigirá “o sacrifício ambiental” daquela área, segundo o diretor de Engenharia e Meio Ambiente de Suape (JC de 25/04/2010 “Os desafios do Desenvolvimento”). É preciso que se façam os investimentos corretos a fim de compatibilizar o desenvolvimento que leva em conta a saúde, a educação, a cultura, com a diversidade e com a proteção dos recursos naturais. Temos sim, que avançar no sentido de uma mudança de paradigma da relação das indústrias com os recursos naturais, com o uso de novas tecnologias, que possam ser menos poluentes, que possam contaminar menos, que assumam esse papel da responsabilidade social e ambiental. É preciso cada vez mais dizer alto e em bom tom que o meio ambiente não atrapalha o desenvolvimento.
Empreendimentos da magnitude que estão ocorrendo não podem acontecer sem uma forte participação da sociedade, pois os impactos ambientais, entendidos como as consequências das ações previstas e em andamento, acabarão influindo na qualidade de vida, não somente dos moradores daquela região, mas de todo o Estado. Partindo do conceito de desenvolvimento sustentável podemos afirmar que é um absurdo e um equívoco que o governo estadual opte pela energia nuclear e pela termoelétrica a óleo combustível para geração de energia elétrica, considerando que o Estado conta com outras opções de produção a partir de energias renováveis e limpas (solar, eólica, bioeletricidade/bagaço da cana de açúcar).  Para um desenvolvimento sustentável, voltado para o bem de todos, da pessoa humana e da natureza, não se deve optar pelo desmatamento e sim pela preservação ambiental.
O mais importante a destacar é que o crescimento que estamos vivenciando em Pernambuco está subordinado a um modelo de desenvolvimento econômico que considera que crescer desmatando e utilizando fontes energéticas “sujas” é o único caminho. Uma visão do século passado que ainda domina as mentes dos gestores.
(*)Colaboração de Heitor Scalambrini Costa, Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco, para o EcoDebate, 02/06/2010.

domingo, julho 25, 2010

outra racionalidade

A Globalização Econômica e a Morte da Natureza
por Enrique Leff *

A crise ambiental foi o grande desmancha-prazeres na comemoração do triunfo do desenvolvimentismo, expressando uma das falhas mais profundas do modelo civilizatório da modernidade. A economia, a ciência da produção e distribuição, mostrou seu rosto oculto no disfarce de sua racionalidade contra natura. O caráter expansivo e acumulativo do processo econômico suplantou o princípio de escassez que funda a economia, gerando uma escassez absoluta, traduzindo-se em um processo de degradação global dos recursos naturais e serviços ambientais. Este fato se torna manifesto na deterioração da qualidade de vida, assim como na autodestruição das condições ecológicas do processo econômico (J. O’Conner, 1988). A degradação ecológica é a marca de um crise de civilização, de uma modernidade fundada na racionalidade econômica e científica como valores supremos do projeto civilizatório da humanidade, que tem negado a natureza como fonte de riqueza, suporte de significações sociais e raiz da co-evolução ecológico-cultural. Apesar da marca indelével dessa falta, a queda do socialismo real converteu-se em um argumento triunfalista para a racionalidade econômica unipolar, para a expansão e globalização do mercado sem contrapesos políticos e de um novo crescimento, com controles ecológicos, mas sem limites.
Nesse sentido, a viabilidade do desenvolvimento sustentável converteu-se em um dos maiores desafios históricos e políticos do nosso tempo. Dali surgiu o imperativo de ecologizar a economia, a tecnologia e a moral. Nessa perspectiva se inscrevem as tentativas da economia neoclássica para internalizar as externalidades ambientais com os critérios da racionalidade econômica, ou os da economia ecológica para fundar um novo paradigma, capaz de integrar os processos ecológicos, populacionais e distributivos aos processos de produção e consumo. A economia ambiental (a economia neoclássica dos recursos naturais e da contaminação) supõe que o sistema econômico pode internalizar os custos ecológicos e as preferências das gerações futuras, atribuindo direitos de propriedade e preços de mercado aos recursos naturais e serviços ambientais, de maneira que estes pudessem integrar-se às engrenagens dos mecanismos de mercado que se encarregariam de regular o equilíbrio ecológico e a equidade social. No entanto, a reintegração da natureza e da economia enfrenta o problema de traduzir os custos de conservação e restauração em uma medida homogenia de valor. A economia ecológica assinalou a incomensurabilidade dos processos energéticos, ecológicos e distributivos com a contabilidade econômica, assim como a impossibilidade de reduzir os valores da natureza, da cultura e da qualidade de vida à condição de simples mercadorias, e os limites que impõe as leis da entropia ao crescimento econômico. A valorização dos recursos naturais está sujeita a temporalidades ecológicas de regeneração e produtividade, que não correspondem aos ciclos econômicos, e a processos sociais e culturais que não podem reduzir-se à esfera econômica. A internalização das condições ambientais da produção implica, assim, a necessidade de caracterizar os processos sociais que subjazem e desde onde se atribui um valor – econômico, natural – à natureza.
A crise de recursos deslocou a natureza do campo da reflexão filosófica e da contemplação estética para reintegrá-la ao processo econômico. A natureza deixou de ser um processo de trabalho e uma matéria-prima para converter-se em uma condição, um potencial e um meio de produção. A conservação dos mecanismos reguladores e processos produtivos da natureza aparecem assim como condição de sobrevivência e fonte de riqueza, induzindo processos de apropriação dos meios ecológicos de produção e a definição de novos estilos de vida. No entanto, a problemática ambiental supera o propósito de realizar “ajustes (ecológicos) estruturais” no sistema econômico e de construir um futuro sustentável através de ações racionais com ajuste a valores ambientais.
Desde tempos imemoriais a sociedade humana tem incorporado normas morais que provaram ser fundamentais para a sobrevivência e a convivência humanas. A proibição do incesto foi uma lei interna da cultura que o homem aprendeu antes de ser formulada por algum antropólogo, e o mito de Édipo marcou a condição do desejo a partir de onde foi traçada a história da subjetividade e da cultura humana. No entanto, a racionalidade científica do Iluminismo construiu um projeto ideológico que pretendia emancipar o homem das leis-limite da natureza. Dessa maneira, a razão cartesiana e a física newtoniana modelaram uma racionalidade econômica baseada em um modelo mecanicista, ignorando as condições ecológicas que impõem limites e potenciais à produção. A economia foi se desprendendo de suas bases materiais para ficar suspensa no circuito do abstrato dos valores e preços do mercado.
A tomada de consciência a respeito dos limites do crescimento que surge da visibilidade da degradação ambiental – mais que das formulações científicas sobre a segunda lei da termodinâmica – desponta como uma crítica ao paradigma normal da economia. Na beira do precipício, soou o alarme ecológico anunciando uma catástrofe tão inesperada como impensável na auto-complacência do progresso científico-ecológico, e a convicção, tanto no campo capitalista como no socialista, de que o desenvolvimento das forças produtivas abriria as portas para uma sociedade de pós-escassez e à liberação do homem do reino da necessidade. Ao ser levantado o véu teórico e ficar desnudada a realidade flagrante da degradação ambiental, apresentou-se uma fratura teórica e social de maiores consequências do que a revolução copernicana ante o poder teológico construído em torno do sistema ptolomaico.
       No entanto, o paradigma econômico – o sistema científico e institucional – tem sido incapaz de assimilar a crítica apresentada pela lei da entropia e da racionalidade econômica. Em face das propostas de colocar um freio no crescimento e da transição a um economia de estado estacionário – fundados no reconhecimento das leis da termodinâmica que condenam o processo econômico e a degradação entrópica -, a teoria e as políticas econômicas procuram eludir o limite e acelerar o processo de crescimento, montando um dispositivo ideológico e uma estratégia de poder para capitalizar a natureza. Daí emergem o discurso neoliberal e a geopolítica do desenvolvimento sustentável, reafirmando o livre mercado como mecanismo mais clarividente e eficaz para ajustar os desequilíbrios ecológicos e as desigualdades sociais. Além dos obstáculos epistemológicos, das controvérsias em torno dos sentidos da sustentabilidade e do enfrentamento de interesses para ecologizar a economia e dissolver as “contradições” da racionalidade econômico-tecnológica – formal instrumental – dominante, várias questões estão no centro dessa polêmica, como, por exemplo, a eficácia das políticas ambientais para incorporar os valores da natureza, seja mediante instrumentos econômicos (subsídios, impostos e incentivos; contas verdes e indicadores de sustentabilidade) ou de normas ecológicas que estabeleçam as condições externas que deve assumir a economia de mercado. Nesse espectro de reformas da racionalidade econômica se situa o debate das possíveis soluções tecnológicas (tecnologias mais limpas, desmaterialização da produção), assim como o lugar dos valores e a moral dos indivíduos para corrigir os desvios do sistema econômico através de uma ética conservacionista e da “soberania dos consumidores”.
       A crise ambiental colocou a descoberto a insustentabilidade ecológica da racionalidade econômica. Daí o propósito de internalizar as externalidades socioambientais do sistema econômico ou de submeter o processo econômico às leis ecossistêmicas nas quais se inscreve. Isso representa o problema da incomensurabilidade entre os sistemas econômicos e ecológicos, entre processos físicos, biológicos, termodinâmicos, culturais, populacionais, políticos e econômicos, que conformam diferentes ordens de materialidade, e a diferença das possíveis estratégias para compatibilizar políticas econômicas e ambientais e para transitar para um desenvolvimento sustentável. Três grandes vertentes foram apresentadas para enfrentar os desafios da sustentabilidade: a) a economia ambiental que procura incorporar as condições ambientais da sustentabilidade – os processos energéticos, ecológicos e culturais externos ao sistema econômico -, através de uma avaliação de custos e benefícios ambientais e sua tradução em valores econômicos e preços de mercado. b) a economia ecológica que estabelece o limite entrópico do processo econômico e a incomensurabilidade entre processos ecológicos e os mecanismos de valorização do mercado, procurando desenvolver um novo paradigma que integre processos econômicos, ecológicos, energéticos e populacionais. c) a possibilidade de pensar e construir uma nova racionalidade produtiva, fundada na articulação de processos ecológicos, tecnológicos e culturais que constituem um potencial ambiental de desenvolvimento sustentável.
Uma questão fundamental nesse debate se refere à possibilidade de globalizar e estender a racionalidade econômica para todas as comunidades e espaços de sociabilidade, que dizer, a capacidade de universalizar a razão econômica diante das limitações que lhe impõe a própria natureza dos sistemas vivos e dos ecossistemas (suas condições de conservação e regeneração), assim como os valores culturais de povos e comunidades que resistem a serem absorvidos pela lógica do mercado e reduzidos às razões do poder dominante. Se uma argumentação fundamentada e coerente, assim como a realidade evidente, mostram que nem a eficácia do mercado, nem  a norma ecológica, nem uma moral conservacionista, nem uma solução tecnológica são capazes de reverter a degradação entrópica, a concentração de poder e a desigualdade social geradas pela racionalidade econômica, então é necessário apresentar a possibilidade de outra racionalidade, capaz de  integrar os valores da diversidade cultural, os potenciais da natureza, a equidade e a democracia como valores que sustentam a convivência social e como princípios de uma nova racionalidade produtiva, em sintonia com os propósitos de sustentabilidade. Para isso é necessário elucidar os princípios que fundamentam os desafios apresentados pela construção de uma racionalidade ambiental.

(*) Enrique Leff é um economista mexicano, doutor em Economia do Desenvolvimento pela Sorbonne (1975), é professor de Ecologia Política e Políticas Ambientais na Pós-Graduação daUniversidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e, desde 1986, coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Também é conhecido no Brasil como professor do Curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná.

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