terça-feira, julho 07, 2009

cronópios

22/6/2009 17:17:00
Paraulas para Palau*

Por Augusto de Campos

Em 1951, por conta da minha paixão pela arte trovadoresca provençal, adquiri uma bela antologia de modernos poetas catalães, que, para minha tristeza, acabou desaparecendo de minha vista depois que, no meu entusiasmo, a emprestei a um amigo que se mostrara interessado. Mais de meio-século se passou e só recentemente consegui recuperar, comprando-a de uma livraria internacional, a obra que tanto me impressionara: LA POESIA CATALANA – CONTEMPORANIS – Seleció e Prologo de F. Gutiérrez, editada por Josep Janés em 1947.

O catalão é a língua mais próxima do provençal, a meio-caminho do português, e desde logo me fascinaram as proximidades e dessemelhanças desses idiomas, que me soavam como harmônicos sonoros, sugerindo-me estranhas variações e ressonâncias vocabulares. Tão impressionado fiquei que inseri nos poemas que então elaborava algumas palavras, que dão a impressão de neologismos, mas na verdade são catalonismos imbricados na nossa língua. Num velho caderno da época anotei, ao lado de um pequeno vocabulário traduzido para o português, versos e palavras que me chamaram a atenção, dentre elas as que infiltrei, nem sempre com o mesmo sentido ou a mesma função gramatical, em poemas de 1952 e 1953: “coloraina”, “enlluernar” (enluernar), “veueta d’or”, “a l’afalac de l’amor”, “finestra” (fenestra), flairós” (flairar)”, “eixamplar” (exampl’eu), extraídas ou derivadas de poemas de Josep Carner, Trinitat Catasus, Josep M. Lopez-Picó, Alfons Maseres e outros.

A poesia catalã sempre me pareceu muito forte. Tem tradição trovadoresca e uma expressiva inserção moderna, que se pode contextualizar com a projeção pictórica de grande artistas como Picasso e Miró. Chego a pensar que só o isolamento linguístico explica a sua pouca projeção internacional. João Cabral, que, como se sabe, viveu em Barcelona e lá fez amigos entre poetas e pintores, teve sensibilidade para reconhecer o mérito da produção dos modernos poetas catalães, e veio a traduzi-los, até, para o português (“Quinze Poetas Catalães”, Revista Brasileira de Poesia nº IV, fev. 1949). Quando tomei conhecimento, na época, de agumas das versões cabralinas, chamou-me a atenção, especialmente, o SONETO INTRAUTERINO de Josep Palau i Fabre, com aqueles versos originalíssimos e impactantes: “Jo vul desneixer em tu. Tot home vol desneixer en un amor, un si.” [Quero desnascer em ti. Todo homem quer desnascer num amor, num seio.]. Dentre as primeiras iniciativas de divulgar a poesia da Catalunha no Brasil destaca-se a de Stella Leonardos, que publicou em 1969 uma Antologia de Poesia Catalã Contemporânea (São Paulo, Monfort Editor). Ainda há pouco um entusiasta, Vanderley Mendonça, editor e tradutor brasileiro de obras de Joan Brossa, fez estampar, em elegantes impressões bilingues do seu intrépido e já “cult” Selo Demônio Negro, duas “miniantologias” de J. V. Foix e Joan Salvat Papalat, poetas menos conhecidos mas que estão entre os mais significativos da grande safra da modernidade catalã, em tradução de Ronald Polito e Josep Domènesch Ponsati.

Animado com a recuperação da minha querida e perdida antologia, traduzi três textos do mesmo José Palau, pensando em homenageá-lo, já que, como verifiquei, faleceu em fevereiro do ano passado, aos 90 anos — passamento ignorado entre nós. Amigo de Picasso, ficou conhecido pela biografia que fez do pintor, mas a sua poesia tem permanecido em indevida obscuridade. Os catalães são aparentemente fáceis de traduzir para o português, devido à proximidade dos idiomas, mas essa facilidade é enganosa. Ao contrário das espanholas, as palavras catalãs são em geral mais breves que as equivalentes em nossa língua e o parentesco vocabular induz a equívocos. Muitos dos poemas que li sob a rubrica de “contemporâneos” são metrificados e rimados, o que torna ainda mais problemática uma tradução desse tipo de poesia à altura do original; mesmo os versos livres (menos livres do que parecem) por vezes dissimulam decassílabos, endecassílabos e dodecassílabos e, se não se tomar cuidado, o ritmo tropeça e a música se perde. Quanto aos poemas que traduzi — CANT ESPIRITUAL (Canto Espiritual), COMIAT (Despedida) [este, também vertido por Stella Leonardos em sua antologia] e L’ESTRANIER (O Estrangeiro), o primeiro deles pode ser ouvido, com algumas outras composições de Josep Palau, na sóbria e comovente leitura do próprio poeta. Vale a pena conferir: http://www.youtube.com/watch?v=caQkrNYSuww

Encantam-me esses textos pela naturalidade e diretidade villonescas do discurso, qualidades raras na poética quase que inevitávelmente rebuscada e “self conscious” da modernidade. Dialogar com o desconhecido, o desvalimento e a estraneidade com tão claras, precisas e belas palavras? Não é para qualquer um.

* PARAULAS (provençal) = PARAULES (catalão) = PALAVRAS.

* * *

CANT ESPIRITUAL

No crec en tu, Senyor, però tinc tanta necessitat de creure en tu, que sovint
parlo i t`imploro com si existissis.

Tinc tanta necessitat de tu, Senyor, i que siguis, que arribo a creure en tu
i penso creure en tu quan no crec en ningú.

Però després em desperto, o em sembla que em desperto, i m`avergonyeixo
de la meva feblesa i et detesto. I parlo contra tu que no ets ningú. I parlo
mal de tu com si fossis algú.

¿Quan, Senyor, estic despert, i quan sóc adormit?

¿Quan estic més despert i quan més adormit? ¿No serà tot un son i,
despert i adormit, somni la vida? ¿Despertaré algun dia d`aquest doble son
i viuré, lluny d`aquí, la veritable vida, on la vetlla i el son siguin una
mentida?

No crec en tu, Senyor, però si ets, no puc donar-te el millor de mi si no és
així: sinó dient-te que no crec en tu. Quina forma d`amor més estranya i
més dura! Quin mal em fa no poder dir-te: crec.

No crec en tu, Senyor, però si ets, treu-me d`aquest engany d`una vegada;
fes-me veure ben bé la teva cara! No em vulguis mal pel meu amor
mesquí. Fes que sens fi, i sense paraules, tot el meu ésser pugui dir-te: Ets.

París, 14 de maig del 1950

CANTO ESPIRITUAL

Não creio em ti, Senhor, mas tenho tanta necessidade de crer em ti, que
muitas vezes falo e te imploro como se existisses.

Tenho tanta necessidade de ti, Senhor, e de que sejas, que chego a crer
em ti — e penso crer em ti quando não creio em ninguém.

Mas depois desperto, ou me parece que desperto, e me envergonho de
minha fraqueza e te detesto. E falo contra ti que não és ninguém. E falo
mal de ti como se fosses alguém.

Quando, Senhor, estou desperto e quando adormecido?

Quando estou mais desperto e quando mais adormecido? Não será tudo
um sonho e eu que, desperto e adormecido, sonho a vida? Despertarei
algum día deste duplo sonho e viverei, longe daqui, a verdadeira vida,
onde sonho e vigília sejam uma mentira?

Não creio em ti, Senhor, mas se és, não posso dar-te o melhor de mim a
não ser assim: senão dizendo-te que não creio em ti. Que forma de amor
tão estranha e tão dura! Que mal me faz não poder dizer-te: creio.

Não creio em ti, Senhor, mas se és, tira-me deste engano de uma vez.
Faz-me ver bem a tua cara! Não me queiras mal pelo meu amor
mesquinho. Faz com que, sem fim e sem palavras, todo o meu ser possa
dizer-te: És.

COMIAT

Ja no sé escriure, ja no sé escriure més.
La tinta m’empastifa els dits, les venes...
He deixat al paper tota la sang.
¿On podré dir, on podré deixar dit, on podré inscriure
la polpa del fruit d’or sinó en el fruit,
la tempesta en la sang sinó en la sang,
l’arbre i el vent sinó en el vent d’un arbre?
¿On podré dir la mort sinó en la meva mort,
morint-me?
La resta són paraules...
Res no sabré ja escriure de millor.
Massa a prop de la vida visc.
Els mots se’m moren a dins
i jo visc en les coses.

DESPEDIDA

Já não sei escrever, já não sei escrever mais.
A tinta me empasta os dedos, as veias...
Deixei no papel todo o meu sangue.
Onde poderei dizer, onde poderei deixar dito, onde poderei inscrever
a polpa do fruto de ouro senão no fruto,
a tempestade no sangue senão no sangue,
a árvore e o vento senão no vento de uma árvore?
Onde poderei dizer a morte senão na minha morte,
morrendo?
O resto são palavras...
Nada saberei já escrever de melhor.
Perto demais da vida vivo.
As palavras morrem em mim
e eu vivo nas coisas.

L’ESTRANGER

¿De quin país és aquest estranger?
No ho sé.
¿Com se diu?
No ho sé.
¿Què fa? ¿Quina llengua parla?
No ho sé.
¿Com us dieu, bon home?
...
¿De quin país veniu? ¿On aneu?
Sóc d’aquí. Sóc estranger.

O ESTRANGEIRO

De que país é aquele estrangeiro?
Não sei.
Como se chama?
Não sei.
O que faz? Que língua fala?
Não sei.
E você, que nome tem?
—…
De que país vem? Para onde vai?
Sou daqui. Sou estrangeiro.

Augusto de Campos nasceu em São Paulo, em 1931. Poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música. Em 1951, publicou o seu primeiro livro de poemas, O REI MENOS O REINO. Em 1952, com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, lançou a revista literária "Noigandres", origem do Grupo Noigandres que iniciou o movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil. O segundo número da revista (1955) continha sua série de poemas em cores POETAMENOS, escritos em 1953, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta no Brasil. O verso e a sintaxe convencional eram abandonados e as palavras rearranjadas em estruturas gráfico-espaciais, algumas vezes impressas em até seis cores diferentes, sob inspiração da Klangbarbenmelodie (melodia de timbres) de Webern. Em 1956 participou da organização da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta (Artes Plásticas e Poesia), no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Sua obra veio a ser incluída, posteriormente, em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas publicações Concrete Poetry: an International Anthology, organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View, por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968), Anthology of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968). Sua poesia está coligida principalmente em Viva Vaia (1979, 4ª ed. 2008), Despoesia (1994) e Não (2003, 2ª ed. 2008). Últimos estudos e traduções: Poesia da Recusa (2006), Quase-Borges (2006) e Emily Dickinson: Não sou Ninguém (2008).

Site:http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm E-mail: a.campos@uol.com.br

Fonte: CRONÓPIOS

sexta-feira, julho 03, 2009

uma canção

Oceano e Deserto

Ouço você cantando desafinado
Não tenho ouvido para música
Mas acho isso muito atraente

Dá-me o motivo mais estranho
Que me provocam as críticas
Mas há outros que te chamam

Dançamos ligados numa química
Os sorrisos correm com improvisos
Nada me faz sentir melhor o dia

Nem os números nos enchem
Os momentos são assim plenos
Adivinhamo-nos em surpreender

E ouvindo insones pensamentos
Viajamos cantando até aonde dá
Conhecendo-nos oceano e deserto


quinta-feira, julho 02, 2009

revival

Três por quatro

Em busca da vida achei uma pista em ampla clareira
No pisar corrente arranquei mil pontas de espinhos
Ignorando os domínios ia somando normalmente
Só escolhia um curso ainda sem padrão nem eira

Entreguei-me às marés ainda mal acostumadas
Às tábuas de horas e regras moldadas a mão
Atravessei no peito as ondas tracejadas de sal
Conspirando para as águas virem numa cheia

Dadas as circunstâncias era movido pela emoção
Abrindo o coração que transitava sem amarras
Em sintonia com a música soltei o que guardava
Réstias de festejos bem combinadas com maçãs

Encontro o vestido de uma história incompleta
Tantos sonhos deixados como jogos de armar
Suspenso em finas hastes de giz da memória
Equilíbrio solto em rota riscada por labaredas

Bela borboleta roxa colapsa atraída pela luz
Aprende a aceitar o desencanto das mudanças
Um valioso selo guardado numa caixa de segredos
Retrato três por quatro dobrado em lembranças

mar de mineiro

Flor do Mal
Cacaso

Vem vadiar ao léu
talho sem dor não deixa sinal
vem provar do fel
nosso destino é tão desigual

Seja no meu lamento
um corpo sedento pra me abraçar
seja um braço atento que se levanta
pra me guiar
E ainda seja em todo o momento
sopro de vento chuva no mar
seja amor sangrento seja tormento
que já passou
e que vai chegar

Vem provar do mal
plante essa flor e rasgue esse véu
vem quebrar o pau
nosso destino não cai do céu

Vejo no seu futuro
um porto inseguro pra se atracar
vejo um tempo escuro que já passou
e que vai chegar
E ainda vejo um gesto duro
nome no muro grito no ar
vejo amor maduro no beijo puro
que vai nascer
mas não chego lá

a crítica

"Por mais incrível que possa parecer, [...] a maior parte dos especialistas em economia política tem apenas noções muito confusas sobre o verdadeiro objeto do seu saber." LUXEMBURGO, R. (1925). Introdução à economia política. São Paulo: Martins Fontes, 1977, p.35)

o conceito

O Economista na sociedade moderna

Por: Cristovam Buarque (*)

Nas últimas décadas os países em desenvolvimento, em especial o Brasil, passaram a ser administrados por economistas ou por uma lógica economicista dissociada do mundo real. O resultado foi a formação de um grupo considerado de economistas, verdadeiros tecnocratas, que passaram a ditar os rumos da economia brasileira, baseados apenas em modelos econométricos e estatísticos, sem levar em consideração os aspectos éticos, culturais e humanitários do conjunto da sociedade.

Os problemas sociais e aqueles vinculados diretamente à essência do processo humano deixaram de ter uma identidade própria, e foram apropriados pela realidade única do discurso economicista. E a sociedade, influenciada por anos de primazia do econômico, caiu na armadilha de considerar as dificuldades econômicas como sendo os únicos problemas do país. Desapareceram como problemas enfáticos a fome do povo brasileiro, o analfabetismo, o desemprego, a falta de acesso à cultura e de saúde.

Tornaram-se problemas graves a dívida externa, a inflação, a taxa de juros e a taxa de câmbio. Os economistas que são formados nas universidades brasileiras raciocinam, exclusivamente, com projeções numéricas, em torno de quanto vai ser a inflação do próximo mês, se os juros devem subir ou descer, sobre o tamanho da dívida externa. Os economistas atuais perderam de vista a dimensão social do povo brasileiro.

Hoje, infelizmente, não se discute nas faculdades de economia a fome do povo brasileiro, que é o principal problema nacional. O desemprego que atinge níveis alarmantes e joga na rua da amargura milhares de pais de famílias e jovens é visto no discurso economicista como um mal necessário para conter a taxa de inflação. A maior safra agrícola do Brasil é vista com êxito, independentemente da fome de 50 milhões de brasileiros que ela não ajuda a solucionar, porquê é mais rentável exportá-la para alimentar animais que fornecerão sofisticações gastronômicas para poucos.

A indústria de equipamentos médicos pode ser um elemento dinâmico, independentemente do fato de ajudar ou não a reduzir o problema das doenças. Uma multidão de esfomeados, por falta de salários, nada representa para o economista, se o equilíbrio de preços se mantém, ao nível da renda disponível. O desabastecimento não existe, se os necessitados ficam fora das filas de poder de compra.

O conceito de valor é elaborado sem incluir o efeito de depredação sobre o meio ambiente. O valor de uma obra literária é representado apenas pelo número de exemplares vendidos. Buscando quantificar e limitar a esta quantificação o valor das coisas, o economista funciona como um elemento abstrato, que encobre a realidade, dentro de uma determinada lógica e com um determinado propósito.

Em todos os países, os economistas tecnocratas assumiram um distanciamento aparente da realidade política que lhes serviu de base para viabilizar suas estratégias. Não duvidaram em utilizar a repressão policial, a tortura, a abolição de toda liberdade, como instrumentos de política econômica, com uma dupla falta de ética: durante as ditaduras, em relação aos valores básicos do humanismo; e nos momentos de retomada da democracia, negando seus comprometimentos autoritários com os militares dos quais eram cúmplices. O problema não é que os economistas não tenham aprendido as lições recebidas nos cursos, o problema é que aprenderam da mesma forma que um químico aprende o que deve misturar para obter bicarbonato de sódio, não se perguntando por que, para que, a que custo.

Ao estudar a ciência como algo alienado das realidades de seus países, o economista perdeu a perspectiva de entender a essência do processo econômico e a realidade em mutação na qual este processo se situa. Os economistas transformam-se, assim, em uma espécie de "sapiências endeusadas" com a função de elaborar as argumentações que justificam os dogmas vigentes. Ainda mais grave é que, quando a realidade não se apresenta como as teorias previam, eles manipulam os dados criando uma realidade nova, desvinculada do real.

Este problema não é característica apenas dos economistas, mas de toda a rede que forma a moderna burocracia em cada país do mundo. O que diferencia e agrava a situação dos economistas, em relação a outros burocratas, como aqueles das forças armadas, dos sistemas de saúde etc., é que, modernamente, os economistas têm tido a possibilidade de exercer um papel ativo de liderança na definição do rumo da sociedade e da civilização.

No auge da elevação do preço do petróleo, um alto funcionário do governo da Arábia Saudita declarou que o maior problema de seu país era que toda vez que perfuravam um poço procurando água só encontravam petróleo. Como os demais países petroleiros do Oriente Médio, a Arábia Saudita vivia o drama do rei Midas, da Frigia, que, por ter liberado Sileno, recebeu como prêmio o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse. Deslumbrado com as possibilidades, o rei Midas só percebeu as conseqüências negativas quando foi ter sua primeira refeição depois do novo poder.

Os economistas modernos trabalham ainda sem o conhecimento do mito de Midas ou sem a experiência do funcionário saudita. É este desconhecimento que faz com que depois da morte do último dos elefantes o mundo acordará mais rico, porque os donos dos armazéns terão mais marfim para comercializar, ou seja, diante da irracionalidade em que a realidade econômica funciona, o economista vê-se forçado a criar mitos, que façam os homens julgarem racionais comportamentos claramente absurdos.

Apesar de todas as suas limitações e fragilidades, a ciência econômica, e com ela o economista, é um dos campos das ciências sociais que maior contribuição pode vir a dar a uma compreensão do fenômeno das relações entre os homens, e destes com a natureza. Para isso, é necessário que a ciência econômica se desvincule dos preconceitos dogmáticos e da alienação em relação à realidade. Os economistas que se consideram cientistas exatos e defensores de uma economia positiva devem olhar a realidade natural e social cambiante e, a partir dela, formular modelos que de fato sirvam a uma racionalidade na combinação produtiva dos homens, entre eles e com a natureza.

Esta nova ciência e este novo economista, devem ser capazes de desvendar o que há por trás do véu de premissas definidas ideologicamente, e buscar a essência da economia. Ao mesmo tempo, será preciso prever que esta busca não pode se limitar a uma visão mecanicista, positivista ou materialista-histórica. Deve estar aberta ao sentimento da magia do processo econômico. A magia por trás de objetivos e métodos inexplicáveis, como o próprio desejo e lutas libertárias, ou o uso do trabalho para concretizar este desejo. A magia de processos organizativos que canalizam esforços que significam tempo em vidas, seja para levar o homem à lua, construir pirâmides, realizar um desfile de escola de samba, ou aumentar o consumo. A magia capaz de montar a logística estatal para enfrentar uma guerra e a logística privada que viabiliza o abastecimento de megalópoles. A magia dos milhares de anos, milhões de horas de trabalho físico e intelectual de centenas de milhares de outras pessoas que, ao longo da história, se unem, se articulam, se complementam com base em leis que não se conhecem e que jamais serão inteligíveis, se ficarmos presos a preconceitos e não formos capazes da modéstia de saber que há uma mágica, no limite de nosso conhecimento.

(*) Cristovam Buarque é Doutor em economia, ex-reitor da Universidade de Brasília e ex-Governador do Distrito Federal

quarta-feira, julho 01, 2009

de Die Massnahme

"Canção do Mercador"
--Bertolt Brecht-

Como saber o que é arroz?
O que é arroz, que eu não conheço?
Não tenho idéia do que seja
Nem mesmo sei de alguém que o saiba.
Do arroz? Do arroz só sei o preço.

A existência feita detalhe

"Falamos das tendências dos preços para baixar ou subir e nem sempre percebemos que estamos refletindo a inumanidade de um movimento autônomo de objetos, um movimento de coisas que carrega os homens tal como a correnteza carrega toras de madeira. Num mundo governado pela produção de mercadorias, o produto controla o produtor, os objetos têm mais força do que os homens. Os objetos tornam-se um 'destino', o daemom ex machina."*

* Extraído do livro A Necessidade da Arte de Ernest Fischer, 1976.

sábado, junho 27, 2009

natureza

A Flor e a Fera

Chamam de romântico...
Ainda mais apaixonado.
Todo sentimento que balança
Um tanto fora do comum
Então, esse amor pela flor.

Se fico longe... penso nela.
Se acordo sem... chamo.
Se sinto falta... planto, rego até vê-la...
É difícil essa fera em mim, natureza!
O prazer é singular, transpira...
Bate no peito a pausa que demora.

O que acontece de estranho,
Ao enfiar as mãos pelos pés
Passar do coração à cabeça
Dar no paraíso sem saber onde!
Conhecê-la melhor dentro do tempo
E despetalar seu cheiro em peças.

Vejo como é bom estar vivo,
E que nem é certo dizer jamais.
Assim mesmo digo na pele...
Eu amo a flor, tenho amor a paz.
Sinto-me feliz ao seu lado,
Insuportável natureza em mim.

sexta-feira, junho 19, 2009

fala sério

Uns "traços" do Picasso?

Nem tenho muito tempo para escrever mais que alguns parágrafos, mas, uma coceirinha no juízo é inquietante; isso exige mais, e enquanto está na memória de trabalho volátil vou digitar o que sinto sobre o que seja importante, para não esquecer repentinamente atendo ao impulso de registrar minhas idéias transitivas nesse instante.

Enquanto fico nas linhas iniciais desse texto chegam pelo e-mail dezenas de mensagens que podem esperar por uma rápida seleção objetiva para uma leitura futura, a depender de seu conteúdo, afinal o que se recebe de spam ou lixo inútil, “desinformativo”, dá uma montanha! Assim como muitos artigos, livros e outras criações (teatrais, musicais e plásticas) promovidas e publicadas como artísticas ou científicas. Até os plágios estão sendo editados!!!! Fala sério.

Aqui estão minhas perquirições, que ficarão gravadas: Uma criação artística ou cientifica fruto da mente humana tem que valor? Esse valor é porque tal arte ou matéria de conteúdo científico é não reprodutível ou não passível de cópia (plágio)? Como qualquer produto lançado no mercado? O valor intrínseco de uma obra artística ou cientifica é antecedido de uma historia particular e insubstituível, de seu criador, de um dado conhecimento específico, de seu talento, de uma “profissão intransferível”, de um dom, como se a obra em questão fosse a “ponta do iceberg” de todo um trabalho acumulado e então exercido para a sua criação. Ou seja, o trabalho da criação incorpora um valor incalculável! Sem contar que pensarmos em tempo necessário empregado, nesse caso, é ainda mais complicado. Os traços de Picasso para o nascimento da Pomba da Paz seria um ato de criação intrasferivel e não reproduzível, ainda que realizado em alguns minutos? O que dizer da importância de sua obra para o conhecimento (no caso das artes) ou para a inimaginável perspectiva que se abriu para as percepções das ações nas artes, com a expansão dos limites potenciais da criação e produção da mente humana? Sem esquecer que existem muitos aspectos em sua dimensão cultural, política e social da criação artística e cientifica para as sociedades e as suas relações de poder, que não podemos analisar de maneira simplória o seu simbolismo ou valor para a alma humana.

Como calcular ou expressar realmente o valor de uma criação singular, seja no campo da arte ou das demais ciências? De um quadro de Pollock ou da “pomba da paz” de Picasso. Seriam apenas uns rabiscos que passaram a ter um valor de mercado por ser apenas fruto de um momento de criação de um artista genial? Isso seria passível de uma qualificação material sem vinculo nenhum com o tempo de estudo e da base de conhecimento, então, expresso no trabalho bem aplicado do seu criador? Justificar um valor apenas econômico pelo tempo empregado ou a quantidade de tinta ou rabiscos feitos, não seria essa avaliação “desqualificadora” do valor da obra ou só um julgamento apressado para imputar uma importância econômica menor à uma obra inigualável, não reproduzível para o mercado? Ignorando por completo o seu valor como arte, sob o ponto de vista cultural? Afinal, tem criação e criação. Por exemplo, no âmbito das ciências há teses de apenas trinta páginas que são tão importantes ou mais, em seu valor cientifico, quanto outras de maior “peso material”.

segunda-feira, junho 15, 2009

brevidade

Uma volta pela gravidade amorosa

Hoje, parei para lhe reparar pelo prisma solar da tarde, num olhar diferente do trivial, como se percebesse atravessando a janela da razão e seguindo aos poucos os raios da emoção adormecida, e saí de mim sustentado nos traços de partículas de poeira em suspensão, quase invisível, quase inexistente, não fosse a claridade que transpunha as suas curvas, dobras das pernas, cabelos e vínculos imateriais com a paisagem poente. O plano de cores saía do céu cobrindo as folhas ao redor grafitando um véu, ora refazendo o parapeito da janela, ora acentuando os riscos do assoalho e suas ripas inteiriças, polidas, exalando um aroma remoto de jasmim; assim era o pendulo de luz invasora, no entorno de minha visão da sua imagem transitiva na minha imaginação sem gravidade.

Cada qual com seu cada qual... Vivemos assim, ainda mais próprios nas ações e independentes da opção do que somos. Um farto sorriso de código dava a senha da nossa passagem de ida e volta, e as nossas palavras estalavam na química corporal, na pronta magia das retinas que aproximava um sussurro: “Que seja amor”.

Girávamos, peões sem fio, soltando a leveza da alma em conquista por incêndios sem pedidos de socorro. Experimentar do melhor vinho, e do que se pede num momento tão especial, um ritual de dança da chuva, sem querer previsão, só para molhar o coração semi-árido.

Também, havia um estio mútuo de sensações, um silêncio demorado, até chegar a esse ponto... Os meneios assanhavam os espelhos da vontade interior acordando as dezenas de digitais ainda frias, nos embarcando numa viajem cega e egoísta por esses sentimentos, ao estarmos juntos por escolha de uma solução melhor, de um instante do outro, ignorando todo o resto no percurso, cruzando os pés pelas mãos e outras preciosidades sem mais.

Sem nenhuma dúvida sobramos nas corredeiras tortuosas da permissão, ainda mais desarrumados. Após um ensaio pouco afinado penetramos nossas galáxias internas, quando acabamos calados alinhavando os presentes trocados sem notar a chegada do futuro. Paramos defronte de uma estação de intenso movimento sem querer evitar os verdadeiros instintos. Repetimos de tudo no tempo restante imitando-nos numa mímica improvisada, como se pudéssemos ser mais verdadeiros sem as palavras, e de qualquer outra maneira tudo pareceria estranhamente antigo, como seria se fizéssemos o óbvio. O verbo móvel do corpo dizia tudo do seu jeito dançando a música que só nós ouvíamos, ainda que faltasse alguma nota ofuscada pelo barulho vindo de fora. Uma hora depois descobrimos nossa perfeita sintonia.

Nem é preciso explicar o que sentimos. O impulso saltou da ausência da língua, a presença abreviou-se no outro, nada podia conter o espontâneo, que se revelou no criar de situações indizíveis, no construir de figuras nas nuvens usando o nada, algo fluiu, água na peneira, na sonoridade da nossa voz, no respirar profundo e sereno que veio em seguida. O sabor absoluto dos gestos dados estava no traço dos umbigos mudos. Tudo se tornou uma promessa indubitável, ainda que não dita ou presumida, apenas reconhecida pelo outro naturalmente aceito.

Concordamos por um sinal afirmativo, arquétipos em acordo, transpiramos e renascemos através de passos em harmonia, buscando sentir o calor e a presença da esperança chegando em navios de cascos maduros, aliados da energia afetuosa envolvente das estrelas por guia. Sabemos o que alimenta e move cada célula num raio de segundo em nossas veias; depois desse encontro mantivemos uma comunicação que ainda nos regula na ida e, nos traz suavemente de volta os benefícios da experiência amorosa, no melhor sentido da nossa inevitável brevidade.

quinta-feira, junho 11, 2009

nosso paradoxo

De olho na crise da água

Emir Sader (Cientista político, jornalista e escritor)

Antes que a globalização liberal invadisse o mundo, tratando de fazer de tudo mercadoria, de fazer com que tudo tenha preço, se venda e se compre, usávamos o exemplo da água para diferenciar, nas aulas, o que tem valor de uso, mas não valor de troca, porque as pessoas têm acesso livre a elas. Quem diria que poucas décadas de liberalismo tenham feito da água uma razão tal de cobiça econômica, que um ex-vice-presidente do Banco Mundial previu, ainda antes de entrarmos no nosso século que “as guerras do Século 21 serão travadas por causa da água''.

A América Latina é um dos cenários dessa luta e, desse ponto de vista, não se pode prever que estejamos fora dos roteiros da cobiça bélica dos grandes conglomerados e governos imperiais no Século 21. Podemos dizer que primeira batalha pela água se deu por aqui, na Bolívia, quando o Banco Mundial exigiu, para a renovação de um empréstimo de 25 milhões de dólares, a condição de que fossem privatizados os serviços de água do país mais pobre da América do Sul. Quando foi privatizado o serviço hídrico da cidade de Cochabamba à poderosa empresa estadunidense Bechtel, o preço da água aumentou brutalmente já nos dois primeiros meses. Como resposta, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Cochabamba para manifestar seu protesto pelo aumento dos preços e os cortes feitos pela empresa com os devedores. O movimento desembocou em uma greve geral que paralisou a cidade, o que obrigou a Bechtel a fazer as malas e fugir da Bolívia, embora não por muito tempo. Regressou com uma demanda de 25 milhões de dólares contra o governo boliviano, exigindo o pagamento de indenizações por perda de lucros.

Outras zonas do continente são cenário de lutas similares, entre elas a Argentina, o Uruguai – em que o povo decidiu em plebiscito simultâneo às eleições presidenciais impedir qualquer forma de privatização dos serviços de água –, o Chile, a Guatemala, o México, que vivem movimentos similares na América Latina.

Nosso continente vive o paradoxo de desfrutar de grande abundância de mananciais de água doce – 20% do resíduo líquido mundial provêm somente do Amazonas –, nosso território abriga quatro dos 25 rios mais caudalosos do mundo – Amazonas, Paraná, Orinoco e Magdalena –, além de alguns dos maiores lagos.


Deveríamos, então, ter uma das mais elevadas distribuições de água doce per capita do mundo, mas algumas zonas do continente sofrem secas tão duras que 25% do continente é considerado árido ou semi-árido.


O Brasil é o melhor exemplo desse paradoxo, porque temos mais água do que qualquer outro país, dispondo da quinta parte dos recursos de água do planeta, mas enormes zonas estão incluídas nessas regiões áridas e semi-áridas. Mas, além disso, uma cidade como São Paulo enfrenta racionamento de água, porque seu abastecimento de água depende de fontes que estão cada vez mais longe das cidades e o custo do transporte supera a capacidade aquisitiva de uma parte grande de habitantes.


Os recursos de água doce da América Latina sofrem grandes problemas de contaminação. O país mais contaminado de todo o continente é o Brasil, apesar de possuirmos o recorde de recursos de água doce. O Brasil permite a contaminação química e industrial maciça, da mesma forma que aos derramamentos de mercúrio originários das minas de ouro. Só somos superados por algumas regiões da Europa do Leste e pela China nos níveis de contaminação aquática.


A demanda mundial de água doce se duplica a cada 20 anos, a um ritmo duas vezes superior à taxa de crescimento da população. Os maiores contaminadores de água são as grandes indústrias de alta tecnologia e a agricultura industrial, e não as casas particulares. Os sistemas de irrigação agrícola consomem entre 65 e 70% da água, principalmente para produzir alimentos para exportação; 20 a 25% são dedicados a fins industriais, entre eles a produção de chips de silício de alta tecnologia e, os 10% restantes de água são para uso doméstico. Mantendo-se essas tendências, a demanda de água superará os recursos terrestres em 56 por cento.


De olho na crise da água na América Latina, muitas empresas privadas européias buscam assumir os serviços de abastecimento público de países da região, incluído o Brasil. Em geral são filiais locais das três principais corporações de serviços de água: as empresas francesas Suez e Vivendi e a alemã RWE-Thames, que juntas fornecem serviços de água corrente e saneamento a 300 milhões de clientes em mais de 130 paises do mundo. Seguindo o Uruguai, seria um bom tema para que os brasileiros se pronunciem em plebiscito, antes que a privatização da água seja uma realidade irreversível.

Fonte: Revista Eco 21, ano XV, Nº 101, março/2005.

cidadania

Caneta ou ferramenta?

FREI BETTO


Quantos advogados você conhece? Uns tantos, certamente. Mas na hora de socorrer o seu computador pifado, consertar o vazamento da pia da cozinha ou traduzir-lhe o manual de funcionamento do novo televisor que você lê, lê e não entende, a quem recorre?

O Brasil é uma nação de bacharéis. Como abrigamos a mais longa escravidão das três Américas (350 anos), ainda guardamos, do período colonial, resquícios elitistas, como julgar que profissões técnicas são para incompetentes que não chegam a doutor... Boa profissão é a que domina a caneta, e não a ferramenta.

Você sabia que de cada 100 brasileiros (as) no mercado de trabalho, 72,4% (ou exatos 71,5 milhões de pessoas), nunca fizeram um curso profissionalizante? Entre os desempregados, 66,4% (5,3 milhões de pessoas) nunca passaram por um curso de educação profissional. O dado é do IBGE, divulgado no último 22 de maio.

O mais grave é o poder público, como diria aquele deputado, estar "pouco se lixando" para a qualificação de nossos trabalhadores. Segundo o IBGE, em 2007 apenas 22,4% dos alunos de cursos profissionalizantes estavam matriculados em escolas públicas.

Dos que buscam tais cursos, 53% dependem de ofertas de ONGs, sindicatos e instituições particulares. O famoso Sistema S (como Senai, Senac, Sebrae), que recebe robustas verbas do governo, forma apenas 20% dos interessados em qualificação.

Mesmo os cursos existentes nem sempre primam pela qualidade. Entre os matriculados, 80,9% freqüentavam cursos que não exigiam escolaridade prévia. O que explica o alto número de analfabetos virtuais em profissões técnicas. Consertam a geladeira, mas são incapazes de redigir um bilhete explicando a causa do defeito.

Na mesma pesquisa, o IBGE constatou que são analfabetos 13,5 milhões de brasileiros (9,5% da população) com mais de 15 anos de idade. E de 1,8 milhão que freqüentavam salas de aula, 810 mil (45%) admitiram não saber ler nem escrever um simples recado.

A falta de motivação é a principal causa de desinteresse por cursos profissionalizantes. O Brasil é o reino do improviso. O auxiliar de eletricista aprende na prática, assim como o de cozinha acredita que, amanhã, a intimidade com o fogão fará dele um chef. Muitos (14,1%) admitiram não poder pagar um curso dessa natureza. E 8,9% se queixaram da falta de escola na região.

Dos alunos em cursos profissionalizantes, 17,6% freqüentavam cursos técnicos de nível médio. E apenas 1,5% cursos de graduação tecnológica equivalente ao nível superior. O mais procurado é o curso de informática (41,7%), seguido de comércio e gestão (14%) e indústria e manutenção (11,25). Ao todo, 215 mil estudantes, o que representa um índice muito baixo dadas as dimensões do país e de suas necessidades.

Esse quadro explica, em parte, a razão do nosso subdesenvolvimento – ou eterna situação de país emergente. O MEC promete que, até o fim de 2010, o Brasil passará de 185 mil para 500 mil vagas em cursos profissionalizantes. As escolas, hoje 140, serão 354.

Um das causas dessa realidade preocupante foi a lei de n° 1988, proposta pelo presidente FHC e aprovada pelo Congresso, que proibiu a União de criar novas escolas técnicas federais. Felizmente, Lula a revogou em 2005.

Falta ao atual governo corrigir outro erro crasso: o EJA (Educação de Jovens e Adultos, que substituiu o antigo supletivo), embora acolha trabalhadores em suas aulas, não propõe educação profissionalizante. Isso explica o alto índice de evasão – 42,7% dos matriculados não concluem o curso, sobretudo no Nordeste (56%).

Muitas vezes o horário de aulas coincide com o do trabalho (o que induz à evasão de quase 30% dos alunos), e a metodologia de ensino ignora Paulo Freire e os recentes avanços da educação popular.

O Brasil precisa trocar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) pelo PAD, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, sobretudo humano. Sem recursos humanos qualificados, uma nação está fadada a sempre depender do mercado externo e, portanto, do jogo cruel da especulação internacional, da flutuação de divisas conversíveis e das concessões aos importadores que jamais abrem mão de suas políticas protecionistas.

Sem educação o Brasil não tem solução. Nem salvação.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho, de "Essa escola chamada vida" (Ática), entre outros livros, e um dos fundadores do movimento Todos pela Educação.

domingo, junho 07, 2009

prefácio

mundialização do capital*

François Chesnais

(...)

A expressão “mundialização do capital” é que corresponde mais exatamente à substância do termo inglês “globalização”, que traduz a capacidade estratégica de todo grande grupo oligopolista, voltado para a produção manufatureira ou para as principais atividades de serviços, de adotar, por conta própria, um enfoque e conduta “globais”. O mesmo vale, na esfera financeira, para as chamadas operações de arbitragem. A integração internacional dos mercados financeiros resulta, sim, da liberalização e desregulamentação que levaram à abertura dos mercados nacionais e permitiram sua interligação em tempo real. Mas baseia-se, sobretudo, em operações de arbitragem feitas pelos mais importantes e mais internacionalizados gestionários de carteiras de ativos, cujo resultado decide a integração ou exclusão em relação às “benesses das finanças de mercado”. Como veio lembrar a crise mexicana de 1994-1995, basta pouca coisa para que um lugar financeiramente “atraente” deixe de sê-lo em questão de dias e, de certa forma, fuja da órbita da mundialização financeira.

As operações feitas com finalidade lucrativa, para “frutificar” um capital, são por definição (sem que seja uma tautologia) “seletivas”. Não é todo o planeta que interessa ao capital, mas somente partes dele, mesmo que suas operações sejam poluidoras a nível mundial, no plano da ecologia como em outros. Ligar o termo “mundialização” ao conceito de capital significa dar-se conta de que, graças ao seu fortalecimento e às políticas de liberalização que ganhou de presente em 1979-1981 e cuja imposição foi depois continuadamente ampliada, o capital recuperou a possibilidade de voltar a escolher, em total liberdade, quais os países do Pacto de Bangdum eram fortes. Mas, como sugerem os elementos de análise apresentados (neste livro), os critérios de seletividade modificaram-se, igualmente, em relação àqueles que predominavam na época do imperialismo clássico. A modificação de critérios leva à chamada “desconexão forçada”, acompanhada por formas dramáticas de retrocesso econômico, político, social e humano. Hoje em dia, muitos países, certas regiões dentro de países, e até áreas continentais inteiras (na África, na Ásia e mesmo na América Latina) não são mais alcançadas pelo movimento de mundialização do capital, a não ser sob a forma contraditória de sua própria marginalização. Esta deve ser estritamente compreendida, como mecanismo complementar e análogo ao da “exclusão” da esfera de atividade produtiva, que atinge, dentro de cada país, uma parte da população, tanto nos países industrializados como nos países em desenvolvimento.

(...)

* CHESNAIS, François. A Mundialização do Capital. São Paulo: Xamã, 1996.

Riscos e medos

"Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre". Albert Einstein

Ao ler a frase genial do gênio da Física fiquei arrepiado. Existe milagre para um cientista, e ainda por cima de reconhecida inteligência acima da média?
É, nada como um pensamento simples e natural, mas, que diz muito para quem simplesmente nem imagina o que seja milagre! Ou não acredita na possibilidade de acontecimentos incríveis na atualidade.
Deve ser porque a vida se tornou um apendice das relações criadas pelo mecanicismo do pensamento racionalista econômico. Vive-se o que se pode consumir, e acaba-se a vida nesse ciclo; consome-se mais do meio ambiente do que ele pode reverter em vida. O ecossistema planetário está exigindo uma resposta urgente, por um pequeno "milagre". E o ser humano não pode se negar ou se ausentar dessa responsabilidade. Se não fôr por meio de suas ações, certamente um outro "fenômeno natural" acudirá ao Planeta. O milagre da vida sempre se realizou.
Olhar o modo de vida que levamos só tem provado isso, trazendo então como efeito colateral os medos. O maior medo está no risco (para a vida de todos os seres) que cada vez aumenta, aceleradamente; tem-se até uma teoria que procura equacionar o seu crescimento na tentativa de por um bom termo, através do método científico, e com isso achar uma função de equilíbrio! Substituindo vida por tecnologia. Ao mesmo tempo, as incertezas se concentram ao lado da escalada das violências de uma civilização doentia.
Preservar a vida ao resgatar utopias (por meio de novos paradigmas) para um futuro melhor (da natureza, de nossos filhos e descendentes - tudo está interligado no universo), talvez seja o melhor que devamos ser e fazer hoje, isso ainda faz parte de nosso legado histórico. Cuidar das "feridas" (que causam os medos) provocadas pelo modo de vida que levamos. 
Superar os medos e possivelmente conquistar um mundo melhor, é possível!
Sem sonhos, sem milagres, sem vida.

sábado, maio 30, 2009

la economía española

El modelo productivo

Publicado en Sistema Digital el 29 de mayo de 2009

Quienes hemos criticado desde hace años el modelo de crecimiento de la economía española hemos de estar satisfechos por la voluntad de cambio expresada por el gobierno de José Luis Rodríguez Zapatero.
    Es verdad que lo que hizo el presidente en el debate sobre el estado de la Nación fue apuntar el inició de una nueva estrategia. Se limitó a manifestar sus intenciones ("la transformación del modelo productivo es la clave para retomar una senda de prosperidad sostenible.") y a establecer algunos puntos de partida a partir de los que se propone ponerlas en práctica y de los que me parece que hay que destacar tres principales: la creación de un nuevo entorno para la actividad económica, la reconducción de la actividad y "del volumen exagerado" del sector inmobiliario y la identificación y potenciación de  nuevos sectores. Y como añadido de eso, mencionó los tres instrumentos a partir de los que el gobierno piensa que puede contribuir a poner en marcha el cambio: financiación, una norma jurídica específica y una propuesta de acuerdo político.
    Yo creo que en la situación en la que se encuentra hoy día nuestra economía esa apuesta del presidente es imprescindible y que merecería un apoyo social amplio y sincero porque limitarnos a seguir el mismo camino seguido hasta ahora puede llevarnos a medio plazo, e incluso una vez que pase la crisis, a un callejón sin salida y a condiciones mucho peores incluso que las que ahora tenemos en su pleno desarrollo.
    Lo que ocurre es que para que esa propuesta sea viable hacen falta algunas cosas más que las buenas intenciones, o incluso que los recursos legales y financieros que se han anunciado.
    Quizá lo primero sería ponernos de acuerdo sobre lo que entendemos exactamente por modelo productivo y sobre sus elementos que se desean o se pueden modificar.
    A veces da la impresión de que lo que en realidad se busca es hacer sostenible el actual estado de cosas, es decir, lograr que se siga reproduciendo aunque sin tantos sobresaltos. Es la sensación que se tiene cuando al mismo tiempo que se habla de cambio de modelo, las ayudas y los incentivos que se ponen sobre la mesa van a los mismos sectores de siempre y dejando que los mismos sujetos lleven la iniciativa y se sigan beneficiando de manera privilegiada de las medidas que se adoptan.
¿Consideramos ya como irreversible la desindustrialización de nuestra economía? ¿Aceptamos ya para siempre que renunciamos a nuestros activos y que el modelo a seguir ha de ser el que se basa en la venta de su práctica totalidad al capital extranjero?
    El Presidente se refirió, yo creo que correctamente, a la necesidad de buscar otros sectores (aunque alguno de los que citó, como el de la moda, debería sonar muy raro en los planes de un gobierno que se ha autoproclamado feminista) pero el cambio de modelo no puede consistir solamente en la sustitución de un tipo de actividad por otro.
    El modelo tiene que ver sobre todo con el tipo de uso que se haga en cualquier actividad y no solo con los que tienen que ver con el medio ambiente. Y ese uso es el resultado del diferente poder que tienen los distintos sujetos económicos, por lo que para hablar de cambio de modelo hay que hablar de si se va a dejar intacta la correlación de fuerzas o si se va a tratar de empoderar de otro modo y cómo a los sectores más débiles modificando a su favor normas como las que ahora hay en relación con el mercado laboral. Es lo que hacen, pero en el sentido contrario de favorecer a los intereses de la patronal, quienes proponen despidos más fáciles, acabar con la negociación colectiva o establecer un único tipo de contrato.
    ¿Queremos ahora ser más competitivos pero a base de salarios bajos, como constantemente están proponiendo la patronal o el Banco de España? 
    También tiene que ver, como el propio presidente reconoció, con la financiación. Pero sería imposible que el cambio, y mucho menos el propio modelo, se financie solo con un gasto público que se encuentra tan lejos de los estándares de nuestro entorno y de cuyo aumento a medio plazo no solo no se habla sino que incluso se dice que en cuanto se pueda volverá a contenerse. 
Y aunque seguramente el gasto público será imprescindible, es evidente que no será suficiente y que habrá que contar con un sistema financiero comprometido con este cambio, algo realmente impensable mientras predomine su actual ordenación y la lógica que lo guía. Y aún menos, si se lleva a cabo el plan que parece preparar el gobierno para facilitar la concentración bancaria en el sector privado y la jibarización de el de las cajas.
Un modelo productivo también es un modelo de distribución de la renta. En economía no ocurre lo que pasa en la repostería, que primero se hace la tarta y luego se reparte, sino que es justamente al mismo tiempo que se produce que ya se está distribuyendo. Por eso es trascendente que, al mencionar los inconvenientes del modelo actual, el presidente no haga referencia explícita a sus negativos efectos sobre la distribución de la renta y la riqueza.
Si se va a cambiar el modelo se va a afectar inevitablemente al reparto y por tanto se tiene que poner sobre la mesa a qué esquema distributivo se quiere llegar y, sobre todo, qué medios se van a utilizar para lograrlo.
Hablar de cambiar el modelo productivo y no mencionar este problema de la desigualdad que el actual está incrementando no es solo una gran ingenuidad. 
La manera en que se ha desenvuelto nuestra economía en los años recientes es la que ha provocado una concentración de la riqueza sin igual y la que ha llevado a que la participación de los salarios en el reparto de la "tarta" de las rentas sea la más baja desde los años sesenta. Solo en los años 2002-2005, gloriosos desde el punto de vista de crecimiento del PIB, la renta media correspondiente al 20% más pobre de los hogares de España se redujo en un 23’6%, mientras que la renta media del 10% más rico se incrementó más de un 15%.
¿Y cómo no hablar del endeudamiento de los hogares ocasionado por el actual modelo productivo, que ha pasado de ser el 66,5% de su renta disponible en 1994 al150,4% en 2007? ¿se va a mantener esa tónica tan beneficiosa para la banca (cuyo negocio es precisamente que la gente y las empresas se endeuden) o se va a tratar de cambiar? Y si se quiere cambiar, ¿cómo se va a lograr, cómo se va a doblegar el poder de los bancos y cómo se va a conseguir otra distribución de la renta que no obligue a los hogares a endeudarse de esta forma?
    El modelo productivo y su cambio también tiene que ver con las cuestiones fiscales. ¿Se va a mantener el actual discurso fiscal?, ¿se va a seguir considerando que reducir los impuestos es una política progresista, cuando al mismo tiempo se debilita la provisión de bienes sociales? ¿se va a ir, como se ha apuntado en algunos documentos doctrinarios, a promover amnistías fiscales, a seguir facilitando, como desgraciadamente ha hecho el gobierno, que los residentes en paraísos fiscales dispongan de condiciones tan privilegiadas como inaceptables desde el punto de vista de la justifica fiscal, o que las ganancias del capital que reciben principalmente los que ya de por sí son más ricos tributen mucho menos que las del trabajo?
    Por otro lado, para poner en marcha la estrategia de sostenibilidad (económica, social y medioambiental) a la que aspira el gobierno harían falta nuevos instrumentos de registro y medida de la actividad económica, salvo que se quiera conducir el coche del cambio productivo sin tablero de mandos o con los ojos tapados. No vale el Producto Interior Bruto, ni valen las cuentas que no recogen nuestra producción de residuos, ni la actividad no monetaria que, sin embargo, es una pieza clave de la sostenibilidad, o el grado de eficiencia con que usamos los recursos, entre otras muchas.
    No nos conviene engañarnos. Si lo que se desea es realmente un cambio de modelo productivo tenemos que hablar de todas estas cosas. Lo otro es sencillamente limitarse a encontrar algunos nuevos yacimientos de negocio para que los mismos de siempre sigan poniéndose las botas aunque en actividades distintas y con un barniz de responsabilidad social corporativa por encima.
    La primera apuesta, la sincera, es difícil. Obliga también a modificar las conductas, a corregir inercias y comodidades y a acabar con privilegios inaceptables, lo que provocará lógicas y fuertes resistencias. Si el gobierno la plantea con inteligencia y con claridad, hablándole a los ciudadanos con credibilidad y promocionando un nuevo tipo de participación y complicidad social podrá dar pasos de gigante. Si es conservador y quiere cambiar todo dejando todo como está, se quedará solo a la hora de afrontar un reto tan importante.

Fonte: Ganas de Escribir, de Juan Torres López.

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