sábado, agosto 15, 2009

woodstock, utopias

15/8/2009 03:13:00
Woodstock 40 anos. O poder do som

por Jorge Sanglard

A utopia libertária de Woodstock, 40 anos depois, permanece viva. E volta e meia é reativada pela celebração daqueles três dias de paz e muita música que entraram para a história do século XX. O poder do som e a força das imagens do maior festival de todos os tempos transcenderam as terras da fazenda de Max Yasgur, em White Lake, na cidade de Bethel, Condado de Sullivan, Nova York, e ganharam impulso com os lançamentos de discos e de um documentário. A cada reedição comemorativa, os ritmos e as imagens da Feira de Arte e Música de Woodstock ampliam a reflexão sobre a transformação de costumes desencadeada nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969.
No livro “Back to the garden” – no Brasil, “Woodstock” –, lançado pela editora Agir, o radialista norte-americano Pete Fornatale mergulha nas impressões de mais de uma centena de personagens que estiveram lá, nos bastidores, no palco, na produção, na grama, na lama, e abre um diversificado leque de opiniões sobre o evento que sacudiu a América. E dá voz a alguns analistas do fenômeno Woodstock. Também marcando as quatro décadas do evento, "Woodstock - 3 Days of Peace & Music" é uma nova edição, em 4 DVDs pela Warner, do documentário "Woodstock - Onde Tudo Começou", de Michael Wadleigh, a síntese visual e sonora do maior ícone do movimento hippie. Uma série de CDs ainda joga mais lenha na fogueira, despertando o interesse na música que abriu alas para eternizar Jimi Hendrix, Santana, Joe Cocker, Richie Havens, Joan Baez, Janis Joplin, Sly & The Family Stone, Country Joe And The Fish e muitos mais.
A Rhino Records - Warner lançou a caixa de 6 CDs “Woodstock - 40 Years On: Back to Yasgur’s Farm”, com 77 músicas, sendo que 38 estavam inéditas em disco. As trilhas sonoras “Music From the Original Soundtrack and More: Woodstock” e “Woodstock 2” também foram remasterizadas e relançadas. E a Legacy / Sony Music articulou a coleção de 5 CDs duplos “Woodstock Experience”, reunindo álbuns originais de 1969 de Janis Joplin, Johnny Winter, Santana, Jefferson Airplane e Sly & the Family Stone e as performances completas de cada um no festival. E, nos Estados Unidos, o Bethel Woods Center for the Arts e o Museum at Bethel Woods ocupam parte da fazenda de Max Yasgur, reúnem a memória do festival e trabalham para que a “volta ao jardim” continue viva.
Pete Fornatale assegura que o festival, sem qualquer intenção prévia, se tornou um manifesto, um símbolo das mudanças que borbulharam na primeira metade e transbordaram durante a segunda metade dos anos 60 nos Estados Unidos. No livro, ele levanta a questão sobre tudo o que rolou durante as 65 horas de som no evento que redefiniu a cultura e os valores de toda uma geração e lançou sementes para além de seu tempo: “Woodstock foi, sem dúvida, o marco principal da grande revolução jovem da época, uma onda de transformação musical, política e social”. A empreitada idealizada por Michael Lang, Artie Kornfeld, John Roberts e Joel Rosenman nasceu de um encontro a partir de um anúncio de jornal e transformou a música e o comportamento do século XX.
O músico Graham Nash sintetizou: “A lenda e o mito de Woodstock se tornaram maiores do que a sua realidade. Foi inegavelmente um tremendo evento social. Muita música de qualidade. Muita diversão para muita gente. Acho que, à medida que o tempo passou, a lenda, o mito de Woodstock, se tornou maior do que a realidade”. A antropóloga Margaret Mead viu tudo como um fenômeno sociológico e assegurou na revista Red, na época, que foi uma confirmação de que esta geração tem, e compreende que tem, sua própria identidade. E David Crosby, em seu livro “Stand and Be Counted”, deu uma pista: “não foi um evento político no sentido tradicional do termo, mas foi tão grande que teve um impacto político semelhante”.
Muitas controvérsias marcaram o festival. Talvez a maior delas é quanto ao número de gente que conseguiu reunir, 400 mil, 500 mil. Pouco importa, era um mar de gente. O certo é que às 17h07 da sexta-feira, 15 de agosto de 1969, uma onda humana como nenhuma outra nos anais da história, como descreve Pete Fornatale, ouvia os primeiros sons de Richie Havens, que fora escolhido na hora para abrir o festival num vôo solo ao violão. Quase três horas depois, já exausto, o músico continuava no palco, a pedido da produção, e não sabia mais o que cantar, já cantara tudo, quando veio a inspiração: “Olhei para a platéia e não conseguia ver o fim dela porque, como se vê no filme, é gente até onde se consegue enxergar. Então olhei para cima e disse ‘liberdade não é o que eles fazem a gente pensar que é, nós já a temos. Tudo que devemos fazer é exercê-la, e é isso que estamos fazendo bem aqui’. Então comecei a tocar umas notas procurando alguma coisa e a palavra saiu, ‘freedom’, e aí, claro ‘Motherless child’, que eu não cantava há uns seis, sete anos, surgiu. Depois apareceu uma parte de uma canção que eu costumava cantar quando tinha 15 anos e entrou no meio. Foi assim que juntei tudo”.
Fornatale esclarece que a performance de Richie cristalizou e iluminou a verdadeira razão subjacente para que aquele meio milhão de pessoas se reunisse ao toque de uma única palavra, repetida mil vezes e ecoada pela multidão: “Freedom, freedom, liberdade, liberdade”. A performance de Havens hipnotizou e seduziu a massa e o músico, segundo Fornatale, parece em transe, transformado, transportado: “ele ainda é a maior encarnação viva do ethos de Woodstock”.
Para o escritor e crítico Bob Santelli, Havens salvou o dia do festival. Mas ainda no primeiro dia nasceu uma inesperada estrela solo, Coutry Joe McDonald, uma inclusão tardia no elenco. O Fish estava escalado só para o domingo, Joe chegou cedo para curtir a abertura do festival, na sexta, e dava bobeira na lateral do palco, quando o apresentador e gerente de produção, John Morris, resolveu convocá-lo. E Joe soltou logo uma adaptação de um grito de guerra que usara antes e soletrou a palavra “fuck” no lugar de “fish”. Segundo o coordenador artístico, Bill Belmont, quando soou “Me dá um F!”, todo mundo sabia o que ia acontecer. O que veio depois está no filme, a multidão inteira gritando “fuck”, uma palavra proibida na América até então. “E, claro, não é só a palavra, mas o significado por trás dela”, esclarece Santelli: “todas as regras e leis tinham ficado do lado de fora dos portões”.
Na opinião de Santelli, “quando se pensa em Woodstock e nas canções da Guerra do Vietnã, se pensa na apresentação de Joe. Foi lendária e importante. Ele se impôs. Foi uma das poucas vezes em que a política foi realmente convidada ao palco e realmente aceita. De modo geral, Woodstock não foi sobre política. Não foi sobre o que estava acontecendo no mundo, as coisas ruins. Foi sobre a criação de um novo mundo, uma nova identidade, uma nova nação, a Nação Woodstock. Não foi sobre tentar resolver a Guerra do Vietnã ou sobre se manifestar e mandar uma tremenda mensagem ao mundo careta e ao governo americano de que queríamos que a guerra parasse. Ainda assim, Joe, da única maneira que ele podia fazer, conseguiu adicionar um elemento político que foi aceito”.
A pobreza, a injustiça, o racismo e o belicismo estavam à solta na “terra da liberdade” e no “lar dos bravos”, assegura Fornatale; afinal, nenhum tema revelou mais o crescente abismo nos Estados Unidos do que o Vietnã: “ao mesmo tempo em que esta geração estava abraçando sexo, drogas e rock’n’roll, aprendia a suportar o choque e o trauma dos assassinatos, os distúrbios e a brutalidade policial. Eram essas as nuvens que pairavam sobre Woodstock, e nada tinham a ver com o tempo”.
A crítica de rock, Ellen Sander, aponta uma pista: “o ano anterior tinha sido muito tumultuado, com muita violência no país e muitos distúrbios. Havia um grande descontentamento no ar, e ele acabou achando um lar em Woodstock. Acho que os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy e os distúrbios na Convenção Nacional Democrata criaram o clima e as condições para algo assim. Nós, boomers, crescemos em circunstâncias únicas e fomos atingidos por um monte de coisas que não atingiram as gerações anteriores. A Guerra do Vietnã, todos achávamos ser um conflito injusto e não declarado. Houve muitos protestos contra a guerra. Não creio que alguém jamais saberá a resposta do mistério de Woodstock não ter degringolado em caos e violência – porque todos os elementos estavam a postos – mas, em vez disso, foi muito pacífico. Na época, a gente sentiu que era uma espécie de destino, que seria um caminho para o futuro – de cooperação pacífica, espírito de comunidade, tribalismo, essas coisas. Não saiu bem do jeito que a gente esperava (risos), mas pelo menos existiu naquele fim de semana”.
O diretor Michael Wadleigh aponta Sly Stone como o músico que conquistou a maior reação da platéia no festival. “Quando Sly disse, ‘I wanna take you higher’ (Quero te levar mais alto), a multidão ficou frenética, quando falou, ‘Dance to the music’ (Dance para a música), não havia como deixar de dançar. A música era mais do que poderosa. Sly & the Family Stone capturaram a essência do festival”. E Fornatale conseguiu de Roger Daltrey, do The Who, uma emocionada lembrança: “O sol nascendo em ‘See me, Feel Me’ é a melhor. Quer dizer, foi uma experiência incrível. Assim que as palavras ‘see me’ saíram da minha boca no final de ‘Tommy’, aquele enorme e vermelho sol de agosto começou a surgir no horizonte sobre a multidão. É um show de luz imbatível”. Daltrey ainda esclareceu: “o sucesso e a importância de Woodstock é que foi um triunfo humanista. A platéia foi a estrela”. E Pete Townshend também arrematou: “O que aconteceu depois do show de Woodstock foi milagroso. Todo mundo foi em frente e a América é um país melhor por conta disso”.
Por sua vez, o músico e editor Stan Schnier argumentou: “nada naquele filme se aproxima da energia de Carlos Santana. Foi uma espécie de experiência fora do corpo ver esses caras. Eles eram muito jovens e incendiários. É uma dessas convergências maravilhosas, existia alguma coisa sobre Carlos Santana na época que parecia de outro planeta”. Joe Cocker também ganhou notoriedade depois “do rolo compressor da pièce de résistance que fechava sua performance, uma recriação única de ‘With a Little Help from My Friends’, a canção de John Lennon e Paul McCartney”. Para Michael Wadleigh, “Cocker faz tudo, está dentro daquilo. Ele é um bom exemplo de porque a música dos anos 60 e a década de 60 duraram e presumivelmente vão durar para sempre. São performances e músicas verdadeiramente emotivas, comoventes e fundamentais”.
O encerramento do festival, já na manhã da segunda-feira, 18 de agosto, foi apoteótico, apesar do público reduzido que ficou para ouvir Jimi Hendrix e o grupo experimental Electric Sky Church. Depois de tocar por cerca de duas horas, Hendrix deu o golpe final e tocou a Guerra do Vietnã nas cordas da sua guitarra branca, com direito a toque de recolher, estouro de bombas, metralhadoras disparando e o barulho de helicópteros no céu. Sua interpretação visceral do hino norte-americano “Star-Spangled Banner” simbolizou toda a essência de Woodstock. A Nação Woodstock, enfim, dava seu grito libertador. Daí em diante, é história.
No Brasil, pai e filho avaliam o fenômeno. O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg e o analista da arte anarquista Leonardo Goldberg refletem sobre o festival. Para Jacob, “no imaginário e no simbólico, Woodstock foi a resposta do inconsciente coletivo da humanidade à repressão que culminou com o nazi-fascismo e as ondas conservadoras em todo o mundo (inclusive da esquerda stalinista). Foi o dia em que o superego dançou. A liberação do Id abriu os territórios do prazer, rompendo com os tabus e inaugurando a liberdade enquanto esperança. Embora, posteriormente, cooptado e desfigurado – pelo capitalismo e pela droga – historicamente, o indivíduo num instante épico e dramatizado levou a imaginação ao teatro existencial”. E, segundo Leonardo, "sob um viés piagetiano, se a espécie humana pudesse ser concebida como um único indivíduo, o festival de Woodstock seria sua fase rebelde, a adolescência, o divisor de águas que marcaria a concepção de liberdade num caráter macro”.

Fonte: Cronópios

segunda-feira, agosto 10, 2009

pandemia e desigualdade

A era das pandemias e a desigualdade

por Sueli Dallari e Deisy Ventura

“Tratar essa pandemia gripal como espetáculo pontual é um equívoco. As pandemias vieram para ficar e suscitam dois debates estruturais”

O mundo está diante das primeiras “pestes globalizadas”, cuja velocidade de contágio, sem precedentes, é inversamente proporcional à lentidão da política e do direito.

A aceleração do trânsito de pessoas e de mercadorias reduz os intervalos entre os fenômenos patológicos de grande extensão em número de casos graves e de países atingidos, ditos pandemias. Assim, tratar a pandemia gripal em curso como um espetáculo pontual é um grande equívoco.

As pandemias vieram para ficar e suscitam ao menos dois debates estruturais: as disfunções dos sistemas de saúde pública dos países em desenvolvimento e a inoperância da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na ausência de quebra de patentes de medicamentos e de vacinas, perecerá um grande número de doentes que, se tratados, poderiam ser salvos. O mundo desenvolvido terá então, deliberadamente, deixado morrer milhões de pobres.

Sob fortes pressões políticas, a OMS tem divulgado com entusiasmo doações de tratamentos e descontos aos países menos avançados na compra do oseltamivir, o famoso Tamiflu, fabricado pela Roche, até então o único tratamento eficaz contra o vírus A (H1N1). Mas essa pretensa generosidade é absolutamente insignificante diante da possível contaminação de um terço da humanidade.

A apologia do Tamiflu tem levado milhares de pessoas à compra do medicamento pela internet ou a cruzar fronteiras para obtê-lo em países vizinhos. O uso indiscriminado do medicamento deve ser combatido com vigor, tanto pela probabilidade de consumo de produto falso quanto por fazer com que rapidamente o vírus se torne resistente também ao oseltamivir, o que ocorreu em casos recentes. Ainda mais grave: as constantes mutações do vírus tornam o mundo refém da indústria de medicamentos.

A OMS deve operar para que paulatinamente os Estados assumam o leme, com todos os custos que isso implica, do investimento em pesquisa ao serviço de saúde pública.

O direito não pode ser desperdiçado: o Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio, negociado no âmbito da Organização Mundial do Comércio, criou a licença compulsória, dita quebra de patente, para, entre outros casos, os de urgência. Ora, pode ocorrer algo mais urgente do que uma pandemia?

No entanto, quebrar a patente do Tamiflu, embora imprescindível, é apenas uma ponta do iceberg. É preciso que os Estados desenvolvam as condições para produzi-lo.

O mesmo ocorre em relação à insuficiência de kits para diagnóstico: com a progressão da pandemia, é provável que não sejamos capazes sequer de contar os mortos, ou seja, aqueles que comprovadamente foram vítimas desse vírus.

A prevenção da doença traz um problema adicional, que é a pressa: os mais nefastos efeitos da vacina contra o A (H1N1) ocorrerão nos primeiros países a generalizá-la, que serão, infelizmente, os latino-americanos, até agora os mais atingidos pela doença.

Assim, a deplorável desigualdade econômica mundial distribui também desigualmente o peso das urgências sanitárias. Os pobres portam o fardo mais pesado, eis que a pandemia gripal vem juntar-se a outras doenças endêmicas, como paludismo, tuberculose e dengue, cuja subsistência deve-se às adversas condições de trabalho e de vida, sobretudo em grandes aglomerações urbanas, não raro em condições de habitação promíscuas, numa rotina que favorece largamente a contaminação.

Caso o fenômeno se agrave, novas restrições, além do controle do Tamiflu, podem ser necessárias, a exemplo da limitação de reuniões públicas e aglomerações, que já foi adotada em países próximos, como a Argentina.

A pandemia pode trazer, ainda, a estigmatização de grupos de risco ou de estrangeiros, favorecendo a cultura da insegurança, pois o medo é tão contagioso quanto a doença.

Por tudo isso, urge revisar o papel da OMS no sistema internacional e retomar o debate sobre a criação de um verdadeiro sistema de vigilância epidemiológica no Brasil, apto a regular a eventual necessidade de restrições a direitos humanos e a organizar a gestão das pandemias com a maior transparência possível.

Caso contrário, seguirá atual o que escreveu Albert Camus, em 1947, no grande romance “A Peste”: “Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas”.

Sueli Dallari é professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP. Deisy Ventura é professora do Instituto de Relações Internacionais da USP.

* Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo.

Fonte: EcoDebate, 01/08/2009


sábado, agosto 08, 2009

acontece

Amores e mudanças

por Contardo Calligaris

Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa

QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.

Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?

Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.

O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.

Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da idéia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.

O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.

Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.

Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.

Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.

Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".

O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.

No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.

Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.

terça-feira, agosto 04, 2009

vivendo


Tanto Tempo o Agora

Por enquanto só vendo
Inexplicável realidade torta
Tempo que não é mais o antes.
Machucando devagar
Parecendo o sempre
Mais hoje que ontem
Menos hoje que no amanhã.

Sem o antigo
Sem o mais jovem
Novamente, o que fazer?
Por enquanto só vendo,
Inexplicável realidade torta
Tempo que não é mais o agora.


Quando a mulher cidadã?
Onde o homem acordando o dia?
Numa insônia em nuvem doentia
Sem remédio ou ideologia
Como sobreviver sem mais sofrer
À mesma comida fria.

Sem o antigo
Sem o mais jovem
Novamente, como fazer?
Um caminho sem trilha
Sem sonhos bons de ser feliz
Nem motivos que permaneçam.

Por enquanto só vendo,
Inexplicável realidade avessa,
Tempo que não é mais depois.
Sorrisos de solidão chorada
Vazio rio das horas
Fome de filhos pequenos
Inúmeros no acaso das ruas.

Dores da luz sem leito
Chuva fina de esperanças
Corações abertos sem sol
Há muito tempo, frios
Apenas sem cura.

segunda-feira, agosto 03, 2009

sobre

Escadas

Comecei com os olhos secos
Saltando ares de reta transição
Estalando dobrados em aurora

Jogando-me em processo curioso
De saber turvo a me espelhar
Fui anseio em turbilhão

Tentava de tudo e fiz
O que era menos natural
Mas tudo estava dentro de mim

Muitas noites de insônia vazia
Passos atrasados pelas pedras
Em batalhas sem armas ou guia


Vendo arder minha alma tola
Nas tentativas estranhas
De conter meu animal bravio

Saídas toscas de janelas reparadas
Cruas em óleos e papéis de vidro
Encerrava-me numa gaiola quebrada

Os lábios tinham de responder
Pelas coisas malditas no íntimo
E balançar um casulo de borboleta
Metamorfose de desafio brutal e motivos

Vivi a solidão em bolhas alcoolizadas
Ao gosto de um vento farto de balões
Montando minha escada belíssima
Um quebra-cabeça de surpresas

Abri caminhos internos para sobreviver
Outros externos nas linhas lidas das mãos
Descolando tantas passagens cercadas
Identidade única em estado de prazer

agroindústria

Domingo, 02 de Agosto de 2009
Crise chega aos pomares e frutas apodrecem no pé
Produtores tentam sobreviver ao preço baixo pago pela caixa de laranja e a erradicação de árvores doentes
por Paula Pacheco

No silêncio do campo, o som da serra elétrica é perturbador. Da terra vermelha, um monte de pés de laranja é arrancado e será usado pelas cerâmicas da região de Pirassununga, a 213 quilômetros de São Paulo, para alimentar os fornos. O Estado é o maior produtor de laranjas do Brasil. O País é responsável por 40% da produção mundial da fruta e 83% das exportações de suco. Nesta safra, no entanto, a cultura vive um dos piores momentos. O desalento tomou conta dos citricultores por dois motivos: o preço pago pela indústria processadora de suco e o greening, doença que condena as árvores.
Agrônomo e agricultor, Marcos Rosolen tem cerca de 20 mil pés. Já teve por volta de 26 mil e precisou se desfazer de parte do pomar por causa do greening e da crise. Como a propriedade é arrendada, Rosolen decidiu devolver o sítio. Antes, vai acabar com o pomar. O dono da área deve substituí-lo por cana e eucalipto, e Rosolen planeja se dedicar à consultoria. "Vou vender minha casa e pagar as dívidas para tentar recomeçar. Não tenho como investir na propriedade tudo que é necessário com o preço tão baixo pago pela caixa de laranja", lamenta.
Os citricultores afirmam que a atividade é inviável. Ademir Borges, de 62 anos, também vive da laranja. Ele detalha parte da sua composição de custos. Cada caixa de laranja custa R$ 1,60 para a fruta ser colhida e R$ 1,20 de frete até a porta da indústria processadora. O Fundecitrus, instituto de pesquisa do setor, recebe R$ 0,20 por caixa. Custo total: R$ 3. A indústria paga hoje cerca de R$ 3,70 por caixa. Portanto, sobram 70 centavos para despesas fixas, como mudas e agrotóxicos.
Com essa remuneração, muitos produtores têm preferido deixar a laranja apodrecer e virar adubo a empatar dinheiro na colheita. Borges perderá 300 pés por causa do greening.
O citricultor tem uma dívida de R$ 120 mil com o banco e não sabe se vai dar conta de pagá-la. Nos últimos cinco anos, como a atividade anda ruim, ele tem pago as despesas com a renda do pequeno pesque-pague na zona rural de Porto Ferreira.
Oscar Müller deve R$ 200 mil aos bancos. Pouco antes da colheita, ele foi obrigado a se livrar de 2,5 mil pés doentes. Com a baixa remuneração da fruta, ele não consegue fazer o trato correto para evitar que a doença se espalhe pelo pomar. "Antes, toda propriedade tinha um burro. Agora, todo burro tem uma propriedade".
O produtor Pedro Tonetti sugere que o governo ofereça uma garantia mínima de preço pela laranja: "O que se vê é uma indústria concentrada, com quatro empresas, fixando preço".
João Sampaio, secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, espera ter uma solução parcial. Ainda em setembro, deve ser apresentado um seguro de indenização aos produtores que arrancaram os pés de laranja com greening. O governo estadual vai arcar com 60% e o federal com 40% do seguro.
Na próxima safra, os citricultores deverão pagar 30% do custo do prêmio. "Isso minimiza o problema. Os produtores devem se mobilizar para vender o suco processado no mercado interno", analisa Sampaio.
O secretário tem razão quanto ao potencial. O brasileiro consome só 11 litros de suco de laranja por ano. E não é à toa. Em um restaurante na beira da rodovia que passa ao lado de Pirassununga, o copo custa R$ 3.
"A laranja vem sendo substituída pelo refrigerante e outras frutas. O citricultor precisa fazer a sua parte. É fácil pegar a laranja, entregar na indústria e responsabilizá-la por encontrar comprador. Há linhas de crédito com juros de 3% ao ano para quem quer renovar o pomar ou montar uma pequena agroindústria", critica Sampaio.
Pedro Becker, assessor da Secretaria de Comércio, Indústria e Agricultura de Pirassununga, também defende que o citricultor vá para as ruas, de forma organizada, para vender a produção: "É preciso encontrar alternativas".
A queda do consumo de suco de laranja é um fenômeno mundial, explica Margarete Boteon, pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo. "Uma política emergencial, abrindo uma das fábricas que estão fechadas daria fôlego ao citricultor. Outra ação seria indenizar os citricultores que estão erradicando as lavouras com o greening."
FONTE: O Estado de São Paulo, Economia & Negócios

quinta-feira, julho 30, 2009

recursos naturais

TERRAS DA AMAZÔNIA: Muito na mão de poucos

Geógrafo questiona a aprovação de MP que regulariza a propriedade de terras na Amazônia
p
or Frederico Viotti

Tratando-se de Amazônia, o assunto do momento é a aprovação na Câmara dos Deputados da polêmica Medida Provisória 458, que regulamenta a propriedade de terras. O projeto, aprovado em fevereiro, indica a regularização dos terrenos com extensões de até 1.500 hectares que tenham sido ocupados antes de 2004.

As modificações feitas no texto original ressaltaram as divergências entre a bancada ruralista e a ambientalista, que disputaram voto a voto as alterações que mais lhe interessavam. Ao que tudo indica, os ruralistas venceram esta queda de braço.

O texto aprovado assegurou a indenização aos posseiros caso as terras sejam retomadas pela União, a possibilidade de empresas também comprarem as posses e uma espécie de “anistia” para quem agiu contra a legislação ambiental vigente. Só é passível de punição, ainda que com garantias de defesa, quem desmatou áreas de preservação permanente ou de reserva legal.

Por outro lado, a MP também contém exigências de recomposição de reservas para os que conseguirem comprar as terras, além de proibir a alienação de florestas públicas, de unidades de conservação ou de áreas que já estejam selecionadas para a criação de áreas de preservação.

A discussão em torno da medida reuniu não só parlamentares, mas também figuras públicas, como os atores Christiane Torloni e Victor Fasano. Tanto o atual ministro do Meio Ambiente Carlos Minc quanto sua antecessora Marina Silva se posicionaram de maneira claramente contrária à aprovação.

No segundo encontro do módulo “Descobrir a Amazônia, Descobrir-se Repórter”, do Projeto Repórter do Futuro, realizado dia 16 de maio, o tema foi abordado e discutido por um especialista: o geógrafo e professor da USP Ariovaldo Umbelino de Oliveira.

Com seus estudos direcionados para as questões relativas à ocupação recente da Amazônia e suas consequências, Oliveira é firme em sua posição frente à MP: “Essa política fere o princípio de que a propriedade da terra tem que cumprir sua função social, o que por si só fere a constituição nacional”.

O geógrafo ainda caracteriza a iniciativa como uma “contra-reforma agrária”, pois estaríamos entregando o patrimônio público nas mãos dos grileiros, que já dominam os principais municípios produtores agrícolas. São terras griladas que pertencem ao Incra.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) é um dos principais focos de sua crítica: “funcionários do Incra vendem terras públicas legais para os grileiros, os protagonistas do processo de destruição na natureza”. Esta acusação foi referendada pela denúncia recente ocorrida no Mato Grosso, que terminou com a prisão de 14 suspeitos de fraudes em processos de desapropriação. Entre eles, seis empregados do instituto, um do alto escalão.

“A MP foi arquitetada nos bastidores, por funcionários do Incra.” Oliveira baseia sua afirmação no fato do governo já estava fazendo assentamentos adequados antes da medida, criando novas propostas em que a terra fica sobre controle do estado, a preservação é efetiva e os assentados usufruem de todos os benefícios necessários, seguindo os preceitos do desenvolvimento sustentável. Segundo ele, essa ação prévia tira qualquer nexo da MP 458.

Ao tratar da participação do governo federal na questão, Oliveira é ainda mais incisivo. “A rigor, o estado brasileiro nem deveria incentivar nenhuma política de assentamento na Amazônia, não há necessidade. O Brasil tem 120 milhões de hectares de terras rurais improdutivas”.

Segundo dados apresentados pelo geógrafo, a Amazônia concentra 96 milhões de hectares de terras devolutas, que não constam em nenhum registro público. “Mais de 80% das terras dos municípios na região são devolutas”. Essas estatísticas deflagram um problema ainda maior: “Não há no Brasil conhecimento da situação fundiária. O Estado brasileiro não criou instrumentos para controlar suas terras. A situação está ao sabor das elites, que grilaram grande parte deste território”.

Oliveira é enfático ao analisar o papel do setor privado na preservação da Amazônia. “Os empresários desse país jamais respeitaram o meio-ambiente, nada indica que isso vá mudar. Deixar as terras nas mãos deles só aumentará o desmatamento. É a presença da propriedade privada que abre a brecha para o desmatamento”, afirma.

Sobre a questão dos assentamentos, Ariovaldo Oliveira declara que o número divulgado pelo Incra de 500 mil assentados é “mentiroso” e que na realidade não passa de 180 mil. “No cálculo final, estão somando assentamentos anteriores. Isso não é Reforma Agrária”.

Também esteve presente ao encontro o arqueólogo Eduardo Neves, que se aprofundou na função da arqueologia como chave para o resgate histórico da Amazônia e aproveitou para opinar sobre o caso. “A Amazônia pode ser ‘ocupada’ sim, mas com uma lógica bem diferente da do agronegócio. Deve-se pensar em uma ocupação de baixo para cima na pirâmide social”, afirmou.

Dentro desse cenário controverso, o perigo que a aprovação no Senado e no poder executivo da Medida Provisória 458 pode acarretar está reproduzido de forma clara no desabafo de Oliveira: “Estamos em uma encruzilhada histórica. Parte do patrimônio público nacional está sendo transferido de forma ilegal e inconstitucional para as mesmas pessoas que dominam e exploram predatoriamente essas terras há 500 anos, para quem sempre teve direito a elas. Os pobres são a justificativa para que as elites se apropriem de 150 milhões de hectares da Amazônia.”

segunda-feira, julho 27, 2009

urbanização


Um padrão que os cidadãos devem reavaliar

Há poucos dias havia escrito umas linhas chateado com o processo de urbanização a que nossa cidade tem sido submetida. Algo de muito podre cheira em nossa soterópoles! Que cidadãos definem essa catástrofe? Será esse o único caminho para nossa cidade do Salvador, traçado por sua representação na Câmara e seu Prefeito “fincador” de postes azuis?

O padrão se repete. Sem cidadãos! Luanda, Lagos, Mumbai...

Para ter uma idéia da convivência da pobreza urbana crescente com o boom do mercado imobiliário em outros países, assisti “Quem quer ser um milionário?”, e de fato a cidade de Mumbai é bem um exemplo desse padrão; permite-nos perceber como ele se repete, e se constitui numa realidade carimbada repetindo-se em diversas partes do mundo.

E Salvador, se despe como um elo desse “movimento” imposto pelos interesses do mercado especulativo, adoção de um crescimento urbano pós-moderno, um “produto” anunciado de uma “cegueira” de políticas públicas, inconsequente e incoerente a dinâmica ambiental. Tudo concorre possibilitando abrir os espaços metro-periférico-urbanos para a instalação de condomínios elitistas “esparramados” no verde restante das cidades, e a “verticalização” da “urbanização pirata” visualmente numa “arquitetura possível” acentuando um cinturão de carência de serviços públicos básicos, menos periférica, entranhas do corpo metropolitano em crescimento incontrolável e acelerado. Favelização e urbanização estão na mesma trajetória.

Como fruto de uma situação de dominação social e opressão cultural, representam faces de uma mesma moeda; da ação especulativa e negocial do setor imobiliário. Os interesses coletivos das populações das cidades de países pobres continuam sendo negados, cidades que amontoando gente e “necessidades” coletivas crescem de forma explosiva, desorganizada e “insensivelmente” violenta, uma arquitetura desumana.


o que somos?

Porque não podemos ser “coisas”:

1- coisas não percebem diferenças sutis
2- coisas não sentem fome
3- coisas são rotuladas
4- coisas tem um preço
5- coisas são vendidas
6- coisas não tem humor
7- coisas jamais se apaixonam
8- coisas nunca fogem as regras
9- coisas não tem fé
10- coisas desconhecem a Deus
11- coisas não conhecem o sorriso
12- coisas não tem amigos
13- coisas não tem ideais
14- coisas não sonham
15- coisas não “coisam”
16- coisas são controladas
17- coisas são esquecidas
18- coisas não tem sentimentos
19- coisas não podem amar
20- (...)

domingo, julho 26, 2009

o imediato

Mundo dos números (título que dei)

[...]De Hegel, precisa-se de sua clarificação sobre o papel da matemática no conhecimento científico. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel disse o seguinte: “o conhecimento matemático só representa o devir do ser aí, isto é, do ser da coisa no conhecimento imediato enquanto tal”. E mais à frente: “no conhecimento matemático a intelecção é exterior à coisa, donde se segue que mediante ele não se conhece a coisa verdadeiramente”.

Devo, agora, em nome da inteligibilidade, reproduzir agora esses dois argumentos numa forma mais simples:

Por meio de uma função matemática, podemos, por exemplo, relacionar o salário à quantidade de trabalho, isto é, w = f (l) para descrever uma função de oferta. Isto, porém, não nos permite ver que o salário é o preço de aluguel da força de trabalho, ou seja, que ele é apenas o aspecto quantitativo imediato de uma relação estrutural entre trabalhador e capitalista. Especialmente em sua forma abreviada, w, não nos permite enxergar que essa relação social pressupõe uma divisão entre os homens, entre aqueles que possuem meios de produção − os donos do capital − e aqueles que só possuem a força de trabalho, a qual têm de vender necessariamente ao capitalista a fim de sobreviver. Ela não revela o metabolismo entre essas duas classes sociais. Ao contrário, com a concentração exclusiva em expressões tais como w = f (l) tudo se oculta, inclusive o fato de que tanto o trabalhador quanto o capitalista são subjetividades imersas num mundo dilacerado.

Mesmo uma simples troca pressupõe seres que desejam, ou seja, proprietários privados que são mais do que proprietários privados. Ademais, uma simples troca pressupõe um contrato que vem a ser um acordo de vontades. A economia mercantil, mesmo em seus aspectos mais imediatos e aparentes, pressupõe, pois, seres desejosos e volitivos. Pressupõe, também, em nível mais profundo, a relação estrutural que diz que as relações sociais entre homens se farão por meio de transações, ou seja, que elas se travaram por meio das coisas. Tudo isso desaparece nas fórmulas matemáticas de uma ciência econômica totalmente limpa de tudo o que pode vir a ser humano.

Aqueles dois argumentos levam, pois, à seguinte conclusão: a restrição em larga medida do conhecimento científico em Economia àquele que pode assumir uma forma matemática – que gerar necessariamente a mitologização dessa forma –, expressa de um modo invertido, obscuro, o propósito subconsciente de ficar na superficialidade dos fenômenos, em seus nexos aparentes, sem investigar os fundamentos internos desses fenômenos e nexos, quais sejam, as relações sociais que estruturam essa aparência superficial.

A formalização não é, entretanto, um fim em si mesmo. Ela é, sobretudo, uma pedagogia anti-humanista que se sustenta na recriação meramente matemática da realidade, configurando-se, por isso, como um novo obscurantismo. Ela dá suporte a um processo de treinamento que visa preparar os estudantes em técnicas de manipulação da realidade social, como se esta fosse um dado, mera natureza ou um mero sistema cibernético. Para tanto, precisa representar essas interações sociais, abreviada e limitadamente, sob os nomes matemáticos de variáveis microeconômicas e macroeconômicas. Eis que a linguagem assim constituída é empregada por uma elite de tecnocratas com o objetivo último de domar as interações sociais contraditórias.[...]

Fonte: Trecho do artigo “Formação do Economista num Mundo Dominado pelo Neoliberalismo”, de Eleutério F. S. Prado


quinta-feira, julho 23, 2009

contágio

em vivência


No começo da caminhada havia uma dolorosa necessidade de expor a tempestade, o vulcão, a paixão que sempre me contagia de dentro para fora e depois continua fazendo parte da respiração, naturalmente sem controle, como de fato acontece durante a criação dos meus poemas.


A biodança me deu (e dá) um banho de desafio e vitalidade em todos os momentos da criação dos meus textos, ora antes das vivências ora logo a seguir, re-significando, renascendo, regulando minhas energias e processos. Passarei à frente, em breve, essa arte nascida de uma fonte inesgotável de amor e vida em sua forma literária.


O sentimento amoroso é mais que fusão, dissolução, reintegração, tem haver com continuidade da vida, necessidade da fala e sopro compartilhados, livres em dois, constituindo-se três, cada um na sua individualidade, identidade, originando um terceiro ser numa aliança divina, seres “argilosos” em masculino e feminino, para daí se ter acesso à humanidade em sua plenitude.


Quero sim, esse momento de individuação, alteridade, de afeto ao outro, aceitando-se como ser e reconhecendo-se, que continue firme e possa fazer essa caminhada para um superviver, que colha muitos frutos da árvore da vida, dos desejos de transformação e transcendência no encontro da igualização, da liberdade como escolha, da solidariedade consciente e da cooperação espontânea vinda do coração.


Essa é a leitura que faço e sinto na biodança!

crianças

No circo

Uma energia origina-se do corpo que propõe o vôo
Outra recebe o que seu conteúdo tem de sincero
Andam por relâmpagos pontilhados de trovões
Em traços conhecidos que riscam corações de ferro

Um dia iluminado descobre a surpresa de um circo
Apresentando cambalhotas e repentinas gargalhadas
Para recriar sonhos que disputam olhares curiosos
Mostrando os saltimbancos transformados em fadas

Pelos saltos percebem a insegurança das cordas da fama
Quando as vozes gritam mais alto após um golpe falso no ar
Montam e pulam as alturas em um corcel negro domado
Tentando viver uma peça incrível que suscita as palmas

De lágrima no rosto o palhaço nos desmancha em risos
Acrobatas fantásticos sustam soluços que rasgam a lona
Nas cenas são meninos e meninas crepitando como pipocas
Eternos em cada face de criança feliz e brincalhona

escritor cidadão

Do sujeito sobre si mesmo

By José Saramago

Como escritor, creio não me ter separado jamais da minha consciência de cidadão. Considero que aonde vai um, deverá ir o outro. Não recordo ter escrito uma só palavra que estivesse em contradição com as convicções políticas que defendo, mas isso não significa que tenha posto alguma vez a literatura ao serviço directo da ideologia que é a minha. Quer dizer, isso sim, que ao escrever procuro, em cada palavra, exprimir a totalidade do homem que sou.
Repito: não separo a condição de escritor da do cidadão, mas não confundo a condição de escritor com a do militante político. É certo que as pessoas me conhecem mais como escritor, mas também há aquelas que, com independência da maior ou menor relevância que reconheçam nas obras que escrevo, pensem que o que digo como cidadão comum lhes interessa e lhes importa. Ainda que seja o escritor, e só ele, quem leva aos ombros a responsabilidade de ser essa voz.
O escritor, se é pessoa do seu tempo, se não ficou ancorado no passado, há de conhecer os problemas do tempo que lhe calhou viver. E que problemas são esses hoje? Que não estamos num mundo aceitável, bem pelo contrário, vivemos num mundo que está a ir de mal a pior e que humanamente não serve. Atenção, porém: que não se confunda o que reclamo com qualquer tipo de expressão moralizante, com uma literatura que viesse dizer às pessoas como deveriam comportar-se. Estou a falar doutra coisa, da necessidade de conteúdos éticos sem nenhum traço de demagogia. E, condição fundamental, que não se separasse nunca da exigência de um ponto de vista crítico.


iguais no mercado

Quando compramos, consumimos, aí somos iguais.

Os economistas conhecem, que crescimento econômico é distinto de desenvolvimento, e o conceito de desenvolvimento se torna ainda mais distante do de crescimento voltado para poucos, quando observamos pela ótica do desenvolvimento humano e da questão do meio ambiente. Crescer sempre foi bom, desde os tempos do lema “fazer crescer o bolo para depois dividir”, um pensamento digno de ministro da fazenda dos anos ‘70. Agora o buraco, é claro que, é mais embaixo, vive-se num Estado de Direito Democrático. Devemos ir com fé, a fé não costuma falhar. Mas mudar é preciso, e evoluir é ainda mais; e evolução só deve refletir um desenvolvimento sustentado e com distribuição de renda.

E só no papel de consumidor os direitos se fazem presente. Só sendo visto em uma categoria que possui renda, e que seja gasta, consumida, seja através da navalha do cartão ou do cash a juros de mercado, só assim considera-se “existir” uma “igualdade social”. Os números do crédito, o poder da riqueza, do dinheiro, nivela a todos sem distinção de cor, credo ou opção sexual. O mercado é cego como a justiça, nessa democracia monetária!

Somos diferentes, mas, as diferenças só existem sob o ponto de vista da necessidade de cada um dar seu esforço para superá-la, em condições sabidamente mínimas de igualdade social, simplesmente quando se apresenta as habilidades, possibilidades, ao se acreditar nos sonhos (de consumo), em um ideal de democracia que nem sabemos direito como é ou se constitui, principalmente para onde vai – um objetivo sempre foi a questão da distribuição de renda; da Justiça e do Direito, geralmente nem sabemos ou nem podemos exercê-los, se nem o direito de cidadania temos, ao nos ser negado a oportunidade de defesa se se é pobre, negro ou desempregado, e sob os preconceitos, sumariamente são executados – mas sabemos o que nos falta e o que nos cobram!

Falta a dignidade ao nos faltar emprego e renda, falta tudo se não oferecemos nossa “força de trabalho” (intelectual ou física) por um salário mínimo ou inadequado a uma vida decente, que é legal e mal pago por uma significativa parcela das empresas; ou não se sabe que as pequenas e médias empresas são as responsáveis pelo maior número do emprego oferecido no mercado? E a informalidade que grassa? Justamente elas descumprem em sua grande parte os requisitos que as leis trabalhistas exigem como garantia ao trabalhador (INSS, PIS, COFINS, etc). Sem falar dos impostos que nem de longe chegam no final a contemplar as necessidades sociais para que foram criados. E não me venham com justificativas estatísticas, pois elas não corroboram a realidade mesmo enfeitada com as promessas e as razões políticas eleitorais. A cidade onde moro, Salvador, é uma que se destaca pelo índice de desemprego no Brasil! (11,9% em mar-2009).

Certas comunidades urbanas e da periferia sabem muito bem a real condição de existir, sobreviver, quando se vive perto da violência que cresce, distante das áreas mais urbanizadas (morada das elites, que também já se encontra ameaçada), tendo a lei que ronda pela vizinhança. Os serviços públicos e até privados (correios, leitores de registros, entrega de gás, delivery etc) se negam ou se afastam dessas áreas, por temer a violência, que por vezes atemoriza a comunidade abandonada pelos poderes públicos (saneamento, segurança, educação etc), e que acabam entregues ao poder das milícias e do narcotráfico.

Na verdade, o nosso verdadeiro ideal de democracia e liberdade vai além das desigualdades sociais e ambientais evidentemente existentes. Ao exigir acesso a educação, ao posto de trabalho e conseqüentemente a escolha consciente dos representantes políticos, que pela ética e responsabilidade com o social se dediquem às mudanças almejada por todos, pelos que não partilham da riqueza produzida pela extração dos recursos naturais (petróleo, minerais, alimentos, energia etc) que nosso país dispõe.



domingo, julho 19, 2009

o risco de chover

“Sentir é um risco e um presente, que agora me pertence, e quero só pra mim”, Zélia Duncan.


A estação de nossas chuvas


Mais uma quarta-feira, ao redor as janelas mostram a estação das chuvas, nem parece o começo de férias, e algo acontece, um minuto qualquer que não estávamos atento à dança dos elementos interiores. Uma folha de esperança se desdobrando caiu, pelas asas das mãos da ciranda instintiva uma boca aquarela empurrou a lua mudando nossos corpos de lugar, dava para reparar o zum-zum-zum dos besouros da surpresa, achar bem-te-vis soltos de sonhos sem respostas, sapos solitários e sábios, amores andarilhos saltando de qualquer parte para lugar nenhum. No centro da roda estavam brotando algumas poças de afeto, no início, em uma velocidade de sementes, logo abaixando nuvens de abraços em peneiras. E íamos aos pulos de coelho fugidios querendo subir em bancos de praça e firmes decolar soltando acenos e beijos.

Assim, uma chuva de emoção varreu nosso peito, os papéis e máscaras podiam se rasgar pelos movimentos, serem vistos por qualquer um dançarino presente. Entre uma roda de espinhos florindo, e um caminhar orvalhado, se abriu nossos verdadeiros sentimentos. Uma onda de calor humano, um sorriso largo, decorado pelo olhar de águas coerentes, lágrimas transparentes; ganhamos nosso jeito de expressar nossa mudança, completamente coração na boca e decisão, inspirados pela energia de nosso humor em arco-íris.

Em tempo, deu para dar boas risadas, e levitar mais demorado, desabrochando em um choro alegre, abrindo a natureza onde cabe as diversidades e qualquer forma diferente do padrão, expressando a nudez com profundidade, sem pausa nem decoro; somos essa delicada passagem de evolução inesquecível no carrossel das horas.

segunda-feira, julho 13, 2009

ecodebate

A morte dos rios não traz desenvolvimento

por Ruben Siqueira*


A civilização nasceu entre os rios Tigre, Eufrates e Nilo, o chamado “Crescente Fértil”. Mais tarde Roma desenvolveu-se à beira do Tibre e de seu império fez-se a “civilização ocidental cristã”. Esta, hoje, na sua mais grave crise, devia se ver refletida nos rios que poluiu…


No Brasil os rios foram os caminhos para a interiorização desta civilização trazida pelos portugueses. As “entradas e bandeiras” paulistas seguiram o rio Tietê. Pelo São Francisco entraram os senhores de terra, postando currais de gado e famílias de escravos – nascia a “civilização do couro” às margens do “rio dos currais”. Antes, os povos originários de Pindorama procuravam os cursos d’água e deles faziam os eixos de suas culturas. Acabaram ensinando o português a tomar banho…

Mas não apenas da civilização humana as águas são a fonte e o sustento, também da incomensurável biodiversidade. Todo mundo já aprendeu, ou deveria, que sem água não há vida.

Hoje, porém, no campo e nas cidades, os rios estão moribundos. De cada dez rios brasileiros sete estão poluídos. Todos os rios que cortam cidades, das megalópolis aos vilarejos, viraram esgotos, latrina, lixeira. Preservar as águas não é da lógica que rege o desenvolvimento. Hoje nos damos conta do grave problema que são a corrosão dos recursos naturais e o lixo excessivo que nosso estilo de vida produz. As águas são as primeiras a sinalizar o início do fim…

Da combinação de terra, água, luz solar e zelo feminino, nasceu a agricultura, há 12 mil anos. De lá para cá, a tecnologia evoluiu não só no controle dos fatores de produção agrícola, como até ao ponto de prescindir destes fatores. No vale do São Francisco, há fazendas em que o solo não é mais que sustentáculo da planta, toda a nutrição é artificial, feita por microgotejamento eletrônico. O “agricultor” está sentado ao computador numa sala climatizada, teclando as quantidades de fertilizantes que vão pela água bombeada do rio… Os gases liberados pelos fertilizantes químicos são dos piores de origem agropecuária, que respondem por 25% dos gases de efeito estufa que aquecem o planeta.

Calcula-se que nas fazendas de irrigação de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), no São Francisco, sejam despejadas três toneladas de agrotóxicos diariamente. O rio é o destino da maior parte deste veneno. O Brasil tornou-se em 2008 o maior consumidor de agrotóxicos no mundo, perto de 400 mil toneladas, um negócio que mobilizou US$ 7 bilhões. Falta pouco para um quarto do que consome o mundo: 2 milhões de toneladas.

O modelo da moderna agricultura, também chamada “Revolução Verde”, se impôs para “desenvolver” as áreas rurais. A concentração da terra e da água, das sementes e dos investimentos públicos em grandes empresas agropecuárias aumentou a produção, mas de commodities (soja, carne, suco de laranja e, logo, etanol) para exportação e especulação no mercado de capitais. Cai o consumo de arroz e feijão, o que significa má alimentação e fome. As cidades violentas e inseguras, não param de inchar. O campo restou esvaziado para domínio do agronegócio globalizado, miséria camponesa e degradação ambiental.

Apesar dos sinais mais que evidentes de que por esse caminho não há futuro, vive-se hoje no Brasil franca expansão do agronegócio hidrointensivo, na onda dos agrocombustíveis, falsa solução para o aquecimento global. Intensifica-se a irrigação, que já consome 70% das águas disponíveis do planeta, inclusive no Brasil.

A transposição de águas do São Francisco para o Nordeste Setentrional é exemplo cabal. A sede humana é só justificativa marqueteira. O verdadeiro interesse é expandir o modelo falido. A irrigação no Nordeste não funcionou como indutora do desenvolvimento, é duvidosa economicamente e um desastre social e ambiental.

Ao par da irrigação e dos esgotos, as barragens e hidrelétricas condenaram nossos rios. E não param de aumentar, sem que não se discutam os custos, nem para que e para quem tanta energia.

Se é verdade que “um rio é como um espelho que reflete os valores de uma sociedade”, a nossa não vale o que bebe e come…

Esgotado o “desenvolvimento”, precisamos recuperar o “envolvimento”. Aí, só a agroecologia pode nos salvar, salvando a terra, os rios, a agrobiodiversidade, os territórios, as tradições culturais, a soberania alimentar. Nisto os povos originários, sobreviventes à colonização, têm muito a nos ensinar.

A gestão territorial e participativa das águas através dos comitês de bacias poderá até contribuir para piorar o quadro, se for subserviente aos interesses expansionistas do capital. A luta maior é pela revitalização integral. Por isso bradamos “São Francisco vivo, terra e água, rio e povo”.

*Ruben Siqueira, Sociólogo, agente da CPT na Bacia do Rio São Francisco, colaborador e articulista do EcoDebate.

FONTE: EcoDebate, 11/07/2009

sábado, julho 11, 2009

commons

Vila de Todos

Que fosse ela perfeita
Poderia não ser uma vida.

Ela videira de tinto seca,
Desde cedo experiências.

De tão ser que sobra sol
Um destino tanto incerto.

...Refém de alma na mão,
......Coração quebrando cerca.

......Que sente o quanto falta...
......Aprende o que já conhece.

quarta-feira, julho 08, 2009

poeta

Sobre a origem da poesia
Arnaldo Antunes
"12 Poemas para dançarmos" (12 poems to be danced: 2000)

A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.
Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?
Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.
Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).
No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre.
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.

Incluído no libreto do espetáculo “12 Poemas para dançarmos”, dirigido por Gisela Moreau, São Paulo

na tela ou dvd

  • 12 Horas até o Amanhecer
  • 1408
  • 1922
  • 21 Gramas
  • 30 Minutos ou Menos
  • 8 Minutos
  • A Árvore da Vida
  • A Bússola de Ouro
  • A Chave Mestra
  • A Cura
  • A Endemoniada
  • A Espada e o Dragão
  • A Fita Branca
  • A Força de Um Sorriso
  • A Grande Ilusão
  • A Idade da Reflexão
  • A Ilha do Medo
  • A Intérprete
  • A Invenção de Hugo Cabret
  • A Janela Secreta
  • A Lista
  • A Lista de Schindler
  • A Livraria
  • A Loucura do Rei George
  • A Partida
  • A Pele
  • A Pele do Desejo
  • A Poeira do Tempo
  • A Praia
  • A Prostituta e a Baleia
  • A Prova
  • A Rainha
  • A Razão de Meu Afeto
  • A Ressaca
  • A Revelação
  • A Sombra e a Escuridão
  • A Suprema Felicidade
  • A Tempestade
  • A Trilha
  • A Troca
  • A Última Ceia
  • A Vantagem de Ser Invisível
  • A Vida de Gale
  • A Vida dos Outros
  • A Vida em uma Noite
  • A Vida Que Segue
  • Adaptation
  • Africa dos Meus Sonhos
  • Ágora
  • Alice Não Mora Mais Aqui
  • Amarcord
  • Amargo Pesadelo
  • Amigas com Dinheiro
  • Amor e outras drogas
  • Amores Possíveis
  • Ano Bissexto
  • Antes do Anoitecer
  • Antes que o Diabo Saiba que Voce está Morto
  • Apenas uma vez
  • Apocalipto
  • Arkansas
  • As Horas
  • As Idades de Lulu
  • As Invasões Bárbaras
  • Às Segundas ao Sol
  • Assassinato em Gosford Park
  • Ausência de Malícia
  • Australia
  • Avatar
  • Babel
  • Bastardos Inglórios
  • Battlestar Galactica
  • Bird Box
  • Biutiful
  • Bom Dia Vietnan
  • Boneco de Neve
  • Brasil Despedaçado
  • Budapeste
  • Butch Cassidy and the Sundance Kid
  • Caçada Final
  • Caçador de Recompensa
  • Cão de Briga
  • Carne Trêmula
  • Casablanca
  • Chamas da vingança
  • Chocolate
  • Circle
  • Cirkus Columbia
  • Close
  • Closer
  • Código 46
  • Coincidências do Amor
  • Coisas Belas e Sujas
  • Colateral
  • Com os Olhos Bem Fechados
  • Comer, Rezar, Amar
  • Como Enlouquecer Seu Chefe
  • Condessa de Sangue
  • Conduta de Risco
  • Contragolpe
  • Cópias De Volta À Vida
  • Coração Selvagem
  • Corre Lola Corre
  • Crash - no Limite
  • Crime de Amor
  • Dança com Lobos
  • Déjà Vu
  • Desert Flower
  • Destacamento Blood
  • Deus e o Diabo na Terra do Sol
  • Dia de Treinamento
  • Diamante 13
  • Diamante de Sangue
  • Diário de Motocicleta
  • Diário de uma Paixão
  • Disputa em Família
  • Dizem por Aí...
  • Django
  • Dois Papas
  • Dois Vendedores Numa Fria
  • Dr. Jivago
  • Duplicidade
  • Durante a Tormenta
  • Eduardo Mãos de Tesoura
  • Ele não está tão a fim de você
  • Em Nome do Jogo
  • Encontrando Forrester
  • Ensaio sobre a Cegueira
  • Entre Dois Amores
  • Entre o Céu e o Inferno
  • Escritores da Liberdade
  • Esperando um Milagre
  • Estrada para a Perdição
  • Excalibur
  • Fay Grim
  • Filhos da Liberdade
  • Flores de Aço
  • Flores do Outro Mundo
  • Fogo Contra Fogo
  • Fora de Rumo
  • Fuso Horário do Amor
  • Game of Thrones
  • Garota da Vitrine
  • Gata em Teto de Zinco Quente
  • Gigolo Americano
  • Goethe
  • Gran Torino
  • Guerra ao Terror
  • Guerrilha Sem Face
  • Hair
  • Hannah And Her Sisters
  • Henry's Crime
  • Hidden Life
  • História de Um Casamento
  • Horizonte Profundo
  • Hors de Prix (Amar não tem preço)
  • I Am Mother
  • Inferno na Torre
  • Invasores
  • Irmão Sol Irmã Lua
  • Jamón, Jamón
  • Janela Indiscreta
  • Jesus Cristo Superstar
  • Jogo Limpo
  • Jogos Patrióticos
  • Juno
  • King Kong
  • La Dolce Vitta
  • La Piel que Habito
  • Ladrões de Bicicleta
  • Land of the Blind
  • Las 13 Rosas
  • Latitude Zero
  • Lavanderia
  • Le Divorce (À Francesa)
  • Leningrado
  • Letra e Música
  • Lost Zweig
  • Lucy
  • Mar Adentro
  • Marco Zero
  • Marley e Eu
  • Maudie Sua Vida e Sua Arte
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  • Memórias de uma Gueixa
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